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sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

Um navio-fantasma que chegou à Irlanda


Um “navio-fantasma” de 77 metros de comprimento apareceu encalhado em Ballycotton, na costa sul da Irlanda, na sequência da tempestade Dennis que assolou a Europa na passada semana. O navio terá andado à deriva durante mais de um ano sem tripulação e percorrido milhares de quilómetros no oceano Atlântico. Segundo revela o jornal The Guardian o navio chama-se M/V Alta, foi construído em 1976 e, ao longo da sua vida, teve vários nomes e diferentes proprietários.
Em Setembro de 2018 o navio navegava da Grécia para o Haiti quando teve uma grave avaria pelo que ficou sem energia a bordo e, durante vinte dias, andou à deriva numa posição a cerca de duas mil milhas para sueste da Bermuda. Tendo sido detectado naquelas condições, a autoridade marítima americana tratou de lhe lançar comida por via aérea, mas como se aproximava um furacão, decidiu resgatar os seus dez tripulantes e levá-los para Porto Rico. Desde então, o M/V Alta ficou à deriva e sem tripulação.
Ao aparecer encalhado na rochosa costa sul da Irlanda, significa que o navio andou à deriva durante cerca de dezoito meses, tendo sido avistado apenas uma vez pelo HMS Protector da Royal Navy, o que mostra como é grande a vastidão do oceano ou como no mar cada um trata de si. Porém, o jornal deixa muitas interrogações para serem resolvidas, sobretudo saber quem é o proprietário do navio, qual a sua carga na altura em que foi abandonado e como foi possível que quem resgatou a sua tripulação deixasse o navio à deriva e a constituir um “perigo para a navegação”.
É mesmo um caso de navio-fantasma.

domingo, 19 de janeiro de 2020

A saída de navios para o mar… é notícia

O jornal The San Diego Union-Tribune destacou na sua edição de hoje uma fotografia do super porta-aviões de propulsão nuclear USS Theodore Roosevelt  (CVN-71), largando do porto de San Diego para o Pacífico ocidental.
Este super navio de 117 mil toneladas de deslocamento e 332,8 metros de comprimento tem a sua base em San Diego e vai partir para uma comissão de sete meses no Pacífico ocidental, levando consigo um grupo de ataque constituído por seis navios de superfície e cerca de noventa aeronaves embarcadas. A bordo destas unidades estarão cerca de seis mil homens e mulheres.
Este movimento faz parte da rotina operacional da Marinha dos Estados Unidos e o USS Theodore Roosevelt  vai integrar-se no United States Indo-Pacific Command (USINDOPACOM), que é o mais antigo e maior dos comandos de combate unificados, responsável por todas as operações militares americanas numa área equivalente a 52% da superfície da Terra. Para além da bela imagem que mostra o navio a sair de San Diego - que é um excelente exemplo de fotojornalismo - o interessante desta notícia é apenas o contraste entre os destaques que a imprensa dá às missões das suas Marinhas de Guerra: na imprensa americana é destacada a missão de um navio que larga para uma comissão de sete meses do outro lado do Pacífico, mas na imprensa portuguesa não consta que qualquer missão naval seja notícia, mesmo quando um navio larga para uma volta ao mundo.

terça-feira, 7 de janeiro de 2020

A Sagres partiu. Que a viagem seja feliz!

No passado domingo, dia 5 de Janeiro, o navio-escola Sagres largou de Lisboa para a sua quarta viagem de circum-navegação que se prevê demorar 371 dias e que está associada às comemorações do 5º Centenário da Viagem de Fernão de Magalhães.
O navio tem uma guarnição permanente de 142 tripulantes, a que se juntarão em diferentes fases da viagem os cadetes do 2º e 3º anos da Escola Naval para cumprirem as suas curriculares viagens de instrução e, durante a longa viagem, o navio visitará 22 portos em 19 países, percorrendo cerca de 41 mil milhas.
A viagem cumpre diversos objectivos, quase numa lógica de economias de escala, pois associa-se às comemorações do feito histórico de Magalhães e Elcano, marca presença em alguns espaços simbólicos da diáspora portuguesa, divulga a imagem de Portugal nos países visitados e assegura a instrução dos cadetes da Escola Naval. Embora seja muito repetida a afirmação de que o navio-escola Sagres é uma grande embaixada de Portugal ou um ex-libris do nosso país, por ser verdadeira e exacta, tem que ser aqui reafirmada. Serão, como sempre, muitos milhares de visitantes que serão recebidos a bordo do navio português e as suas fotografias correrão mundo através das redes sociais e da imprensa. É, por isso, uma grande jornada de promoção de Portugal no mundo.
Como nota dissonante deste importante evento deve ser salientado que nenhum jornal português destacou a notícia da largada do navio-escola Sagres, ao menos com uma fotografia de primeira página, o que mostra a gritante mediocridade da generalidade da nossa imprensa. Se a partida para uma volta ao mundo tão simbólica não é notícia, então também se espera que, quando o Presidente da República visitar o navio, eventualmente no Japão, não convide para a sua comitiva os jornais e os jornalistas que ignoraram a partida do navio-escola Sagres e escolheram o jogo Sporting-Porto ou a falta de pediatras em Torres Vedras como notícias do dia. A viagem vai ser dura, mas vai ser muito gratificante. Que seja uma viagem feliz!

