sábado, 31 de março de 2018

Foi suspensa a Barcelona World Race

A Barcelona World Race é uma grande competição vélica organizada pela FNOB (Fundação da Navegação Oceânica de Barcelona) que se realiza de quatro em quatro anos, na qual as embarcações monocasco de dois tripulantes saem de Barcelona e dão a volta ao mundo passando pelos três cabos – cabo da Boa Esperança, cabo Leeuwin e cabo Horn, terminando a prova em Barcelona.
Nas três primeiras edições da prova realizadas em 2007/2008, 2011 e 2015 os vencedores demoraram respectivamente 92, 93 e 84 dias a completar a volta ao mundo.
A 4ª edição desta corrida estava previsto ser iniciada no dia 12 de Janeiro de 2019 e tinha como novidade uma paragem obrigatória em Sydney, o que significava um primeiro troço de corrida desde Barcelona até Sydney (13.500 milhas) e um segundo troço de Sydney até Barcelona (12.500 milhas).
Porém, em face das dificuldades políticas e institucionais por que passa a Catalunha, não apareceram os patrocinadores privados necessários para garantir o financiamento de uma prova desta natureza, pelo que a FNOB decidiu suspender a corrida de 2019. No entanto, a FNOB já está em negociações com a IMOCA (International Monohull Open Classes Association), a associação que agrega os interesses de velejadores, construtores e organizadores, para preparar a edição de 2023 desta prova, por se tratar de um importante evento do calendário mundial dos monocascos de 60 pés e, também, pela sua importância para o turismo e para a imagem de Barcelona.
Alguns jornais espanhóis, nomeadamente o conservador ABC, aproveitaram para responsabilizar o independentismo por esta decisão, mas o facto é que a suspensão desta prova serviu de argumento tanto para os constitucionalistas como para os independentistas.

Goa tem o estatuto de “Europa da Índia”

O jornal hindustan times tem a sua sede em Nova Deli, é o segundo maior jornal da Índia e tem uma circulação superior a um milhão de exemplares.
A sua primeira página costuma ser vendida como suporte de publicidade e foi isso que aconteceu na sua edição de hoje, em que uma empresa denominada Provident Housing, uma subsidiária do grupo Puravankara que se considera como uma das maiores imobiliárias da Índia, comprou esse espaço para dizer aos seus leitores Go home to Goa ou, dito em português, vá para casa em Goa. O anúncio refere-se ao pré-lançamento de um grande empreendimento de apartamentos em condomínio que vai ser construído em Goa, junto a Chicalim e próximo do aeroporto de Dabolim e do porto de Mormugão. O anúncio foi ilustrado com uma fotografia de uma jovem ocidental na praia, deixando subliminarmente a ideia de que “Goa é a Europa da Índia” o que, de resto, é uma ideia que prevalece naquele país.
O empreendimento foi baptizado com o sugestivo nome de  Adora de Goa e, este nome, tal como a fotografia da jovem com vestes ocidentais, visam estimular o interesse dos indianos das classes médias emergentes para a aquisição de um apartamento em Goa, cuja descrição evoca a permanência dos portugueses durante 451 anos.
A curiosidade deste anúncio está apenas no facto da herança cultural portuguesa, visível em muitos aspectos do quotidiano goês, desde o património à língua e passando por muitas práticas culturais, estar a ser usada para atrair os pequenos investidores e o turismo interno indianos para a ocidentalidade, para as praias e para os monumentos de Goa.

