quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

"Le Petit Prince" comemora 70 anos

La Voix du Nord, um jornal da cidade de Lille, evocou a passagem do 70º aniversário da 1ª edição francesa do Le Petit Prince de Antoine de Saint-Exupéry, traduzido em Portugal como O Principezinho. Hoje é o livro mais lido no mundo depois da Biblia, estando traduzido em 270 línguas ou dialectos e publicadas 1300 edições e 145 milhões de exemplares vendidos !
Em França, todos os anos são publicados entre 150 e 200 mil exemplares do livro e, desde a sua 1ª edição publicada 1946, já terão sido publicadas 12 milhões de cópias.
Porém, Le Petit Prince foi publicado pela primeira vez nos Estados Unidos, na sequência de um pedido que os editores americanos Reynal & Hitchcock fizeram a Saint-Exupéry : um conto para o Natal de 1942. A encomenda atrasou-se e o livro que se tornou tão famoso só veio a ser publicado em 1943.
Antoine de Saint-Exupéry nasceu em Lyon em 1900, estudou em França e na Suiça e em 1922 obteve o brevet de piloto civil em Rabat, onde prestava serviço militar. Em 1926 tornou-se piloto de linha aérea, voando entre Toulouse, Casablanca e Dacar.  Viveu depois na Argentina e, em 1940, após a ocupação alemã da França, dirigiu-se a Lisboa e seguiu para os Estrados Unidos mas 27 meses depois regressou à Europa para se juntar às Forças Francesas Livres do general De Gaulle e integrar um esquadrão aéreo no Mediterrâneo. Tinha 43 anos de idade e pilotava um P-38 Lightning. No dia 31 de Julho de 1944 largou de uma base aérea da Córsega para uma missão de reconhecimento no vale do Ródano, mas não regressou por ter sido abatido no mar, perto de Marselha.  O seu livro e  o seu apego à causa da liberdade são um exemplo que todo o mundo gosta de evocar através do narrador da obra que é “um piloto com um avião avariado no deserto do Sahara que tenta, desesperadamente, reparar os danos causados no seu aparelho. Um belo dia os seus esforços são interrompidos devido à aparição de um pequeno príncipe, que lhe pede que desenhe uma ovelha...”.

Nazaré: ondas gigantes e ondas de prata

O promontório da Nazaré, sobre o qual se ergue o forte de São Miguel Arcanjo cuja origem remonta a finais do século XVI, é um dos mais interessantes miradouros naturais da costa portuguesa. Ele separa duas áreas oceanográficas bem distintas: a Praia do Norte e a praia da Nazaré.
Para norte, na Praia do Norte, há as ondas gigantes formadas no Canhão da Nazaré, um desfiladeiro submarino profundo que contrasta com a plataforma continental adjacente, que nos últimos anos se tornaram um ponto de encontro obrigatório para os surfistas das ondas gigantes de todo o mundo. Essas ondas tornaram-se a imagem de marca da Nazaré.
Para sul, na Praia da Nazaré, há uma extensa baía ao longo da qual se estende a vila da Nazaré, orlada por um areal onde as ondas se desfazem com um ímpeto bem diferente do que se passa do outro lado do promontório. Visto do alto do Sítio da Nazaré, o mar azul rebenta sobre o areal e oferece um espectáculo de cor argêntea, a justificar o nome de “costa de prata” que certos locais da costa adoptam para fins promocionais.
Se as ondas gigantes são a nova imagem de marca da Nazaré, nem por isso as bem mais suaves ondas de prata da Praia da Nazaré perderam o seu fascínio, como a fotografia documenta.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Os maus efeitos das mudanças climáticas

Nos últimos dias o mundo tem sido confrontado com algumas catástrofes de origem meteorológica, que no continente norte-americano se têm traduzido por violentas tempestades, gigantescas inundações e destruidores tornados, sobretudo no Texas, mas também por cheias devastadoras na América do Sul. As imagens televisivas que nos têm chegado são esclarecedoras da destruição provocada por este tipo de fenómenos, mostrando os efeitos catastróficos por eles provocados.
Mais perto de nós, também se têm verificado inundações “sem precedentes” no norte da Inglaterra, sobretudo nas regiões de Leeds, Manchester e York. Centenas de pessoas tiveram que ser evacuadas das suas casas, as ruas das cidades foram invadidas pelas águas, submergindo viaturas e inundando casas, enquanto o abastecimento de electricidade foi afectado em muitas regiões. Hoje, todos os jornais ingleses destacam este assunto com elucidativas imagens, mas o jornal i salienta-se pelo seu título: as cheias transformaram as ruas urbanas em canais.
Estes fenómenos resultam das mudanças climáticas que vêm ocorrendo e que constituem a maior ameaça do século XXI para toda a Humanidade, com graves consequências para a vida humana, mas também para os recursos e as actividades em que se tem baseado o progresso.

Luso-descendentes asiáticos organizam-se

O jornal hojemacau destaca hoje como principal notícia de capa que os luso-descendentes asiáticos criticam a CPLP e que se sentem “humilhados e esquecidos”, pelo que estão a organizar-se em bloco, como resposta ao que consideram ser o esquecimento daquela organização dos países de língua portuguesa, que apenas se interessa pelas “nações ricas”. Essa resposta nascerá de um encontro a ter lugar em Malaca, onde reside uma das maiores comunidades de descendentes de portugueses, por altura da festa do São Pedro, que se realiza entre 23 e 29 de Junho do próximo ano. Segundo revelaram os seus organizadores, esse encontro terá representantes da Malásia (Malaca), Índia (Goa, Damão e Diu), Sri Lanka, Singapura, China (Macau), Tailândia (Banguecoque), Austrália (Perth), Indonésia (Jacarta, Ambon e Flores), Timor-Leste e Myanmar, embora haja muitos outros lugares onde existem comunidades luso-descendentes. Muitas destas comunidades sobreviveram a séculos de isolamento, mas têm sido “redescobertas” nos tempos mais recentes devido ao interesse de académicos e de alguns (poucos) diplomatas, à facilidade de viajar e de comunicar, ao turismo e à internet.
A organização do encontro que é dinamizada por Joseph Sta Maria, um cidadão de Malaca, reconheceu que as comunidades euro-asiáticas são minorias sem força política, mas são grupos que “mantém a cultura portuguesa há cinco séculos” e que,. em muitos casos, ainda comunicam em português, utilizando um crioulo malaio-português.
Não sei o que poderá fazer a CPLP para ajudar esta organização, mas certamente que o governo português poderá dinamizar este evento por diferentes formas quer simbólicas quer concretas,, através da Secretaria de Estado das Comunidades. A aspiração daquelas comunidades é muito legítima e a remuneração anual de um só gestor do Banif dava para fazer muito...