sábado, 28 de dezembro de 2019

Exercícios navais do Irão, Rússia e China


A edição de hoje do diário Iran Daily anuncia com grande destaque que modernos navios do Irão, da Rússia e da China saíram do porto iraniano de Chabahar, iniciando quatro dias de exercícios navais no mar de Oman e na área norte do oceano Índico, com o objectivo de “melhorar a segurança do comércio marítimo internacional e combater a pirataria e o terrorismo”. O exercício foi baptizado com o nome de código Marine Security Belt e, segundo foi anunciado, vai incluir diversos exercícios tácticos, como tiro ao alvo, resgate de navios assaltados, combate a incêndios e outros exercícios combinados, mas na realidade trata-se de uma grande operação de comunicação em que a Rússia e a China mostram ao Ocidente e ao mundo que são aliados do Irão e que “o Irão não pode ser isolado”.
Para os Estados Unidos e para a sua política errática na região do Golfo este exercício multinacional conjunto mostra que, de facto, já existe uma coligação militar de apoio ao Irão e que a influência militar americana na região já não é o que era. Por isso, a repetida intenção de Donald Trump de hostilizar a República Islâmica do Irão e as suas frequentes ameaças de desencadear um ataque contra o seu território e as suas eventuais instalações de produção de engenhos nucleares, foram fortemente abaladas com a realização deste exercício e com a formalização desta forte aliança, sendo considerado que a diplomacia americana falhou no seu propósito de isolar internacionalmente o Irão, tal como falhara na tentativa de controlar a guerra na Síria. Porém, o que não deixa de ser preocupante para a paz no mundo é a forma como todos os grandes interesses se posicionam no Médio Oriente e no Golfo.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

O negócio da droga e os narcosubmarinos

A Marinha de Guerra do Perú capturou no passado sábado, pela primeira vez na sua história, um narcosubmarino com cerca de duas toneladas de cocaína que tinha como destino os Estados Unidos, enquanto há duas semanas tinha sido capturado na Galiza um outro narcosubmarino com três toneladas de cocaína. Duas capturas em tão curto espaço de tempo, colocaram essas máquinas na agenda mediática internacional.
O Perú é o segundo maior produtor mundial de cocaína, estimando-se uma produção anual de 400 toneladas em 50 mil explorações ilícitas, pelo que a recente captura veio revelar a utilização de narcosubmarinos de uma forma mais intensa do que a opinião pública pensava. O jornal El Comércio, que se publica em Lima, destacou a fotografia do narcosubmarino apreendido e uma extensa reportagem com o historial da utilização dos narcosubmarinos pelos traficantes. Segundo essa reportagem, o primeiro semisubmersível foi descoberto em 1993 na ilha colombiana de Providencia e era muito rudimentar, tendo sido apenas em 2011 que as autoridades colombianas capturaram o primeiro verdadeiro narcosubmarino, com cerca de 30 metros de comprimento, possibilidade de transportar quatro tripulantes e com sistema de ar condicionado e cozinha. Porém, oito anos depois, as recentes capturas nas costas peruanas do Pacífico e nas costas espanholas depois da longa travessia do Atlântico, mostram que houve uma grande evolução tecnológica nos narcosubmarinos. Segundo a reportagem, os narcosubmarinos são construídos nas selvas do Surinam e da Guiana, custam 1,5 milhões de dólares cada um e servem apenas para uma viagem, enquanto os seus tripulantes recebem um curso rápido antes de realizar qualquer missão. Calcula-se que cerca de 50% da produção mundial de cocaína é transportada por via marítima e que os traficantes apostam cada vez mais nos narcosubmarinos como o método de transporte mais efectivo das suas cargas.

