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quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

Uma nau histórica para servir de museu

Realizou-se ontem nos estaleiros Palmás em Punta Umbría, nas vizinhanças da cidade de Huelva, o lançamento à água de uma réplica da nau Victoria, isto é, da única das cinco naus da frota de Fernão de Magalhães que tendo partido de Sanlúcar de Barrameda em 1519 conseguiu terminar a volta ao mundo em 1522, então com Juan Sebastian de Elcano no comando. A nau Victoria demorou 3 anos e 14 dias a percorrer cerca de 37.753 milhas e a completar a sua viagem de circumnavegação e, quando chegou ao fim dessa histórica viagem, trazia a bordo apenas 18 homens.
Esta réplica é a segunda que se constrói, mas enquanto a primeira foi construída em 1991 para navegar em 1992 durante as Comemorações da Viagem de Cristóvão Colombo, esta nova réplica que foi baptizada como Victoria 500, não foi concebida para sulcar os mares mas apenas para servir como um museu flutuante atracado em Sevilha para celebrar a primeira volta ao mundo. A nau Victoria simboliza esse feito marítimo e científico que foi a viagem de circumnavegação e é pena que em Portugal não se tenha uma iniciativa semelhante que servisse para mostrar aos milhões de turistas que nos visitam um pouco do nosso pioneirismo na abertura do mundo que, naturalmente, teve grandes benefícios para a Humanidade, embora também tivesse outras coisas menos boas. O Diário de Sevilla deu um grande destaque a esta notícia, tal como a generalidade dos jornais da Andaluzia.
Agora que já se iniciaram as obras de integração da antiga Doca da Marinha na paisagem marítima da cidade de Lisboa, que bem que ali ficaria a última nau da Índia, bem conservada e bem iluminada, em vez de estar escondida em Cacilhas onde poucos a vêm.

sábado, 1 de fevereiro de 2020

As singulares mensagens dos ‘graffiti’

Lisboa - Alameda Dom Afonso Henriques
Os graffiti são simples textos ou desenhos feitos nas paredes ou em outras superfícies, por vezes com grande arte e criatividade, mas que são práticas artísticas marginais que sujam e poluem a paisagem urbana, os monumentos, os edifícios e os transportes públicos. Porém, há que reconhecer que os graffiti estão na moda e, nalgumas situações, surpreendem mesmo os mais avessos a este tipo de mensagens, umas vezes pela sua qualidade artística, outras vezes pelo conteúdo da sua mensagem e outras, ainda, pelo humor que nos transmitem.
Na alameda Dom Afonso Henriques e nas proximidades da Fonte Luminosa, em Lisboa, encontra-se uma dessas mensagens que nos atraem, não tanto pelo seu teor anarquista, em que o autor se afirma contra toda a autoridade imposta pelas estruturas do Estado ou da Sociedade, mas em que aceita com reverência a carinhosa autoridade da sua mãe – contra toda a autoridade excepto a da minha mãe.
Esta mensagem é inteligente e bem humorada e, por isso, aqui a destaco.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

Calatrava e a arquitectura de Valência

Santiago Calatrava é um arquitecto e engenheiro espanhol que nasceu em 1951 na cidade de Valência e que é, actualmente, um símbolo maior da arquitectura mundial, pelo seu carácter inovador nas formas e nos materiais que utiliza, em especial o vidro e o aço, mas também pelo arrojo com que estuda as suas soluções a partir de métodos matemáticos e informáticos.
As obras de Santiago Calatrava integram-se na chamada “arquitectura-espectáculo” e, por vezes, parecem desafiar as leis da Física, mas estão hoje espalhadas por muitos países europeus, pelos Estados Unidos, Canadá, Argentina e Brasil, destacando-se mais de quarenta pontes que são classificadas como verdadeiras obras de arte. Em Portugal, Santiago Calatrava deixou a sua marca em 1998 na monumental Gare do Oriente, em Lisboa, cuja cobertura de vidro está equilibrada sobre colunas que se assemelham a um enorme palmar.
Na sua cidade natal de Valência, o arquitecto Santiago Calatrava ergueu a Cidade das Artes e das Ciências, um impressionante complexo arquitectónico formado por oito gigantescas construções, entre elas o Planetário em formato de olho humano adornado com gigantescas pálpebras de aço, um Oceanário e o Palácio das Artes Rainha Sofia.
Hoje o jornal valenciano Las Provincias destaca na sua primeira página a fotografia de Pedro Luis Ajuriaguerra, o fotógrafo espanhol que venceu o Art of Building, um concurso anualmente organizado pelo Chartered Institute of Building do Reino Unido. Ajuriaguerra fotografou o Museu da Ciência, um dos edifícios integrado na Cidade das Artes e das Ciências utilizando o reflexo do edifício para dar a aparência de um estranho tipo de peixe, pelo que deu o título Fish à sua fotografia. É uma fotografia realmente espectacular, bem ao nível da criatividade de Santiago Calatrava.

