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sábado, 30 de abril de 2016

As fortalezas lusas do Algarve d’Além-Mar


A cidade portuguesa de Mazagão (El Jadida)

Durante alguns dias fui conhecer Ceuta e alguns locais da costa atlântica de Marrocos, a começar por Alcácer-Ceguer, Arzila e Tânger, a que se seguiram Azamor, Mazagão e Safim, onde as fortificações portuguesas com as suas muralhas e bastiões integram o património arquitectónico local e impressionam pela sua grandiosidade e até pelo seu estado de conservação. A aventura portuguesa em Marrocos começou em 1415 com a conquista de Ceuta, a que se seguiu a tomada de Alcácer-Ceguer (1458) e, depois, de Arzila e de Tânger (1471), pelo que o rei D. Afonso V passou a usar o título de “Rei de Portugal e dos Algarves, d’Áquem e d'Além-Mar em África”.
O senhorio português sobre este Algarve d’Além-Mar, nome que designava o conjunto de praças dominadas pelos portugueses no Norte de África, alargou-se com a ocupação de Safim (1508) e a conquista de Azamor (1514), a que se seguiu a construção de uma nova cidade em Mazagão. A orla costeira marroquina e o acesso ao mar Mediterrâneo, assim como as actividades marítimas na região, passaram a estar controlados pelos portugueses, embora pareça ser incontroverso que, por falta de meios, nunca procuraram o domínio territorial, tendo inclusive abandonado algumas das praças que dominavam. Após a restauração da independência em 1640, a praça de Ceuta optou por permanecer sujeita à coroa espanhola e em 1662 a praça de Tânger foi cedida à coroa inglesa como dote de D. Catarina de Bragança aquando do seu casamento com Carlos II de Inglaterra. Ficou Mazagão como a única fortaleza portuguesa, mas que veio a ser abandonada em 1769 por decisão régia.
Em 2004 as fortificações portuguesas de Mazagão, que hoje se integram na cidade de El Jadida, foram classificadas como património da Humanidade pela UNESCO e hoje são a melhor das memórias portuguesas em Marrocos.

domingo, 6 de março de 2016

Adeus Aníbal. Não nos deixas saudades!

Vai terminar o seu mandato o mais impopular presidente da democracia portuguesa e alguns milhões de cidadãos vão sentir-se aliviados depois de um longo tempo presidencial marcado pelo sectarismo, pela arrogância, pela insensibilidade social, pelo novo-riquismo e pela pequenez cultural e mediocridade cívica.
A impopularidade do filho do Teodoro de Boliqueime vinha de longe, quando falava com a boca cheia de bolo-rei e quando criou a doutrina do bom aluno, da submissão a Bruxelas e do deslumbramento pelos milhões dos fundos comunitários, que gerou a euforia cavaquista que o catapultou da Travessa do Possolo para o Palácio de Belém. Aí, Aníbal deslumbrou-se completamente e começou por abdicar da dignidade do seu salário para se encostar às suas pensões. Encheu-se de assessores, rodeou-se de gorilas e fartou-se de viajar. Nunca foi capaz de fazer um discurso cultural, nem soube revelar preocupações com a pobreza ou com a desigualdade. Distinguiu um agente da PIDE e ostracizou Salgueiro Maia. Falou das cagarras das Selvagens, das vacas que sorriem e do sabor da banana da Madeira. Lamentou-se pela reforma da mulher, faltou ao funeral de Saramago, disse que o BES não corria riscos e nunca se cansou de dizer, sobre tudo e mais alguma coisa, que já tinha avisado.
Durante cerca de dez anos optou por não ser o Presidente de todos os portugueses e ninguém esquece o seu discurso de posse, vingativo, sectário e divisionista. Não percebeu a sua função de garante da unidade e da coesão nacionais, assistiu passivamente à intervenção da troika e não teve uma palavra de conforto para as vítimas da austeridade, nem para os milhares de jovens que foram obrigados a emigrar.
Recentemente, Aníbal empunhou a bandeira do seu partido e fez tudo para não empossar o actual Primeiro-Ministro, mas o experiente e inteligente António Costa decidiu convidá-lo para simbolicamente presidir a um Conselho de Ministros. Fez bem, mas não deixou de ser uma valente bofetada de luva branca.
Aníbal acumulou fortuna e não vai regressar a Boliqueime porque tem agora uma nova mansão na famosíssima Praia da Coelha, enquanto em Lisboa vai ocupar um gabinete novo no Convento do Sacramento, sem se saber para quê. Aníbal foi um mau sonho que passou. Não vai deixar saudades nenhumas e, provavelmente, também não vai ter um lugar na História.

