terça-feira, 18 de outubro de 2016

Mossul: a batalha como nunca aconteceu

No passado domingo o Primeiro-ministro iraquiano Haider al-Abadi anunciou o início de importantes operações militares visando a recaptura da cidade de Mossul, a segunda maior cidade do Iraque, que tinha sido ocupada pelo Daesh no início de 2014. Foi exactamente em Mossul que Abu Bakr al-Baghdadi, o líder do Daesh, declarou em Junho de 2014 o estabelecimento de um califado.
Mossul tem, por isso, um valor simbólico e estratégico para o Daesh, pois transformou a cidade num santuário experimental do seu radicalismo, onde impõe a sua brutalidade e a sua tirania através de inúmeras e bárbaras execuções públicas de elementos da população ou até dos seus combatentes, uns acusados de colaboracionismo com os “infiéis” e outros de falta de combatividade ou de tentativa de deserção. Mossul tornou-se um centro de terror e, por isso, é um desafio para o Iraque e para os seus aliados. Daí esta grande ofensiva que também foi anunciada e é patrocinada por Barack Obama.
Segundo refere a imprensa internacional, designadamente o diário inglês The Independent, as forças iraquianas têm avançado pelo sul com o apoio aéreo americano e de forças especiais americanas, inglesas e francesas, enquanto as forças curdas, conhecidas por peshmerga, avançam por leste em direcção à cidade, que se supõe dispor de cerca de cinco mil combatentes jihadistas. Embora estejam anunciados progressos das forças que convergem para Mossul, teme-se que a cidade esteja minada, que estejam montadas muitas armadilhas e que a população possa ser utilizada como escudo humano, o que irá dificultar e demorar a recaptura da cidade. Por isso, há grandes preocupações humanitárias em relação ao milhão e meio de habitantes da cidade. O que parece não haver dúvidas é que a batalha por Mossul vai ser uma operação ou uma batalha como nunca aconteceu.

A estabilidade democrática açoriana

As eleições para escolher os 57 deputados que vão integrar a Assembleia Regional dos Açores realizaram no domingo e tudo decorreu com total normalidade democrática, embora tivesse havido uma abstenção de quase 60%, isto é, houve 134.971 eleitores inscritos que se abstiveram.
Embora a abstenção açoriana seja habitualmente superior a 50%, nestas eleições subiu consideravelmente. Há muitas explicações para esta abstenção: cadernos eleitorais desactualizados, falta de incentivo depois de quatro vitórias consecutivas do Partido Socialista e da sua boa governação e o elevado número de eleitores inscritos que não são residentes na região e que não se deslocaram dos Estados Unidos, do Canadá ou do Continente para votar. O facto é que numa região de grande estabilidade e maturidade políticas, o nível de participação se situa muito aquém do desejável.
O Partido Socialista renovou a sua maioria absoluta como destacou o Açoriano Oriental, o jornal que se publica em Ponta Delgada e que é mais antigo jornal português, ao conseguiu eleger 30 deputados, enquanto o PSD se ficou pelos 19, seguindo-se o CDS-PP com quatro, o BE com dois, o PCP com um deputado e o PPM também com um deputado. Em relação às anteriores eleições de 2012, o PS e o PSD perderam um deputado cada um, enquanto o CDS-PP e o BE ganharam um deputado cada. O PCP e o PPM mantêm um deputado cada.
Como sempre acontece, nenhum partido se declarou derrotado e cada qual veio afirmar-se mais fortalecido com os resultados alcançados e mais confiante no futuro. Neste tipo de eleições há sempre quem queira extrapolar os resultados para o plano nacional, mas isso não tem qualquer sentido, pois os resultados estão mais associados à notoriedade local dos candidatos do que aos programas partidários. Foi exactamente por isso que na ilha do Corvo, a mais pequena da região, foi reeleito um deputado do “inexistente” PPM com 82 dos 248 votos expressos, isto é, com 32,03% dos votos.