domingo, 15 de dezembro de 2019

Salvador e a Baía: história e modernidade


A cidade de Salvador é a capital do estado brasileiro da Bahia e foi fundada por Tomé de Sousa na orla de uma grande baía, onde chegou em 1549 com três naus, duas caravelas e um bergantim que tinham saído de Lisboa com um milhar de colonos, soldados e missionários, com ordens do rei de Portugal para fundar uma cidade-fortaleza que seria baptizada como São Salvador da Bahia de Todos os Santos. Até 1763 a cidade foi a sede da administração colonial portuguesa, tendo sido depois transferida para a cidade do Rio de Janeiro.
Hoje, a cidade de Salvador é a sede do terceiro município mais populoso do Brasil com cerca de 2,6 milhões de habitantes, só ultrapassado por São Paulo e Rio de Janeiro, sendo conhecida pela sua arquitectura colonial portuguesa, pela sua cultura marcadamente afro-brasileira e pelas suas características climáticas e paisagísticas tropicais.
A grande baía de Todos-os-Santos é limitada a oriente pela cidade de Salvador e a ocidente pela ilha de Itaparica, que tem 239 km2 de superfície, isto é, a ilha de Itaparica fica em frente da cidade de Salvador, do outro lado da baía, a cerca de 13 km de distância. Dizem os roteiros que os ferry-boats demoram uma hora nessa travessia. Porém, o governador Rui Costa anunciou ontem que um consórcio integrando três empresas chinesas venceu o concurso para a construção de uma ponte Salvador-Itaparica num investimento de seis mil milhões de reais, dos quais 25% serão da responsabilidade do Estado. É o maior projecto de infraestruturas realizado no Brasil nos últimos anos e, com 12,3 km de extensão, a ponte será a segunda maior da América Latina. O consórcio terá um ano para elaborar o projecto e quatro anos para a sua construção, ficando com a gestão e administração do empreendimento por 30 anos. 
A cidade de Salvador e o Estado da Bahia, bem como cerca de dez milhões de pessoas, já estão em festa e a nova ponte vai seguramente inspirar o Carnaval baiano, como hoje sugere o jornal Tribuna da Bahia.

domingo, 8 de dezembro de 2019

Lisboa e as habituais decorações do Natal


Há três dias fotografei o Arco da Rua Augusta e as decorações natalícias que ornamentam aquela rua, cada vez mais movimentada sobretudo depois do turismo ter descoberto a cidade de Lisboa e a tornou num centro internacional de cosmopolitismo.
Os contrastes da fotografia agradam-me, bem como a simplicidade dos enfeites de Natal que se aproxima e a visão da estátua de Dom José I, mirando o estuário do rio Tejo, tudo sugerindo um ambiente calmo e acolhedor que, contudo, é só aparente. De facto, o movimento naquela rua é intenso como nas estações do metropolitano na hora de ponta. O turismo está a transformar a cidade e até induziu a modernização do comércio e o marketing/comunicação que a acompanha, pelo que a Rua Augusta se encheu de uma sinalética adaptada ao turista e de tabuleiros de pastéis de nata ou de pastéis de bacalhau com queijo, para além das muitas camisolas do Cristiano Ronaldo.
Nos últimos anos, o turismo tem estado a atingir níveis que se aproximam do insuportável, mas tem sido ele que tem sustentado o crescimento da economia portuguesa e tem apoiado a convergência com a média da União Europeia, daí resultando também que a prosperidade bateu à porta de muita gente. É um modelo de geometria variável e não se sabe quanto tempo vai durar.