domingo, 21 de fevereiro de 2016

O cemitério português de Richebourg

O jornal La Voix du Nord que se publica em Lille, destaca hoje em primeira página que vão ser propostos para apreciação e classificação pela UNESCO um conjunto de 19 sítios – cemitérios e memoriais – localizados na região administrativa francesa de Nord-Pas-de-Calais, junto da fronteira belga. A proposta será apresentada pela associação “Paysages et sites de mémoire de la Grande Guerre” e inscreve-se na evocação do 1º centenário da Grande Guerra, tendo como objectivo fazer com que os inúmeros cemitérios militares da região integrem a lista de bens culturais da UNESCO. Esses sítios simbólicos já são uma atracção turística, mas as autoridades pensam que a sua classificação poderá potenciar mais visitas à região e, dessa forma, valorizar a sua economia. Numa primeira recolha o comité científico da associação apreciou 138 sítios e bens, sobretudo necrópoles e cemitérios militares, entre os quais alguns cemitérios de tropas expedicionárias portuguesas, indianas e canadianas, além de cemitérios de tropas alemãs, francesas e inglesas, tendo seleccionado cinco no Nord e catorze no Pas-de-Calais.
Entre os sítios selecionados está o cemitério militar português de Richebourg, situado na comuna de Richebourg, onde foram recolhidas as sepulturas de 1831 soldados portugueses mortos durante a 1ª Guerra Mundial, que se encontravam dispersas por diversos cemitérios franceses e belgas. Este cemitério foi inaugurado em 1928 e, poucos anos depois, foi construido um muro de protecção e uma porta monumental com materiais importados de Portugal. Em 1976 o sítio foi valorizado com a construção de uma capela da invocação de Nossa Senhora de Fátima.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Um navio que evoca a glória ibérica

Durante o próximo fim-de-semana, a nau Victoria que é a réplica da nau que concluiu a primeira volta ao mundo da História (1519-1522), estará atracada no porto andaluz de Almeria e poderá ser visitada pelo público. Esta visita está enquadrada numa viagem pelas costa mediterrânica espanhola e, antes de Almeria, o navio esteve em visita aos portos de Sanlúcar, Algeciras e Fuengirola, onde recebeu milhares de visitantes, sobretudo estudantes, que puderam conhecer a história do navio e da sua memorável viagem que, como se sabe, foi inicialmente comandada pelo navegador português Fernão de Magalhães e na qual participaram muitos marinheiros portugueses.
A nau Victoria foi construida entre 2004 e 2006 e já realizou uma volta ao mundo com escala em 17 países, numa viagem de representação nacional e de promoção da cultura e da História de Espanha.
É muito interessante esta iniciativa espanhola de divulgar a sua história marítima através da apresentação da nau Victoria por diferentes portos e, por essa via, estimular o interesse da juventude pelo mar e contribuir para o reforço da coesão nacional, numa acção a que se associa a imprensa da cidade de Almeria. Porém, teremos sempre que lembrar que a glória desta viagem é ibérica, porque na sua preparação e execução houve uma grande participação portuguesa que, por vezes, é esquecida pelos nossos vizinhos.
Aqui entre nós, este tipo de acções de representação não é inédita, embora não tenhamos, nem sei se devíamos ter, uma réplica da nau São Gabriel na qual Vasco da Gama chegou à Índia em 1498. Contentemo-nos com o navio-escola Sagres!

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Afonso de Albuquerque, o Leão dos Mares

Assinalam-se hoje cinco séculos sobre a data da morte de Afonso de Albuquerque, ocorrida a bordo do seu navio na barra de Goa, na manhã do dia 16 de Dezembro de 1515. O cronista Fernão Lopes de Castanheda descreveu esse acontecimento nos seguintes termos:
E dali por diãte se achou de cada vez peor, de maneira que sabado quinze dias de Dezembro á noyte que foy surgir na barra de Goa […] &  hũa hora antes que falecesse se lhe tornou a fala. E estandolhe lendo a paixão de que era muyto devoto, & em que dizia que levava sua esperança de salvação, deu a alma a nosso senhor domingo ante manhaã dezaseys de Dezembro de mil & quinhentos & quinze, vestido em ho abito de Santiago, de cuja ordem era cavaleyro […] pedio perdão de seus pecados antes de seu falecimto. E falecido foy posto na tolda da nao…
Afonso de Albuquerque foi uma das mais proeminentes figuras da História de Portugal e foi o verdadeiro fundador do Estado Português da Índia, ao assegurar-lhe uma base territorial. Tendo nascido em Alhandra de família fidalga no ano de 1453, adquiriu experiência militar desde muito jovem nas conquistas do norte de África e na batalha de Toro. Em 1506 seguiu para a Índia como capitão-mor da costa da Arábia no comando de uma frota de cinco navios da armada de dezasseis navios de Tristão da Cunha. Em 1507 conquistou Ormuz à entrada do golfo Pérsico, em 1510 conquistou Goa na costa ocidental da península Industânica e em 1511 conquistou Malaca, situada na península Malaia e na passagem marítima entre os oceanos Índico e Pacífico. Em 1509 tinha sucedido a D. Francisco de Almeida como 2º vice-rei e governador Estado Português da Índia, tendo desempenhado esse cargo até à sua morte em 1515. Morreu mal com el rey por amor dos homens, & mal com os homens por amor del rey.
Afonso de Albuquerque não está livre de acusações de desumanidade e barbaridade, mas é realmente uma das grandes figuras da História de Portugal e daí que seja aqui evocado.

