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terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

Brexit: adiamento ou novo referendo

Jeremy Corbyn, o actual líder do Partido Trabalhista britânico, que é o principal partido da oposição na Câmara dos Comuns, declarou ontem à noite que vai apoiar um segundo referendo sobre o Brexit para evitar uma saída da União Europeia sem acordo, o que a acontecer, segundo muitos especialistas, seria uma tragédia não só para o Reino Unido, mas também para a União Europeia.
Jeremy Corbyn não tinha, até agora, aceite apoiar um segundo referendo, pelo que esta declaração altera muito os dados do problema e pode ajudar a que seja encontrada uma solução.
O divórcio entre o Reino Unido e a União Europeia está anunciado para o dia 29 de Março, mas a confusão e a incerteza são totais, com cada um dos dois maiores partidos britânicos muito divididos e até sob ameaça de se desintegrarem. Em relação ao Brexit já ninguém percebe o que querem uns e o que querem os outros. Atenuaram-se fronteiras ideológicas e formaram-se grupos. O problema principal parece ser a fronteira da Irlanda do Norte, conhecido por backstop, mas há outros problemas. Entretanto, Theresa May continua a correr para Bruxelas sem conseguir trazer nada de novo, o que faz aumentar a confusão. Agora há uma proposta subscrita por dois deputados, um trabalhista e outro conservador, em que é pedida uma extensão do prazo do Brexit, sabendo-se que essa proposta tem largo apoio em ambas as bancadas do Parlamento. E há a nova posição de Jeremy Corbyn que sempre pediu eleições antecipadas e que agora diz aceitar a realização de um novo referendo.
Significa que, já na recta final do processo, começam a aparecer propostas mais sensatas e mais prudentes, o que mostra que os caminhos percorridos pela obstinada Theresa May conduziram a um beco sem saída, mas o facto é que ela não se demitiu nem foi demitida, o que ainda gera mais confusão.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

O julgamento para a História de Espanha

Começa hoje em Madrid o julgamento de 12 dirigentes independentistas catalães acusados de estarem envolvidos na tentativa de secessão da Catalunha, quando organizaram um referendo sobre a independência daquela região autónoma espanhola e, pela voz de Carles Puigdemont, proclamaram a independência no dia 27 de Outubro de 2017, embora a tenham suspendido de imediato.
O julgamento que o Supremo Tribunal vai hoje iniciar era desejado por Mariano Rajoy, o anterior chefe do governo espanhol, que imaginava que ele serviria para acabar com o independentismo, mas não é certamente desejado por Pedro Sánchez, o actual chefe do governo, que tem adoptado uma estratégia diferente de Rajoy para enfrentar o problema catalão e que, ao contrário do seu antecessor, tem sido dialogante. Porém, nos últimos dias realizaram-se grandes manifestações pela unidade nacional em todo o país e contra as alegadas cedências que Pedro Sánchez tem feito aos independentistas, a mostrar que as tensões e os problemas entre Madrid e Barcelona continuam vivos.
Entretanto, o Ministério Público pediu penas que vão até aos 25 anos de prisão contra os acusados, por alegados delitos de rebelião, sedição, desvio de fundos e desobediência. A figura principal do procés, nome que designa o processo independentista e a tentativa de proclamação de uma república catalã que ninguém no exterior apoia, é o ex-presidente do governo catalão Carles Puigdemont, que fugiu para a Bélgica e já foi julgado na Alemanha e que, naturalmente, será o grande ausente.
Hoje toda a imprensa espanhola, a começar pelo El País, destaca o julgamento que se espera demore três meses e que vai certamente constituir um acontecimento histórico para o futuro da Espanha, enquanto elo de união entre 17 comunidades autónomas.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