sexta-feira, 15 de novembro de 2019

Bilbau uma cidade cada vez mais cultural


A cidade basca de Bilbau alberga desde 1997 o Museu Guggenheim Bilbao, um dos cinco museus espalhados pelo mundo que pertencem à Fundação Solomon R. Guggenheim, tendo sido projectado por Frank Gehry, um famoso arquitecto canadiano naturalizado americano. Com este equipamento a cidade ritalizou-se e passou a atrair visitantes de toda a parte.
Agora, em consequência dos efeitos culturais gerados pelo Museu Guggenheim, a cidade decidiu apostar em novas iniciativas e uma delas é a colocação de uma artística cúpula na Plaza de Toros de Vista Alegre, que é a terceira praça mais importante da Espanha, depois de Madrid e Sevilha, podendo receber cerca de 15 mil espectadores.
Com a colocação da cúpula, a adaptação do espaço e a modernização das instalações, a empresa proprietária da Vista Alegre pretende atrair eventos de ócio e cultura entre Outubro e Junho, isto é, fora da época taurina, esperando dessa forma rentabilizar a praça de touros que deixou de ser sustentável apenas com a festa tauromáquica. A cúpula será uma estrutura semi-fixa que terá capacidade para cerca de 4.000 pessoas e poderá abrigar eventos como concertos, espectáculos, exposições ou feiras, “algo que Bilbau não tinha”.
O jornal Deia que se publica em Bilbau, destaca hoje na sua primeira página La nueva Vista Alegre, futurista y multiusos, que vai certamente tornar-se em mais um atractivo para a vida cultural de Bilbau e para o turismo. Entretanto, o Parque Mayer em Lisboa continua à espera que se faça qualquer coisa que o possa valorizar.

quinta-feira, 14 de novembro de 2019

Veneza é vítima das alterações climáticas


Mais de 85% da cidade de Veneza está inundada e muitos jornais internacionais publicam hoje imagens da famosa Praça de São Marcos, coberta por uma toalha de água e sem turistas, enquanto uma estação televisiva até mostrou a insólita imagem de um homem nadando naquela praça. É a pior cheia dos últimos 50 anos, com o nível da água a atingir 1,87 metros, o que corresponde ao segundo maior nível de que há registo. Na cripta da Basílica de São Marcos a água subiu até à altura de 1,20 metros, tendo sido a sexta vez em 1200 anos que a basílica sofreu uma inundação e a quarta vez que isso aconteceu nos últimos 20 anos.
A cidade de Veneza tem uma configuração geográfica sui-generis e o seu centro histórico fica situado sobre várias ilhas de uma grande lagoa da costa do mar Adriático, estando servido por 177 canais e mais de quatrocentas pontes, sendo uma cidade absolutamente pedonal onde o transporte é assegurado por embarcações.
A lagoa de Veneza tem três ligações ao mar e está sujeita a grandes variações do seu nível de água devido às marés, sobretudo as marés vivas do Outono, conhecidas por acqua alta e que habitualmente inundam parte da cidade histórica. É o que está a acontecer agora. O jornal La Repubblica destaca a sigla SOS e as autoridades locais declararam o estado de emergência, ao mesmo tempo que exigem que o projecto Mose, constituído por uma rede de barreiras destinadas a proteger a lagoa e impedir a subida do nível da água através das suas três ligações ao mar, que foi anunciado em 2003 e que está orçamentado em 5,5 mil milhões de euros, seja terminado. 
As alterações climáticas são a causa das inundações de Veneza, mas também dos maiores incêndios florestais de sempre que estão a acontecer na Austrália, que podem durar meses e que já se aproximam de Sydney. Porém, o Donald e alguns outros Donalds, nem sequer subscrevem o Acordo de Paris sobre as alterações climáticas de 2015...

domingo, 27 de outubro de 2019

Um forte protesto continua na Catalunha

Ontem a cidade de Barcelona voltou a ser palco de uma grande manifestação em que participaram cerca de 350.000 pessoas mobilizadas pelos Comités de Defesa da República, os CDR, depois de uma semana em que a calma parecia estar a regressar à cidade.
A contestação surgiu no passado dia 14 de Outubro, quando o Supremo Tribunal espanhol condenou os principais dirigentes políticos catalães envolvidos na tentativa de independência da Catalunha a penas que vão até um máximo de 13 anos de prisão. Essa decisão gerou uma onda de protesto que se repetiu ao longo de vários dias em Barcelona e em outras cidades da região autónoma que, muitas vezes, tem derivado para a violência e para o vandalismo, protagonizado por grupos radicais. Porém, embora o problema catalão se esteja a agudizar até porque não há diálogo à vista entre as partes em conflito, este número de manifestantes é bastante menor do que acontecera com outras manifestações.
Embora esse número seja menor do que antes, isso não significa que haja desmobilização por parte dos independentistas catalães. Num inquérito muito participado que o jornal catalão La Vanguardia abriu aos seus leitores, foram-lhes feitas duas perguntas:
1) Vês solução a curto prazo para o conflito catalão (94,1% de respostas negativas)
2) Aprovas os protestos contra a sentença do procés (27,9% de aprovações).
Significa que os catalães têm a noção de que as pretensões independentistas só poderão vir a ser satisfeitas no longo prazo e, naturalmente, num quadro de negociação e de diálogo democrático, mas também que é muito significativa a discordância relativamente à dura sentença proferida pelo Supremo Tribunal.

