domingo, 11 de fevereiro de 2018

O diálogo pode acontecer nas Coreias

A abertura dos Jogos Olímpicos de Inverno em PyeongChang permitiu que as delegações das duas Coreias desfilassem juntas e sob a mesma bandeira, mas também proporcionou o encontro entre Moon Jae-in, o Presidente da Coreia do Sul, e Kim Yo-jong, a irmã de Kim Jong-un, o líder da Coreia do Norte. Na sua edição de hoje o jornal londrino The Independent destaca esse encontro e pergunta em título de primeira página se os sorrisos podem aliviar as tensões entre as duas Coreias.
Durante esse encontro, a senhora Kim Yo-jong convidou formalmente o presidente Moon Jae-in a visitar a Coreia do Norte e terá dito que deseja vê-lo em Pyongyang num futuro próximo, acrescentando que a troca de pontos de vista entre os dois presidentes pode melhorar as difíceis relações do passado. Trata-se, sem dúvida, de uma iniciativa positiva no sentido do desanuviamento da tensão na península coreana.
Acontece que, nesta altura, o vice-presidente americano Mike Pence está em PyeongChang e que até esteve a poucos metros da senhora Kim Yo-jong, sem se terem cumprimentado. Não sei se queriam ou se podiam cumprimentar-se, mas teria sido útil que o fizessem. Em vez disso, Mike Pence, preferiu alimentar a tensão e fazer uma declaração em que reafirmou que a Coreia do Sul e os Estados Unidos estão unidos perante a ameaça de Kim Jong-un.
Se Pence soubesse como aconteceu a aproximação de Richard Nixon à China depois de 25 anos sem qualquer contacto comercial ou relação diplomática, teria actuado de outra maneira. Nixon visitou a China em 1972 e classificou essa visita como "a semana que mudou o mundo", mas a parceria Trump-Pence parece que quer manter alta a tensão no mundo e preferir que as Coreias não se entendam.

Uma notável entrevista de António Costa

Não é habitual que um político português seja entrevistado por um grande jornal internacional e seja dado um tão grande destaque a essa entrevista, mas é o que acontece hoje com a edição do jornal conservador espanhol ABC e com a entrevista ao Primeiro-Ministro de Portugal, cuja fotografia ocupa toda a primeira página. O lead da entrevista é, por si só, um elogio ao governo português e nem precisa de tradução:
En apenas unos años Portugal ha pasado de ser um país rescatado a convertirse en modelo a seguir logrando una envidiable recuperación económica. Ha reducido el déficit, la deuda y el paro; se ha convertido en un foco de atracción de capitales, y la economía crece al mismo fuerte ritmo com que lo hacen el turismo y las exportaciones. Los portugueses han dicho adiós a la austeridad. Pero no ha sido un milagro. Detrás hay planificación política, y la respuesta activa del tejido empresarial que ha sabido encontrar una oportunidad para expandir su negocio fuera de las fronteras. Este «milagro» luso se ha producido en un novedoso contexto político. El socialista António Costa se convirtió a finales de 2015 en primer ministro a pesar de no ganar las elecciones. Lo consiguió dejando a un lado las diferencias con dos de sus rivales políticos, los comunistas y el Bloco Esquerda (BE), y consiguiendo que lo apoyaran pero sin hipotecarse a sus postulados más radicales. Costa ha demostrado estar dotado para el diálogo y el consenso”.
A entrevista é notável e é mais um contributo para o prestígio ascendente de Portugal além-fronteiras, com Costa a juntar-se a Guterres, a Centeno, a Cristiano Ronaldo e mais alguns portugueses de talento. Em determinada altura, um dos três entrevistadores refere que Portugal “ha protagonizado una recuperación económica espectacular” e até pergunta a António Costa se “no querría hacer política en España?”
Perante isto, nem sabemos o que dizer da gritaria que ouvimos na Assembleia da República e dos sistemáticos insultos que Assunção Cristas e Hugo Soares fazem a António Costa.