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

A espectacular ponte romana de Alcântara

O diário Hoy que se publica nas cidades de Badajoz e de Cáceres, destaca na sua edição de hoje a inauguração da iluminação da ponte romana de Alcântara, que cruza o rio Tejo. A ponte fica localizada na província de Cáceres a cerca de 18 quilómetros da fronteira luso-espanhola de Segura - Piedras Albas. Tem 194 metros de comprimento, 8 metros de largura e uma altura máxima de 61 metros, constando de seis arcos assimétricos, que assentam sobre cinco pilares com alturas distintas sobre o terreno.
A ponte foi construída por ordem do Imperador Trajano, terá ficado concluída no ano 106 e é uma das mais importantes obras da engenharia romana, que continua a impressionar pela sua qualidade estética e funcional. Há quase dois mil anos que a ponte resiste a inúmeras circunstâncias adversas devidas a operações de guerra e que continua a suportar o trânsito rodoviário com total normalidade. A iniciativa de iluminar aquela ponte romana numa região fronteiriça e turisticamente excêntrica, contou com o apoio mecenático da Iberdrola e é demonstrativa do interesse das autoridades da Extremadura pelo seu património arquitectónico e cultural. Curiosamente, este importante monumento ainda não integra a Lista do Património Mundial da UNESCO, apenas porque essa classificação nunca lhe foi proposta. A decisão do diário Hoy de destacar em primeira página a inauguração da iluminação da ponte romana de Alcântara não é apenas a cedência aos interesses promocionais  da Iberdrola, mas parece ser também um primeiro passo no sentido dessa classificação.

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Códices medievais na Memória do Mundo

A UNESCO acaba de inscrever no Registo da Memória do Mundo o conjunto de manuscritos medievais dos Comentários do Apocalipse do Beato de Liébana existentes na Península Ibérica, em resultado de uma candidatura conjunta de Portugal e Espanha, apresentada em 2014 e intitulada Manuscritos do Comentário do Apocalipse (Beatus de Liébana) na Tradição Ibérica. O conjunto inclui onze manuscritos,  nove existentes em Espanha e dois que se encontram em Portugal, um dos quais é o códice conhecido como o Apocalipse de Lorvão, datado do séc. XII que pertence ao Arquivo Nacional da Torre do Tombo e, o outro, é o códice conhecido como o Apocalipse de Alcobaça, existente na Biblioteca Nacional, que foi produzido no Mosteiro de Alcobaça no início do séc. XIII.
A história remonta ao séc. VIII quando as Astúrias foram o reduto da resistência ibérica contra a invasão muçulmana. Aí, no ano de 786, o padre Beato de Liébana escreveu o Comentário do Apocalipse como uma interpretação do último livro do Novo Testamento para que os cristãos comuns conseguissem entender a linguagem simbólica do seu texto. No século XII o monge Egas, no Mosteiro do Lorvão, fez uma cópia do texto do Beato de Liébana que ficou conhecida como Apocalipse de Lorvão, ilustrando-a com 66 iluminuras e incluindo comentários pessoais. Como o original do século VIII se perdeu, no século XIII foi feita no Mosteiro de Alcobaça uma cópia a partir do Apocalipse do Lorvão do monge Egas, a que se chamou Comentário ao Apocalipse do Beato de Liébana ou Apocalipse de Alcobaça. Únicos no seu género, estes códices são considerados uma expressão cultural e artística de grande relevância produzida na Península Ibérica e com grande disseminação no resto da Europa medieval. No seu site, a UNESCO diz que aqueles manuscritos são “considerados os mais bonitos e originais produzidos pela civilização medieval ocidental”. Com esta classificação a Memória do Mundo da UNESCO passa a ter oito inscrições portuguesas.

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

A evocação histórica da tomada de Ceuta

Foi há 600 anos. O dia 21 de Agosto de 1415 foi “o dia em que Portugal saiu à descoberta do mundo” como hoje escreve o Público na sua primeira página, que é ilustrada com o famoso painel de azulejos de Jorge Colaço existente na Estação de São Bento no Porto.
Nesse dia, os portugueses entraram em Ceuta pela força das armas e em poucas horas tomaram a cidade. No dia seguinte, os filhos mais velhos de D. João I foram armados cavaleiros e, segundo relata Gomes Eanes de Zurara na Crónica da Tomada de Ceuta, o cavaleiro João Vaz de Almada “foi pôr a bandeira da cidade de Lisboa sobre as torres do castelo”. Passados seis séculos, a cidade autónoma de Ceuta ainda mantém como símbolo a mesma bandeira gironada de preto e branco e, sobre ela, o escudo português.
A tomada de Ceuta foi uma aventura militar bem sucedida em que participaram cerca de 20 mil cavaleiros e soldados que haviam sido transportados desde a costa portuguesa em mais de duzentas embarcações, mas tinha um sentido que hoje seria classificado de visão estratégica.
Os historiadores que se têm debruçado sobre esse feito de armas, não são unânimes quanto às motivações que estiveram na base da decisão do rei de Portugal, embora seja dominante a tese que considera ter-se tratado de uma acção de guerra para que os “altos infantes” fossem armados cavaleiros, embora também tenha havido outras motivações como o acesso aos cereais de Marrocos, a reforma do comércio com o norte de África, a dissuasão da pirataria moura que atacava a costa algarvia, a criação de uma base para controlo da navegação no Mediterrâneo oriental e até a expansão da fé cristã em Marrocos. Em 1640 os ceitis não aceitaram a Restauração e o novo Rei D. João IV, mantendo-se sob a soberania do Rei Filipe IV de Espanha. Os portugueses tinham administrado Ceuta durante 225 anos.
Ceuta representa o ponto de partida dos portugueses para a expansão marítima, a maior epopeia da sua história. Em menos de um século e muito antes de qualquer outra nação europeia, as naus portuguesas acharam o Brasil, contornaram a África e chegaram à Índia, à China e às ilhas da Insulíndia. Lembrar estas coisas não é saudosismo. É uma realidade que deve merecer o respeito da Europa, mas também é um estímulo para enfrentarmos as dificuldades do presente e os desafios do futuro.

