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quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

As danças e bailinhos da ilha Terceira


O Carnaval de 2020 já lá vai e através da televisão pudemos ver, no país e no estrangeiro, alguns desfiles de elevada estética decorativa em termos de indumentárias, de carros alegóricos e de participação artística, sempre com muito entusiasmo popular, embora quase sempre constituam  representações que apenas pretendem atrair o turismo.
O Carnaval também é assim em Portugal e, cada vez mais, é uma indústria que alguns pretendem seja uma indústria cultural. Porém, muitas das representações que nos são servidas de Loulé, de Ovar ou de Torres Vedras, para apenas citar alguns carnavais de maior notoriedade nacional, misturam situações de reconhecida criatividade, humor e alegria, com exibicionismos de muito mau gosto, como se o Carnaval fosse um passaporte para a vulgaridade e para a foleirice. 
Há, contudo, um Carnaval que tem o meu vivo aplauso. Festeja-se na ilha Terceira e dele deu ontem notícia o Diário Insular que se publica em Angra do Heroísmo, embora o jornal pudesse ter escolhido uma fotografia mais feliz para a capa.
As danças e bailinhos da ilha Terceira são o ponto central do Carnaval terceirense e mobilizam milhares de pessoas por toda a ilha, numa demonstração de genuíno entusiasmo popular. Formam-se dezenas de grupos de músicos e actores amadores que, desde sábado a terça-feira de Carnaval, percorrem a ilha apresentando-se continuamente num espectáculo que dura cerca de uma hora em cerca de quatro dezenas de salas, onde a entrada é gratuita e onde a população se diverte pela cenografia e pelos conteúdos de crítica social que são apresentados.
O gosto pelas danças e bailinhos da ilha Terceira tem aumentado significativamente nos últimos anos e são frequentes as presenças de grupos que se deslocam dos Estados Unidos e do Canadá para apresentarem os seus bailinhos. É realmente uma festa única que os terceirenses reivindicam como património da criatividade do povo. O reconhecimento vem a caminho, pois está em curso uma consulta pública para o registo das Danças, Bailinhos e Comédias do Carnaval da Ilha Terceira no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial… que vai ser bem sucedida, naturalmente.

sexta-feira, 18 de outubro de 2019

O mau tempo ainda não chegou ao canal

Quando o rescaldo das eleições legislativas continua a ocupar o noticiário nacional, com a formação do novo governo e as peripécias que vão acontecendo nos partidos derrotados em torno das candidaturas à sua liderança, e quando o noticiário internacional é dominado pelas violentas manifestações na Catalunha, pelas invasão turca dos territórios do Curdistão sírio, pelo impeachment de Trump ou pelo anunciado acordo relativo ao Brexit, o mais recomendável é descansar a vista e o pensamento. Está muita coisa a acontecer em Portugal e no mundo e nem sempre é fácil perceber a complexidade crescente do mundo moderno, em que o progresso material e a felicidade dos povos andam desalinhados.
Os Açores são, provavelmente, um dos melhores remédios para reflectir e para ajudar a perceber o novelo em que tudo isto anda enrolado, sobretudo quando se tem a sorte de desfrutar de paisagens marítimas inspiradoras de harmonia, de tranquilidade e de reforço da confiança. O canal do Faial que separa as ilhas do Faial e do Pico e que é o cenário central do Mau tempo no Canal, o celebrado romance de Vitorino Nemésio, é um desses locais que entusiasma pela sua beleza natural e pela excelência do seu enquadramento paisagístico. No caso daqueles que gostam de fotografia, a observação do canal desde a ilha do Pico constitui  um cenário singular, com os ilhéus vulcânicos da Madalena em primeiro plano e com a cidade da Horta e a ilha do Faial no segundo plano, mas sempre com o mar presente nas suas múltiplas e variadas apresentações.
Embora estejamos no princípio do Outono, o mau tempo no canal ainda não chegou mas a espectacularidade da ondulação e das vagas já são uma realidade e uma atracção para quem gosta de fotografia.