sábado, 26 de dezembro de 2015

A acalmia na fronteira indo-paquistanesa

Ontem, o avião em que viajava o primeiro-ministro indiano Narendra Modi fez uma escala técnica no aeroporto paquistanês de Lahore, aparentemente porque Modi manifestara o desejo de se encontrar com Nawaz Sharif, o seu homólogo paquistanês. Talvez fossem velhos amigos que se tivessem conhecido em Londres como estudantes... E este, de facto, esperava-o no aeroporto. Depois, durante duas horas ambos conviveram cordialmente na residência de Sarif que nesse dia festejava o seu aniversário. Terão falado de paz e de cooperação. Não terão falado de mísseis, nem de armamento nuclear. Depois de mais de dez anos de relações cortadas e por vezes de muita tensão, os dois países reencontraram-se desta forma quase inesperada ou, pelo menos, realizada à margem da diplomacia tradicional.
Esses países nasceram em 1947 e resultaram da independência e partição da Índia Britânica. Sob a direcção de Jawaharlal Nehru e do seu Partido do Congresso, a Índia tornou-se um país secular com uma população maioritariamente hindu, enquanto o Paquistão dirigido por Mohammed Jinnah e a sua Liga Muçulmana estabeleceram uma república islâmica de população maioritariamenre muçulmana. As relações entre ambos têm sido sempre muito conflituosas e já deram origem a três guerras, uma guerra não declarada e muitos conflitos fronteiriços, resultantes da disputa pela Caxemira. Aquela que é considerada a mais perigosa fronteira do mundo perde, por agora, esse título pouco honroso.
É uma boa notícia, porque não nos dá nenhuma segurança saber que estes dois países, que dispõem de armamento nuclear, mantenham tão elevados níveis de hostilidade e de desconfiança. Por isso, a edição de hoje do International New York Times destaca esse encontro com fotografia na sua capa e, realmente, não é caso para menos.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

A pouca-vergonha que teremos de pagar

O caso do Banif ainda vai fazer correr muita tinta, mas é mais uma evidente prova de que as coisas não têm corrido bem em Portugal e que não tivemos uma “saída limpa” como tantas vezes foi anunciado, antes tivemos uma saída bem suja como demonstra este caso do Banif e, também, o que aconteceu no Hospital de S. José por se ter querido poupar nos médicos.
Recentemente, o Tribunal de Contas fez um levantamento dos apoios estatais concedidos ao sector financeiro e concluiu que "entre 2008 e 2014 foram concedidos apoios públicos ao sector financeiro cujos fluxos líquidos atingiram no final do período 11.822 milhões de euros negativos". É demais!
Agora foi o Banif. Não se aprendeu a lição. Antes foi o BPN, o BPP e o BES, verdadeiros rostos de um sistema bancário incompetente, especulador, fraudulento e desonesto. Por diferentes razões, nuns casos criminosas, noutros de incompetência danosa. Muitos dos responsáveis destas calamidades passam incólumes entre os pingos da chuva. Alguns são mesmo reaproveitados para outras situações e pavoneiam-se na praça dos interesses partidários ou económicos. É gente que continua a considerar-se iluminada e que é tratado como grandes gestores que são pagos a preço de ouro, apesar da sua falta de escrúpulos e de ética empresarial. Muitos outros vieram encartados pela política partidária para servirem, promiscuamente, interesses estranhos à actividade para que foram contratados. Todos se especializaram em capitalistas de passivos.
É triste e degradante o comportamento miserável desta gente que tomou conta da nossa superestrutura e dos interesses de Portugal, um país em que 20% da população é pobre ou está em risco de pobreza severa, o desemprego atinge valores muito elevados, o salário mínimo é baixíssimo, a emigração continua, a território se desertifica, as grandes empresas públicas são vendidas. O povo português não merece isto!

A escolha das Misses é um assunto sério

O assunto não tem relevância nenhuma mas, sem dúvida, que tem piada, mesmo muita piada, pelo que o trazemos até à nossa Rua dos Navegantes. No passado fim de semana, na gala de eleição da Miss Universo realizada em Los Angeles, aconteceu o insólito. Nesse concurso de beleza, que é um dos mais importantes que se realizam no mundo, tinham-se apresentado inicialmente oitenta candidatas, mas no final do concurso ficaram apuradas três finalistas, que representavam a Colômbia, os Estados Unidos e as Filipinas. O suspense era total quando o apresentador Steve Harvey anunciou o resultado final e leu o nome da mulher que durante um ano será a representante da beleza mundial. Era a Miss Colômbia! A beldade recebeu a coroa, ramos de flores, muitos abraços e beijos sem fim, durante cerca de três minutos. Ela era a mulher mais bonita do Universo e era o orgulho da Colômbia. Porém, o apresentador interrompeu a cerimónia e, perante a entusiasmada assistência, disse que tinha que pedir desculpas porque se tinha enganado, informando que “em segundo lugar ficou a Miss Colômbia” e que afinal a vencedora era a Miss Filipinas. Foi uma grande bronca. O erro deu origem a uma grande controvérsia e a Colômbia pareceu ficar ferida no seu orgulho nacional. Até o seu presidente Juan Manuel Santos veio afirmar que Ariadna Gutiérrez “será sempre a nossa Miss Universo" e que está "muito orgulhoso". Ao mesmo tempo Pía Alonzo Wurtzbach, a Miss Filipinas, começou a ser acusada de manter uma relação amorosa com Benigno Aquino, o presidente filipino, o que não acrescenta nem retira nada ao que aconteceu. Quem diria que esta coisa das misses tinha tanta importância nacional…
O facto é que El Universal, o diario de Cartagena, lhe dedicou muito espaço e explicou tudo para estimular o orgulho nacional colombiano perante esta enorme injustiça..

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Um incêndio destruiu museu em S. Paulo

As televisões mostraram e toda a imprensa brasileira noticiou o incêndio de enormes proporções que ontem à tarde deflagrou na cidade de São Paulo, num edifício construído em 1901 e que, depois de reconvertido, abrigava o Museu da Língua Portuguesa e integrava no seu espaço a Estação da Luz, uma das mais movimentadas estações ferroviárias da cidade. O jornal Folha de S. Paulo publica hoje na sua edição uma expressiva fotografia do incêndio.
O edifício foi renovado e adaptado para acolher o museu pelo arquitecto Paulo Mendes da Rocha, o mesmo que assina o recém-inaugurado Museu dos Coches, em Lisboa. O museu foi inaugurado em 2006 pelo Presidente Lula da Silva, o músico e ministro da Cultura brasileiro Gilberto Gil e a ministra da Cultura portuguesa Isabel Pires de Lima e apresenta um vasto conteúdo sobre a história da língua portuguesa, as suas variações e a exploração da língua na literatura brasileira, entre outros temas. Em 2014, foi o quinto museu mais visitado de São Paulo, com mais de 386 mil visitantes e, em nove anos de existência, apresentou exposições sobre Machado de Assis, Fernando Pessoa, Clarice Lispector, Jorge Amado e Agustina Bessa-Luís, entre outros. A perda causada pelo incêndio é sobretudo arquitectónica, já que o acervo do museu é virtual e se encontra totalmente digitalizado, mas o governador do Estado de São Paulo, Geraldo Alckmin, visitou imediatamente o local e prometeu reconstruir o museu. Apesar disso, é uma grande perda para a cultura luso-brasileira e é desejável que a promessa do governador Alckmin não fique esquecida nestes tempos de crise por que passa o Brasil.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

A irresponsabilidade no caso do Banif

Todos nos lembramos de um tempo não muito distante em que a arrogância da banca se impunha sobre a sociedade portuguesa, com o anúncio de milhões de euros de resultados e a atribuição de gigantescos prémios de gestão. Muitos pensavam que era um desvario e uma quase loucura o que se passava com a banca portuguesa que, na sua gananciosa actividade, estimulava os portugueses a endividarem-se para comprar casa, comprar carro, comprar férias, comprar tudo. Era um mar de facilidades para os clientes e, viu-se depois, também um mar de facilidades para os gestores. Aconteceu o escândalo do BPN e esperava-se que a lição tivesse sido aprendida. Não foi. Veio o caso BPP. E o caso BES. Agora vem o Banif. É só mais um caso na banca portuguesa. E é mais uma vergonha, com um custo para os contribuintes que pode chegar a três mil milhões de euros.
Há dois anos o governador do Banco de Portugal tinha dito que o Estado recuperaria com lucro os 1100 milhões de euros que injectara no Banif. Passos Coelho confirmou e até disse que era um bom negócio, pois esse dinheiro ia render juros ao Estado. Depois, instada no Parlamento, a ministra Albuquerque assegurou que tudo tinha sido bem estudado. Agora, a Comissão Europeia veio recordar que desde há muito tempo manifestava preocupações relativamente à viabilidade do Banif. Então, todos sabiam, mas Passos Coelho, Paulo Portas, Maria Luís Albuquerque e todo o anterior governo, mas também Carlos Costa e essa desonesta trupe de incompetentes que se passeia pelo Banco de Portugal, não actuaram e são os responsáveis directos pelo que aconteceu. Por desleixo, por incompetência ou por opção política deixaram arrastar a situação e a intervenção no Banif,  que deveria ter sido feita em 2013, não se fez. Foi essa a “saída limpa” de que tanto se orgulharam! Entretanto Cavaco, que tanto sabe de bancos, está calado, o que até nem admira. Tudo isto é uma irresponsabilidade. Uma vergonha!

