segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Um enorme disparate americano na Síria

 
Depois de dez meses de negociações, os americanos e os russos assinaram um acordo para um cessar-fogo na Síria a partir da noite da passada segunda-feira (dia 12 de Setembro), que permitisse o imediato acesso humanitário às zonas da cidade de Aleppo cercadas pelas forças armadas da Síria e o fim dos bombardeamentos aéreos.
Tudo parecia correr bem, apesar de terem sido anunciadas muitas violações aos acordos assinados e de ter havido muitas movimentações tácticas de grupos armados a aproveitar a trégua. Como é normal, houve acusações dos russos e houve acusações dos americanos. Até aí era tudo mais ou menos compreensível...
Porém, no passado sábado (dia 17 de Setembro) a aviação americana, ou da chamada coligação internacional, realizou quatro ataques aéreos contra as tropas do governo sírio em Jebel Tharda, perto do aeroporto de Deir al-Zor, daí resultando a morte de 62 soldados e mais de 180 feridos, ao mesmo tempo que essa acção abriu caminho para uma grande ofensiva do Daesh contra as forças do governo de Bashar al-Assad. O Pentágono emitiu um comunicado em que reconhece a sua responsabilidade no ataque, afirmando que foi um erro e que as forças da coligação internacional não tiveram a intenção de alvejar militares ou instalações sírias. Entretanto, os falcões do Reino Unido e da Dinamarca já confirmaram a sua participação no ataque, tal como os da Austrália.
Hoje, o Daily Telegraph que se publica em Sydney, para além de mostrar um F-18 Super Hornet da RAAF voando sobre a Síria e de afirmar que a operação foi um erro de consequências fatais, destaca que no ataque de Deir al-Zor os “aviões australianos estiveram entre os que tomaram parte nesta operação”, isto é, o jornal australiano já parece pedir contas a quem teve responsabilidade neste atentado à paz.
Esta acção vai marcar fortemente todo o futuro da guerra na Síria e as opiniões públicas ocidentais vão reagir perante este disparate americano e dos seus amigos. A pergunta que se faz é se se tratou realmente de um erro, ou de uma falta de coordenação ou de uma acção deliberada que violou os acordos de cessar-fogo e beneficiou o Daesh. Será que Donald Trump tem razão e que Barack Obama e os seus conselheiros são os pais do Daesh? Será que a Europa deve ser tão seguidista em relação aos disparates americanos? O que estará ainda para acontecer?

domingo, 18 de setembro de 2016

A Espanha está sem ventos de mudança

No dia 20 de Dezembro de 2015 realizaram-se eleições gerais em Espanha, sem que delas resultasse um partido ou uma coligação de partidos com votos ou deputados suficientes para suportar um governo. Os líderes das principais forças políticas espanholas - Mariano Rajoy pelo PP, Pedro Sanchéz pelo PSOE, Pablo Iglesias pelo Podemos e Albert Rivera pelo Cidadanos – não conseguiram chegar a nenhum acordo de governo. Por isso, no dia 26 de Junho de 2016 as eleições foram repetidas, tendo-se apurado aproximadamente os mesmos resultados, isto é, PP (33%), PSOE (23%), Podemos (21%) e Cidadanos (13%), pelo que o impasse político se mantém em Espanha e até existe um cenário possível de terceiras eleições. Significa que o bipartidarismo espanhol em que o PP e o PSOE se intercalavam no exercício do poder acabou e que a Espanha está a perder peso político internacional, em consequência das suas incertezas políticas.
Entretanto, no próximo dia 25 de Setembro vão realizar-se eleições autonómicas na Galiza e na Comunidade Autónoma do País Basco. O diário ABC divulga hoje as previsões eleitorais e, tal como está a acontecer com o eleitorado nacional que se mantém estável e repartido por quatro forças políticas, também os eleitorados galego e basco se mostram sem tendências de mudança. Assim, prevê-se que o PP consolide a sua maioria na Galiza, o mesmo sucedendo no País Basco com o Partido Nacionalista Vasco (PNV) que, para continuar a governar vai a precisar do apoio do Bildu, uma coligação de pequenos partidos independentistas bascos.  Em síntese, quer a nível nacional, quer a nível autonómico, os ventos de mudança não sopram em Espanha e os eleitores mostram-se pouco estimulados na mudança do  seu sentido de voto.

