terça-feira, 20 de março de 2012

Memória da Guerra Colonial

A SPA - Sociedade Portuguesa de Autores inaugurou uma exposição de grande interesse histórico e pedagógico, alusiva à passagem dos 50 anos do início da guerra colonial.
A exposição consta de vários painéis com expressivos textos, fotos, mapas e outros documentos, mostrando o que foram os 13 anos de guerra nas frentes de Angola, Guiné e Moçambique, que custaram a vida a mais de dez mil portugueses e ainda causaram dezenas de milhares de feridos e de estropiados.
Porém, a guerra colonial que resultou da intransigência salazarista, também representou o doloroso fenómeno do exílio, com muitos milhares de jovens a radicarem-se noutros países por discordarem da guerra.
A exposição também recorda a prisão do Tarrafal e a queda da Índia Portuguesa, destacando os momentos e as figuras mais marcantes da vida política portuguesa nesse período que decorreu de 1961 a 1974, bem como os grandes protagonistas do lado português e do lado da resistência anticolonial. Alguns painéis são dedicados ao modo como a guerra se reflectiu na vida cultural e artística portuguesa, ao papel da censura e da repressão, às tentativas armadas de mudança do regime salazarista e, ainda, às consequências que o conflito e o exílio tiveram na vida intelectual e científica do país.
A exposição pretende contrariar algum esquecimento da nossa história que se tem vindo a verificar nas últimas décadas e, de forma mais acentuada, nos últimos anos, constituindo um excelente exercício de memória sobre o nosso passado recente.
A exposição ficará patente nas instalações da SPA (Rua Gonçalves Crespo, 62, em Lisboa) até finais de Abril e, naturalmente, é muito recomendável.

segunda-feira, 19 de março de 2012

R.I.P. António Leitão

O antigo atleta olímpico António Leitão, que nos Jogos Olímpicos de Los Angeles de 1984 conquistou a medalha de bronze na prova de 5.000 metros, morreu este domingo num hospital do Porto com 51 anos de idade, vitimado por uma doença rara.
Para quem praticou e aprecia a actividade desportiva, António Leitão protagonizou um momento inesquecível de grande exaltação desportiva, que todos pudemos acompanhar em directo pela televisão, primeiro com a sua sensacional corrida e, depois, com a subida da bandeira portuguesa no mastro olímpico que então era um acontecimento raro e, por isso, mais emocionante. A história regista que a final olímpica de Los Angeles foi uma das mais rápidas de sempre, em grande parte devido à acção de António Leitão, numa prova em que, com o seu dorsal 722, liderou a prova durante mais de três mil metros e em que só foi batido nos 200 metros finais. Alguns dias antes Rosa Mota conquistara a medalha de bronze na maratona feminina e, no dia seguinte, foi a vez de Carlos Lopes conquistar a medalha de ouro na maratona masculina. O historial português que regista 22 participações e a conquista de 22 medalhas olímpicas, nunca teve uma representação tão bem sucedida desportivamente, como sucedeu em 1984 em Los Angeles, onde conquistou uma medalha de ouro e duas medalhas de bronze, por intermédio de Carlos Lopes, Rosa Mota e António Leitão.
Natural de Espinho e medalhado olímpico, António Leitão continuará presente na memória dos apreciadores do desporto e, em especial, daqueles que acompanham o atletismo.

sábado, 17 de março de 2012

São trapalhadas a mais

Nos últimos tempos as trapalhadas governamentais sucedem-se a um ritmo muito preocupante, revelando algumas decisões incompreensíveis, falta de prévio estudo dos assuntos, comportamentos inaceitáveis e, ainda, uma elevada permeabilidade ao atrevimento de boys e mini-boys. Tudo isto, embrulhado numa grande arrogância discursiva. Ora, parece-me que ainda não estamos em tempo do “vale tudo”!
O regime de excepção aplicado ao BdP, à TAP, à CGD e a outros que já se perfilam no horizonte, as excepções que se verificam em relação aos limites salariais das administrações da TAP, ANA, CTT e outras, o caso do devedor que virou credor da AdP, a triste história do duplo recebimento da Lusoponte, a inadmissível cedência aos lobbies da energia sob o comando da EDP, são alguns dos casos preocupantes pois estão desalinhados com o discurso da coerência com que esta gente foi escolhida para nos governar. Porém, as surpresas continuam.
Agora temos um indivíduo que já foi apelidado de “12º ministro” e que foi escolhido para liderar a equipa que ficará com a supervisão das privatizações das participações do Estado em empresas públicas, onde se incluem a TAP, ANA e RTP, mas que, simultaneamente, aceita ser administrador de uma das maiores empresas privadas portuguesas. É preciso muita vaidade e muita ambição para alguém se sujeitar a esta bigamia entre o interesse público e o interesse privado. Se a moda pega, um dia teremos o Pingo Doce a dar emprego a muitos mais consultores e assessores do governo, aqui ou na Holanda, para onde a empresa se vai instalar.
Estão a dar cabo da ética republicana e já são trapalhadas a mais.