As sucessivas derrotas de Theresa May

A votação ontem realizada no Parlamento britânico serviu apenas para definir que não haverá Brexit sem um acordo com a União Europeia e que é necessário renegociar alguns pontos desse acordo, sobretudo em relação à fronteira entre a Irlanda do Norte e a República da Irlanda.
Theresa May foi mandatada para voltar a Bruxelas, mas depois de ter defendido o acordo antes alcançado e ter visto a sua rejeição no Parlamento por uma diferença de 230 votos, não se vislumbra como poderá convencer a União Europeia a reabrir negociações, sobretudo depois das repetidas declarações dos seus líderes nacionais de que não era possível a retoma de negociações e que se tratava de um assunto encerrado.
Theresa May foi humilhada pelo seu Parlamento e agora terá de ir a Bruxelas para ser humilhada uma vez mais. É um invulgar caso de teimosia que já ninguém compreende. A história do Reino Unido e a sua primeira-ministra não podem dar ao mundo esta imagem de decadência. Winston Churchill e Margaret Thatcher devem estar muito incomodados.  
A menos de dois meses da anunciada saída da União Europeia, o problema está a complicar-se e hoje é evidente que nem os eleitores britânicos, nem os partidos políticos e os seus deputados, sabiam das consequências do que ia acontecer depois do referendo do dia 23 de Junho de 2016. A discussão que se arrasta há muitos meses entre uma corrente que conserva o orgulho vitoriano e uma outra corrente moderna e europeísta, já abalou o prestígio do Reino Unido, que está mesmo à beira de um precipício. A partir de agora ninguém poderá fazer previsões porque, tanto o melhor como o pior, podem acontecer.

terça-feira, 29 de janeiro de 2019

A crise do Brexit e a palavra da Rainha

Se tudo correr como está previsto, o Reino Unido deixará a União Europeia no próximo dia 29 de Março, isto é, daqui a 60 dias. Porém, a confusão é total, ninguém se entende e já está consolidada a ideia que haverá um adiamento da saída. O plano de Theresa May para o Brexit foi derrotado pelo Parlamento no passado dia 15 de Janeiro, pelo que hoje será apresentado uma espécie de plano B em que já ninguém acredita, a não ser a própria Theresa May.
Nestas circunstâncias, os britânicos voltam a estar confrontados com a discussão em torno do leave ou do remain, havendo ainda os que defendem o soft Brexit e os que temem o hard Brexit. Depois há os inúmeros problemas regionais e sectoriais que estão por resolver, com destaque para a fronteira da Irlanda em que os unionistas e os republicanos da Irlanda do Norte ainda não se entenderam, mas também há a ameaça da Escócia de se divorciar do Reino Unido depois de 300 anos de casamento.
Nesta enorme confusão, a Rainha Isabel II tem mantido a sua tradicional postura de neutralidade em relação aos temas políticos, mas recentemente veio a público apelar discretamente para que os políticos britânicos se entendam e, sem mencionar o Brexit, a disse aos políticos para encontrarem “um caminho comum” e para que fossem respeitados os pontos de vista diferentes. Os analistas de imediato associaram as palavras da Rainha à crise do Brexit e à discussão que vai decorrer em torno do plano B.
O Daily Express foi um dos jornais que destacou as palavras da Rainha indirectamente dirigidas à classe política e que foram um contributo para a cura de uma Grã-Bretanha tão dividida.

domingo, 20 de janeiro de 2019

A voz da Escócia está contra Theresa May

A primeira-ministra britânica Theresa May deverá apresentar amanhã no Parlamento uma nova proposta de acordo para o Brexit, mas mesmo que essa proposta venha a ser aprovada, não é seguro que a União Europeia aceite qualquer alteração ao acordo que já tinha sido alcançado. Por isso, são cada vez mais as vozes que acusam Theresa May de teimosia e que clamam por outras soluções.
Os escoceses são quem mais se opõe ao Brexit. No referendo de 2016 já tinha havido 62% de votos escoceses contra o Brexit, pelo que a contestação aos planos de Theresa May está em linha com a votação de 2016, enquanto o bicentenário jornal The Herald, que se publica em Glasgow, envia hoje uma clara mensagem a Theresa May: stop this now.
Nesta edição, o jornal inclui entrevistas a várias personalidades políticas, empresariais e académicas a que chamou a Escócia cívica, tendo concluído que o Brexit deve ser adiado e que deve ser evitado o caos que será uma saída em finais de Março sem acordo, que seria desastroso para a economia e para a sociedade escocesas.
Os entrevistados acusam a primeira-ministra de, em dois anos e meio, não ter sido capaz de fazer um acordo satisfatório e de ter lançado o Reino Unido numa grande incerteza, afirmando que é preciso parar o relógio, isto é, pedir à União Europeia a extensão do artigo 50 do Tratado de Lisboa - que regula os procedimentos a que deve obedecer o estado-membro que tenha a intenção de abandonar a União Europeia - e voltar a dar a palavra aos eleitores britânicos.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

