domingo, 30 de setembro de 2012

Está na hora de aprender português

A revista Monocle – A briefing on global affairs, business, culture & design, já distribuiu a sua edição 57 (Outubro de 2012) que é especialmente dedicada à Generation Lusophonia: why Portuguese is the new language of power and trade. São cerca de 250 páginas e, apesar de ainda não ter visto a revista, tive a oportunidade de consultar a respectiva website e ler os resumos de alguns dos seus artigos, mas também alguns comentários feitos por quem já a leu. Em vários desses artigos fala-se de Lisboa e Brasília, Maputo e Luanda, Macau e Rio de Janeiro. Mas também do Porto, do estuário do rio Sado e de Coruche, da família Amorim e da maior indústria corticeira do mundo, de Álvaro Siza Vieira e da arquitectura nacional, da Comporta e de um local que ainda está a salvo do cimento e, de forma especial, dos Açores. A Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) é o pano de fundo desta iniciativa editorial, que contempla outros temas como a língua portuguesa, o acordo ortográfico, a nova onda migratória, os novos negócios e as novas oportunidades. Steve Bloomfield, o editor de assuntos estrangeiros da Monocle justificou a escolha do tema referindo que “sentimos que o mundo lusófono é muitas vezes ignorado pelos outros e era altura de alguém reparar em países que estão a crescer economicamente e onde estão a acontecer coisas fantásticas”, concluindo que “está na hora do resto do mundo começar a aprender um pouco de português”. Num tempo de crise e de enfraquecida confiança é seguramente animadora esta leitura. Espero encontrar rapidamente a revista e recomendo que também o faça.

 

A arrogante teimosia do assessor Borges

O assessor Borges é completamente desprovido de tacto social e é um especialista em frases muito infelizes, absolutamente indesculpáveis a quem se julga uma figura de Estado. Ninguém votou nele. Não tem que ouvir apupos, nem enfrentar manifestantes. Não tem que gerir orçamentos apertados, nem tem que arranjar lugares para os amigos. Não se percebe exactamente qual o seu papel no meio de tudo isto. Exerce funções públicas, mas acumula com funções e interesses privados, o que significa que gosta da promiscuidade. Assume uns ares de arrogância e de superioridade académica intoleráveis, que nos agridem. Parece tratar-se do "ministro sombra" das privatizações, mas há a suspeita de que só não foi para o governo por não conseguir viver com o salário de ministro. No entanto, tem cobertura do nosso primeiro e até há quem diga que ele é que manda.
Há tempos foi noticiado que o assessor Borges teve em 2011 um salário de 225 mil euros e beneficiou do estatuto de isenção de IRS, enquanto funcionário do FMI, mas defende que é urgente a diminuição de salários… dos outros. Foi ele que apresentou o modelo de privatização da RTP que foi veementemente contestado, mas não apareceu ninguém a desautorizá-lo. Agora veio dizer que os empresários que criticaram a taxa social única são ignorantes e, naturalmente, caiu o carmo e a trindade.
Pessoalmente estou farto do Borges e da sua arrogância. Ele poderá ter brilhado em Stanford, ter andado pelos corredores da Goldman Sachs e até saber algumas coisas de economia, mas aqui é um poço de ignorância social, que desconhece o que é o trabalho, a dificuldade e o esforço. Nós não precisamos de gente desta – estou também a pensar no outro da CGD que ameaçou pirar-se – que são uns sacadores e não percebem a nossa realidade social, nem a nosso tecido empresarial. Emigrem por favor!

sábado, 29 de setembro de 2012

A França está a atravessar tempos difíceis

As dificuldades financeiras por que passam a Grécia, Irlanda, Portugal, Espanha e Itália, também afectam, em maior ou menor grau, os restantes países da zona Euro. Agora é a França que revela essas mesmas dificuldades e que anuncia “um esforço histórico de rigor orçamental”, como revela o Le Monde, numa tentativa para impedir que o país sofra ainda mais com a crise financeira europeia. O objectivo é diminuir o seu défice orçamental de 4,5% para 3%, inverter o ritmo de crescimento da sua dívida pública que já atingiu 91% do PIB, reduzir o desemprego que já ultrapassa os 3 milhões de pessoas e relançar a economia de forma a travar o actual ciclo de recessão. O plano prevê um ganho orçamental global de 36,9 mil milhões de euros por aumento de impostos e por reduções de despesa. Uma das medidas adoptadas é o aumento dos impostos para os mais ricos e para as grandes empresas, com o aumento para 75% da tributação sobre os rendimentos superiores a um milhão de euros e um novo imposto de 45% sobre os rendimentos superiores a 150 mil euros.
O presidente Hollande e o primeiro-ministro Ayrault querem inverter o ciclo recessivo, mas mostram-se atentos à realidade social francesa e não adoptam modelos experimentais. Colocam as pessoas em primeiro lugar e protegem as classes de menores rendimentos. Sabem que a perda de rendimentos e o próprio medo de perder os empregos, levam à redução do consumo e que, nessas condições, as empresas vendem menos, não fazem novos investimentos, são obrigadas a despedir pessoas e também não exportam mais, porque os habituais compradores também estão a passar por problemas muito parecidos.  
Como é diferente daquilo que se passa por aqui, em que se insiste em receitas que já provaram estar erradas e que fazem lembrar os tempos do "orgulhosamente sós".

Olivença é uma cidade que espera por nós

A Igreja de Santa Maria Madalena, em Olivença, foi eleita "O Melhor Recanto de Espanha 2012", num passatempo promovido na Internet pela petrolífera Repsol. Num país cujo património edificado é impressionante e que faz de cada povoação um verdadeiro “museu ao ar livre”, a escolha dos internautas não tem qualquer significado especial, apesar de, segundo informação divulgada pelo Turismo de Olivença, a igreja datar da primeira metade do século XVI e ser considerada uma jóia oliventina e do património manuelino português, pela sua riqueza em azulejos, talha dourada e motivos decorativos marítimos, que nos remetem para a época dos Descobrimentos portugueses. Foi mandada construir para servir como templo do local de residência dos bispos de Ceuta, tendo sido estreada por Frei Henrique de Coimbra, que foi confessor do rei D. Manuel e o primeiro padre que celebrou uma missa no Brasil.
Influenciado pela eleição da igreja da Madalena, o Jornal i anuncia em primeira página que em Olivença “as marcas de Portugal resistem ainda e sempre à ocupação” e insere um interessante artigo sobre Olivença/Olivenza, realçando as marcas portuguesas no património, na toponímia, na música e nas danças, na gastronomia e na cultura popular. Os oliventinos são o produto de uma mistura de duas culturas e, em maior ou menor grau, todos os oliventinos têm ascendência portuguesa - “um oliventino não é português nem espanhol, é oliventino”. O alcaide da cidade de 12 mil habitantes defende que “se um dia Portugal e Espanha se unirem, a capital será Olivença”. Com estas referências, certamente que muitos portugueses procurarão conhecer a cidade que foi anexada em 1801 e que Portugal não reconhece como espanhola.

