sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Emergência social

Ontem o INE divulgou os números do desemprego e hoje todos os jornais destacaram essa notícia em primeira página. O jornal Público foi aquele que melhor ilustrou essa notícia, com um gráfico que mostra a evolução da taxa de desemprego em Portugal na última década, que mais do que quadruplicou e já atinge 14%. O Presidente da Comissão Europeia, que hoje ocasionalmente se encontrava em Lisboa, declarou que “Portugal está numa situação de emergência social devido à escalada do desemprego”.
Haverá cerca de 1200 mil desempregados. Há 250 mil que procuram emprego há mais de dois anos. O desemprego jovem é de 35%. Há 108 mil licenciados sem emprego. Há 885 novos desempregados por dia. São números calamitosos que nos avisam e nos perturbam seriamente.
O problema é gravíssimo e há que fazer qualquer coisa já. Há uma geração inteira sem perspectivas de emprego e a quem foi dito que desista e que emigre. Há sinais de conflito entre quem tem emprego e quem está desempregado, entre quem é incluído e quem é excluído socialmente. Os desempregados de longa duração perderam a esperança. Os jovens desinteressam-se pelos problemas dos mais velhos que morrem no esquecimento e na solidão. O risco de desagregação social é evidente.
A solução deste problema, que é o mais grave da sociedade portuguesa, é política e no nosso quadro constitucional passa pelos partidos. Porém, os nossos principais partidos têm-se alternado no poder e são igualmente responsáveis por esta calamidade, pois apenas representam os seus próprios interesses, com líderes que estão reféns dos seus aparelhos partidários, cuja fome saciam com empregos, cunhas, contratos e festas. Estamos em emergência social como disse Durão Barroso, mas a mediocridade e a miopia reinantes parecem não perceber isto. Portugal precisa de menos austeridade e de mais políticas de promoção do emprego! Custe o que custar.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

No BdP há zero de austeridade!

Na sua edição do passado dia 13 de Fevereiro, o Correio da Manhã voltou a tratar de algumas polémicas da vida do Banco de Portugal (BdP), noticiando em primeira página que o “Banco de Portugal paga salário médio de 4842 euros por mês”, que foi calculado através da divisão do total das despesas com pessoal previstas para 2012 (114,5 milhões de euros) por 1689 funcionários.
O jornal dedica duas das suas páginas interiores à divulgação de alguns detalhes dos gastos do Bdp, com informações sobre subsídios e facilidades para a aquisição de habitação permanente ou secundária, mas também com informação das despesas com a Quinta da Fonte Santa em Caneças, onde os filhos dos funcionários podem exercitar-se em equitação. A notícia refere também que o BdP contratou por ajuste directo e sem consulta a outras entidades, dois escritórios de advogados para processos judiciais no valor de 1,3 milhões de euros.
Como já sabíamos, ali é tudo em grande!
Ao contrário do que sucede com a generalidade dos portugueses, o BdP mantém os subsídios de férias e de Natal aos seus funcionários, que também terão direito a gozar a terça-feira de Carnaval, ou seja, desde os privilégios remunerativos até à pequena questão do Carnaval, o BdP não dá bons exemplos à sociedade portuguesa. Em vez de se mostrar como um sólido pilar do nosso Estado, o BdP coloca-se à margem das nossas dificuldades e comporta-se como uma agência ao serviço das instituições internacionais e da troika que tanto nos estão a atrofiar.
Na realidade, no BdP há zero de austeridade!

