sábado, 31 de dezembro de 2016

Que sufocantes são as praias brasileiras

O diário brasileiro Estado de S. Paulo ilustra a sua última edição de 2016 com uma elucidativa fotografia da praia de Pitangueiras que se situa no centro do Município da Estância Balneária do Guarujá, no Estado de S. Paulo.
É a mais acessível e a mais popular de todas as 27 praias do município e, por isso, atrai multidões, sobretudo nestes dias de festas do fim do ano, quando o calor tropical aumenta e a brisa marítima se torna uma benção que toda a gente procura. Nestes dias, porque o lugar está geograficamente em 23º de latitude Sul e a declinação do Sol também está próxima desse valor, ao meio-dia o Sol está no zénite ou por cima da cabeça das pessoas e “não há sombra”. É mesmo tempo de calor.
A fotografia que o jornal publica mostra o areal da praia de Pitangueiras coberto por muitas centenas de coloridos guarda-sóis, absolutamente ocupado e sem espaço para mais nada. Este sufoco está a banalizar-se em muitas praias, não apenas no Brasil, mas sobretudo nas praias situadas nas proximidades das grandes cidades que se estão a tornar num sítio pouco recomendável para descanso ou para lazer. Todos podemos imaginar o ambiente criado por guarda-sóis encostados uns aos outros e acrescentar que, segundo refere a notícia, “as caixas de som debaixo do guarda-sol viraram moda”.
A fotografia publicada fala por si e vale mais do que mil palavras. É caso para perguntar se alguém quer trocar este frio português pelo calor de uma praia brasileira como esta.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

A reconciliação firmada em Pearl Harbor

Cerca de 75 anos depois da famosa operação aeronaval em que a Marinha Imperial japonesa atacou a base americana de Pearl Harbor nas ilhas Hawai, o Presidente Barack Obama e o primeiro-ministro Shinzō Abe encontraram-se exactamente no local onde no dia 7 de Dezembro de 1941 aconteceu esse ataque que provocou a morte de 2300 militares americanos e empurrou os Estados Unidos para a 2ª Guerra Mundial. Como foi afirmado nos discursos pronunciados no USS Arizona Memorial, nenhum outro local era tão apropriado para assinalar a definitiva reconciliação entre os Estados Unidos e o Japão.
Esta foi a primeira visita oficial de um líder japonês àquela base naval e esse gesto emblemático foi interpretado como o símbolo de uma autêntica reconciliação, a que ainda assistiram alguns sobreviventes dessa trágica manhã, entre os quais o luso-descendente Alfred Rodrigues. 
Porém, esta iniciativa também teve o cunho da reciprocidade. De facto, no passado mês de Maio o Presidente Barack Obama tinha sido o primeiro presidente dos Estados Unidos em exercício a visitar Hiroshima, a primeira cidade japonesa sobre a qual foi lançada uma bomba nuclear no dia 6 de Agosto de 1941, que provocou a morte de 150 mil pessoas.  Nesse local encontra-se hoje o Hiroshima Peace Memorial e foi aí que Barack Obama e Shinzō Abe deram ao mundo uma primeira imagem de reconciliação. 
Estas visitas foram mensagens enviadas para o mundo, mostrando que é sempre possível encontrar a paz, mesmo depois das mais violentas guerras. O jornal Star Advertiser que se publica em Honolulu, fez uma alargada reportagem do acontecimento e, na sua primeira página, destacou exactamente a palavra reconciliação. Curiosamente, nem Barack Obama pediu desculpas ao Japão, nem Shinzō Abe pediu desculpas aos Estados Unidos, isto é, houve um respeito pela História e não houve lugar para esse tipo de hipocrisias.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