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Açores: as eleições e as promessas

A difícil situação que atravessamos tem evidenciado uma grave irresponsabilidade de gestão em muitos sectores do Estado que, muitas vezes, tem servido objectivamente para assegurar a manutenção do poder ou para satisfazer interesses particulares em desfavor do interesse público. Esta situação tem sido denunciada como ausência de ética de serviço público, corrupção, promiscuidade entre interesses públicos e privados, peculato, violação de normas de execução orçamental, vantagem patrimonial, etc. Essa anomalia acontece com elevada impunidade a nível nacional, regional e local, tendo conduzido a uma distorção entre aquilo que os políticos prometem e aquilo que fazem, depois de serem eleitos. Foi sempre assim, mas parece que nos últimos anos essa distorção se acentuou, apesar dos eleitores estarem cada vez mais esclarecidos e mais atentos. Daí tem resultado uma maior desconfiança do povo em relação aos políticos e às suas promessas e, por isso, são cada vez mais classificados como mentirosos. Nos últimos meses o discurso político deteriorou-se, agravou-se e tornou-se mais caricato, porque se desmente agora, aquilo que tinha sido prometido há poucas semanas.
Na Região Autónoma dos Açores vão ser realizadas, no próximo dia 14 de Outubro, as eleições para a Assembleia Legislativa. A pré-campanha eleitoral já começou e, na difícil situação que atravessamos, esperava-se mais esclarecimento e grande contenção nas promessas. Porém, de entre os cartazes já afixados, destaca-se a habitual promessa de mais empregos e esta novidade: viagens mais baratas.
Ainda haverá alguém que em 2012 dê crédito a este tipo de promessas?

A Catalunha e a "quimera soberanista"

O separatismo catalão tem raízes históricas seculares e, de vez em quando, acorda e manifesta-se, como acontece agora em clima de recessão económica, quando o governo catalão se viu na necessidade de pedir ajuda ao governo espanhol para pagar aos funcionários públicos, aos fornecedores e o serviço da sua dívida de 42 mil milhões de euros. Na sua ânsia autonomista a Catalunha deslumbrou-se, foi longe demais e criou um super-Estado que acumulou dívidas e elevados custos de gestão mas, apesar de limitado pelas restrições do défice e da dívida, o governo de Madrid afirmou estar pronto a prestar essa ajuda. Porém, o governo catalão afirmou não aceitar quaisquer condições políticas e exigiu um pacto fiscal que nacionalize as receitas fiscais catalãs, o que objectivamente corresponde à rejeição da solidariedade com as outras regiões espanholas. A manifestação de 11 de Setembro, inicialmente de luta contra a crise, transformou-se num ajuste de contas com o governo central e num veemente apelo à independência catalã. Perante os factos ocorridos, o Rei João Carlos emitiu uma mensagem pacificadora dirigida aos partidos políticos e aos separatistas, mas a escalada prossegue. O governo de Mariano Rajoy afirma que reagirá com firmeza às intenções catalãs e recusa negociar qualquer pacto fiscal, enquanto os separatistas catalães invocam que dão a Madrid mais do que recebem. Ontem Artur Mas, o presidente do governo autónomo da Catalunha, deu mais um passo em frente ao decidir a dissolução do Parlamento e a convocação de eleições para o dia 25 de Novembro. O jornal ABC afirma que Mas “avança com eleições para alimentar a sua quimera soberanista” e cita o Rei que já afirmou que “seria cegueira não ver a gravidade desta etapa histórica”. Mais do que em Mariano Rajoy, as atenções vão estar centradas em Artur Mas e no Rei João Carlos. Os espanhóis receiam cada vez mais o fantasma da fragmentação do país e, aqui tão perto, não podemos estar desatentos ou não aprender com a evolução que está a acontecer.

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Os doutores-ministros que nos governam

Tanto quanto sei, o actual governo de 11 ministros tem dois doutores. São doutores-ministros que vieram de fora – um de Bruxelas e outro de Vancouver. Seguramente são competentes em Estatística, Econometria, Microeconomia, Finanças Públicas, Planeamento Económico e outras matérias curriculares. O seu percurso académico ou profissional será modelar, sem vírus do tipo relvas. Vieram com a sua sabedoria, para ajudar o país a sair da situação desregulada que se criou e acentuou, é bom salientá-lo, desde a nossa entrada na Comunidade Económica Europeia e do deslumbramento novo-riquista que o cavaquismo nos trouxe.
Porém, ao fim de 15 meses de actividade, nem os nossos dois doutores-ministros, nem os seus dez Secretários de Estado, conseguiram controlar as contas públicas nem o seu principal problema que é o excesso de despesa, nem melhorar a competitividade da economia, nem travar o desemprego, nem mobilizar novos investimentos. Limitaram-se a atacar quem trabalha. Erraram no diagnóstico. Erraram nas previsões. Os seus “modelos económicos” não resultaram e o panorama está a agravar-se com a brutal queda do consumo que arruína a receita fiscal, com a subida do desemprego que delapida a Segurança Social e com a ameaça de ruptura social. Esses doutores-ministros falharam. Ainda não perceberam a diferença entre o que está nos livros e a realidade da nossa economia, do nosso Estado e da nossa sociedade. Não estudaram na mais antiga escola de economia que existe em Portugal - o Instituto Superior de Economia e Gestão. Se lá tivessem estudado conheceriam a frase de Bento de Jesus Caraça que está afixada à entrada: “Se não receio o erro, é porque estou sempre disposto a emendá-lo”. Seriam mais humildes e emendariam os seus erros ou, então, regressavam imediatamente aos seus lugares de origem com um valente "chumbo por teimosia e incompetência".