Um Estado dentro do Estado

No ano de 2011, quando a EDP ainda não era dominada pelos chineses, os sete membros do seu Conselho de Administração receberam 6,09 milhões de euros, um montante que, segundo revela o Correio da Manhã, dava para pagar 12.569 salários mínimos em Portugal. Só o presidente da empresa ganhou 1,04 milhões de euros em remunerações fixas e variáveis, que correspondem a cerca de 2.859 euros por dia.
É uma obscenidade. Num país que atravessa uma crise tão grave, com a população a empobrecer e com um enorme volume de desemprego, até parece que estamos em tempo de vacas gordas, com a EDP a explorar indecentemente o consumidor português para alimentar remunerações e lucros escandalosos, perante a indiferença dos nossos governantes. Na realidade a EDP é um caso lamentável de assalto ao bolso do consumidor, pois o preço que pagamos pela electricidade é superior ao preço médio da União Europeia, além de que a EDP ainda beneficia da comparticipação do Estado, através das famosas rendas.
Há dias, a EDP decidiu que os chineses irão receber 144 milhões em dividendos relativos ao seu fabuloso lucro de 1125 milhões de euros de 2011 e, agora, por causa da negociação das abusivas rendas, provocou a saída do governo do secretário de Estado da Energia. Afinal, os valentões do governo são fortes para os fracos, mas são fracos para os fortes. Os mexias e os catrogas é que mandam e a EDP é, cada vez mais, um Estado dentro do Estado.

sexta-feira, 16 de março de 2012

Aos sábados em Campo de Ourique

No sentido de dar uma vida diferente e mais atraente ao Mercado de Campo de Ourique, a Câmara Municipal de Lisboa decidiu que, aos sábados entre as 09.00 e as 15.00 horas, passará a haver naquele espaço um mercado paralelo de natureza cultural e solidária, em que serão apresentados produtos diversos daqueles que habitualmente lá se encontram, à mistura com as habituais alfaces e couves, rabanetes e batatas, sardinhas e carapaus.
Assim, até ao final do mês de Junho, no Mercado de Campo de Ourique, os visitantes terão no primeiro sábado de cada mês um mercado de Velharias e Antiguidades, no segundo um mercado de Artesanato, no terceiro um mercado da Solidariedade e no quarto um mercado de Livros.
Este tipo de iniciativas que se inspira nos antigos mercados populares de rua, tem atraído cada vez mais público, quer do lado da oferta (uma boa oportunidade para artistas), quer do lado da procura (uma boa oportunidade para coleccionadores). Deste modo a partir do próximo sábado, dia 17 de Março, no Mercado de Campo de Ourique podem ser encontrados trabalhos de pintura, escultura, fotografia, tapeçaria ou cerâmica. Mais uma alternativa para os lisboetas ocuparem as suas manhãs de sábado.

quarta-feira, 14 de março de 2012

Abaixo a pança!