“Mare Mortum” em balanço de fim de ano

Nesta época de fim do ano é habitual fazerem-se balanços sobre os acontecimentos mais relevantes que ocorreram no ano que finda. Este ano assim acontece.
No seu balanço do ano de 2016, o diário El Periódico que se publica em Barcelona decidiu evocar a tragédia do Mediterrâneo, onde nos últimos doze meses morreram mais de 5.000 pessoas que procuravam chegar à Europa para fugir da guerra, ou da pobreza ou, simplesmente, procuravam uma vida melhor. O Mare Nostrum dos Romanos que foi um símbolo de progresso civilizacional está transformado num Mare Mortum, como anuncia o título do jornal de Barcelona.
Esta evocação é uma oportuna chamada de atenção para todo o mundo e para muitos dos alucinados dirigentes que o governam e fecham os olhos a este tipo de tragédias humanitárias, mas é sobretudo uma valente bofetada nos dirigentes europeus que têm fortes responsabilidades na criação da dramática situação que tem acontecido no Mediterrâneo e para a qual têm sido incapazes de encontrar soluções. E nem é coisa que não tenha sido prevista por muita gente. Porém, o que tem acontecido é uma crescente subordinação da política aos interesses económicos e financeiros, numa relação em que os dirigentes são meros instrumentos dos interesses dos “mercados”. O respeito pelos direitos humanos e a solidariedade que devia ser praticada tornam-se secundárias. O ser humano é cada vez mais um número. A arrogância europeia é cada vez mais gritante. A sobranceria com que se olham os gregos ou os portugueses, não é muito diferente da indiferença com que olham os líbios, os sírios e outros povos que fogem da guerra.

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

E se mais prémio houvera mais ganhara

O ano de 2016 vai ficar na história recente de Portugal, por muito boas razões.
No campo da nossa política interna tivemos uma eleição presidencial que colocou em Belém um homem que respira alegria e que despachou para o esquecimento de Boliqueime aquele que durante dez anos ensombrou a nossa vida política mas, como se isso fosse pouco, ainda tivemos um governo que acabou com aquela pantomina que era o arco da governação e que, segundo revelam as sondagens, está a merecer cada vez mais o agrado dos portugueses.
No campo da política internacional também assistimos a uma Comissão Europeia que, depois de tanto nos ter humilhado, se desfaz agora em elogios aos resultados da governação portuguesa, enquanto um processo de grande profissionalismo diplomático levou o enorme prestígio de António Guterres ao cargo de Secretário-Geral das Nações Unidas.
No campo desportivo também o sucesso nos bateu à porta com as vitórias europeias no hóquei em patins e, sobretudo no Euro 2016, em que aquele golo do improvável Éder deixou o país cheio de orgulho e de lágrimas de alegria.
Porém, num tempo em que prevalecem as culturas mediáticas e pesem embora todas as coisas boas que aconteceram em Portugal, não será exagero afirmar-se que o ano de 2016 foi o ano de Cristiano Ronaldo, que no espectro mediático dá pelo nome de CR7. O homem fartou-se de ganhar títulos colectivos e prémios individuais. Então não é que agora foi eleito o melhor desportista europeu de 2016, quando havia desportistas alemães e ingleses, mas também franceses, italianos, espanhóis e de muitos outros países, que rematam, nadam, pedalam, velejam ou remam? Aqui nenhum jornal lhe dedicou uma página inteira, como hoje fez o diário espanhol as.
De facto, é caso para dizer que se mais prémio houvera, mais ganhara.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

A volta ao mundo à vela em 47 dias

Alguns jornais franceses, tal como por cá fez o Diário de Notícias, destacam hoje nas suas primeiras páginas o notável feito de Thomas Coville, o navegador francês natural de Rennes de 48 anos de idade que, no comando do catamarã Sodebo Ultim de 31 metros, concluiu ontem a volta ao mundo em solitário no tempo de 49 dias, 3 horas, 7 minutos e 38 segundos. Trata-se de um novo recorde da volta ao mundo em solitário, sem escala e em catamarã, que bate por oito dias e 10 horas a anterior marca estabelecida em 2008 por Francis Joyon.
É um notável feito náutico de Thomas Coville que, no seu historial vélico, conta com sete voltas ao mundo, nove passagens no Cabo Horn e uma vitória na Volvo Ocean Race 2011-2012. Colville partiu de Brest no dia 6 de Novembro e cruzou ontem a linha de chegada virtual instalada em Ouessant, na Bretanha.
Costuma dizer-se que não há nada mais violento nem mais perigoso do que a navegação solitária, em que um pequeno erro de manobra pode significar a morte. Nesta sua aventura, Thomas Coville enfrentou algumas dificuldades, incluindo uma quase colisão com um cetáceo mas, sobretudo, quando já navegava no Atlântico norte e estava a poucos dias da chegada, encontrou fortes temporais com ventos de 45 nós e ondas alterosas.
Os velejadores da Bretanha são realmente fantásticos e, aparentemente, no mundo da vela ninguém os suplanta. Como, de resto, se tem visto na Vendée Globe que está actualmente a decorrer.