Agora é a Espanha que procura uma saída

Tal qual acontecera em Portugal, a Direita que governou a Espanha e que aplicou duras políticas de austeridade à sociedade espanhola, também foi afastada do poder. Nas eleições legislativas ontem realizadas, o PP obteve uma maioria de 28% contra 22% do PSOE, um resultado muito semelhante ao que acontecera em Portugal em Outubro passado quando as forças políticas homólogas portuguesas tiveram 38% e 32%, isto é, os mesmos 6% de diferença. Assim, o PP perdeu a sua maioria absoluta e a hipótese de governar sozinho. Dessa forma, a política espanhola “abre espacio a los pactos” como hoje salienta El País e, tal como cá, também aquela fantasia do “arco da governação” acabou. A política espanhola tem agora que contar com o Podemos (20%), com os Ciudadanos (14%) e com cerca três dezenas de deputados que representam partidos e forças políticas regionais. Aparentemente, será mais difícil encontrar uma solução governativa, embora sejam tantas as combinações possíveis que certamente não haverá necessidade de marcar novas eleições. Ontem, uma das curiosidades esteve nas declarações prestadas pelos líderes partidários, pois todos estiveram de acordo: o PP de Mariano Rajoy deve procurar uma solução governativa, mas ninguém excluiu outras soluções, incluindo a “solução portuguesa” que por cá fez muita gente perder o bom senso e as boas maneiras, a começar nessa figura sem expressão eleitoral que é o troca tintas do Portas e os seus acéfalos seguidores.

domingo, 20 de dezembro de 2015

E não se pode exterminá-los?

Num relatório publicado esta semana e que foi analisado pelo jornal Público, os responsáveis do FMI olharam para a forma como foram desenhados e implementados os programas aplicados durante o período de 2008 a 2015 e verificaram os resultados obtidos, assumindo que teria sido melhor fazer logo à partida uma reestruturação das dívidas públicas demasiado elevadas, como é o caso da portuguesa. De entre os programas analisados está o programa da troika aplicado em Portugal entre 2011 e 2014, no qual o FMI desempenhou um papel fundamental, tanto em termos de financiamento, como de definição das políticas a seguir. E a conclusão é óbvia: o FMI, a troika e aqueles que lhes deram total apoio falharam. Essas falhas resultaram de um brutal irrealismo em relação às realidades económicas e sociais, de uma expectativa demasiado elevada em relação ao efeito das reformas estruturais que foram incapazes de executar, de uma consolidação orçamental demasiado rápida e de um enorme erro no que respeita ao tratamento da resolução da dívida pública. Lamentavelmente, nada acontece aos responsáveis por este trabalhinho, nem a quem tão fanática e acaloradamente os apoiou, embora estes tenham sido postos fora do governo. É bom recordar que em Março de 2014, alguns meses antes do fim do “programa de ajustamento” e da treta da “saída limpa”, um grupo de setenta personalidades de diferentes quadrantes políticos subscreveu um manifesto em que defendeu a chamada “reestruturação responsável da dívida”, como condição para acabar com a política da austeridade pela austeridade, sem a qual não será possível o crescimento e o emprego. Nesse manifesto era feito um apelo para que o nosso país encetasse esforços junto dos seus parceiros europeus para preparar uma reestruturação da dívida pública, que há pouco tempo estava em 229.074 milhões de euros e que em 2014 terá consumido 7,239 mil milhões de euros só em pagamento de juros. O fanatismo neo-liberal não lhes deu ouvidos e, agora, apesar do mea culpa do FMI, os responsáveis por esses desvarios andam por aí a falar, provavelmente sem perceberem o mal que nos fizeram .

Goa e a sua enorme paixão pelo futebol

Até meados dos anos oitenta, o mais antigo jornal de Goa era O Heraldo, que se publicava em português desde 1900, mas que por razões comerciais decidiu adoptar o inglês e suprimir a letra O do início e do fim do seu nome, ficando simplesmente oHeraldo, o que deixa uma certa margem recordatória de outros tempos.
Há vários jornais diários em Goa, uns em inglês, outros em marata e outros em concanim, cada qual com os seus públicos específicos, mas o oHeraldo é o jornal dos católicos e da cada vez mais reduzida memória portuguesa. A edição de hoje do oHeraldo dedica a sua primeira página à final da Indian Super League entre as equipas do FC Goa e do Chennaiyin FC, que hoje se disputa às 18 horas e 50 minutos na cidade de Margão, no Jawarharlal Nehru Stadium, mais conhecido como Fatorda. O pequeno Estado de Goa com pouco mais de um milhão de habitantes “defronta” o Estado de Tamil Nandu com setenta milhões de habitantes e a sua poderosa capital Chennai, a antiga cidade de Madrasta dos ingleses. Será David contra Golias, porque o poder do dinheiro também já domina o futebol indiano.
É uma prática corrente na Índia que a primeira página dos jornais seja ocupada por um anúncio publicitário, mas não é costume que esse anúncio trate do futebol, até porque o futebol ainda não tem a popularidade nacional do cricket. O Estado de Goa é a excepção. O futebol domina a paixão e o interesse desportivo dos goeses e essa é, certamente, uma herança cultural portuguesa dos tempos do Sporting de Goa, do Benfica de Mapuça e dos relatos dominicais da Emissora Nacional.
Hoje na equipa do FC Goa treinada pelo brasileiro Zico, jogarão alguns cidadãos indianos de origem goesa cujos nomes nos recordam um passado recente de convívio cultural entre Goa e Portugal, como Joaquim Abranches, Luís Xavier Barreto, Romeu Fernandes, Nicolau Colaço, Keenan Almeida ou Victorino Fernandes. Se a equipa de Goa hoje ganhar, os goeses e os seus milhares de familiares e amigos que vieram de todo o mundo para passar o Natal em Goa, vão fazer uma grande festa e a circulação automóvel nos 35 quilómetros da Edapally-Panvel Hwy entre Margão e Pangim vai estar pouco recomendável.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Economia do mar gera euforia em Macau

No próximo dia 20 de Dezembro, a Região Administrativa Especial de Macau da República Popular da China (RAEM) vai passar a administrar uma área marítima com 85 quilómetros quadrados.
No início do século XX o território de Macau tinha apenas 11,6 km2 de superfície distribuídos pela península de Macau e pelas ilhas da Taipa e Coloane, mas em meados do século começaram a ser feitos aterros, designadamente entre aquelas ilhas, daí resultando que a actual a RAEM tenha actualmente uma superfície de cerca de 29,5 km2. Com a decisão agora tomada pelo governo de Pequim abre-se a possibilidade de uma parte das novas zonas marítimas poderem vir a ser utilizadas para a construção de aterros, mas também para servir como instrumento de diversificação económica. Segundo revela a edição de hoje do jornal Hoje Macau, o anúncio do alargamento das águas territoriais macaenses provocou uma “onda de euforia”, perante a possibilidade da criação de novas áreas de negócio relacionadas com a economia do mar e de desenvolvimento do turismo náutico, o que significará mais emprego e mais riqueza. O jornal chamou mare nostrum ao alargamento das águas territoriais de Macau. De acordo com as autoridades marítimas, a RAEM dispõe de leis, regulamentos e experiência no âmbito da gestão marítima, designadamente na fiscalização e controlo de embarcações, portos e marinas, nas actividades da pesca e do turismo, bem como noutras actividades marítimias. Assim, a euforia macaense parece justificar-se pelas perspectivas oferecidas pela economia do mar.