segunda-feira, 24 de junho de 2019

Vivam a cidade de Angra e as Sanjoaninas

Hoje, dia 24 de Junho, é o Dia de S. João. Ontem, um pouco por todo país, realizaram-se as festas deste santo e os seus muito participados arraiais, sobretudo no norte de Portugal e, em especial, nas cidades do Porto e de Braga. A televisão mostrou essas festas todas e a alegria do povo. Porém, que me desculpem os meus concidadãos e amigos do norte de Portugal, mas as melhores festas de S. João acontecem nos Açores e, muito em especial, na cidade de Angra do Heroísmo. São as Sanjoaninas, que são consideradas as maiores festas profanas dos Açores e que este ano decorrem desde o dia 21 ao dia 30 de Junho. Todos os anos as Sanjoaninas têm um tema e este ano foi escolhido o exílio do rei D. Afonso VI na ilha Terceira com o lema Angra – Regalo de Rei e de Gente.
A cidade de Angra do Heroísmo que em 1983 foi declarada património da Humanidade pela Unesco, transforma-se nestes dias de grandes festejos com a animada participação da população a que se juntam turistas e muitos emigrantes vindos dos Estados Unidos e de outras regiões para participar no vasto programa que inclui desfiles de rua, exposições, concertos em cinco palcos, apresentação de filarmónicas (incluindo a Sociedade Filarmónica Nova Aliança de S. José, na Califórnia) e provas desportivas, embora os ex-libris das Sanjoaninas sejam as marchas populares e as corridas de touros. As marchas e as touradas são um deslumbramento para os terceirenses e, de facto, impressiona como uma ilha tão pequena - embora cheia de história e de grandeza - tem energias e vontades bastantes para preparar e participar em tanta festa em Junho, quando ainda se parecem ouvir os bailinhos de Carnaval, outra das grandes manifestações da cultura popular da ilha Terceira, que aconteceram em Março.
Vivam a cidade de Angra, as Sanjoaninas e a ilha Terceira!

quarta-feira, 6 de março de 2019

Os bailinhos de Carnaval da ilha Terceira

A ilha Terceira tem uma história muito rica, um importante património construído e até uma capital que é património da Humanidade, mas o que mais impressiona naquela ilha são as características culturais dos terceirenses, que se revelam nas Sanjoaninas, nas Festas da Praia (da Vitória) e em muitas outras festas que se realizam por toda a ilha, mas também nas touradas, nas marchas, nas danças, nas comédias e, sobretudo, nos bailinhos de Carnaval.
Durante muitas semanas, homens e mulheres das mais diversas idades e profissões, de diferentes graus académicos e estratos sociais, esquecem as diferenças socioculturais, e transformam-se em músicos e actores, juntando-se em ensaios para apresentarem em palco um divertido espectáculo popular que envolve um pouco de todas as artes performativas, como a música, o teatro, o canto e a dança, que entusiasmam uma ilha inteira. São os grupos que vão ao encontro das pessoas e chegam a fazer seis ou mais atuações em cada noite, pela madrugada dentro, nas salas espalhadas por toda a ilha durante os quatro dias de Carnaval. Este ano foram 70 bailinhos, 6 danças de pandeiro, 2 danças de espada, 8 comédias e um monólogo, apresentados em 36 palcos das sociedades recreativas de toda a ilha, sempre cheias, em que participaram 1.970 músicos e actores, sendo 1.136 homens e 833 mulheres. Os bailinhos são, seguramente, uma das mais interessantes manifestações da cultura popular portuguesa, embora sejam pouco conhecidos no território continental.
Os terceirenses também levaram a sua tradição cultural para os Estados Unidos e para o Canadá e todos os anos são apresentados bailinhos que, por vezes, vêm actuar na ilha Terceira. Este ano estavam programados 18 bailinhos na costa Leste americana e 15 na Califórnia, enquanto no Canadá só estavam anunciados 10!
Naturalmente, o terceirense Diário Insular destacou que a ilha esteve embalada pelo Carnaval, até porque, como alguém referiu, a ilha Terceira é uma terra de artistas e hoje, que é quarta-feira, já os terceirenses estão com saudades do Carnaval e a começar a ensaiar as marchas a apresentar nos Santos Populares. Sempre em festa! Viva a alegria da ilha Terceira.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

Nem sempre há mau tempo no Canal

O canal do Faial separa as ilhas do Faial e do Pico e ficou celebrizado nas palavras de Vitorino Nemésio, o autor do romance Mau tempo no canal. Qualquer viajante que atravesse aquelas três milhas do canal, da ilha do Faial para a ilha do Pico ou da ilha do Pico para a ilha do Faial, nem sempre encontra o mar sereno, mas tem sempre uma paisagem marítima deslumbrante: de um lado a montanha do Pico e do outro lado a baía orlada de morros vulcânicos e a graciosidade da cidade da Horta, pequena e bela, com o seu casario branco descendo pela encosta até ao mar.
Recentemente, já próximo do crepúsculo vespertino, estava sentado no internacionalmente famoso Cella Bar - que já é um ex-libris da ilha do Pico - e tratei de fotografar o canal com o meu Samsung, com os ilhéus da Madalena em primeiro plano e com o Monte da Guia e o Monte Queimado em segundo plano. São três cones vulcânicos que, no seu conjunto, constituem um dos mais expressivos quadros da paisagem marítima açoriana. Não sei se é uma fotografia de artista, mas agrada-me e por isso a partilho com os meus leitores nesta Rua dos Navegantes.