Num contexto de euforia económica houve milhares de famílias em Portugal que contraíram empréstimos para aquisição de casa própria e hoje haverá 140 mil que estão com processos de incumprimento por ausência de pagamento de crédito à habitação.
As razões são muito diversas e compreensíveis, mas esta situação só foi possível porque a gananciosa banca estimulou esses comportamentos económicos quando o dinheiro era barato.
Agora, quando uma família entra em incumprimento e não consegue fazer os seus pagamentos, há lugar à dação por incumprimento, isto é, à devolução da casa.
Porém, nesses casos, por efeito de várias avaliações e da eventual desvalorização do imóvel, além de ficarem sem casa, as famílias ainda ficam a dever dinheiro aos bancos que entendem que as suas casas desvalorizaram face ao valor do empréstimo pedido e, assim, a banca duplica a sua margem de lucro.
Isto é um verdadeiro assalto às famílias e à coesão da sociedade. É preciso acabar com esta situação, porque se trata de uma condenação sem prazo das famílias que estão numa circunstância crítica. É preciso legislar no sentido de que a entrega de casa salde a dívida ao banco e, por isso, espera-se que o governo e os 230 deputados tenham a sensibilidade social e a coragem para travar a renascida ganância da banca.
Por tudo isso, tem sentido recordar o Poemarma, um famoso poema de Manuel Alegre publicado em 1967 n’O Canto e as Armas:
Que o poema assalte esta desordem ordenada,
Que chegue ao banco e grite: abaixo a pança!

terça-feira, 13 de março de 2012

A cartografia náutica em exposição

O Museu de Marinha inaugurou no passado dia 8 de Março uma sugestiva exposição intitulada “A cartografia náutica – séculos XVI a XIX”.
A exposição integra-se nas comemorações dos quinhentos anos do nascimento de Gerard Mercator, o famoso cartógrafo flamengo que idealizou e desenvolveu matematicamente uma projecção cilíndrica do globo terrestre, isto é, a representação da superfície esférica da Terra num plano, o que constituiu uma verdadeira revolução da cartografia na segunda metade do século XVI.
Nela, os meridianos e os paralelos são representados por segmentos de recta perpendiculares, mas enquanto os meridianos são equidistantes entre si, os paralelos estão cada vez mais afastados uns dos outros à medida que aumenta a latitude. Essa geometria faz com que a superfície da Terra seja deformada na direcção leste-oeste, tanto mais quanto maior for a latitude. As linhas que fazem um ângulo constante com os meridianos (as loxodrómias), permitem que os rumos e os azimutes sejam medidos ou marcados directa e facilmente na carta de navegação. Assim, a projecção de Mercator é particularmente apropriada para apoiar a navegação marítima.
O principal objectivo da exposição é a mostra do importante acervo cartográfico do Museu de Marinha e da Biblioteca Central da Marinha, para além de nos permitir compreender a evolução da cartografia náutica desde que a projecção de Mercator foi adoptada.
A excelente e didáctica exposição pode ser visitada até ao dia 6 de Abril, todos os dias úteis, excepto às segundas-feiras, das 10.00 às 17.00 horas.
Muito recomendável.

O mundo está em mudança

O mundo está em mudança e os sinais dessa mudança chegam-nos de toda a parte nas mais diversas formas, algumas delas bem inesperadas. Assim acontece com o a primeira página do diário DNA – Daily News & Analysis que se publica em Mumbai (ex-Bombaim) ao destacar uma notícia e um anúncio.
A notícia refere que, no passado dia 11 de Março, o jornal organizou uma meia-maratona exclusivamente feminina que associou a três causas sociais: a luta contra o cancro, a educação das crianças do sexo feminino e a segurança das mulheres em público. Foi a primeira vez que aconteceu este tipo de iniciativa que, sendo habitual no Ocidente não acontecia na União Indiana, onde a prática desportiva se reduz praticamente ao cricket e é estranha às mulheres, quem nem sequer vão à praia.
A União Indiana é uma federação de 28 Estados onde cohabitam línguas, religiões, castas, etnias e culturas muito distintas. Nessa sociedade muito heterógenea há alguns realidades que são transversais a toda a sociedade e uma delas é o estatuto social das mulheres, que tanto ocupam a Presidência da República e lideram o maior partido nacional, como são vítimas de grande apartheid social. Por isso, a DNA/Can Women’s Half-Marathon foi um acontecimento surpreendente, pois teve a participação de 2500 mulheres e juntou castas e religiões, jovens e menos jovens, ricas e pobres e muitas figuras de Bollywood. Enquanto umas percorreram os 5 Km Fun Run e outras fizeram os 10 Km Spirit Run, muitas outras correram os 21 km da meia maratona. Foi uma novidade a mostrar que até na conservadora Índia as práticas culturais estão em mudança.
Porém, a primeira página do jornal também mostra um enorme e dispendioso anúncio da Renault. Depois de recentemente terem conseguido vender 126 aviões de combate Rafale à Força Aérea Indiana, os franceses entraram num mercado que lhes era estranho e começaram a vender os automóveis Renault à classe média indiana.
O mundo está realmente em mudança.

domingo, 11 de março de 2012

Que grande confusão vai por aí!

