sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Ilusões de Natal

O nosso primeiro Passos cumpriu o seu dever formal de se dirigir à nação no Natal. Cansado das minhas festividades natalícias, fiz um enorme esforço para não adormecer com aquela lenga-lenga auto-elogiosa que foi lida sem alma e com um optimismo que até parecia que estávamos noutro país. Parecia um discurso de campanha eleitoral, feito por um vendedor de ilusões. Esqueceu a injusta e imoral austeridade que nos impôs e que tem feito empobrecer a classe média e aumentado a fortuna dos mais ricos. Esqueceu a profunda desarticulação que impôs à nossa sociedade, que põe em risco a nossa coesão social. O homem que se deslumbrou com o poder, que quis cair nos braços da troika e que sempre disse que governaria com o FMI, mantém a sua estratégia de obedecer a tudo o que lá de fora lhe mandam fazer, embora agora queira fazer passar a ideia de que quer expulsar a troika e recuperar a soberania nacional porque, com a sua acção, o país foi salvo do colapso.
Disse ele que “a nossa economia começou a dar a volta”, que “começamos a vergar a dívida externa e pública”, que “a economia começou a crescer e acima do ritmo da Europa” e que “em termos líquidos, até ao terceiro trimestre foram criados 120 mil novos postos de trabalho”. É preciso ter muita imaginação e pouco pudor para se dizer isto numa mensagem de Natal, que deveria ser de verdade e de esperança. É uma mera convicção sem fundamento.
A mensagem do nosso primeiro quis mostrar erudição e foi buscar inspiração a algumas frases feitas, que ele certamente aprecia. Disse ele, inspirando-se em George W. Bush, que “na recuperação do nosso país, ninguém pode ficar para trás”. Depois, a finalizar a sua mensagem fez um mix entre Napoleão Bonaparte e Barack Obama, dizendo: “Como um povo orgulhoso, dono do seu próprio destino, que não receia o futuro e que sabe que, do alto de quase 900 anos de história, os seus melhores anos ainda estão para vir”.
Foi, concerteza, uma mensagem a pensar nas eleições que hão-de vir. Merecíamos melhor.

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