sábado, 19 de outubro de 2019

O caos tomou conta da cidade de Santiago

O Chile é um país sul-americano cujo território ocupa uma extensa e estreita faixa entre a cordilheira dos Andes e o oceano Pacífico, estendendo-se ao longo de mais de 6.000 quilómetros. Tem cerca de 18 milhões de habitantes e, a partir dos seus indicadores económicos e sociais, designadamente o índice de desenvolvimento humano, o rendimento per capita, a qualidade de vida, a percepção de corrupção e o índice de pobreza, é considerado o país mais desenvolvido da América Latina.
A sua capital é a cidade de Santiago que, segundo informa a promoção turística, é uma cidade moderna, tem ares europeus mas exibe a diversidade latino-americana. Pois foi nesta cidade que, após vários dias de protesto contra o aumento do preço unitário dos bilhetes do Metropolitano que passaram de 800 para 830 pesos, isto é, um aumento de 3,75%, que ontem aconteceram graves distúrbios a lembrar o que está a acontecer em Barcelona, embora com motivações bem diferentes.
Ontem, milhares de pessoas, especialmente estudantes do ensino médio e universitário, forçaram a entrada nas estações do metropolitano sem pagar, destruíram tudo o que puderam e enfrentaram a polícia. A administração do metropolitano, que transporta diariamente quase 3 milhões de pessoas, decidiu encerrar as estações, o que originou o colapso do principal sistema de transporte urbano. Depois instalou-se o caos por toda a cidade, com a vandalização de 41 estações do metropolitano, a destruição de montras, o incêndio de automóveis e de contentores e até de edifícios. Nesta situação, o presidente Sebastián Piñera decretou o estado de emergência na área metropolitana de Santiago, enquanto foram detidos 308 manifestantes.
Naturalmente que o aumento de 3,75% no preço dos bilhetes do metropolitano é apenas um pretexto para o desafio da ordem democrática estabelecida e um sinal de insatisfação, a que se associaram elementos mais radicais apenas interessados na vandalização do património e na criação de condições de intranquilidade.
Paris, Hong Kong, Barcelona e, agora, Santiago, são meras coincidências ou são sinais dos novos tempos que se aproximam?

domingo, 29 de setembro de 2019

Sevilla apresenta “el viaje más largo”

Como tem sido referido em diversos textos já aqui publicados, a frota de Fernão de Magalhães que com a bandeira de Castela saíu para descobrir a passagem do oceano Atlântico para o Mar do Sul e chegar às Molucas navegando para ocidente, largou de Sevilha no dia 10 de Agosto de 1519 e percorreu cerca de 80 quilómetros até à foz do rio Guadalquivir em Sanlúcar de Barrameda. Aí permaneceu durante algumas semanas para ultimar os preparativos da viagem, largando finalmente no dia 20 de Setembro.
Agora que se comemora o 5º Centenário dessa viagem que se tornou na primeira volta ao Mundo, a cidade de Sevilha que foi a capital da expansão marítima espanhola para as Américas e que hoje é uma cidade moderna, dinâmica e ambiciosa, encontrou neste feito histórico uma oportunidade para assumir a liderança dessas comemorações.
Por isso, no quadro das actividades comemorativas espanholas, o programa preparado pela cidade de Sevilha é muito diversificado. Porém, a exposição El Viaje Más Largo: la primera vuelta al Mundo, que está patente em Sevilha no Archivo General de Indias e que apresenta 106 peças e documentos originais é, seguramente, um dos pontos mais altos destas comemorações.
A exposição foi inaugurada no dia 12 de Setembro pelos reis de Espanha e foi organizada pela Acción Cultural Española e pelo Ministerio de Cultura y Deporte, juntando uma colecção de documentos originais únicos, a par de uma apresentação pedagogicamente esclarecedora e com um relato que, no essencial, respeita a verdade histórica, embora seja evidente alguma marginalização da participação portuguesa na viagem. Porém, é uma excelente exposição que interessa a todos os estudiosos da epopeia marítima dos povos ibéricos e, por isso, alguns portugueses já fizeram os 500 quilómetros de Lisboa até Sevilha e, certamente, deram por bem empregue o seu tempo.

