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quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

Uma nau histórica para servir de museu

Realizou-se ontem nos estaleiros Palmás em Punta Umbría, nas vizinhanças da cidade de Huelva, o lançamento à água de uma réplica da nau Victoria, isto é, da única das cinco naus da frota de Fernão de Magalhães que tendo partido de Sanlúcar de Barrameda em 1519 conseguiu terminar a volta ao mundo em 1522, então com Juan Sebastian de Elcano no comando. A nau Victoria demorou 3 anos e 14 dias a percorrer cerca de 37.753 milhas e a completar a sua viagem de circumnavegação e, quando chegou ao fim dessa histórica viagem, trazia a bordo apenas 18 homens.
Esta réplica é a segunda que se constrói, mas enquanto a primeira foi construída em 1991 para navegar em 1992 durante as Comemorações da Viagem de Cristóvão Colombo, esta nova réplica que foi baptizada como Victoria 500, não foi concebida para sulcar os mares mas apenas para servir como um museu flutuante atracado em Sevilha para celebrar a primeira volta ao mundo. A nau Victoria simboliza esse feito marítimo e científico que foi a viagem de circumnavegação e é pena que em Portugal não se tenha uma iniciativa semelhante que servisse para mostrar aos milhões de turistas que nos visitam um pouco do nosso pioneirismo na abertura do mundo que, naturalmente, teve grandes benefícios para a Humanidade, embora também tivesse outras coisas menos boas. O Diário de Sevilla deu um grande destaque a esta notícia, tal como a generalidade dos jornais da Andaluzia.
Agora que já se iniciaram as obras de integração da antiga Doca da Marinha na paisagem marítima da cidade de Lisboa, que bem que ali ficaria a última nau da Índia, bem conservada e bem iluminada, em vez de estar escondida em Cacilhas onde poucos a vêm.

terça-feira, 28 de janeiro de 2020

A evocação do horror de Auschwitz


Ontem, no antigo campo de concentração de Auschwitz que simboliza como nenhum outro a vergonha do Holocausto, foi evocado o 75º aniversário da sua libertação pelas tropas soviéticas que entraram no campo no dia 27 de Janeiro de 1945.
Este campo situado no sul da Polónia foi construído pelo Terceiro Reich e foi o maior de todos quantos foram feitos pelo regime nazi para liquidar os seus inimigos, sobretudo os judeus, dispondo de vários campos-satélite, entre os quais o campo de extermínio de Auschwitz-Birkenau, onde morreu mais de um milhão de pessoas nas câmaras de gás ou pela fome. Os horrores de Auschwitz têm sido divulgados pelos meios de comunicação e, em 1989, o chanceler Helmut Kohl declarou que “Auschwitz era o capítulo mais sombrio e mais horrível da história alemã”, mas parece que as novas gerações, nomeadamente na própria Alemanha, ignoram o que foi aquele campo de morte.
De resto, o reconhecimento internacional dos horrores de Auschwitz foram tardios, pois só em 2002 a Unesco declarou as ruínas de Auschwitz-Birkenau como Património da Humanidade e só em 2005 a Assembleia Geral das Nações Unidas declarou a data da libertação do campo como o Dia Internacional da Lembrança do Holocausto.
Ontem, cerca de duzentos sobreviventes de Auschwitz estiveram no local de onde foram libertados no dia 27 de Janeiro de 1945 e, simbolicamente, usaram a boina listada que os identificava como prisioneiros ou como condenados à morte. Com eles estiveram muitos chefes de Estado e de Governo. Hoje, The Times, mas também The Wall Street Journal, El País e The Daily Telegraph publicam a fotografia de Igor Malckij, o prisioneiro 188.005 de Auschwitz e o que se pode dizer é, simplesmente, que uma imagem vale mais do que mil palavras.

sábado, 4 de janeiro de 2020

Angola e o episódio da Baixa de Cassanje


O Jornal de Angola assinala hoje o Dia dos Mártires da Repressão Colonial, evocando o massacre da Baixa de Cassanje que “abriu caminho para a liberdade” e “inspirou a luta de libertação nacional”.
Aconteceu há 59 anos, no dia 4 de Janeiro de 1961. Os trabalhadores agrícolas das plantações algodoeiras da companhia luso-belga Cotonang, na Baixa de Cassanje, decidiram fazer um protesto contra as suas condições de trabalho, armaram-se de catanas e canhangulos e desafiaram as autoridades portuguesas, destruindo plantações, casas e pontes, num movimento incentivado pela recente independência do ex-Congo Belga, uma vez que os povos do Congo e daquela região de Angola tinham raízes étnicas comuns e, por isso, se os povos do Congo já eram independentes, os povos de Angola também tinham essa aspiração. Os colonos portugueses foram os primeiros a reprimir o protesto, mas as tropas coloniais foram também chamadas e o terrível massacre aconteceu.
Os relatos destes acontecimentos diferem, pois enquanto o Jornal de Angola refere que “foram brutalmente mortos mais de vinte mil camponeses pelas tropas coloniais”, alguns estudos já produzidos concluem que “teria havido entre duzentas e trezentas mortes entre os revoltosos”. Só o rigor da História poderá esclarecer a dimensão deste trágico acontecimento, mas é evidente que a verdade está bem longe dos números que a propaganda anti-colonial então criou e que a soberana República Popular de Angola repete, certamente para estimular os sentimentos de unidade nacional e para manter acesa “a chama gloriosa da independência nacional”.