Mourinho, a sabedoria e a conta bancária

Ontem foi largamente noticiado que Roman Arkadyevich Abramovich, o dono do Chelsea Football Club que é um dos mais populares clubes do futebol londrino, tinha despedido o português José Mourinho, o treinador da sua equipa de futebol.
Naturalmente que se trata de um acontecimento relevante e por isso é uma notícia, embora eu tivesse ficado surpreendido com a sua inesperada dimensão, isto é, Mourinho é apenas um treinador de futebol e, ao contrário de tantos outras personalidades, a sua acção pouco tem acrescentado para o progresso da Humanidade ou para a paz no mundo.
A primeira coisa que chama a atenção é o facto de se tratar de uma notícia quase universal, pois são inúmeros os jornais que, um pouco por todo o planeta, colocam a fotografia de Mourinho na sua primeira página. No caso da Inglaterra, da Espanha e de Portugal, a notícia do despedimento de Mourinho é ilustrada com uma fotografia e é mesmo a principal notícia em muitos jornais. O diário londrino The Guardian é apenas um deles.
Outro aspecto interessante do despedimento do treinador português é saber-se se foi por mútuo acordo ou se foi um despedimento litigioso. Segundo foi divulgado, tratou-se do fim do contrato por mútuo acordo e Mourinho vai ser indemnizado. Porém, enquanto alguns jornais ingleses referem que Mourinho vai receber uma indemnização de 10 milhões de libras, o The Sun aponta para 18 milhões. Porém, nenhuma imprensa se interessa tanto pelo assunto como a imprensa portuguesa que, sem excepção, trata de apresentar números para todos os gostos, registando valores de 18, 16, 13½, 13 e 10 milhões, sem especificar a moeda. Tem havido milhões de despedimentos e há milhões de desempregados na Europa, mas nenhum deles tem a conta bancária de Mourinho, apenas porque ele sabe cuidar de si.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Afonso de Albuquerque, o Leão dos Mares

Assinalam-se hoje cinco séculos sobre a data da morte de Afonso de Albuquerque, ocorrida a bordo do seu navio na barra de Goa, na manhã do dia 16 de Dezembro de 1515. O cronista Fernão Lopes de Castanheda descreveu esse acontecimento nos seguintes termos:
E dali por diãte se achou de cada vez peor, de maneira que sabado quinze dias de Dezembro á noyte que foy surgir na barra de Goa […] &  hũa hora antes que falecesse se lhe tornou a fala. E estandolhe lendo a paixão de que era muyto devoto, & em que dizia que levava sua esperança de salvação, deu a alma a nosso senhor domingo ante manhaã dezaseys de Dezembro de mil & quinhentos & quinze, vestido em ho abito de Santiago, de cuja ordem era cavaleyro […] pedio perdão de seus pecados antes de seu falecimto. E falecido foy posto na tolda da nao…
Afonso de Albuquerque foi uma das mais proeminentes figuras da História de Portugal e foi o verdadeiro fundador do Estado Português da Índia, ao assegurar-lhe uma base territorial. Tendo nascido em Alhandra de família fidalga no ano de 1453, adquiriu experiência militar desde muito jovem nas conquistas do norte de África e na batalha de Toro. Em 1506 seguiu para a Índia como capitão-mor da costa da Arábia no comando de uma frota de cinco navios da armada de dezasseis navios de Tristão da Cunha. Em 1507 conquistou Ormuz à entrada do golfo Pérsico, em 1510 conquistou Goa na costa ocidental da península Industânica e em 1511 conquistou Malaca, situada na península Malaia e na passagem marítima entre os oceanos Índico e Pacífico. Em 1509 tinha sucedido a D. Francisco de Almeida como 2º vice-rei e governador Estado Português da Índia, tendo desempenhado esse cargo até à sua morte em 1515. Morreu mal com el rey por amor dos homens, & mal com os homens por amor del rey.
Afonso de Albuquerque não está livre de acusações de desumanidade e barbaridade, mas é realmente uma das grandes figuras da História de Portugal e daí que seja aqui evocado.

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

A enorme incerteza da política francesa

Os resultados das eleições regionais francesas, que tiveram a sua 1ª volta no dia 6 de Dezembro e a 2ª volta no dia 13 de Dezembro, traduziram-se numa vitória dos Republicanos de Nicolas Sarkozy em 7 regiões e da União da Esquerda de François Hollande em 5 regiões, conforme assinala hoje edição do Le Monde na sua primeira página. Estavam inscritos nos cadernos eleitorais cerca de 45 milhões de franceses, mas apenas 26 milhões votaram e destes apenas foram validados cerca de 25 milhões de votos, o que mostra que em França, tal como em muitos outros países da Europa, os cidadãos confiam cada vez menos nos políticos que têm e consideram a participação eleitoral e a democracia participativa cada vez mais desinteressante.
Nas eleições francesas os votos nacionais distribuiram-se pela União da Direita ou Republicanos (40,2%), pela União da Esquerda ou Socialistas (28,8%) e pela Frente Nacional (27,1%), embora estes resultados não tenham quaisquer consequências imediatas a nível nacional, salvo no que respeita a uma primeira perspectiva das eleições presidenciais de 2017.
Nicolas Sarkozy recuperou na sua ambição de regressar ao Eliseu, enquanto a Frente Nacional que na 1ª volta tinha vencido em seis regiões e se esperava que pudesse vencer em duas ou três regiões, sucumbiu ao apelo ao voto útil feito pelos seus adversários e a uma maior participação eleitoral. Apesar disso, o partido de Marine Le Pen que privilegia o discurso anti-imigração e anti-Europa, teve cerca de 6,8 milhões de votos e esse resultado preocupa a França e a Europa, pois  lança uma enorme incerteza na política francesa.
A propósito, poder-se-à perguntar onde se encontram em Portugal os amigos de Marine Le Pen...