O acordo que humilhou Theresa May

Perante o que sucedeu ontem no Parlamento britânico é preciso lembrar que o referendo sobre a permanência do Reino Unido na União Europeia se realizou no dia 23 de Junho de 2016, que votaram 33,5 milhões de eleitores e que 48,11% escolheram remain e 51,89% escolheram leave. A Escócia e a Irlanda do Norte, tal como a cidade de Londres, votaram pelo remain, enquanto a Inglaterra e o País de Gales votaram pelo leave. O Reino Unido ficou dividido e a decisão de avançar com o Brexit tinha uma enorme fragilidade política, como se tem observado.
A primeira-ministra Theresa May avançou para Bruxelas e iniciou as negociações tendentes ao divórcio. O desafio era complexo e à medida que o processo avançava, apareciam inesperadas dificuldades a mostrar que a análise custo-benefício da decisão britânica era mais desfavorável do que inicialmente se pensara. As incertezas começaram a perturbar a opinião pública britânica, mas o acordo entre Londres e Bruxelas acabou por ser obtido.
Ontem, o plano para a saída do Reino Unido da União Europeia teve 202 votos a favor e 432 votos contra. Foi uma estrondosa derrota para o governo de Theresa May que viu 118 dos seus 317 deputados a votar contra a sua proposta. “A complete humiliaton”, escreveu hoje a edição do The Daily Telegraph.
A saída da União Europeia prevista para 29 de Março ficou comprometida. Theresa May tem agora três dias para apresentar uma nova proposta, mas da parte europeia tem sido repetido que não haverá quaisquer revisões do acordo já conseguido.
As hipóteses sobre o que se poderá passar são uma incógnita. Jeremy Corbyn, o líder trabalhista, já anunciou a apresentação de uma moção de censura, o que pode significar que May esteja a poucas horas de se demitir, o que abre a porta a eleições gerais antecipadas, enquanto a realização de um segundo referendo ganha cada vez mais apoiantes. David Cameron bem pode andar preocupado com o imbróglio que arranjou no Reino Unido.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

Ainda as marcas da 2ª Guerra Mundial

A 2ª Guerra Mundial terminou há mais de setenta anos mas, de vez em quando, ainda aparecem bombas que não explodiram, sobretudo nos países mais afectados pelos bombardeamentos, isto é, na Inglaterra, na França e na Alemanha.
Desta vez foi na cidade de Limoges, no centro da França, que foi encontrada uma bomba inglesa de 250 Kg durante os trabalhos de realizados na gare ferroviária de Puy Imbert. De acordo com o jornal Le Populaire du Centre que se publica em Limoges, esta bomba terá sido lançada durante o bombardeamento efectuado pela Royal Air Force na noite de 23 para 24 de Junho de 1944 sobre aquela gare, que destruiu cerca de 700 carruagens e interrompeu a circulação ferroviária durante uma semana, mas adianta outra hipótese. A bomba também poderá ter sido utilizada num outro bombardeamento igualmente efectuado pela Royal Air Force, na noite de 8 para 9 de Fevereiro de 1944, que teve como alvo a fábrica Gnome et Rhône, que ficava próximo da gare de Puy Imbert, que então era conhecida por Arsenal por fabricar motores de avião e que tinha sido requisitada pelos alemães. Embora este bombardeamento tivesse sido de “uma rara precisão”, segundo o jornal, algumas bombas poderão ter falhado o alvo.
Os serviços de desminagem da protecção civil intervieram e a bomba foi desactivada e destruída no dia 8 de Janeiro, mas o que surpreende é que ao fim de tantos anos ainda continuem a aparecer bombas por explodir.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

Os ventos que sopram no Reino Unido…

No próximo dia 15 de Janeiro os deputados britânicos vão votar o acordo de saída do Reino Unido da União Europeia, uma votação que esteve prevista para o dia 11 de Dezembro e que a primeira-ministra Theresa May tinha decidido adiar por temer que fosse reprovado.
As expectativas quanto ao que vai acontecer agora são enormes e os cidadãos britânicos devem andar absolutamente desorientados, porque já não sabem de saem ou se ficam. Na passada terça-feira, Theresa May perdeu uma votação no Parlamento por 306 votos contra 296, verificando-se que 20 deputados conservadores se juntaram à oposição. Ontem à noite, por 308 votos a favor contra 297, Theresa May sofreu uma segunda derrota no Parlamento em relação à saída britânica da União Europeia. Parece confirmar-se, portanto, que o Partido Conservador está com duas dezenas de deputados rebeldes que vão, previsivelmente, levar à rejeição do acordo do Brexit negociado com Bruxelas. O jornal The Times noticia em primeira página que os rebeldes infligiram uma derrota histórica a May que, apesar de tudo, revela persistência ou até mesmo teimosia.
É previsível a derrota de Theresa May no dia 15 e, a acontecer, aprofundará a incerteza sobre o futuro do Brexit, que é a maior mudança na política externa e na política comercial do Reino Unido desde há muitos anos. Theresa May não vai ter maioria parlamentar para aprovar o acordo de retirada da União Europeia e essa derrota abre caminho para vários resultados diferentes, que vão desde uma saída desordenada da União Europeia, até à realização de um novo referendo ou, noutro plano, à demissão de Theresa May e à realização de eleições antecipadas.
Os ventos que sopram no Reino Unido são muito preocupantes para os britânicos e, por contágio, para todos os europeus.