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Brest festeja o regresso do L’Hermione

O porto de Brest vai receber hoje a fragata L’Hermione, uma réplica do navio que em 1780 transportou o Marquês de La Fayette em socorro dos revolucionários americanos, festejando “son retour en métropole” depois da sua viagem inaugural em que atravessou o Atlântico Norte, visitou 13 portos americanos e recebeu 55 mil visitantes. Foi uma viagem de grande sucesso que foi altamente mediatizada e que serviu para prestigiar a França. Agora, durante uma semana o navio será o testemunho da “velha amizade entre a cidade de Brest e os Estados Unidos” mas, também, um motivo de orgulho da cidade. Segundo o Le Télégramme que se publica na cidade bretã de Lorient e que na sua edição de hoje nos apresenta uma bela fotografia do L’Hermione, foi de Brest, então o maior porto francês, que saíu La Fayette mas também “o corpo expedicionário do general Rochambeau, futuro vencedor da batalha de Yorktown, uma vitória que foi decisiva para os revolucionários americanos e os seus aliados franceses na sua luta pela independência contra o poder colonial britânico”. Acrescenta o jornal que Brest foi o principal porto utilizado pelos americanos durante a I Guerra Mundial, onde a partir de Novembro de 1917 desembarcaram 800 mil soldados americanos, mas também a primeira orquestra de jazz afro-americano do 369º Regimento de Infantaria. Mais recentemente, a cidade foi libertada da ocupação nazi pelo III Exército dos Estados Unidos no dia 19 de Setembro de 1944, depois de um terrível cerco que durou 39 dias. As acções de solidariedade americana para com a cidade mártir de Brest começaram de imediato sob o impulso do general Eisenhower e de sua mulher.
Em 1962 Brest geminou-se com Denver, tendo sido a primeira cidade europeia a assumir esse estatuto com uma cidade americana. Significa que a ligação ao mar da Bretanha se reforça com esta tão profunda relação histórica e “esta velha amizade entre a cidade de Brest e os Estados Unidos”, que a festejada presença do L’Hermione evoca.  

domingo, 19 de julho de 2015

Duas boas exposições em Torres Vedras

Na incaracterística cidade de Torres Vedras, a par de um notável património militar e religioso e de muitas memórias históricas, existe o Museu Municipal Leonel Trindade instalado no antigo convento da Graça, em cuja exposição permanente se evocam as Linhas de Torres que, entre Outubro de 1810 e Março de 1811, travaram o avanço das tropas francesas do marechal André Masséna na sua caminhada para Lisboa e acabaram por provocar a sua retirada de Portugal.
Nesse museu estão actualmente em exibição duas interessantes exposições temporárias de elevado cunho didáctico, que foram inauguradas no dia 15 de Maio e que, por diferentes vias, evocam a expansão ultramarina portuguesa. Uma dessas exzposições intitula-se “Torres Vedras no caminho de Ceuta. 600 anos – Do Conselho Régio de Torres Vedras… à conquista de Ceuta (1414-1415)” e evoca o Conselho Régio que reuniu em Torres Vedras em 1414 e  que decidiu pela tomada de Ceuta e pelos preparativos para a mesma. A outra exposição intitula-se “Sarmento Rodrigues – Viagem ao Oriente Português” e recorda a viagem que o Ministro do Ultramar Almirante Sarmento Rodrigues realizou em 1952 aos territórios ultramarinos da Índia Portuguesa, Timor e Macau, com passagens por Malaca e Singapura, como contributo para a ideia então dominante de unidade de uma nação pluricontinental. Essa longa viagem, em que pela primeira vez aqueles territórios foram visitados por um membro do governo português, constituiu um acontecimento político relevante para a época e entusiasmou as elites locais que ofereceram ao ministro português várias peças ilustrativas da riqueza cultural dos territórios visitados. Essas peças de elevado valor artístico e simbólico que o Almirante Sarmento Rodrigues doou ao Museu Nacional de Etnologia integram a exposição e, só por si, justificam uma visita. A exposições manter-se-ão em exibição até ao dia 10 de Outubro.