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

As rivalidades sino-japonesas

No mar da China Oriental situa-se um pequeno arquipélago formado por oito ilhas desabitadas com uma área total inferior a 7 Km2, a que os japoneses chamam Senkaku e os chineses Diaoyu, que fica situado a sul do Japão, a 200 km a nordeste das costas de Taiwan e a 400 km a oeste da ilha de Okinawa. Por razões históricas, o pequeno arquipélago é reivindicado pelo Japão, pela China e por Taiwan.
Recentemente, três das oito ilhas do arquipélago que ainda não pertenciam ao governo japonês foram compradas aos seus proprietários privados e esse facto deu origem a uma série de violentos protestos chineses contra os seus vizinhos que, em alguns casos, tiveram contornos de uma invulgar onda nacionalista e anti-japonesa. A histórica rivalidade sino-japonesa acordou e a tensão entre as duas principais potências asiáticas acentuou-se. Há sérios riscos de provocações entre os navios chineses e japoneses que se têm aproximado das ilhas que, para além do seu valor estratégico e simbólico, parece possuírem importantes reservas de hidrocarbonetos. The Economist abordou este delicado tema e nem sequer omitiu a palavra "guerra".
Muitos cenários estão traçados, havendo alguns bem pouco pacíficos. Na hipótese da China concretizar a ameaça de ocupar as ilhas, os Estados Unidos encararão esse passo como uma ameaça à sua própria segurança, nos termos do Tratado de Cooperação Mútua e Garantias de Segurança assinado com o Japão. Por isso, estão a ser desenvolvidos esforços para normalizar a situação, porque é consensual que se está perante uma séria ameaça para a paz e para a prosperidade daquela região.
Essa visão não pode ser desvalorizada, até porque a história nos mostra que é em períodos de instabilidade económica que as ameaças à paz se desenvolvem. Além disso, há por esse mundo muitas outras ilhotas e penhascos que são potencial fonte de conflito, inclusivé aqui bem perto.


domingo, 23 de setembro de 2012

A Semana da Cultura Indo-Portuguesa

Entre os dias 11 e 14 de Outubro vai decorrer pela primeira vez em Portugal a Semana da Cultura Indo-Portuguesa, que é promovida pela Embaixada da Índia em Portugal e pela Casa de Goa, com o apoio da Câmara Municipal de Lisboa, Fundação Oriente, Fundação Champalimaud, Cinemateca Portuguesa e Comunidade Hindu de Portugal, entre outras entidades. Esta iniciativa incluirá diversas actividades culturais, designadamente música, dança, fotografia e gastronomia goesas, mas também algumas iniciativas empresariais, visando melhorar o conhecimento mútuo e assegurar o reforço da amizade entre as duas sociedades ligadas por quase cinco séculos de história comum, sobretudo entre as gerações mais jovens.
As Semanas da Cultura Indo-Portuguesa realizam-se em Goa desde 2008 com o patrocínio do Consulado-Geral de Portugal e de outras instituições portuguesas e têm dado um bom contributo para a preservação da herança cultural portuguesa e para a promoção da  cultura contemporânea portuguesa em Goa, pelo que a ideia de trazer essas iniciativas a Portugal é muito positiva. Decorreram mais de 50 anos desde a queda da Índia Portuguesa e embora a cultura e a língua portuguesas ainda estejam presentes em Goa, estão sob ameaça devido a um normal processo de desgaste e a um objectivo desinteresse dos governos portugueses. Alguns esforços têm sido feitos localmente, sobretudo nas áreas do ensino da língua portuguesa e da preservação do património arquitectónico, mas muito mais haveria a fazer. Por estas razões, a realização da Semana da Cultura Indo-Portuguesa é uma iniciativa para aplaudir e para acompanhar.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Javier Moro e um livro: "O Império És Tu"

Desde que em 2008 se celebraram duzentos anos sobre a data da chegada da Família Real portuguesa ao Brasil, quando esta abandonou Lisboa para evitar a sua captura pelas tropas napoleónicas, que nos dois países atlânticos surgiu uma expressiva literatura sobre esse tema. Porém, um dos livros de maior sucesso foi “El Império eres tu”, da autoria do escritor espanhol Javier Moro, que foi publicado em 2011 e ganhou o Prémio Planeta 2011, ao qual concorreram 484 obras. O livro foi traduzido para português e publicado no Brasil com o título “O Império é você” e, agora, foi publicado em Portugal com o título “O Império És Tu”.
Trata-se de um romance baseado em factos reais que relata “a fascinante saga do homem que mudou a história do Brasil”, que foi Imperador do Brasil aos 23 anos de idade e Rei de Portugal durante sete dias, deixando a sua marca na história de dois continentes. Dom Pedro de Bragança, o filho mais velho do Rei Dom João VI, era um homem dotado de grande inteligência, com uma personalidade excessiva e contraditória e, sentimentalmente, era um aventureiro que se dividia entre a virtuosa Leopoldina, sua mulher, e a ardente Domitila, sua amante.
O livro foi classificado como romance, mas apesar disso foi criticado por muitos historiadores por conter algumas imprecisões históricas. É sempre assim, quando um não historiador entra nos campos da História e chega ao grande público com sucesso, como acontece com Javier Moro e o “D. Pedro, o Rei-Imperador, O Império És Tu”, que é um grande livro e um sucesso literário que se recomenda.

A fúria fiscal gasparista está ao ataque!

O Jornal de Notícias destaca hoje na sua primeira página que o “Fisco ataca reformados de 500 euros” e que, através do IRS, transforma os mais pobres em contribuintes. Na sua fúria cega destinada a recolher receita, o fisco gasparista é particularmente violento para com as classes de menores rendimentos e para com a classe média, que “apanha cortes brutais”, inclusive pelas alterações à colecta proporcionadas pelas despesas de saúde, casa e educação. O jornal faz diversas simulações e os resultados não deixam dúvidas: maior carga fiscal, menor rendimento disponível e menor consumo, de que resulta mais recessão e mais desemprego. É o aprofundamento da crise ou, como se costuma dizer, cada vez mais do mesmo.
Esta situação está a provocar uma onde de protesto e de indignação que atravessa toda a sociedade portuguesa. Tem sido repetidamente afirmado, inclusive pelos actuais governantes quando se candidataram, que o equilíbrio das contas públicas haveria de ser feito sobretudo pelo lado da despesa, mas não tem havido coragem para enfrentar o problema por esse lado. Atacam-se os fracos e apoiam-se os fortes. E continuam a gastar à tripa forra, exibindo o seu despesismo nos gabinetes, nas comitivas, nas viagens e nos luxuosos automóveis que usam e que nós vemos na televisão. Dizem que essa despesa tem pouco peso na despesa global. É verdade, mas esse mau exemplo está a enfurecer o povo e aqueles a quem todos os dias pedem mais sacrifícios. É lamentável que eles se comportem assim e que estejam a destroçar o nosso país.