terça-feira, 11 de dezembro de 2018

As pesadas derrotas de May e de Macron

O Brexit de Theresa May e os coletes amarelos de Emmanuel Macron têm provocado muita instabilidade no Reino Unido e na França, embora de contornos diferentes. Ontem, quer Theresa May quer Emmanuel Macron, vieram assumir o revés das suas políticas e declarar-se derrotados, mas a derrota do Reino Unido e da França não são nada boas para a Europa...
May surpreendeu ao decidir suspender a discussão e votação do acordo sobre o Brexit celebrado com a União Europeia que deveria realizar-se hoje e esse adiamento significa que o governo britânico percebeu que ia ser derrotado, lançando mais incertezas e mais dúvidas quanto ao futuro. Assim, ao empurrar a discussão do problema para mais tarde, a sua derrota vai aprofundar-se e tudo se conjuga para que haja eleições antecipadas e que o Brexit venha a cair no caixote do lixo, embora todo o cenário político britânico seja cada vez mais imprevisível e incerto.
Quanto a Macron, que ontem falou aos franceses numa declaração que muito o enfraqueceu, tratou de lhes pedir desculpa, de prometer várias coisas e de satisfazer várias reivindicações dos coletes amarelos, sobretudo a redução dos impostos e o aumento do salário mínimo, numa tentativa de travar a sua cólera. Dizem os analistas que falou tarde demais e que a revolta popular, agora contra a desigualdade e a injustiça, não vai parar, o que é bem preocupante. Há mesmo quem lhe chame a Revolução Francesa de 2018.
Na sua edição de hoje, o americano The Wall Street Journal associa as duas situações porque, tanto num caso como no outro, o poder político está a ser fortemente contestado e vê-se obrigado a ceder à voz da opinião pública ou ao poder da rua. Embora sujeitos a ventos diferentes, o Reino Unido e a França tremem e, se esses países tremem, a Europa corre sérios riscos de também tremer porque, para o bem ou para o mal, a globalização já não deixa ninguém isolado. Lá longe e no meio de tanta incerteza na velha Europa, o Donald parece satisfeito.

domingo, 9 de dezembro de 2018

Confusão e incerteza ensombram o Brexit

A última edição da revista The Economist trata das enorme dúvidas que estão a turvar o horizonte dos britânicos relativamente ao Brexit e aponta um caminho, ou “a melhor maneira de sair da confusão do Brexit”.
O acordo para a saída do Reino Unido da União Europeia foi negociado durante 17 meses e chegou ao fim num texto de 585 páginas, tendo sido aprovado pelo Conselho Europeu no dia 25 de Novembro, por entre declarações de ser um “dia triste”, ou ser mesmo “uma tragédia”, como disse Jean-Claude Juncker.
Em qualquer acordo há sempre cedências de ambas as partes e, para muitos deputados britânicos, os negociadores de Theresa May cederam demasiado. Na próxima terça-feira, o acordo de 585 páginas vai ser votado no Parlamento britânico e há sérias dúvidas quanto ao resultado, porque há demasiada confusão e muita incerteza quanto ao futuro, o que de resto é retratado na capa que ilustra a última edição do The Economist. A eventual rejeição do acordo de saída do Reino Unido da União Europeia e da declaração sobre as relações futuras entre ambos poderá acontecer como resultado de um consenso inesperado entre eurocépticos e euroentusiastas, unidos à volta do Partido Trabalhista, dos Liberais Democratas, dos nacionalistas escoceses, galeses e de muitos conservadores. O problema continua a dividir os britânicos e, aparentemente, Theresa May não vai conseguir que o acordo seja aprovado. A confusão será ainda maior, com uns a defender a revogação do acordo e outros a sua renegociação, que a União Europeia não parece aceitar. Há uma grande desorientação entre os políticos e aumenta a oposição a Theresa May , assim como a convicção de que o Brexit falhou. A ser assim, a saída deste imbróglio poderá ser um novo referendo ou, mais provavelmente, eleições gerais antecipadas.
O que não há dúvidas é que a votação da próxima terça-feira pode muito bem lançar mais incerteza no futuro do Reino Unido, mas também na União Europeia.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