domingo, 5 de agosto de 2018

A Festa do Senhor Bom Jesus Milagroso

Está a decorrer em São Mateus, na ilha do Pico, a Festa do Senhor Bom Jesus Milagroso, a segunda maior festa religiosa dos Açores, só superada pelas Festas do Senhor Santo Cristo dos Milagres, que se realiza em Maio na cidade de Ponta Delgada.
As festas religiosas que acontecem nos Açores são um ponto alto da vida comunitária, em que as povoações são festivamente decoradas e em que a população participa activamente na sua preparação, sem estar à espera das autarquias ou de outras entidades. As festas atraem sempre muitas centenas ou milhares de pessoas, umas residentes e outras vindas do outro lado do Atlântico que não dispensam a festa da sua terra, sendo sempre manifestações de devoção e de fé intensa, que são visíveis sobretudo nas missas, nas vistosas procissões e no pagamento de promessas.
Porém, a par do seu programa religioso, as festas incluem múltiplas actividades culturais de natureza musical e desportiva, incluindo o desfile e a actuação de filarmónicas e, por vezes, as feiras do livro, as regatas de baleeiros e os concertos, em que actuam grupos e cantores que são contratados no Continente. Além disso, são realizadas muitas outras actividades como as tradicionais arrematações em que as ofertas dos paroquianos são leiloadas em público.
Nos tempos modernos, o recinto das festas é cercado por dezenas de barracas que vendem toda a espécie de comes e bebes, de bugigangas e de uma espécie de artesanato, que dão uma dimensão popular ao acontecimento.
Como acontece sempre, as festas são largamente publicitadas através de coloridos cartazes, como sucede com o cartaz da Festa do Senhor Bom Jesus Milagroso que aqui reproduzimos.

domingo, 29 de julho de 2018

Cais de Agosto e a animação do costume

Termina hoje o Cais de Agosto, o festival que anualmente anima a vila de S. Roque do Pico e, de certa forma, toda a ilha do Pico.
Numa ilha com cerca de 15 mil habitantes e bastante envelhecida, o êxito deste festival mede-se pela presença de inúmeros grupos de jovens das ilhas vizinhas que, juntamente com os turistas que nestes meses de Verão visitam o Pico, fazem certamente duplicar a sua população e baixar a sua média etária.
O ambiente na ilha altera-se com os milhares de jovens que se movimentam por toda a parte, com o comércio da restauração que se anima e com o trânsito rodoviário que aumenta. Acentuam-se as subidas aos 2351 metros de altitude do Pico, a presença nas piscinas naturais e a caminhadas nos trilhos rurais, mas o principal é que todos querem assistir ao festival que apresenta alguns supostos grandes artistas nacionais. 
Porém, o festival também apresenta outros atractivos como o festival das bandas filarmónicas da ilha, a feira gastronómica, as regatas de remo e vela em baleeira, as bancas de comes e bebes e as costumadas barracas que vendem um pouco de tudo.
Para a economia local o Cais de Agosto é uma grande festa popular e um grande acontecimento pelo rendimento que gera em todas as actividades locais, mas é também é uma grande animação para a população residente devido à presença de tanta gente.

quinta-feira, 5 de julho de 2018

As bandeiras como símbolo de gratidão

Num país de forte emigração como é Portugal, há os emigrantes que regressam em definitivo e há aqueles que regressam para passar férias e para matar saudades.
Como expressão de gratidão à terra que os acolheu ou como exibição de um sucesso que a emigração proporcionou, muitos desses emigrantes criaram o hábito, que já tem o estatuto de tradição, de hastear a bandeira do país de acolhimento ao lado da bandeira nacional.
Assim, não é raro, sobretudo no Verão, encontrarmos algumas casas nas aldeias portuguesas em que são visíveis as bandeiras de alguns dos países de acolhimento, como por exemplo da França e da Alemanha.
Porém, esta prática tem uma singular expressão nos Açores. Os Açores são historicamente uma terra de emigrantes e nas suas nove ilhas proliferam os sinais que nos recordam essa realidade e são muito frequentes as bandeiras de Portugal e da Região Autónoma, muitas vezes acompanhadas pelas bandeiras dos Estados Unidos da América e do Canadá. Ontem, na ilha do Pico, fui confrontado com uma expressão de amizade luso-canadiana que me era desconhecida: uma bandeira-homenagem em que o escudo português se sobrepõe à folha do plátano-bastardo (Acer pseudoplatanus) que é a árvore nacional do Canadá. A curiosa bandeira flutuava ao vento junto da bandeira da Região Autónoma dos Açores e tratei de a registar próximo da vila da Madalena do Pico.