domingo, 16 de outubro de 2016

Cimeira coloca Goa no centro do mundo

O Estado de Goa recebeu este fim de semana a 8ª Cimeira dos BRICS (Brasil, Rússia, India, China e África do Sul), a que se juntaram como convidados os sete países membros do BIMSTEC (Bay of Bengal Initiative for Multi-Sectorial Technical and Economic Cooperation), isto é, Bangladesh, Butão, India, Myanmar, Nepal, Sri Lanka e Tailândia.
Significa que, durante dois dias, Goa recebeu doze Chefes de Estado ou Primeiros-Ministros mundiais e que, portanto, esteve no centro do mundo. O primeiro-Ministro indiano Narendra Modi escolheu Goa para receber Vladimir Putin e Xi Jinping, mas também Michel Temer e Jacob Zuma e, de entre as várias hipóteses  para instalar tão importante reunião internacional, decidiu-se pelo Hotel Taj Exotica, em Benaulim, no sul de Goa, um hotel de cinco estrelas cuja entrada é decorada com azulejos de inspiração portuguesa, produzidos localmente pela firma "Azulejos de Goa".
Numa altura de grande tensão internacional, provavelmente este encontro não tratou apenas de questões de cooperação económica, dos efeitos da globalização ou das alterações climáticas. De resto, os jornais goeses anunciaram que Modi e Putin decidiram lutar juntos contra o terrorismo e que a China e a Índia também trataram do mesmo tema.
O mais antigo jornal de Goa – oHeraldo – dedicou a sua edição de ontem a esta Cimeira que, de facto, colocou o antigo território português de Goa no centro do mundo, com a curiosidade deste encontro se ter realizado na região de Margão que é, provavelmente, a zona de Goa onde a herança cultural portuguesa permanece mais viva. Não deixa de ser curioso, também, que entre tantas regiões da Índia seja escolhido o Estado de Goa para receber esta Cimeira, a mostrar que 451 anos de presença na costa do Concão deixaram uma marca identitária de cosmopolitismo, de progresso e de harmonia social. Viva Goa!

sábado, 15 de outubro de 2016

António Guterres, maior do que Portugal

Na passada quinta-feira assistimos pela televisão, em directo de Nova Iorque, à designação de António Guterres como o novo Secretário-Geral das Nações Unidas, por unanimidade dos seus 193 membros e por aclamação. Para os portugueses foi uma transmissão histórica. É uma distinção rara ou mesmo única para um cidadão português que o próprio fez por merecer, mas que também resultou de um esforço colectivo nacional que envolveu o Presidente da República, o governo e a oposição, a diplomacia e, certamente, muitos outros intervenientes. Não é comum haver tanta unanimidade nacional em torno de uma causa e desde 1999, quando os portugueses aderiram à causa da independência de Timor-Leste (curiosamente quando António Guterres era primeiro-ministro de Portugal), que nada disto acontecia. Isso enche-nos de orgulho e resgata-nos de muitas humilhações que nos têm feito a Comissão Europeia de Barroso e de Juncker, bem como as senhoras Merkel e Lagarde, mais o Dijsselbloem e o Schauble, entre outros.
O processo de selecção foi longo, duro e transparente. António Guterres foi o melhor ao vencer todas as seis votações, revelando uma superior preparação para o cargo e tendo, entre outras credenciais a seu favor, o seu desempenho como alto-comissário das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR). Num período de grande tensão internacional, António Guterres teve o apoio unânime do Conselho de Segurança e conseguiu colocar do mesmo lado os Estados Unidos e a Rússia, mas também a China, o Reino Unido e a França.
O cargo que vai ocupar a partir de Janeiro é mais exigente do que qualquer outro que antes tenha desempenhado, com muitas guerras para resolver e com milhões de refugiados para apoiar, num contexto em que a própria ONU acumulou erros e omissões, mas também muitas críticas. Porém, as suas declarações no sentido da gratidão, da humildade e do sentido da responsabilidade são muito animadoras para o mundo.
A revista do semanário Expresso dedica hoje a sua capa ao novo Secretário-Geral da ONU e escolheu o título “maior do que Portugal”, dizendo que “é muito mais do que o rosto das duas grandes vitórias da diplomacia portuguesa nas últimas décadas”. Sem dúvida que os olhos do mundo estarão focados na acção deste nosso compatriota, a quem desejamos felicidades e bons resultados.