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

A desunião europeia

O projecto europeu saído do espírito de Jean Monnet, Robert Schuman e Paul-Henri Spaak, visa uma união cada vez mais estreita entre os povos europeus, mediante uma acção comum que assegure o progresso económico e social dos seus países e elimine as barreiras que os dividiram durante muitos anos.
Além disso, o projecto visa o desenvolvimento harmonioso do espaço europeu pela redução das desigualdades entre as diversas regiões e do atraso das menos favorecidas, bem como a melhoria constante das condições de vida e de trabalho dos seus povos. Surgiu um mercado comum, instituiu-se uma união aduaneira e desenvolveram-se políticas comuns. A prosperidade consolidou-se. A coesão social tornou-se uma realidade. A solidariedade reforçou-se. O clube alargou-se e chegou aos 27 membros. Tanto os grandes como os pequenos tinham voz no grande espaço democrático. Era a União Europeia e o sonho.
Até que veio a crise em múltiplas dimensões - demográfica, social, económica, orçamental e financeira. A Europa estava adormecida e não soube reagir em tempo útil. A Alemanha aproveitou a indecisão europeia e tomou conta dela, impondo a sua vontade e a austeridade, humilhando e fazendo dos mais fracos seus reféns. Há quem diga que a arrogância de 1939 está de volta. Por culpa própria, a Grécia tornou-se o patinho feio. A ameaça de bancarrota e a saída forçada do euro levaram os principais partidos gregos a aprovar um novo pacote de austeridade, com cortes no salário mínimo e nas pensões. Seguiu-se uma noite de violência e de vandalismo em Atenas. Tudo está mais confuso, mas a identidade histórica e o orgulho grego estão a reagir contra a humilhação que vem da Alemanha e a falta de solidariedade europeia.
Aqui, diz-se tudo e o seu contrário. Há quem insista em afirmar que Portugal é diferente da Grécia, mas as vozes solidárias para com a Grécia estão a aumentar. Estamos em completa desunião europeia e eu cada vez tenho mais dúvidas a respeito de tudo isto.

Mouraria - Berço do Fado

A Mouraria é um dos mais tradicionais e menos conhecidos bairros lisboetas, que nasceu em meados do século XI quando D. Afonso Henriques conquistou a cidade e decidiu concentrar a população muçulmana naquela encosta. Parece que foi aí que o fado nasceu e foi nesse bairro, exactamente na Rua do Capelão, que nasceu Maria Severa, considerada a primeira fadista portuguesa e a expressão máxima do fado na sua época.
Depois da abertura ao público do Centro Comercial da Mouraria, o bairro da Mouraria tornou-se num local bastante mais movimentado e, actualmente, é considerado um dos bairros mais populares e, provavelmente, o mais multicultural bairro da capital.
Nesse bairro, na esquina da Rua da Mouraria com a Rua do Capelão, a poucos metros da casa onde viveu a Severa, foi colocado um expressivo monumento dedicado à Mouraria – Berço do Fado.
O monumento é constituído por um bloco de mármore com cerca de 1 metro e meio de altura que tem esculpida uma guitarra portuguesa e foi inaugurado no dia 13 de Junho de 2006 pelo Presidente da Câmara Municipal de Lisboa.
Uma legenda muito saliente informa: “Inaugurado pelo Exmo. Senhor Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Professor Doutor António Carmona Rodrigues”.
A identidade do inaugurador está tão destacada e é tão desproporcionada que até parece que o monumento é dedicado ao Exmo. Senhor Professor Doutor e não ao próprio bairro da Mouraria. Que ideia tão ridícula que o inaugurador deixar passar!

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

A austeridade não é para todos!

O jornal Público informa na sua edição de hoje que o governo mandou fazer, por ajuste directo, uma centena de livros com o título “Compromisso para uma Nação Forte”, tendo pago 12 mil euros à Gráfica MaiaDouro, SA, com o dinheiro dos meus impostos, que tanta falta me faz. Segundo informa o jornal, que consultou o gabinete do ministro, o livro foi impresso em papel couché semimate e a capa tem um fundo em tons de cinza-prata com uma ilustração em alto-relevo.
A centena de luxuosos exemplares foi paga pelo gabinete do ministro Miguel Relvas e destina-se exclusivamente ao governo, provavelmente para que cada um dos seus membros possa exercitar o seu narcisismo.
Consequentemente, o livro custou 120 euros por exemplar, o que constitui uma despesa escandalosa e é um elucidativo exemplo do despesismo governamental, tanto mais grave quanto esses mesmos deslumbrados relvas, ainda há poucos meses reclamavam o corte das gorduras do Estado como solução para os nossos problemas.
Além disso, numa altura em que a austeridade se está tornar dolorosa para muitos portugueses, com mais desemprego, mais pobreza e maior desigualdade, estes maus exemplos servem apenas para aumentar o sentimento de injustiça da população e para a empurrar para o protesto.
Assim, não estamos todos no mesmo barco. Assim, a austeridade não é para todos!