sábado, 4 de julho de 2015

Cabo Verde: 40 anos de independência

Amanhã a República de Cabo Verde completa 40 anos como país soberano. Foi no dia 5 de Julho de 1975 que foi lida a histórica proclamação da independência na cidade da Praia, na ilha de Santiago. A festa vai ser grande, nas ilhas e na diáspora. Em Portugal estão anunciadas muitas iniciativas para celebrar a data.
As aspirações independentistas do arquipélago de Cabo Verde nunca tinham passado pela luta armada no seu território, embora o fundador e muitos quadros do PAIGC (Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde) fossem cabo-verdianos e tivessem participado activamente na guerra de libertação nacional que ocorreu na Guiné entre 1962 e 1974. Esse facto, associado a uma evidente proximidade cultural entre os portugueses e os cabo-verdianos e até circunstâncias de relacionamento pessoal entre muitos dirigentes das duas partes, facilitou e tornou “exemplar” o processo de transferência de soberania portuguesa para o novo Estado. Por isso, as delegações do governo português e do PAIGC assinaram no dia 19 de Dezembro de 1974, em Lisboa, um documento que abriu caminho para a independência do arquipélago.
Nesse documento de oito páginas foi aprovada a transferência de poderes e foi criado um governo de transição composto por três ministros portugueses e três cabo-verdianos, liderado por um Alto-Comissário português, cargo que foi desempenhado pelo almirante Vicente Almeida d'Eça, como representante da soberania portuguesa. O governo de transição teve por principal missão "conduzir as operações conducentes à eleição por sufrágio directo e universal, em 30 de Junho de 1975, de uma assembleia representativa do Povo de Cabo Verde". Nesse dia foram eleitos os primeiros 56 deputados cabo-verdianos, que se reuniram no dia 4 de Julho de 1975 nas instalações da Câmara Municipal da Praia, para constituírem a primeira Assembleia Nacional Popular. Nessa sessão foi aprovada a solene proclamação que foi lida no dia seguinte por Abílio Duarte, o primeiro presidente do parlamento cabo-verdiano, no estádio da Várzea:
“Povo de Cabo Verde, hoje, 5 de Julho de 1975, em teu nome, a Assembleia Nacional de Cabo Verde proclama solenemente a República de Cabo Verde como Nação Independente e Soberana”.
Passados 40 anos, a República de Cabo Verde é um respeitado membro da comunidade internacional, um dos símbolos da paz e da democracia em África e uma terra de gente fascinante, desde Amílcar Cabral e Pedro Pires, até Cesária Évora e Germano Almeida.  É um país de músicos e de futebolistas, de gente de trabalho e de sofrimento, mas é também o país da morabeza e da cachupa, da morna, da coladera e da kolá san jon. Uma grande comunidade e um grande país!

quinta-feira, 2 de julho de 2015

O nosso melhor embaixador é um navio

Os americanos têm um enorme envolvimento emocional e cultural com o 4th July, o seu Dia da Independência, que evoca o dia do ano de 1776 em que as treze colónias rebeldes subscreveram a Declaração de Independência e declararam a separação formal do Império Britânico.
Por razões históricas esse envolvimento acontece sobretudo na costa leste dos Estados Unidos e, em especial, nas cidades costeiras dos estados de Nova Iorque, Maryland, Virginia, Pensilvânia, Massachusetts e Connecticut. Nas cidades de vocação marítima realizam-se grandes festivais náuticos para celebrar a independência americana e, neste ano de 2015, a costa leste está a receber a visita dos veleiros que participam na Tall Ships Challenge Atlantic Coast 2015, que durante os meses de Junho e Julho escalam uma dezena de portos, designadamente Yorktown, Baltimore, Filadélfia, Nova Iorque, Newport e Boston. Esta ano, talvez por razões orçamentais, a participação europeia limita-se às réplicas da fragata francesa L’Hermione e do galeão espanhol Andalucia, mas também da barca portuguesa Sagres. O nosso navio-escola já visitou Filadélfia, onde a sua presença foi muito destacada nas redes sociais da comunidade portuguesa, navegou depois para Nova Iorque onde estará no dia 4 de Julho, seguindo-se New Bedford e Boston.
A edição de hoje do semanário Suffolk Times que se publica em Mattituck – New York, dedica a sua primeira página ao 2015 Greenport Tall Ships Challenge Festival e, entre outros veleiros, apresenta a imagem da Sagres.
A presença da Sagres nestes portos vai ser, como sempre acontece, uma grande festa e um motivo de grande orgulho para a comunidade portuguesa e, por isso, esta viagem merece o nosso aplauso. Ou não fosse o navio-escola Sagres o nosso melhor embaixador.