sábado, 7 de dezembro de 2019

Angela Merkel repudia a barbárie nazi


Ao fim de 14 anos à frente do governo alemão, a chanceler Angela Merkel visitou ontem pela primeira vez o campo de Auschwitz-Birkenau, onde foram assassinadas mais de um milhão de pessoas e que foi o maior campo de extermínio do regime nazi, de entre os mais de mil campos de concentração nazis espalhados pela Europa.
O campo de morte de Auschwitz fica situado em território polaco a cerca de 70 quilómetros da cidade de Cracóvia e foi construído depois da invasão da Polónia pelas tropas de Hitler em 1939, primeiro como campo de concentração (Auschwitz I) e depois, num outro local das proximidades, como um campo de extermínio (Auschwitz II-Birkenau). Nesses campos foram internados e assassinados muitos milhares de prisioneiros políticos do exército polaco, membros da resistência, intelectuais, homossexuais, ciganos e, sobretudo, judeus. No início de 1945, com a aproximação das tropas russas, os campos de Auschwitz foram abandonados, mas quando no dia 27 de Janeiro de 1945 os soldados russos entraram em Auschwitz ainda puderam libertar alguns prisioneiros
Angela Merkel vestiu de preto e disse sentir “uma profunda vergonha pelos crimes bárbaros cometidos pelos alemães”, durante uma visita em que foi acompanhada pelo primeiro-ministro polaco Mateusz Morawiecki. Fez-se acompanhar também pela televisão para que a Alemanha e o mundo ouvissem as suas palavras de repúdio pelas atrocidades e barbaridades cometidas pelo regime nazi e, para “manter a memória viva” dos bárbaros crimes então cometidos, fez uma doação de 60 milhões de euros para ajudar a conservar o local onde os nazis construíram o seu maior campo de morte. Porém, como foi possível governar 14 anos sem ter conhecido Auschwitz e as suas lições? No entanto, mais vale tarde do que nunca.

sábado, 9 de novembro de 2019

Celebrando a queda do muro de Berlim

Está hoje a comemorar-se, na Alemanha e em outros países, o 30º aniversário da queda do muro de Berlim, um acontecimento que, de forma simbólica, acelerou a reunificação alemã, bem como o fim do sovietismo e da guerra fria.
Depois da 2ª Guerra Mundial a Alemanha e a cidade de Berlim ficaram divididas em quatro sectores de ocupação - soviético, americano, francês e britânico – mas as relações entre as autoridades ocupantes, sobretudo soviéticas e ocidentais, foram geralmente tensas e daí resultaram duas moedas em circulação, dois ideais políticos e, por fim, duas Alemanhas. Em 1949, os três sectores ocidentais (americano, francês e britânico) passaram a constituir a República Federal Alemã (RFA) e o sector oriental (soviético) tornou-se na República Democrática Alemã (RDA). O ambiente político e o desenvolvimento económico das duas Alemanhas eram bem diferentes e, até 1961, calcula-se que quase 3 milhões de pessoas tivessem deixado a RDA em direcção à florescente RFA. Para contrariar esta realidade, em Agosto de 1961 as autoridades de Berlim Oriental decidiram iniciar a construção de um muro de cerca de 4 metros de altura que separava as duas partes da cidade de Berlim e, ao longo dele, uma avenida também conhecida por “faixa da morte”, dotada de sistemas de alarme e pela qual circulavam constantemente veículos policiais. O muro de Berlim tornou-se o ícone da das tensões Leste-Oeste e o símbolo da chamada Guerra Fria.
No dia 9 de Novembro de 1989, sob forte pressão popular, o governo da RDA afirmou que era permitida a passagem para o lado oeste da cidade e milhares de pessoas atravessaram para Berlim Ocidental. A destruição do muro começou então por iniciativa popular. Tinha durado 28 anos e, entre 1961 e 1989, mais de cinco mil pessoas tentaram atravessá-lo. Cerca de uma centena delas morreu quando procurava a liberdade.

sábado, 2 de novembro de 2019

A viagem do “Mayflower” foi há 400 anos

No dia 6 de Setembro de 1620 largou de Plymouth um velho navio de carga de cerca de 30 metros de comprimento chamado Mayflower que transportava 30 tripulantes e 102 passageiros com destino ao outro lado do Atlântico. No dia 11 de Novembro o navio chegou a Cabo Cod, no actual estado de Massachusetts, depois de sessenta e cinco dias de viagem.
Na sua maioria os passageiros do Mayflower eram famílias puritanas que procuravam a sua liberdade longe da Igreja Anglicana, num tempo de grande conflitualidade religiosa nas ilhas britânicas e na Europa. Apenas sobreviveram 53 passageiros, conhecidos depois por pilgrims fathers, que foram os primeiros ingleses protestantes que emigraram para o continente americano e que fundaram as primeiras colónias que vieram a dar origem aos Estados Unidos.
Nos anos 1950 surgiu na Inglaterra a ideia de construir uma réplica do Mayflower para ser oferecida aos Estados Unidos como símbolo da gratidão inglesa pela ajuda americana durante a II Guerra Mundial. Essa réplica foi construída nos estaleiros de Brixham e em 1957 navegou para os Estados Unidos, onde se tornou um navio-museu muito visitado e tendo feito algumas pequenas viagens entre os portos da costa nordeste dos Estados Unidos. Actualmente o navio encontra-se em trabalhos de manutenção e restauro nos estaleiros Mystic em Connecticut, preparando-se para tomar parte no Mayflower Sails 2020, que no próximo ano celebrará em Boston os 400 anos da sua histórica viagem. Em Maio de 2020, quando navegar para Boston, espera-se que o Mayflower tenha a companhia do USS Constitution, que entrou ao serviço em 1797. Segundo o The Boston Globe será a primeira vez que os dois mais simbólicos navios da história americana navegarão juntos. 