Até no futsal somos campeões da Europa

Antigamente chamava-se futebol de salão ou futebol de cinco e era a paixão dos jovens. Eu próprio gastei muitas horas da minha juventude a jogar futebol de salão, mas os tempos mudaram e aquele futebol profissionalizou-se e até adoptou o estrangeirado nome de futsal. A UEFA, que durante muito tempo ignorou esta modalidade menor, abriu-lhe as portas em 2002 quando aceitou a realização anual da UEFA Futsal Cup ou Taça dos Clubes Campeões Europeus de Futsal e, em 2010, quando promoveu a realização do primeiro UEFA Futsal Euro ou Campeonato Europeu de Futsal. Ontem realizou-se a final do UEFA Futsal Euro 2018 no Arena Stožice, em Ljubljana, na Eslovénia.
A equipa portuguesa, depois de ter derrotado a Roménia (4-1),a Ucrânia (5-3), o Azerbeijão (8-1) e a Rússia (3-2), chegou à final para defrontar a Espanha. Era um desafio temível, até porque nas dez edições anteriores da prova a Espanha obtivera sete triunfos, enquanto Portugal apenas conseguira um segundo lugar e dois quartos lugares. O trunfo português parecia ser apenas o jogador Ricardinho, que é um artista e ostenta o título de melhor jogador de futsal do mundo.
A equipa portuguesa venceu por 3-2 após prolongamento, sob o aplauso entusiástico de um numeroso grupo de jovens portugueses que estudam na Eslovénia. Portugal foi, pela primeira vez, campeão da Europa de futsal. A televisão tinha transmitido todos os jogos da equipa portuguesa e, por isso, em Portugal o assunto não passou ao lado do interesse do público. E foi realmente mais um caso para fazer subir a auto-estima dos portugueses que, de facto, têm conseguido grandes vitórias internacionais nos últimos tempos e transformado a imagem do nosso país na comunidade internacional. Hoje, todos os jornais generalistas portugueses, para além dos jornais desportivos, destacaram este acontecimento.

sábado, 10 de fevereiro de 2018

O carnaval é um tempo de festa e de folia

O carnaval chegou. É um tempo de festa e de folia para quem gosta, sobretudo as crianças que ontem em Lisboa se viam em enormes filas enquadradas pelos seus professores e com as mais coloridas indumentárias a festejar com alegria o carnaval. Ao mesmo tempo, chegam-nos os anúncios dos festejos carnavalescos em Loures e Torres Vedras, em Ovar, Loulé e em muitas mais localidades, mas também a informação de que os hotéis nessas cidades estão cheios por causa do dito carnaval, a demonstrar que há muita gente que gosta do carnaval ou que somos um país de foliões e não uma terra de tristes macambúzios.
Porém, estes carnavais lusitanos não têm a expressão artística nem o envolvimento popular do carnaval brasileiro e, em especial, do carnaval do Rio de Janeiro que é o mais famoso do mundo, atraindo muitos milhares de turistas e deixando os brasileiros extasiados ou quase enlouquecidos, para tudo se acabar na quarta-feira....
Acontece que o carnaval também é festejado em muitas regiões espanholas, com destaque para as ilhas Canárias, onde as cidades de Las Palmas e de Santa Cruz de Tenerife rivalizam na apresentação do melhor carnaval e na escolha das suas rainhas, que depois são promovidas pela imprensa. Parece que nesta competição canária o Carnaval de Santa Cruz de Tenerife tem vantagem, porque é considerado o segundo carnaval mais popular e mais conhecido internacionalmente, depois do carnaval do Rio de Janeiro. Este ano a rainha é Carmen Laura Lourido Pérez de 33 anos de idade que foi escolhida entre 13 candidatas e que nos próximos dias será sujeita a um enorme esforço físico, pois terá que arrastar a sua complexa vestimenta que pesa muitas, mas muitas, dezenas de quilogramas e participar em demorados desfiles. No entanto, quem corre por gosto não cansa... além de que o reinado e as respectivas mordomias e benesses duram um ano. 

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

PyeongChang pode aproximar as Coreias?