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Fernando Pessoa: plural como o universo

Fernando Pessoa, plural como o universo é o título de uma exposição sobre a vida e obra do poeta que a Fundação Calouste Gulbenkian apresenta, resultante de uma parceria com a Fundação Roberto Marinho e o Museu da Língua Portuguesa de São Paulo.
A exposição foi inicialmente apresentada em São Paulo e, mais recentemente, esteve patente ao público no Rio de Janeiro, tendo sido visitada por cerca de 400 mil pessoas nas duas cidades brasileiras.
A exposição apresenta-se num quase labirinto espacial que destaca os heterónimos mais importantes de Fernando Pessoa - Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Álvaro de Campos e Bernardo Soares – através de poemas, textos, documentos e fotografias, onde se incluem raridades como a primeira edição da Mensagem, além de outros documentos inéditos e exemplares de toda a obra de Fernando Pessoa, em português e noutras línguas. A componente multimédia da exposição é muito inovadora com filmes, vozes e sons, poemas ditos e páginas de livros que se folheiam com um só toque do visitante.
Como elementos centrais da exposição estão a arca onde Fernando Pessoa guardava os seus textos e alguns quadros, incluindo "Lisboa" de Carlos Botelho e o "Retrato de Fernando Pessoa" de Almada Negreiros, ambos pertencentes à colecção Gulbenkian. É uma exposição recomendável para todas as idades e que poderá ser visitada até ao dia 30 de Abril.

sábado, 11 de fevereiro de 2012

World Press Photo 2011

O retrato de uma mulher coberta pelo véu integral a abraçar um ferido durante a revolta popular no Iémen, venceu o 55º World Press Photo, o mais importante concurso mundial de fotojornalismo. O fotógrafo espanhol Samuel Aranda foi o autor dessa fotografia publicada pelo jornal New York Times. A fotografia foi obtida no dia 15 de Outubro de 2011 em Sanaa, capital do Iémen, numa mesquita transformada em hospital pelos opositores do Presidente Ali Abdallah Saleh. O trabalho do fotojornalista espanhol foi escolhido entre as mais de 100 mil fotografias apresentadas a concurso por 5247 profissionais originários de 124 países.
Aquela fotografia tornou-se o símbolo da "Primavera Árabe", tendo sido largamente divulgada em todo o Médio Oriente e Norte de África, segundo informou o comunicado publicado pelo júri do prémio: "É uma fotografia que fala em nome de toda uma região. Representa o Iémen, o Egipto, a Tunísia, a Líbia, a Síria, por tudo o que aconteceu na Primavera Árabe e que mostra um lado mais íntimo do que se passou”.
Todas as fotografias premiadas vão integrar uma exposição itinerante a ser inaugurada no dia 20 de Abril em Amsterdão. A partir de Junho, a mostra percorrerá mais de 100 cidades em todo o mundo, incluindo Portugal.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Síria: the perfect storm?

A situação na Síria agrava-se, internacionaliza-se e torna-se cada vez mais mais preocupante. O baluarte da oposição ao regime sírio é a cidade de Homs, que tem sido fortemente bombardeada, embora a contestação ao regime aconteça por todo o território. O Conselho de Segurança das Nações Unidas não conseguiu fazer aprovar uma Resolução que exigia que o Presidente Bashar al-Assad abandonasse o poder e que autorizaria uma intervenção externa para assegurar a protecção de civis, como sucedeu na Líbia. A Rússia e a China bloquearam essa Resolução e mantêm-se ao lado do regime sírio, enquanto há notícia de que 15 mil voluntários iranianos já estarão na Síria.
A Turquia mostra-se apreensiva e apela ao diálogo.
A situação geopolítica da Síria coloca-a na fronteira da moderna conflitualidade mundial – o petróleo, Israel e o Irão, o Hezbollah e o Iraque, as populações xiitas e sunitas, o estreito de Ormuz e o Mediterrâneo Oriental. O diálogo é cada vez mais necessário, sobretudo entre os sírios, mas também entre os ocidentais e os asiáticos, que parece terem encontrado uma causa ou um local para se confrontarem.
O Presidente Obama tem-se mostrado impaciente com o banho de sangue que está a acontecer mas, numa entrevista concedida ao diário Gulf News do Dubai, que é destacada em primeira página, o primeiro-ministro russo Vladimir Putin lançou um ameaçador aviso: Keep off Syria.
É um aviso que não era habitual desde os tempos da "guerra fria".
Será que no tabuleiro sírio se começa a desenhar the perfect storm?