domingo, 29 de setembro de 2019

Sevilla apresenta “el viaje más largo”

Como tem sido referido em diversos textos já aqui publicados, a frota de Fernão de Magalhães que com a bandeira de Castela saíu para descobrir a passagem do oceano Atlântico para o Mar do Sul e chegar às Molucas navegando para ocidente, largou de Sevilha no dia 10 de Agosto de 1519 e percorreu cerca de 80 quilómetros até à foz do rio Guadalquivir em Sanlúcar de Barrameda. Aí permaneceu durante algumas semanas para ultimar os preparativos da viagem, largando finalmente no dia 20 de Setembro.
Agora que se comemora o 5º Centenário dessa viagem que se tornou na primeira volta ao Mundo, a cidade de Sevilha que foi a capital da expansão marítima espanhola para as Américas e que hoje é uma cidade moderna, dinâmica e ambiciosa, encontrou neste feito histórico uma oportunidade para assumir a liderança dessas comemorações.
Por isso, no quadro das actividades comemorativas espanholas, o programa preparado pela cidade de Sevilha é muito diversificado. Porém, a exposição El Viaje Más Largo: la primera vuelta al Mundo, que está patente em Sevilha no Archivo General de Indias e que apresenta 106 peças e documentos originais é, seguramente, um dos pontos mais altos destas comemorações.
A exposição foi inaugurada no dia 12 de Setembro pelos reis de Espanha e foi organizada pela Acción Cultural Española e pelo Ministerio de Cultura y Deporte, juntando uma colecção de documentos originais únicos, a par de uma apresentação pedagogicamente esclarecedora e com um relato que, no essencial, respeita a verdade histórica, embora seja evidente alguma marginalização da participação portuguesa na viagem. Porém, é uma excelente exposição que interessa a todos os estudiosos da epopeia marítima dos povos ibéricos e, por isso, alguns portugueses já fizeram os 500 quilómetros de Lisboa até Sevilha e, certamente, deram por bem empregue o seu tempo.

sábado, 21 de setembro de 2019

A reconstituição da viagem de 1519-1522

Hoje, na sua edição de Sevilha, o jornal ABC destaca as cerimónias da reconstituição da partida da nau Victoria, cuja réplica largou ontem de Sanlúcar de Barrameda, para repetir a histórica viagem iniciada em 1519 por Fernão de Magalhães e que foi concluída em 1522 por Juan Sebastián de Elcano. Esta viagem que constituíu um acontecimento relevante na história da Humanidade e que é um dos mais curiosos episódios das seculares rivalidades luso-espanholas, enquadra-se no programa do V Centenario de la Primera Circunnavegatión e teve a presença de uma fragata espanhola que, curiosamente ou não, também se chama Victoria.
A Volta ao Mundo de 1519-1522 aconteceu por acaso. A expedição magalhânica tinha como objectivo atingir as ilhas Molucas navegando por ocidente e demonstrar que se situavam no hemisfério castelhano definido pelo Tratado de Tordesilhas. Nas instruções que recebeu do rei Carlos I, era claro que a expedição não deveria entrar no hemisfério português, o que significava que deveria fazer a torna-viagem. Porém, com a morte de Magalhães nas ilhas Filipinas, o seu sucessor decidiu desobedecer e navegar no hemisfério português e atravessar o oceano Índico, tendo chegado ao ponto de partida na foz do rio Guadalquivir em Setembro de 1522. Foi, portanto, uma Volta ao Mundo sem querer, como recentemente escreveu o grande historiador Luís Filipe Thomaz.
A polémica em torno desta viagem continua muito activa e, muita gente, tanto em Portugal como em Espanha, parece abusar de um provincianismo serôdio de rivalidade do tipo das disputas entre Alguidares de Cima e Alguidares de Baixo. O sucesso da viagem organizada e iniciada por Magalhães que Elcano concluíu e a sua importância para a história da Humanidade, não é português nem espanhol. É um sucesso ibérico e, mais do que isso, é um feito civilizacional europeu, ou mais apropriadamente, é um património da Humanidade.