Paris é Paris, mas Lisboa é Lisboa

O movimento dos coletes amarelos está a lançar crescentes preocupações, não só na França, mas um pouco também por toda a Europa, porque já ultrapassou a questão de partida que foi o aumento dos combustíveis e se centra agora na contestação ao modelo de sociedade em que vivem os franceses e os outros europeus. O recuo do Presidente Macron não foi suficiente para travar o protesto, talvez porque tivesse chegado tarde demais e quando o radicalismo já tinha tomado conta do movimento.
Hoje os jornais franceses revelam receios pelo que possa acontecer amanhã em Paris e nas outras cidades francesas, mas as imagens televisivas que nos chegam de outras cidades europeias, por exemplo na Espanha e na Grécia, mostram que a contestação "à francesa" já lá chegou. É um momento de grande preocupação para os europeus, porque acontece quando a instabilidade está a ameaçar todo o continente com o Brexit, com a tensão na Ucrânia e a saída de Angela Merkel, a derrota de Macron, as tensões migratórias e as derivas populistas de alguns países. A Europa parece estar a perder o seu rumo.
Aqui nesta periferia ocidental da Europa também algo de instável está a acontecer, embora pareça estar associado às eleições que se aproximam. Com a recuperação do poder de compra dos trabalhadores e a melhoria global da situação económica do país, era de esperar a paz social. Porém, os partidos políticos e os sindicatos têm apoiado inúmeras greves que, embora possam ser justas e defendam os trabalhadores, não são mais do que instrumentos de luta política. Muitas das greves em curso ocorrem em sectores privilegiados da sociedade, nomeadamente no sector público, onde os direitos e as garantias dos trabalhadores são mais protegidos do que em qualquer outro sector. Os portugueses, e em especial os contribuintes, não compreendem este surto grevista e há fundados receios de que as greves e algum radicalismo a elas associado, possam ter graves consequências para o país. Algumas já estão à vista. Ninguém quer ver aqui o que está a acontecer em Paris. Que cada qual assuma as suas responsabilidades.

quinta-feira, 15 de novembro de 2018

O acordo do Brexit é só um pequeno passo

Foi anunciado ontem que o governo de Theresa May aprovou o rascunho do acordo sobre a saída do Reino Unido da União Europeia, depois de muitos meses de negociações entre Londres e Bruxelas.
Trata-se de um documento de 585 páginas que contempla inúmeras questões como por exemplo a compensação financeira devida à saída britânica, os direitos dos cidadãos europeus no Reino Unido e dos cidadãos britânicos na Europa dos 27, os protocolos sobre o estatuto de Gibraltar e sobre as bases militares britânicas no Chipre, os procedimentos relativos à futura fronteira entre a Irlanda do Norte britânica e a República da Irlanda e, naturalmente, a problemática das futuras relações económicas britânicas com a Europa. Porém, a aprovação do governo de Theresa May não foi pacífica e onze dos seus membros terão estado contra, com o ministro dos Transportes a demitir-se e a pedir que fosse realizado um segundo referendo sobre o Brexit.
Significa que o caso ainda está para durar. O Conselho Europeu terá que validar o acordo nos próximos dias  e depois tem a palavra o Parlamento Britânico, mas há muitas dúvidas quanto à resposta que ele vai dar a este acordo, havendo muitas vozes da maioria que se lhe opõem. De seguida, ainda o Conselho e o Parlamento Europeu terão que votar a sua aprovação.
O jornal The Guardian diz hoje que no Reino Unido está tudo dividido, isto é, o governo, o Partido Conservador e o próprio país, com a Escócia à frente da contestação. O Brexit está, portanto, muito longe de estar resolvido. Falta convencer ministros, deputados e a opinião pública britânica, mas do lado europeu e dos aliados do Reino Unido também parece haver insatisfação. Até há quem venha afirmando que em vez de um acordo do Brexit, o que vai acontecer é a realização de eleições num futuro próximo para decidir, por essa via e sem segundo referendo, o que deverá ser feito.