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Viagens presidenciais e perplexidades

Há cerca de dois anos um investigador da Faculdade de Economia do Porto realizou um estudo sobre as viagens organizadas pela Presidência da República e pela Presidência do Conselho de Ministros, que se baseou num inquérito e em entrevistas aos empresários convidados para integrarem as comitivas presidenciais. Esse estudo pretendia avaliar os resultados empresariais dessas viagens, mas concluia que os empresários convidados não aproveitavam para desenvolver negócios com empresários locais, mas tão somente com outros empresários da comitiva, defendendo que, tanto os empresários como o Estado, deviam repensar o modelo de participação nessas viagens presidenciais.
Todos os anos são realizadas algumas dezenas dessas viagens, por vezes com alargadas e muito dispendiosas comitivas, sem termos informação sobre a sua composição nem sobre os seus resultados empresariais. Tornaram-se rotineiras. Sem qualquer interesse para o Estado. Os próprios jornalistas convidados para integrar essas comitivas limitam-se a recolher declarações e não tratam dos resultados empresariais. Fazem uma cobertura mediática mínima e de encomenda. Nessas circunstâncias, a opinião pública desconfia do interesse de muitas dessas viagens e toma-as como um gasto desnecessário, supérfluo ou, até, um luxo de Estado.
Actualmente o Presidente da República encontra-se em visita oficial à Finlândia e na sua comitiva lá estão os habituais empresários, sem sabermos o número total de pessoas da comitiva. Entretanto, na agenda presidencial parece estar a promoção do investimento finlandês em Portugal, mas quando se começa por sugerir esse investimento à Nokia, que na véspera despedira 4 mil pessoas, ficamos na maior das perplexidades.
De facto, não consigo ver qualquer interesse nestas viagens presidenciais.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Uma quase carreira da Índia

Encontramo-nos pela primeira vez em Bombaim em Setembro de 1998 quando, por razões profissionais, seguíamos para Diu com outros companheiros. Desde então tornámo-nos amigos, por necessidades profissionais e por afinidades culturais, a que se juntavam a cumplicidade e a solidariedade que habitualmente unem aqueles que vivem ou trabalham em distantes longitudes. Representávamos instituições distintas e, entre outros, tínhamos como desafio profissional comum a defesa e a promoção da língua e da cultura portuguesas. Em Goa. Ali convivemos com a diferença religiosa e com o multiculturalismo locais. Com as cores, os odores e os sabores. Com o calor extremo e com a diluviana chuva da monção. Observamos a realidade e compreendemos o meio social. Andamos pelas Fontainhas, pelo Altinho, por Miramar e por Dona Paula. Vimos como persistem muitas saudades e nostalgias de um tempo que passou.
Depois, terminada a missão, a vida continuou no rectângulo. Em Lisboa. Aqui nos encontramos com frequência. As nossas conversas centram-se invariavelmente em Goa, nos nossos amigos comuns, nas notícias da terra, nos progressos e nos retrocessos que acontecem, no que fizemos e no que poderíamos ter feito e na amargura que sentimos pela acelerada perda de influência da matriz cultural portuguesa em Goa, Damão e Diu, sem que as nossas autoridades percebam que é preciso inverter essa tendência.
Sempre que as finanças pessoais o permitem, cada um de nós regressa entusiasmado àquelas terras. A rever os amigos. A recuperar memórias. A matar saudades. É uma quase carreira da Índia dos tempos modernos. Eu estive lá em Outubro e o JML chegou lá há cinco dias. Estou a desejar-lhe que passe bem, como bem merece, na terra que bem conhece.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Em 2011 até a banca tremeu