sexta-feira, 20 de setembro de 2019

Fernão de Magalhães e a volta ao mundo

Perfazem-se hoje 500 anos sobre o dia em que Fernão de Magalhães largou de Sanlúcar de Barrameda para iniciar a sua viagem para as Molucas, navegando para ocidente em nome do jovem rei Carlos I de Espanha, que subira ao trono em 1516 e que em 1519 se tornou no imperador Carlos V da Alemanha.
Nos cinco navios da expedição – San Antonio, Trinidad, Concepción, Victoria e Santiago – embarcavam 237 homens de muitas nacionalidades, incluindo 64 andaluzes, 31 portugueses, 29 bascos, 26 italianos, 19 franceses, 15 castelhanos, 9 gregos, 7 galegos, 5 asturianos, 5 flamengos e 4 alemães, além de elementos de outras nacionalidades. O veneziano António Pigafetta, que foi o principal cronista da viagem, escreveu no seu diário:
El martes 20 de septiembre partimos de Sanlúcar, navegando con viento de garbino, y el 26 llegamos a una de las islas Canarias, llamada Tenerife, situada en los 28º de latitud septentrional.
Hoje o Diário de Notícias é um dos jornais que evoca essa efeméride histórica.
A viagem constituiu a maior aventura que, até então, foi realizada pelo ser humano. Com base nas informações recolhidas pelas explorações portuguesas na margem ocidental do Atlântico e dos conhecimentos cartográficos do tempo, nomeadamente a carta de Martin Waldseemuller, o obstinado Fernão de Magalhães procurou e encontrou a passagem – o Estreito de Todos-os-Santos, depois chamado Estreito de Magalhães – que ligava o oceano Atlântico ao oceano Pacífico, que percorreu com felicidade entre os dias 1 e 28 de Novembro de 1520.
A expedição, então com três navios apenas, atravessou depois o Pacífico e, no dia 27 de Abril de 1521, Magalhães morreu em combate na ilha de Mactán, nas Filipinas. Algum tempo depois, o basco Juan Sebastián de Elcano assumiu o comando da nau Victoria, navegou para oeste até ao cabo da Boa Esperança e, no dia 6 de Setembro de 1522, chegou a Sanlucar de Barrameda com 18 homens. Sem que esse fosse o seu objectivo inicial, tinham concluído a primeira volta ao mundo.

sábado, 10 de agosto de 2019

Comemorar Elcano e ignorar Magalhães

Há 500 anos, no dia 10 de Agosto de 1519, largaram de Sevilha e desceram o rio Guadalquivir as cinco naus – Trinidad, San Antonio, Concepción, Victoria e Santiago – que sob o comando de Fernão de Magalhães se propunham chegar às ilhas Molucas navegando para ocidente.
Foi, provavelmente, a mais famosa de todas as viagens de exploração marítima que o mundo conheceu e a bordo seguiam cerca de 242 participantes, incluindo 139 espanhóis, entre os quais 64 andaluzes, 29 bascos, 15 castelhanos e 7 galegos, a que se juntavam 31 portugueses, 26 italianos, 19 franceses, 9 gregos, 5 flamengos, 4 alemães e, ainda, gente de outras nacionalidades. Era uma verdadeira tripulação multinacional.
A viagem foi uma epopeia sob todos os pontos de vista. Magalhães veio a morrer em combate com os nativos da ilha de Mactan, nas Filipinas, no dia 27 de Abril de 1521. Sucedeu-lhe o português Duarte Barbosa, seu cunhado, que alguns dias depois foi morto numa emboscada na ilha de Cebu. O comando da expedição foi depois assumido por João Lopes Carvalho, outro português, mas que veio a ser demitido em 16 de Setembro.
Nesse dia, quando apenas sobreviviam as naus Trinidad e Victoria, Gonzalo Gómez de Espinosa tornou-se o capitão-general da expedição e Elcano foi escolhido para comandante da nau Victoria. Foi ele que, sendo figura secundária nesta expedição, veio a chegar a Sevilha com a única nau que completou a viagem. Como se diria em futebolês, Elcano entrou em campo já em período de descontos, mas foi ele quem marcou o golo decisivo. A Espanha agarrou-se a esse golo e pouco mais lhe interessa na evocação dessa efeméride e nas festividades que vai fazendo. O orgulho espanhol e a sua mentalidade hegemónica não têm emenda.
É nesse contexto que o veleiro Pros, de 21 metros, partirá hoje de Sevilha para percorrer 44 mil milhas numa viagem que será a réplica daquela que Magalhães iniciou em 1519 e que foi concluída por Elcano em 1522. O veleiro terá uma tripulação de 7 ou 8 membros, que foram escolhidos entre 140 voluntários e que irá rodando entre cada uma das grandes etapas da viagem. A viagem intitula-se Tras la estela de Elcano e é uma iniciativa da associação particular, embora tenha o apoio da Comisión del V Centenario de la Circunnavegación.
O Diário de Sevilla deu grande destaque a esta iniciativa a que chamaram ruta de Magallanes, mas escreve que "el velero zarpa para emular la gesta de Elcano", isto é, comemora Elcano e ignora Magalhães.

sexta-feira, 2 de agosto de 2019

Terá sido 1519 o ano que mudou o mundo?