Paris: um acordo para salvar o planeta

A Cimeira de Paris aprovou um acordo que envolve 195 países e que vai dar origem a um novo tratado internacional destinado a conter o aquecimento global do nosso planeta. Depois de vários anos de negociações e de hesitações, o novo o acordo é visto como um passo histórico, pelo seu carácter universal e por ultrapassar divergências que até agora tinham impedido que se encontrasse um substituto do Protocolo de Quioto. Se o conteúdo do acordo for cumprido, na segunda metade deste século o mundo terá praticamente abandonado os combustíveis fósseis e as emissões que restarem de gases com efeito de estufa serão anuladas pela sua absorção por florestas ou pela sua captura e armazenamento. O novo acordo foi possível por ter resultado de uma abordagem inovadora, pois não há metas impostas aos países e são eles que têm que decidir o que fazer. Portanto, a base do acordo são planos nacionais a apresentar a cada cinco anos por todos os países, nos quais prestarão contas do que fizeram ou explicarão qual o seu contributo para a luta contra o aquecimento global. Todos os países têm de participar e não apenas os países desenvolvidos, embora estes tenham de liderar os esforços na redução de emissões de gases com efeito de estufa. O objectivo declarado do acordo é conter a subida dos termómetros a um valor “muito abaixo de 2ºC” e prosseguir esforços para limitar o aumento da temperatura a 1,5ºC acima dos níveis pré-industriais. Além disso, os países desenvolvidos comprometem-se a continuar a financiar as nações em desenvolvimento nas suas políticas de adaptação e mitigação climática. A Cimeira de Paris foi considerada um êxito e Laurent Fabius, o ministro dos Negócios Estrangeiros francês, recebeu o unânime aplauso. A imprensa mundial deu larga cobertura à Cimeira de Paris e aos seus resultados: o The Sydney Morning Herald foi apenas um deles.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

A Espanha vai a votos no domingo

As eleições legislativas em Espanha realizam-se no próximo domingo e todos os dias a imprensa publica sondagens. Hoje, também o El País publica a sua sondagem: PP de Mariano Rajoy (25%), PSOE de Pedro Sánchez (21%), Podemos de Pablo Iglesias (18%) e Ciudadanos de Albert Rivera (18%).
Como se vê, a Espanha está embrulhada numa situação governativa semelhante à que aconteceu em Portugal depois das eleições de 4 de Outubro, isto é, nenhuma força política terá maioria para governar e daí que sejam necessárias coligações ou alianças. A imprensa hoje apresenta as duas alternativas que lhe parecem mais prováveis: um pacto entre o PP e o C’s ou uma aliança entre PSOE, Podemos e C’s. Em qualquer dos casos, haverá uma nítida rejeição da actual política de Mariano Rajoy e da sua subordinação aos baronetes neoliberais da Europa. É bem possível que nos próximos dias os espanhóis falem da solução portuguesa, aquela que tanto surpreendeu e deixou engasgados o par Passos & Portas e os jovens radicais que os seguem. Independentemente dos resultados eleitorais que se verificarem em Espanha, não é de prever que alguém faça o ridículo discurso da vírgula que Portas fez e que os seus telmoscorreias repetiram exaustivamente. Observados daqui do rectângulo, parece que nem Rajoy, nem Sánchez, nem Iglesias, nem Rivera, têm o despudor e nem a falta de vergonha exibida durante várias semanas pelos inconsoláveis políticos que perderam o poleiro e pelos seus ideólogos-comentadores do tipo fernandes+marquesmendes.
Atentemos, pois, nas eleições espanholas ou no 20-D, como eles gostam de se lhes referir.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Angela Merkel - person of the year 2015

Desde 1927 que a revista TIME escolhe a Personalidade do Ano e, numa atitude de auto-promoção, a própria revista afirma que, para o melhor ou para o pior, esta escolha influencia o mundo. É um exagero publicitário, até porque no fim do ano se fazem inúmeras escolhas deste tipo sem que alterem o curso da Humanidade. No entanto, esta escolha é uma curiosidade que se repete há 89 anos e que desperta o interesse das pessoas. A escolha deste ano recaiu em Angela Merkel, na linha do que aconteceu com a revista Forbes que a classificou como a segunda pessoa mais poderosa do mundo, numa lista em que, à cabeça, surgem sempre Vladimir Putin, Barack Obama, Xi Jinping e o Papa Francisco.
De acordo com os critérios da popular revista americana, a escolha de Angela Merkel é acertada, não só pela posição que ocupa desde 2005 como chanceler da poderosa Alemanha, mas também pela forma como se tornou a incontestada líder da Europa, cilindrando Barroso e Juncker, Sarkozy e Hollande, entre muitas outras figuras que ocasionalmente aparecem no palco europeu, como Jeroen Dijsselbloem ou Christine Lagarde. As suas posições tornam-se sempre as posições da Europa. É conhecida a sua atitude intransigente em relação à dívida dos países do sul, mas também o seu apoio aos refugiados sírios. É sabido, também, como olha para os problemas da Ucrânia e da Síria sem o radicalismo dos seus parceiros ocidentais, da mesma forma que recusou entrar na cruzada anti-Kadaffi.
Pode concordar-se ou não com a prática política de Angela Merkel, mas há que reconhecer que tem pensamento próprio, o que é uma coisa que desapareceu do “mundo ocidental” e até do pequeno mundo que tomou conta da política no nosso Portugal, onde proliferam papagaios e papagaias que repetem, repetem, repetem ou, se quisermos, mentem, mentem, mentem.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Afinal de que lado está a Turquia?

A revista semanal italiana Tempi que se publica em Milão aborda como tema principal da sua última edição a situação na Turquia e, em especial, o comportamento do seu Presidente Recep Tayyip Erdoğan que, depois de ter sido primeiro-ministro durante cerca de onze anos, foi eleito para a presidência do país em Agosto de 2014.
Não é preciso dominar fluentemente o idioma italiano para perceber que o título Bottino di guerra, que significa despojos ou prendas de guerra, nos conduz à triste realidade de perceber que a Turquia está a tirar vantagens da situação que ela própria ajudou a criar, com a sua oposição a Bashar el-Assad e a sua aliança com a Arábia Saudita. O subtítulo esclarece ainda mais: “protegida pelo guarda-chuva da NATO, a Turquia de Erdoğan pratica o saque na Síria, trafica com o ISIS e pratica a extorsão aos refugiados. E a União Europeia ainda a premeia com três mil milhões de euros”. Realmente...
É sabido que a Turquia tem sido o principal apoio das forças anti-Assad e que é pelo seu território que é feito o contrabando do petróleo que financia o ISIS. Sabe-se, também, que sendo os curdos o grupo que mais tem combatido o radicalismo do ISIS, como se viu em Kobani, tem sido fortemente bombardeado pelos turcos sem que a NATO trave essas acções que, objectivamente, favorecem o ISIS e o jihadismo. O recente abate de um avião russo na fronteira turca, também mostrou que a Turquia não quer ver estranhos a observar o que se passa nas suas fronteiras.
Erdogan tem sido acusado de autoritarismo e de ter a família envolvida em negócios duvidosos, para além de estar a seguir uma orientação islâmica, no país que há muitas décadas tinha sido transformado num Estado secular por Ataturk. Afinal quem é e o que quer Recep Tayyip Erdoğan? A revista Tempi desconfia e eu também. Será que ele é muito diferente de Sadam Hussein e de Bashar el-Assad e de tantos outros lideres daquela região?