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Bob Dylan e os novos tempos da cultura

A Academia Sueca anunciou ontem a atribuição do Prémio Nobel da Literatura de 2016 e, para surpresa de toda a gente, mesmo para os mais entendidos em questões literárias, decidiu distinguir Bob Dylan, um “não-escritor” que é o ícone da música popular americana, por ter sabido criar “novas formas de expressão poética”. Sou daqueles que, depois de José Saramago (1998) e de Mário Vargas Llosa (2010), nunca ouvira falar nem lera nenhum dos mais recentes escritores distinguidos com o Prémio Nobel da Literatura. Porém, Bob Dylan era meu conhecido há muitos anos.
Bob Dylan tem 75 anos de idade, nasceu no Minnesota e dedicou-se à música desde a adolescência como compositor e cantor, adquirindo notoriedade mundial, sobretudo através da sua militância pela paz, contra o racismo e contra a guerra do Vietname. Depois encontrou outras temas e foi reinventando a sua música, embora sempre dentro daquilo a que se tem chamado a folk music. Uma famosa revista americana elegeu-o como o sétimo maior cantor de todos os tempos e o segundo melhor artista de música de sempre, logo a seguir aos lendários The Beatles, a banda inglesa sua contemporânea que nasceu em Liverpool. Uma das canções de Bob Dylan intitulada Like a Rolling Stone que foi apresentada em 1965, foi mesmo escolhida por aquela revista como uma das melhores de todos os tempos.
Bob Dylan apresentou seis concertos em Portugal: em 1993 no Coliseu do Porto e no Pavilhão de Cascais, em 1999 no Pavilhão Atlântico e de novo no Coliseu do Porto, em 2004 em Vilar de Mouros e em 2008 no festival Nos Alive, em Algés. Há uma quase unanimidade em torno do mérito da obra poética de Bob Dylan e, por isso, a imprensa mundial destacou a atribuição do prémio como um sinal de mudança e de aceitação de novos tempos, inclusive na cultura. O jornal francês Libération foi apenas um dos muitos jornais de todo o mundo que hoje se renderam a Bob Dylan e à decisão da Academia Sueca.

terça-feira, 11 de outubro de 2016

Os novos sinais da diplomacia económica

Desde há muitos anos que assistimos à deslocação de comitivas ministeriais ou presidenciais, por vezes bem numerosas, aos mais diferentes lugares do mundo e com os mais diversos pretextos, embora quase sempre de índole económica, isto é, para atrair investimento ou para promover a exportação dos nossos produtos. Embora se trate de acções fundamentais da chamada diplomacia económica, até porque “quem não aparece esquece”, bem sabemos como a maioria das deslocações dessas comitivas de alto nível, cheias de assessores e jornalistas, são inconsequentes e não trazem qualquer benefício ao país. Muitas vezes, as extensas comitivas até são escandalosas exibições de novo-riquismo e de práticas turísticas. Seria bem interessante estudar os custos e os benefícios de cada uma dessas deslocações e, já agora, detectar quem tirou proveito pessoal delas...
A maior parte das vezes sabemos dessas deslocações apenas porque os jornalistas que nelas tomam parte as noticiam, sempre muito laudatoriamente, até porque nessas viagens é tudo em grande e nada lhes falta.
Uma das formas de perceber o interesse das deslocações dessas comitivas é através da imprensa local. Nunca, ou muito rarissimamente, a imprensa local noticia uma qualquer visita ministerial portuguesa. Fartei-me de pesquisar e pouco ou nada encontrei.
Estes comentários vêm a propósito da deslocação do Primeiro-ministro António Costa  à China, que a imprensa chinesa noticiou com grande destaque em vários jornais de língua chinesa e até inglesa, caso do China Daily. Não é costume. Para além de ilustrar a notícia com uma fotografia, o jornal destaca na sua primeira página uma declaração do Primeiro-ministro Li Keqiang: “Portugal pode ser uma ponte para outras nações”. Outro jornal destaca declarações do Presidente Xi Jimping a encorajar o investimento chinês em Portugal.
São declarações animadoras, mas não sabemos se têm substância. Veremos. Bom seria que aqui pudéssemos registar brevemente quaisquer notícias sobre verdadeiros investimentos chineses em Portugal que gerassem crescimento e emprego, até para ensinar uns tantos figurões que por aí andam e que tanto nos quiseram enganar, quando chamavam "investimento" à simples compra de casas com dinheiros de que não se sabia a origem.

