Mostrar mensagens com a etiqueta ARTE E CULTURA. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta ARTE E CULTURA. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

As danças e bailinhos da ilha Terceira


O Carnaval de 2020 já lá vai e através da televisão pudemos ver, no país e no estrangeiro, alguns desfiles de elevada estética decorativa em termos de indumentárias, de carros alegóricos e de participação artística, sempre com muito entusiasmo popular, embora quase sempre constituam  representações que apenas pretendem atrair o turismo.
O Carnaval também é assim em Portugal e, cada vez mais, é uma indústria que alguns pretendem seja uma indústria cultural. Porém, muitas das representações que nos são servidas de Loulé, de Ovar ou de Torres Vedras, para apenas citar alguns carnavais de maior notoriedade nacional, misturam situações de reconhecida criatividade, humor e alegria, com exibicionismos de muito mau gosto, como se o Carnaval fosse um passaporte para a vulgaridade e para a foleirice. 
Há, contudo, um Carnaval que tem o meu vivo aplauso. Festeja-se na ilha Terceira e dele deu ontem notícia o Diário Insular que se publica em Angra do Heroísmo, embora o jornal pudesse ter escolhido uma fotografia mais feliz para a capa.
As danças e bailinhos da ilha Terceira são o ponto central do Carnaval terceirense e mobilizam milhares de pessoas por toda a ilha, numa demonstração de genuíno entusiasmo popular. Formam-se dezenas de grupos de músicos e actores amadores que, desde sábado a terça-feira de Carnaval, percorrem a ilha apresentando-se continuamente num espectáculo que dura cerca de uma hora em cerca de quatro dezenas de salas, onde a entrada é gratuita e onde a população se diverte pela cenografia e pelos conteúdos de crítica social que são apresentados.
O gosto pelas danças e bailinhos da ilha Terceira tem aumentado significativamente nos últimos anos e são frequentes as presenças de grupos que se deslocam dos Estados Unidos e do Canadá para apresentarem os seus bailinhos. É realmente uma festa única que os terceirenses reivindicam como património da criatividade do povo. O reconhecimento vem a caminho, pois está em curso uma consulta pública para o registo das Danças, Bailinhos e Comédias do Carnaval da Ilha Terceira no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial… que vai ser bem sucedida, naturalmente.

sábado, 8 de fevereiro de 2020

Madrid e Barcelona já estão a conversar


A conflitualidade e a tensão que se têm verificado nos últimos meses entre o governo de Espanha e o governo regional da Catalunha, parecem estar a entrar agora no caminho do diálogo institucional, coisa que não acontecia nos tempos de Mariano Rajoy e de Carles Puigdemont. Depois das intransigências de um e das tentativas de insurreição popular do outro, parece estar aberto um caminho de sensatez e de diálogo, embora para alguns o governo de Pedro Sanchéz esteja a ir longe demais e, para outros, se esteja apenas a abrir uma porta.
O encontro entre Pedro Sanchéz e Quim Torra, o presidente do governo regional da Catalunha, foi cordial e dele saíu a criação de uma comissão bilateral para estudar as reivindicações catalãs. Foi um bom passo. Num outro encontro entre Pedro Sanchéz e Ada Colau, a presidente do município de Barcelona, surgiu o reconhecimento da co-capitalidade cultural e científica da cidade de Barcelona. Foi outro bom passo. Significa, portanto, que Madrid e Barcelona já estão a conversar. 
O jornal La Vanguardia refere hoje esta grande notícia mas, com fotografia de primeira página, também destaca a descoberta de uma “Altamira catalana”. Trata-se de algumas grutas situadas em l’Espluga de Francolí (Tarragona), com cerca de um cento de figuras gravadas na pedra que representam veados, cavalos, bois e alguns símbolos abstractos, que terão cerca de 15 mil anos. Esta datação converte este santuário da arte rupestre no mais antigo testemunho do Paleolítico na Catalunha, torna-o comparável às grutas cantábricas de Altamira e é um dos mais antigos de toda a área mediterrânica.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