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

A ganância do Durão envergonha Portugal

Quando no passado mês de Junho foi anunciado que José Barroso ia assumir as funções de chairman da Goldman Sachs International, levantou-se um coro internacional de protestos que, desde então, parece estar a subir de tom.
A Provedora de Justiça europeia e muitos eurodeputados pediram a intervenção da Comissão Europeia e Jean-Claude Juncker, o seu actual presidente que sucedeu exactamente a Barroso, decidiu não meter a cabeça na areia. Vai daí informou-o que passaria a ser recebido em Bruxelas, “não como antigo presidente, mas como um representante de um interesse sujeito às mesmas regras dos lobistas”. Na prática, isso significa que nas suas deslocações à capital do poder político europeu e até nos contactos que mantiver com responsáveis europeus, Barroso deixa de ser recebido como um ex-presidente e passa a ser recebido como qualquer lobista, devendo todos os seus contactos ficar registados para memória futura. Evidentemente que esta decisão ainda carece de avaliação da Comissão de Ética da UE e de confirmação, mas até pode acontecer um agravamento da sansão e Barroso poder vir a perder regalias, designadamente a sua robusta pensão de reforma. Numa petição que circula na blogosfera e que já tem 140 mil assinaturas, é afirmado que o comportamento de Barroso desonra os funcionários europeus e a própria União Europeia, pedindo-se a suspensão da sua reforma dourada e vitalícia.
Tem sido uma humilhação continuada. Cego pela sua ganância e pela sua ambição, Barroso escolheu um caminho desprestigiante para o seu futuro que nos está a envergonhar aos olhos do mundo. Já em Junho o Libération parecia adivinhar este folhetim.

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Como está doente a Justiça em Portugal!

A SIC transmitiu no passado dia 8 de Setembro uma entrevista com o juiz Carlos Alexandre, o homem que tem nas mãos alguns dos mais importantes e polémicos processos judiciais que correm em Portugal. Depois do que tem acontecido nesse campo, com medidas de coação desproporcionadas e com constantes violações do segredo de justiça, a entrevista da personagem não me interessou. Não vi.
Porém, na edição de 10 de Setembro do jornal Sol e talvez partindo  daquela entrevista, o Presidente da República veio “aconselhar reserva aos juízes”, isto é, deu um raspanete ao meritíssimo juiz Alexandre. Depois, nos jornais e nos espaços de comentário televisivo, começaram a aparecer as demolidoras opiniões dos comentadores sobre o juiz de Mação.
Consegui aceder à entrevista e fiquei embasbacado com aquilo que vi e ouvi. Foi demasiado mau para o juiz, para as gentes de Mação, para os antigos alunos da Faculdade de Direito, para o Ministério Público, para o Estado e para o respeito que os portugueses ainda têm pela Justiça. A personagem é fraca. Trabalha sem descanso e não tem tempo para ler, nem para escrever, nem para ir ao teatro, a concertos, a exposições ou a museus. Continua agarrado ao pequeno mundo de Mação e confidencia que os seus colegas o conhecem como o "saloio de Mação”. Sem pudor e traindo a sua função de árbitro entre a acusação e a defesa de qualquer processo, ele toma partido. Diz que “não tenho dinheiro ou contas bancárias em nome de amigos” (eventualmente para pagar o seu BMW 520) e isso é, obviamente, um juízo de valor sobre um caso que está a investigar e do qual ainda não foi deduzida acusação. Um juiz deve dar garantias de imparcialidade relativamente aos cidadãos, mas este juiz serviu-se da comunicação social para antecipar um julgamento popular num caso em que ele próprio tem revelado incompetência e parcialidade, parecendo não confiar no julgamento em tribunal. Uma vergonha que merece o repúdio de toda a gente e é uma afronta ao Estado de Direito.
Não se sabe o que o homem quer, mas há que desconfiar. Eu desconfio desta gente humilde, séria e trabalhadora. Eu desconfio de gente tão pequena. Talvez o Conselho Superior da Magistratura, que vai apreciar a entrevista, também desconfie. Como está doente a Justiça em Portugal!