quinta-feira, 25 de junho de 2015

Moçambique: 40 anos de independência

Lourenço Marques, Estádio da Machava, 25 de Julho de 1975
Foi há 40 anos que, numa noite de chuva torrencial, um marinheiro português arriou a bandeira nacional no Estádio da Machava na cidade de Lourenço Marques,  sendo içada depois a bandeira da Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo). Passados 477 anos sobre os primeiros contactos de Vasco da Gama com a “terra da boa gente” (Inhambane) e com o “rio dos bons sinais” (Quelimane), estava consumada a independência da República Popular de Moçambique.
A guerra em Moçambique que tantos de nós conhecemos, tinha sido muito dura, mas não foi longa. O dia 25 de Setembro de 1964 é considerado como a data de início da luta armada de libertação nacional com o ataque ao posto administrativo do Chai (província de Cabo Delgado) e o dia 7 de Setembro de 1974 é considerado como a data do fim da guerra com a assinatura em Lusaca de um acordo de cessar-fogo.
No dia 12 de Setembro de 1974 chegou a Moçambique o novo Alto-Comissário Vítor Crespo como representante da soberania portuguesa e, poucos dias depois, foi formado um Governo de Transição chefiado por Joaquim Chissano, que incluia ministros designados por Portugal e por Moçambique. A formalização da independência ficou acordada para o dia 25 de Junho de 1975, a data do 13º aniversário da fundação da Frelimo.
E assim sucedeu. A cerimónia de declaração da independência moçambicana realizou-se no Estádio da Machava na data prevista, com toda a dignidade e com a presença das autoridades portuguesas, como o Alto-Comissário, o Primeiro-Ministro de Portugal e os responsáveis máximos dos partidos políticos portugueses de então (Mário Soares pelo PS, Magalhães Mota pelo PPD, Álvaro Cunhal pelo PCP e Pereira de Moura pelo MDP/CDE). Samora Machel, o Presidente da Frelimo e futuro Primeiro-Ministro de Moçambique, fez então uma declaração, entusiasticamente recebida pela população:
“Moçambicanas! Moçambicanos! Operários! Camponeses! Combatentes! Povo Moçambicano! Em vosso nome, às zero horas de hoje, 25 de Junho de 1975, o Comité Central da Frelimo proclama solenemente a independência total e completa de Moçambique e a sua constituição como República Popular de Moçambique”.
Assim se iniciou a nova vida de Moçambique que, 40 anos depois, aqui se evoca!

quinta-feira, 18 de junho de 2015

Em Waterloo com Napoleão (1815-2015)

Foi há 200 anos que nos campos de Waterloo se desenrolou uma das mais famosas batalhas da história mundial, de que resultou a derrota do imperador Napoleão Bonaparte.
O imperador dos franceses tinha sido derrotado em 1814 por uma coligação europeia e tinha sido mandado para o exílio na ilha de Elba, enquanto o rei Luís XVIII foi colocado no trono da França e os aliados se reuniram em Viena para redesenhar o mapa da Europa depois do abalo provocado pela aventura napoleónica que, entre outras coisas, até provocara a retirada da Família Real portuguesa para o Brasil em 1807. Porém, Napoleão evadiu-se da ilha de Elba, regressou a França e, no dia 20 de Março de 1815, entrou em Paris onde foi recebido em apoteose e onde recuperou o poder.
No dia 15 de Junho, à frente de um exército de 73 mil homens, decidiu invadir os campos da actual Bélgica, então pertencentes ao Reino Unido dos Países Baixos, com o objectivo de bater o exército chefiado pelo Duque de Wellington, constituído por 93 mil ingleses e o exército prussiano do general Blücher, com 117 mil homens. Prevendo a chegada próxima de reforços austríacos e russos e, apesar da desvantagem numérica, Napoleão atacou os exércitos de Wellington e de Blücher nos campos de Waterloo . O confronto iniciou-se no dia 16 de Junho e teve o seu dia decisivo no dia 18 de Junho de 1815, quando Napoleão foi derrotado e retirou do campo de batalha. Depois, abdicou, rendeu-se aos ingleses e foi exilado para a ilha de Santa Helena, onde morreu em 1821.
O campo militar de Waterloo, que fica a cerca de 12 quilómetros de Bruxelas, foi preservado museologicamente e é exactamente nesse local que, hoje e nos próximos dias, se realizam reconstituições da famosa batalha. Muitos jornais belgas, franceses e ingleses evocam hoje nas suas edições a histórica batalha que ditou o fim da era napoleónica.

domingo, 7 de junho de 2015

A diplomacia histórico-emocional

Hoje, no Estado da Virginia e especialmente no porto de Yorktown, há uma grande festa em honra da amizade entre a França e os Estados Unidos e de exaltação da lendária figura do Marquês de La Fayette, o herói francês da independência americana. A réplica da famosa fragata francesa L´Hermione que em 1780 levou o famoso revolucionário da França para a América e, também, o apoio francês aos revolucionários americanos, saiu da costa francesa no dia 18 de Abril, atravessou o Atlântico e entrou, com a pompa e circunstância com que os americanos recebem os veleiros, no histórico porto de Yorktown.
A história americana está fortemente ligada a Yorktown e à Virgínia. Foi nesta região que em 1607 os ingleses estabeleceram o seu primeiro assentamento no novo continente e este Estado foi um dos treze que se revoltaram contra os ingleses durante a guerra da independência, tendo sido exactamente em Yorktown que em 1781 as forças britânicas de Lord Cornwallis se renderam às forças de George Washington, um filho desta terra, assim terminando a guerra da independência americana.
Depois de uma escala de três dias em Yorktown, a fragata L’Hermione realizará um périplo de um mês pelos lugares históricos da revolução americana, como Filadélfia e Boston, terminando esta sua missão história e diplomática em Nova York no dia 4 de Julho, quando se celebra o aniversário da independência das colónias inglesas da América.
Ontem, o diário Daily Press que se publica em Newport desde 1896, destacou este acontecimento, publicando na sua primeira página uma espectacular fotografia do L’Hermione a entrar no porto de Yorktown. A nação americana tem uma existência ainda curta e, por isso, sabe apreciar como poucas as suas memórias históricas, muitas vezes materializadas na visita de um veleiro que evoca a sua própria identidade nacional, enquanto a França sabe como é importante e prestigiante esta diplomacia de natureza histórico-emocional.