quinta-feira, 8 de março de 2018

O triste fim do navio "Mestre Simão"

O acidente aconteceu no passado dia 6 de Janeiro quando o navio Mestre Simão, de 40 metros de comprimento, fazia a sua entrada no porto da Madalena.
O Mestre Simão, tal como o seu irmão Gilberto Mariano, era o orgulho dos passageiros do canal, ainda a cheirar a novo, bem equipado, moderno e confortável, mas o mar pregou-lhe uma partida. Havia mau tempo no canal e o navio, que fazia a ligação entre a ilha do Faial e a ilha do Pico, terá sido apanhado por uma onda desencontrada que o atravessou e fez perder o governo, sendo atirado para as rochas que orlam a margem sul da bacia de manobra do porto da Madalena. Os setenta passageiros foram retirados sem quaisquer problemas e não houve feridos, mas o navio ficou preso às rochas, provavelmente muito aguçadas.
A autoridade marítima, a seguradora do navio e o armador Atlânticoline, desenvolveram esforços para esclarecer o que de facto se passou e para tentar o salvamento do navio. Os dias passaram e todos os esforços para o salvar foram infrutíferos, pelo que o governo dos Açores já anunciou que o Mestre Simão sofreu danos irreparáveis e foi considerado perdido, pelo que foi iniciado o processo de aquisição de um navio semelhante, ao mesmo tempo que foi aberto um concurso internacional para o seu desmantelamento e remoção.
Fui fotografar o navio e senti uma enorme mágoa ao ver aquele símbolo do progresso na ligação entre as ilhas do grupo central açoriano e que me transportou algumas vezes no canal do Faial, ali solitário e moribundo. É mesmo muito doloroso porque, como Fernando Pessoa escreveu na Ode Marítima, um navio tem personalidade e, por isso, não merecia um fim tão triste e tão inglório.

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

O culto açoriano do Divino está no Brasil

A edição do Diário Insular que se publica em Angra do Heroísmo destacou ontem na sua primeira página, em texto e em imagem, que o culto do Espírito Santo dos Açores é património no Brasil. De facto, foi recentemente aprovado na reunião do Conselho Estadual de Cultura do governo do Estado de Santa Catarina o registo da Festa do Divino Espírito Santo do Centro de Florianópolis como Património Cultural Imaterial de Santa Catarina.
Essa festa religiosa e popular é organizada pela Irmandade do Divino Espírito Santo e realiza-se desde 1775 de forma ininterrupta, tendo completado 242 anos de idade em 2017. Curiosamente, na mesma cidade, também a Procissão do Senhor Jesus dos Passos que é organizada pela Irmandade do Senhor Jesus dos Passos de Florianópolis desde há 251 anos, está registada no lista do Património Cultural Imaterial de Santa Catarina.
Na área de Florianópolis estes festejos chegaram com os colonizadores portugueses, oriundos sobretudo dos Açores e da Madeira, entre os anos de 1748 e 1756, quando os portugueses e os espanhóis disputavam a posse daquela região. Por isso, a herança cultural açoriana no Estado de Santa Catarina é justamente protegida no âmbito da preservação do património imaterial da região.
A celebração da Festa do Divino é considerada um dos eventos religiosos mais importantes da comunidade católica de Santa Catarina, pois gera grande participação popular e atrai fiéis de muitas outras regiões brasileiras, sendo festejada em muitas outras cidades. É certamente, uma das grandes festividades que “os brasileiros herdaram dos seus avós portugueses”.