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

Grande Guerra e a homenagem da França

Paris foi ontem o centro do mundo e Emmanuel Macron, cem anos depois do armísticio que pôs fim à I Guerra Mundial, foi o anfitrião de mais de 70 líderes e chefes de Estado que se juntaram para homenagear os milhões de mortos e feridos da Grande Guerra.
O presidente francês começou por receber os representantes internacionais no Palácio do Eliseu, de onde seguiram para o Arco do Triunfo e foi nesse local que o chefe de estado de França deixou um alerta contra o ressurgimento dos nacionalismos. No seu discurso Emmanuel Macron lembrou o “inferno” passado pelos que combateram nas trincheiras desta guerra, os 10 milhões de homens que morreram, os milhões de mulheres que ficaram viúvas e os milhões de crianças que ficaram órfãs e, num apelo à paz, disse que “a lição da Grande Guerra não pode ser a do ressentimento entre os povos, e o passado não pode ser esquecido” e acrescentou que “o patriotismo é exactamente o contrário do nacionalismo”.
A cerimónia teve grandeza e espectacularidade, como mostraram as televisões estrangeiras, já que as televisões portuguesas se revelaram uma vez mais alheias e desinteressadas do que acontece no mundo. Hoje, os jornais de todo o mundo tratam das comemorações em França e publicam a expressiva fotografia da primeira fila da tribuna onde, entre outros, estão Macron e Merkel, Trump e Putin.
A mediocridade da imprensa portuguesa, cuja tematização se aproxima cada vez mais do ridículo e que revela uma absoluta menoridade cultural, destaca hoje como principal notícia a detenção do ex-dirigente desportivo Bruno de Carvalho. É uma vergonha para qualquer dos directores dos nossos jornais de referência e para os jornalistas sérios que lá trabalhem. Que pena não termos um Almada Negreiros para retratar com um manifesto estes Dantas do nosso tempo.

domingo, 11 de novembro de 2018

O encontro da reconciliação franco-alemã

Perfazem-se hoje cem anos sobre a data em que franceses e alemães assinaram o armistício em Compiègne, no norte da França, que acabou com a Grande Guerra. Ontem, numa cerimónia de grande simbolismo, Emmanuel Macron e Angela Merkel depositaram uma coroa de flores e inauguraram uma placa na clareira de Rethondes, onde é reafirmado o "valor da reconciliação franco-alemã ao serviço da Europa e da paz". Depois Macron e Merkel entraram no reconstituída carruagem onde, na madrugada de 11 de Novembro de 1918, a Alemanha se rendeu oficialmente encerrando mais de quatro anos de guerra na frente ocidental.
Foi a primeira vez desde 1940, que um Presidente francês e um chefe do governo alemão se reuniram neste memorial. Antes, no início da 2ª Guerra Mundial, Hitler tinha escolhido o mesmo local e a mesma carruagem para que, no dia 22 de Junho de 1940, ali fosse assinada a rendição dos franceses. Era a vingança alemã pela humilhação francesa de 1918. Para esse efeito, a histórica carruagem ferroviária foi então retirada de um museu para servir de palco à cerimónia com a presença de Hitler, mas durante a guerra a carruagem foi destruída e hoje é uma réplica que está agora no local.
O encontro de ontem entre Macron e Merkel assinalou a reconciliação entre os dois países que travaram três guerras entre 1870 e 1945,  mas que agora são os eixos da paz na Europa Ocidental. Toda a imprensa francesa destacou a paz e a reconciliação franco-alemã, como por exemplo Le Courrier picard, que se publica em Amiens, a cidade que mais próximo fica de Compiègne. Hoje, Macron e Merkel viajam para Paris, onde cerca de sete dezenas de líderes mundiais se reunirão para assinalar o 100º aniversário do fim da guerra junto do túmulo do Soldado Desconhecido, sob o Arco do Triunfo. Marcelo Rebelo de Sousa é um deles.