A morna : de Cabo Verde para o mundo

Depois de em 2009 ter visto o centro histórico da cidade da Ribeira Grande, conhecido como Cidade Velha, ser classificado pela Unesco como património da Humanidade, a República de Cabo Verde viu agora aprovada a candidatura da morna a património cultural imaterial da Humanidade.
A morna é um género musical típico e é considerada a música-rainha de Cabo Verde, sendo uma mistura de estilos musicais com fortes raízes africanas e com influências da modinha luso-brasileira. É geralmente acompanhada por viola, cavaquinho, violino e piano, mas o instrumento clássico da morna é o violão, introduzido em Cabo Verde no século XIX.
Segundo um texto divulgado pela comissão de candidatura, a morna é uma canção melancólica “interpretada em crioulo cabo-verdiano por uma voz solista, homem ou mulher, apesar de existirem mornas apenas instrumentais, versando temas lírico-passionais e sendo muito vinculada ao sentimento do amor, ao sofrimento, à saudade, à ternura, à tristeza, à ironia e à boa ou má sorte do destino individual”.
Durante muitos anos a morna esteve confinada ao arquipélago de Cabo Verde e era pouco conhecida no exterior, até que surgiu Cesárea Évora que internacionalizou a morna cabo-verdiana. Por isso, o semanário Expresso das Ilhas ilustrou a primeira página da sua última edição com a fotografia de Cesárea, a rainha da morna que faleceu em 2011. Para quem ouviu a morna ser cantada no Mindelo há mais de cinquenta anos e depois viu Cesárea Évora actuar em Lisboa algumas vezes, a sua classificação pela Unesco é um motivo de grande satisfação e de aplauso.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

O mundo da arte contemporânea é louco


Está a decorrer a edição americana da Art Basel Miami, uma feira internacional de arte com fins lucrativos que se realiza anualmente em Miami Beach, em Basileia e em Hong Kong, na qual participam artistas consagrados e emergentes de todo o mundo. Segundo revela a organização estão presentes cerca de duas centenas de galerias de referência mundial no campo da arte moderna e contemporânea, que apresentam o trabalho de cerca de quatro mil artistas e divulgam a nova geração de artistas emergentes, através de pinturas, esculturas, instalações, fotografias, filmes e outras obras da mais alta qualidade.
Até aqui tudo parece normal, porque nas questões da arte e da cultura há sempre públicos que gostam e públicos que não gostam. Porém, este ano em Miami, parece que todos os limites foram ultrapassados, como revela o jornal New York Post ao mostrar uma banana colada a uma parede com uma vulgar fita adesiva e que foi posta à venda por 120.000 dólares. “O mundo da arte enlouqueceu”, escreveu o jornal na sua primeira página. O autor deste atentado ao bom senso e à própria ideia de arte que intitulou “Comediante”, é um italiano de 59 anos de idade de nome Maurizio Cattelan. A “obra” utilizou uma banana comprada num supermercado de Miami, mas o “artista” não deu quaisquer instruções sobre o que fazer quando a banana começar a apodrecer. No entanto, a “obra” foi vendida a uma francesa pela quantia de 120.000 dólares e perante este sucesso, Cattelan produziu mais duas edições, sendo uma para um francês por um preço não revelado e uma outra destinada a um museu pelo preço de 150.000 dólares.
Esta notícia deixa-me estarrecido, embora certas instalações apresentadas na Fundação Gulbenkian, que é a maior catedral da arte contemporânea em Portugal, já antes me tivessem levado à perplexidade. A loucura e a insensatez parece que também chegaram às artes. 

sábado, 30 de novembro de 2019

O início da celebrações de Beethoven


O compositor alemão Ludwig van Beethoven nasceu na cidade de Bonn provavelmente no dia 17 de Dezembro de 1770 e, portanto, o 250º aniversário do seu nascimento será celebrado no próximo ano. Falta pouco mais de um ano, mas as iniciativas comemorativas já se iniciaram, não só para enaltecer internamente a sua obra musical, mas também para mostrar ao mundo que aquele génio era alemão.
Uma das iniciativas já concretizadas foi a edição de Beethoven – The New Complete Edition, um projecto que resultou de uma parceria entre a editora Deutsche Grammophon e a associação cultural Beethoven-Haus Bonn, que oferece “mais de 175 horas de música” em 118 CD, três discos blu-ray, dois DVD e 16 álbuns digitais, incluindo novas gravações em estreia mundial. O projecto junta gravações de mais de 250 intérpretes e distribui-se por nove volumes, cada um com um livro com notas sobre o repertório, alinhamentos, textos cantados e detalhes das gravações.
É um tipo de obra sem precedentes no campo da música e o preço anunciado ultrapassa largamente os trezentos euros, embora as grandes cadeias de lojas de retalho e de comércio online já venham anunciando preços da ordem dos 250 euros. O problema para os interessados será arranjar lugar para guardar os referidos nove volumes e ter tempo para ouvir tanta coisa.
Na sua edição de hoje, a revista Der Spiegel não só promoveu a iniciativa da Deutsche Grammophon como deu o pontapé de saída às celebrações que a Alemanha vai fazer em torno da figura e da obra de Ludwig van Beethoven. Certamente que muitos outros países europeus se unirão à Alemanha nesta celebração que, talvez, também possa servir para fortalecer um sentido de unidade mínima cultural e identitária de que a Europa e as suas nações tanto precisam.