segunda-feira, 25 de novembro de 2019

Como o narcotráfico atravessa o Atlântico

Foi apresado ontem na costa galega, a poucas milhas da fronteira portuguesa, um submarino mais ou menos artesanal que transportava mais de três toneladas de cocaína, avaliadas em cerca de cem milhões de euros. Ainda há poucas notícias consistentes sobre o assunto, mas segundo revela La Voz de Galicia parece que o submarino encalhou numa praia do município de Cangas do Morrazo, na província de Pontevedra, devido ao mau tempo, à falta de combustível ou por outras razões ainda por esclarecer. Embora a actividade deste tipo de submarinos fosse conhecida, sobretudo pelo narcotráfico que fazem entre a Colômbia e o México, foi a primeira vez que um narcosubmarino foi apresado na Europa, como resultado da troca de informações e de uma operação em que intervieram diversas agências internacionais. A investigação está em curso mas a imprensa espanhola já revelou que o submarino tem 22 metros de comprimento, teria sido construído na Guyana, seria proveniente da Colômbia e na sua travessia atlântica teria feito escala em Cabo Verde. Depois aproximou-se da costa portuguesa, seguindo depois para a costa galega, tendo supostamente percorrido 7.690 quilómetros. Os  seus três tripulantes abandonaram  o submarino, mas dois deles de origem equatoriana foram capturados, enquanto o terceiro, provavelmente galego, logrou escapar à polícia. Esta captura constitui um acontecimento importante na luta contra o narcotráfico, mas só as investigações irão esclarecer o que de facto aconteceu com o narcosubmarino, porque é mínima a probabilidade dessa travessia atlântica ter sido feita sem o apoio de um ou mais navios. Porém, se se vier a apurar que aquela maquineta navegou como navio solto e sem apoio, eventualmente submersa, estaríamos perante um acontecimento náutico comparável às viagens de Cristóvão Colombo do século XV.

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

A pirâmide invertida nas Forças Armadas

A notícia da edição de hoje do Jornal de Notícias é alarmante mas confirma as suspeitas que existem, desde há alguns anos, de que há cada vez menos praças nas Forças Armadas, designadamente no Exército e na Força Aérea.
Segundo refere a notícia, os efectivos das Forças Armadas são actualmente de 25.845 elementos, tendo havido uma redução de cerca de 25% nos últimos oito anos. No que respeita à classe de praças, no mesmo período, a redução foi superior a 40%. Actualmente o Exército tem 6265 praças, 3881 sargentos e 2976 oficiais, a Força Aérea tem 1930 praças, 2620 sargentos e 1944 oficiais, enquanto a Marinha tem 3714 praças, 2237 sargentos e 1985 oficiais. Esta "situação insustentável", segundo o CEMGFA, resulta sobretudo das opções políticas e dos constrangimentos orçamentais, mas também de uma atitude cultural do poder político.
Destes números pode concluir-se que a organização militar portuguesa tem uma pirâmide hierárquica invertida, certamente por corresponder a uma maior qualificação técnica dos seus elementos para os habilitar a dar resposta à sofisticação dos modernos equipamentos militares, mas também mostra um crescente desinteresse do poder político pelas suas Forças Armadas, provavelmente porque é grande o fosso existente entre os valores sociais dominantes e a cultura militar. A clássica opção apresentada há muitos anos por Paul Samuelson relativamente à utilização de recursos escassos na escolha entre canhões e manteiga, tem plena aplicação no caso português, porque a classe política que ocupa, ou quer ocupar o poder, se sustenta através do voto dos eleitores e estes estão mais interessados em manteiga do que em canhões.   
Porém, o problema da dimensão das Forças Armadas, do recrutamento de pessoal e da retenção dos militares qualificados não é apenas uma questão cultural porque é, sobretudo, uma questão de constrangimentos orçamentais que até é comum à maioria dos países europeus, como tantas vezes tem salientado o Donald. O facto é que o assunto é complexo e não pode deixar de ser estudado por quem saiba, porque assim as coisas não estão bem e, enquanto pilar do Estado democrático, as Forças Armadas têm que ser prestigiadas e dotadas dos meios adequados para cumprir as suas missões.