A grande festa do Natal

Embora o Natal seja uma festa cristã, por razões de diversa ordem transformou-se numa festa que perdeu muita da sua religiosidade e adquiriu contornos de festa pagã, demasiado virada para o consumo. Muitas das antigas tradições do Natal, incluindo o culto do presépio ou a missa do galo, têm perdido espaço de celebração, enquanto alguns novos símbolos natalícios como o Pai Natal ou a árvore do Natal se têm imposto um pouco por todo o lado. As crianças já não põem o sapatinho na chaminé, nem escrevem cartas ao Pai Natal. Tudo se tem alterado e, nesse quadro, domina a cultura do shopping center e a compra de prendas mais ou menos inúteis, para distribuir por miúdos e graúdos depois da ceia natalícia, que deve ser farta e bem regada.
Nesta crescente transformação do velho Natal religioso no novíssimo Natal consumista, que agora é dominado pelas renas da Lapónia a rebocar trenós, pelas vestes vermelhas do Pai Natal e pelas luzes cintilantes vendidas nas lojas chinesas, apenas se mantém a data de 25 de Dezembro e, ainda, uma fugaz ideia de Família.
Os jornais evocam essa data de forma muito ligeira e já não mostram presépios, mas tão somente e algumas vezes, uma fotografia da árvore de Natal gigante lá da terra que uma qualquer empresa patrocina. Porém, os franceses são uma excepção, porque muitos dos seus jornais publicam a fotografia do seu Père Noël e deixam bem clara a sua mensagem: Joyeux Noel.
Assim fez o jornal Paris-Normandie ao publicar a fotografia de um sorridente Pai Natal.
Hoje, porque ainda estamos em período de festas natalícias, deixo aqui os meus votos de Boas Festas aos leitores desta página.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

O terror ataca uma Europa desnorteada

O terror e a violência chegaram agora a Berlim, a Ankara e a Zurich ou, como diz o diário escocês The Herald, os ataques terroristas atravessam toda a Europa. Antes, o terror passara por Nova Iorque, Moscovo, Madrid, Londres, Bruxelas, Paris e Nice. A ameaça terrorista parece que se está a tornar numa maldição que ataca e quer destruir a paz social e a harmonia a que aspiram cada homem e cada comunidade.
Antigamente o terrorismo tinha contornos políticos bem definidos e traduzia-se por uma luta contra os poderes ilegítimos ou ditatoriais, através de acções violentas como assassinatos, sequestros, raptos, assaltos ou explosões de bombas, mas nos tempos modernos a feição do terrorismo alterou-se. Embora utilize o mesmo tipo de violência contra alvos selectivos por forma a provocar vítimas ou a destruição de instalações, o seu objectivo principal é de natureza psicológica e destina-se a gerar o medo e o pânico nas populações, a perturbar a actividade económica e a fragilizar a vida social das comunidades.
O terrorismo que está a atravessar a Europa tem raizes e motivações que não têm sido compreendidas pelas autoridades europeias e, sobretudo, pelos governantes dos seus principais países, que têm alinhado com a desastrada política americana, primeiro de George W. Bush e depois de Barack Obama. Certamente que David Cameron, Nicolas Sarkozy e François Hollande, com a sua imprudente atitude de querer agradar aos americanos e vender armas aos países ricos do Golfo Pérsico, têm grandes responsabilidades na tragédia que está acontecer na Síria, mas também no Iraque, na Líbia e no Iémen. Os países países ricos do Golfo – Arábia Saudita, Catar, Bahrein, Emirados Árabes Unidos, Omã e Kuwait – não aceitam os seus irmãos sírios ou iraquianos como refugiados, mas em contrapartida compram enormes arsenais de armamento com que alimentam os grupos que se guerreiam na Síria e no Iraque. O ocidente vive nesta hipocrisia que esconde com uma propaganda mentirosa, apenas porque quer vender armamento a quem tem dinheiro para o pagar, obrigando-se em troca a aceitar os refugiados sírios e o seu desespero.
A desnorteada Europa semeou ventos, agora está a colher tempestades.

domingo, 18 de dezembro de 2016

O Brasil enguiçou, mas o Brasil vencerá!