domingo, 15 de setembro de 2019

Macron visitou a “sua” terra de Andorra

O Principado de Andorra é um microestado soberano que fica situado nos Pirinéus, encravado entre a região francesa do Midi-Pyrenées e a província de Lleida da região autónoma da Catalunha. Tem uma área de 468 km2 e cerca de 80 mil habitantes, sendo o 16º menor país do mundo em superfície e também o 11º país menos populoso do mundo. Por razões diversas, cerca de um quinto da população do principado é portuguesa e trabalha na hotelaria, no comércio, na construção e até na administração pública.
Diz-se por lá que, se os portugueses deixassem Andorra, de repente e ao mesmo tempo, o país fechava.
O principado é independente desde 1278 e, desde 1993, é uma democracia parlamentar, em que o poder legislativo é exercido por 28 deputados que integram o Conselho Geral dos Vales, a quem também compete escolher o chefe do governo. Por razões históricas, a chefia do Estado é exercida em diarquia, isto é, por duas personalidades ditas co-príncipes, que são o Presidente da República Francesa e o Bispo de La Seu d’Urgell na Catalunha. É um caso que parece não ter paralelo no mundo.
Tanto quanto se sabe, o Bispo de La Seu d'Urgell e o Presidente da França não costumam reunir-se para tratar dos assuntos de Andorra e, aparentemente, não visitam o território que tutelam, como consequência de uma tradição medieval que resistiu ao tempo. Porém, recentemente Emmanuel Macron decidiu visitar Andorra e, à simpatia com que foi recebido e rodeado pela população, correspondeu de igual modo nas ruas da sua capital Andorra la Vella. O Diari d’Andorra, que é o jornal do principado e que se publica em catalão, deu notícia da visita de Macron, mais como turista do que como Chefe do Estado, dizendo que seduziu a população, onde não encontrou os coletes amarelos franceses que tanto o têm contestado.

quinta-feira, 12 de setembro de 2019

O independentismo catalão a arrefecer

Ontem celebrou-se a Diada Nacional de Catalunya ou Dia Nacional da Catalunha que é a festa nacional catalã e que, todos os anos, recorda a resistência popular ao cerco da cidade de Barcelona, que terminou no dia 11 de Setembro de 1714. Este episódio da resistência catalã ocorreu durante a Guerra da Sucessão Espanhola (1701-1714), que envolveu diversas monarquias europeias em torno dos direitos de sucessão à coroa espanhola. Aquele episódio e aquela data tornaram-se o símbolo da Catalunha e a sua oposição ao centralismo de Madrid.
Durante a ditadura franquista a celebração da Diada esteve proibida, mas com a reinstalação da democracia, recomeçou a ser celebrada em 1977 e, em 1980, o Parlamento da Catalunha veio a proclamar o dia 11 de Setembro como o Dia Nacional da Catalunha.
Nos últimos anos a Diada tem constituído uma grande jornada de luta, ao concentrar os protestos contra o governo espanhol de Madrid e as reivindicações independentistas catalãs. Segundo os registos existentes, desde 2012 mais de um milhão de pessoas têm estado nas ruas de Barcelona no dia 11 de Setembro, tendo havido um pico de 1,8 milhões de manifestantes em 2014. Ontem foram 600 mil manifestantes que vieram para a rua e esse número foi o mais reduzido desde que se intensificou a reivindicação independentista, segundo hoje informa o El Periódico de Catalunya. Nem a aproximação da sentença judicial relativa ao procés e à declaração unilateral de independência feita no Parlamento da Catalunha em Outubro de 2017, conseguiram mobilizar o povo. Talvez que a dureza da sentença que se aproxima, possa servir para ressuscitar os catalães para o ideal independentista que, sendo legítimo, não é nada oportuno numa Europa em dificuldade.

quinta-feira, 5 de setembro de 2019

Alterações climáticas a afectar Brasília

A edição de hoje do Correio Braziliense destaca o notícia de que o Distrito Federal registou ontem o dia mais quente do ano e o valor mais baixo da humidade relativa neste século e que, na cidade de Brasília, esse valor atingira os 8%, acrescentando que o tempo seco deverá continuar e que hoje se espera que a humidade tenha um valor semelhante ao de ontem.
Se isso acontecer, isto é, se se verificarem dois dias seguidos com humidades abaixo dos 12%, segundo os critérios da Defesa Civil significa uma situação de emergência.
A Organização Mundial de Saúde indica o valor de 60% como o valor ideal da humidade relativa e, perante esta situação, as autoridades trataram de avisar a população e, entre outras recomendações, alertam para que suspenda a prática de actividades físicas e trabalhos ao ar livre, para que se aumente a ingestão de líquidos e para que se procure vaporizar o ambiente doméstico com vaporizadores ou toalhas molhadas.
Segundo o jornal, não chove no Distrito Federal desde há 94 dias e essa situação torna-se crítica pelo desconforto das pessoas e pelas consequências sobre a saúde da propagação de vírus que circulam no ar e que provocam muitas doenças respiratórias e outras. Por outro lado, as queimadas e os incêndios que têm acontecido na região de Brasília, que já registaram 5.871 incêndios florestais desde Janeiro, segundo revelou o Corpo de Bombeiros, têm deixado o céu de Brasília tomado pela fumaça e, por vezes, quase enquadrando um cenário de apocalipse. É mais um evidente caso das enormes alterações climáticas que estão a afectar o nosso planeta e às quais o Jair parece pouco sensibilizado.
Aqui na cidade de Lisboa também estamos sob um vaga de intenso calor, mas sempre vamos tendo de mais de 30% como valor mínimo da humidade relativa. Porém, já que outra coisa não podemos fazer para além de expressarmos solidariedade, também desejamos que chova rapidamente em Brasília. 