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

O incerto futuro do navio “Mestre Simão”

No passado sábado, dia 6 de Janeiro, quando entrava no porto interior da Madalena, o navio Mestre Simão que fazia a ligação entre a ilha do Faial e a ilha do Pico terá sido arrastado por uma onda desencontrada, terá ficado sem motores e com o leme bloqueado e, rapidamente, foi arrastado para as rochas da parte sul da bacia de manobra do porto, junto à piscina municipal. Não há memória de isto alguma vez ter acontecido com embarcações bem menores e com temporais bem maiores.
Os 61 passageiros e os 9 tripulantes foram evacuados para uma balsa de salvação em condições de mar adversas mas que decorreu com grande normalidade, aparentemente devido à competência com que a tripulação actuou. Após as operações de resgate das 70 pessoas embarcadas, a preocupação das autoridades centrou-se na contenção de cerca de 20 toneladas de combustível, tendo sido colocadas barreiras de contenção para controlar potenciais situações de derrame de hidrocarbonetos.
Três dias depois, o jornal terceirense Diário Insular referiu-se ao acidente e escolheu como título da sua reportagem a frase futuro incerto, o que deixa no ar a hipótese de não ser possível salvar o navio, apesar de se encontrar relativamente protegido pela bacia de manobra do porto da Madalena. Entretanto, ainda decorre o inquérito determinado pelas autoridades para perceber o que se passou, mas o navio parece estar bem agarrado à aguçada rocha de lava e daí que os “curiosos”, que sempre dão doutas opiniões nestes casos, duvidem da sua salvação.
O Mestre Simão entrou ao serviço em 2014 e tem capacidade para transportar 344 passageiros e 8 viaturas, mas já há quem fale na “última viagem do Mestre Simão”.
O navio Mestre Simão tal como o seu irmão gémeo Gilberto Mariano, são navios modernos e confortáveis que ligam as ilhas do grupo central dos Açores e que substituiram as antigas lanchas do Pico que desafiaram o “mau tempo no Canal”, que marcaram gerações que atravessaram o canal com ou sem temporal e que continuam a ser um símbolo da identidade cultural da ilha do Pico.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

New Bedford, os Açores e os baleeiros

Em 18548 o cidadão Benjamin Russell exibiu na cidade de New Bedford uma grande pintura feita para um inovador espectáculo que circulava de cidade em cidade e que contava a história da baleação e dos baleeiros. Era um tela com 2,5 metros de altura por 388 metros de comprimento, que era estendida nas paredes interiores de um edifício circular para ser vista pelo público sentado na sala, enquanto girava muito devagar. A apresentação durava duas horas, era companhada musicalmente e tinha uma narração. Estas apresentações eram conhecidas por panoramas e foram verdadeiros precursores do cinema e das experiências tridimensionais.
A tela de Benjamin Russell chamava-se o Grande Panorama de uma Viagem de Baleeiro à Volta do Mundo e mostra um veleiro a sair de New Bedford, a atravessar o Atlântico e a visitar quatro ilhas do grupo central dos Açores (Faial, Pico, S. Jorge e Graciosa), onde os americanos recrutavam pessoal para integrar as suas tripulações e de que resultou a transformação de New Bedford num dos principais polos de atracção da emigração açoriana para os Estados Unidos. A história contada naquele panorama prossegue depois por Cabo Verde, pelo Brasil e pelas estações baleeiras do Índico e do Pacífico Sul, contando muitas histórias que mostravam o desconhecido e o exótico. Foi um grande sucesso e foi exibido durante muitos anos, a última das quais em 1969.
Desde 1918 que este panorama está no New Bedford Whaling Museum, onde é um dos destaques da sua exposição permanente, até porque é provavelmente a maior pintura original do mundo. Porém, a enorme tela sofreu ao longo do tempo o natural desgaste das viagens, quase sempre de comboio, bem como os efeitos de cerca de 120 anos a ser enrolada e desenrolada. Assim, foi agora restaurada e digitalizada, o que vai permitir a sua apreciação e o seu “regresso à estrada”, como aconteceu desde meados do século XIX, se assim for entendido.
A edição de hoje do Diário de Notícias conta toda a história deste panorama e reproduz o trecho da tela que retrata as ilhas do Faial e do Pico. São ilustrações tão simbólicas que não tardará que o Governo Regional dos Açores venha a adquirir uma cópia desse trecho para enriquecer o Museu do Pico e, em especial, a sua extensão nas Lajes do Pico que é o Museu dos Baleeiros.