Um ciclista que faz vibrar a Colômbia

Toda a imprensa colombiana destaca hoje a vitória do ciclista Nairo Quintana na Vuelta 2016, dedicando-lhe as suas primeiras páginas e publicando a sua fotografia a seis colunas, ora a pedalar nas montanhas espanholas, ora a exibir o troféu conquistado. É o novo herói nacional da Colômbia! Os títulos escolhidos pela imprensa colombiana são muitos semelhantes: Nairo Rey de España, Orgullo colombiano, Nairo conquistó España, Nairo qué orgullo, Baño de gloria, etc.
Não é habitual tanta uniformidade jornalística em torno de um acontecimento ou de uma figura popular, sobretudo num país muito diverso e multicultural que tem em mãos o complexo processo de desmobilização das FARC, mas talvez seja por isso que o feito desportivo de Quintana está a ser aproveitado para estimular sentimentos de unidade nacional que andaram perdidos durante muitos anos sob o efeito do narcotráfico e da guerrilha. Um país que tem quase cinquenta milhões de habitantes e que, depois do Brasil, é o mais populoso país da América do Sul, precisa de símbolos nacionais inequívocos, como até agora tem sido Gabriel Garcia Márquez, o Prémio Nóbel da Literatura de 1982. Embora num outro plano de notoriedade e de popularidade, o ciclista Nairo Quintana e a sua vitória em Espanha beneficiaram naturalmente de uma excelente cobertura televisiva, que deu a conhecer ao mundo o seu desempenho atlético e a sua inequívoca vitória sobre o britânico Chris Froome. A Colômbia acompanhou e está orgulhosa do seu ciclista.
Depois do fim da guerra com as FARC, o Presidente Juan Manuel dos Santos teve agora um prémio merecido que o ajuda a cimentar a paz e a unidade nacional que persegue e de que a Colômbia precisa.

O independentismo catalão reapareceu

Ontem celebrou-se o Dia Nacional da Catalunha, conhecido por La Diada, em que cinco cidades catalãs – Barcelona, Tarragona, Salt, Lleida e Berga – acolheram manifestações independentistas convocadas pela Assembleia Nacional da Catalunha. Todos os jornais catalães destacaram esse acontecimento e um deles foi o ara, um diário de Barcelona que se publica em catalão. Segundo os dados fornecidos pela Polícia Municipal de cada uma das localidades em que houve concentrações, cerca de 875 mil pessoas participaram nas cinco manifestações independentistas, com Barcelona a acolher 540 mil manifestantes. Entre eles, esteve presente Carles Puigdemont, que se tornou o primeiro presidente do governo da Catalunha a participar naquela manifestação nacionalista e que declarou que espera poder convocar “eleições constituintes” até Setembro de 2017.
O Dia 11 de Setembro ou La Diada, que assinala o dia da derrota dos catalães e da sua definitiva integração na Espanha em 1714, transformou-se nos últimos anos num símbolo do processo de luta  pela independência da Catalunha. Com cerca de 7,5 milhões de habitantes, a Catalunha possui uma língua e cultura próprias, assim como uma longa tradição industrial e um importante sector turístico. Segundo uma sondagem realizada no passado mês de Julho, metade da população catalã apoia a independência da região.
Porém, o governo de Madrid  tem rejeitado todas as pressões independentistas. No momento actual, em que não há sinais claros para ultrapassar o impasse político espanhol resultante das duas últimas eleições legislativas, a pressão catalã aumenta. Seguramente que o problema da independência da Catalunha, que tem estado adormecido, vai voltar às agendas das autoridades de Barcelona e de Madrid.