quarta-feira, 20 de novembro de 2019

R.I.P. José Mário Branco

A inesperada notícia chegou ontem de manhã e anunciava que o músico e compositor José Mário Branco falecera aos 77 anos de idade.
Como resultado da sua actividade política contra a ditadura do Estado Novo foi perseguido e preso pela polícia política, escolhendo depois os caminhos do exílio e foi em Paris que, em 1971, gravou o seu primeiro álbum a solo, intitulado Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades, um título que retirou de um soneto de Camões, a que juntou canções com textos de autores como Natália Correia e Alexandre O’Neill.
Pouco tempo depois, numa altura em que a dureza da guerra se acentuava na Guiné e em que o General António de Spínola procurava uma saída política para um conflito cada dia mais doloroso mas que o intransigente governo de Lisboa nunca aceitou, a voz de José Mário Branco “circulava” em gravações por alguns meios militares nos rios e matas da Guiné e não deixava ninguém indiferente.
José Mário Branco foi, por isso e por tudo o que sempre fez com convicção e coerência, um símbolo da resistência e da insatisfação ao regime político em que Portugal viveu até ao 25 de Abril de 1974. Seguramente, ele é uma referência maior da luta política de antes e depois da revolução de Abril, sem quaisquer cedências ao seu inconformismo político e cultural, seguindo sempre numa linha de intervenção em que revelava a sua inquietação e mostrava que a cantiga é uma arma. Era um inspirado músico, compositor e criador cultural num importante período histórico do nosso Portugal e a sua obra vai permanecer. 
Aqui lhe expresso a minha homenagem pelas suas inspiradoras canções e pela obra musical que nos deixou.

sexta-feira, 15 de novembro de 2019

Bilbau uma cidade cada vez mais cultural


A cidade basca de Bilbau alberga desde 1997 o Museu Guggenheim Bilbao, um dos cinco museus espalhados pelo mundo que pertencem à Fundação Solomon R. Guggenheim, tendo sido projectado por Frank Gehry, um famoso arquitecto canadiano naturalizado americano. Com este equipamento a cidade ritalizou-se e passou a atrair visitantes de toda a parte.
Agora, em consequência dos efeitos culturais gerados pelo Museu Guggenheim, a cidade decidiu apostar em novas iniciativas e uma delas é a colocação de uma artística cúpula na Plaza de Toros de Vista Alegre, que é a terceira praça mais importante da Espanha, depois de Madrid e Sevilha, podendo receber cerca de 15 mil espectadores.
Com a colocação da cúpula, a adaptação do espaço e a modernização das instalações, a empresa proprietária da Vista Alegre pretende atrair eventos de ócio e cultura entre Outubro e Junho, isto é, fora da época taurina, esperando dessa forma rentabilizar a praça de touros que deixou de ser sustentável apenas com a festa tauromáquica. A cúpula será uma estrutura semi-fixa que terá capacidade para cerca de 4.000 pessoas e poderá abrigar eventos como concertos, espectáculos, exposições ou feiras, “algo que Bilbau não tinha”.
O jornal Deia que se publica em Bilbau, destaca hoje na sua primeira página La nueva Vista Alegre, futurista y multiusos, que vai certamente tornar-se em mais um atractivo para a vida cultural de Bilbau e para o turismo. Entretanto, o Parque Mayer em Lisboa continua à espera que se faça qualquer coisa que o possa valorizar.

quinta-feira, 24 de outubro de 2019

O Museu do Louvre celebra Leonardo

É inaugurada hoje em Paris e estará patente ao público durante cinco meses no Hall Napoléon do Museu do Louvre, uma exposição evocativa do 500º aniversário da morte de Leonardo da Vinci.
O genial Leonardo viveu no Château du Clos Lucé em Amboise, a pouca distância da residência do rei Francisco I de França, que o convidara para a sua Corte e o nomeara "Primeiro Pintor, Engenheiro e Arquiteto do Rei", tendo ali  vivido três anos entre 1516 e 1519, o ano da sua morte. Por isso, embora seja italiano, a França também parece reivindicar alguma coisa do seu génio.
A exposição está a despertar um invulgar interesse. É a loucura, segundo revela o jornal Aujourd’hui en France. É a maior exposição dedicada ao génio de Leonardo e reúne 162 obras no mesmo espaço expositivo, incluindo 11 das 20 das suas pinturas conhecidas, além de desenhos e manuscritos, que foram identificados e reunidos ao longo de dez anos, num trabalho de pesquisa que exigiu pedidos de empréstimo em todo o mundo. O Museu do Louvre é o principal participante até porque possui a maior colecção de obras de Leonardo, mas a exposição inclui empréstimos de obras cedidas pelo Museu Hermitage de São Petersburgo, pelo British Museum e pelo Museu do Vaticano, entre outros museus de referência mundial. Até a rainha Isabel II permitiu que 24 desenhos que estão na posse da coroa britânica fossem enviados para Paris para serem expostos temporariamente no Louvre. Um desenho pertencente à colecção da Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto também integra a exposição.
Curiosamente, a mais famosa obra de Leonardo, a Mona Lisa ou Gioconda, não estará na exposição e só poderá ser vista na galeria onde habitualmente se encontra, porque os organizadores da exposição entenderam que as cerca de 30 mil pessoas que todos os dias querem ver e fotografar aquela obra criariam engarrafamentos intoleráveis na área da exposição. Apesar disso, esperam-se 600 mil visitantes na exposição mais importante do ano que pagarão 17 euros pela visita, mas que terão obrigatoriamente de fazer uma reserva. Porém, diz o jornal que 220 mil bilhetes já estão vendidos...