A última edição da revista francesa Le Nouvel Observateur, por vezes conhecida como Le Nouvel Obs, destaca o ano de 1519 como o seu tema principal, classificando-o como o ano que mudou o mundo. A revista que tem uma larga circulação em França ilustra a sua capa com imagens associadas a alguns relevantes acontecimentos que ocorreram nesse ano de 1519 e que, de facto, influenciaram o processo histórico mundial e que constituem temas que merecem reflexão e evocação. Esses acontecimentos escolhidos pelo Obs são os seguintes:

● A partida de Fernão de Magalhães para as Molucas navegando para ocidente, numa viagem que veio a ser concluída por Juan Sebastián de Elcano e acabou por ser a primeira volta ao mundo;

● A morte de Leonardo da Vinci, uma das grandes figuras do Renascimento europeu e que se destacou como pintor, escultor, cientista, inventor, matemático, engenheiro, poeta e músico, entre muitas outras actividades;

● A morte do imperador Romano-Germânico Maximiliano I (filho de Leonor de Portugal) e a luta pela sua sucessão entre Francisco I de França e Carlos I de Espanha (casado com Isabel de Portugal) que este resolveu a seu favor, tornando-se no poderoso imperador Carlos V; 

● O início da conquista do México por Hernán Cortéz, simbolizada pela figura de La Malinche, a nativa azteca com quem se casou e que se veio a tornar num controverso símbolo da campanha de Cortéz que destruíu o império azteca de Moctezuma II.

Quando uma importante revista de política, negócios, economia e cultura como a Obs dedica tanto espaço à História é porque o tema é importante e oportuno. A História é sempre um exercício de memória e sem memória não temos futuro. Porém, não é linear e indiscutível que o ano de 1519 tenha sido o ano que mais tenha mudado o mundo.

domingo, 21 de julho de 2019

Sevilha procura protagonismo na História

As celebrações da viagem iniciada em 1519 por Fernão de Magalhães para chegar às Molucas por ocidente e que foi concluída por Juan Sebastián Elcano em 1522, continuam a gerar alguma polémica em que se tem destacado o jornal conservador espanhol ABC que, em 10 de Março de 2019, deu guarida e difundiu um dictamen da Real Academia de la História de España em que era afirmado que “es incontestable la plena y exclusiva españolidad” da primeira volta ao mundo e que “todo en la 1ª vuelta al Mundo fue español”. Esta visão ultranacionalista e errada da História até em Espanha foi condenada e se escreveu que eram “actitudes aldeanas, típicas de rivalidades de Villariba y Villabajo, dignas de un profundo estudio antropológico”.
O assunto parecia ter serenado, não só por ser ridículo, mas também porque os governos de Portugal e de Espanha acordaram em patrocinar celebrações comuns. Porém, na sua edição sevilhana de hoje, o mesmo jornal ABC veio fazer a apologia de Sevilha como o “cabo Canaveral de la vuelta al mundo”, fazendo uma analogia entre a viagem da Apollo 11 que há 50 anos levou o homem à Lua e a viagem iniciada por Magalhães há 500 anos. Esta analogia até pode fazer algum sentido para os conservadores espanhóis e para a promoção da capital da Andaluzia, mas não tem nada de original porque a descoberta do mundo sempre serviu para fazer comparações e para glorificar navegadores. Já em 1776 o economista Adam Smith escreveu que “a passagem do cabo da Boa Esperança por Bartolomeu Dias e a chegada às Antilhas por Colombo foram os maiores e mais importantes acontecimentos da História”, enquanto o filósofo inglês Arnold Toymbee afirmou que a viagem de Vasco da Gama representou o início da era gâmica, em que o ocidente e o oriente se uniram por mar. E há muitos mais autores internacionalmente respeitados que têm utilizado as navegações oceânicas portuguesas como o fenómeno que deu origem ao mundo global do nosso tempo.
Portanto, se assim o entenderem, os conservadores espanhóis até podem escolher outros cabos canaverais não só em Sevilha, mas também em Palos de la Frontera ou em Sanlúcar de Barrameda, tal como podem trocar Colombo por Pinzón ou Magalhães por Elcano. O ridículo não paga imposto.

quinta-feira, 18 de julho de 2019

O homem na Lua: o sonho comanda a vida

No dia 16 de Julho de 1969, no Centro Espacial John Kennedy, a NASA (National Aeronautics and Space Administration) procedeu ao lançamento de um voo tripulado que constituiu a missão Apollo 11, cujo objectivo era levar um homem à Lua pela primeira vez. A bordo seguiam os astronautas Neil Armstrong, Buzz Aldrin e Michael Collins. No dia 19 de Julho Armstrong e Aldrin conduziram o módulo lunar Eagle para a superfície da Lua, enquanto o módulo de comando Columbia tripulado por Collins, orbitava em torno da Lua.
A aproximação à superfície lunar e o momento em que Neil Armstrong desceu do módulo foram transmitidos em directo pela televisão para todo o mundo, tendo sido então que o comandante da missão pronunciou a famosa frase: “é um pequeno passo para um homem, mas um passo gigante para a humanidade”. Os astronautas permaneceram cerca de duas horas no solo lunar para recolher amostras e, depois de deixarem implantada no solo uma bandeira dos Estados Unidos, navegaram para o módulo de comando Colúmbia, de onde tinham estado afastados cerca de 21 horas. O êxito fora completo. No dia 24 de Julho os astronautas foram recolhidos no oceano Pacífico pelos helicópteros do porta-aviões Hornet, onde se encontrava o presidente Richard Nixon a felicitá-los.
O objectivo traçado em 1961 pelo presidente John Kennedy de, antes do fim da década, colocar um homem na Lua e trazê-lo em segurança de regresso à Terra estava cumprido e, desde então e até Dezembro de 1972, outras missões Apollo levaram doze astronautas americanos a pisar a Lua.
Estão decorridos 50 anos sobre essa extraordinária façanha científica e o mundo está a recordá-la também como um grande feito histórico. Desde há alguns dias que a imprensa internacional, sobretudo americana, vem destacando o tema com muitas reportagens, embora seja amanhã o grande dia em que não faltarão nos jornais as fotografias do passeio de Armstrong na superfície lunar. O inspirado poeta António Gedeão, referindo-se aos avanços científicos da humanidade na sua Pedra Filosofal, refere “o desembarque em foguetão na superfície lunar”, escrevendo que “o sonho comanda a vida” e que “sempre que um homem sonha, o mundo pula e avança”.
Foi o que aconteceu no dia 19 de Julho de 1969. Assisti em directo pela televisão a esse acontecimento que aqui evoco por antecipação, quando uma nova campanha de viagens à Lua se anuncia nos Estados Unidos e em outros países.