domingo, 21 de outubro de 2018

A complexa e difícil gestão do Brexit

Um número estimado em meio milhão de pessoas agitando as bandeiras azuis e douradas da União Europeia participou ontem em Londres numa manifestação para exigir ao governo britânico a realização de um novo referendo sobre o Brexit. Não foi a primeira manifestação deste tipo porque no passado mês de Junho uma outra fôra realizada, então com cerca de 100 mil pessoas.
O que está em causa é o referendo que foi realizado no dia 23 de Junho de 2016, em que 51,8% dos 16 milhões de votantes britânicos escolheram sair da União Europeia, enquanto 48,2% escolheram permanecer. Este equilíbrio de posições revela que o Reino Unido estava dividido quanto a esta questão e que os dois anos já decorridos desde então, mostram que a divisão continua e que há muitas dificuldades políticas e económicas, mas também culturais, para ultrapassar. O governo de Theresa May tem mostrado muitas dificuldades na condução do processo e o seu governo tem mostrado alguma falta de coesão. A oposição trabalhista também tem insistido na necessidade de repensar o Brexit e, sobretudo, há novos sectores da população que parece estarem a acordar para uma realidade que a propaganda populista escondeu dos eleitores há dois anos. Aparentemente há agora mais britânicos a preferir a permanência britânica na União Europeia do que antes.
O jornal espanhol La Vanguardia destacou a grande manifestação de Londres na sua primeira página, mas nenhum jornal britânico destacou esta notícia, talvez por andarem demasiado atarefados com as notícias do Harry, o neto de Isabel II que anda a passear pela Austrália. As dificuldades de Theresa May são enormes e os observadores já se interrogam sobre se o Brexit vai por diante sem que haja eleições ou um novo referendo. O que parece não haver dúvidas é que, com ou sem Brexit, vão soprar ventos muito fortes nas ilhas Britânicas.

quinta-feira, 4 de outubro de 2018

Theresa May e o marketing político

Theresa May, a líder do Partido Conservador e primeira-ministra da Grã-Bretanha, falou ontem aos seus correlegionários em Birmingham, durante o congresso do seu partido, poucos minutos depois do deputado James Duddridge lhe ter apresentado a demissão do governo e de ter afirmado que ela não é pessoa certa para liderar o partido e o país.
Muitos observadores consideram que a atitude de Duddridge está em linha com as posições de Boris Johnson, que se demitiu do cargo de Ministro dos Negócios Estrangeiros e se prepara para se apresentar como alternativa à liderança dos conservadores.
Neste quadro de críticas e numa altura em que o ambiente é pesado e incerto no Partido Conservador e na Grã-Bretanha pela falta de acordo com Bruxelas relativamente ao Brexit, os congressistas estavam muito ansiosos para ouvir Theresa May num momento particularmente difícil. Porém, por vezes o marketing político pode fazer milagres e foi isso que aconteceu:
Theresa May subiu ao palco ao som de “Dancing Queen”, dos Abba, não deixando de exibir boa disposição e de ensaiar alguns passos de dança. Mesmo antes de falar, já tinha conquistado a plateia que a aplaudiu com entusiasmo. Os congressistas gostaram e os passos de dança de Theresa May encheram as redes sociais, enquanto toda a imprensa britânica os reproduziu em primeira página.

sábado, 29 de setembro de 2018

Angela Merkel quase a pendurar o casaco

A chanceler Angela Merkel vai no seu quarto mandato e, como o primeiro se iniciou em 2005, significa que está há 13 anos à frente do governo alemão. Como nunca teve uma maioria absoluta, a chanceler Merkel tem governado sempre com o apoio de coligações e tem tido a habilidade de as formar e manter, daí resultando uma grande estabilidade política para a Alemanha. Porém, o tema dos refugiados tem-lhe provocado muitas críticas e alguma impopularidade, não só no interior da sua coligação como revelam as sondagens, mas também a nível europeu, sobretudo em países como a Itália, a Áustria, a Hungria, a República Checa, a Polónia e a Eslováquia.
Apesar do apoio de Emmanuel Macron, que também está a passar por uma baixa de popularidade, ou de Pedro Sanchez, que ainda não se consolidou como primeiro-ministro de Espanha, o facto é que Angela Merkel perdeu o fulgor político de outros tempos e tem poucas aparições públicas. Algumas vezes, ela e o seu ministro Wolfgang Schäuble, pareceram liderar e dominar a União Europeia, mas esses tempos já são do passado. Hoje, muitos alemães mostram insatisfação e já consideram que ela esteve demasiado tempo no poder. Na sua edição de hoje, a revista Der Spiegel mostra na capa um dos celebérrimos casacos de Angela Merkel pendurado, numa clara insinuação de que deve abandonar o poder ou, como se diz em gíria, arrumar as botas.
Quando isso acontecer, a Europa vai certamente passar por mais um valente sobressalto.

