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quinta-feira, 24 de agosto de 2017

Um veleiro num porto é sempre uma festa

O navio-escola argentino Libertad está de visita ao porto de Santa Cruz de Tenerife e o jornal El Dia dedicou-lhe uma fotografia na capa a quatro colunas, escolhendo uma sugestiva legenda:
“Canarias recibe um ‘pedacito’ de Argentina”.
Nas ilhas atlânticas, como nos portos históricos da navegação à vela, a presença de um veleiro é sempre assinalada com grande destaque pelas autoridades, pela população e pela comunicação social, porque evoca muitas memórias de outros tempos. É assim em Tenerife, como no Mindelo, na Horta ou no Funchal.
No caso do Libertad, um veleiro de três mastros que está ao serviço da Marinha da Argentina desde 1963 e que já não visitava aquele porto desde 2009, o jornal noticiou a sua chegada com o título “Argentina llega por mar”.
Em Outubro de 2012 o navio foi protagonista de um episódio muito caricato, quando um tribunal do Ghana decidiu o seu embargo no porto de Tema, perto de Accra, por causa de uma acção interposta por um fundo financeiro especulativo, que reivindicava à Argentina o pagamento de uma dívida. As autoridades do Ghana aproveitaram a oportunidade e exigiram um fiança de 20 milhões de dólares para libertar o navio, o que foi recusado pela Argentina. Só a intervenção do Tribunal Internacional do Direito do Mar, que por unanimidade deu razão à Argentina, desbloqueou a situação. Mas foram quase três meses “de castigo” no porto de Tema. Agora em Tenerife será bem diferente e será certamente uma festa, como esperam os 20 mil argentinos que vivem nas ilhas Canárias.

terça-feira, 22 de agosto de 2017

O Donald deve ter contagiado a US Navy

Nos últimos meses a Marinha americana tem enfrentado demasiadas ocorrências o que, naturalmente, enerva Donald Trump que tanto elogiara a sua US Navy durante a sua campanha eleitoral. A hipótese das asneiras do Donald terem contagiado a US Navy tem todo o sentido.
Ontem, no estreito de Malaca e nas proximidades de Singapura, o destroyer USS John S. McCain (DDG-56), que integra a 7ª Esquadra dos Estados Unidos e tem a sua base em Yokosuka, esteve envolvido numa colisão com o petroleiro Alnic MC de bandeira liberiana, daí resultando 10 desaparecidos e 5 feridos no navio americano. O incidente vem hoje relatado com grande destaque no diário The Straits Times de Singapura, mas também em alguns jornais dos países do sueste da Ásia, exibindo a foto do navio nas primeiras páginas.
Donald Trump reagiu a este acidente visivelmente incomodado e limitou-se a dizer que “era muito mau”. De facto, a US Navy vem acumulando incidentes nas águas da Ásia Oriental e, desde Janeiro, já se verificaram quatro ocorrências graves com navios americanos.
Dois meses antes da colisão do USS John S. McCain, também o USS Fitzgerald (DDG-62) colidiu no dia 17 de Junho nas costas do Japão com o porta-contentores filipino ACX Crystal, daí resultando 7 mortes e 3 feridos entre os tripulantes do destroyer americano.
No dia 9 de Maio foi um pesqueiro sul-coreano que colidiu em águas internacionais com o cruzador USS Lake Champlain (CG-54), embora não se tivessem verificado quaisquer baixas. Finalmente, nesta preocupante sequência, quando estava fundeado na baía de Tóquio, no dia 31 de Janeiro, o cruzador USS Antietam (CG-54) não aguentou os ventos de 30 nós, garrou e foi embater em alguns rochedos submersos e quase encalhou, acabando por se safar, embora com graves danos nos seus hélices e com o derrame de grande quantidade de óleos lubrificantes.
Não era habitual que a US Navy tivesse tantas ocorrências destas. Será que a incompetência do Donald, que é o seu comandante-chefe, contagiou a US Navy?