sábado, 2 de novembro de 2019

A viagem do “Mayflower” foi há 400 anos

No dia 6 de Setembro de 1620 largou de Plymouth um velho navio de carga de cerca de 30 metros de comprimento chamado Mayflower que transportava 30 tripulantes e 102 passageiros com destino ao outro lado do Atlântico. No dia 11 de Novembro o navio chegou a Cabo Cod, no actual estado de Massachusetts, depois de sessenta e cinco dias de viagem.
Na sua maioria os passageiros do Mayflower eram famílias puritanas que procuravam a sua liberdade longe da Igreja Anglicana, num tempo de grande conflitualidade religiosa nas ilhas britânicas e na Europa. Apenas sobreviveram 53 passageiros, conhecidos depois por pilgrims fathers, que foram os primeiros ingleses protestantes que emigraram para o continente americano e que fundaram as primeiras colónias que vieram a dar origem aos Estados Unidos.
Nos anos 1950 surgiu na Inglaterra a ideia de construir uma réplica do Mayflower para ser oferecida aos Estados Unidos como símbolo da gratidão inglesa pela ajuda americana durante a II Guerra Mundial. Essa réplica foi construída nos estaleiros de Brixham e em 1957 navegou para os Estados Unidos, onde se tornou um navio-museu muito visitado e tendo feito algumas pequenas viagens entre os portos da costa nordeste dos Estados Unidos. Actualmente o navio encontra-se em trabalhos de manutenção e restauro nos estaleiros Mystic em Connecticut, preparando-se para tomar parte no Mayflower Sails 2020, que no próximo ano celebrará em Boston os 400 anos da sua histórica viagem. Em Maio de 2020, quando navegar para Boston, espera-se que o Mayflower tenha a companhia do USS Constitution, que entrou ao serviço em 1797. Segundo o The Boston Globe será a primeira vez que os dois mais simbólicos navios da história americana navegarão juntos. 

sábado, 5 de outubro de 2019

R.I.P. Diogo Freitas do Amaral

Com 78 anos de idade e depois de uma vida com cerca de cinco décadas de intervenção pública, faleceu Diogo Freitas do Amaral e o Governo, muito justamente, decretou um dia de luto nacional para honrar a sua memória e o seu exemplo cívico, que foi reconhecido por gente de todos os quadrantes políticos e sociais.
Freitas do Amaral foi uma personalidade importante da Democracia portuguesa. Em 1967 completou o seu doutoramento em Ciências Jurídico-Políticas na Faculdade de Direito de Lisboa e, nesse mesmo ano, iniciou o cumprimento do serviço militar obrigatório na Marinha, como oficial da Reserva Naval. Na sequência da revolução de 25 de Abril de 1974 foi o fundador e o primeiro presidente do CDS, tendo sido deputado à Assembleia Constituinte e, depois, deputado à Assembleia da República, havendo muita gente que lhe atribui o mérito de ter transformado a direita marcelista numa direita democrática. Fez parte dos governos da Aliança Democrática entre 1979 e 1983, tendo sido primeiro-ministro interino após a morte de Sá Carneiro. Em 1986 foi candidato à presidência da República com o apoio do CDS e do PSD, conseguiu obter 48,8% dos votos mas foi derrotado por Mário Soares. Mais tarde, integrou um governo socialista como ministro dos Negócios Estrangeiros. Foi, também, o único português que presidiu à Assembleia Geral das Nações Unidas, o que aconteceu em 1995-1996 na sua 50ª Sessão.
Hoje, Freitas do Amaral teve justas honras de Estado e muitas personalidades da política, da cultura e da academia prestaram-lhe a última homenagem, à qual me associo apesar de nunca lhe ter dado o meu voto. Porém, ninguém ficou indiferente à hipocrisia de alguns figurões que marcaram presença nas exéquias dos Jerónimos, com destaque para aquele que obrigou Freitas do Amaral a arcar sozinho com as dívidas da campanha eleitoral de 1986 (Cavaco) e para o outro que retirou a fotografia do fundador do CDS da sede do partido e que  a enviou para o Largo do Rato (Portas). Ambos estiveram nos Jerónimos. A hipocrisia destes dois figurões é inqualificável.

segunda-feira, 30 de setembro de 2019

Memórias náuticas de Cabo Delgado

Ao ver a capa da edição de ontem do jornal Domingo em que é representada a orla costeira moçambicana da província de Cabo Delgado, entre o rio Rovuma e a baía de Mocímboa da Praia, senti uma estranha sensação de familiaridade com cada uma daquelas baías e ilhas, que há mais de cinquenta anos visitei inúmeras vezes quando, por dever de ofício, percorri aqueles mares.  
Lá está o rio Rovuma em que não ousávamos entrar por razões hidrográficas e diplomáticas, bem como as ilhas Rongui e Tekomagi, mais a Vamizi e a Tambuzi, além de outras ilhas do arquipélago das Quirimbas, não sendo difícil identificar as estreitas passagens entre as ilhas e a orla costeira, por onde se arriscava a navegação para ganhar tempo ou para tirar partido do abrigo que proporcionavam relativamente ao mau estado do mar no canal de Moçambique.
E lá estão, invisíveis, os baixos de coral onde as conchas raras eram procuradas pelos malacologistas, onde havia peixe e marisco em abundância e onde a limpidez das águas não tinha igual no mundo. Lá estão, também, as antigas povoações de Quionga e de Palma, o aldeamento do Olumbe e a vila de Mocímboa da Praia, hoje certamente bem diferentes do que eram há cinquenta anos. Era um tempo de conflito militar e, naquela região periférica do território norte de Moçambique, por ali passamos muitos dias e muitas noites nas chamadas missões de fiscalização, mas também em apoio de todos os que nós necessitavam no mar sem cuidar de saber de que lado estavam.
A capa do jornal Domingo fez-me mergulhar em muitas memórias da minha juventude marinheira e até me fez recordar alguns episódios mais ou menos pitorescos que por lá aconteceram, mas também me recordou que aquela mesma região se confronta hoje com a descoberta de hidrocarbonetos e a exploração de gás natural em larga escala e daí o título "5 mil milhões para o Rovuma". Porém, há alguma tensão naquela área resultante da acção de grupos jihadistas e isso é muito preocupante.