domingo, 7 de julho de 2019

O “regresso” de Elcano ao País Basco

A expedição de cinco navios comandada por Fernão de Magalhães, que tinha por objectivo a descoberta do caminho para as Molucas navegando por ocidente, largou de Sanlúcar de Barrameda no dia 20 de Setembro de 1519. No dia 27 de Abril de 1521, Magalhães foi morto em combate com os nativos na ilha de Mactan, no arquipélago das Filipinas e, depois, coube ao navegador basco Juan Sebastián Elcano a missão de conduzir a nau Victoria até ao ponto de partida, utilizando a rota dos portugueses, isto é, pelo cabo da Boa Esperança. Elcano chegou a Sanlúcar no dia 8 de Setembro de 1522 e a bordo da Victoria iam apenas 18 homens dos cerca de 240 que tinham iniciado a viagem. Embora não fosse esse o seu objectivo, o facto é que essa  viagem constituíu a primeira volta do mundo e, tanto Magalhães como Elcano, repartem essa honra.
Elcano veio a integrar a expedição de sete navios que largou da Corunha em 1525 sob o comando de Garcia Jofre de Loayza para reclamar as Molucas para o Rei de Espanha, mas veio a ser vítima do escorbuto quando a expedição já navegava no oceano Pacífico.
Juan Sebastián Elcano é, portanto, um dos grandes navegadores do século XVI e o navio-escola da Marinha de Espanha tem exactamente o seu nome. Ontem o navio chegou ao porto de Getaria, na província de Gipuzkoa, no País Basco, a fim participar nas cerimónias comemorativas dos 500 anos da viagem em que o navegador basco completou a volta ao mundo.
A visita do navio-escola espanhol à localidade onde nasceu Elcano foi recebida com grande entusiasmo e foi relatada por alguma imprensa nacional, que ilustrou as suas primeiras páginas com a fotografia do navio. O jornal El Correo, que se publica em Bilbau, foi original e escolheu o sugestivo título: Elcano vuelve a casa.

quinta-feira, 6 de junho de 2019

O início da libertação da Europa em 1944

Celebram-se hoje 75 anos sobre o dia 6 de Junho de 1944, que ficou conhecido na História como o Dia D. Na manhã desse dia, as tropas aliadas constituídas sobretudo por forças americanas, inglesas e canadianas, mas também por elementos de outras nacionalidades, concretizaram o seu desembarque nas praias francesas da Normandia e iniciaram a sua caminhada em direcção à Alemanha e ao refúgio de Adolfo Hitler.
O comandante supremo desta acção, que foi a maior operação anfíbia que a História alguma vez conheceu e que foi designada por Operação Overlord, foi o general americano Dwight D. Eisenhower, mas muitos outros militares importantes de ambos os lados do conflito participaram na operação.
Hitler e o nazismo dominavam a Europa e tinha sido ordenada a construção de fortificações ao longo de toda a costa atlântica desde a Espanha à Noruega, para assegurar a proteção alemã de uma invasão aliada, que veio a acontecer. O local escolhido para o desembarque foi uma extensa área de cerca de 80 km que foi dividida em sectores, cujos nomes ficaram famosos – Utah, Omaha, Gold, Juno e Sword. O desembarque foi feito sob más condições meteorológicas e sob intenso fogo alemão em praias minadas e cheias de obstáculos e, só nesse dia, atravessaram o canal da Mancha cerca de 160 mil homens, transportados em quase 5 mil veículos de desembarque e de assalto e, nesse dia, tiveram dez mil baixas, incluindo 4414 mortos confirmados.
A história deste dia está devidamente registada na obra de referência The Longest Day, um livro editado em 1959 por Cornelius Ryan que o cinema adoptou em 1962, sendo porventura os mais expessivos documentos que relatam o Dia D.
Ontem e hoje foram dias de grandes cerimónias de evocação desse desembarque que iniciou a libertação da Europa e de homenagem aos homens que lhe sobreviveram até aos nossos dias, tendo muitos jornais internacionais evocado essa efeméride, como aconteceu com Le Figaro.