As mentiras, o histerismo e a prudência

Eu não me esqueço do dia 16 de Março de 2003 quando George W. Bush, Tony Blair, José Maria Aznar e Durão Barroso se encontraram na Cimeira das Lajes e do início da intervenção militar americana no Iraque, que começou quatro dias depois. O pretexto foi acabar com Saddam Hussein e com as armas de destruição maciça que afinal não existiam, mas este caso serviu para a criação de uma versão mais actualizada sobre o poder da mentira, na linha de pensamento de Joseph Goebbels, a quem se atribui a frase que uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade.
Outros casos semelhantes têm acontecido desde então, quer no plano interno, quer no plano internacional, em que a mentira tem sido utilizada para enviezar a realidade, manipular a opinião pública e para produzir determinados efeitos.
O mais recente caso deste tipo de actuação é a expulsão de 23 diplomatas russos pelo presumível envolvimento do Kremlin de Moscovo no envenenamento em território britânico de um ex-espião russo e da sua filha, sem que ainda haja prova dessa acusação. O governo de Theresa May invocou a alta probabilidade das autoridades russas estarem envolvidas nesse caso e, dessa forma, desviou a atenção interna e internacional dos problemas que tem entre mãos. Donald Trump, que acabara de felicitar Putin pela sua reeleição, esqueceu o seu slogan “America first” e decidiu expulsar seis dezenas de diplomatas russos, porque viu estar aí uma forma de perturbar o crescente poder de Vladimir Putin e dar ânimo aos falcões americanos. Depois seguiram-se duas dezenas de países que, simbolicamente e numa solidariedade misturada com hipocrisia, expulsaram alguns diplomatas, casos por exemplo da Alemanha, França e Canadá (quatro cada), Espanha, Itália, Holanda e Dinamarca (dois cada) e Bélgica, Finlândia, Suécia, Hungria, Irlanda e Roménia, entre outros (um cada).
Portugal usou da prudência e foi solidário com os seus parceiros da NATO e da UE, mas não alinhou no histerismo daqueles que confundem a Rússia com a União Soviética e que apostam numa nova guerra fria para alimentar as suas indústrias de armamento. Tudo está por provar e não podem ser as políticas erráticas de Theresa May e de Donald Trump a condicionar a diplomacia portuguesa e a boa relação que o nosso país quer manter com a Rússia e com todos os povos do mundo. Significativamente, o importante Washington Post apenas dedicou uma pequena coluna a este assunto que, certamente, considerou um fait-divers da política internacional para desviar as atenções de outras situações.

quinta-feira, 29 de março de 2018

O sacrifício da vida pela comunidade

A França comoveu-se quando o Presidente Emmanuel Macron prestou homenagem ao tenente-coronel Arnaud Beltrame, que foi morto por um extremista islâmico depois de se ter voluntariado para substituir uma refém que aquele retinha sob ameaça num supermercado de Trèbes, no sul de França.
Vários factores convergiram para que a França se comovesse, mas um deles terá sido a surpresa com que assistiu a um acto de coragem protagonizado por alguém que, certamente, havia jurado defender a comunidade “mesmo com o sacrifício da própria vida”. Essa ideia de defender a pátria ou de defender a comunidade parece cada vez mais uma coisa do passado porque, tanto os soldados como os polícias, se tornaram funcionários, provavelmente com mais deveres e menos direitos do que os outros funcionários. A generalidade dos políticos também se tornaram funcionários e não lutam por causas nem por valores, mas apenas por interesses, mas o mesmo acontece com muitas outras profissões que deveriam servir o interesse público.
Os tempos e as escalas de valores estão a mudar muito rapidamente por toda a parte e o egoismo está a dominar as sociedades, prevalecendo o interesse pessoal ou de grupo sobre o interesse colectivo, como bem se vê nas desigualdades que existem entre os homens e entre as nações. Em muitos aspectos, parece que o mundo já está dominado mais pelo capital tecnológico e pela robótica, do que pela sensibilidade e pela inteligência humanas. É por isso que a corajosa acção do tenente-coronel Arnaud Beltrame surpreendeu e comoveu a França.
A comoção dos franceses extravou as suas fronteiras e sensibilizou alguma imprensa mundial que também ficou surpreendida com este gesto cada vez mais singular de alguém que leva até ao fim o seu juramento de defender a comunidade “mesmo com o sacrifício da própria vida”. The Wall Street Journal foi apenas um dos jornais internacionais que publicou a fotografia do presidente francês junto da urna do malogrado oficial.