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Bima Suci: o novo navio-escola indonésio

Na ria de Vigo, a pouco mais de trinta quilómetros da fronteira portuguesa, os estaleiros Construcciones Navales Paulino Freire, SA, preparam-se para entregar à Marinha da Indonésia o seu novo navio-escola Bima Suci.
Este novo veleiro de 110 metros de comprimento e 13,5 metros de boca tem três mastros, arma em barca e terá 3.350 metros quadrados de superfície vélica. Segundo as informações que foram divulgadas, o navio dispõe das mais modernas tecnologias e os seus alojamentos confortáveis, ou mesmo luxuosos, poderão receber 200 elementos, entre tripulantes e cadetes embarcados, mas o navio também vai servir de “embaixada flutuante” destinada a promover o país.
O imponente veleiro substituirá o Dewaruci, o pequeno navio-escola de 58 metros que serviu a Marinha indonésia nos últimos 64 anos para instruir os seus cadetes. O contrato de construção atingiu um valor de cerca de 70 milhões de euros e resultou de um concurso internacional em que participaram outros estaleiros espanhóis, mas também polacos e holandeses, tendo assegurado dois anos de trabalho a 300 pessoas.
Na sua edição de hoje o jornal Faro de Vigo destaca com uma fotografia de capa o escultor galego José Molares a dar os últimos retoques na escultura do deus Bima Suci, que deu o nome ao navio e que foi colocada como carranca na proa do navio onde, como sugere a tradição náutica, afastará os maus espíritos e acalmará as tempestades.
Entretanto, decorrem na ria de Vigo as provas de mar do navio que têm sido especialmente apreciadas (e fotografadas), porque não é habitual ver uma tão grande superfície vélica naquela ria, pois tem 200 metros quadrados a mais do que o navio-escola espanhol Juan Sebastian Elcano... e 1.415 metros quadrados mais que o navio-escola Sagres, cuja superfície vélica é de 1.935 metros quadrados.

terça-feira, 8 de agosto de 2017

A China a avisar Pyongyang e Washington

Menos de duas semanas depois da Coreia do Norte ter levado a efeito o seu segundo teste com um míssil de longo alcance, que parece ter sido bem sucedido, as forças navais chinesas realizaram um programa de exercícios ofensivos e defensivos em que participaram navios de superfície, submarinos, aviação naval e forças da guarda costeira chinesa. Esses exercícios realizaram-se no mar Amarelo, que separa a costa oriental da República Popular da China da costa ocidental da península da Coreia e, segundo foi anunciado, visaram testar o grau de treino táctico e operacional chinês, as suas armas e as suas tropas de desembarque, tendo incluído intercepção aérea e assaltos anfíbios. Os analistas têm defendido que estes exercícios foram uma advertência ao regime de Pyongyang e uma clara mensagem a informar que a República Popular da China não se alheará do que possa acontecer na região, sobretudo se a ameaça de guerra se vier a concretizar. Porém, certamente estes exercícios também foram um aviso para os Estados Unidos e para Donald Trump, a lembrar-lhes que naquela região ninguém poderá ignorar as forças navais chinesas.
Na primeira página da sua edição de hoje, o jornal South China Morning Post que se publica em Hong Kong, destacou uma fotografia dos exercícios realizados, na qual se observam duas unidades navais chinesas a disparar osseus mísseis. Quer dizer que a República Popular da China se continua a afirmar como uma grande potência militar e a avisar, tanto Pyongyang como Washington.

terça-feira, 27 de junho de 2017

HMS Queen Elizabeth e orgulho nacional

O novo porta-aviões britânico HMS Queen Elizabeth saiu ontem pela primeira vez dos estaleiros escoceses de Rosyth e navegou para o mar do Norte para efectuar provas de mar e testar sensores, radios, radares e outros equipamentos.
A construção deste navio e do seu irmão gémeo HMS Prince of Wales, que já está em construção, foram anunciadas em 2007.
Com um orçamento inicial de 4 mil milhões de libras para as duas unidades, em 2013 foi feita uma renegociação com o consórcio de construtores e o preço foi fixado em 6.200 milhões de libras. Pelo que diz a imprensa britânica, o navio parece ser uma obra-prima da engenharia naval, com 280 metros de comprimento e um deslocamento de 65.000 toneladas, onde se poderão instalar 40 aviões de combate, mais uma força de 250 Royal Marines com os respectivos helicópteros de ataque.
A construção do HMS Queen Elizabeth iniciou-se em 2009 e foi montado por secções construidas em diferentes locais do Reino Unido que depois foram transportadas para Rosyth. Trabalharam no projecto cerca de 10 mil pessoas e, por isso, o navio está a ser considerado uma iniciativa tecnológica e militar em que todos se envolveram, o que está a alimentar o orgulho nacional britânico, até porque é o maior e mais poderoso navio alguma vez construido para a Royal Navy. Esta atitude bem pode ser comparada com a mesquinhez e a ignorância com que em Portugal foi tratada a compra de dois submarinos.
Hoje, os principais jornaios britânicos, designadamente The Times, colocaram a fotografia do novo porta-aviões nas suas primeiras páginas e no teor das notícias transparece o orgulho britânico na sua Royal Navy, nos seus navios e nos homens e mulheres que os servem.
Depois das provas de mar o navio irá para a sua futura base de Portsmouth e entrará ao serviço no fim do ano, embora só venha a atingir a sua operacionalidade plena em 2020. Estas coisas de mar são demoradas.
 