Os prejuízos dos três maiores bancos privados portugueses – BCP, BES e BPI - atingiram cerca de 1100 milhões de euros, quando em 2010 tinham contabilizado um lucro de 656 milhões de euros e, em 2009, de 922 milhões de euros. Segundo foi explicado, estes resultados negativos foram causados por factores recorrentes, nomeadamente relacionados com a transferência para o Estado de parte do fundo de pensões da banca, com o envolvimento nas dívidas soberanas grega e portuguesa e com as necessidades de recapitalização impostas pela troika.
Porém, se nos abstrairmos daquelas explicações técnicas, a realidade parece ser outra. De facto, facilmente verificamos que os resultados dos bancos reflectem a situação de crise económica do país, com a actividade económica a diminuir e o risco de crédito a aumentar. A concessão de crédito está a diminuir vertiginosamente, o que penaliza os proveitos dos bancos, enquanto o incumprimento está a aumentar, obrigando os bancos a reforçarem as provisões para absorver o crédito malparado.
Curiosamente, ninguém relaciona os prejuízos da banca com o que se viu nos anos mais recentes, caracterizados pela ganância dos banqueiros, por um deslumbramento irrealista dos bancários, pelo desregramento da oferta de crédito e da mensagem publicitária e, ainda, pelo imprudente estímulo ao consumo de tudo, desde a habitação até aos automóveis e às viagens.
No entanto, o nosso primeiro afirmou que os bancos portugueses estão em melhores condições do que a maioria dos bancos europeus e que não há problemas com o sistema financeiro português. Não sabemos se é um optimismo real ou se é apenas um discurso de circunstância para apaziguar os agentes económicos e os depositantes.
O facto é que em 2011 até a banca tremeu.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

SOS Syrie

A revolução árabe chegou à Síria e está a desenvolver-se de uma forma muito violenta. O diário francês Libération alertou para a grave situação síria e lançou um SOS, informando que se combate em Damasco e em outras cidades sírias.
O movimento revolucionário sírio integra-se na chamada “primavera árabe”, que ocorreu na Tunísia, no Egipto, na Líbia e em outros países, embora as peripécias da mudança tivessem sido diferentes em cada um deles. Na maioria dos casos, a mudança fez-se, aparentemente, sem intervenção externa, mas houve excepções. Tal como já tinha acontecido em 2003 no Iraque, onde os Estados Unidos e os seus aliados decidiram derrubar Sadam Hussein, em 2011 as mesmas forças lideradas por franceses e ingleses decidiram derrubar Kadaffi. No caso do Iraque inventaram-se as armas de destruição maciça, no caso da Líbia arranjou-se o pretexto da protecção de civis. Ambos os países são importantes produtores de petróleo e essa circunstância levou à intervenção externa. Porém, as intervenções externas, com ou sem mandato das Nações Unidas, devem visar a separação dos beligerantes e a promoção de negociações, devendo ser acompanhadas por auxílios institucionais, políticos e económicos que criem um ambiente favorável ao entendimento das partes.
No caso da Síria está a chegar-se a uma situação dramática de guerra civil, com repressão muito violenta e mais de cinco mil mortos contabilizados, sem que o contestado presidente Bashar Al-Assad abandone o seu cargo como exige a oposição interna, a Liga Árabe, a União Europeia e os americanos. A União Europeia impôs um embargo ao petróleo sírio, apoiada pelos Estados Unidos, mas a intervenção externa – do tipo Iraque ou Líbia – tem estado bloqueada pelas posições da Rússia e da China, que apoiam e armam o regime sírio. A intervenção externa é urgente, mas terá que ser dirigida a partir das Nações Unidas, numa lógica de negociação, de entendimento e de separação de forças, que harmonize internamente o que for possível. Aquela área é muito perigosa. Altamente perigosa. A habitual lógica dos falcões não tem viabilidade na Síria. Negociação e diplomacia, sim. Guerra civil? Não, obrigado!

Vamos visitar a nossa Sagres!