Os XXIII Jogos Olímpicos de Inverno foram hoje oficialmente abertos em PyeongChang, na Coreia do Sul, com uma espectacular cerimónia de abertura que também ficou marcada pelo cumprimento do Presidente da Coreia do Sul à irmã mais nova do líder da Coreia do Norte. Este aperto de mão e o facto dos atletas das duas Coreias terem marchado sob uma bandeira da Coreia unificada no desfile de abertura, são sinais bem encorajadores de uma aproximação histórica entre as duas Coreias. Foi realmente um passo importante porque, em termos técnicos, os dois países continuam em guerra, já que em 1953 apenas foi assinado um armistício. É, portanto, um raro momento de aproximação que acontece numa época de grande tensão, embora aparentemente aconteça sem o apoio dos Estados Unidos. Porém, o grande desafio acontecerá quando terminarem os Jogos Olímpicos e expirar a “trégua olímpica”, pois só então se poderá ver se esta aproximação tem pernas para andar.
No que respeita aos aspectos desportivos dos Jogos Olímpicos, os principais aspectos a salientar são a participação de atletas de 92 países, que competirão em 15 disciplinas de inverno e poderão ter acesso a 102 finais.
As maiores delegações presentes em PyeongChang vieram dos Estados Unidos e do Canadá. A participação portuguesa é meramente simbólica e será assegurada por dois atletas: Arthur Hanse e Kequyen Lam.
Arthur Hanse é descendente de emigrantes portugueses, vive em Lyon e vai competir em slalom gigante e slalom; Kequyen Lam é filho de pais chineses que fugiram do Vietnam para Macau por causa da guerra sino-vietnamita e que, mais tarde, emigrou para o Canadá onde vive e vai competir em esqui de fundo.
Muitos jornais internacionais como o US Today dedicaram as suas edições de hoje aos Jogos Olímpicos, mas a imprensa portuguesa ignorou o assunto. É compreensível.

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

A estratégia nuclear de Donald Trump

No passado dia 30 de Janeiro, durante o seu Discurso sobre o Estado da União, Donald Trump anunciou uma nova estratégia relativamente às armas nucleares e disse que “devemos modernizar e reconstruir o nosso arsenal nuclear com a  esperança de nunca termos de o usar, mas fazendo-o tão forte e poderoso que impeça quaisquer actos de agressão. Talvez um dia, no futuro, haja um momento mágico em que os países se juntem para eliminar as suas armas nucleares mas, infelizmente, ainda não chegamos lá”.
A revista Time escolheu essa questão como o tema central da sua última edição e ilustrou a sua capa com uma fotografia de uma explosão nuclear durante um teste realizado em 1952 no Nevada Proving Grounds, que está encerrado há muitos anos e que Donald Trump mandou agora preparar para novos testes. O título escolhido pela revista foi “making America nuclear again”, mas o principal artigo intitula-se “Donald Trump Is Playing a Dangerous Game of Nuclear Poker”.
O discurso de Trump de 30 de Janeiro não surpreendeu. Antes, o Donald  já ameaçara a Coreia do Norte com um ataque de “fogo e fúria como o mundo nunca viu” e, nos primeiros dias de Janeiro, depois de Kim Jong-un ter dito que tinha um botão nuclear sempre na secretária, respondeu-lhe que também tinha um botão nuclear muito maior e mais poderoso do que o dele e que funcionava. De resto, a Administração de Trump já decidira o desenvolvimento de uma nova ogiva nuclear táctica, tendo disponibilizado muitos milhões de dólares para o efeito, com o argumento de que o arsenal nuclear americano já tem 34 anos de idade e precisava de ser renovado.
Há actualmente nove países que têm capacidade nuclear (Estados Unidos, Rússia, França, China, Reino Unido, Paquistão, Índia, Israel e Coreia do Norte), mas a nova doutrina Trump entende que só pode ser limitado o perigo nuclear mundial se a América tiver “capacidade para aniquilar os seus inimigos”. Porém, hoje o perigo nuclear é muito maior do que no tempo da Guerra Fria. A Rússia e a China modernizaram o seu armamento nuclear e a Coreia do Norte, o Paquistão, a Índia e Israel continuam a construir novos sistemas de armas nucleares. Já não são apenas duas potências em competição. Ao contrário das armas nucleares estratégicas que podem destruir cidades, as novas armas nucleares tácticas poderão ser aplicadas cirurgicamente e com objectivos mais limitados. Com a sua política, Trump está a gerar uma nova corrida às armas nucleares e o mundo está muito mais perigoso.