domingo, 11 de setembro de 2016

Para que o mundo nunca esqueça

Perfazem-se hoje 15 anos sobre a data em que um grupo de 19 terroristas da al-Qaeda sequestraram quatro aviões comerciais americanos e desencadearam uma série de ataques suicidas contra alvos na região de Nova Iorque. Dois desses aviões colidiram intencionalmente contra as Torres Gémeas do complexo empresarial do World Trade Center na cidade de Nova Iorque, matando todos os seus passageiros e alguns milhares de pessoas que trabalhavam nessas torres. O terceiro avião sequestrado colidiu com o Pentágono e o quarto caiu num terreno rural depois de alguns dos seus passageiros terem reagido e tentado recuperar os comandos do avião. Foram quase três mil mortos e a América e o mundo viveram com emoção essa terrível tragédia, até porque terá sido a maior catástrofe alguma vez transmitida em directo pela televisão.
A cidade de Nova Iorque reagiu à destruição e à dor. Enfrentou a adversidade e, em 2014, ficou concluido o One World Center (WTC 1), exactamente no local onde antes estiveram implantadas as Torres Gémeas. O novo edifício é também um memorial que recorda o 9/11 e tornou-se o edifício mais alto dos Estados Unidos e um dos mais altos do mundo com 1.776 pés (541,3 metros).
Foi há 15 anos que a tragédia aconteceu e não pode ser esquecida. Para muitos analistas, foi então que começou uma guerra de características e desenvolvimentos imprevisíveis que levou à intervenção americana em sete países, incluindo o Iraque, Afeganistão, Paquistão, Líbia, Iémen, Somália e Síria e que tem espalhado a insegurança um pouco por todo o mundo.
Hoje a imprensa americana, incluindo o quase centenário Daily News que se publica na cidade de Nova Iorque homenageou as vítimas do 11 de Setembro. Nós aqui também.

O novo interesse de Macau pelo português

O governo de Macau, ou com mais rigor, o governo da Região Administrativa Especial de Macau, dirigido desde 2009 por Fernando Chui Sai On, anunciou que a partir do ano lectivo que agora se inicia, a língua portuguesa passa a ser um “projecto com prioridade de apoio”, nos termos enunciados no Plano Quinquenal que agora foi divulgado. Assim, deverá ser definido um número mínimo de horas para a aprendizagem, quer nas escolas particulares, quer no ensino regular, de forma a assegurar rapidamente uma “maior generalização da língua portuguesa”. Nesse sentido, as autoridades de Macau pretendem alargar a cooperação com Portugal e criar condições para que os estudantes macaenses possam prosseguir estudos superiores em Portugal, o que também significa a necessidade de aumentar o número de bolsas especiais do Fundo de Acção Social Escolar para apoiar os estudantes dos cursos de português e de tradução de chinês e português. A notícia é do jornal Tribuna de Macau e, naturalmente, agrada aos defensores da língua portuguesa.
Porém, o apoio à aprendizagem de línguas não se restringe ao português, pois o Plano Quinquenal aponta para que os estudantes macaenses falem quatro línguas e escrevam três – português, inglês e mandarim.
Decorridos quase cinco séculos de contactos e de presença na península de Macau, a língua portuguesa nunca se impôs como língua franca e, como se costuma dizer, “ninguém fala português em Macau”. Pode ser que esta política do governo de Macau melhore uma situação que as autoridades portuguesas que administraram o território até 1999, nunca quiseram ou puderam resolver. 

sábado, 10 de setembro de 2016

Síria. Boas notícias. Tenhamos confiança.

O mundo acordou esta manhã com uma notícia surpreendente e que poucos matutinos tiveram a oportunidade de anunciar. O diário espanhol El País foi um dos jornais que anunciou um acordo de cessar-fogo na Síria a partir de segunda-feira, o que foi confirmado ao longo do dia pelas televisões que divulgaram imagens de John Kerry e de Sergei Lavrov, a assegurar em Genebra o seu empenhamento junto dos respectivos aliados para que o cessar-fogo seja cumprido e para que parem todos os combates, assim como os voos dos aviões do regime de Bashar al-Assad sobre as posições da oposição. Se a trégua agora anunciada entre o regime sírio, apoiado pela Rússia, e as forças rebeldes, apoiadas pelos EUA, for efectiva, ao fim de uma semana os governos americano e russo comprometem-se a colaborar no terreno, planeando ataques aéreos conjuntos contra as forças do autoproclamado Estado Islâmico e da frente al-Nusra.
Após os falhanços dos encontros entre Kerry e Lavrov no passado mês de Agosto e de Barack Obama e Vladimir Putin no seu encontro durante a cimeira do G20 na China, parecia existir um clima de desconfiança que, no entanto, acabou por ser ultrapassado em Genebra. Porém, Sergei Lavrov acrescentou que foram assinados cinco documentos, que devem manter-se secretos para não pôr em causa o frágil consenso alcançado entre os dois países, que desde há vários meses tentam chegar a um entendimento e que, inclusive, até anunciaram em Fevereiro um acordo de cessar-fogo que não foi cumprido. Estamos, pois, perante uma boa notícia e há que ter confiança.