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

O desemprego é a chaga do nosso tempo

Não é costume que um jornal abdique do noticiário corrente, mais ou menos sensacionalista, para se concentrar num só tema. Assim fez ontem o London Evening Standard com a apresentação de uma desenvolvida reportagem sobre a “lost generation”, na qual verifica que em Londres, um em cada quatro jovens masculinos e um em cada cinco jovens femininos estão desempregados e que a procura de emprego excede dez vezes a oferta. Os jovens perdem a esperança, o entusiasmo e a energia por meses e anos de ociosidade involuntária e, quanto mais tempo permanecem fora do mundo do trabalho, mais difícil se torna encontrar um emprego. A marginalidade, a pobreza, a ruptura social e a revolta tornam-se uma ameaça. É um problema sério e é uma espiral de consequências imprevisíveis.
Porém, o problema não existe apenas em Londres, no Reino Unido e na Europa, onde as filas de desempregados continuam a aumentar. Em Portugal temos o mesmo problema, mas em maior escala, sendo igualmente graves e imprevisíveis as consequências económicas e sociais da situação. Entre 2000 e 2012 o desemprego passou de 3,9% para 15,5%, o que equivale a cerca de 827 mil trabalhadores no desemprego. Entre os jovens com menos de 25 anos, um dos segmentos mais afectados pela falta de emprego na União Europeia, o desemprego em Portugal encontra-se nos 36,4%, sendo o terceiro mais alto em todo o espaço comunitário. Por estas razões, é indispensável que os governantes pensem mais nas pessoas e adoptem políticas de apoio ao crescimento e ao emprego, não se limitando a ser bons alunos dos burocratas da troika, nem a mandar os nossos jovens para a emigração.


quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Por la unidad de España

O movimento autonómico catalão não arrefece, apesar dos estudos que vão aparecendo e que parecem mostrar que a independência da Catalunha se traduziria por um acentuado retrocesso económico e por um fiasco financeiro. O debate está lançado, mas acumulam-se as vozes que o consideram inoportuno. Por um lado, os efeitos desta discussão podem contagiar outras regiões autónomas espanholas e, por outro, a Espanha já atravessa demasiados e complexos problemas, não sendo desejável que entre numa espiral de instabilidade política.
Mariano Rajoy, o presidente do governo espanhol, já tomou posição inequívoca sobre o assunto: "Me he comprometido a hacer guardar la Constitución y las leyes". Porém, o Rei Juan Carlos também decidiu falar e tomou a iniciativa de fazer uma chamada de atenção à consciência da nação, através de uma mensagem real inédita que fez publicar na página web da Casa Real, recentemente criada. Segundo a imprensa espanhola, os destinatários da mensagem real seriam os governos autónomos independentistas, todos os partidos políticos e as forças sociais que podem encher as ruas com manifestações e greves gerais e, ainda, todos os que possam contribuir para um “otoño caliente”. No actual contexto político, a mensagem do Rei foi considerada determinante, não só porque pairam nuvens sombrias sobre o futuro da Europa e da Espanha, mas também porque está em causa “o bem-estar que tanto nos custou a alcançar”. Foi um real apelo à unidade, tendo a imprensa espanhola destacado alguns passos da mensagem real, como por exemplo os seguintes:
        - “O pior que podemos fazer é dividir forças, encorajar dissidências, perseguir quimeras, aprofundar feridas”.
        - “Só ultrapassaremos as dificuldades actuais actuando unidos, caminhando juntos, unindo as nossas vozes, remando no mesmo sentido”. 
        - Venceremos com o trabalho, o esforço, o mérito, a generosidade, o diálogo e o sacrifício dos interesses particulares face ao interesse geral”.

Não é preciso ser-se monárquico para apreciar este toque a reunir. Aqui no rectângulo não há toques deste tipo e parece que a embarcação está à deriva.

Portugal e Brasil: relações fortes

A cidade de Lisboa está engalanada com bandeiras e pendões que anunciam os espectáculos que, entre os dias 21 e 23 de Setembro, vão animar o Terreiro do Paço na abertura do "Ano do Brasil em Portugal", onde se inclui um concerto por Ney Matogrosso. Este evento enquadra-se no programa Ano de Portugal no Brasil – Brasil em Portugal, que foi acordado na X Cimeira luso-brasileira realizada em Lisboa no dia 19 de Maio de 2010, entre o primeiro-ministro português José Sócrates e o presidente brasileiro Luís Inácio Lula da Silva e que irá decorrer entre 7 de Setembro de 2012 (Dia da Independência do Brasil) e 10 de Junho de 2013 (Dia de Portugal). Trata-se de um vasto conjunto de iniciativas concebidas como oportunidades para actualizar as imagens recíprocas, através da promoção das culturas e da intensificação das relações económicas de ambos os países, celebrando as suas ligações históricas e culturais com um vasto programa que também terá uma componente económica, empresarial e tecnológica. Nos próximos dez meses, período em que serão promovidas actividades simultâneas em Portugal e no Brasil, os dois países pretendem mudar a imagem que cada um guarda do outro: Portugal quer que os brasileiros saibam que, para além da tradição, os portugueses vivem a modernidade, enquanto o Brasil quer que os portugueses conheçam a sua diversidade cultural. O programa anunciado para os próximos meses inclui muitas dezenas de iniciativas, incluindo eventos nas áreas da música, teatro, dança, circo, cinema, documentários, exposições, seminários, palestras, workshops, literatura, fotografia e gastronomia. Só temos que estar atentos ao que o Brasil nos vai oferecer aqui nos próximos meses.

É necessário reciclar os deputados

Num ambiente de crise política e económica inicia-se hoje o ano parlamentar e, portanto, é uma boa oportunidade para alguns comentários, como de resto faz hoje o jornal Negócios, ao informar que “metade dos deputados acumula funções com o privado”.
O problema não é novo e, já no ano passado, tinha sido afirmado que o Parlamento “tem sido o centro de corrupção em Portugal”, que era uma megacentral de negócios, que 1/3 dos deputados tinha negócios com o Estado e que "parece mais um verdadeiro escritório de representações, com membros da comissão de obras públicas que trabalham para construtores e da comissão de saúde que trabalham para laboratórios médicos”. Ninguém negou isto. Lamentavelmente, os deputados até parecem que estão ao serviço de quem os financiou e não de quem os elegeu. Como diz o povo, é uma pouca vergonha.

Um ano depois as coisas não se alteraram. O Parlamento mudou de gente e hoje vemos as bancadas com demasiados deputados-cassetes, sem experiência nem ideias próprias, arrogantes e impertinentes, mas que têm um bom emprego. De facto, a remuneração média dos representantes dos poderes legislativo e executivo passou de 5.605,5 euros em Outubro de 2011, para 5.686,6 euros em Abril deste ano, significando que deputados e governantes estão a receber mais 81 euros por mês do que recebiam em 2011. Em tempo de dificuldade e aperto, dá que pensar. E o povo não gosta.