sábado, 3 de junho de 2017

A imprensa galega e a Marinha espanhola

A Marinha espanhola celebrou ontem o 300º aniversário da criação da Real Companhia de Guardas-Marinhas com diversas cerimónias, entre as quais um desfile naval realizado nas águas da ria de Pontevedra, a que presidiu o Rei Filipe VI e a que esteve presente o Rei emérito João Carlos I. Na sua primeira página o jornal La Voz de Galicia classifica o desfile como colossal e no desenvolvimento da notícia nas páginas interiores diz que foi espectacular, isto é, a imprensa galega apreciou o acontecimento e deu-lhe a cobertura que merecia, até porque os reis estavam presentes.
Foram sete navios de guerra da Marinha espanhola a desfilar em coluna, com o porta-aeronaves Juan Carlos I a abrir, seguido pelo navio de aprovisionamento logístico Patiño, por cinco fragatas e pelo submarino Tramontana, os quais saudaram os reis embarcados no navio-patrulha Tornado. Não é comum haver tantos navios de guerra na ria de Pontevedra e, por isso, nas suas margens aglomerou-se muito público para ver e para fotografar.
Realizaram-se depois alguns exercícios demonstrativos da preparação operacional da Marinha espanhola e, de seguida, o cerimonial comemorativo passou para terra. Nas instalações da Escola Naval em Marin, a poucos quilómetros da cidade de Pontevedra, o Rei Filipe VI prestou homenagem aos marinheiros caídos pela Espanha e, porque se cumpria o terceiro ano desde que Juan Carlos I renunciara à Coroa, prestou pública homenagem a seu pai ali presente, terminando com a frase “Gracias majestad!”.
Em Portugal também tivemos recentemente o Dia da Marinha com as principais cerimónias a serem realizadas em Vila do Conde mas, ao contrário do que aconteceu em Espanha onde muitos jornais trouxeram o tema para as suas primeiras páginas, o acontecimento não mereceu qualquer destaque da imprensa portuguesa. Certamente não é porque sejamos uma República, mas apenas porque muitos jornais ainda não sabem cumprir a sua função social de informar.

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Vikings, os Guerreiros do Mar

A exposição “Vikings, os Guerreiros do Mar” está patente no Museu de Marinha em Lisboa e é uma das mais interessantes exposições que actualmente se podem ver na capital.
Os vikings ou guerreiros do Norte habitaram há mais de mil anos nas regiões onde hoje estão a Suécia, a Dinamarca e a Noruega, navegaram pelas costas europeias até ao mar Negro e pela costa oriental americana. Deslocavam-se em embarcações rápidas e versáteis e atacavam as populações ribeirinhas com grande volência. Chegaram também ao território que hoje é Portugal e há registos da sua passagem por vários locais do Condado Portucalense e, mais a sul, pelos territórios islâmicos do Al-Andaluz, como Lisboa ou Alcácer do Sal.
A exposição inclui mais de seis centenas de peças originais e resulta de um conhecimento proporcionado pela investigação arqueológica, abordando muitos aspectos relacionados com a história e com a cultura viking.
Organizada pelo Museu Nacional da Dinamarca, a exposição apresenta um atraente lay out que a torna muito agradável e muito útil sob o ponto de vista didáctico, pelo que merece uma visita. A exposição está em itinerância e, antes de visitar Lisboa devido à intervenção do Museu de Marinha junto das autoridades culturais dinamarquesas, já tinha estado patente no Museu Arqueológico de Alicante.