Symphony of the seas: a cidade flutuante

Chama-se Symphony of the seas, foi construido nos estaleiros franceses de St. Nazaire e é o maior navio de cruzeiros do mundo. É o 26º navio da Royal Caribbean International, tem 362 metros de comprimento, desloca 228 mil toneladas e pode transportar 6360 passageiros.
É uma cidade flutuante onde existe tudo o que é possível imaginar-se. Para além das suas colossais dimensões, o navio destaca-se pela diversidade de experiências que oferece aos seus passageiros, que incluem 19 piscinas com diferentes actividades lúdicas, pista de patinagem no gelo, simuladores de surf, teatro para 1380 pessoas, 20 restaurantes e lojas das mais prestigiadas marcas internacionais.
A sua viagem inaugural está marcada para o próximo dia 7 de Abril com saída de Barcelona, escalas em Palma de Maiorca, Provence, Florença/Pisa, Roma e Nápoles e regresso a Barcelona. Depois repetirá este circuito mediterrânico durante várias semanas e, no segundo semestre do ano, atravessará o Atlântico para fazer cruzeiros pelas Caraíbas a partir de Miami.
Na passada terça-feira o navio foi apresentado em Málaga e, aparentemente, a Royal Caribbean International convidou meio mundo para essa apresentação mundial, sobretudo agências de viagens e jornais, porque o evento está relatado em inúmeros jornais que divulgam  as características excepcionais do navio, embora nenhum lhe dê o destaque que foi dado pelo Málaga hoy, que dedicou a sua primeira página ao “mayor coloso del mar”.
Com tanta oferta de divertimento e com tanta gente a bordo, uma viagem no Symphony of the seas até talvez se torne numa cansativa viagem...

terça-feira, 27 de março de 2018

A publicidade institucional na Austrália

The Australian é um jornal que se publica em Sydney e que é propriedade de Rupert Murdoch, o famoso magnate da comunicação, sendo também o jornal de circulação nacional mais vendido na Austrália. Na sua edição de hoje o jornal não resistiu e cedeu a sua primeira página à Fincantieri Australia para publicar um anúncio publicitário, certamente por muito dinheiro.
A Fincantieri – Cantieri Navali Italiani S.p.A. é uma das maiores empresas mundiais de construção naval que tem sede em Trieste e que está vocacionada para a construção de navios de grande porte e de alta tecnologia, incluindo navios militares, tendo sido escolhida pelo governo australiano para conceber e construir nove novas fragatas para a Royal Australian Navy, num programa designado por SEA 5000. Por razões operacionais ou por obrigações do contrato, a empresa criou a Fincantieri Australia e instalou escritórios em Camberra e Adelaide, até porque os navios serão construidos em estaleiros australianos e com mão-de-obra maioritariamente australiana, pelo que já assinou diversos acordos com os sindicatos australianos.
Nove fragatas custam muito dinheiro e este negócio da indústria naval italiana deve ter deixado as concorrências francesa, espanhola, inglesa, alemã e outras mais, absolutamente roídas de inveja. Porém, o sucesso dos italianos neste negócio tem como contrapartida a transferência da sua tecnologia e do seu know how para a Austrália.
A importância deste negócio é tal que a Fincantieri Australia decidiu fazer uma campanha de publicidade institucional para aumentar a sua notoriedade e criar uma boa imagem junto da opinião pública, das autoridades decisoras, dos sindicatos e de outros parceiros deste negócio de muitos milhões e de muitos anos. Foi por isso que deve ter pago muito dinheiro para ocupar a primeira página do The Australian.