segunda-feira, 26 de agosto de 2019

Plácido Domingo: a ovação em Salzburgo

O tenor espanhol Plácido Domingo, que actualmente conta 78 anos de idade, foi recentemente acusado nos Estados Unidos por supostamente ter assediado sexualmente nove mulheres, das quais sete nem sequer se identificaram.
Este tipo de acusações contra figuras proeminentes e ricas é comum no país mais poderoso do mundo, mas o senso comum percebe sem dificuldade que, muito provavelmente, se tratam de tentativas de extorsão que é uma prática comum numa sociedade em que o dinheiro é o valor mais importante de tudo.
Nestes casos de assédio sexual, real ou fictício, a moralidade americana é ridícula e extravagante, regendo-se por padrões muito diferentes dos padrões europeus e da cultura latina, chegando a haver acusações que resultam apenas de olhares ou de piropos, nem sempre mal intencionados.  Por isso, de vez em quando lá aparece na América mais um caso em que um indivíduo rico e famoso é vítima de uma acusação dessas. Foi assim, por exemplo, com Dominique Strauss-Kann, o antigo director do FMI e potencial candidato à Presidência da República Francesa, foi assim com Cristiano Ronaldo que foi e é o melhor futebolista do mundo e é, agora, com Plácido Domingo, considerado a maior estrela da ópera internacional. Todos eles são estrangeiros, estiveram na América e são ricos, pelo que são alvos interessantes para quem vive de extorsões e de indemnizações por tudo e por nada. Não sei se são culpados ou não das acusações que lhes têm feito, mas o facto é que lhes têm saído caras sob todos os pontos de vista.
Ontem Plácido Domingo apareceu pela primeira vez num espectáculo desde que surgiu a acusação e o público do Festival de Salzburgo ovacionou-o de pé antes e depois da sua actuação. Alguns jornais espanhóis, como por exemplo La Razón, juntaram-se ao público de Salzburgo e também aplaudiram o tenor. 

terça-feira, 9 de julho de 2019

Unesco classificou dois bens portugueses

O Palácio Nacional de Mafra e o Santuário do Bom Jesus do Monte em Braga foram declarados como bens culturais importantes durante a 43ª sessão do Comité do Património da Unesco realizada em Baku, no Azerbaijão, passando a integrar a respectiva lista do Património Mundial. Desta forma, são agora 17 os monumentos ou locais portugueses classificados pela Unesco, o que é um motivo de grande regozijo nacional, embora também seja uma responsabilidade acrescida para os portugueses e para as suas instituições com intervenção na área do património cultural, na medida em que implica mais atenção quanto à sua preservação e manutenção.
No caso de Mafra foi classificado o conjunto composto pelo Palácio, Basílica, Convento, Jardim do Cerco e Tapada de Mafra, o que abre perspectivas de valorização futura desta região e deste importante conjunto patrimonial. Mafra partilhou a satisfação e os festejos com Braga, pois o Santuário do Bom Jesus do Monte também foi classificado. pela Unesco.
Havia 35 propostas para serem apreciadas em Baku e, segundo relatou a imprensa, especialmente o Público que chamou o tema à sua primeira página, as duas candidaturas portuguesas suscitaram dúvidas que foram esclarecidas e permitiram a sua aprovação. Uma outra candidatura que também foi aprovada era brasileira e propunha a classificação do Centro Histórico de Paraty e a Ilha Grande, o que faz com que a lista dos chamados “patrimónios mundiais de origem portuguesa no mundo” também tenha sido aumentada.
Significa que das 35 candidaturas apreciadas em Baku, três “falavam” português, o que é muito significativo.