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

A Venezuela cansou-se do chavismo

As eleições legislativas venezuelanas realizadas no passado domingo tiveram um resultado que, não sendo inesperado surpreendeu, porque depois de 16 anos no poder, o chavismo foi derrotado.
As eleições realizaram-se num quadro de dificuldades económicas devidas à quebra da receita do petróleo e num ambiente de grande perturbação nacional e de quase revolta popular, com uma enorme escassez de alimentos e de medicamentos no mercado, com altas taxas de inflação, com perseguições políticas, muita insegurança e raptos e atentados. O eleitorado polarizou-se em torno de duas grandes coligações: de um lado o GPP ou Gran Polo Patriótico Simón Bolívar, liderado por Nicolas Maduro, o actual presidente da República Bolivariana da Venezuela e herdeiro político de Hugo Chavez e, do outro, o MUD ou Mesa de la Unidad Democratica liderado por Henrique Capriles. Embora se tratasse de duas grandes coligações, cada uma delas com um largo leque de partidos e movimentos, o GPP era classificado de centro-esquerda, enquanto o MUD era classificado de centro-direita. Os quase vinte milhões de eleitores deram a vitória ao MUD, o que aconteceu pela primeira vez em 16 anos. Nicolas Maduro reconheceu a derrota e afirmou que venceu a paz.  Depois de novos ventos em Cuba, de mudanças na Argentina e de ambiente tenso no Brasil, está em curso a mudança na Venezuela.
As eleições venezuelanas têm uma grande importância para Portugal, porque depois do Brasil, a Venezuela é o segundo país da América Latina com mais emigrantes portugueses. Os números oficiais apontam para cerca de quinhentos mil, embora os luso-descendentes possam ultrapassar um milhão. Por isso, tudo o que acontece na Venezuela interessa aos portugueses.

domingo, 6 de dezembro de 2015

Um galeão para resgatar 300 anos depois

O Presidente da Colômbia Juan Manuel Santos anunciou na passada sexta-feira que os restos do galeão espanhol San José tinham sido encontrados a cerca de 10 milhas do porto de Cartagena das Indias e ontem, numa conferência de imprensa na Base Naval de Cartagena, afirmou: “Estoy muy complacido como jefe de Estado de informar a los colombianos que sin lugar a dudas, sin ningún tipo de duda, hemos encontrado 307 años después de su hundimiento el galeón San José”.
O galeão San José, guarnecido por 60 canhões, foi afundado no dia 8 de Junho de 1708 por navios ingleses quando largava daquele porto em direcção a Espanha, com mais de seiscentos marinheiros a bordo e com um tesouro que incluia ouro do vice-reino de Nova Granada (hoje Colômbia), prata do Perú e pedras preciosas, além de muitos outros objectos religiosos. A partir da documentação coeva existente, foi estimado pelos arqueólogos marítimos colombianos que o valor da carga do San José estaria entre 5 e 10 mil milhões de dólares, caso fosse vendido a colecionadores. Porém, o Presidente Santos anunciou de imediato que os tesouros a resgatar seriam musealizados num edifício apropriado a construir na cidade de Cartagena. A imprensa colombiana destaca este acontecimento e o El Colombiano ilustra a sua primeira página com uma gravura do galeão.
A localização do navio naufragado foi feita em 1991 pela empresa americana Sea Search Armada e levantou-se então um conflito entre o Estado colombiano e a empresa que reclamava metade do valor do tesouro a resgatar. Porém, um tribunal americano já decidiu a favor do Estado colombiano com base na lei colombiana que regulamenta a propriedade do património cultural submerso e que estabelece mecanismos para o resgate das centenas de naufrágios históricos que se encontram em águas colombianas, entre os quais se incluia o galeão San José. A descoberta deste galeão é um grande acontecimento cultural para a Colômbia e os colombianos souberam proteger-se atempadamente dos caça-tesouros.

sábado, 5 de dezembro de 2015

Iraque, Síria, Líbia… e o Afeganistão

A ignorância e incompetência com que as potências ocidentais, os seus dirigentes máximos e os seus gabinetes de estratégia trataram as chamadas primaveras árabes, levaram ao afastamento de alguns dos seus líderes mais contestados como Saddam Hussein e Muammar Kadaffi, enquanto agora se procura abater Bashar al-Assad. Com o vazio político criado, o poder caiu na rua e a desordem impôs-se nesses países. Na ausência do poder que o ocidente abateu ou desautorizou, surgiu a guerra no Iraque com base numa mentira e a guerra na Síria com base numa teimosia e, daí, surgiu um radicalismo terrorista consubstanciado no ISIS. Apesar de todas as acções militares em curso, o jihadismo está a alastrar e, embora por formas diferentes, atingiu interesses russos, feriu a França com enorme crueldade e, aparentemente, até chegou aos Estados Unidos.
A Líbia é agora o novo foco onde se concentram as atenções jihadistas porque fica na encruzilhada da Europa, África e Médio Oriente. Aí, o ISIS não só dispõe do arsenal militar que sobrou da guerra contra Kadaffi como tem engrossado as suas fileiras com novos combatentes. Sabe-se que está a treinar pilotos na base aérea de Sirte e que a travessia do Mediterrâneo demora menos de uma hora. É a nova ameaça para a Europa, como Kadaffi avisara.
Entretanto, como hoje revela o jornal londrino The Times, o ISIS invadiu o Afeganistão, isto é, um grupo de 1600 combatentes islâmicos internou-se na zona leste do Afeganistão, junto da fronteira com o Paquistão. É o Wilayat Khurasan, a versão afegã do ISIS. Ocupou quatro distritos a sul da cidade de Jalalabad, a pouco mais de uma centena de quilómetros da capital Kabul, tendo instalado um campo de treino militar e procedido a julgamentos corânicos e a decapitações públicas.
Não sei o que mais é preciso para Obama, Putin, Xi Jinping, Hollande, Cameron, Merkel e não sei quem mais, se entenderem.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Haverá aviões a mais nos céus da Síria?

O Parlamento britânico decidiu ontem à noite o envolvimento na campanha aérea em curso na Síria contra o ISIS por uma maioria de 174 votos, depois de 397 deputados terem votado a favor e 223 deputados terem votado contra. Segundo refere a imprensa inglesa, designadamente The Herald, apenas 57 minutos depois dois Tornado GR4 largaram da sua base de Akrotiri em Chipre e regressaram três horas depois sem bombas.
Há três dias também o Parlamento alemão tinha aprovado o envolvimento da Alemanha no conflito sírio, com a participação de seis aviões Tornado que estacionarão na base turca de Incirlik, para além de um aparelho para reabastecimento aéreo, uma fragata que irá participar na protecção do porta-aviões francês Charles de Gaulle, que já está a actuar no Mediterrâneo oriental, para além de um total de 1200 efectivos terrestres que ainda não se sabe o que irão fazer.
Tal como acontece com a coligação liderada pelos Estados Unidos e com os russos, também a França tem uma assinalável presença aérea na região. Além disso, há os aviões do regime de Bashar al-Assad, mais os aviões turcos e os aviões chineses. É muito avião a voar por ali e não estará longe o dia em que alguns desses aviões se envolvam em tiroteio.
A acção militar implica sempre um correcto planeamento e muita coordenação. No caso da Síria/Iraque não se sabe quem coordena, nem o que coordena, o que se traduz por menor eficácia, maior custo e um elevado risco de incidentes do tipo daquele em que recentemente estiveram envolvidos aviões russos e turcos. É caso para perguntar se não serão aviões a mais.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

A bela Goa para quem tem frio em Lisboa

Um bom amigo decidiu deixar esta cidade de Lisboa por uns tempos e voar até Dabolim, que é o aeroporto que serve Goa, para fugir ao frio atlântico-europeu e para aproveitar o calor e a amizade dos muitos amigos que tem naquela bela terra virada para o mar Arábico. O meu amigo tem uma enorme notoriedade e prestígio cultural naquela terra e, provavelmente, é o português mais ilustre que nos próximos tempos andará a circular por Caranzalém, Dona Palma, Fontainhas, Altinho, Miramar e outros bairros da cidade de Pangim. Por isso, fui consultar os jornais de Goa para verificar se tinham dado notícia da sua chegada, porque esta sua visita é um facto que merece notícia. Porém, desapontado, verifiquei que ele tem mantido a discrição de que tanto gosta.
No entanto, aproveitei e fiz uma breve leitura do The Navhind Times, um dos mais populares jornais goeses. Na sua edição de hoje, o jornal reflecte na sua primeira página os tempos que se vivem em Goa e a sua rapidíssima entrada na era do consumo de massa, com anúncios de vários modelos de automóveis Chevrolet e de Instant Winter Holidays por 29.000 rupias (400 euros), publicitação do Shopping Festival em Chicalim e da Trade Fair cum Food Festival e de uma Singing Competition em Mapuça. Há dinheiro e vontade de o gastar. Como o mês de Dezembro é o mês em que milhares de goeses da diáspora visitam as suas famílias, sucedem-se todo o tipo de festas, sobretudo as festas religiosas dos católicos e os casamentos, sempre com muitas centenas de convidados. Para esses, também o jornal anuncia as ofertas do Señor, the suit people: um complete wedding package por 4999 rupias (70 euros) e a feitura de fatos simples por 2499 rupias (35 euros), com delivery in 3 to 4 hours.
Seguramente, o meu amigo JML vai estar em vários casamentos e não deixará de ir de fato novo. É só ir ao Señor, ali na Rua Heliodoro Salgado. E aprecie bem essa terra e essa gente!