O Brasil está a passar por um período difícil, não apenas por razões políticas e sociais, mas também por razões económicas, mas essa dificuldade não é apenas brasileira. Hoje é difícil encontrar um canto do mundo onde a harmonização entre a democracia, o crescimento económico e o emprego tenha inequívoco sucesso ou, dito de outra maneira, onde se caminhe firmemente para o progresso e o bem estar social das populações.
A globalização não está a ser uma luz que ilumina o mundo, a instabilidade é grande e vive-se num quadro de incerteza e de menor confiança no futuro. O nosso tempo, que se pensava poder ser de prosperidade devido aos progressos da ciência e da tecnologia, está a gerar muita conflitualidade, a paz global está ameaçada e surgem desafios a que se estava menos atento, como o combate à pobreza e à desigualdade, à poluição e à degradação do ambiente.
Tal como tem acontecido na generalidade das regiões do nosso planeta, também o Brasil atravessa um período de recessão económica e de instabilidade política, do qual precisa de sair  depressa para criar empregos, gerar rendimentos, reduzir a pobreza e assegurar os serviços fundamentais à população, como a educação, a saúde, a justiça e a segurança. Para conseguir tudo isso, o Brasil precisa de crescimento económico ou precisa de quebrar o enguiço.
A revista brasileira Época que se publica no Rio de Janeiro abordou esse problema na sua última edição - com uma capa cheia de criatividade - e trata do assunto numa perspectiva económica, recorrendo a uma máquina que harmoniza duas grandes engrenagens, isto é, a força de trabalho (capital humano) e os meios de produção (capital físico). Está certo e é isso que se aprende nas escolas de economia. Porém, esse crescimento económico não resulta apenas dessas duas engrenagens pois depende de uma complexa equação a muitas incógnitas e há três delas que são essenciais: a estabilidade política, o regular funcionamento das instituições e a confiança. As elites brasileiras deslumbraram-se com um ciclo económico favorável e abriram caminhos que agora não controlam. A máquina do crescimento quebrou. É preciso mais investimento. Mais produtividade. Menos burocracia. Mais inovação. Mais estabilidade política. Mais confiança. Mas o Brasil vencerá!

sábado, 17 de dezembro de 2016

A sorte de Sérgio Conceição anima Nantes

As coisas não corriam bem ao Football Club de Nantes na Liga Francesa de Futebol, pois não vencia um jogo desde o dia 15 de Outubro de 2016 e encontrava-se em 19º lugar da classificação. Segundo os relatos da imprensa, a cidade vivia triste com as derrotas do seu clube e sem as alegrias que tivera noutros tempos, quando averbara 8 Campeonatos e 3 Taças de França ao seu historial. Como costuma acontecer nestas situações, o clube decidiu-se por uma “chicotada psicológica” ao despedir o seu treinador e, no dia 8 de Dezembro, contratou o antigo internacional português Sérgio Conceição como seu novo treinador por duas temporadas. Conceição nunca jogou em França, não conhecerá bem o futebol francês e não tem grandes credenciais como treinador, pois apenas treinou o Olhanense, a Académica, o Sporting de Braga e o Vitória de Guimarães. Porém, o FC Nantes apostou nele.
Foi tudo muito rápido. No dia 11 de Dezembro Conceição foi apresentado aos jogadores do FC Nantes e no dia 13 venceu o Montpellier por 3-1, em jogo da Taça da Liga, ficando apurado para os quartos de final da competição. Ontem, dia 16 de Dezembro, o FC Nantes foi jogar a Angers para defrontar o clube local para a Liga francesa e ganhou por 2-0. A euforia tomou conta dos adeptos do clube de Nantes que é a 6ª cidade francesa e a capital da região do Loire. Em menos de uma semana foram dois jogos e duas vitórias. O jornal Presse Ocean destaca o nome do treinador português a cinco colunas na sua edição de hoje e diz que, em poucos dias, mudou o FC Nantes. Provavelmente, nem como jogador que até vestiu 56 vezes a camisola da selecção portuguesa, Sérgio Conceição foi tão elogiado como está a ser agora em Nantes. Que tenha sorte, porque no futebol a sorte pesa muito.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