quarta-feira, 10 de julho de 2019

Os novos submarinos nucleares franceses

O diário francês Charente Libre que se publica na cidade de Angoulême dedica a sua edição de hoje ao lançamento à água do submarino Suffren, a primeira unidade de ataque de propulsão nuclear (SNA) destinado à Marinha francesa, que vai acontecer nos próximos dias com a presença do presidente Emmanuel Mácron.
A nova unidade foi construída em Cherburgo pelo Naval Group à Ruelle sur Trouve (antigo DCNS), é do tipo Barracuda, tem um deslocamento de 5.300 toneladas, pode alojar pessoal feminino na sua guarnição e pode navegar 70 dias em absoluta autonomia a 350 metros de profundidade. Depois das doze unidades de propulsão convencional vendidas à Austrália, o Suffren é o primeiro de uma série de seis novas unidades de ataque capazes de lançar mísseis de cruzeiro e de transportar forças especiais, o que permite que a Marinha francesa dê um saut générationnel. Os SNA do tipo Barracuda começarão a entrar ao serviço no Verão de 2020 e irão substituir os seis submarinos da classe Rubis que estão operacionais desde o início dos anos 1980. A factura desta encomenda, inicialmente avaliada em 7,9 é agora de 9,1 mil milhões de euros para o desenvolvimento e construção de seis submarinos, o último dos quais deverá entrar ao serviço em 2030.
Segundo refere o Charente Libre o submarino Suffren surge num contexto de crescimento do número de submarinos no mundo, que actualmente são mais de 450. Enquanto americanos, russos, chineses, britânicos e franceses possuem SNA, vários outros países como a Índia e a Austrália procuram renovar as suas frotas submarinas convencionais e outros, como a Malásia e o Vietnam, procuram ter os seus primeiros submarinos.

domingo, 7 de julho de 2019

O “regresso” de Elcano ao País Basco

A expedição de cinco navios comandada por Fernão de Magalhães, que tinha por objectivo a descoberta do caminho para as Molucas navegando por ocidente, largou de Sanlúcar de Barrameda no dia 20 de Setembro de 1519. No dia 27 de Abril de 1521, Magalhães foi morto em combate com os nativos na ilha de Mactan, no arquipélago das Filipinas e, depois, coube ao navegador basco Juan Sebastián Elcano a missão de conduzir a nau Victoria até ao ponto de partida, utilizando a rota dos portugueses, isto é, pelo cabo da Boa Esperança. Elcano chegou a Sanlúcar no dia 8 de Setembro de 1522 e a bordo da Victoria iam apenas 18 homens dos cerca de 240 que tinham iniciado a viagem. Embora não fosse esse o seu objectivo, o facto é que essa  viagem constituíu a primeira volta do mundo e, tanto Magalhães como Elcano, repartem essa honra.
Elcano veio a integrar a expedição de sete navios que largou da Corunha em 1525 sob o comando de Garcia Jofre de Loayza para reclamar as Molucas para o Rei de Espanha, mas veio a ser vítima do escorbuto quando a expedição já navegava no oceano Pacífico.
Juan Sebastián Elcano é, portanto, um dos grandes navegadores do século XVI e o navio-escola da Marinha de Espanha tem exactamente o seu nome. Ontem o navio chegou ao porto de Getaria, na província de Gipuzkoa, no País Basco, a fim participar nas cerimónias comemorativas dos 500 anos da viagem em que o navegador basco completou a volta ao mundo.
A visita do navio-escola espanhol à localidade onde nasceu Elcano foi recebida com grande entusiasmo e foi relatada por alguma imprensa nacional, que ilustrou as suas primeiras páginas com a fotografia do navio. O jornal El Correo, que se publica em Bilbau, foi original e escolheu o sugestivo título: Elcano vuelve a casa.