Nas actuais condições de grande nervosismo por que passa a sociedade portuguesa é preciso fazer uma grande reviravolta no Parlamento e uma verdadeira reciclagem aos deputados.  É necessária uma redução do seu número para não mais de uma centena; o corte das muitas mordomias de que usufruem; a mudança do regime de incompatibilidades; a revisão do seu estatuto, a começar pela deputada-Presidente, que foi reformada aos 42 anos de idade sem se saber porquê e com uma pensão antecipada que é um fardo para os contribuintes. Tudo isto é indispensável para vencer a crise. E que gastem menos, e que tenham vergonha, e que não sejam motivo de chacota, e que mereçam o nosso respeito.

domingo, 16 de setembro de 2012

O povo unido jamais será vencido

Tal como aconteceu há 38 anos, na gigantesca manifestação que ontem se realizou em Lisboa e em mais três ou quatro dezenas de cidades portuguesas, a palavra de ordem mais ouvida foi “o povo unido jamais será vencido”.
Cidadãos de todos os estratos sociais e de todas as idades, juntaram-se aos milhares de forma pacífica e ordeira, desfilando sem distintivos partidários ou sindicais, em protesto contra a destruição dos tecidos económico e social que está a ser levada a efeito no nosso país. A indignação saíu à rua e muitos cartazes apenas reclamavam: “basta”.
Com os seus modelos e as suas receitas, a troika e os nossos governantes são cada vez mais o problema e cada vez menos a solução. A decisão e o anúncio de baixar a TSU para as empresas e de aumentar em 7% a parte suportada pelos trabalhadores foi demasiado chocante, revelou um profundo desprezo por quem trabalha e gerou a revolta. Foi a gota de água que fez transbordar o copo. Ninguém se recorda de uma medida governamental alguma vez ter gerado uma oposição tão unânime, da esquerda à direita, dos patrões aos sindicatos. Agora, como muito boa gente diz, ou o governo recua ou cai.
É caso para dizer “atenção aos próximos capítulos”.
O nosso problema é grave e exige sacrifícios, mas estes têm que ser bem repartidos e têm que ser explicados, sem arrogância nem teimosia. Portugal tem novecentos anos e tem valores cimentados ao longo de muitos séculos. O governo e a sua deslumbrada rapaziada saída das jotas e da mexeriquice partidária, esqueceu-se disso. Terão a legitimidade do voto popular, mas são uns ignorantes. Agora há que corrigir o mal feito e, uma das coisas a fazer imediatamente, é substituir a maioria do governo. Tirar de lá os incapazes. E os incompetentes. E os arrogantes. E os cegos. E os corruptos. Ainda há muita gente séria por aí.

sábado, 15 de setembro de 2012

Ninguém escapa à recessão europeia

Por vezes tende-se a esquecer que a grave crise financeira por que passa a Europa resulta de erros políticos e de comportamentos económicos irracionais que se acumularam durante muitos anos, que se aprofundaram com a recente crise do crédito hipotecário, com a desenfreada especulação, a falta de liquidez bancária e com a quebra de confiança geral no sistema financeiro. A falência do Lehman Brothers, o quarto maior banco comercial dos Estados Unidos, veio mostrar que a generalidade da actividade bancária era fraudulenta, que a crise já afectara a economia real e que o sistema financeiro europeu já estava contagiado.
Todos os governos europeus, mais à direita ou mais à esquerda, cometeram o mesmo tipo de erros e nenhum está imune à crise financeira internacional. Em maior ou menor grau todos os países da Europa foram afectados, atenuaram o seu crescimento ou entraram em recessão e foram obrigados, ou obrigaram-se, a adoptar políticas de austeridade.
Até o Luxemburgo, que é o país com maior rendimento per capita da União Europeia e que, considerando apenas esse indicador, é o país mais rico da União Europeia, está confrontado com a recessão. E é curioso analisar a informação dos Serviços de Estatística da União Europeia – o EUROSTAT – para o ano de 2011: o Gross Domestic Product per inhabitant ou, simplesmente, o produto per capita do Luxemburgo é de 68.900 euros, seguida pela Holanda com 32.900 euros, enquanto a média da zona EURO27 é de 25.200 euros. Nem a Noruega (47.500 euros) nem os Estados Unidos (37.100 euros) se aproximam do rendimento luxemburguês, mas apesar disso o país não escapa à recessão europeia como noticia Le Quotidien. O centro do mundo está mesmo a mudar.

Eles nem sequer dão o exemplo

Fui consultar o Orçamento do Estado para 2012 e verifiquei que foi fixado um défice de 7645 milhões de euros, equivalente a 4.5% do PIB. Entretanto, no final do 1º trimestre a execução orçamental tinha gerado um défice de 7.9%, que era maior do que aquele que se verificara em 2011, apesar das severas medidas de austeridade adoptadas. Depois, no final do 1º semestre, o défice situava-se em 6.9%. Soaram os alarmes. O "modelo" gaspariano não resultou. As receitas caíram brutalmente. Com arrogância e sem imaginação, o nosso primeiro e o gaspar voltaram-se para as mesmas soluções. Os sacrifícios voltam a ser exigidos aos mesmos. Não é de esperar que corra bem. A crise está a entrar numa dimensão de maior gravidade.
Entretanto, não são tomadas medidas do lado da despesa que sirvam de exemplo e que mobilizem os portugueses. Até parece que não há gorduras no Estado. Hoje o Correio da Manhã denuncia que é o próprio governo que ultrapassa o que pode gastar com os gabinetes ministeriais. Que não cumpre os limites orçamentais. E ficamos todos em estado de choque. Por isso, acabem com esses gabinetes sobredimensionados onde estão instalados os assessores e os chamados especialistas, sem experiência mas com chorudos salários, a quem não cortam subsídios. Tirem-lhes os nossos Audi’s e os nossos BMW’s que eles usam e façam-nos andar de autocarro. Vendam esses carros.  Cortem nas viagens e nas despesas deles. Cortem nas contínuas viagens do portas e do relvas. Cortem no gabinete do nosso primeiro. Cortem nos 16 milhões da Presidência da República. Cortem nos 87 milhões da Assembleia da República. Comecem por aí.