segunda-feira, 26 de março de 2018

Os voluntários dão lição aos políticos


Foto SIC Notícias

No dia 15 de Outubro de 2017 aconteceu o grande incêndio que consumiu cerca de 80% dos 11.080 hectares do Pinhal de Leiria. Desde então, essa catástrofe bem como os outros trágicos incêndios que devastaram o país no Verão do ano passado, têm servido para revelar inúmeros “especialistas” em gestão e em incêndios florestais e, também, para procurar os principais “culpados” pelo que aconteceu, numa lógica de combate político.
Porém, enquanto os políticos e os jornalistas têm passado o tempo a discutir quem tem mais culpas ou mais responsabilidades, iludindo que o problema é muito mais complexo do que parece e esquecendo a sua função pedagógica, a sociedade civil tomou iniciativas e tem promovido acções de voluntariado que têm mobilizado alguns milhares de cidadãos que, de todo o país, se têm organizadamente empenhado em acções de reflorestação do Pinhal de Leiria.
Algumas associações ambientalistas, assim como grupos constituídos em empresas e autarquias, têm-se destacado nessas acções, mas no passado domingo houve cerca de cinco mil voluntários que plantaram 67 mil e quinhentos pinheiros bravos. É pouco, mas foi um sinal de interesse pelo bem comum e, por isso, merece muitos elogios. Nesta acção participaram muitas crianças e houve a ajuda de militares e bombeiros, o que constitui uma grande lição para todos os que falam, falam... mas não fazem nada.
É certo que são necessárias pelo menos 3 milhões de árvores para plantar, mas a iniciativa do passado domingo, bem como o envolvimento do Presidente da República e do Primeiro-Ministro em iniciativas semelhantes, é um sinal positivo para a sociedade porque contribui para a sensibilização da comunidade e para os comportamentos amigos da floresta, que muita gente parece não conhecer.
Lamentavelmente, os jornais de referência não destacaram este assunto e, por isso, é um caso de mau jornalismo, a suscitar uma simples pergunta aos seus editores: qual é a agenda por que se regem?

Os novos episódios da questão catalã

A questão da Catalunha, a região autónoma espanhola em que metade da população quer ser independente e a outra metade não quer, teve ontem mais um episódio relevante, quando Carles Puigdemont foi detido pela polícia alemã na sequência de um pedido das autoridades judiciais espanholas.
Não se sabe se Puigdemont se distraiu ou se quis ser detido, nem se vislumbra se quer ser um líder no exílio ou um mártir na Catalunha, mas o facto é que os independentistas catalães vieram para a rua protestar e que esta detenção fez reanimar a contestação às instituições espanholas e a conflitualidade nas ruas das cidades catalãs, onde de imediato houve confrontos e se verificaram alguns feridos.
A Espanha é um estado soberano cuja Constituição diz, no seu artigo 2º, que “la Constitución se fundamenta en la indisoluble unidad de la Nación española, patria común e indivisible de todos los españoles, y reconoce y garantiza el derecho a la autonomía de las nacionalidades y regiones que la integran y la solidaridad entre todas ellas”. O que acontece é que, segundo o Tribunal Constitucional, Carles Puigdemont e alguns outros dirigentes independentistas catalães têm atentado contra a unidade da Espanha e, por isso, afrontam a lei constitucional e estão detidos ou têm sobre eles mandados de detenção.
Albert Rivera, o fundador e presidente do Ciudadanos – Partido de la Ciudadania, que é o maior partido da Catalunha, comentou a detenção de Puigdemont e disse que “se acabó la fuga del golpista”. De facto, a forma como tem sido conduzida a luta pela independência da Catalunha tem sido desastrada e, muitas vezes, tem tido contornos de golpe com que o orgulhoso poder centralista de Madrid não pactua.
O problema da Catalunha continua, portanto, bem vivo, embora os catalães comecem a estar cansados desta história. A História, porém, ensina-nos que quando os líderes de uma ideia ou de um movimento político vão para a prisão, as suas teses acabam por se impor no futuro.