sábado, 13 de abril de 2019

Bombas que não explodiram nas guerras

A edição de hoje do Diari de Tarragona, publicado naquela cidade catalã, destaca que “cada cinco dias desactivan una bomba de la Guerra Civil”.
A guerra civil espanhola terminou no dia 1 de Abril de 1939, depois das tropas do general Franco terem entrado em Madrid, o que significa que já passaram 80 anos e, por isso, a notícia hoje divulgada causa alguma admiração até porque também informa que, desde 1985, já foram desactivados 2194 engenhos explosivos na província de Tarragona. Porém, haverá milhares de bombas e outros engenhos explosivos ainda escondidos, sobretudo naregião de Madrid, na Catalunha e no País Basco.
Na Alemanha ocorre uma situação semelhante, estimando-se que haverá cem mil bombas aliadas por explodir, mas também minas anti-tanque, granadas de mão, obuses e munições de artilharia russas. Cada ano são descobertas e desactivadas cerca de duas mil toneladas de bombas e, só na cidade de Berlim, já foram encontradas cerca de sete mil bombas, havendo naturalmente muitas mais por descobrir.
Embora eem menor escala, também na Inglaterra vão sendo descobertas e desactivadas algumas bombas da 2ª Guerra Mundial, tal como em França onde, há menos de dois meses foi encontrada no bairro de la Chappele, em Paris, uma bomba americana de algumas centenas de quilogramas, tendo a sua desactivação obrigado a que cerca de 1800 pessoas tivessem de abandonar temporariamente as suas casas.
Passados tantos anos depois do fim destas duas grandes guerras, o número de engenhos explosivos que se vão descobrindo mostra como essas guerras foram violentas e exterminadoras.

terça-feira, 9 de abril de 2019

As celebrações ibéricas da volta ao mundo

No próximo dia 10 de Agosto celebra-se o 5º centenário da partida das cinco naus que saíram de Sevilha, que desceram o rio Guadalquivir e entraram em Sanlúcar de Barrameda, de onde partiram no dia 20 de Setembro de 2019 para uma viagem às Molucas, navegando por ocidente. Segundo Le Voyage de Magellan 1519-1522 (edition Chandeigne, Paris, 2017), seguiam a bordo 237 homens, mas com os que embarcaram nas Canárias e no Brasil, terão sido 242 os participantes na viagem, sendo 139 espanhóis (64 andaluzes, 29 bascos, 15 castelhanos, 7 galegos, 5 asturianos, 3 navarros, 2 aragoneses, 2 estremenhos, um murciano e 11 de origem indeterminada), 31 portugueses pelo menos, pois alguns ter-se-ão feito passar por espanhóis, 26 italianos, 19 franceses, 9 gregos, 5 flamengos, 4 alemães, 2 negros, 2 irlandeses, 2 mestiços sendo um luso-brasileiro e outro hispano-americano, um inglês, um goês e um malaio. Entre estes homens encontrava-se Fernão de Magalhães, provavelmente natural da vila transmontana de Sabrosa, que era o seu experimentado comandante. Era, portanto, uma verdadeira tripulação internacional, até porque as Espanhas eram então um extenso número de reinos semi-independentes e ainda não existia um estado espanhol. Daí que tivesse causado um grande escândalo o parecer da Real Academia de História de Espanha divulgado no passado dia 10 de Março, em que a viagem iniciada por Magalhães em 1519 foi considerada "plena y exclusivamente española". 
Hoje o jornal ABC, na sua edição de Sevilha, destaca as comemorações do 5º centenário da primeira viagem à volta do mundo e noticia que os governos espanhol e português acordaram na celebração conjunta desse acontecimento que foi ibérico, mas também europeu, pelo que não faz qualquer sentido a exaltação de glórias nacionalistas que alguns pretenderam introduzir na celebração desta efeméride. Andaram bem os dois governos peninsulares ao chegarem a um acordo quanto ao processo de comemorar a primeira viagem à volta ao mundo.
Segundo foi divulgado, além de  muitas outras iniciativas conjuntas, em 2020 os navios-escolas das Marinhas dos dois países – Buque Escuela Juan Sebástian Elcano e Navio-Escola Sagres – darão a volta ao mundo seguindo a mesma rota que seguiu a expedição de Magalhães e Elcano.
Entretanto, a cidade de Sevilha já reivindica ser o ponto de partida dessa viagem, apesar de haver problemas de calado para o Elcano navegar naquele rio e de haver cabos de alta tensão sobre o Guadalquivir. Apesar disso, a edição local do ABC dá como certa a partida de Sevilha dessa viagem e escolheu exactamente o navio-escola espanhol para ilustrar a sua capa.