domingo, 30 de junho de 2019

Torre de Hércules - património mundial

O farol da Torre de Hércules localiza-se no extremo norte da região da Galiza a cerca de 1600 metros do centro da cidade da Corunha, sendo o único farol romano que continua a servir a navegação marítima que utiliza aquele porto.
O edifício do farol tem 68 metros de altura e está construído sobre um promontório com 57 metros de altitude, constando de três níveis estruturais: o primeiro tem uma base quadrada e corresponde à estrutura do farol romano construído no século I da nossa era, um segundo nível estrutural tem secção octogonal e foi acrescentado no século XVIII e, um terceiro nível também octogonal, suporta o sistema de alumiamento ou o farol propriamente dito.
Em 2009 a Torre de Hércules foi inscrita na Lista do Património Mundial da Unesco.
Ontem, porque se completava o 10º aniversário da classificação do farol, houve uma grande festa comemorativa que incluiu uma reconstituição do acampamento romano de Ave Crunia, uma representação teatral clássica ao ar livre, um concerto de Mercedes Peón e a projecção de um espectáculo audiovisual sobre a própria torre, intitulado “Luz e Som de Hércules”.
O jornal La Voz de Galicia assinalou a efeméride na sua edição de hoje com uma reportagem intitulada  dos mil años y diez de Patrimonio, ilustrada com uma fotografia do farol iluminado pelo espectáculo de luz e som. E o assunto justifica-se até porque a classificação da Unesco converteu a Torre de Hércules num dos mais atractivos pontos turísticos da Galiza.

quarta-feira, 15 de maio de 2019

A Espanha diz não aos Estados Unidos

Nos últimos dias a imprensa internacional tem destacado uma inquietante subida da tensão entre o Irão e os Estados Unidos, na sequência da retirada americana do acordo que limitava o programa nuclear iraniano e da reintrodução de sanções contra o seu regime, o que levou os americanos a reforçar a sua presença militar na região e a deslocar para o golfo Pérsico um grupo de combate constituído pelo porta-aviões USS Abraham Lincoln com 85 aeronaves, um cruzador lança-mísseis, três destroyers, um submarino, um navio de apoio logístico e... uma fragata espanhola.
A União Europeia tratou de pedir contenção aos Estados Unidos pois já se ouvem os tambores de guerra, para evitar uma escalada da tensão na região que produz e exporta uma boa parte do petróleo mundial, pois está preocupada com o risco de um conflito acidental e com a imprevisibilidade de Donald Trump, que é pouco confiável em política externa como se tem visto. Então como é que aparece uma fragata espanhola no meio desta ameaçadora força naval?
O assunto é tema de primeira página de toda a imprensa espanhola. Acontece que, por um acordo celebrado há dois anos, estava previsto que uma fragata espanhola acompanhasse a força naval americana, como exercício de treino operacional e para comemorar os 500 anos da volta ao mundo de Magalhães-Elcano. Assim, a fragata Méndez Núñez, o único navio não americano dessa força naval, iria permanecer com a força naval durante seis meses, acompanhando-a desde o Mediterrâneo e, depois, pelo mar Vermelho, oceano Índico, mar da China e oceano Pacífico, até à sua base de San Diego, após o que regressaria a Espanha pelo canal do Panamá, completando uma volta ao mundo. Porém, as autoridades espanholas decidiram retirar temporariamente a sua fragata desta força porque a missão que agora lhe foi atribuída não estava prevista no acordo inicial. A Espanha disse não aos Estados Unidos. A fragata Méndez Núñez não entrará no golfo Pérsico e juntar-se-à depois à força americana quando esta regressar ao oceano Índico. Os americanos não gostaram, mas Margarita Robles, a ministra da Defesa espanhola, foi firme: “Habia 28 puertos previstos en el despliegue y este no entraba dentro de las previsiones”.

domingo, 24 de março de 2019

Marinha de Espanha e unidade nacional

O jornal espanhol ABC destaca na primeira página da sua edição de hoje uma fotografia das longas filas de visitantes que no porto basco de Getxo quiseram ver o porta-aviões Juan Carlos I, “el buque insignia de la Armada”. Da mesma forma, também o Diario de Cádiz também destaca hoje a visita que a fragata Blas de Lezo fez ao porto de Cádiz, na Andaluzia, onde foi visitado por muita gente. Na passada semana, a fragata Cristóbal Colón estivera no porto asturiano de Avilés, onde esteve aberto a visitas do público, o que foi relatado pelo jornal La Voz de Avilés.
Significa que, em três diferentes regiões espanholas, estiveram três navios da Marinha de Espanha em visitas de cortesia e abertos ao público para visitas, factos de que a imprensa fez eco, o que não deixa de ter uma leitura política.
Com estas visitas a diferentes portos do seu território, os navios da Marinha espanhola dão um forte contributo para o reforço dos sentimentos de unidade nacional do país vizinho, onde existem 17 comunidades autónomas, algumas das quais com tendências separatistas. Por outro lado, os milhares de visitantes que estiveram no Juan Carlos I, mas também nas duas outras fragatas, puderam apreciar a capacidade tecnológica da Marinha de Espanha e dos seus profissionais, o que é um estimulante tributo de reconhecimento por parte da sociedade civil espanhola. Finalmente, a cobertura que a imprensa deu a estes acontecimentos mostra como os espanhóis se interessam pela sua Marinha. Assim fosse em Portugal.