A tragédia de Alepo parece não ter fim

Perante a dramática situação que se vive em Alepo, na passada terça-feira dia 13, ao fim da tarde, a Rússia que é o principal aliado de Bashar al-Assad, e a Turquia que é o principal suporte da oposição síria, chegaram a um acordo: os rebeldes sitiados em Alepo aceitavam retirar da cidade e ficava estabelecido um corredor humanitário para a sua evacuação. A partir das cinco horas da manhã de quarta-feira dia 14, haveria autocarros governamentais para transportar os feridos, os civis e, depois, os combatentes rebeldes, com destino à província de Idlib, a oeste da cidade, que é controlada pela oposição ao regime sírio.
Nessa noite, os jornais de todo o mundo começaram a anunciar o cessar-fogo, o fim da batalha de Alepo e a vitória de Putin e Bashar al-Assad. Porém, às primeiras horas do dia, os bombardeamentos e os confrontos recomeçaram e os autocarros não saíram dos seus locais de espera. A evacuação foi cancelada e o desespero tomou conta da população, que apela ao mundo para que não esqueça a tragédia que se abateu sobre a cidade. Cada um dos vários grupos armados acusa o outro de ter rompido o acordo e de ter iniciado o bombardeamento. De um lado e do outro há vários grupos e várias alianças, provavelmente sem um comando único, tendo cada um deles interpretado à sua maneira o acordo entre Putin e Erdogan. Segundo as notícias, os mais resistentes ao acordo terão sido o influente grupo rebelde Noureddine AL-Zinki e as milícias iranianas aliadas do regime sírio.
A propaganda domina, até nas fotografias publicadas pela imprensa, umas com os tanques vitoriosos do regime sírio e outras mostrando o drama das populações. Os destaques noticiosos tanto vão para a “descoberta pelo exército sírio de câmaras de tortura rebeldes”, como para “as mulheres que se suicidam para fugir às violações do exército sírio”. Como sempre acontece nestas situações, não há bons nem maus. São todos maus. No entanto, é importante que não se esqueça, como faz hoje o Libération, porque é que tudo isto está a acontecer e quem são os principais responsáveis pela tragédia que se abateu sobre Alepo, mas também sobre a Síria, o Iraque, a Líbia, o Iémen e outros países da região. Como foi possível terem deixado as coisas chegar a este ponto?

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

A auto-estima portuguesa em alta – II

Ainda a emoção estava presente por vermos e ouvirmos António Guterres nas Nações Unidas quando, sem surpresa, foi anunciado que Cristiano Ronaldo tinha sido galardoado com a Bola de Ouro 2016, isto é, que tinha sido eleito como o melhor futebolista do mundo em 2016, segundo os critérios da revista francesa France football.
Depois das Bolas de Ouro conquistadas em 2008, 2013 e 2014, o jogador Cristiano Ronaldo apresentou-se à votação dos jornalistas de todo o mundo com credenciais de peso, isto é, com uma vitória na Liga dos Campeões pelo Real Madrid, com o título de Campeão da Europa que conquistou com a selecção portuguesa e, ainda, com 51 golos em 55 jogos disputados. A votação que obteve foi esmagadora e os votos dos jornalistas mundiais traduziram-se em 745 pontos que superaram largamente os 316 e os 198 pontos conquistados pelos seus concorrentes directos, respectivamente o argentino Leonel Messi (Barcelona) e o francês Antoine Griezmann (Atlético de Madrid). A revista francesa que patrocina o troféu, até escolheu na sua última edição uma foto e um título sugestivos: "Sacré Cristiano Ronaldo".
Em termos futebolísticos é curioso anotar que outros dois jogadores portugueses se destacaram este ano na lista dos melhores do mundo do France football, com Pepe (Real Madrid) a ter 8 pontos e a classificar-se no 9º lugar e Rui Patrício (Sporting) a obter 6 pontos e a posicionar-se no 12º lugar. O mundo do futebol português, que continua a beneficiar de um tratamento televisivo desproporcionado e cansativo, deve estar eufórico. A auto-estima lusitana está em alta.  
Porém, não é só em Portugal que o futebol domina e perturba as mentes, pois enquanto Cristiano Ronaldo foi notícia em quase todo o mundo, António Guterres foi ignorado em quase toda a parte. É este o mundo de valores em que vivemos...