UNESCO reconheceu a arte chocalheira

Com a surpresa que resulta da minha ignorância nesta matéria, tive ontem conhecimento que a arte chocalheira foi inscrita pela UNESCO na sua lista do Património Cultural Imaterial com Necessidade de Salvaguarda Urgente. Informei-me ccom a leitura do Público – talvez o único jornal que tratou do assunto  – e passei da surpresa para o aplauso do trabalho pelo feito pela comissão de candidatura, isto é, por aqueles que com entusiasmo, competência e discrição, fazem alguma coisa pelo nosso país. Segundo foi anunciado, a arte chocalheira foi iniciada há mais de dois mil anos, como testemunham os chocalhos celtiberos do século I a.C. que são semelhantes aos que são feitos actualmente. É, portanto, uma arte milenar que tem no território alentejano a sua maior expressão a nível nacional, especialmente nos concelhos de Estremoz, Reguengos de Monsaraz e Viana do Alentejo, com especial destaque para a freguesia de Alcáçovas.
O chocalho português é um instrumento de percussão munido de um só batente interno, que funciona da mesma maneira que um sino e que, habitualmente, é suspenso no pescoço dos animais com a ajuda de uma correia em couro. O chocalho está intimamente associado à pastorícia, sendo utilizado pelos pastores para localizar e dirigir os rebanhos, mas daí também resulta uma paisagem sonora única e característica. A inscrição do fabrico de chocalhos na Lista do Património Imaterial com Necessidade de Salvaguarda Urgente implica um Plano de Salvaguarda, uma espécie de “caderno de encargos" que visa reverter a tendência de desaparecimento desta arte, garantindo a transmissão do saber-fazer e a sustentabilidade futura da actividade. Daí que tenham sido propostas um conjunto de medidas para promover o ensino do ofício. Depois do cante alentejano e do fabrico de chocalhos que mais nos reservará o património cultural alentejano?

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Falta de seriedade de quem nos governou

O Orçamento do Estado é o documento que traduz a actividade financeira do Estado, onde se incluem as receitas previstas e as despesas máximas autorizadas para o período de um ano ou, dito de outra forma, que trata de fixar a utilização anual a dar aos dinheiros públicos, tendo em vista a satisfação das necessidades colectivas. Trata-se do mais importante instrumento da acção governativa que é elaborado pelo Governo depois de ouvidos os parceiros sociais, sendo a respectiva proposta apresentada à Assembleia da República até ao dia 15 de Outubro, para ser discutida e votada. Este ano não vai ser assim.
O cumprimento do calendário constitucional recomendava que as eleições legislativas tivessem sido realizadas em Maio ou Junho, porque haveria vários meses para preparar o Orçamento do Estado para 2016. Porém, o Presidente tomou outra decisão  e, como se vê agora, decidiu mal.
No entanto, o processo de preparação do Orçamento começa habitualmente em Junho quando os Serviços recebem as instruções de orientação governamental e enviam para os escalões superiores as suas propostas com a explicitação das suas necessidades mínimas orçamentais para o ano seguinte, como por exemplo a despesa salarial prevista tendo em conta a despesa do ano corrente, as previsíveis despesas correntes de funcionamento e as despesas de investimento previstas.
Nada disto foi feito e, segundo a edição de hoje do Diário de Notícias, o novo governo socialista encontrou tudo por fazer no que respeita à preparação da proposta de Lei do Orçamento para 2016. Diz o jornal que “o trabalho produzido na anterior administração foi zero - mesmo aquele trabalho orçamental que não tem nada que ver com opções políticas de fundo”. Portanto, teremos o país sem Orçamento do Estado para 2016 durante vários meses porque houve falta de seriedade de um Presidente que marcou eleições fora de tempo e de um Governo que tratou da sua propaganda eleitoral em vez de cumprir com os seus deveres.

domingo, 29 de novembro de 2015

A enorme tragédia ambiental de Mariana

Mariana é uma cidade histórica brasileira do Estado de Minas Gerais que foi fundada por bandeirantes portugueses em finais do século XVII e cujo nome homenageia a rainha D. Maria Ana de Áustria, esposa do rei D. João V. Situa-se numa região que é objecto de intensa exploração mineira e, para acomodar os materiais inertes provenientes da extracção do minério de ferro, foram construidas algumas barragens. Foi em duas dessas barragens, respectivamente Fundão e Santarém, pertencentes à empresa mineira Samarco, que no passado dia 5 de Novembro ocorreu uma tragédia que deixou um rasto de morte e de destruição, com graves danos para a sua população e para o meio-ambiente, em consequência de uma avalancha de lama que resultantou do rompimento das duas referidas barragens. Apesar desta lama não ter um teor marcadamente tóxico, o facto é que devastou e pavimentou mais de quinhentos quilómetros no seu percurso até ao mar.
Esta tragédia que ficou conhecida como o desastre de Mariana, é considerada o maior desastre ambiental da história de Minas Gertais e, para muitos observadores, é um retrato do Brasil contemporâneo, tendo servido para mostrar a negligência e a inoperância dos órgãos governamentares para enfrentar acontecimentos desta gravidade, mas também a enorme promiscuidade que prevalece entre as grandes empresas multinacionais, como é o caso da Samarco, e as instâncias políticas estaduais e federais.
Hoje o diário Estado de Minas de Belo Horizonte publica uma extraordinária fotografia do mar de lama a entrar no oceano e alerta para os “crimes contra o Brasil” e informa que a “tentativa de sabotar investigação de corrupção revolta o país”.

sábado, 28 de novembro de 2015

O vendedor de serviço para o Novo Banco

A Direcção Geral de Economia e Finanças da Comissão Europeia advertiu há umas semanas atrás, para a possibilidade dos contribuintes portugueses virem a suportar eventuais prejuízos do Novo Banco, depois de ter sido detectado um enorme buraco financeiro e de ser necessário reforçar o seu capital em 1398 milhões de euros no prazo de nove meses. A ministra Albuquerque afirmou então: “Digo o que sempre disse: os contribuintes não serão chamados a suportar eventuais perdas do Novo Banco”.
O assunto não ficou esquecido e a pressa para o vender acentuou-se. Assim, foi agora anunciado que o principal rosto da política de privatizações do governo de Passos & Portas tinha sido contratado pelo Banco de Portugal para vender o Novo Banco. A contratação do supracitado indivíduo de nome Sérgio Monteiro, que é um antigo funcionário da CGD, envolve uma remuneração mensal da ordem dos 30 mil euros, segundo noticiou o Público. O seu currículo revela que o referido Monteiro tem sido contemplado com alguns tachos a premiar a sua militância partidária, que assinou alguns contratos swaps, um dos quais gerou perdas de 152 milhões de euros ao Estado e, ainda, que esteve envolvido nas privatizações das lucrativas e estratégicas ANA e CTT, mas também da CP Carga e, por duas vezes, da TAP. Este currículo mostra que Monteiro tem mexido em muita massa, mas não garante que o tenha feito da melhor maneira, nem com salvaguarda do interesse nacional. Segundo diz o jornal, o montante que vai receber mensalmente está “a gerar perplexidade quer na CGD, quer no supervisor”, mas eu também fico perplexo por lhe pagarem tanto dinheiro, quando anda o país todo com o cinto tão apertado. E não deixarei de ficar perplexo quando souber que, ao contrário do que eles juraram, ainda teremos de pagar o Novo Banco