A partir de amanhã e até ao dia 12 de Fevereiro, o Navio-Escola Sagres vai estar atracado no cais de Alcântara , em Lisboa, podendo ser visitado pelo público das 10.00 às 12.00 horas, das 14.00 às 19.00 horas e das 20.00 às 23.00 horas.
Esta iniciativa enquadra-se nas comemorações dos 50 anos do navio ao serviço da Marinha Portuguesa e de Portugal, constituindo uma boa oportunidade para o público conhecer um dos mais emblemáticos veleiros do mundo.
O navio foi construído em Hamburgo em 1937 e recebeu o nome de Albert Leo Schlageter. Depois da II Guerra Mundial foi incorporado na Marinha Brasileira com o nome de Guanabara, mas em 1961 foi adquirido pelo Estado Português com o objectivo de substituir o antigo navio-escola Sagres (actualmente baptizado como Rickmer Rickmers e que está atracado em Hamburgo como navio museu).
No dia 8 de Fevereiro de 1962 o navio içou pela primeira vez a bandeira portuguesa e, desde então, tem assegurado a formação marinheira dos futuros oficiais da Armada, tendo efectuado 155 viagens em que percorreu cerca de 600 mil milhas. De entre as suas missões destacam-se três viagens de circum-navegação e a sua presença como representante nacional em alguns importantes eventos internacionais. A visita ao Navio-Escola Sagres mobiliza sempre milhares de pessoas nos portos que visita, sobretudo nos Estados Unidos, no Japão e nos portos do norte da Europa. Agora são os portugueses e, em particular os lisboetas, que têm a possibilidade de visitar o mais simbólico navio português.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

A crise, a vaidade lusa e os Porsche

De acordo com as estatísticas divulgadas pela ACAP – Associação Automóvel de Portugal, no passado mês de Janeiro foram vendidos 6949 veículos ligeiros de passageiros em Portugal, o que representou uma quebra de cerca de 47,4% em relação ao mês de Janeiro de 2011. Esta quebra é um dos sinais mais evidentes da grave crise económica por que passamos e é o mais baixo valor de vendas do sector automóvel dos últimos 24 anos.
A informação da ACAP revela que em Janeiro de 2012 houve 33 marcas automóveis que fizeram vendas em Portugal, das quais 29 tiveram quebras nas vendas em relação ao mesmo mês do ano anterior, enquanto verificamos que quatro marcas venderam mais unidades em Janeiro de 2012 do que em Janeiro de 2011 – Land Rover, Lancia, Jaguar e Porsche.
Parece um paradoxo, pois trata-se de quatro das mais caras marcas comercializadas em Portugal, sendo de salientar que a Land Rover teve um crescimento das vendas de 152%, enquanto a Porsche aumentou as suas vendas em 60%!
Em tempo de grandes dificuldades, estes casos são um retrato da desigualdade nacional, não ajudam ao reforço da coesão social, mostram que o sacrifício não é igual para todos e são um mau contributo para a nossa recuperação económica. Porém, as lusitanas vaidades e o novo-riquismo continuam tão vivos como nos tempos da euforia e, mesmo em época de crise, ainda há quem não dispense este sinal exterior de riqueza que é circular por aí a pilotar um Porsche. Ou serão casos de sofisticado investimento e de antecipação a uma qualquer ventania que se aproxima?

A EDP também já está no "lixo"

Desde que o Estado vendeu a sua participação na EDP à China Three Gorges Corporation, que a empresa passou a ser objecto de um redobrado interesse por parte dos meios de comunicação social. Esse interesse é compreensível, porque a entrada dos chineses no capital da EDP significa um elevado grau de confiança em Portugal, mas também a decisão de passarem a dispor de uma plataforma empresarial na Europa, com ligações a ambas as margens do Atlântico Sul. Em paralelo com esta decisão, os chineses também evidenciaram interesse em outros sectores da nossa economia, como a banca, a rede eléctrica ou a indústria automóvel.
Com esta alteração societária, a porta da EDP abriu-se para a entrada de novos membros para o seu Conselho Geral e de Supervisão e, entre outros, arranjaram novos e bem remunerados empregos naquela casa, até “porque eram amigos dos chineses”, os experientes Catroga, Cardona, Pinto, Vieira e Macedo.
Entretanto, a agência de notação financeira Standard & Poor's decidiu rever em baixa o rating da EDP em dois níveis (de BBB para BB+), colocando-a na categoria de "lixo", em linha com o recente corte do rating da República Portuguesa.
Foi uma grande surpresa. Não se imaginava que, com a entrada dos chineses, nem com a entrada de tão experientes gestores do sector eléctrico, isto pudesse acontecer à EDP.
Eu até pensava que a Standard & Poor's sossegava, só por ver o iluminado Catroga na EDP.