A nova relação entre Cuba e a América

Na sequência da aproximação que se vem verificando entre os Estados Unidos e o governo cubano, aconteceu na passada 4ª feira um voo comercial entre Miami e Cienfuegos, que encerrou cerca de 55 anos de isolamento entre os dois países. Tratou-se do voo AA 903 da American Airlines que, utilizando um Airbus 319, saiu do Aeroporto Internacional de Miami para Cienfuegos na costa sul da ilha de Cuba. Pouco depois, um segundo voo descolou do mesmo aeroporto para a cidade cubana de Holguin.
Conforme relatou el Nuevo Herald que se publica em Miami, foi uma festa não só para os passageiros deste primeiro voo inaugural que muito aplaudiram, mas também para as autoridades aeroportuárias cubanas que receberam este primeiro voo regular com grandes manifestações de entusiasmo por entre canhões de água, enquanto os pilotos desfraldavam as bandeiras de Cuba e dos Estados Unidos quando o avião deslizou na pista. E havia razões para tanta festa. Foram 55 anos de isolamento e de teimosia política de ambas as partes, com claros prejuízos económicos e culturais, mas também emocionais, sobretudo para os cubano-americanos residentes nos Estados Unidos e para a generalidade da população cubana.
O desbloqueamento das relações e da tensão entre os Estados Unidos e o regime cubano que estes voos ajudam a concretizar é, para muitos observadores, o resultado da persistência do Papa Francisco, mas também é um sinal do pragmatismo político de Raúl Castro e de Barack Obama. Deverá ser este pragmatismo ou esta real politik que deverão sempre nortear as relações internacionais, na base da cooperação e do respeito mútuo. Só dessa forma se ultrapassam conflitos como este que durou 55 anos.

terça-feira, 6 de setembro de 2016

A guerra da Síria está sem solução à vista

A recente reunião do G20 na cidade chinesa de Hangzhou, proporcionou um encontro entre Barack Obama e Vladimir Putin que durou mais tempo do que o previsto. Entre os assuntos abordados durante mais de uma hora estiveram a situação na Ucrânia e, sobretudo, a guerra na Síria que, desde 2011, provocou mais 290 mil mortes e obrigou milhões de pessoas a fugir do país. Alguns jornais, caso do Financial Times, destacaram este encontro publicando a fotografia dos dois líderes face to face em Hangzhou.
Este tipo de encontros entre políticos que já se conhecem há muito tempo poderia abrir o caminho para bons resultados, mas segundo foi divulgado pelas agências noticiosas, o encontro mostrou que ainda não é possível obter um cessar-fogo, pois o principal ponto de discórdia continua a ser o futuro de Bashar al-Assad, um aliado histórico da Rússia que o vê como parte da solução para o conflito, enquanto os Estados Unidos o consideram uma parte do problema por se tratar de um líder autoritário, na linha do que foram Sadam Hussein e Muammar Kadafi. Porém, esse é apenas o ponto de partida da discórdia, porque há muitos mais. Os Estados Unidos já se meteram demasiado no conflito e a opinião pública americana não está a gostar disso, o que tem levado Donald Trump a acusar Obama e Clinton de serem os pais do Estado Islâmico. Devagar, devagarinho, a Rússia e o seu aliado Irão, estão a marcar pontos nesta disputa, em que os interesses dos aliados e dos adversários regionais de Bashar al-Assad são importantes. A Europa mostra-se incapaz de receber refugiados e parece assustada com a Turquia. A luta comum contra o Estado Islâmico e a Frente Nusra que a todos devia unir, parece ser uma questão secundária. Finalmente, o dramático sofrimento do povo sírio e da nação curda parecem não comover esta gente.
Obama e Putin encalharam. Desapontaram-nos. As negociações são difíceis, mas esperemos que sejam John Kerry e Sergei Lavrov a desencalhar uma solução apesar da enorme complexidade do problema. Repetimos o aqui escrevemos no dia 27 de Agosto: entendam-se!