sábado, 18 de abril de 2015

Lafayette "regressa" aos Estados Unidos

Vários jornais franceses, entre os quais o Sud Ouest que se publica em Bordéus, destacam hoje nas suas primeiras páginas a partida de Rochefort da réplica da fragata L’Hermione com rumo à América, 235 anos depois da viagem em que seguiu o jovem Gilbert du Motier, marquês de La Fayette. Então com 23 anos de idade, o marquês partiu no dia 20 de Março de 1780 para se juntar aos revoltosos americanos comandados pelo general George Washington e para lhes anunciar a chegada eminente de reforços franceses. Colocado no comando das tropas da Virginia, tornou-se um quase filho adoptivo de Washington, tomou parte nas grandes batalhas que levaram à derrota dos ingleses e tornou-se um verdadeiro herói nacional dos Estados Unidos com o nome americanizado de Lafayette. Os franceses decidiram evocá-lo como “o símbolo eterno da amizade franco-americana” e para isso decidiram construir uma réplica do L'Hermione.
A sua construção demorou 18 anos de pesquisas históricas, estudos e angariação de fundos para fazer aquele que os franceses afirmam ser o maior navio histórico a navegar, no qual serão usadas as técnicas tradicionais de manobra e navegação.
O navio é comandado por Yann Cariou, tem 54 tripulantes com uma média de idades de 27 anos, dos quais um terço são mulheres. A chegada às costas da Virginia está prevista para o dia 5 de Junho e, depois, o navio visitará 11 portos ao longo da costa americana, entre os quais Baltimore, Filadélfia, Nova York, Newport e Boston. O ponto alto desta viagem-memória será no dia 4 de Julho na Grande Parada de Nova York. Como é costume neste tipo de viagens dos veleiros ocidentais ao novo mundo, esperam-se muitos milhares de espectadores e de visitantes nos portos visitados, assim como milhares de pequenas embarcações à vela e a motor a escoltar o L’Hermione nas entradas e saídas dos portos visitados.
No dia 28 de Agosto de 2015 o navio estará de novo em Rochefort.

sábado, 15 de novembro de 2014

As jóias da expansão expostas em Lisboa

 
O Museu do Oriente inaugurou a exposição  ‘Jóias da Carreira da Índia’, que exibe cerca de duas centenas de peças, na sua maioria de ouro e prata, trabalhadas e enriquecidas com gemas, pérolas, marfins e esmaltes de cores exuberantes, que foram produzidas em diferentes lugares do Oriente e trazidas para o Reino a bordo das naus da Carreira da Índia. Esta carreira fazia a ligação anual entre Lisboa e Goa, embora por vezes também se dirigisse a outros destinos como Cochim, Baçaim ou mesmo Malaca, tendo entrado na História pelo seu pioneirismo náutico e pelo seu impacto no encontro cultural e económico entre o Ocidente e o Oriente. A viagem começou a ser estabelecida em finais do século XV e manteve-se ao longo dos tempos, até ao aparecimento da navegação a vapor e à abertura do canal do Suez. Cada uma destas viagens demorava cerca de 6 a 8 meses. Na viagem de ida, as naus levavam soldados, religiosos, mercadores e aventureiros, mas na viagem de regresso, ou torna-viagem, traziam a pimenta da costa do Malabar, a canela do Ceilão e o cravo das Molucas.
Porém, enquanto o negócio das especiarias era reservado em exclusivo ao rei de Portugal, muitas outras mercadorias e objectos raros como as peças de joalharia, “cabiam no bolso de qualquer viajante”. Essas preciosidades da joalharia oriental – colares, pendentes, pulseiras, adagas, taças, caixas e outros objectos – alimentavam a cobiça de muitos indivíduos que as adquiriam para fruição pessoal ou para serem vendidas em Portugal e na Europa.  
A exposição é uma bela lição de História da Expansão Portuguesa, sendo apoiada por um excelente catálogo. Pode ser vista até ao dia 26 de Abril de 2015 e constitui um documento de grande interesse histórico e estético que junta peças de diversas origens, muitas delas nunca antes expostas.  