sexta-feira, 28 de abril de 2017

Os porta-aviões: arma de poder e prestígio

Numa altura em que é forte a tensão entre os Estados Unidos e a Coreia do Norte, cuja capital Pyongyang está situada a 350 quilómetros de Dalian, onde se localizam os estaleiros da China Shipbuilding Industry, a República Popular da China exibiu esta semana o primeiro porta-aviões construído no país e exactamente naqueles estaleiros.
Trata-se de uma acção de promoção e de prestígio da China, pois as autoridades chinesas não relacionaram a apresentação do seu novo porta-aviões com o momento de tensão actual e, de facto, ela parece ser apenas uma demonstração do desenvolvimento das capacidades da sua indústria de Defesa e uma afirmação do seu interesse estratégico e territorial no mar da China Meridional.
O jornal China Daily destacou na sua edição de ontem a apresentação desse novo porta-aviões chinês e, numa sugestiva infografia, mostrou os países que possuem porta-aviões em actividade – Estados Unidos (10), Itália (2), França (1), Rússia (1), Índia (1) e Tailândia (1). A China já possui o porta-aviões Liaoning, que fora construido em 1988 para a Marinha da União Soviética e que veio a ser comprado pela China, onde entrou ao serviço em 2012, certamente para introduzir uma nova cultura no âmbito das operações navais chinesas e para inspirar a construção dos seus próprios porta-aviões. A nova unidade só estará operacional em 2020, é designado temporariamente como 001A, tem 315 metros de comprimento, 75 metros de largura e uma velocidade cruzeiro de 31 nós.
Há vários anos que a China tenta modernizar as suas Forças Armadas, especialmente a Marinha, como parte das suas aspirações no mar da China Meridional, região cuja soberania é disputada por vários países. Porém, a Marinha chinesa está longe de rivalizar com o poderio militar dos Estados Unidos, que possuem uma dezena de porta-aviões operacionais, assim como cerca de seis centenas de bases militares em quase  cinco dezenas de países. Além disso, o orçamento militar chinês é da ordem dos 156 mil milhões de dólares, que é bem inferior aos 628 mil milhões do orçamento de defesa americano. A China ainda vai ter de esperar muitos anos, mas é sabido como são pacientes.

quinta-feira, 20 de abril de 2017

As velas brasileiras de visita à Europa

Nos últimos tempos não têm sido animadoras as notícias que nos chegam do Brasil, sobretudo depois daquela aparente precipitação que foi a destituição da Presidente Dilma Rousseff. Foi a partir daí que se acentuaram as notícias sobre a operação Lava-jato, sobre a crise económica e social, sobre a insegurança em algumas cidades e até sobre a persistente permanência do futebol brasileiro num inesperado patamar de quase vulgaridade. A leitura da imprensa brasileira raramente tem notícias animadoras, embora isso aconteça em toda a parte quando ciclicamente se atravessam as situações de depressão ou de crise.
Porém, apesar desta tendência depressiva, também há boas notícias. Hoje, por exemplo, o diário O Liberal da cidade de Belém destaca a visita da galera Cisne Branco, um veleiro da Marinha do Brasil, com uma fotografia de primeira página. A notícia refere que o navio iniciou no passado dia 2 de Abril no Rio de Janeiro uma viagem com a duração de cerca de seis meses baptizada como “Europa 2017”. Quando, no dia 14 de Outubro, regressar ao Brasil, o navio terá visitado 18 portos de 12 países, incluindo Lisboa e Ponta Delgada. O veleiro de 76 metros de comprimento foi construído em Amsterdão e foi incorporado na Marinha brasileira em Fevereiro de 2000 e é, naturalmente, um símbolo do Brasil e da sua Marinha, sendo-lhe atribuídas missões de representação nacional em eventos náuticos internacionais, de apoio à diplomacia brasileira, de preservação da memória histórica do país e, ocasionalmente, de instrução de jovens cadetes da Marinha brasileira.
A imagem de um veleiro como o Cisne Branco tem sempre uma faceta estimulante e de desafio. Se antes era o desafio e a aventura pelos mares desconhecidos e pelas grandes viagens, hoje é o desafio do progresso e da preservação do património comum que são os oceanos, isto é, duas causas bem estimulantes de que os brasileiros certamente comungam.

segunda-feira, 10 de abril de 2017

Mísseis americanos a ameaçar Pyongyang

No princípio deste mês de Abril o Presidente Donald Trump deu uma entrevista ao jornal Finantial Times, tendo declarado que os Estados Unidos estavam prontos para agir sozinhos contra a Coreia do Norte para impedir que desenvolvesse o seu programa de armas nucleares, caso a China não aumentasse a pressão contra esse programa norte-coreano.
Algumas horas depois, Trump decidiu lançar 59 mísseis Tomahawk sobre a Síria e, logo de seguida, ordenou que um grupo de ataque que inclui o porta-aviões USS Carl Vinson, dois destroyers e um cruzador equipados com mísseis, avançasse para as águas próximas da Coreia do Norte, como resposta intimidatória aos sucessivos testes de mísseis que têm sido feitos. Este grupo de ataque não é comandado por um almirante, mas por uma almiranta. Isso acontece pela primeira vez, pois Nora Wingfield Tyson comanda a 3ª Esquadra americana desde 2015 e, provavelmente, só espera ordens do seu Presidente para carregar no botão.
Existe alguma apreensão por esta decisão de Donald Trump porque, contrariamente ao que ele sempre disse, parece estar agora a querer impor a vontade americana nos diferentes cenários mundiais, o que custa muito dinheiro e pode conduzir a confrontações de contornos indesejáveis. Será que depois da Síria, o Donald se prepara para atacar o solo norte-coreano? Como foi dito na referida entrevista, os Estados Unidos estão prontos para agir sozinhos mas, naturalmente, estão cientes de que precisam do apoio da Coreia do Sul, do Japão e da neutralidade da China.
O facto é que a imprensa asiática se mostra um pouco apreensiva com esta movimentação naval americana e que, por exemplo, a edição de hoje do Macau Daily Times deu grande destaque a esta iniciativa e mostra a apreensão que está a suscitar.