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

"Lisboa na Rua", para animar a cidade

Este ano e pela oitava vez, a EGEAC que é a empresa municipal que faz a gestão dos equipamentos e promove a animação cultural da cidade de Lisboa, está a promover a realização do Lisboa na Rua.
Trata-se de um festival que até ao dia 1 de Outubro permite assistir de forma livre e gratuita a uma grande diversidade de espectáculos populares e eruditos, muitos dos quais não costumam ser apresentados na rua.
Lisboa está, portanto, em festa. O festival decorre ao longo de cinco fins de semana em dezenas de espaços públicos da cidade e acolhe bandas de jazz de várias proveniências, o fado pelas vozes de Gisela João, Camané e Carlos do Carmo, além de grandes orquestras como a Orquestra Gulbenkian e a Orquestra Metropolitana de Lisboa e outros intervenientes.
O programa do festival Lisboa na Rua contempla iniciativas em zonas periféricas da cidade e não apenas no seu centro histórico, sendo uma oportunidade singular para animar a cidade e torná-la mais atraente para os residentes e para os visitantes. De facto, não é vulgar que numa qualquer cidade se tenha acesso gratuito a concertos de jazz, fado, música clássica e arte sonora, telas de cinema em locais improváveis, teatro, exposições, performances e passeios literários, animando as ruas, as praças e os jardins. O  meu aplauso.

sábado, 3 de setembro de 2016

A Índia celebra Madre Teresa de Calcutá

Amanhã o Vaticano vai canonizar a beata Madre Teresa de Calcutá e a grande Índia, que é um país maioritariamente hindu e onde a religião católica não terá sequer 2% de seguidores na sua população, não só teve sempre uma grande admiração por esta religiosa católica, como se mostra emocionada e orgulhosa com a sua santificação, o que é reflectido por toda a imprensa indiana. A capa da revista Outlook de Nova Delhi é apenas um exemplo da homenagem que a Índia está a prestar a Madre Teresa, que se naturalizou indiana e que a Índia tomou como um dos seus símbolos. O caso justifica a nossa admiração, até porque a Índia tem mostrado alguma intolerância religiosa relativamente a muçulmanos e católicos.
Nascida em 1910 numa família albanesa em Skopje na actual República da Macedónia, a jovem Agnes Gonxha Bojaxhiu entrou aos 18 anos na irlandesa Ordem das Irmãs de Nossa Senhora do Loreto em Dublin, onde tomou o nome de Teresa. Em 1929 foi enviada depois para Calcutá e aí ensinou durante alguns anos numa escola para raparigas de famílias abastadas, antes de se entregar ao serviço dos mais pobres. No início de 1948, instalou-se num bairro de lata de Calcutá com essa determinação de ajuda, mas algumas das suas antigas alunas juntaram-se à sua antiga professora, tornando-se com ela nas primeiras Missionárias da Caridade.
De aspecto muito frágil e envolta num sari branco com três riscas azuis, Madre Teresa tornou-se num símbolo da ajuda aos “mais pobres dos pobres”, aos quais dedicou a vida, o que veio a ser reconhecido em 1979 com a atribuição do prémio Nobel da Paz.
Madre Teresa morreu em 1997 com 87 anos de idade, mas as suas Missionárias da Caridade tornaram-se um símbolo do apoio aos que sofrem com a miséria, a fome e a doença, sobretudo os leprosos e os moribundos. Hoje são cerca de cinco mil a intervir um pouco por todo o mundo. 