O protesto americano contra a violência

Os americanos estão a protestar contra a livre venda de armas automáticas e munições no país e exigem um maior controlo dos antecedentes criminais de quem compra armas de fogo.
De vez em quando somos confrontados com a notícia de mais um adolescente que comprou uma arma, que a levou para a escola e que decidiu imitar uma qualquer cena do mais recente filme de violência que viu na televisão. A permissividade da legislação americana é total e calcula-se que nos últimos vinte anos terão morrido duas centenas de estudantes em consequência de disparos com armas de fogo dentro das escolas americanas e que mais de 187 mil jovens de cerca de 193 escolas primárias e secundárias assistiram a tiroteios dentro das suas escolas. O principal alvo das manifestações é a NRA (National Rifles Association), uma poderosa organização de 5 milhões de membros que promove e incentiva o uso e porte de armas de fogo, mas por via indirecta a manifestação também era dirigida ao Congresso e ao Presidente dos Estados Unidos que, ainda bem recentemente, sugeriu que os professores fossem armados para a escola.
O protesto foi organizado pelos estudantes da escola da Florida onde no passado mês de Fevereiro ocorreu um massacre de que resultaram 17 mortes, tendo alastrado por todo o país e mobilizado milhões de pessoas. A mobilização dos estudantes foi um sucesso e a manifestação terá sido a maior alguma vez realizada nos Estados Unidos pelo controlo de armas de fogo, havendo quem a tivesse comparado às grandiosas manifestações contra a guerra do Vietnam ou em defesa dos Direitos Civis.
Toda a imprensa americana apoiou as manifestações, caso do New York Post, o que pode conduzir a uma mais rápida alteração de uma legislação que parece incentivar o uso de armas como se os americanos ainda estivessem no século XIX e a instalar-se no Far West.

sábado, 24 de março de 2018

Azoia de Baixo e a memória de Herculano

A Azoia de Baixo fica ali para os lados de Santarém e não resistiu à reforma administrativa nacional que em 2013 agregou freguesias, pelo que perdeu esse estatuto.
Foi nessa localidade que, depois de vários dias consecutivos de chuva e de céu muito nublado, apareceu num destes dias um fim de tarde solarengo que me proporcionou uma fotografia bem curiosa, em que a sombra de uma árvore se projecta sobre uma casa rural típica daquela zona.
Esta casa fica na rua Alexandre Herculano e em frente da Escola Alexandre Herculano, uma construção do século XIX que assinala a presença e perpetua a memória do grande escritor que viveu os últimos dez anos da sua vida na sua Quinta de Vale de Lobos, que ali fica bem próxima. Na localidade ainda existe um memorial de homenagem a Alexandre Herculano e, no pátio do Centro de Cultura e Recreio Alexandre Herculano, encontra-se um busto em bronze de Alexandre Herculano.
Não há dúvida que esta pequena localidade sabe honrar a memória de um grande historiador e escritor português que hoje repousa nos Jerónimos.

Facebook – a comunicação que ameaça

A notícia já corre há alguns dias e revela que o Facebook, ou feicebuque como o meu amigo JNB gosta de escrever, tratou de fazer batota e começou a explorar o exibicionismo dos seus utilizadores e a segmentá-los ou arrumá-los por perfis etários, psicológicos, económicos, culturais e outros. Assim, construiu uma monumental base de dados com milhões de registos de grande valor o que levou o deslumbrado Mark Zuckerberg, o criador do Facebook, a vender essas informações privadas a uma tal Cambridge Analytica.
Os efeitos sociais dos mass media já eram bem conhecidos desde finais da primeira metade do século XX, através dos trabalhos de Paul Lazarsfeld e do casal Lang, que estudaram os efeitos das notícias sobre os consumidores e sobre os eleitores, isto é, sobre o consumo e sobre o voto. Hitler e a sua equipa também conheceram essas teorias de manipulação das decisões das pessoas e o canadiano Marshall McLuhan veio dizer que, sob a pressão dos mass media, o mundo se tinha transformado numa aldeia, daí nascendo o conceito de aldeia global.
Com a televisão, com a internet e com as redes sociais, o problema aprofundou-se. É agora possível definir os públicos-alvo com grande precisão e ser mais directo e mais eficaz na transmissão de mensagens comerciais ou políticas, canalizando a mensagem para os alvos preferenciais, se necessário através das fake news ou as notícias produzidas expressamente para produzir certos efeitos, que são tão comuns em Portugal, sobretudo nas fugas ao segredo de justiça que condenam qualquer cidadão perante a opinião pública, antes do julgamento em tribunal.
Assim, a Facebok e a sua associada Cambridge Analytica trataram de manipular os perfis dos seus utilizadores para uso publicitário e eleitoral e, segundo parece, foi daí que resultaram as surpresas eleitorais que deram a vitória ao Brexit e a Donald Trump. O assunto é muito sério porque é um enorme perigo para a paz e para a convivência democrática, tendo sido retratado na capa da edição de hoje do Der Spiegel.
Bem pode Mark Zuckerberg pedir desculpas, mas o facto é que o nosso modo de vida está ameaçado.