O jornal digital Dinheiro Vivo inclui hoje duas notícias contraditórias sobre a evolução da crise financeira portuguesa, que só podem deixar os portugueses muito confusos.
Uma dessas notícias informa que o nosso primeiro garantiu mais uma vez em duas entrevistas à imprensa sueca, que “Portugal não vai pedir nem mais dinheiro nem mais tempo” e que regressará aos mercados em Setembro de 2013, enquanto outra notícia refere que o jornal alemão Die Welt escreve que “Portugal precisará de um segundo resgate internacional ainda este ano” e garante que o nosso país sucederá à Grécia nas preocupações com a crise das dívidas soberanas europeias.
Cada uma dessas opiniões tem sido veiculada por responsáveis idóneos e esse facto faz aumentar a confusão. Assim, entre os que afirmam que Portugal não vai precisar de novo resgate estão o presidente do BCE Mário Draghi e o presidente do Banco Mundial Robert Zoellick. Entre os que consideram que vai ser necessário um novo resgate estão o prémio Nobel Robert Mundell e o economista Nouriel Roubini, que vê Portugal e a Irlanda com o mesmo destino da Grécia. Paul Krugman que passou por Lisboa e foi afogado em distinções honnoris causa não se comprometeu quanto à necessidade de novo resgate, limitando-se a dizer que “as coisas estão terríveis aqui, mas na Irlanda estão piores”.
Existe a convicção de que os países endividados só conseguirão pagar as suas dívidas se lograrem ter crescimento económico, mas até agora não se vislumbram em Portugal quaisquer políticas de crescimento, nem sinais de retoma, mas somente austeridade e cortes. Assim, todas estas opiniões não passam de meros palpites e só servem para nos anestesiar. Que grande confusão vai por aí!

sábado, 10 de março de 2012

Prefácios inoportunos e impróprios

Não é vulgar, mas aconteceu. O autor do livro Roteiros VI decidiu divulgar o respectivo prefácio antes da respectiva publicação, mas não foi por estratégia comercial. Dizem que é um público ajuste de contas com o anterior Primeiro Ministro e, de facto, ele que tanto poupa os amigos e nunca tomou posição sobre o caso BPN, revela-se implacável para com o homem com quem cohabitou politicamente durante vários anos. É muito estranho. É mesmo muito estranho.
Logo na primeira frase do seu texto é referida uma campanha eleitoral “muito dura, sobre a qual este não é ainda o momento de escrever”. Porém, ele escreve sobre outros momentos mais recentes como “a crise política de 2011” como se fosse um comentador e ignora a sua condição de político que mais tempo tem de poder em Portugal e que, por isso, tem muitas responsabilidades “no estado da nação”.
No complexo momento que atravessamos que tanto necessita de consensos, este capítulo do prefácio é absolutamente inoportuno e impróprio da equidistância e da solenidade de que se devem revestir as intervenções do supremo magistrado. O eleitorado já fez o julgamento político do anterior Primeiro-Ministro, que deixou a cena política e não se pode defender. Porquê agora tanta “coragem política”? Por causa das desgraçadas declarações sobre as suas reformas que esta semana levaram 40 mil portugueses a pedir a sua demissão numa petição entregue na Assembleia da República? Pela sua acentuada quebra de popularidade que os estudos de opinião têm assinalado? Pela abortada deslocação a uma escola com receio de enfrentar os protestos de um grupo de jovens? Para que nos esqueçamos do despesismo presidencial?
O autor do prefácio deixou-se arrastar por instintos mesquinhos e sem elevação nem grandeza pessoal, uniu a oposição socialista e, sobretudo, mostrou que se a nossa crise se agravar, o supremo magistrado não tem condições para a gerir.
E isso é muito mau.
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sexta-feira, 9 de março de 2012