sábado, 23 de março de 2019

O porta-aviões simboliza prestígio e poder

O porta-aviões espanhol Juan Carlos I visitou pela primeira vez o Euskadi ou Comunidade Autónoma do País Basco, estando atracado no porto de Getxo, situado na margem nascente da ria de Bilbau.
Hoje, o diário El Correo publica na sua primeira página uma fotografia a seis colunas daquele “castillo de acero” que desloca 27 mil toneladas, que tem 231 metros de comprimento e que é operacionalizado por 400 tripulantes. A visita do navio ao Euskadi e o destaque que lhe é dada pela imprensa basca, são reveladores da sua importância simbólica para a afirmação externa e interna da Espanha.
O Juan Carlos I também tem sido classificado como navio de protecção estratégica ou como navio de assalto anfíbio, embora apareça mais vezes classificado como porta-aviões. É um navio muito caro, mas é um símbolo de poder e de prestígio, que serve para múltiplas funções e tarefas e, em especial, para afirmar um país no contexto internacional. Segundo consta dos seus registos, o Juan Carlos I tem ou pode ter 25 caças-bombardeiros AV-8 Harrier II como principal equipamento, mas pode receber helicópteros, 1200 fuzileiros, 46 tanques Leopard 2E, quatro barcaças de desembarque e quatro lanchas pneumáticas de desembarque. 
Portugal não tem porta-aviões, mas bem precisava de um navio polivalente que pudesse projectar poder, influência e solidariedade, sobretudo em tempos de crise ou de calamidade, não só nas suas regiões insulares, como também nas áreas atlânticas a que historicamente está ligado. Porém, as opções políticas têm sido outras...

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Os submarinos na estratégia da Austrália

A edição de hoje do jornal francês Le Télégramme ilustra a sua primeira página com a fotografia de um submarino a propósito de um contrato assinado entre Paris e Camberra, que prevê a construção pelo Naval Group francês (ex-DCNS) de doze submarinos da última geração destinados à Marinha australiana e que custarão 31,4 mil milhões de euros. É caso para dizer que à dúzia é mais barato! O jornal diz tratar-se de um contrato em ouro maciço ou que é o contrato do século em matéria de defesa.
Os novos submarinos serão construídos num novo estaleiro a construir no sul da Austrália e o contrato vai criar cerca de 2.800 novos empregos no país, mas também 500 postos de trabalho na Bretanha, uma vez que todos os departamentos franceses do Naval Group vão participar no projecto. É o maior projecto de defesa da história da Austrália, mas também o maior projecto exportador alguma vez assinado pelo Naval Group, que tem a participação societária do Estado francês.
O primeiro submarino deverá ser concluído por volta de 2030.
Os especialistas têm dito que as águas do norte e do leste da Austrália já são o cenário de uma intensa luta de influência entre os Estados Unidos, a China e as potências regionais. É conhecido o interesse e a reivindicação da China pelo mar da China meridional, considerada uma área vital para o abastecimento de minérios e de petróleo à economia chinesa. Com esta encomenda de submarinos a Austrália acentua a sua vontade de afirmação regional e de autonomia estratégica.
Por cá ainda há quem pense que dois submarinos é demasiado e que é preferível enterrar milhões nos BPN todos que há por aí, que parece não terem fim e que são sempre tratados pelo mesmo tipo de artistas.