quinta-feira, 22 de março de 2018

As ameaças que pairam sobre a Itália

A Itália está a passar por uma grave crise de que pouco se fala e que foi agravada pelos resultados das últimas eleições, pois parece que não é possível formar uma maioria de governo. Depois das situações por que passaram a Bélgica, a Espanha e a Alemanha, é agora a Itália que ameaça tornar-se em mais um país europeu que não consegue formar um governo estável por não haver um partido ou uma coligação com maioria absoluta.
Neste quadro, as tensões regionais acentuam-se e a revista L’Espresso fala em fractura e publica uma ilustração da península italiana em que se evidenciam as divisões entre o Norte e o Sul.
Hoje, também o jornal Quotidiano di Sicilia faz uma análise de dez parâmetros económicos e sociais relativos à Sicília e à Lombardia, supostamente a mais pobre e a mais rica das regiões italianas, comparando os indicadores de saúde pública, despesa social, educação e empresas, entre outros, aproveitando os resultados obtidos para escolher o título da primeira página: “Sicilia - Lombardia, divide-nos o abismo!
Significa que nos últimos dias as palavras fractura e abismo estão a ser veiculadas pela imprensa italiana e isso é um facto preocupante. No tempo de incerteza e de instabilidade em que actualmente vive o mundo, a Europa precisa de mais unidade e de mais coesão, pelo que tudo o que a possa enfraquecer é preocupante, quer seja na Grã-Bretanha, na Catalunha ou na Itália.

quarta-feira, 21 de março de 2018

Os ocidentais abandonaram os curdos

Na sua edição de hoje o diário francês Le Figaro dedica uma reportagem à Síria e à devastadora guerra que continua a assolar o país sem que se vislumbre uma solução e destaca, em título de primeira página, que “os curdos foram abandonados pelos ocidentais”.
Nos últimos tempos a campanha anti-Assad e anti-Putin dirigida pelas centrais de propaganda ocidentais quase atingiu o histerismo com a denúncia de bombardeamentos sobre Ghouta oriental, nos arredores de Damasco, nos quais perderam a vida várias centenas de civis. Sabe-se agora que os rebeldes sírios, que lutam contra Bashar-el-Assad e que foram lançados nessa luta por americanos, ingleses e franceses, dispararam um óbus sobre um mercado de Damasco que causou 35 mortes. Segundo refere o jornal “é o balanço mais elevado que conheceu a capital síria nos últimos meses causado pelos tiros de óbus e de roquetes lançados quotidianamente sobre Damasco pelos rebeldes, em represália pelos bombardeamentos do regime sobre os redutos rebeldes em Ghouta oriental”.
Porém, Le Figaro também anuncia que as forças turcas e os seus aliados sírios anti-Assad tomaram Afrin, que foi abandonada pelas forças curdas, talvez numa estratégia de recuar um passo para depois avançar dois. O abandono e a “traição” ocidental aos combatentes curdos, que têm sido os mais fiéis aliados do Ocidente na luta contra os jihadistas do Daesh, mostra como são as fidelidades na guerra. Porém, a propaganda das centrais ocidentais não relata quaisquer atrocidades em Afrin e até trata os curdos como rebeldes, o que mostra que a ditadura turca sabe manipular a opinião pública mundial. O jornal destaca ainda que depois da tomada de Afrin, a Turquia vai intensificar a sua ofensiva em direcção ao nordeste da Síria contra os curdos.
Esta guerra não é diferente das outras guerras e, como salienta o jornal francês, tanto Afrin como Ghouta oriental são apenas mais duas tragédias na Síria. Afinal Bashar-el-Assad e Recep Tayyip Erdoğan são demasiado parecidos mas, infelizmente, ainda há quem pense que nesta guerra há bons de um lado e maus do outro, quando nesta guerra são todos muito maus.