quarta-feira, 22 de maio de 2019

A justa consagração de Chico Buarque

Chico Buarque de Hollanda foi o vencedor do Prémio Camões 2019. Fico contente!
O Prémio Camões constitui o mais prestigioso prémio da literatura de língua portuguesa e foi tão grande a justiça da escolha que as felicitações ao premiado surgiram por toda a parte, reconhecendo o seu talento e o seu contributo para a difusão da língua portuguesa, como músico, poeta, romancista e autor teatral. O jornal Público destacou essa boa notícia em primeira página.
Chico Buarque é um dos brasileiros de maior notoriedade artística e uma referência da cultura brasileira em Portugal. Nascido no Rio de Janeiro e com 74 anos de idade, ele é um dos mais inspirados autores da música popular brasileira e na sua obra literária e musical contam-se centenas de canções, dezenas de discos, algumas peças teatrais e vários romances. Não é fácil escolher exemplos do seu talento e da sua criatividade artística, mas talvez se possam distinguir os romances Budapeste e Leite Derramado, que venceram o Prémio Jabuti como livro do ano, ou a inspirada Ópera do Malandro ou, ainda, a peça Morte e vida severina, que musicou. Porém, serão os textos das suas canções, desde a Construção e a Minha história, que o tornaram mais conhecido no Brasil e em Portugal. Crítico da ditadura militar brasileira chegou a auto-exilar-se em Itália. 
A sua homenagem ao 25 de Abril e à revolução dos cravos com a canção Fado Tropical e, em especial, com a canção Tanto Mar, perduram em Portugal como algumas das suas mais inspiradas criações que celebraram a reconquista da Liberdade e da Democracia em Portugal.

Sei que estás em festa, pá. Fico contente!
E enquanto estou ausente, guarda um cravo para mim.

Eu queria estar na festa, pá. Com a tua gente.
E colher pessoalmente, uma flor no teu jardim.
 

segunda-feira, 13 de maio de 2019

Homenagens a Sophia de Mello Breyner

Se fosse viva, no próximo dia 6 de Novembro, a escritora Sophia de Mello Breyner Andresen celebraria cem anos de idade e as homenagens que, com justiça, lhe são devidas já começaram, com o destaque que lhe é dado na última edição do Jornal de Letras.
Sophia nasceu no Porto, estudou e viveu em Lisboa, tornando-se num dos maiores nomes da literatura portuguesa, sobretudo na poesia, mas também com obra na literatura infantil, no teatro, no ensaio, na tradução e em outras expressões literárias. A sua extensa obra está traduzida em várias línguas e foi várias vezes premiada, tendo recebido, entre outros, o prestigiado Prémio Camões em 1999.
Foi uma activa militante em termos cívicos, tendo denunciado o regime salazarista, integrado os movimentos católicos que se lhe opunham e apoiado a candidatura do general Humberto Delgado à Presidência da República em 1958. Após o 25 de Abril de 1974, foi eleita deputada à Assembleia Constituinte pelo círculo do Porto, numa lista do Partido Socialista.
Faleceu em Lisboa no dia 2 de Julho de 2004 e, dez anos depois, foram-lhe concedidas honras de Estado e os seus restos mortais foram transladados para o Panteão Nacional.
Associo-me, desde já, às justas homenagens que são devidas a Sophia de Mello Breyner Andresen, aqui transcrevendo um dos seus mais inspirados poemas:
   
  25 de Abril
  Esta é a madrugada que eu esperava
   O dia inicial inteiro e limpo
   Onde emergimos da noite e do silêncio
    E livres habitamos a substância do tempo.

domingo, 5 de maio de 2019

A grande Feira de Sevilha já começou

Depois das grandes festas da Semana Santa, a cidade de Sevilha entrou de novo em festa com a Feria de Abril de Sevilla, que foi inaugurada ontem e que se vai manter até ao dia 11 de Maio, com uma festa que é única e deslumbrante, que durante sete dias encherá um recinto de 450.000 metros quadrados. Chama-se a Feira de Abril, mas este ano realiza-se em Maio, por razões de conveniência de calendário, sendo um acontecimento lúdico, cultural e gastronómico de grande impacto que se realiza desde 1846.
A Feira inicia-se com a iluminação da portada da Feira, que é um monumento efémero e uma obra de arte que todos os anos é diferente da anterior e que, simbolicamente, acolhe os sevilhanos e os turistas para participar na “feira das feiras”, sendo comum dizer-se que ali começa a Feira e o caminho para a cor, a luz, a diversão e a alegria. A escolha da porta é objecto de um concurso anual e, este ano, foram apresentadas 80 propostas ao Ayuntamiento de Sevilla. A importância da portada é tal que o diário ABC a destaca na sua edição de hoje, deixando para segundo plano as fotos habitualmente mais sugestivas das sevilhanas e dos toureiros.
A Feira é uma manifestação da cultura andaluza e espanhola, que está presente em todas as suas actividades, com destaque para os trajes das mulheres – o traje flamenco, de cigana ou de sevilhana – mas também para as corridas de touros que, diariamente, enchem a Plaza de Toros da Real Maestranza de Sevilla, considerada a catedral do toureio, onde os aficionados acorrem para ver os maiores nomes da tauromaquia.
O programa da Feira é vasto, muito diversificado e é realmente uma atracção turística internacional.