sábado, 8 de outubro de 2016

Brasil: fé, devoção e património cultural

O jornal O Liberal que se publica na cidade brasileira de Belém do Pará, dedica a sua edição deste fim de semana às festividades promovidas em honra de Nossa Senhora da Nazaré, que se celebram naquela cidade desde 1793. Só por isso é um acontecimento histórico e cultural e não apenas religioso.
Aquela festa foi introduzida pelos jesuitas portugueses ainda no século XVII, que transpuseram para o Brasil o culto à Senhora da Nazaré. Porém, em nenhuma localidade brasileira aquela festividade suscitou tanta devoção como em Belém, onde se transformou num dos mais participados acontecimentos religiosos do mundo. Porém, o ponto alto das festividades é o famoso Círio de Nazaré, uma procissão da imagem de Nossa Senhora de Nazaré que percorre a cidade de Belém durante algumas horas e que junta mais de dois milhões de pessoas de todos os credos.
Actualmente, as manifestações de devoção religiosa em Belém estendem-se por duas semanas – a quadra nazarena – e incluem diversas cerimónias que mobilizam toda a população da região, como o translado da imagem da Senhora da Nazaré, as romarias rodoviária e fluvial e, ainda, outras procissões destinadas a jovens ou a crianças. Estão programadas doze procissões ou romarias que percorrerão cerca de 140 quilómetros em cerca de 40 horas, mas o acontecimento culminante da festa nazarena é o Círio de Nazaré que, no ano de 2013, foi inscrito pela UNESCO na sua Lista do Património Cultural Imaterial da Humanidade.
Quando se trata do património cultural brasileiro de origem portuguesa reconhecido pela UNESCO, costumam indicar-se os centros históricos de Ouro Preto e Olinda, Salvador e São Luís de Maranhão, Diamantina e Goiás, com os seus santuários, igrejas, imagens e azulejos. Porém, o património cultural brasileiro inscrito nas listas da UNESCO também inclui património imaterial de origem portuguesa, como acontece com o Círio de Nazaré.