quarta-feira, 26 de setembro de 2018

Valls e uma nova ideia para Barcelona

As eleições autárquicas em Espanha vão ser realizadas no dia 26 de Maio de 2019, isto é, daqui a oito meses, por acaso coincidindo com as eleições para o Parlamento Europeu. Ainda falta muito tempo, mas no caso de Barcelona, já apareceu um candidato de peso, bem à medida da importância da autarquia e, quem sabe, se não será a chave para a resolução do problema catalão. Trata-se de Manuel Valls, o ex-primeiro ministro francês que anunciou a sua candidatura como candidato independente e afirmou que “quiero ser alcalde de una nueva Barcelona. Queiro ser alcalde de todos, como resultado de un esfuerzo colectivo para mejorar la ciudad”.
Se vier a ser eleito, este cidadão natural de Barcelona substituirá Ada Colau, a actual alcaldessa de Barcelona, tornando-se um caso único de um indivíduo que tendo sido primeiro-ministro de um país, ascende ao governo de uma grande cidade de outro país, ou seja, Manuel Valls tende a ser um pioneiro de uma nacionalidade europeia que, de facto, ainda não existe. Mais do que ser francês, espanhol ou catalão, a matriz identitária de Manuel Valls é europeia, até porque a dupla e a tripla nacionalidade são cada vez mais comuns numa Europa unida e sem nacionalismos serôdios.
Porém, o que parece mais significativo é o facto de, com a sua experiência e o seu prestígio, Manuel Valls poder vir a ser um árbitro no conflito catalão, ser capaz de juntar as partes divididas e tornar-se o agente mobilizador que faltava para encontrar uma solução agregadora e de progresso para a Catalunha. A imprensa espanhola parece ter gostado deste anúncio e o El País trouxe-o para a sua primeira página.

sábado, 15 de setembro de 2018

Ano Europeu do Património Cultural 2018

No passado dia 17 de Maio de 2017, o Parlamento Europeu e o Conselho de Ministros da União Europeia aprovaram uma decisão que estabeleceu o ano de 2018 como o Ano Europeu do Património Cultural, afirmando que o património cultural europeu não era apenas um legado do passado, mas que também era um recurso imprescindível ao nosso futuro pelo seu inquestionável valor educativo e social, pelo seu potencial económico e pela sua importante dimensão no plano da cooperação internacional.
Cada país tem tomado as iniciativas que considerou mais adequadas e, neste fim-de-semana, decorrem em França as 35ª Jornadas Europeias do Património, em que cerca de 17.000 monumentos abrem as suas portas e oferecem cerca de 26.000 iniciativas culturais para envolver a população no ideal da preservação do património cultural. Nas suas edições de hoje, a generalidade da imprensa francesa nacional e regional dá uma grande cobertura e promove esta iniciativa e, por exemplo, o jornal católico La Croix destaca em título l'amour du patrimoine e oferece a imagem de um farol cheio de visitantes.
Em Portugal, as Jornadas Europeias do Património 2018 estão marcadas para os dias 28, 29 e 30 de Setembro, salientando-se que para além da participação dos museus e monumentos sob tutela da Direcção-Geral do Património Cultural (DGPC), a sociedade civil também terá uma ampla participação nessas Jornadas, estando previstas 1200 iniciativas que na sua maioria são gratuitas.
Portanto, nesse fim-de-semana façamos qualquer coisa pelo nosso património cultural e visitemos um museu, um monumento, um farol ou uma exposição.

terça-feira, 24 de julho de 2018

Os incêndios florestais enlutam a Grécia

Todos os jornais gregos destacam nas suas edições de hoje a calamidade que está a afectar os arredores de Atenas, onde um incêndio florestal gigantesco ou a conjugação de vários incêndios florestais, já provocaram 74 mortos e 187 feridos.
As descrições do que está a acontecer desde ontem são impressionantes e têm a marca de uma tragédia, apontando-se como causas principais as altas temperaturas, os ventos desencontrados e o deficiente ordenamento florestal da região. Uma vila já terá sido totalmente devorada pelas chamas, que destruiram casas, queimaram viaturas e obrigaram a muitas evacuações de pessoas, sobretudo para as praias do litoral. As autoridades gregas pediram ajuda à União Europeia e Chipre, Espanha, Alemanha, Itália, Polónia, França e Portugal já acederam aos pedidos de ajuda da Grécia.
Tal como ainda está a acontecer na Suécia, onde as temperaturas não baixam e há vários incêndios a lavrar sem controlo, a solidariedade internacional é essencial para ultrapassar estas situações imprevistas que se transformam em tragédias.
Portugal deu uma resposta pronta no auxílio solidário a estes países, até porque conhece bem a dimensão humana destas tragédias. O que aqui se lamenta, uma vez mais, foi o degradante espectáculo que alguns agentes políticos portugueses exibiram em 2017, procurando retirar efeitos políticos da tragédia. Foi uma vergonha. Naturalmente que, nem na Suécia nem na Grécia, haverá gente com comportamentos tão censuráveis como os que recordamos do ano passado em Portugal.