quarta-feira, 5 de abril de 2017

O Brexit e a velha questão de Gibraltar

No passado dia 29 de Março, a primeira-ministra britânica Theresa May fez chegar ao polaco Donald Tusk, presidente do Conselho Europeu, uma carta a formalizar a sua decisão de abandonar a União Europeia. As análises que já antes eram feitas sobre os prós e os contras desta decisão voltaram a ser discutidas, um pouco por toda a parte. Nesse contexto, surgiu uma novidade: o que iria fazer Gibraltar e os 30 mil gibraltinos? Estarão eles dispostos a deixar a União Europeia e a enfrentar uma mudança na sua relação com a Espanha, com o fim da livre circulação de pessoas e bens, com a reabertura da burocracia fronteiriça ou até o isolamento?
Theresa May cometeu o erro de ignorar Gibraltar na sua carta e a Espanha aproveitou a oportunidade para insinuar que era chegada a hora de Gibraltar ficar sujeita a um regime de soberania partilhada entre a Espanha e o Reino Unido, como primeiro passo para o seu futuro regresso à Espanha. Fabian Picardo, o jovem ministro-chefe de Gibraltar veio de imediato opor-se a qualquer alteração à actual ligação de Gibraltar com o Reino Unido, enquanto em Londres alguém se lembrou de dizer que Gibraltar seria tão defendido quanto o foram as Falklands/Malvinas em 1982. Entretanto, começaram as habituais quezílias fronteiriças nas águas gibraltinas. A antiga corveta Infanta Cristina que em 2004 foi reclasssificada como navio-patrulha (P-77), terá feito “uma incursão ilegal” nas águas de Gibraltar ao passar a cerca de 1500 metros da costa, o que obrigou o navio-patrulha HMS Scimitar (P-284) a abordar o navio espanhol para o escoltar para fora da águas territoriais de Gibraltar. O navio espanhol tem 89 metros de comprimento e 1440 toneladas de deslocamento, enquanto o patrulha britânico tem 16 metros de comprimento e 24 toneladas de deslocamento. Esta diferença e a fotografia dos dois navios foram aproveitadas pelo Daily Mail para dar uma ajuda ao orgulho britânico e à persistência ou à teimosia de Gibraltar.

terça-feira, 21 de março de 2017

A Marinha como instrumento de prestígio

Na sua edição de hoje o diário ABC destaca a actividade da Marinha da Espanha e anuncia que há doze navios e cerca de dois mil efectivos a participar em missões internacionais, em cenários tão diferentes como o mar do Norte, a Austrália, a Somália e o golfo de Aden, o Mediterrâneo e até a Antártida, isto é, em cinco continentes. Nunca a Marinha espanhola teve um empenhamento operacional tão intenso desde que em 1975 a Espanha recuperou a democracia.
A edição do jornal ABC é ilustrada com uma fotografia do Juan Carlos I, um navio de projecção estratégica ou navio polivalente do tipo LHD (Landing Helicopter Dock), que é o maior navio da Marinha espanhola.
As missões relatadas na reportagem do ABC integram-se no âmbito das responsalidades espanholas junto da NATO e da EU, mas também têm um carácter nacional. Assim, são indicadas as missões e os meios envolvidos nas acções de combate à pirataria nas costas da Somália onde se encontra o LPD (Landing Plataform Dock) Galícia, no golfo da Guiné, nos exercícios da NATO no mar do Norte e nas costas da Líbia, assim como os exercícios em curso no mar Negro. É descrita a missão da fragata Cristóbal Colón, o mais moderno navio da Marinha espanhola, que está em curso nos portos australianos para promoção da construção naval espanhola que recentemente vendeu dois LHD (o Camberra e o Adelaide) à Marinha australiana. No porto de Usuhaia, na Terra do Fogo, encontra-se o navio oceanográfico Hespérides em apoio à base espanhola na Antártida e às suas campanhas científicas. Finalmente, o navio-escola Juan Sebastián de Elcano navega das Canárias para San Domingo e Nova Iorque em viagem de instrução de cadetes.
São doze navios empenhados e cerca de dois mil efectivos envolvidos. A Espanha zela pelo seu prestígio internacional, porque é disso que se trata, investindo numa presença naval efectiva. Aqui ao lado, Portugal é realmente demasiado pequeno e não tem doze navios nem cerca de dois mil militares para fazer como a Espanha, mas é pena termos tanta gente que ainda quer o país mais pequeno e mais irrelevante na cena internacional.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