quarta-feira, 1 de março de 2017

O Pico, o famoso Cella Bar e o temporal

Não há memória de um temporal como aquele que, há dois dias, surpreendeu a parte oriental da ilha do Pico e provocou extensos danos nas infraestruturas portuárias do porto da Madalena e em diversas instalações, como por exemplo no Museu de Cachalotes e Lulas e no famoso Cella Bar, que foi internacionalmente premiado pela sua original arquitectura e que é considerado um dos mais bonitos bares do mundo. As imagens difundidas pela televisão são impressionantes e mostram a forte ondulação de noroeste a rebentar sobre a costa, a galgar os molhes do porto e a inundar largas extensões da via urbana. O Açoriano Oriental, que é o mais antigo jornal português, dedicou a este acontecimento uma fotografia em primeira página.
As previsões meteorológicas tinham anunciado a possibilidade de haver ondas de 5 metros, mas num dia relativamente calmo e sem vento apareceram ondas de 13 metros, pelo que foi avançada a hipótese dessa situação ter resultado de qualquer fenómeno sísmico acontecido no oceano Atlântico. Talvez a Ciência ainda possa esclarecer o que sucedeu, mas o que aqui se salienta é a anormal violência do mar no porto da Madalena e a quase destruição do Cella Bar, local onde tenho desfrutado de um serviço exemplar e de uma vista deslumbrante. Esperemos, portanto, que rapidamente seja restaurado esse recente ex-libris da ilha do Pico.

terça-feira, 18 de outubro de 2016

A estabilidade democrática açoriana

As eleições para escolher os 57 deputados que vão integrar a Assembleia Regional dos Açores realizaram no domingo e tudo decorreu com total normalidade democrática, embora tivesse havido uma abstenção de quase 60%, isto é, houve 134.971 eleitores inscritos que se abstiveram.
Embora a abstenção açoriana seja habitualmente superior a 50%, nestas eleições subiu consideravelmente. Há muitas explicações para esta abstenção: cadernos eleitorais desactualizados, falta de incentivo depois de quatro vitórias consecutivas do Partido Socialista e da sua boa governação e o elevado número de eleitores inscritos que não são residentes na região e que não se deslocaram dos Estados Unidos, do Canadá ou do Continente para votar. O facto é que numa região de grande estabilidade e maturidade políticas, o nível de participação se situa muito aquém do desejável.
O Partido Socialista renovou a sua maioria absoluta como destacou o Açoriano Oriental, o jornal que se publica em Ponta Delgada e que é mais antigo jornal português, ao conseguiu eleger 30 deputados, enquanto o PSD se ficou pelos 19, seguindo-se o CDS-PP com quatro, o BE com dois, o PCP com um deputado e o PPM também com um deputado. Em relação às anteriores eleições de 2012, o PS e o PSD perderam um deputado cada um, enquanto o CDS-PP e o BE ganharam um deputado cada. O PCP e o PPM mantêm um deputado cada.
Como sempre acontece, nenhum partido se declarou derrotado e cada qual veio afirmar-se mais fortalecido com os resultados alcançados e mais confiante no futuro. Neste tipo de eleições há sempre quem queira extrapolar os resultados para o plano nacional, mas isso não tem qualquer sentido, pois os resultados estão mais associados à notoriedade local dos candidatos do que aos programas partidários. Foi exactamente por isso que na ilha do Corvo, a mais pequena da região, foi reeleito um deputado do “inexistente” PPM com 82 dos 248 votos expressos, isto é, com 32,03% dos votos.

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

R.I.P. D. Arquimínio Rodrigues da Costa

Faleceu no dia 12 de Setembro em São Mateus, a freguesia da ilha do Pico onde nasceu em 1924, aquele que foi o último bispo português de Macau. Chamava-se Arquimínio Rodrigues da Costa e tinha 92 anos de idade. Na sua última edição, o semanário O Clarim que se publica em português e que é propriedade da Diocese de Macau, homenageia o seu antigo Bispo, classificando-o como “diplomata, inteligente e amigo”.
Ainda adolescente foi  para Macau para frequentar o seminário de S. José, onde foi ordenado sacerdote e onde veio a ser professor. Depois de um período de férias nos Açores, de onde estivera ausente entre 1938 e 1956, seguiu para Roma onde frequentou o curso de direito canónico na Pontifícia Universidade Gregoriana, aí concluindo a sua licenciatura em 1959.
De regresso a Macau retomou as suas funções docentes e em 1962 tornou-se reitor do seminário de S. José. Segundo uma nota da diocese de Macau era um “professor competentíssimo, um sacerdote cheio de humildade e um poliglota, com destaque para o mandarim e o cantonense, em que fala e prega fluentemente”. Devido à ausência do respectivo titular, em 1963 foi nomeado governador do Bispado de Macau, mas em 1976 foi elevado à dignidade episcopal pelo Papa Paulo VI e foi nomeado definitivamente Bispo de Macau.
Dom Arquimínio Rodrigues da Costa serviu no território de Macau duas comunidades culturalmente heterogéneas durante cerca de cinquenta anos e teve o apreço e o reconhecimento dos macaenses e das autoridades portuguesas. Em 1988 pediu a sua resignação e pouco tempo depois fixou residência na sua ilha do Pico, ocupando-se nas tarefas de recuperação do seu património familiar em São Mateus e na cooperação com a igreja local.
Era um dos cincos Bispos naturais da ilha do Pico que, ao longo do século XX, serviram a igreja católica em Goa, Macau e Timor. Dezassete dias depois do seu falecimento aqui fica registado um louvor à sua acção missionária.