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

O enorme Guterres e o pequenino Barroso

No mesmo dia em que o Conselho de Segurança das Nações Unidas escolheu António Guterres para seu secretário-geral por unanimidade e aclamação, o semanário francês Politis centra a sua edição na “Europe des profiteurs” e destaca na sua primeira página a fotografia de José Manuel Barroso, o ex-presidente da Comissão Europeia.
Fui ao Micro Robert, o meu dicionário de francês, para saber o significado exacto daquela palavra “profiteur” e verifiquei que significa “personne qui tire des profits malhonnêtes ou immoraux de quelque chose”. Fiquei estarrecido! No mesmo dia em que a comunidade internacional elogiava e enaltecia a figura exemplar de António Guterres e que o nosso orgulho passava por um raro momento de entusiasmo colectivo, um semanário francês com uma circulação de algumas dezenas de milhar de exemplares revela alguns detalhes sobre “l’avidité et l’affairisme” dos ex-comissários europeus e destaca a promiscuidade entre os interesses das grandes instituições financeiras e as autoridades comunitárias que, segundo salienta o semanário, já não surpreende ninguém.
A figura central dessas críticas é José Manuel Barroso, o homem que aceitou aliar-se à Goldman Sachs pelo dinheiro que lhe ofereciam. Para ele, não houve princípios nem valores. Apenas a febre do dinheiro. Porém, o semanário vai mais longe e informa que no próximo dia 12 de Outubro, os sindicatos dos antigos funcionários europeus irão remeter aos presidentes das três instituições da União Europeia uma petição, na qual reclamam “medidas fortes e exemplares contra José Manuel Barroso por se ter ligado à Goldman Sachs”, a qual é feita em sete línguas e já recolheu 150 mil assinaturas. Uma vergonha!
O contraste entre estes dois antigos primeiros-ministros de Portugal não podia ser mais evidente: um deles entra nas Nações Unidas por unanimidade e aclamação, enquanto outro entra no Goldman Sachs ganancioso e sem princípios, mas humilhado e ridicularizado pela imprensa e pela opinião públicas mundiais. Um grande e um pequenino. Como é possível haver quem seja capaz de comparar estes dois homens, como têm feito nas últimas horas alguns políticos muito medíocres e analfabetos que por aí andam.

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Os meus parabéns para António Guterres

O Diário de Notícias anunciava na sua edição de hoje que “Guterres vai a votos frente a candidata de última hora”. Depois de ter vencido as cinco primeiras votações para a escolha do novo secretário-geral das Nações Unidas realizadas entre os 15 membros do Conselho de Segurança, o candidato António Guterres cuja candidatura para aquele cargo foi proposta em Fevereiro pelo governo português, foi confrontado com o aparecimento de uma nova candidatura, protagonizada pela búlgara Kristalina Georgieva com o apoio do seu governo, da chanceler Merkel e da Comissão Europeia.
Muita gente que apoiava a candidatura de Guterres, incluindo muitos comentadores, criticaram o aparecimento tardio de Georgieva e começaram a imaginar negociações de bastidores, sobretudo entre os membros permanentes do Conselho de Segurança, de que poderia resultar a eleição de um outro candidato. Nessas circunstâncias, as características pessoais e a experiência política de António Guterres podiam deixar de impressionar o Conselho de Segurança, como acontecera até então.
Hoje a meio da tarde a notícia chegou: António Gueterres venceu a sexta votação dos membros do Conselho de Segurança, sem ter tido nenhum veto dos seus membros permanentes.
Pouco depois, o embaixador russo Vitaly Churkin, rodeado pelos embaixadores dos outros membros do Conselho de Segurança afirmou: "Hoje, depois da nossa sexta votação, temos um favorito claro e o seu nome é António Guterres. Decidimos avançar para um voto formal amanhã de manhã e esperamos fazê-lo por aclamação".
Foi a vitória de António Guterres e do governo português, num processo em que todos se uniram em torno de um homem exemplar (excepto um tal Mário David e mais alguns rapazolas que andam por Bruxelas), mas que também foi a afirmação do prestígio de que Portugal goza no mundo como país culturalmente aberto e amante da paz e do progresso.
Eu sou daqueles que acham que é bom para o nosso país que o secretário-geral da ONU seja um português! Estou orgulhoso. Parabéns e boa sorte!