A volta ao mundo à vela em 47 dias

Alguns jornais franceses, tal como por cá fez o Diário de Notícias, destacam hoje nas suas primeiras páginas o notável feito de Thomas Coville, o navegador francês natural de Rennes de 48 anos de idade que, no comando do catamarã Sodebo Ultim de 31 metros, concluiu ontem a volta ao mundo em solitário no tempo de 49 dias, 3 horas, 7 minutos e 38 segundos. Trata-se de um novo recorde da volta ao mundo em solitário, sem escala e em catamarã, que bate por oito dias e 10 horas a anterior marca estabelecida em 2008 por Francis Joyon.
É um notável feito náutico de Thomas Coville que, no seu historial vélico, conta com sete voltas ao mundo, nove passagens no Cabo Horn e uma vitória na Volvo Ocean Race 2011-2012. Colville partiu de Brest no dia 6 de Novembro e cruzou ontem a linha de chegada virtual instalada em Ouessant, na Bretanha.
Costuma dizer-se que não há nada mais violento nem mais perigoso do que a navegação solitária, em que um pequeno erro de manobra pode significar a morte. Nesta sua aventura, Thomas Coville enfrentou algumas dificuldades, incluindo uma quase colisão com um cetáceo mas, sobretudo, quando já navegava no Atlântico norte e estava a poucos dias da chegada, encontrou fortes temporais com ventos de 45 nós e ondas alterosas.
Os velejadores da Bretanha são realmente fantásticos e, aparentemente, no mundo da vela ninguém os suplanta. Como, de resto, se tem visto na Vendée Globe que está actualmente a decorrer.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

A última viagem de um navio simbólico

O diário inglês The Times publica hoje na sua primeira página uma fotografia do porta-aviões HMS Illustrious que, depois de 32 anos de serviço, largou de Portsmouth com rumo à Turquia para ser desmantelado e acabar na sucata. O navio de 22.000 toneladas pertenceu à classe Invincible, serviu na guerra das Falklands e na guerra do Golfo, tendo sido abatido ao efectivo em 2014. A partir de então a Royal Navy deixou de ter qualquer porta-aviões, embora esteja prevista para 2020 a recepção de duas unidades da nova classe Queen Elizabeth – o HMS Queen Elizabeth e o HMS Prince of Wales.
O desmantelamento do “Lusty”, nome por que era conhecido pelos seus tripulantes, causou grande mágoa nos milhares de membros da Royal Navy que nele serviram e não queriam vê-lo transformado em lâminas de barbear, panelas ou latas de cerveja. A Primeira-Ministra Theresa May foi sensível aos apelos dos “velhos marinheiros”, suspendeu a operação e esperou pelo resultado de uma campanha pública destinada a salvar o HMS Illustrious. Surgiram três propostas, destacando-se a de um consórcio que oferecia 3 milhões de libras para transformar o navio numa unidade hoteleira e museológica, para além daquela que pretendia  transformar o navio num memorial da Royal Navy, um pouco à semelhança do que acontece com cinco velhos porta-aviões americanos.
Todas as negociações falharam e o HMS Illustrious acabou por ser vendido para a sucata por 2,1 milhões de libras, tendo já iniciado a sua viagem para a Turquia. Parece que o Tesouro inglês precisava de dinheiro.