terça-feira, 13 de agosto de 2019

Viva Viana mais a Romaria das Romarias

Elas aí estão!
São as Festas de Agosto em Viana do Castelo ou a Romaria da Senhora da Agonia, provavelmente, as mais famosas festas populares que se realizam em Portugal.
Diz-se que esta centenária festa é a Romaria das Romarias de Portugal, porque mobiliza uma cidade e a região do Alto Minho, mas também porque atrai muitos milhares de visitantes encantados pela religiosidade, pela cor, pelos sons e por uma contagiante alegria popular.
Logo no dia 16 de Agosto realiza-se o sempre esperado Desfile da Mordomia que muitos consideram o verdadeiro ex-libris das Festas, mas todos os dias há outros motivos de interesse cultural, como a Procissão do Mar da Senhora da Agonia, o Cortejo Histórico-etnográfico que envolve cerca de três milhares de participantes, os desfiles de bombos e cabeçudos e muitos outros coloridos desfiles que animam o povo e a cidade durante vários dias. Naturalmente, não faltarão os concertos musicais, os fogos de artifício e a feira onde o visitante encontrará de tudo.
Como pano de fundo, há a inesquecível voz que Amália emprestou à composição de Pedro Homem de Melo e Alain Oulman, que continua a ser um quase-hino da Romaria da Agonia:
Se o meu sangue não me engana
Como engana a fantasia
Havemos de ir à Viana
Ó meu amor de algum dia
Porém, numa festa culturalmente tão extraordinária só fica um pequeno lamento, porque a Romaria da Senhora da Agonia bem merecia um cartaz promocional muito mais criativo.

domingo, 21 de julho de 2019

Sevilha procura protagonismo na História

As celebrações da viagem iniciada em 1519 por Fernão de Magalhães para chegar às Molucas por ocidente e que foi concluída por Juan Sebastián Elcano em 1522, continuam a gerar alguma polémica em que se tem destacado o jornal conservador espanhol ABC que, em 10 de Março de 2019, deu guarida e difundiu um dictamen da Real Academia de la História de España em que era afirmado que “es incontestable la plena y exclusiva españolidad” da primeira volta ao mundo e que “todo en la 1ª vuelta al Mundo fue español”. Esta visão ultranacionalista e errada da História até em Espanha foi condenada e se escreveu que eram “actitudes aldeanas, típicas de rivalidades de Villariba y Villabajo, dignas de un profundo estudio antropológico”.
O assunto parecia ter serenado, não só por ser ridículo, mas também porque os governos de Portugal e de Espanha acordaram em patrocinar celebrações comuns. Porém, na sua edição sevilhana de hoje, o mesmo jornal ABC veio fazer a apologia de Sevilha como o “cabo Canaveral de la vuelta al mundo”, fazendo uma analogia entre a viagem da Apollo 11 que há 50 anos levou o homem à Lua e a viagem iniciada por Magalhães há 500 anos. Esta analogia até pode fazer algum sentido para os conservadores espanhóis e para a promoção da capital da Andaluzia, mas não tem nada de original porque a descoberta do mundo sempre serviu para fazer comparações e para glorificar navegadores. Já em 1776 o economista Adam Smith escreveu que “a passagem do cabo da Boa Esperança por Bartolomeu Dias e a chegada às Antilhas por Colombo foram os maiores e mais importantes acontecimentos da História”, enquanto o filósofo inglês Arnold Toymbee afirmou que a viagem de Vasco da Gama representou o início da era gâmica, em que o ocidente e o oriente se uniram por mar. E há muitos mais autores internacionalmente respeitados que têm utilizado as navegações oceânicas portuguesas como o fenómeno que deu origem ao mundo global do nosso tempo.
Portanto, se assim o entenderem, os conservadores espanhóis até podem escolher outros cabos canaverais não só em Sevilha, mas também em Palos de la Frontera ou em Sanlúcar de Barrameda, tal como podem trocar Colombo por Pinzón ou Magalhães por Elcano. O ridículo não paga imposto.

terça-feira, 25 de junho de 2019

Onde estarão as orcas do Salish Sea?