domingo, 31 de março de 2019

A guerra de Espanha terminou há 80 anos

A guerra civil de Espanha foi um conflito de grande violência que aconteceu em Espanha entre 1936 e 1939, de que terão resultado 500 mil mortos. A sociedade portuguesa desse tempo acompanhou esse drama, que gerou muitos refugiados e em que muitos portugueses atravessaram a fronteira para combater dos dois lados. 
A guerra civil espanhola tem sido considerada como um ensaio preparatório da 2ª Guerra Mundial e terminou há 80 anos, sendo hoje evocada pelo jornal catalão ara, que se publica em Barcelona com uma linha editorial pró-independentista e que, sugestivamente, faz a pergunta (a Franco) : ainda cá estás?
A guerra civil de Espanha começou no dia 17 de Julho de 1936, quando ocorreu um pronunciamento militar na praça de Melilla, no norte de África, tendo terminado no dia 1 de Abril de 1939, quando o general Franco anunciou o fim da guerra, depois das suas tropas terem entrado em Madrid. De um lado esteve a Frente Popular, que agregava os movimentos da esquerda e os nacionalistas galegos, bascos e catalães que apoiavam o governo legítimo da Espanha, o regime republicano instalado em 1931 e os estatutos de autonomia; do outro lado estiveram os Nacionalistas conservadores, em que se integravam os monárquicos, os falangistas, os carlistas e outros movimentos da direita espanhola. Porém, a guerra internacionalizou-se e, enquanto a Frente Popular teve o apoio da União Soviética e das Brigadas Internacionais compostas por militantes socialistas e comunistas de todo o mundo e de numerosas voluntários, os Nacionalistas tiveram o apoio do Corpo Truppe Volontarie enviado por Mussolini, da Legião Condor enviada por Hitler e dos Viriatos organizados pelo regime de Salazar.
A guerra civil espanhola polarizou toda a Espanha e deu origem a execuções, massacres e campanhas de terror praticadas pelos dois lados e, por isso, é um assunto muito sensível na nossa vizinha Espanha, porque muitas das suas feridas ainda estão por sarar. A ditadura instaurada pelo general Franco, que foi o vencedor da guerra, durou até à sua morte em 1975, mas a lição desse tempo e dessas circunstâncias não pode estar ausente do pensamento nem da acção dos responsáveis políticos do país vizinho e das suas regiões autónomas, para que a História não se repita.

domingo, 10 de março de 2019

As polémicas com a viagem de Magalhães

Na sua edição de hoje o diário conservador espanhol ABC dedica uma grande reportagem à polémica criada em torno da autoria ou co-autoria da primeira viagem de circumnavegação iniciada por Fernão de Magalhães em 1519 e concluída por Sebastião de Elcano em 1522. Foi uma grande viagem e quando se aproximam os 500 anos da sua realização, há quem considere que essa histórica viagem ibérica foi exclusivamente espanhola e há quem defenda que também foi portuguesa. O jornal ABC, depois de ter consultado a Real Academia de la Historia, recebeu um parecer que foi hoje divulgado, em que aquela instituição conclui que essa viagem foi “plena y exclusivamente española” e fundamenta-a em 13 pontos. Todos esses pontos estão apoiados em documentos, mas a interpretação desses documentos dá argumentos para todas as versões, até porque Magalhães era português e levava consigo “trinta e tantos portugueses”.
Os portugueses tomaram a iniciativa de comemorar a efeméride e associaram-se aos espanhóis, tendo apresentado conjuntamente na UNESCO uma proposta para que a Rota de Magalhães seja inscrita como Património da Humanidade. Os espanhóis distraíram-se com outras coisas e, agora que o assunto está na ordem do dia, não estão a gostar nada do que está a acontecer. O jornal ABC acusa os políticos socialistas espanhóis e refere “as mentiras de Portugal para se apropriar da gesta de Magalhães e Elcano”, ridiculariza “um historiador português que acusa Elcano por ter dado a volta ao mundo ilegalmente” e acusa “a diplomacia portuguesa de ter perdido o respeito pela Espanha”.
Ninguém tem dúvidas de que a principal quota-parte dessa viagem é espanhola, mas não é verdade que seja “incontestable la plena y exclusiva españolidad dela empresa”. A Real Academia de la Historia deve estar cheia de fantasmas franquistas. Quando se pensava que a integração europeia acabava com todas as rivalidades ibéricas do passado, temos um jornal da direita franquista e tramontana espanhola a desenterrar o machado de guerra.

terça-feira, 5 de março de 2019

Uma celebração ibérica para Magalhães

A edição de ontem do jornal Público dedicou quatro páginas a Fernão de Magalhães, o navegador português que há 500 anos largou de Sanlúcar de Barrameda com 5 navios e 234 homens para navegar por ocidente até às Molucas. Numa altura em que a hegemonia náutica mundial pertencia aos portugueses, o navegador Fernão de Magalhães foi oferecer os seus serviços ao rei de Espanha para demonstrar que, nos termos do Tratado de Tordesilhas, as Molucas pertenciam a Espanha. Foi, objectivamente, um traidor ou um mercenário. Depois de ter descoberto a passagem do Atlântico para o Pacífico e ter atravessado esse oceano, veio a ser morto numa escaramuça numa ilha das Filipinas. Naquela situação desesperada, foi o basco Juan Sebastián Elcano que assumiu o comando da expedição e que decidiu regressar a Espanha pela rota dos portugueses, isto é, pelo cabo da Boa Esperança. Assim, sem que essa fosse a intenção inicial da sua missão, a nau Victoria acabou por fazer a circumnavegação da Terra, tendo regressado a Espanha em 1522.
O jornal Público decidiu tratar o assunto. Embora o jornal continue a não satisfazer totalmente as minhas necessidades informativas, reconheço que é o quotidiano português que mais procura divulgar temas de menor interesse geral, como sejam a Ciência, a Tecnologia e a Cultura e, neste caso, a História. Naturalmente que aplaudo esta linha editorial que foge ao sensacionalismo que não distingue notícia de opinião, que condena sem julgamento e que abre as suas páginas a comentadores de vão-de-escada. Por isso, aqui aplaudo o jornal por contribuir para a divulgação desta efeméride que é ibérica e que, como tal, deverá ser estudada e evocada neste seu 500º aniversário.