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

A apreensão pela mudança no Brasil

A destituição de Dilma Roussef, a presidente eleita do Brasil, que no passado dia 31 de Agosto foi decretada por votação do Senado pode ter aberto uma caixa de pandora de imprevisíveis consequências para o país, até porque ocorre num período de grande recessão económica. O Brasil ficou mais dividido e, mais do que isso, ficou sob ameaça de ingovernabilidade e de confrontações nas ruas. Porque tudo o que se passa no Brasil nos interessa, voltamos ao assunto.
O Brasil é um país muito extenso, muito plural e de uma grande diversidade cultural, mas onde coexistem dois mundos distintos e com enormes diferenças observáveis nos graus de desenvolvimento dos diferentes estados, assim como nos desiguais rendimentos da população e na sua qualidade de vida, o que se torna evidente na brutal diferença entre a vida do “asfalto” das cidades e a pobreza e a violência das favelas.
De um lado têm estado o governo, o PT e Dilma Roussef e, do outro lado, uma parte importante do sistema judicial e a generalidade dos mass media. De um lado estão as classes de rendimentos mais altos das grandes cidades do sudeste e do sul do país e, do outro lado, estão os pobres e os remediados do nordeste e do norte. Esta simplificada apreciação parece poder confirmar-se através da divisão da própria imprensa brasileira que alinhou com as partes em confronto. Enquanto o Diário de S. Paulo destacou em primeira página o título “Viva a Democracia” e em sub-título “Congresso Nacional enterra governo Dilma, PT e Lula”, o jornal Correio do Brasil do Rio de Janeiro escolheu como título “Chega ao fim a democracia brasileira”. Deste lado do atlântico, ficamos sem saber se funcionou a Democracia ou se, pelo contrário, a Democracia foi asfixiada. Sabemos, contudo, que o voto de 61 senadores destituiu uma presidente eleita por mais de 54 milhões de brasileiros e que a esperança de milhões de cidadãos para saírem do seu ciclo de probreza sucumbiu perante esta acção democrática ou golpe parlamentar das oligarquias brasileiras.
O mundo ainda não compreendeu o que se passou em Brasília.

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

A enorme incerteza da política brasileira

Depois de cerca de nove meses durante os quais a presidente brasileira Dilma Roussef teve o seu mandato suspenso, o Senado votou ontem a favor da sua destituição com 61 votos a favor e 20 votos contrários. Dilma Roussef foi condenada e perdeu o seu mandato porque assinou três decretos de créditos suplementares sem autorização do Congresso e utilizou dinheiros da banca pública para financiar programas do governo. Tratou-se de manobras contabilísticas que nas democracias ocidentais ocorrem com frequência e que, embora estejam nas margens da ilegalidade, ninguém considera de índole criminosa.
Seguiu-se uma segunda votação destinada a decidir se Dilma Roussef perderia os seus direitos políticos e ficaria impedida de exercer cargos públicos, mas esta votação foi-lhe favorável. Houve 42 votos favoráveis à cassação desses direitos mas Dilma teve 36 votos a sua favor, tendo havido 3 abstenções.
Poucas horas depois, nos termos constitucionais, foi empossado Michel Temer, antigo vice-presidente de Dilma Roussef, apesar de estar impedido de ser eleito para cargos públicos durante oito anos por ter violado as leis eleitorais brasileiras e ter o seu nome envolvido em graves processos judiciais. Provavelmente, o mundo tremeu de espanto com a destituição da presidente eleita pelo voto popular, até porque entre os senadores que ontem empossaram Michel Temer em Brasília, há uma imensa maioria que enfrenta processos judiciais, sobretudo por corrupção, incluindo o próprio Temer que está envolvido no caso Lava Jato e no escândalo da Petrobras, assim como Eduardo Cunha que era o presidente da Câmara dos Deputados e que é considerado o mentor da destituição ou impeachment de Dilma Roussef que, curiosamente, é uma das poucas figuras políticas eleitas no Brasil sem ligações a qualquer caso de corrupção. Hoje o Correio Braziliense pergunta, acertadamente, o que virá após o impeachment. Depois do enorme sucesso dos Jogos Olímpicos, os senadores brasileiros deram um valente tiro no pé e puseram a incerteza na política brasileira e o nome do país nas páginas humorísticas da imprensa mundial. É pena, é mesmo muito triste ver o Brasil assim.