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Um discurso insólito que é para esquecer

A cerimónia da tomada de posse do XXI Governo Constitucional foi um acontecimento histórico, não só porque acabou com aquela estupidez que era o “arco da governabilidade”, mas também porque nos permitiu assistir a um dos mais insólitos discursos que um Presidente da República podia pronunciar naquelas circunstâncias. Nesse discurso falou muito em política económica, em disciplina orçamental e na confiança dos mercados financeiros e dos investidores externos, esquecendo-se que essa área governamental está entregue a gente que sabe e que veio das prestigiadas universidades de Harvard e de Nottingham.
Depois, com um ar desapropriado para aquela cerimónia, o Presidente ameaçou e disse: “Não abdicando de nenhum dos poderes que a Constituição atribui ao Presidente da República – e recordo que desses poderes só o de dissolução parlamentar se encontra cerceado – e com a legitimidade própria que advém de ter sido eleito por sufrágio universal e direto dos Portugueses, tudo farei para que o País não se afaste da atual trajetória de crescimento económico e criação de emprego e preserve a credibilidade externa”. Significa que seguiu a linha da propaganda do seu partido e se colou, uma vez mais ao anterior governo, ao dizer ser necessário “preservar a trajetória de crescimento e de criação de emprego”, quando essa trajectória realmente ainda não existe de forma sustentada e clara, pelo que não é intelectualmente sério mencioná-la naquelas circunstâncias.
O insólito discurso presidencial não teve uma palavra de incentivo ao governo para além da área económica, como se governar fosse a simples gestão da economia, sem que houvesse pessoas que vivem na pobreza e que carecem de emprego, de saúde, de justiça, de educação e da satisfação dos seus direitos básicos. O insólito discurso não teve uma palavra no sentido da mobilização dos portugueses para os desafios que têm pela frente ou para dar confiança à Europa e aos mercados, a que tanto se curva. O insólito discurso não teve uma palavra em defesa dos desempregados, nem dos reformados, nem do regresso dos milhares de concidadãos que sairam do país. Nem sobre a Ciência, o Ambiente, a Cultura ou a Educação. O insólito discurso é para esquecer.

Um novo governo e uma nova esperança

Passados mais de cinquenta dias sobre as eleições legislativas de 4 de Outubro e depois de audiências com tantas personalidades apostadas em contrariar a vontade expressa dos portugueses através dos seus deputados eleitos, tomou posse ontem o XXI Governo Constitucional presidido por António Costa. Acabou essa treta do arco da governação. Festejemos por isso, até porque os últimos quatro anos foram duros e cansativos para os portugueses que, com 62% dos votos, rejeitaram a insensibilidade, o autoritarismo e a demagogia do par Passos & Portas. Como disse há muitos anos o poeta Luís de Camões:

“Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades;
Muda-se o ser, muda-se a confiança:
Todo o mundo é composto de mudança;
Tomando sempre novas qualidades”.

Estamos realmente num tempo de “mudança” e de “novas qualidades”, mas estamos sobretudo num tempo de esperança para nos sentirmos num país mais democrático, mais coeso, mais solidário e de gente mais feliz. Ao contrário do que tem sido dito pela propaganda, o governo de Passos e Portas fez-nos andar para trás. Estamos pior do que em 2011. Temos mais dívida pública, mais desemprego, mais pobreza, mais desigualdade, mais gente emigrada, mais desertificação do território e mais envelhecimento demográfico. Esta é que é realidade que não é possível manipular.
Ontem Cavaco esteve ao seu nível, com ameaças e avisos desnecessários que só serviram para aumentar a crispação que anda por aí. O seu tempo político já passou. Agora é preciso assegurar que regresse a Boliqueime com um mínimo de dignidade. A História não guardará dele boa memória, mas talvez lhe ponham o nome numa rua ou numa escola ou num qualquer pavilhão gimno-desportivo.
O discurso de António Costa foi prometedor com fortes apelos à serenidade e à moderação, sem abdicar do combate à “vertigem austeritária” e a lembrar que responde politicamente perante o Parlamento e não perante Cavaco. Porém, tem um desafio difícil pela frente, até porque vai continuar a campanha difamatória que lhe tem sido feita pelas televisões e pelos seus jornalistas e comentadores de serviço, assim como o discurso intolerante e mentiroso de Portas, de Rangel, de Montenegro, de Teresa Coelho e dessa sinistra figura que é Marco António Costa, que repetem até à exaustão uma mesma cassete mentirosa.
António Costa é um político experiente e está preparado. Juntou gente de muito valor, com provas dadas na política e na vida académica. Sabe que os tempos são difíceis e que o caminho está armadilhado em Lisboa, em Bruxelas e talvez em Berlim, mas também sabe que tem a confiança maioritária dos portugueses para mudar o rumo do país. Boa sorte!

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

O incidente que não podia ter acontecido

O derrube de um bombardeiro Su-24 russo acontecido ontem na fronteira entre a Turquia e a Síria é um acontecimento muito grave: os turcos dizem que o avião violou o seu espaço aéreo e que os seus pilotos avisaram dez vezes durante cinco minutos antes de terem lançado o ataque, enquanto os russos garantem que o seu aparelho não saiu do espaço aéreo sírio. Está aberta uma nova frente no conflito sírio e as suas consequências são imprevisíveis, exactamente quando o Presidente Hollande desenvolve esforços para fazer uma grande coligação internacional contra o terrorismo e voa para Nova Iorque e para Moscovo para juntar Obama e Putin.
Este incidente não podia ter acontecido.
Vladimir Putin considerou este ataque como "uma facada nas costas dada pelos cúmplices dos terroristas" e afirmou que este acto terá consequências, enquanto o secretário-geral da NATO pediu calma e diplomacia para que este incidente seja esclarecido entre as partes.
Os recentes acontecimentos de Paris parecem ter acordado os dirigentes ocidentais para o problema da Síria e do Iraque e têm mostrado que não é o apoio ou não apoio a Bashar al-Assad que é importante agora. Todos estão ameaçados e todos parecem estar de acordo na necessidade de bloquear as fontes de financiamento do ISIS e do terrorismo, que são o petróleo vendido no mercado negro através da Turquia, além de outros apoios que receberão da mesma Turquia, da Arábia Saudita e do Qatar. Por isso, este incidente não podia ter acontecido e vem demonstrar que a Turquia não quer os russos por ali, porque protegem os curdos e apoiam Bashar al-Assad, o que é contra os seus interesses, isto é, os turcos estão mesmo muito envolvidos na questão síria e nas suas envolventes estratégicas e até religiosas. Estas coisas não acontecem por acaso e este incidente até pode ter sido fabricado pelos turcos.