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Eanes um Presidente para a História

A revista do Expresso publicou na sua última edição uma longa e muito interessante entrevista com António Ramalho Eanes, o primeiro Presidente da República eleito pelo regime democrático quando tinha apenas 41 anos de idade.
É uma entrevista notável do homem que ocupou o Palácio de Belém entre 1976 e 1986 num tempo de grandes dificuldades políticas, económicas e sociais, na qual revela a sua inteligência, a sua sabedoria e a sua grande estatura intelectual na abordagem dos mais diversos temas nacionais e internacionais.
O conteúdo da entrevista só me merece uma palavra: imperdível.
Apesar de Mário Soares (1986-1996) e Jorge Sampaio (1996-2006) terem cumprido mandatos presidenciais merecedores de grande apreço por parte dos portugueses, o facto é que a figura e o desempenho presidencial de Ramalho Eanes permanecem vivos na memória dos portugueses e a leitura desta sua entrevista mostra porquê. “Estou em paz comigo mesmo. Posso ter cometido erros mas entendo que os cometi quase sempre com bom propósito, boa intenção, com uma correcção ética preocupada”.
Ao longo da entrevista o general Ramalho Eanes responde com segurança e pertinência às questões que lhe são colocadas no domínio da vida política nacional, dos partidos, dos sindicatos, das Forças Armadas, da reforma educativa, da reforma fundiária, do endividamento dos portugueses, da moeda única, da União Europeia, das consequências do Brexit, da política internacional e de muitos outros assuntos internos e internacionais. Está esperançado, mas também preocupado com o futuro porque “a paz mundial não está garantida”. Elogia a solução política actual por ter quebrado o princípio da inevitabilidade, porque “não há inevitabilidades e quem escreve o futuro são os povos”. Com grande verticalidade e sem complexos, afirmou que “socialmente sou um homem de esquerda”, porque defende a igualdade e a solidariedade.
Em síntese, é uma entrevista notável de um homem notável, que deve ser lida atentamente.

As relações entre a política e o futebol

As relações entre o futebol e a política portuguesa são muito íntimas, mas são indesejáveis e muito perigosas. Quando vemos as tribunas dos estádios sempre recheadas de políticos e sabemos que, todos os anos, os presidentes dos grandes clubes de futebol se encontram em jantares com os deputados afectos aos seus clubes, como hoje destaca o jornal i, não podemos deixar de nos preocupar.
Esta intimidade nada tem a ver com o gosto pelo espectáculo do futebol que é fantástico dentro das chamadas quatro linhas. Eu gosto de ver o Real Madrid e o Barcelona, o Manchester United e o Chelsea, o Mónaco e o PSG, mas não me interessam os longos e indigestos serões televisivos portugueses em que os chamados comentadores gritam, insinuam e acusam, revelando por vezes muita falta de educação e, sobretudo, a autêntica degradação que essa gente está a fazer desse fenómeno popular que é o futebol.
Os políticos podiam e deviam distanciar-se desta barafunda, mas perdem-se na sua ganância de aparecerem e ser vistos para ganharem notoriedade e votos. A aliança entre a televisão e o futebol favorece-os e permite-lhes estabelecer relações íntimas com esse estranho mundo do futebol que já não é um desporto, mas uma manta de interesses, em que domina o dinheiro e, provavelmente, a corrupção. Os deputados deviam ser o exemplo das virtudes e dos valores dos portugueses, mas quando se juntam ao mundo do futebol, ficam sujeitos ao ditado popular: diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és.
Os deputados são eleitos em nome de um partido e, portanto, têm o compromisso de defender o seu ideário político que, naturalmente, visa a defesa da soberania nacional, o progresso económico e social, a administração da justiça, a preservação do ambiente e da paisagem, além de muitas outras linhas programáticas. Por isso, integram as listas dos partidos para defender os programas dos seus partidos. Os eleitores escolhem o ideário de um partido e não escolhem deputados do SLB, do SCP ou do FCP. Quando estes mesmos deputados se coligam futebolisticamente não estão a dar resposta aos eleitores que neles votaram, porque o seu envolvimento no estranho mundo do futebol os descredibiliza e desautoriza. Os deputados não se devem envolver com o futebol. Aprendam: ao futebol o que é do futebol e à política o que é da política.
Jantares de deputados com os donos da bola? Não, obrigado!