sábado, 1 de novembro de 2014

A Casa dos Estudantes do Império

Numa iniciativa da UCCLA - União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa, teve início um programa comemorativo para assinalar os 50 anos do encerramento da Casa dos Estudantes do Império (CEI), que inclui várias iniciativas e se prolongará até Maio de 2015.
A CEI foi criada em 1944 pelo governo de Salazar com o objectivo de apoiar os estudantes brancos, mestiços ou negros oriundos das colónias, mas também para os controlar através da PIDE. As suas funções eram sobretudo de âmbito social, incluindo refeitório e assistência médica, para além da promoção de actividades desportivas e culturais. No entanto, a ideia fundadora que parecia reflectir sentimentos de generosidade para com os estudantes das colónias que se encontravam em Portugal, tinha um acentuado cunho político e era um instrumento destinado a afirmar a dimensão imperial de Portugal, na linha do que sucedera com a Exposição do Mundo Português realizada em 1940.
Apesar de ser financiada pelo Estado português e de ter objectivos sociais, a CEI falhou nos seus propósitos e acabou por ter um papel fundamental nas lutas pela independência das colónias portuguesas, vindo a ser encerrada pelo governo  em 1965. A progressiva politização da elite cultural africana ligada à CEI tinha-se acentuado com as campanhas eleitorais da oposição democrática, com o exemplo das lutas de libertação em diversos países africanos e, por fim, com a intransigência salazarista relativamente à discussão das questões coloniais, pelo que muitos desses jovens estudantes que passaram pelas instalações da CEI em Lisboa e Coimbra, se tornaram líderes dos movimentos de libertação nacional nas colónias portuguesas. É o caso de personalidades como Agostinho Neto, Amílcar Cabral, Pedro Pires, Vasco Cabral, Mário Pinto de Andrade, Marcelino dos Santo, Luandino Vieira, Rui Mingas, Óscar Monteiro, João Craveirinha, Joaquim Chissano, Miguel Trovoada, Francisco Tenreiro, Pepetela e muitos outros intelectuais.
As celebrações começaram esta semana em Coimbra e alguns jornais de língua portuguesa noticiaram o seu início, mas o principal destaque do acontecimento foi dado pelo Mutamba, o suplemento da edição de ontem do semanário angolano Novo Jornal que, além de desenvolvida notícia, até reproduziu a fotografia do edifício onde esteve instalada a CEI no Bairro do Arco do Cego em Lisboa.

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Ceuta conserva a boa memória lusitana

A cidade autónoma de Ceuta comemorou ontem o Dia de Ceuta com uma cerimónia institucional que foi o ponto alto de um programa que se estendeu por vários dias. Nessa cerimónia realizada no Teatro Auditório del Revellin, foram distribuidas as Medalhas da Autonomia que, em cada ano, distinguem as associações e as personalidades que mais se distinguiram na valorização ou na promoção da cidade.
A cscolha desta data é uma curiosidade da História. Quando no dia 21 de Agosto de 1415 o Rei D. João I de Portugal desembarcou na cidade e rapidamente a tomou pela força dos homens e das armas, alguns capitães pretenderam ser escolhidos para governar a cidade, mas o rei escolheu D. Pedro de Menezes, 1º conde de Vila Real, para seu primeiro governador e capitão-geral, apenas porque se apresentou com um pau e disse que “aquele pau lhe bastaria para defender a cidade de todos os seus inimigos”. A nomeação de D. Pedro de Menezes aconteceu no dia 2 de Setembro e esse pau ainda hoje se encontra no santuário de Nossa Senhora de África, tendo passado de mão em mão por todos os governadores que comandaram a praça de Ceuta e juraram defender a cidade.
Durante o período da União Ibérica (1580-1640), a cidade manteve a administração portuguesa, mas em 1640 não aclamou o novo Rei D. João IV, optando por ficar sob domínio espanhol. No entanto, a cidade decidiu manter a sua bandeira de gomos brancos e pretos como a bandeira da cidade de Lisboa e o escudo português, que é o seu verdadeiro ex-libris.
No próximo ano celebra-se o 6º centenário da tomada de Ceuta que, habitualmente, é considerada como o facto que marca o início da expansão portuguesa pelo mundo. Estamos cá para ver como será e por quem será evocada essa data.

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Memória da 1ª Guerra Mundial (1914-18)

Vários Chefes de Estado e outros altos representantes de mais de cinquenta países assinalaram ontem na Bélgica o centenário do início da 1ª Guerra Mundial, na qual pereceram cerca de 17 milhões de pessoas, entre militares e civis.
Embora a guerra tivesse começado com a invasão da Sérvia pelos exércitos austro-húngaros (28 de Julho), foi a invasão da Bélgica e a declaração de guerra da Alemanha à França (3 de Agosto) e o consequente envolvimento britânico (4 de Agosto), que aceleraram o desenrolar do conflito. Por isso, a efeméride foi especialmente evocada na Bélgica, em França e no Reino Unido, embora tivesse interessado muitos outros países, entre os quais Portugal, onde a comunicação social promoveu diversas iniciativas com destaque para o suplemento diário que o jornal Público vem publicando desde 28 de Julho sobre “os 100 anos da I Guerra Mundial”.
Nas cerimónias realizadas em Liége foi recordada a invasão alemã que desencadeou o conflito na frente ocidental, tendo o presidente francês agradecido à Bélgica a resistência de Liége que retardou a entrada das tropas alemãs no território francês. Outros discursos inspiraram-se nas “lições da História” e lembraram a enorme catástrofe que foi a guerra que varreu a Europa entre 1914 e 1918, tendo algumas vozes apelado para a necessidade do velho continente não optar pela indiferença relativamente aos conflitos que actualmente acontecem na Ucrânia, no Iraque, na Síria ou em Gaza, mas antes escolher uma intervenção pacificadora. Por razões diplomáticas não foi dito que, pior do que a indiferença, é tomar partido com o indisfarçado objectivo de vender armas ou de tomar posições no jogo do petróleo naquelas regiões.
Portugal também entrou na guerra a partir de 9 de Março de 1916 quando a Alemanha decidiu fazer uma declaração de guerra ao nosso país, embora nessa altura já decorressem operações militares na fronteira sul de Angola e na fronteira norte de Moçambique.