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

O sufoco de lá e o sufoco de cá

É costume dizer-se que Brasil e Portugal são países irmãos, separados pelo Atlântico. É verdade! Ambos nasceram de desobediências familiares graves, porque a independência portuguesa resultou da revolta de D. Afonso Henriques contra a sua Mãe, enquanto a independência brasileira saiu da revolta de D. Pedro de Bragança contra o seu Pai. São apenas curiosidades históricas, porque o que realmente liga Portugal e o Brasil são a língua portuguesa e algumas paixões comuns, como o futebol e a  gastronomia de excelência, para além de muitas personagens como o Caramuru, o Padre António Vieira, o Almirante Barroso ou o Chico Buarque, mas também muitas memórias comuns como foi a chegada de Cabral a Porto Seguro, a libertação da Baía ou a criação do Reino Unido de Portugal e Brasil. Porém, agora parece termos outras coisas em comum e a mais recente é o sufoco.
A edição de ontem do Jornal de Brasília destaca o sufoco (meteorológico) na cidade capital do Brasil, com 33 graus de temperatura, apenas 17% de humidade e 88 dias sem chuva. Apesar de se situar em zona tropical, trata-se realmente de um ambiente de sufoco!
Aqui, deste lado do Atlântico, também estamos a passar por um sufoco (político) provocado por um grupo de incompetentes que tomaram conta da loja, que erram e não emendam o erro, que insistem em receitas que não resultam, que são arrogantes e teimosos, que nem sequer ouvem os seus correligionários mais experientes. Está tudo a ficar farto deles. Trata-se realmente de um ambiente de sufoco. Que Deus nos livre dos sufocos! E desta sufocante cidade de Lisboa envio os meus solidários cumprimentos aos meus sufocados amigos de Brasília.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

O povo diz que o regime apodreceu

Em Cascais, na parede que corre ao longo do Passeio Maria Pia e liga a Avenida Dom Carlos I à Marina de Cascais, passando junto do Clube Naval e do Marégrafo, foi pintado um graffiti.
Esse graffiti  revela o sentimento de desagrado que começa a tomar conta dos portugueses e cujo texto compara a esperança de um certo passado e o desencanto do nosso presente. Diz o seguinte:

Otelo amigo o regime apodreceu! Derrubemo-lo!

O texto evoca um tempo passado. O tempo de Otelo e o simbolismo do 25 de Abril de 1974. Um tempo de boas memórias. De liberdade e de mobilização popular. De criatividade e de alegria. De esperança no futuro. De confiança.
Mas o texto também evoca um tempo presente. Compara o entusiasmo dos dias de 1974 com os dias angustiantes por que passamos em 2012 e reflecte a frustração, o desencanto, a indignação popular, a ameaça da pobreza e a perda de confiança que nos invade, apelando à mudança.
Para a geração que passou pelos dois tempos e a quem estão agora a roubar o que mensalmente pouparam ao longo de muitos anos, este graffiti é, sobretudo, um grito de angústia e um acto de protesto contra tudo o que nos está a acontecer.

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Exporte-se o gaspar. Já!

As medidas de redobrada austeridade e de empobrecimento que estão anunciadas caíram como uma bomba sobre os portugueses e, como refere o jornal i, geraram uma onda de choque e de pavor. Formou-se uma corrente de indignação geral, gerada pela incompetência, brutalidade fiscal e desorientação dos nossos governantes que, como agora verificamos, estão impreparados para nos dirigir, que se ausentam para o estrangeiro quando o navio começa a meter água e que puxam cada qual para o seu lado, sem discurso coerente ou substantivo, sem sensibilidade social e sem cultura democrática. A trapalhada é total e as medidas anunciadas configuram um brutal ataque aos trabalhadores e aos pensionistas. O país começa a ficar destroçado e ninguém consegue compreender o porquê de tantos sacrifícios. A situação está a complicar-se devido às erradas opções governamentais e, todos os dias, há ameaças a pairar no ar e são anunciadas mais medidas que estão a deixar os portugueses em pânico, até porque muitas delas são absolutamente incompreensíveis. Hoje o jornal electrónico Dinheiro Vivo revelou que o contabilista gaspar até nem foi honesto. É um teimoso e auto-convencido. Embora só precisasse de cortar 850 milhões de euros para cumprir as metas acordadas com a troika para 2013, decidiu impor aos portugueses um esforço de redução do défice da ordem dos 4,9 mil milhões de euros, um valor quase seis vezes superior à redução necessária que foi combinada com a troika. Apeteceu-lhe? Obrigaram-no? Tudo isto está a ser feito sem sabermos o que se passa nas negociações. Sem sabermos para onde vamos. Sem termos quem nos comande e nos mobilize. Sem termos quem nos dê bons exemplos. Provavelmente, a solução dos nossos problemas passa por exportar o gaspar e depressa, antes que ele afunde mais o nosso país e nos continue a roubar. A roubar.

Cataluña, nuevo estado de Europa

Ontem foi o Dia Nacional da Catalunha ou Diada, em que se evoca o dia em que, depois de 14 meses de cerco, a cidade de Barcelona se rendeu às tropas de Filipe V em 1714 e foi de facto integrada na Espanha. Depois de muitos anos de repressão às ideias autonómicas, com o fim do franquismo renasceu a celebração do nacionalismo catalão e as iniciativas nacionalistas têm-se sucedido regularmente. Ontem, Barcelona assistiu a uma grandiosa e pacífica manifestação independentista como nunca acontecera, que juntou um milhão e meio de pessoas de todas as idades e condições sociais. Eram três quilómetros de manifestantes, uma enorme maré humana que agitava milhares de bandeiras catalãs. Foi uma autêntica e, aparentemente irreversível, explosão do independentismo catalão, convocada pela Assemblea Nacional Catalana (ANC), um grupo independentista cujo lema é Cataluña, nuevo estado de Europa.
A Catalunha vive um tempo económico e financeiro muito difícil, com graves problemas de défice orçamental e de dívida pública, para além de mais de 700 mil desempregados. Assim, esta manifestação teve raízes de resistência à austeridade do Estado e ao centralismo espanhol, mas também foi sustentada por um nacionalismo que tem aumentado nos últimos anos. Como salientou o jornal catalão La Vanguardia, foi evidente que “el pueblo de Catalunya se está manifestando contra la asfixia financiera y la recentralización” e que o caminho para a independência está aberto. Por isso, os principais dirigentes catalães avisam os poderes centrais para que as reivindicações sejam ouvidas. E nestas circunstâncias, até a Monarquia espanhola pode ser questionada.