Messi: no hay otro igual

O moderno futebol é um espectáculo e um negócio, que apaixona e mobiliza multidões em todo o mundo, que enche os estádios, que atrai milhões de espectadores televisivos e que gera muitos milhões de receitas publicitárias. O nosso quotidiano é cada vez mais atravessado pelo futebol, pois as nossas rádios e as nossas televisões, muitas vezes de forma absolutamente desproporcionada, enchem-nos de relatos, entrevistas, comentários, debates, reportagens e fait divers, como se a dimensão do futebol superasse todas as outras dimensões da nossa vida. Dizem-nos tudo a respeito dos futebolistas, da sua vida pessoal e dos seus ganhos milionários. Cansam-nos com jogadores, treinadores, dirigentes, árbitros, comentadores e adeptos. Porém, apesar de todo este exagero informativo, a faceta artística e emocional do futebol deixa pouca gente indiferente a esse espectáculo singular.
Como espectáculo, o futebol é feito por artistas e Lionel Messi, um argentino de 24 anos de idade, é um deles. No recente jogo do F. C. Barcelona com os alemães do Bayer Leverkusen a contar para a Champions League, o pequeno e talentoso Messi marcou 5 golos, o que nunca acontecera no historial desta competição. Foi uma prestação artística inesquecível. A revista Time de 6 de Fevereiro já dedicara a sua primeira página a King Leo, coisa que nunca antes acontecera com um futebolista, considerando-o o melhor do mundo. Dizem que é melhor do que Pelé e Maradona e que vale 140 milhões de euros (o record pertence a Ronaldo que em 2009 custou 94 milhões de euros ao Real Madrid). Em Espanha diz-se que Messi não é deste mundo. Que é incomparável. Que é estratosfércio. Que no hay otro igual.

quinta-feira, 8 de março de 2012

O Brasil optimista e feliz

O Brasil parece ser o país mais optimista do mundo ao liderar pela quarta vez consecutiva o ranking do Índice de Felicidade Futura (IFF), feito pelo Centro de Políticas Sociais da Fundação Getúlio Vargas (FGV) do Rio de Janeiro, a partir de dados recolhidos em 158 países.
No entanto, essa conclusão não tem qualquer rigor científico e só pode ser simbólica, pois os conceitos de felicidade e de optimismo utilizados não são esclarecidos nem são claros, nem tão pouco são definidos os critérios utilizados para prever a felicidade futura nos países. É, apenas, um ranking curioso.
O estudo assenta na comparação entre a felicidade presente (em que o Brasil ocupa a 23ª posição) e a felicidade esperada para 2015 em que o Brasil surge na 1ª posição. Ora o Brasil passa por uma fase muito entusiástica da sua existência com a próxima realização do Mundial de Futebol em 2014 e dos Jogos Olímpicos de 2016, além de que os brasileiros são naturalmente optimistas, olham a vida de uma forma positiva, acham que a vida vai melhorar e isso é reflectido no seu estado de espírito.
Assim, é com simpatia que o mundo lusófono olha para este ranking que é liderado pelo Brasil, no qual os Estados Unidos ocupam a 14ª posição, a Irlanda a 16ª, o Reino Unido a 26ª, a Itália a 56ª, a Alemanha a 62ª, a Grécia a 145ª e Portugal, imagine-se, a 146ª.
O ranking vale pouco e não é para ser levado a sério, mas é agradável ver o Brasil optimista e feliz lá na frente. Quando se vive sob a ameaça de um contágio financeiro vindo do Mediterrâneo Oriental, era bem mais desejável que houvesse um contágio optimista e feliz a chegar-nos do Atlântico Sul.

segunda-feira, 5 de março de 2012

É uma pouca vergonha!