Aniversário da implantação da República

Celebram-se hoje 106 anos sobre a data em que foi implantada a República Portuguesa, na sequência de uma revolta preparada pelo Partido Republicano Português que foi bem sucedida.
O descontentamento popular era enorme devido à crise económica e social, havendo fortes críticas à subordinação nacional aos interesses britânicos, ao poder da Igreja, aos gastos da Família Real e ao governo da Ditadura. Esse descontentamento vinha-se acumulando desde há muitos anos e os adversários da Monarquia aumentavam. O Regicídeo de 1908 foi um sério aviso. Quando os marinheiros e os soldados se revoltaram em Lisboa estavam politicamente enquadrados pelos partidos republicanos e por outras organizações políticas, tinham o apoio da população e encontraram uma resistência débil. Na Rotunda impôs-se a tenacidade, a coragem e a inteligência do comissário naval Machado dos Santos e na manhã do dia 5 de Outubro de 1910, os dirigentes do Partido Republicano Português dirigiram-se para os Paços do Concelho, de cuja varanda José Relvas proclamou a República em nome do Povo, do Exército e da Armada. Pela mesma hora o rei D. Manuel II e a Rainha D. Amélia suamãe, embarcaram na Ericeira para o exílio.
O dia 5 de Outubro passou a ser um dia de grande unidade nacional. Durante muitos anos foi feriado, teve cerimónia oficial e foi dia de festa. Depois deixou de ser tudo isso. Voltou o feriado e a cerimónia oficial, mas a festa foi esquecida, inclusive pela Imprensa.
Hoje, apenas o Diário de Notícias da Madeira evoca a proclamação da República e fá-lo com grande destaque. São sinais dos tempos e da falta de memória histórica por que passa a nossa Imprensa que, certamente, esteve muito envolvida no cocktail da inauguração do Maat.

Maat: o novo museu que nos enche a vista

Foi inaugurado ontem em Lisboa o novo Museu de Arte, Arquitectura e Tecnologia que resultou de uma iniciativa da Fundação EDP e que a publicidade e a imprensa já consagraram pela sigla maat.
Localizado na margem do rio Tejo na zona de Belém, o maat foi desenhado pela arquitecta britânica Amanda Levete e traz novas formas arquitectónicas à cidade de Lisboa, alinhando-se na mesma zona da cidade com outras expressões da arquitectura contemporânea, como são as instalações da Fundação Champalimaud concebidas pelo arquitecto goês Charles Correa e o Museu Nacional dos Coches desenhado pelo arquitecto brasileiro Paulo Mendes da Rocha. Esta zona histórica da cidade onde se encontram alguns dos mais simbólicos monumentos portugueses que evocam o nosso passado histórico, fica agora enriquecida com mais uma construção moderna, futurista e de grande qualidade arquitectónica, que valoriza a cidade de Lisboa e que tem características para se tornar uma referência no circuito internacional da arte contemporânea, para além de ser um novo e sofisticado miradouro sobre o Tejo.  
A EDP e a sua Fundação estão de parabéns por esta iniciativa cultural e aqui fica registado o meu aplauso, com base naquilo que a televisão nos mostrou e os jornais escreveram, porque só mais tarde visitarei este novo equipamento cultural.
Porém, os jornais dizem que o maat custou 20 milhões de euros. Assim sendo, esta obra custou apenas 2% do lucro anual da EDP que, habitualmente, atinge mais de mil milhões de euros. Nessas circunstâncias, os merecidos louvores à EDP têm que ser controlados, até porque todos esses lucros resultam da prática continuada e abusiva de preços exagerados que a EDP pratica nos seus fornecimentos de energia aos consumidores. Por isso, a EDP não exagerou na sua generosidade cultural, pois limitou-se a devolver à fruição dos cidadãos uma parte daquilo que mensalmente lhes tinha retirado.

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

A Índia e o Paquistão em rota de colisão?