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Macron e os independentistas corsos

O Presidente Emmanuel Macron realiza hoje a sua primeira deslocação oficial à Córsega para homenagear Claude Érignac, o prefeito de Ajaccio que foi assassinado há 20 anos por um comando da Frente de Libertação Nacional da Córsega (FLNC). O tema está na capa do Libération que refere a visita presidencial como "o momento corso"
É um momento muito ousado e muito difícil para Macron pois tomou a iniciativa inédita de conversar com os dirigentes nacionalistas corsos, nomeadamente o presidente do executivo local que é o autonomista Gilles Simeoni e o presidente da Assembleia Regional que é o líder independentista Jean-Guy Talamoni, que também é membro do partido independentista Corsica libera e do Conselho da Língua e da Cultura Corsa. Tal como tem acontecido nos anos anteriores, enquanto o autonomista Simeoni estará presente na cerimónia de homenagem a Érignac, o independentista Talamoni estará ausente. Desconhece-se a agenda destes encontros, mas Simeoni já declarou que é uma janela de oportunidade histórica para sair da lógica do conflito e passar para a lógica do diálogo, mostrando que a lição da Catalunha está presente na Córsega.
As reivindicações independentistas corsas resultam do facto da população que tem um pouco mais de 300 mil pessoas, ter língua e cultura próprias e se sentir mais italiana do que francesa. Por isso, em 1976 foi criada a FLNC (Fronte di Liberazione Naziunale Corsu), como movimento político que defende a independência da ilha de 8 mil km2, mas que é considerada uma organização criminosa por usar métodos de acção violentos que são inspirados na mafia italiana, como atentados, sequestros e vinganças.
A actividade da FLNC foi sempre muito dinâmica, embora tivesse anunciado em 2014 a sua progressiva desmilitarização e saída da clandestinidade. Emmanuel Macron terá aproveitado esta pausa e esta oportunidade para homenagear Claude Érignac, mas também para  tomar a iniciativa política e conversar com autonomistas e independentistas, por forma a evitar que a Córsega se transforme num problema semelhante ao da vizinha Catalunha.

domingo, 4 de fevereiro de 2018

O que fazer com o regresso dos jihadistas?

O Estado Islâmico do Iraque e do Levante, também conhecido por Isis e por Daesh, que em 2014 tinha proclamado um califado e que durante alguns anos ocupou grandes áreas territoriais da Síria e do Iraque, foi derrotado militarmente. Essa informação foi veiculada por russos e americanos, iraquianos e iranianos, a partir do dia 17 de Outubro de 2017 quando, após cinco meses de intensos combates, a cidade síria de Raqqa foi reconquistada pelas milícias curdas. Raqqa era a capital do Daesh e como sempre sucede nestes conflitos, a perda da capital significa a derrota.
Porém, a generalidade dos analistas considera que a derrota do Daesh não é o fim daquela organização e pensa que nesta altura ela já se estará a preparar para estabelecer uma rede global de terrorismo, provavelmente com base no Afeganistão.
O futuro do Daesh é, por isso, uma incógnita. No entanto, sabe-se que muitos dos seus combatentes estão a regressar aos seus países de origem acompanhados pelas suas famílias que entretanto se tornaram altamente enfeudadas ao fundamentalismo islâmico e que, talvez, estejam mobilizadas para a prática de actos terroristas. A capa do Courrier International é expressiva, com uma família a caminhar trazendo por mochila uma granada de mão. De acordo com um estudo publicado pelo semanário Le Point, desde 2014 terão partido 1700 franceses para o Iraque e para a Síria, dos quais 278 foram mortos, 690 ainda estarão na região, 302 já regressaram a França e 430 estarão em trânsito para regressar a França.
A imprensa francesa tem tratado regularmente este preocupante assunto, questiona-se sobre o quadro legal aplicável e pergunta “quelle justice pour les terroristes", analisando o seu “l’impossible retour”. Sabe-se que alguns deles já terão conseguido apoios para reintegração social e subsídios de desemprego, mas opinião pública francesa parece condenar esta reintegração e estes casos de crime sem castigo. Devem ou não regressar? Quem os julgará? A França procura as respostas.