No passado fim de semana o Sindicato dos Magistrados do Ministério Público (SMMP) realizou o seu IX Congresso num hotel de Vilamoura, o que em tempos de crise nos deixa muito desconfiados sobre quem vai pagar essa factura.
Para além dos interessantes discursos do Presidente do Sindicato e da Ministra da Justiça, que referiram as “indecorosas margens de impunidade” que ainda persistem na sociedade portuguesa e o anúncio de uma elevada prioridade ao combate à corrupção e à criminalidade cometida no exercício de funções públicas, o Congresso serviu para nos desalentar.
De facto, a existência deste sindicato é, só por si, uma verdadeira aberração sem sentido e o facto do Congresso ter sido patrocinado é outra aberração. O Sindicato devia dar um exemplo de contenção, mas preferiu exibir um novo-riquismo serôdio e despropositado.
Como é possível que os magistrados do Ministério Público aceitem ser patrocinados por quatro bancos e uma seguradora, além de outras empresas? Como é possível sujeitarem-se a ter media partners, a quem pagaram viagem e estada no hotel de Vilamoura, coisa que só o Público assumiu?
Para completar este promíscuo quadro, o Congresso incluia um aliciante "programa social para acompanhantes", o que lhe retira qualquer credibilidade profissional.
A Ministra da Justiça avalizou tudo isto com a sua presença.
Assim, a minha confiança na independência da Justiça fica ainda mais abalada.
Um amigo que muito estimo diria: é uma pouca vergonha!


domingo, 4 de março de 2012

A irresponsável ganância dos Bancos

Foi hoje largamente divulgado que a crise e o desemprego têm conduzido a uma situação de crescente dificuldade dos devedores para cumprir as suas obrigações e dos credores para assegurar as respectivas cobranças.
Esta situação do incumprimento resulta do excessivo endividamento dos portugueses e, em muitos casos, dos elevadíssimos juros que contratualmente lhes são cobrados pelo que, nos termos da lei, os credores recorrem à penhora de bens, de contas bancárias ou de salários. Estima-se que actualmente haja cerca de cem mil pessoas com os seus salários penhorados, embora a lei limite a penhora até um terço do montante salarial.
Normalmente, as dívidas dizem respeito a contratos celebrados com entidades que financiam aquisições a crédito, sobretudo sociedades financeiras e bancos, prestadores de serviços de telecomunicações, entre outros.
Esta situação já constitui um grave problema social e, mais uma vez, estamos perante um caso em que a ganância das entidades financeiras arrastou milhares de pessoas para esta situação. Todos nos lembramos do incentivo da publicidade bancária para que as pessoas recorressem ao crédito para consumir, viajar, comprar casa, mudar de carro, antecipar salário, para tudo comprar. Parecia um assalto à carteira de cada um. Agora condenam-se as pessoas que foram iludidas e se excederam, mas ninguém acusa a irresponsável ganância dos Bancos e dos seus gestores, que enriqueceram à custa de tudo isto.
Não podemos ter memória curta!

sexta-feira, 2 de março de 2012

Não nos estraguem o nosso futebol!

Hoje disputa-se um jogo de futebol entre o S. L. Benfica e o F.C. Porto e toda a comunicação social dedica muito espaço e muito tempo a esse acontecimento, como resposta ao interesse público que desperta. Porém, quando estivermos a ver o jogo, não podemos deixar de anotar que quase não há jogadores portugueses em campo e de pensar no significado desportivo e económico desse facto.
O Correio da Manhã titulava hoje que os chamados "três grandes" pagam 11 milhões de euros por mês em salários e que, nos últimos anos, os encargos com os jogadores dispararam. Esse tipo de encargos é assustador pois conduz a um endividamento excessivo que, em relação a esses três clubes, já passa dos mil milhões de euros e que está a ser agravado com juros cada vez mais elevados. Ora, os modernos clubes de futebol são empresas e, como tal, não são eternas pois nascem, crescem e morrem.
O seu modelo de financiamento assenta em receitas televisivas e de bilheteira, na venda de patrocínios e de merchandising e, ainda, na venda de direitos desportivos de jogadores. Este modelo está ameaçado pois há cada vez menos público nos estádios, menos patrocinadores, menos merchandising e menos possibilidade de recorrer à banca, o que pode originar muitos problemas no futuro próximo.
Os habituais perdões do Estado - a tal promiscuidade entre o futebol e a política – os negócios e os totonegócios, os estádios que ainda estamos a pagar, os activos fictícios e outras habilidades, já não são solução.
Pede-se aos dirigentes que repensem tudo isso, para que não nos apareça por aí mais uma troika especializada em futebol. Por favor, não nos estraguem o nosso futebol!