quinta-feira, 2 de maio de 2019

Leonardo da Vinci, o génio renascentista

Se houvesse que escolher a personalidade mais influente ou mais importante da história da Europa, dificilmente se encontraria um nome consensual.
Se houvesse que escolher não uma mas um grupo de dez personalidades, a tarefa ainda tinha grandes dificuldades, pois surgira um nunca mais acabar de nomes de importantes filhos deste Velho Continente e, nessa lista apareceriam Beethoven, Picasso, Mozart, Shakespeare, Werner von Braun, Newton, Gutemberg, Rembrandt, Galileu, Max Weber, Churchill, Vasco da Gama, Pasteur, Karl Marx, Adam Smith, Kant, Gorbachev, Fernão de Magalhães, Marconi, Descartes, Einstein, Miguel Angelo, Bismarck, Arquimedes, João Paulo II, Leão XIII e muitos, muitos outros, homens de talento.
Porém, o nome de Leonardo da Vinci iria provavelmente entrar na short list das mais importantes personalidades da história da Europa, porque foi um dos seus mais talentosos filhos, destacando-se como pintor, matemático, cientista, inventor, engenheiro, escultor, arquitecto, anatomista, botânico, poeta e músico. É o maior símbolo do Renascimento, esse movimento cultural que libertou a Europa das trevas do feudalismo. Pois Leonardo da Vinci, o homem que pintou a Mona Lisa, a Última Ceia e que muitos consideram o maior génio que a Humanidade alguma vez produziu, faleceu no dia 2 de Maio de 1517 na cidade francesa de Amboise.
Perfazem-se hoje 500 anos sobre essa data e não deixa de ser curioso que essa efeméride tivesse sido ignorada pela generalidade da imprensa europeia. Por isso, a evocação que o semanário Expresso fez na sua última edição, reproduzindo o seu famoso auto-retrato na capa da sua Revista,  merece o nosso aplauso.

terça-feira, 9 de abril de 2019

As celebrações ibéricas da volta ao mundo

No próximo dia 10 de Agosto celebra-se o 5º centenário da partida das cinco naus que saíram de Sevilha, que desceram o rio Guadalquivir e entraram em Sanlúcar de Barrameda, de onde partiram no dia 20 de Setembro de 2019 para uma viagem às Molucas, navegando por ocidente. Segundo Le Voyage de Magellan 1519-1522 (edition Chandeigne, Paris, 2017), seguiam a bordo 237 homens, mas com os que embarcaram nas Canárias e no Brasil, terão sido 242 os participantes na viagem, sendo 139 espanhóis (64 andaluzes, 29 bascos, 15 castelhanos, 7 galegos, 5 asturianos, 3 navarros, 2 aragoneses, 2 estremenhos, um murciano e 11 de origem indeterminada), 31 portugueses pelo menos, pois alguns ter-se-ão feito passar por espanhóis, 26 italianos, 19 franceses, 9 gregos, 5 flamengos, 4 alemães, 2 negros, 2 irlandeses, 2 mestiços sendo um luso-brasileiro e outro hispano-americano, um inglês, um goês e um malaio. Entre estes homens encontrava-se Fernão de Magalhães, provavelmente natural da vila transmontana de Sabrosa, que era o seu experimentado comandante. Era, portanto, uma verdadeira tripulação internacional, até porque as Espanhas eram então um extenso número de reinos semi-independentes e ainda não existia um estado espanhol. Daí que tivesse causado um grande escândalo o parecer da Real Academia de História de Espanha divulgado no passado dia 10 de Março, em que a viagem iniciada por Magalhães em 1519 foi considerada "plena y exclusivamente española". 
Hoje o jornal ABC, na sua edição de Sevilha, destaca as comemorações do 5º centenário da primeira viagem à volta do mundo e noticia que os governos espanhol e português acordaram na celebração conjunta desse acontecimento que foi ibérico, mas também europeu, pelo que não faz qualquer sentido a exaltação de glórias nacionalistas que alguns pretenderam introduzir na celebração desta efeméride. Andaram bem os dois governos peninsulares ao chegarem a um acordo quanto ao processo de comemorar a primeira viagem à volta ao mundo.
Segundo foi divulgado, além de  muitas outras iniciativas conjuntas, em 2020 os navios-escolas das Marinhas dos dois países – Buque Escuela Juan Sebástian Elcano e Navio-Escola Sagres – darão a volta ao mundo seguindo a mesma rota que seguiu a expedição de Magalhães e Elcano.
Entretanto, a cidade de Sevilha já reivindica ser o ponto de partida dessa viagem, apesar de haver problemas de calado para o Elcano navegar naquele rio e de haver cabos de alta tensão sobre o Guadalquivir. Apesar disso, a edição local do ABC dá como certa a partida de Sevilha dessa viagem e escolheu exactamente o navio-escola espanhol para ilustrar a sua capa.