A descolonização e a partilha da Índia Inglesa aconteceu em 1947 e dela resultou a criação da Índia e do Paquistão como Estados independentes, numa separação em que o factor religioso foi dominante. Porém, a partilha dessa região do Império Britânico não ficou bem resolvida e, desde então, os muçulmanos de Islamabad e os hindus de Nova Delhi já se envolveram em quatro guerras em 1947, 1965, 1971 e 1999, embora esses conflitos tenham sido sempre muito localizados.
A rivalidade indo-paquistanesa não é só religiosa mas também é política, pois resulta das suas discordâncias em relação ao território de Jammu e Caxemira, que é considerado o lugar mais perigoso ou a fronteira mais perigosa do mundo, daí resultando a presença da UN Military Observer Group in India and Pakistan (UNMOGIP), que desde 1949 observa o que se passa e procura dissuadir aqueles países de se envolverem em acções militares. Ambos os países reivindicam essa região, a China não se mostra desinteressada e há os movimentos locais independentistas.
Os atritos e as incursões são frequentes e geram tensões que, muitas vezes, tendem para a escalada. Assim tem acontecido nos últimos dias, como tem sido noticiado por alguma imprensa internacional, o que já levou as Nações Unidas a recomendar moderação aos dois países que, como se sabe, dispõem de armamento nuclear.
Embora a imprensa indiana ainda não tenha tratado deste tema porque ainda estará nos limites do tolerável, a última edição em hindi da revista Outlook (आउटलुक), que se publica em Nova Delhi, chama a atenção para a situação que se está a viver e mostra uma fotografia da extravagante cerimónia militar do encerramento da fronteira em Wagah, no Punjab, à qual assistem muitas centenas de pessoas entusiasmadas e delirantes, como se fosse um grande espectáculo musical ou desportivo. A publicação desta fotografia na mais influente revista indiana não pode deixar de ser “um apelo ao nacionalismo indiano face à ameaça de agressão paquistanesa”. Certamente que em Islamabad também haverá revistas com semelhantes "apelos ao nacionalismo paquistanês face à ameaça de agressão indiana". Tem sido sempre assim desde 1947, isto é, desde que o hindu Jawaharlal Nerhu e o islamita Muhammad Ali Jinnah se desentenderam.

O referendo ameaça a paz na Colômbia

As enormes expectativas criadas há uma semana com a assinatura dos acordos de Cartagena e com o fim da guerra civil, tremeram ontem na Colômbia com o anúncio dos resultados do referendo promovido pelo Presidente Juan Manuel Santos: 49,8% dos colombianos disseram sim aos acordos de Cartagena, mas 50,2% recusaram-no. Em termos mais simples, o povo colombiano rejeitou o acordo de paz com as FARC.
Tal como aconteceu recentemente no Reino Unido, os referendos têm por vezes resultados inesperados e que tudo complicam...
A interpretação destes resultados mostra que os colombianos querem a paz, mas estão divididos e não a aceitam a qualquer preço. Assim, uma boa parte da população parece não querer esquecer e perdoar as práticas de terror desenvolvidas pelos guerrilheiros durante tantos anos e não aceita os termos negociados para a sua integração na sociedade colombiana.
Sabia-se das dificuldades que os guerrilheiros teriam na sua transição da selva para a cidade, mas não se imaginava que houvesse um tão forte sentimento de rejeição aos guerrilheiros, o que significa que as feridas da guerra são ainda muito profundas.
Hoje o jornal El Heraldo publica uma declaração de Juan Manuel Santos: “no me rendiré, seguié buscando la paz hasta el último minuto de mi mandato”. De facto, a tarefa que o Presidente da República da Colômbia tem pela frente é complexa e difícil mas, apesar da ameaça que é o resultado do referendo, os colombianos vão certamente ultrapassar esta dificuldade.