O Salish Sea é uma grande área marítima que penetra pelo interior da costa ocidental da América do Norte. Constitui um complexo sistema de ilhas e de canais, banhando uma parte do noroeste do estado americano de Washington e uma parte do sudoeste da província canadiana de British Columbia, incluindo a cidade de Vancouver.
Este mar é uma área cuja paisagem marítima é de grande beleza e de invulgar diversidade biológica, sendo frequentado por orcas cujo número tem vindo a regredir, embora actualmente ainda estejam reconhecidos 76 exemplares residentes que são identificados pela sua barbatana dorsal. Alimentam-se sobretudo de salmão-rei ou chinook salmon (Oncorhynchus tshawytscha) e estima-se que cada orca se alimente diariamente com uma dieta de 1400 salmões!
As orcas aparecem nas proximidades de Vancouver desde a primavera ao outono e são responsáveis por uma florescente indústria turística em que, por uma importância de 165,70 euros, se faz um safari marítimo de cerca de 4 horas em que se podem ver as Montanhas Rochosas e as florestas de pinheiros canadianos e, além de outros cetáceos, as famosas orcas. Porém, como hoje anuncia o Star Metro (edição gratuita de Vancouver) ninguém sabe o que se passa com as orcas que são um quase ex-libris da cidade. e que ainda não apareceram. Os meios científicos e ambientais, bem como a opinião pública da bacia do Salish Sea, estão preocupados e não sabem o que se passa. Consequência das alterações climáticas? Escassez de salmão? Sobreutilização turística do Salish Sea? Daí que se volte a salientar que as orcas estão em vias de extinção naquela região do oceano Pacífico.

segunda-feira, 24 de junho de 2019

Vivam a cidade de Angra e as Sanjoaninas

Hoje, dia 24 de Junho, é o Dia de S. João. Ontem, um pouco por todo país, realizaram-se as festas deste santo e os seus muito participados arraiais, sobretudo no norte de Portugal e, em especial, nas cidades do Porto e de Braga. A televisão mostrou essas festas todas e a alegria do povo. Porém, que me desculpem os meus concidadãos e amigos do norte de Portugal, mas as melhores festas de S. João acontecem nos Açores e, muito em especial, na cidade de Angra do Heroísmo. São as Sanjoaninas, que são consideradas as maiores festas profanas dos Açores e que este ano decorrem desde o dia 21 ao dia 30 de Junho. Todos os anos as Sanjoaninas têm um tema e este ano foi escolhido o exílio do rei D. Afonso VI na ilha Terceira com o lema Angra – Regalo de Rei e de Gente.
A cidade de Angra do Heroísmo que em 1983 foi declarada património da Humanidade pela Unesco, transforma-se nestes dias de grandes festejos com a animada participação da população a que se juntam turistas e muitos emigrantes vindos dos Estados Unidos e de outras regiões para participar no vasto programa que inclui desfiles de rua, exposições, concertos em cinco palcos, apresentação de filarmónicas (incluindo a Sociedade Filarmónica Nova Aliança de S. José, na Califórnia) e provas desportivas, embora os ex-libris das Sanjoaninas sejam as marchas populares e as corridas de touros. As marchas e as touradas são um deslumbramento para os terceirenses e, de facto, impressiona como uma ilha tão pequena - embora cheia de história e de grandeza - tem energias e vontades bastantes para preparar e participar em tanta festa em Junho, quando ainda se parecem ouvir os bailinhos de Carnaval, outra das grandes manifestações da cultura popular da ilha Terceira, que aconteceram em Março.
Vivam a cidade de Angra, as Sanjoaninas e a ilha Terceira!