terça-feira, 11 de setembro de 2012

O incrível deputado lambe-botas

A intervenção do nosso primeiro provocou um tsunami geral de desagrado, que se agravou com entrada em cena do contabilista gaspar. Puseram o país em pânico. Roubaram-nos uma boa parte da esperança. Insistem no caminho errado. Teimosa e arrogantemente. O copo encheu e ameaça entornar-se porque quem semeia ventos, colhe tempestades. E já começou a chover. O mota, o crato e o gaspar já foram vaiados, mas há os que fogem às tempestades anunciadas e andam a monte a gastar o nosso dinheiro, como se andassem numa patriótica missão. É o caso do portas (Moçambique, Brasil e Venezuela), do relvas (Timor e Brasil) e do álvaro (Macau). Há também a cristas que levou a cabo a importante missão de presidir em Tróia à eleição das melhores praias portuguesas. E há os que estão escondidos como acontece com a madame cruz e o alguidar-branco. Estão todos desorientados!
O nosso primeiro parece estar só, igualmente desorientado, cercado pela troika e pelos seus lacaios em Portugal. O papel que foi ler à televisão é um disparate completo. A mensagem deixada nessa modernidade que é o Facebook, é uma infantilidade. Ele navega sem rumo. Caíu-lhe em cima o carmo e a trindade. Ninguém perdoou a incompetência do cachopo. Nem o Marcelo, nem o Mira Amaral, nem o Bagão Félix, nem o Freitas do Amaral, nem o Alexandre Relvas. Ninguém o poupou. Nem a JSD. Até houve quem chamasse estúpido ao rapaz.
No meio desta unanimidade geral, com mais de trinta mil comentários no Facebook, eis que alguém se levanta em defesa do nosso primeiro. Foi o amorim, aquele incrível deputado lambe-botas! Ele que já tinha defendido o relvas. Ele que já era a imagem televisiva da sabujice. Ele que até usa bandeirinha na lapela do casaco. No seu famoso Manifesto Anti-Dantas, dizia Almada Negreiros que “o Dantas cheira mal da boca”. Se comentasse as atitudes do amorim, Almada diria certamente que metem nojo, que ele é um nojo!

Eles comem tudo e não deixam nada

A ganância e a insensibilidade dos nossos governantes continuam a afrontar quem trabalha. Parece que voltamos ao tempo da escravatura e que apenas servimos para alimentar os devaneios contabilísticos desta gente. Até há pouco tempo usavam a banca, mas como a coisa correu mal, arranjaram outra forma de assaltar os nossos bolsos. Os borges e os gaspares – verdadeiros agentes da troyka – aconselharam o nosso primeiro, que anunciou a decisão antes ir cantarolar com o Paulo de Carvalho. Enquanto a TSU aumenta de 11 para 18%, outros deixam de pagar 23,5% de TSU e passam a pagar apenas 18%. É uma transferência directa dos salários de quem trabalha para os lucros e dividendos dos accionistas. É um 25 de Abril ao contrário ou, como disse Silva Lopes, é um “Robin Wood ao contrário”. É um roubo e, naturalmente, quem rouba são os larápios. Uma vergonha. Uma falcatrua.
Porém, a medida anunciada revela muita ignorância de economia, uma matéria em que eles devem ter equivalências como o relvas, mas pouca sabedoria. Éstá nos livros e é evidente, que a perda de rendimento disponível das famílias vai fazer baixar o consumo interno, o que significa mais quebra do produto nacional e mais recessão. As pessoas irão menos vezes ao Pingo Doce e ao Continente. Estes farão menos compras aos fornecedores e estes produzirão menos. Haverá mais desemprego, o que significa mais pobreza, mais tensão social, mais insegurança e mais instabilidade. O Correio da Manhã calcula que os grandes tubarões ganharão 100 milhões de euros, neles se encontrando a SONAE, o BCP, a Jerónimo Martins, a EDP e a Mota-Engil. Não foi nada disto que eles prometeram, nem têm mandato para isto. Andam à deriva e vão de mal a pior!

domingo, 9 de setembro de 2012

Asia’s next revolution

Os três gigantes asiáticos – China, Índia e Indonésia – têm impressionado o mundo com o seu dinamismo, o seu espectacular crescimento económico e a sua rápida passagem para um patamar de prosperidade, que começam a ser característicos da Ásia moderna. À medida que esses países progridem, está a surgir uma nova classe média que se torna mais exigente em padrões de consumo e em direitos sociais, pelo que aumentam as suas reivindicações por novas políticas públicas, incluindo pensões sociais, seguros de saúde, subsídios de desemprego e outros esquemas de protecção social.
Esses três países têm, conjuntamente, quase 3 mil milhões de habitantes, o que representa mais de 40% da população do planeta, mas são países com enormes disparidades regionais de rendimento dentro das suas fronteiras. A criação de Estados sociais ou Estados-providência já é uma reivindicação e os primeiros esquemas de protecção social já estão em curso, através de redes de segurança social básicas. Porém, esses países têm que resistir à tentação de ir demasiado depressa e têm que aprender com os erros dos países ocidentais, que foram longe demais. Neste momento, já há preocupantes sintomas da repetição desses erros porque a protecção social já está a agravar desigualdades, ao beneficiar os trabalhadores urbanos dos serviços e da indústria, em detrimento das zonas rurais mais pobres e mais carenciadas, onde predomina a economia informal, o analfabetismo, a doença e até a fome. A forma como cada país vai resolver este problema é uma incógnita mas, como bem avisa The Economist, estamos perante uma nova revolução asiática.

 

sábado, 8 de setembro de 2012

A corda já está demasiado esticada

Ontem o governo anunciou novas medidas de austeridade, alegadamente para cumprir os compromissos do défice e para estimular o emprego, tendo esse anúncio sido destacado por alguma imprensa estrangeira, como foi o caso do El País.
Começa a ser insuportável ouvir dizer hoje o contrário do que foi dito ontem. Dizem que é em nome da verdade e da transparência, mas eu digo que é um caso de arrogância, insensibilidade social e incompetência. No ano passado comprometeram-se a não aumentar impostos nem a cortar subsídios, mas enganaram-nos. Depois, erraram nas previsões da receita. E enganaram-se quando insistiam que a redução da despesa se fazia pelo corte das gorduras. Atacaram sempre aos mesmos, isto é, os trabalhadores e os pensionistas. Perdoaram os desmandos e as falcatruas da banca. Encaixaram-se. Tomaram conta de tudo e arranjaram empregos para os seus jovens militantes como assessores. Os outros que emigrem e... não sejam piegas. Os ricos estão mais ricos e os pobres cada vez mais pobres.
O governo decidiu agora aumentar a contribuição dos trabalhadores para a Segurança Social e reduzir a das empresas, o que representa a perda de um salário mensal para o sector privado. Os trabalhadores do sector público continuam na mesma, tal como os pensionistas. Significa que a politica de austeridade continua e que a falta de equidade se mantém, pois ataca-se o trabalho e não se apoquentam nem o capital, nem a riqueza. É uma verdadeira obsessão neo-liberal. É um vale tudo. Os sacrifícios são desigualmente repartidos. Os pensionistas são tratados como se fossem um fardo e não tivessem direitos. Os avisos que, por formas diversas, lhes chegam dos senadores da República não os comovem. E não há as tais medidas de redução da despesa pública que, pela voz de catroga, tanto animaram a conquista do poder. Parece que ontem, com o anúncio feito à socapa e antes do futebol, foram sacados 1.400 milhões de euros dos nossos bolsos. Para onde vai esse dinheiro? A corda já está demasiado esticada.