domingo, 6 de novembro de 2016

Uma volta ao mundo à vela em 80 dias

Os 29 participantes na 8ª edição da Vendée Globe, partiram hoje de Les Sables-d’Olonne, uma pequena cidade francesa situada na costa da Bretanha, para tentar vencer o desafio de fazer a volta ao mundo em solitário, sem quaisquer escalas e sem qualquer tipo de assistência. A prova realiza-se de quatro em quatro anos, é exclusiva para veleiros monocasco com menos de 18,30 metros e no seu regulamento está estabelecido que prova passa pelos três cabos – Boa Esperança (África do Sul), Leeuwin (Austrália) e Horn (Chile). É, por isso, um desafio que atrai os melhores e mais corajosos velejadores do planeta que gastarão cerca de oitenta dias para percorrer um mínimo de 24 mil milhas, embora tudo dependa das variáveis meteorológicas, como o vento, o estado do mar e até os gelos que encontrarem. A experiência dos velejadores é fundamental, assim como a sua condição física, porquanto nunca poderão dormir mais de meia hora sem interrupção e só quando o tempo o permitir.
Na edição da prova que hoje começou em Les Sables-d’Olonne e que terminará no mesmo porto na segunda quinzena de Janeiro participam velejadores de dez nacionalidades diferentes: vinte são franceses, mas há um espanhol, um inglês, um holandês, um húngaro, um suiço, um americano, um japonês e um neo-zelandês. Muitos milhares de pessoas assistiram à largada das 29 embarcações mas, através de várias plataformas tecnológicas, é possível acompanhar quase “em directo e ao vivo” esta grande prova desportiva. O actual detentor do recorde da prova é François Gabbart que na última edição da prova completou a volta ao mundo em 78 dias, 2 horas e 16 minutos, mas ele é também o grande ausente da presente edição, onde apenas estará um antigo vencedor, Vincent Riou, que conquistou a Vendée Globe em 2004-05.
A edição de hoje do diário regional francês Le Télégramme faz uma desenvolvida reportagem desta volta ao mundo em 80 dias, com a qual nem Júlio Verne sonhara.

sábado, 24 de setembro de 2016

Um navio é sempre belo, mas um veleiro...

 
O diário Levante que se publica na cidade espanhola de Valência destaca na sua edição de hoje a visita ao seu porto do navio-escola Amerigo Vespucci, que está a efectuar a sua 80ª viagem de instrução de cadetes. O emblemático navio, que está a celebrar 85 anos de vida, largou do porto de Livorno e navegou pelo Atlântico e pelo mar do Norte. Agora esta “embaixada italiana” regressa a casa e, neste fim de semana no porto de Valência, abre as suas portas aos valencianos que, segundo diz o jornal, irão “al abordaje del buque escuela de la Marina italiana”.
O Amerigo Vespucci é, provavelmente, um dos mais belos veleiros do mundo e, habitualmente, participa nos grandes desfiles navais organizados pela Sail Training Association. O navio possui três mastros, mede cerca de cem metros de comprimento, desloca 4.700 toneladas e tem uma superfície vélica de 2.400 metros quadrados distribuida por 24 velas.
A cidade de Valência e o seu principal periódico não deixaram de assinalar a presença no seu porto do Amerigo Vespucci, certamente porque a identidade e a cultura valencianas são marítimas e mediterrânicas. Em Lisboa, porém, não seria assim. Apesar de muito ter  mudado nos últimos anos, a cidade e os seus jornalistas continuam de costas voltadas para o Tejo, para o mar e para as coisas do mar. No país que tantas vezes se reclama de país de marinheiros e que possui o navio-escola Sagres, que também é reconhecido como um dos mais belos veleiros do mundo, o interesse da imprensa pelo nosso património marítimo é mínimo.
Fernando Pessoa escreveu em 1915 na Ode Marítima que “um navio será sempre belo, só porque é um navio”, quando ainda não havia a  Sagres nem o  Amerigo Vespucci. É pena que poucos “gatekeepers” e poucos jornalistas portugueses tenham a opinião de Álvaro de Campos.

sábado, 30 de julho de 2016

Cádiz em festa com os grandes veleiros

A grande festa náutica internacional que é a The Tall Ships Race 2016 tem estado em Cádiz, de onde sai amanhã à tarde em direcção ao porto galego da Corunha. A imprensa andaluza e gaditana têm dedicado grandes espaços informativos a este grande evento, numa cidade fundada pelos Fenícios e que reivindica ser “la gran cita de los veleros”.
A cidade tem aderido ao evento com entusiasmo, proporcionando um vasto programa cultural de acolhimento, onde se incluem visitas guiadas para os participantes, mas também concertos e provas desportivas. A população e os turistas que se encontram na cidade não têm perdido a oportunidade para ver os navios e a imprensa tem publicado muitas fotografias das multidões que os visitam. Na sua edição de hoje La voz de Cádiz destaca o evento e publica uma fotografia a seis colunas na sua primeira página dos veleiros atracados em Cádiz, o que lamentavelmente não fez qualquer jornal português quando recentemente a The Tall Ships Race 2016 passou por Lisboa.
Encontram-se em Cádiz cerca de quatro dezenas de veleiros e, entre eles, estão quatro veleiros portugueses, respectivamente o Creoula, o Zarco, o Polar e o Santa Maria Manuela, o que se traduz numa interessante participação nacional. Curiosamente, a imprensa tem destacado e lamentado a ausência do navio-escola espanhol Juan Sebastián de Elcano, não só porque é o símbolo da tradição vélica espanhola, mas também porque a sua base é exactamente na baía de Cadiz. Só que não se pode estar em dois lados ao mesmo tempo e o Elcano está a ser objecto de reparações.