quarta-feira, 12 de junho de 2019

Aí estão as Festas de Lisboa 2019

As Festas de Lisboa já começaram no início do mês, mas a próxima noite, a noite de Santo António, é sem dúvida o seu ponto mais alto. Um pouco por toda a cidade, mas sobretudo nos bairros populares da sua zona histórica, tudo se transforma num enorme arraial com arcos e balões coloridos e com os grelhadores a assar sardinhas que espalham no ar o seu agradável cheiro característico. Multidões de residentes e de turistas entopem as estreitas ruas da Alfama, da Mouraria e da Graça, esgotando litros de cerveja para atenuar o calor da noite, enquanto o ensurdecedor som das músicas mais populares de raiz lisboeta gera congestionamentos sonoros quase insuportáveis. É realmente uma apreciada e colorida festa que anima a cidade.
Num outro palco apresentam-se as marchas populares que desfilam animadamente pela Avenida da Liberdade com os seus figurinos, encenações, danças e canções, sob o entusiástico apoio de milhares de pessoas que aplaudem cada marcha e cada bairro num exercício de rivalidade pouco comum. A televisão costuma fazer um directo, habitualmente apresentado de uma forma demasiado popularucha, mas que permite que no conforto doméstico se acompanhem as marchas e a sua estética e se aprecie o esforço dos marchantes.
Porém, as Festas de Lisboa são muito mais do que arraiais, sardinha assada e marchas populares, pois multiplicam-se as iniciativas, sobretudo musicais. Um dos seus mais característicos ex-libris são os Casamentos de Santo António, em que 16 casais lisboetas presumivelmente com maiores carências financeiras, celebram o seu casamento na Sé de Lisboa com toda a pompa e circunstância, com o apoio da tradição popular e da Câmara Municipal de Lisboa.
As Festas de Lisboa sempre foram muito atractivas, mas com tantos turistas que por aí andam, estão a tornar-se demasiado cansativas, porque já não há espaço, nem sardinhas, nem paciência para tanta gente!

quarta-feira, 29 de maio de 2019

A emoção de um regresso a Goa

Voltar a Goa é um regresso a algumas das melhores memórias da minha vida e é um reencontro com pessoas que estimo desde há muitos anos, mas é também uma leitura renovada sobre um território e uma comunidade que nos seduz pela sua história e pela sua especificidade cultural.
Goa é um dos 29 estados da União Indiana e tem uma personalidade muito própria, por certo derivado da convivência que manteve com os portugueses durante alguns séculos. Porém, o progresso tem alterado quase tudo em Goa, tanto no seu ambiente cultural como na oferta de actividades e serviços, tornando-se um pólo de atracção para as outras regiões da India. Para responder à procura turística e para satisfazer as necessidades crescentes da população, apareceram novas construções, muitas infraestruturas e comércios de todos os géneros, em paralelo com muitas iniciativas empresariais e novas experiências culturais. A vida social dinamizou-se e o turismo tornou-se uma das mais importantes actividades económicas de Goa, gerando rendimentos para muitos sectores da população, uma parte da qual veio de outras regiões da Índia à procura do emprego e da prosperidade que encontram na”Europa da Índia”.
No entanto, perdura em Velha Goa a magia e o encanto da Goa Dourada, a cidade que nos séculos XVI e XVII foi a capital de um império marítimo que se estendeu de Moçambique ao Japão e que, porventura, é um dos episódios mais importantes da História de Portugal. Por isso, é um local tão belo quanto simbólico e, naturalmente,  lá estive hoje em peregrinação emocional e histórica.

sábado, 18 de maio de 2019

O Rio de Janeiro está caindo aos pedaços?

A edição de hoje do jornal O Dia que se publica no Rio de Janeiro é muito sugestiva e apresenta um original grafismo, em que é associado o título e o conteúdo da notícia de primeira página ao próprio logotipo do jornal. Assim, a informação de que o “Rio caindo aos pedaços” fica reforçada perante o leitor, pois o título do jornal até parece que também cai aos pedaços.
A reportagem revela alguma indignação e apreensão por uma série de desastres que têm ocorrido no Rio de Janeiro, a cidade símbolo do Brasil, que denunciam problemas críticos em algumas infraestruturas urbanas e casos reveladores de maior descuido ou de falta manutenção.
Segundo revela a notícia, em menos de um ano, a série de tragédias que têm afectado a cidade impressiona e, entre elas, destaca-se o incêndio do Museu Nacional que foi uma catástrofe para o património cultural brasileiro, o incêndio no Centro de Treino do Flamengo que matou dez jogadores de futebol juvenis, as chuvas torrenciais de Abril que provocaram dez mortes, o desabamento de dois prédios na comunidade da Muzema que ruíram e provocaram a morte de 20 pessoas, o desabamento frequente de ciclovias e, ontem, o desabamento de parte do tecto do Túnel Acústico Rafael Mascarenhas, na Gávea, que tem quinhentos metros de extensão e interrompeu o trânsito num dos acessos de ligação entre a zona sul e a zona oeste da cidade.
Como salienta O Dia, o Rio de Janeiro, que é o cartão postal do Brasil, está caindo aos pedaços. Será, sobretudo, um título sensacionalista, mas também é um aviso dirigido às autoridades porque as infraestruturas urbanas não são eternas e exigem atenção e manutenção.