domingo, 17 de julho de 2016

Já não há mau tempo no canal

Mais uma vez percorro as belas paisagens das ilhas do grupo central açoriano, sem nunca me cansar de olhar o horizonte, a ilha em frente, o aspecto do mar, as encostas verdejantes, as pedras negras, os recortes da costa e, sobretudo, a imponente montanha do Pico que é a maior referência física destas ilhas.
Releio sempre As Ilhas Desconhecidas, um dos mais importantes livros de viagem portugueses, escrito por Raul Brandão quando em 1924 efectuou uma visita aos Açores, no qual descreve a ilha do Pico como “a mais bela, a mais extraordinária ilha dos Açores, duma cor admirável e com um estranho poder de atracção”. Raul Brandão tinha razão ou estava muito próximo dela, porque apesar do progresso que tem percorrido a ilha, os seus traços culturais estão preservados em muitas práticas quotidianas, nas memórias dos mais velhos ou foram musealizados.
Agora que as invernias atlânticas retiraram para outras regiões e o sol inunda os dias durante muitas horas, o Pico revela uma paisagem invulgarmente variada e colorida. É o tempo das grandes festas religiosas e profanas, das exibições das filarmónicas e dos grupos de chamarritas e da visita dos familiares que vivem nos Estados Unidos e no Canadá. O Pico começa a tornar-se um destino turístico cosmopolita e há cada vez mais turistas que vêm conhecer as ilhas mais ocidentais da Europa, muitos deles para cumprir a aventura de uma subida até aos 2.351 metros de altitude da montanha. Alguns deles, sobretudo franceses e alemães, compraram casas antigas, restauraram-nas e decidiram fixar-se em permanência na ilha, para viver uma vida mais tranquila e mais sadia. Em boa verdade, com o progresso e com a vulgarização das viagens aéreas, já não há mau tempo no canal.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

O bar de excepção numa ilha excepcional

O site de arquitectura ArchDaily promoveu este ano, pelo sétimo ano consecutivo, a atribuição do prémio internacional para o melhor edifício de 2016, isto é, o Archdaily Building of the Year 2016.
Foram pré-seleccionadas mais de três mil propostas assinadas por cerca de 18 mil arquitectos de todo o mundo, que concorreram às 14 categorias em concurso. Nesse conjunto de obras pré-seleccionadas encontravam-se 174 obras da autoria de arquitectos portugueses, concorrendo às categorias Casas (62), Reabilitação (23), Arquitectura Cultural (18), Escritórios (11), Arquitectura Pública (10), Educação (9), Interiores (9), Hospitality (8), Housing (6), Arquitectura Desportiva (5), Healthcare (4), Comercial (4), Industrial (3) e Arquitectura Religiosa (2). 
Desta pré-selecção global foram apuradas 70 obras, isto é, cinco obras por cada uma das 14 categorias, verificando-se a presença na final de sete projectos portugueses: o Cella Bar na vila da Madalena da Ilha do Pico, a sede da Uralchem Headquarters na Rússia, o Centro Equestre de Leça da Palmeira, a Casa em Guimarães, o Mercado Municipal de Abrantes, o Al Shaheed Park no Kuwait e a Cozinha Comunitária das Terras da Costa da Caparica.
A votação decorreu entre os dias 2 e 9 de Fevereiro e veio a declarar o Cella Bar, a Casa de Guimarães e a Cozinha Comunitária das Terras da Costa da Caparica como Edifícios do Ano 2016 de acordo com a votação da ArchDaily.
O Diário de Notícias destaca hoje a notícia da atribuição dos Archdaily Building of the Year 2016 a três obras com marca portuguesa e ilustram-na com a fotografia do espectacular Cella Bar da ilha do Pico, enquadrado por uma paisagem de mar azul, pedras negras e encostas verdes.