sábado, 3 de fevereiro de 2018

O Brexit levou a confusão para Gibraltar

Gibraltar é um território britânico ultramarino com 6,5 km2 de superfície que se situa a sul da península Ibérica. Tendo sido ocupado em 1704 por uma força anglo-holandesa durante a Guerra da Sucessão Espanhola, veio a ser cedido definitivamente aos ingleses pelo Tratado de Utrech de 1713.
Os anos correram sempre com grande conflitualidade entre espanhóis e ingleses por causa do Rochedo. Em meados do século XX a Espanha passou a reivindicar o retorno da península de Gibraltar à sua soberania, tendo requerido a intervenção da Comissão de Descolonização das Nações Unidas para acabar com aquela situação colonial. Os ingleses invocaram o direito dos gibraltinos à sua autodeterminação e em 1967 fizeram um referendo em que 99,64% da população expressou a vontade de permanecer sob soberania britânica. Surgiu então a ideia de uma soberania partilhada entre a Espanha e o Reino Unido pelo que em 2002 foi realizado um segundo referendo, mas os gibraltinos recusaram a proposta de partilha de soberania por 99% dos votos.
Apesar destes dois referendos a “questão de Gibraltar” nunca deixou de estar na agenda dos dois países por razões políticas, embora interesse sobretudo aos seus 32 mil habitantes, mas também aos 8 mil espanhóis que todos os dias atravessam a fronteira para trabalhar.
O governo do território de Gibraltar é partilhado por um governador designado pelo monarca da Grã-Bretanha e por um governo autónomo eleito pelos gibraltinos de acordo com uma carta constitucional.
No meio de toda esta complexa questão, em 2016 surgiu o referendo do Brexit em que perguntaram aos gibraltinos se queriam ou não continuar como membros da União Europeia, tendo 95,91% votado pelo remain e só 4,09% optado pelo leave. Portanto, o Brexit levou ainda mais confusão e mais incerteza a Gibraltar, pois os gibraltinos querem ser britânicos mas não querem sair da União Europeia. O jornal La Libre Belgique tratou deste assunto e procurou saber como irão os gibraltinos resolver este imbróglio que os confunde cada vez mais.

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

A brutal violência do Rio de Janeiro

O jornal brasileiro O Globo anunciou que no passado mês de Janeiro se verificaram 640 tiroteios na área metropolitana do Rio de Janeiro, o que significa que os moradores da cidade se confrontaram com quase um tiroteio por hora, na maioria das vezes entre a Polícia e os traficantes de droga.
De acordo com outra fonte, no mesmo mês de Janeiro ocorreram 688 tiroteios e verificaram-se 146 mortes por arma de fogo e 158 feridos, o que mostra a dimensão da violência na cidade do Rio de Janeiro.
O problema é trágico porque, por exemplo no 1º semestre de 2017, ocorreram mais de 2600 tiroteios no Rio de Janeiro, de que resultaram quase 800 mortes. Estes números impressionam e assustam. Não se imagina a Cidade Maravilhosa assim! 
No Brasil pergunta-se muitas vezes se há solução para o problema da violência, até porque a política de repressão que tem sido adoptada não tem produzido resultados e apenas tem provocado o seu aumento, bem como o número de mortes e a insegurança social. O facto é que a violência no Rio de Janeiro, mas também em outras regiões do Brasil, é o reflexo do progressivo aprofundamento das desigualdades sociais que se verificam no Brasil, mas também é o resultado da aplicação de políticas erradas.
A política de segurança pública que tem sido seguida pelo Estado do Rio de Janeiro tem custado muitos milhões ao erário público, sendo superior aos orçamentos estaduais da educação e da saúde, mas as pessoas questionam-se cada vez mais sobre se não teria sido preferível aplicar esses recursos em políticas de inclusão social.
Porém, com tudo o que se passa nas estruturas do poder no Brasil, sobram dúvidas sobre se há capacidade ou vontade para reduzir a violência no país e, em especial, na sua antiga capital.

A Super Lua fotografada em Burgos

Esta semana a Lua esteve na sua fase de lua cheia, ao mesmo tempo que ocorria um eclipse total e que a sua órbita estava no perigeu, isto é, no seu ponto mais próximo da Terra. Estas três circunstâncias raramente ocorrem em simultâneo.
A lua cheia e o perigeu dão origem à chamada Super Lua, que pode aparecer 14% maior e 30% mais brilhante do que é habitual. Por outro lado, o mês de Janeiro teve duas luas cheias, o que não é habitual acontecer, sendo costume chamar-se Lua Azul à segunda lua cheia do mês.
Significa que, na passada quarta-feira tivemos Super Lua, Lua Azul e, devido ao eclipse, até tivemos uma lua de cor avermelhada, embora o eclipse não tenha sido visível em Portugal.
Aqui em Lisboa, nem a Imprensa, nem o Observatório Astronómico de Lisboa, alertaram para o acontecimento e pouca gente terá olhado para a Lua, até porque o eclipse não foi visível.
A imprensa internacional deu notícia deste fenómeno, sobretudo nos Estados Unidos, onde os fotógrafos aproveitaram a oportunidade para fazer prova de vida.
Aqui ao lado, na Comunidade Autónoma de Castela e Leão, o Diário de Burgos chamou a este fenómeno um espectáculo celestial e aproveitou para publicar uma sugestiva fotografia da famosa catedral da cidade a enquadrar a Super Lua.