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Luxemburgo: “comme à la maison”

Hoje, no Luxemburgo, a selecção nacional de futebol inicia a fase de qualificação para o Mundial-2014, que será disputado no Brasil. A presença no Brasil afigura-se como um objectivo que ultrapassa o aspecto futebolístico e se coloca num patamar simbólico de prestígio nacional. É quase uma questão de Estado! Portanto, a fase de qualificação tem que ser encarada desde o início com objectividade, determinação e profissionalismo.
No jogo desta noite estarão frente a frente as equipas que actualmente ocupam o 4º e o 106º lugar no ranking da FIFA e, por isso, há uma elevadíssima dose de favoritismo para a equipa portuguesa, até porque nos seis jogos oficiais que as duas equipas já disputaram, aconteceu que Portugal ganhou cinco vezes e apenas perdeu uma.
O jogo vai ser, naturalmente, uma grande festa para a vasta comunidade portuguesa residente no Luxemburgo. É um momento de grande exaltação e de orgulho nacional para quem vive fora do seu país e tem que se adaptar às culturas dos países de acolhimento. Nas bancadas não faltarão dísticos, nem bandeiras, nem incentivos aos futebolistas portugueses e, como titula hoje o jornal luxemburguês Le Quotidien, eles jogarão “comme à la maison”. Só é necessário que joguem com ambição e deixem as suas pequenas vaidades fora do campo.

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Parece que vamos de mal a pior... ou não?

O relatório global do World Economic Forum, que acabou de ser divulgado, mostra que Portugal caiu quatro lugares na lista dos países mais competitivos em termos económicos, passando de 45.º em 2011 para 49.º em 2012. O mesmo relatório refere que a queda de competitividade portuguesa se deveu à crise da dívida soberana e à consequente deterioração do ambiente macroeconómico, não só de Portugal, mas em todas as economias do Sul da Europa. Embora estas listas ou rankings não tenham grande significado, não deixam de revelar situações bem curiosas. A primeira é que estamos a viver numa crise que é europeia ou mesmo global, mas não foi esse o diagnóstico dos assessores nogeira e catroga, antes de se encaixarem na Caixa e na EDP. A segunda é que já não bastava a dívida e o desemprego que aumentam, ou o défice que não desce, ou o investimento que está parado, ou a preocupante crise da banca e a atrofia do pequeno comércio, ou até esta melancolia que se apossou dos portugueses. Agora verificamos que até a competitividade piorou. Tudo isto é muito preocupante. A tarefa é muito difícil porque o mal já vem de muito longe, mas não foram eles a anunciar que não era necessário cortar subsídios e subir impostos, pois bastaria cortar gorduras? Afinal, embora falem de ajustamento, eles fazem um esmagamento e sufocam-nos. Não acertam. Parece que vamos de mal a pior... ou não? Por isso, recordo cada vez mais vezes o episódio do “velho do Restelo” do Canto IV d’Os Lusíadas:
Ó glória de mandar! ó vã cobiça / Desta vaidade a quem chamamos fama!
………………….
A que novos desastres determinas / De levar estes Reinos e esta gente?

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Médicos privados ou privados de médicos

Os graffiti são inscrições caligrafadas ou desenhos pintados em paredes que, por todo o mundo, se enquadram na paisagem urbana das grandes cidades. Antigamente constituíam contravenções às normas estabelecidas, mas actualmente são aceites e até são considerados como uma expressão de arte pública ou da novíssima street art.
Em Portugal os graffiti invadiram o espaço público a partir de 1974, constituindo um suporte para inscrições de carácter político, muitas das quais estão conservadas nas nossas memórias e ficaram registadas fotograficamente em algumas edições, incluindo algumas obras clássicas de História de Portugal.
Porém, nos últimos anos os graffiti têm degenerado e têm servido de expressão a grafiteiros e tribos urbanas que causam uma verdadeira poluição gráfica nas nossas cidades, não poupando sequer o património histórico-cultural. No entanto, alguns grupos militantes ainda utilizam o graffiti de conteúdo político que, para ser eficaz, costuma ter algum humor.
Numa discreta rua secundária de Sintra está um graffiti com a seguinte mensagem:
Os ricos com médicos privados
Os pobres privados de médicos
Numa altura em que o acesso aos cuidados de saúde está mais dificultado devido às restrições orçamentais em vigor, a mensagem é não só curiosa mas também prenunciadora de um novo e preocupante aperto social.

sábado, 1 de setembro de 2012

A catástrofe dos incêndios em Espanha


O mês de Agosto revelou-se catastrófico para a Espanha em termos ambientais devido aos incêndios florestais, que foram os mais graves que aconteceram na última década. O país confronta-se com a pior seca dos últimos setenta anos e, desde Janeiro, já arderam mais de 132 mil hectares de floresta e vegetação. A persistente seca, combinada com uma vaga de calor vinda de África e com a incúria dos homens, tem feito eclodir numerosos focos de incêndio e há centenas de bombeiros, ajudados por militares e civis, que lutam contra as chamas, sobretudo na Galiza, Catalunha, Alicante, Ilhas Canárias e Costa do Sol. Arderam ou estão a arder milhares de hectares, muitas zonas habitadas foram invadidas pelas chamas e já há alguns milhares de desalojados. A situação parece ter atingido maior gravidade na Costa do Sol e, especialmente, em Málaga, onde os especialistas afirmam que serão necessários cinquenta anos para superar os danos ecológicos que já aconteceram. Nos últimos dias, os jornais espanhóis parece terem ignorado a grave crise económica e financeira espanhola para se concentrarem no drama dos incêndios, especialmente os jornais da Andaluzia, que chamam o assunto às suas primeiras páginas e escrevem: “Arde o coração turístico de Espanha”, “O fogo cerca a Costa do Sol”, “As chamas devoram Málaga” ou, simplesmente, “Catástrofe”, como titula a edição de hoje do Málaga Hoy. Aqui, também temos as mesmas vulnerabilidades, pelo que há que evitar situações como a que se verificou no passado mês de Julho no Algarve, quando arderam cerca de 25 mil hectares de floresta e mato, ficando muitas dúvidas quanto à eficiência do combate.