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

O Pico exibe um ambiente primaveril

É sabido que a meteorologia dos Açores se altera depois do equinócio do Outono e que as chuvas se tornam mais frequentes, as ventanias muito mais fortes e a agitação marítima muito incómoda para aqueles que andam no mar. Nesta época, o famoso anticiclone dos Açores costuma deslocar-se para sul, deixando que predomine a influência das baixas pressões do Atlântico Norte, que tantas tempestades provocam nas costas ocidentais europeias. Porém, neste ano de 2015, talvez como consequência da desregulação global que atravessa tantas outras coisas deste mundo, o anticiclone dos Açores está preguiçoso e tem teimado em manter-se nas latitudes do costume, o que faz com que se esteja um tempo quase primaveril aqui nas ilhas.
No caso do grupo central do arquipélago, essa circunstância é bem visível no Pico que não se esconde nas núvens e parece divertir-se com elas, oferecendo-nos imagens de grande espectacularidade e beleza. Para os entendidos nestas coisas da meteorologia local, as núvens em volta do Pico têm um significado meteorológico preciso que eu desconheço. Sinal de bom tempo? Sinal de tempestade? Sinal de acalmia prolongada? Não sei.
Apenas sei que, com núvens ou sem elas, o Pico é sempre imponente e muito atraente.

domingo, 7 de junho de 2015

O fascínio d’As ilhas desconhecidas

No Verão de 1924 o escritor e jornalista Raúl Brandão visitou o arquipélago dos Açores e dessa viagem resultou a publicação em 1926 de um “livro de viagens” que ficou famoso no contexto da literatura portuguesa. O seu título é As ilhas desconhecidas - Notas e paisagens e é uma das mais apreciadas obras literárias sobre as ilhas açorianas, que muito tem contribuído para a divulgação e para a formação da sua imagem externa. Ao longo do tempo têm sido publicadas várias edições desta obra sobre os Açores, que retrata com um recorte literário de excelência o ambiente natural e a paisagem humana das ilhas, algumas especificidades da fauna e da flora, a arte da pesca da baleia, as festas do Espírito Santo, a imponência da montanha do Pico, as fainas marítimas e a solidão insular, entre muitos outros aspectos característicos das ilhas.
A partir de 2008 o fotógrafo Jorge Barros decidiu promover uma edição desta obra ilustrando-a com belíssimas fotografias da sua autoria. O ambicioso projecto demorou três anos e da ligação do texto de Raúl Brandão com a fotografia de Jorge Barros, resultou uma edição de grande qualidade estética e artística que muito valoriza o património editorial açoriano.
Com o apoio do Governo dos Açores foi preparada uma bela exposição de fotografia itinerante com muitas das imagens resultantes do levantamento fotográfico de Jorge Barros por todas as ilhas. Actualmente, a exposição encontra-se na ilha do Pico, repartida por dois núcleos, respectivamente nas Lajes do Pico (Museu dos Baleeiros) e em São Roque do Pico (Museu da Indústria Baleeira). É um acontecimento cultural relevante e inspirador na “mais bela e mais extraordinária ilha dos Açores”, como escreveu Raúl Brandão.

quinta-feira, 28 de maio de 2015

As festas do Divino Espírito Santo

São Roque do Pico, Julho, 2013
Pico, 2015 - As festas em honra do Divino Espírito Santo na ilha do Pico são um caso de religiosidade, mas também um exemplo do culto da tradição e da preservação da cultura popular açoriana, celebrando-se entre o Domingo de Pentecostes e o Domingo da Trindade. No corrente ano as festividades decorrem em 34 localidades, entre os dias 24 e 31 de Maio, estando assinaladas 53 festas, cada uma delas organizada pelos seus mordomos ou pelas suas Irmandades. Cada localidade tem rituais próprios mas, no essencial, constam de um cortejo encabeçado por crianças que se desloca desde a casa do mordomo ou da Irmandade até à igreja, ao longo de um percurso embandeirado e florido, em que são tranportados a coroa do Espírito Santo, o estandarte da Irmandade e as oferendas, acompanhados pela filarmónica e pelos foliões para dar solenidade ao cortejo. A influência da diáspora é cada vez mais acentuada e, em muitos casos, há uma crescente americanização da festa.
Segue-se a missa em que são entronizados os mordomos. Após a missa fazem-se leilões de oferendas no adro da igreja, enquanto se prepara o início do solene e compassado cortejo em direcção ao salão onde será servido o tradicional almoço de sopas do Espírito Santo – carne de vaca cozida, couve cozida e pão embebido em caldo de carne. O número de participantes em cada almoço ultrapassa as largas centenas, pelo que a preparação e distribuição do almoço também envolve muitas dezenas de voluntários da própria comunidade. Segundo revelou a última edição do Jornal do Pico, estão convidadas cerca de 25 mil pessoas para as 53 festas e respectivos almoços a realizar em 34 localidades da ilha do Pico. Uma vez que há localidades onde se realiza mais do que uma festa, o número de convidados quase duplica a população total da ilha. Festas assim são cada vez mais raras.