Um destino turístico chamado Portugal

A propósito do 60º Salão de Férias de Bruxelas que abriu as suas portas ao público, o jornal La Libre Belgique destacou ontem na sua primeira página que os destinos-tendência para 2018 são o Chile, a Coreia do Sul e Portugal. Portanto, temos o nosso país eleito pelos belgas como um grande, se não o maior, destino turístico europeu.
Nestas feiras, que no princípio do ano são organizadas em todos os países, as agências de viagens apresentam ao público as suas melhores sugestões de férias, procurando convencê-los a comprar os seus pacotes. Foi assim que, sob a pressão da indústria do turismo e das suas agências de viagens, nasceram alguns destinos turísticos como Torremolinos, Canárias, Acapulco ou Cancun, mas também a moda dos cruzeiros mediterrânicos ou nórdicos, a somar aos tradicionais circuitos pelas grandes cidades europeias.
Por razões de ordem diversa, Portugal afirmou-se nos últimos anos como um destino turístico de primeira ordem, pelo que os agentes económicos têm procurado adaptar-se a essa oportunidade que se deseja não seja apenas conjuntural e que é bem visível no renascimento ou readaptação da parte antiga da cidade de Lisboa, cada vez mais vocacionada para o turismo. Desse facto muito tem beneficiado a economia portuguesa mas também a auto-estima dos portugueses que se mostram mais abertos e mais receptivos do que nunca aos estrangeiros, o que também tem servido para melhorar a imagem internacional do nosso país.
A constatação verificada pelo jornal belga de que Portugal é um dos mais procurados destinos turísticos é encorajadora para o sector e, naturalmente, para a economia portuguesa. Os lisboetas e os portugueses em geral que se preparem, porque este ano irão chegar ainda mais turistas para ver os nossos monumentos e as nossas praias ou encher os nossos restaurantes e os nossos museus. Como vai longe o tempo do isolamento internacional...

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

Macau e a festividade do Ano Novo Chinês

No próximo dia 16 de Fevereiro de 2018 começa o Ano Novo Chinês que só terminará no dia 4 de Fevereiro de 2019.
O Ano Novo Chinês, que também é conhecido como Ano Novo Lunar Chinês, é a mais importante festividade para os chineses e a sua celebração dura 15 dias, durante os quais são seguidos inúmeros rituais e tradições com a finalidade de atrair a sorte. A cor vermelha é a cor predominante nos festejos, porque significa transformação e vida, mas também são utilizadas outras cores como o amarelo, o dourado e o roxo porque, segundo a cultura chinesa, atraem a prosperidade e a riqueza e, parece, que também o amor. Nas vésperas do início do seu Novo Ano os chineses limpam as casas, cortam o cabelo, preparam as roupas, fecham as contas e dão presentes aos seus deuses, além de outros rituais. Todos eles são levados muito a sério e com grande superstição.
Durante as festividades as pessoas acendem lanternas vermelhas e penduram-nas diante da porta principal das suas casas durante os 15 dias de festejos e queimam muito fogo de artifício para afastar o azar e os maus espíritos.
As festividades em Macau são um grande acontecimento, não só para os macaenses mas também para os visitantes, pelo que as autoridades aproveitam para promover o Turismo. Hoje, o jornal macaense ponto final – um dos três jornais diários de Macau publicados em português – apresenta a imagem dos festejos de 2017 com o desfile do dragão gigante dourado no Largo do Senado (vendo-se à direita a Santa Casa da Misericórdia). O jornal informa que este ano são esperados 960 mil visitantes durante os 15 dias dos festejos mas, no ano passado, o mesmo jornal afirmara que “Macau tinha recebido 2,2 milhões de visitantes por ocasião das festividades do Ano Novo Chinês”. Serão, portanto, um ou dois milhões de visitantes em 15 dias. Considerando que o território de Macau tem actualmente cerca de 617 mil habitantes, não há dúvida que as festividades do Ano Novo Chinês são um excelente contributo para a economia da Região Administrativa Especial de Macau da República Popular da China.