domingo, 2 de outubro de 2016

Argentinos festejam no Mundial de futsal

A cidade colombiana de Cali assistiu ontem à final da Copa Mundial de Fútsal de la FIFA – Colômbia 2016, em que a equipa da Argentina derrotou a equipa da Rússia por 5-4, tornando-se campeã mundial pela primeira vez nesta modalidade que, até então, apenas tinha tido o Brasil e a Espanha como campeões. Antes, jogaram as equipas de Portugal e do Irão para discutir o 3º lugar, mas depois de um empate por 2-2 no tempo regulamentar, a sorte dos pontapés de grande penalidade sorriu ao Irão e a equipa portuguesa regressou de Cali com um 4º lugar.
A vitória argentina teve honras de primeira página na maior parte dos jornais argentinos, como sucedeu com o diário Clarín que salientou em título “la alegria más grande en el futsal”, mas os jornais portugueses não deram qualquer destaque à participação portuguesa neste campeonato mundial. Apesar da equipa portuguesa não tenha atingido o resultado de 2000 quando se classificou em 3º lugar no campeonato do mundo disputado na Guatemala, a participação portuguesa em 2016 foi muito positiva, como se pôde observar através das transmissões directas da RTP. Depois de defrontar a Colômbia (1-1), o Panamá (9-0), o Uzbequistão (5-1), a Costa Rica (4-0) e o Azerbaijão (3-2), a equipa defrontou a Argentina nas meias-finais e foi derrotada por 5-2. Com esta derrota no jogo de acesso à final, a selecção portuguesa foi disputar o 3º lugar com o Irão e perdeu esse jogo.
A espetacularidade do futsal é entusiasmante e o 4º lugar obtido em Cali pela selecção portuguesa merece aplauso, tal como o virtuoso Ricardo Braga ou Ricardinho, um filho de Gondomar que além de já ser considerado o melhor jogador do mundo, foi o maior marcador de golos (12) nesta Copa Mundial de Fútsal de la FIFA – Colômbia 2016. Porém, a grande festa foi argentina como se vê na fotografia publicada pelo diário Clarín e na restante imprensa argentina.

Um caso tão triste “born in Boliqueime”

Os livros que tratam da Ciência da Comunicação ensinam que uma notícia é um relato de um acontecimento verdadeiro ou não. Assim, a notícia da primeira página do Público de ontem, segundo a qual “Cavaco pagou durante 15 anos metade do IMI que devia ter pago”, pode referir-se a uma facto verdadeiro ou não verdadeiro, mas é com certeza mais uma achega para confirmar a desastrada apetência de Aníbal Cavaco Silva por dinheiro e a sua ânsia por atingir uma situação material que apague o seu passado rural e altere o seu estatuto identitário de born in Boliqueime. A história é longa, controversa e não cabe toda aqui.
Por escritura realizada em 9 de Julho de 1998, Cavaco trocou a sua vivenda Mariani de Montechoro pela Gaivota Azul no empreendimento da Aldeia da Coelha, sendo atribuido o valor de 135 mil euros a cada uma das casas, embora fossem muito diferentes. Ele fez que não viu. Segundo refere a notícia, o contribuinte Cavaco terá fornecido às Finanças dados errados da sua nova casa, da sua área e das suas características, o que terá feito cair para cerca de metade os impostos que devia pagar. Ele fez que não viu. Entretanto, em 2009 a autoridade tributária considerava que, pelo menos desde 1999, a casa de Cavaco tinha um valor patrimonial de 199.469 euros, mas em 2015 os mesmos serviços reavaliaram a mesma casa e chegaram a um valor muito diferente: 392.220 euros. O jornal não conseguiu apurar se as Finanças lhe exigiram ou não que pagasse o diferencial entre os impostos que pagou desde 2000 e aqueles que realmente devia ter pago.
Porém, a trapalhada contributiva de Cavaco tem outros contornos nada exemplares para quem ocupou os mais altos cargos do Estado. Assim, tendo sido accionista da S.L.N., que era a detentora do BPN, em 2001 adquiriu 105.378 acções dessa sociedade gerida pelos seus amigos Oliveira e Costa e Dias Loureiro. Dois anos depois, essas acções que tinham sido compradas a um euro cada uma foram recompradas pela S.L.N. a 2,4 euros, o que significou um lucro de 147,5 mil euros, enquanto a sua filha lucrou ainda mais ao embolsar um lucro de 209,4 mil euros. Uma mais-valia de cerca de 150% em dois anos! Como é que um economista tão experiente não viu anormalidade neste caso?
Depois Cavaco foi para Belém e, pasme-se, abdicou do seu vencimento como Presidente da República para beneficiar da pensão de reforma que era mais elevada, isto é, Cavaco alheou-se demasiadas vezes dos princípios de cidadania em que devia ter sido exemplar, fazendo negócios cinzentos com acções e não cumprindo obrigações fiscais.
Cavaco continua a ser um caso triste da nossa história recente.