sábado, 2 de fevereiro de 2019

Em breve o “Gorch Fock” voltará ao mar

A revista Der Spiegel destaca hoje na sua capa uma imagem da barca alemã Gorch Fock, dizendo que depois de ter sido o orgulho da Deutsche Marine é, actualmente, um “símbolo da miséria” do Bundeswehr, isto é, das Forças Armadas da Alemanha. Os repórteres da revista foram encontrá-lo nos estaleiros Bredo Dry Docks no porto de Bremerhaven e trataram de sugerir que o navio parece estar a caminho da sucata, pois está numa doca seca, desmontado e enferrujado, com muitos dos seus componentes distribuídos pelas oficinas das proximidades. Aparentemente, os repórteres não perceberam que o navio está em overhaul, isto é, em trabalhos de grande revisão e manutenção, desconhecendo o que são os trabalhos de manutenção de navios em estaleiro ou, então, têm o propósito de fazer campanha a favor ou contra os orçamentos militares alemães. Em tempo de fake news, já nada nos admira.
Acontece que o Gorch Fock entrou em fabricos em 2016, mas foram detectados  casos de corrupção na administração do estaleiro, o que fez atrasar a intervenção programada. O cronograma dos trabalhos deslizou e os seus custos, inicialmente previstos para 10 milhões de euros, escorregaram e estão agora em 135 milhões de euros. Afinal estas coisas não acontecem só por cá... O Ministério da Defesa hesitou na aceitação desta situação porque, mesmo na Alemanha, as necessidades são ilimitadas mas os recursos são escassos. Pensou-se em abater o Gorch Fock e em construir um novo navio, mas prevaleceu a decisão de ir para diante com os trabalhos em curso, devido ao valor simbólico do navio, que se prevê fique pronto em Abril e que, depois, possa navegar até 2040. O caso despertou-nos a atenção porque o Gorch Foch é irmão gémeo do nosso navio-escola Sagres, mas enquanto o navio português navega desde 1937, o navio alemão foi construído em 1958.

sábado, 15 de dezembro de 2018

Submarino moderniza Marinha do Brasil

No Complexo Naval de Itaguaí, situado no litoral sul do Rio de Janeiro, realizou-se ontem a cerimónia de lançamento à água do novo submarino Riachuelo, a que assistiram o Presidente da República em exercício e o Presidente recém eleito, para além de muitas outras individualidades. O acontecimento foi enaltecido na imprensa, nomeadamente na Folha de S.Paulo, pois como afirmou Michel Temer, “o dia 14 de dezembro de 2018 é uma data que ficará marcada em nossa história, pois o lançamento ao mar do primeiro submarino de fabricação nacional é motivo de imenso orgulho para todos os brasileiros”. O novo submarino faz parte do Programa de Desenvolvimento de Submarinos que foi negociado em 2008 entre os Presidentes Lula da Silva e Nicolas Sarkozy e, de acordo com a Marinha, já foram investidos 3,9 mil milhões de euros no programa que, até 2029, se estima venha a exigir 35 mil milhões de reais que, ao câmbio actual, correspondem a 7,9 mil milhões de euros.
Trata-se de uma parceria resultante de um acordo de defesa e transferência de tecnologia entre as indústrias francesa e brasileira, de que resultou a criação da Itaguaí Construções Navais, que é a única empresa que fabrica submarinos no hemisfério sul.
O Riachuelo é o primeiro de uma série de quatro submarinos convencionais da classe Scorpène e de um submarino nuclear que estão a ser construídos no âmbito do programa franco-brasileiro, mas enquanto os submarinos convencionais já começaram a ser construídos e ficarão prontos até o final de 2022, o submarino nuclear só ficará pronto em 2029. De acordo com a Marinha do Brasil, o novo submarino tem autonomia para mais de 70 dias e será usado na fiscalização de cerca de 7 mil quilômetros do litoral brasileiro, também chamado de Amazónia Azul.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

Construção naval para animar a economia

A imprensa galega dá grande destaque à reunião do governo espanhol que hoje vai aprovar a construção de cinco fragatas F-110, que irão substituir as cinco fragatas da classe Santa Maria, que estão baseadas em Rota e que se aproximam dos 35 anos de vida.
Os estaleiros da Navantia e a cidade de Ferrol estão em festa, bem como a Marinha espanhola. Depois de alguns anos de séria crise económica e social no sector da construção naval galego, esta notícia, segundo um governante galego, "es el mejor regalo de Reyes que podríamos recibir, un regalo de Reyes por adelantado que hará felices a muchas familias gallegas" e o jornal El Correo Gallego diz que se trata de um balão de oxigénio para a comarca de Ferrol.
A indústria da construção naval na Galiza passou por um período muito negro entre 2011 e 2014, com uma grande baixa de salários e muito desemprego, o que levou muitos trabalhadores a mudaram de sector ou a emigrar. O impacto na demografia e no tecido social da região foi enorme, com a perda de cerca de mil habitantes por ano. O anúncio da construção das fragatas F-110 para a Marinha espanhola representa uma mudança de rumo para os estaleiros e para a região, pois serão criados 7000 empregos durante dez anos, dos quais 1300 directos pela Navantia e 2200 directos por empresas associadas, acrescidos de cerca de 3500 empregos indirectos. Segundo foi divulgado, o projecto representa um investimento de 4.325 milhões de euros, mas tão decisivo quanto a modernização da Marinha espanhola é a animação da economia galega e a recuperação dos estaleiros da Navantia.