A auto-estima portuguesa em alta - I

António Guterres, cidadão português nascido em Lisboa em 1967 e antigo Primeiro-Ministro de Portugal, fez ontem em Nova Iorque o juramento sobre a Carta das Nações Unidas e perante a respectiva Assembleia Geral, tornando-se, oficialmente, o 9º secretário-geral das Nações Unidas, que vai iniciar o seu mandato de cinco anos no dia 1 de Janeiro de 2017.
Com a solenidade própria do momento, disse:
“Eu, António Guterres, declaro solenemente e prometo exercer em total lealdade, discrição e consciência as funções que me são confiadas enquanto servidor público das Nações Unidas, exercer estas funções e pautar a minha conduta apenas tendo em mente os interesses das Nações Unidas, e não procurar ou aceitar, no que respeita às minhas responsabilidades, instruções de qualquer Governo ou outra organização”.
Depois, António Guterres falou e o seu primeiro discurso foi notável, ao defender como uma das prioridades do seu mandato a necessidade de mudar e reformar internamente a organização que vai dirigir. “É chegada a altura de as Nações Unidas reconhecerem as suas insuficiências e alterar o que precisa de ser alterado. Chegou a hora da ONU mudar”. Alertou também para a necessidade de se desanuviar o ambiente internacional e disse que “é altura de trabalhar com os líderes e é tempo de reconstruir a relação entre os cidadãos e os líderes mundiais”.
Contrariamente ao que seria de esperar, poucos jornais destacaram o juramento de António Guterres, a mostrar o descrédito por que passa a ONU e a irrelevância de dez anos de gestão de Ban Ki-moon. O Diário de Notícias foi uma das raras excepções a homenagear o homem de quem o seu amigo Vitor Melícias disse ser "uma espécie de papa Francisco civil". O mundo espera que se cumpram as palavras e se concretizem as intenções com que Guterres concluiu o seu discurso:
"Farei o meu melhor para servir a nossa humanidade". Que a sorte o acompanhe.

sábado, 10 de dezembro de 2016

Os subsaharianos ao "assalto" de Ceuta

Mais de oito centenas de imigrantes subsaharianos assaltaram ontem a vala fronteiriça que separa a cidade autónoma espanhola de Ceuta do território de Marrocos, tendo 438 deles logrado o seu objectivo de entrar em território espanhol. Esta avalancha humana foi a maior que se registou nas últimas décadas e ocorreu às primeiras horas do dia em vários pontos do perímetro fronteiriço. As autoridades foram apanhadas de surpresa e foram incapazes de impedir a acção dos subsaharianos que usaram tesouras corta-fios para cortar as redes de segurança, mas também paus e pedras para atacar os guardas fronteiriços. Como resultado desta acção, o Hospital Universitário atendeu cerca de cinco dezenas de feridos subsaharianos em resultado de cortes e de quedas, mas também alguns polícias feridos por pedras.
Desde Março de 2014, quando cerca de cinco centenas de subsaharianos entraram em Melilla, que a situação nas fronteiras espanholas parecia controlada pelas autoridades espanholas. Porém, no passado dia 31 de Outubro entraram em Ceuta cerca de 250 indivíduos e agora mais 438, tendo em ambas as situações utilizado um novo “modus operandi” para atravessar a rede fronteiriça, isto é, já não procuram saltar a rede fronteiriça porque é arriscado e inseguro, mas antes procuram atravessá-la depois de nela serem feitas aberturas com tesouras corta-fios.
A edição de hoje do jornal El Faro de Ceuta relata o acontecimento e dá notícia da grande preocupação das autoridades espanholas por reaparição deste fenómeno.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