quarta-feira, 6 de março de 2019

Os bailinhos de Carnaval da ilha Terceira

A ilha Terceira tem uma história muito rica, um importante património construído e até uma capital que é património da Humanidade, mas o que mais impressiona naquela ilha são as características culturais dos terceirenses, que se revelam nas Sanjoaninas, nas Festas da Praia (da Vitória) e em muitas outras festas que se realizam por toda a ilha, mas também nas touradas, nas marchas, nas danças, nas comédias e, sobretudo, nos bailinhos de Carnaval.
Durante muitas semanas, homens e mulheres das mais diversas idades e profissões, de diferentes graus académicos e estratos sociais, esquecem as diferenças socioculturais, e transformam-se em músicos e actores, juntando-se em ensaios para apresentarem em palco um divertido espectáculo popular que envolve um pouco de todas as artes performativas, como a música, o teatro, o canto e a dança, que entusiasmam uma ilha inteira. São os grupos que vão ao encontro das pessoas e chegam a fazer seis ou mais atuações em cada noite, pela madrugada dentro, nas salas espalhadas por toda a ilha durante os quatro dias de Carnaval. Este ano foram 70 bailinhos, 6 danças de pandeiro, 2 danças de espada, 8 comédias e um monólogo, apresentados em 36 palcos das sociedades recreativas de toda a ilha, sempre cheias, em que participaram 1.970 músicos e actores, sendo 1.136 homens e 833 mulheres. Os bailinhos são, seguramente, uma das mais interessantes manifestações da cultura popular portuguesa, embora sejam pouco conhecidos no território continental.
Os terceirenses também levaram a sua tradição cultural para os Estados Unidos e para o Canadá e todos os anos são apresentados bailinhos que, por vezes, vêm actuar na ilha Terceira. Este ano estavam programados 18 bailinhos na costa Leste americana e 15 na Califórnia, enquanto no Canadá só estavam anunciados 10!
Naturalmente, o terceirense Diário Insular destacou que a ilha esteve embalada pelo Carnaval, até porque, como alguém referiu, a ilha Terceira é uma terra de artistas e hoje, que é quarta-feira, já os terceirenses estão com saudades do Carnaval e a começar a ensaiar as marchas a apresentar nos Santos Populares. Sempre em festa! Viva a alegria da ilha Terceira.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

Amália Rodrigues homenageada em Goa

Já decorreram quase 60 anos sobre a invasão indiana do Estado Português da Índia, mas os traços da memória cultural portuguesa persistem nesses territórios, não só na língua e no património construído, mas também em muitas práticas culturais.
A homenagem agora feita em Goa a Amália Rodrigues, vinte anos depois da sua morte, revela que a memória da cultura portuguesa sobrevive em Goa e que até mostra um grande dinamismo, pois trata-se de uma iniciativa da própria sociedade civil goesa. Um grupo de músicos goeses decidiu criar o grupo Fado de Goa, que se apresentou hoje na cidade de Pangim e que também se vai apresentar na cidade de Margão, num espectáculo de homenagem em que participam diversos fadistas goeses, curiosamente tratados como “students of Fado de Goa”, embora a figura principal seja Sonia Shirsat, uma fadista goesa que já actuou em Portugal e em diversos países onde está presente a diáspora goesa.
Amália Rodrigues esteve uma única vez em Goa em 1992, quando foi convidada pela Fundação Oriente para se apresentar a um público que apenas conhecia a sua voz a partir dos discos e que então vibrou intensamente com a apresentação da rainha do fado e, ao mesmo tempo, com a voz de Portugal no mundo.
O cartaz que divulga “a tribute to the Queen of Fado” fala por si mesmo: a cultura portuguesa em Goa continua viva.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