quinta-feira, 28 de julho de 2016

O navio-escola “Sagres” está no Brasil

O navio-escola Sagres que foi construido na Alemanha em 1937 e que desde 1962 pertence à Marinha portuguesa, está a realizar a sua anual viagem de instrução de cadetes da Escola Naval, levando também alguns cadetes angolanos, espanhóis, ingleses e marroquinos. O navio saiu de Lisboa no dia 21 de Junho e, depois de ter visitado a cidade da Praia em Cabo Verde e o porto brasileiro do Recife, encontra-se hoje no porto de Salvador da Baía. Não deixa de ser curioso notar que Praia, Recife e Baía são três nomes de três cidades fundadas pelos portugueses, o que reflecte a importância da expansão marítima portuguesa.
Hoje, o jornal A Tarde que se publica em Salvador destaca na primeira página da sua edição a visita do navio português com uma fotografia a quatro colunas e informa que o navio amanhã “estará aberto a visitação” entre as 13 e as 16 horas, pois às 18 horas larga para o Rio de Janeiro. 
No Rio de Janeiro e na sequência de um protocolo assinado com o Comité Olímpico Português, o navio-escola Sagres será um “embaixador de Portugal” e um símbolo da nossa cultura marítima, mas também servirá de “Casa de Portugal” para apoio dos atletas, dirigentes e outras autoridades portuguesas e para a realização de conferências de imprensa durante os Jogos Olímpicos que se realizam entre os dias 5 e 21 de Agosto.
Espera-se que, como sempre, a Sagres dê o melhor contributo para a boa imagem de Portugal.

segunda-feira, 4 de julho de 2016

Os grandes veleiros visitam Lisboa

O porto de Lisboa vai receber entre os dias 22 e 25 de Julho os participantes da The Tall Ships Races 2016, que este atracarão no Terminal de Cruzeiros de Santa Apolónia. Segundo revela a Sail Training Association (STA), a regata deste ano celebra a passagem do 60º aniversário da realização da primeira regata de grandes veleiros que foi disputada entre Torbay e Lisboa no ano de 1956 e que, na época, constituiu um acontecimento de impacto internacional. Desde então, a STA tem promovido verdadeiros festivais náuticos que, mais do que uma competição desportiva, são verdadeiras jornadas de convívio entre os marinheiros de muitos países e um elemento dinamizador da vida cultural dos portos visitados. Dessa forma se mantém vivas as tradições da navegação à vela e se promove o treino de mar e a prática da vela junto dos jovens de muitos países.
Este ano a regata sai de Antuérpia para Lisboa, seguindo depois para Cadiz e para a Corunha. É a oitava vez que Lisboa recebe os grandes veleiros e, para além dos diferentes eventos previsto para o recinto do Terminal de Cruzeiros de Santa Apolónia, o desfile náutico que se realiza no dia 25 de Julho, a partir das 15 horas, será um dos mais interessantes acontecimentos desta festa e um desafio para os amantes da fotografia. Portanto, os lisboetas e os muitos turistas que nos visitam, terão uma boa oportunidade para apreciar a descida do Tejo de muitas velas.

quarta-feira, 8 de junho de 2016

A festa do rio Tejo é no dia 18 de Junho

 
No próximo dia 18 de Junho a zona ribeirinha da cidade de Lisboa, especialmente nas proximidades do Cais das Colunas, vai animar-se quando algumas dezenas de embarcações típicas do Tejo devidamente engalanadas para aí convergirem a partir das dez horas e trinta minutos da manhã.
É o Dia da Marinha do Tejo, o principal evento promovido pela Associação dos Proprietários e Arrais das Embarcações Típicas do Tejo (APAETT), que movimentará dezenas de canoas e faluas, varinos e botes, num colorido e movimentado encontro fluvial que, certamente, deliciará aqueles que em terra possam assistir a tão espectacular acontecimento. Tem sido assim todos os anos e, este ano, não deixará de ser da mesma maneira, para satisfação de quem gosta do Tejo e de quem gosta de fotografar as actividades marítimas.
Portanto, aqui fica a minha recomendação: no dia 18 de Junho vá até ao Terreiro do Paço e assista a um espectáculo único que nos evoca a vida marítima do grande estuário do rio Tejo.