A agonia de Alepo é a derrota americana

Há um imenso drama que está a ser vivido na cidade síria de Alepo, a que o diário ABC dedica hoje a sua primeira página. A cidade agoniza e as forças rebeldes que a dominaram durante quatro anos, estão agora cercadas pelas forças governamentais, depois de algumas semanas de duros combates. Alguns jornais internacionais dizem mesmo que “a batalha por Alepo parece estar a aproximar-se do fim” e que na próxima semana “as forças do regime de Bashar Al-Assad poderão declarar vitória”. Porém, é preciso muito cuidado na apreciação das notícias que nos chegam da Síria, pois elas parece estarem ao serviço das várias propagandas ao tratarem uns beligerantes como bons e outros como maus, quando na realidade todos eles são maus. A guerra é a guerra. Sempre foi assim.
Se acontecer a queda de Alepo, será a pior derrota das forças rebeldes que ficarão reduzidas a alguns redutos disseminados pelo território sírio e, portanto, demasiado vulneráveis e mais à mercê do regime sírio, até porque Bashar al-Assad já declarou que a tomada de Alepo não significará o fim da guerra. Contudo, será uma humilhação e uma grande derrota para a estratégia americana e dos seus aliados franceses e ingleses que, na sua obstinação pelo derrube de Bashar al-Assad, financiaram, armaram e conduziram a oposição síria para a derrota que se aproxima. Quem poderá afirmar que o envolvimento desta "coligação de interesses" não resultou da pressão das respectivas indústrias de armamento?
Entretanto, haverá cerca de 150 mil civis encurralados com as forças rebeldes que precisam de ajuda humanitária com urgência. Essa situação é um bom pretexto para que cessem os combates. Depois de tanto terem conversado nos últimos anos, John Kerry, o secretário de Estado americano, e Sergei Lavrov, o chefe da diplomacia russa, estarão agora em contacto permanente para encontrar uma solução para os problemas da ajuda humanitária, da evacuação de doentes e, de uma forma mais geral, para acabar com a guerra. Porém, agora Kerry é um homem derrotado, enquanto Lavrov se pode sentar à mesa como um vencedor. Os erros pagam-se.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

A última viagem de um navio simbólico

O diário inglês The Times publica hoje na sua primeira página uma fotografia do porta-aviões HMS Illustrious que, depois de 32 anos de serviço, largou de Portsmouth com rumo à Turquia para ser desmantelado e acabar na sucata. O navio de 22.000 toneladas pertenceu à classe Invincible, serviu na guerra das Falklands e na guerra do Golfo, tendo sido abatido ao efectivo em 2014. A partir de então a Royal Navy deixou de ter qualquer porta-aviões, embora esteja prevista para 2020 a recepção de duas unidades da nova classe Queen Elizabeth – o HMS Queen Elizabeth e o HMS Prince of Wales.
O desmantelamento do “Lusty”, nome por que era conhecido pelos seus tripulantes, causou grande mágoa nos milhares de membros da Royal Navy que nele serviram e não queriam vê-lo transformado em lâminas de barbear, panelas ou latas de cerveja. A Primeira-Ministra Theresa May foi sensível aos apelos dos “velhos marinheiros”, suspendeu a operação e esperou pelo resultado de uma campanha pública destinada a salvar o HMS Illustrious. Surgiram três propostas, destacando-se a de um consórcio que oferecia 3 milhões de libras para transformar o navio numa unidade hoteleira e museológica, para além daquela que pretendia  transformar o navio num memorial da Royal Navy, um pouco à semelhança do que acontece com cinco velhos porta-aviões americanos.
Todas as negociações falharam e o HMS Illustrious acabou por ser vendido para a sucata por 2,1 milhões de libras, tendo já iniciado a sua viagem para a Turquia. Parece que o Tesouro inglês precisava de dinheiro.