Uma marca cultural portuguesa em Goa

Começa no próximo dia 1 de Fevereiro em Goa o Monte Music Festival, uma iniciativa da Fundação Oriente que, desde 2001, o organiza anualmente. Durante três dias, não só os goeses, mas também muitos turistas indianos e estrangeiros, procurarão os espaços exteriores e interiores da Capela de Nossa Senhora do Monte, situada numa das mais simbólicas colinas de Velha Goa, para assistir a um dos festivais mais prestigiados da Índia, em que se juntam as tradições musicais clássicas e modernas, tanto ocidentais como indianas.
O festival tem sido uma plataforma de encontro e de comunicação entre as diversas expressões artísticas e musicais do Ocidente e do Oriente e é, seguramente, um dos eventos mais aguardados no calendário cultural de Goa, em que habitualmente são recebidas cerca de três mil pessoas.
O Monte Music Festival é uma iniciativa de grande prestígio para a cultura portuguesa, não só porque nasceu da iniciativa de uma instituição cultural portuguesa, mas também porque tem incluído sempre alguns grupos musicais e artistas portugueses. Com este evento, a memória cultural portuguesa em Goa reanima-se e assume uma postura de modernidade, mostrando que a herança cultural portuguesa em Goa vai para além das igrejas, das muralhas, das casas indo-portuguesas e das saudades do bacalhau e do fado.

quinta-feira, 29 de novembro de 2018

Macau procura preservar a língua patuá

Os portugueses instalaram-se na península de Macau em meados do século XVI e desde então começou a afirmar-se uma língua crioula de base portuguesa, influenciada pelas línguas chinesas, malaias e cingalesas, mas também de inglês, do tailandês, do japonês e de algumas línguas indianas. Essa língua é conhecida como o Patuá macaense, outras vezes como o Papia Cristam di Macau e outras, ainda, como Doci Papiaçam di Macau.
Ao longo do século XX, com o aparecimento de novos meios de comunicação, o Patuá deixou de ser uma língua corrente, entrou em vias de extinção e era conhecido apenas por um número cada vez menor de macaenses. Até que em 1993 surgiu uma associação cultural com o objectivo expresso de salvar e divulgar essa língua crioula, enquanto símbolo identitário, histórico e cultural de Macau. Essa associação é o Grupo de Teatro Dóci Papiaçám di Macau, fundado e dinamizado pelo advogado macaense Miguel de Senna Fernandes, que o jornal Tribuna de Macau destaca na sua última edição.
O Dóci Papiaçám di Macau, tal como outros grupos e associações culturais macaenses, tem procurado proteger o Patuá macaense, apresentando peças teatrais e músicas em Patuá, publicando um Dicionário Português-Patuá e mantendo o objectivo de incluir o Patuá na Lista do Património Oral e Imaterial da Humanidade da Unesco.
O grupo celebra agora 25 anos de vida e a sua actividade é considerada uma referência da cultura macaense por ter feito renascer o interesse pelo Patuá e por agregar pessoas de etnias, classes sociais, idades e sensibilidades diversas, o que de certa forma representa a identidade do território de Macau, isto é, “um lugar comum a muitas pessoas diferentes”.

sexta-feira, 23 de novembro de 2018

A arte africana e o seu regresso às origens

Durante o longo período da colonização europeia do continente africano houve muitos militares, antropólogos, etnólogos, religiosos e outros, que percorriam os territórios coloniais e que regressavam a casa com recordações compradas ou trocadas e, por vezes, roubadas. Noutros casos, durante as acções de ocupação e domínio desses territórios, sobretudo no século XIX, as forças militares ocupantes tomavam posse dos objectos de arte que encontravam e simplesmente transferiam-nos para os seus países onde eram integrados em museus.
Por uma ou por outra via, a parte mais importante do património artístico móvel africano foi transferido para a Europa e, por isso, o British Museum de Londres e o Museu do Louvre de Paris, mas também o Museu Tervuren de Bruxelas, o Museu do Vaticano e muitos outros museus têm nas suas colecções de arte, enormes quantidades de objectos de arte africana. Um dos casos mais notórios é o novo Museu do Quai Branly ou Museu das Artes e Civilizações de África, Ásia, Oceania e Américas, em Paris, que tem um acervo de 300 mil obras das quais cerca de 70 mil são de origem africana. Segundo é referido, habitualmente, os países que têm mais obras de arte nos museus europeus são o Chade, os Camarões, Madagáscar, o Mali, a Costa do Marfim, o Benim, a Etiópia, o Gabão e o Congo.
Com o apoio da Unesco, a África exige agora a restituição de todos esses tesouros artísticos que fazem parte do seu património cultural. Na Alemanha e no Canadá o processo já foi iniciado,  mas no Reino Unido, na Bélgica e na França só agora se iniciou a discussão do complexo assunto. Em Portugal o problema também existirá, mas numa escala incomparavelmente menor.