terça-feira, 20 de março de 2018

Um país com demasiados Felicianos

É com muita mágoa que escrevo sobre a inusitada violência que se abateu sobre um Feliciano – é esse o título escolhido pelo jornal i – pelo que aqui declaro, que não é meu propósito atacá-lo pessoalmente, nem alinhar com os seus companheiros de partido que o espremeram, embora alguns deles sejam tão Felicianos quanto o Barreiras Duarte do Bombarral.
Um Feliciano não incomoda ninguém nem tem expressão estatística, mas o facto preocupante é que temos demasiados Felicianos no nosso país, isto é, gente que desistiu de estudar e de aprender, que optou pelo facilitismo, que se encostou ao oportunismo e que se tornou parasita da vida político-partidária, tratando da sua vidinha em vez de tratar do interesse público. São um tipo especial de xico-espertos sem pudor nem vergonha, que procuram uns títulos académicos para decorar o seu nome e disfarçar a sua ignorante pequenez, que não têm outro passado que não sejam os cargos que os compadrios da política lhe trouxeram, nem outra actividade que vá para além do uso e abuso das vigarices, das mentiras e dos truques.
Os Felicianos procuram escolas de segunda ou terceira categoria para sacar um qualquer grau académico que lhes dê importância social, não frequentam aulas e desconhecem o mérito resultante do valor do trabalho metódico e da humildade da aprendizagem. Fazem exames ao domingo, requerem indevidas equivalências, escapam-se aos exames e obtém generosas licenciaturas, como se viu com aquela enorme quantidade de doutores em Protecção Civil, certificados em Castelo Branco. Apesar de tudo isso, não abdicam de ser reconhecidos como o Doutor Feliciano e não tremem nem se envergonham por isso, com tantas vezes se viu com esse Feliciano de referência que continua a ser Miguel Relvas. São demasiados os Felicianos que optaram por se comportar como verdadeiros travestis académicos, fazendo-se passar por engenheiros, catedráticos, licenciados, mestres, doutores e visiting scholars.
Almada Negreiros no seu famoso Manifesto Anti-Dantas escreveu que “uma geração que consente deixar-se representar por um Dantas é uma geração que nunca o foi”. Será que podemos plagiar Almada e imaginar um Manifesto Anti-Felicianos?

segunda-feira, 19 de março de 2018

O separatismo catalão já perdeu fôlego

Desde que a Generalitat de Catalunya, ou Governo Autónomo da Catalunha, convocou um referendo para a independência já realizado no dia 1 de Outubro, que a região da Catalunha não sossega, com muita agitação, alguma desordem pública, inúmeras manifestações a favor e contra a independência e, sobretudo, com a economia a dar inquietantes sinais recessivos. Os constitucionalistas lutam por uma Catalunha integrada na Espanha e baseiam-se no facto da Constituição espanhola de 1978 não permitir votações sobre a independência de qualquer região espanhola, enquanto os soberanistas invocaram o direito à autodeterminação e independência da Catalunha para convocar o referendo, cujos resultados lhes foram favoráveis. Porém, ninguém reconheceu os resultados desse referendo emocional e o problema continua sem solução à vista.
Carles Puigdemont continua ausente ou exilado em Bruxelas, enquanto Oriol Junqueras continua na prisão. O diálogo demora, o separatismo perdeu fôlego mas ainda mostra intransigência e as maiorias silenciosas tendem a revelar-se.
Assim aconteceu no passado domingo, quando milhares de catalães convocados pela SCC (Sociedade Civil Catalã) vieram para a rua e reclamaram sensatez aos políticos catalães (seny) e um governo para todos, para recuperar a normalidade que foi perturbada pela ideia separatista.
Um dos participantes na manifestação foi o antigo primeiro-ministro francês Manuel Valls que, sendo natural da Catalunha e falando em catalão, afirmou que “a Europa precisa de uma Espanha unida” e que o separatismo, ou o procés como é conhecida a aventura catalã, já estava derrotado.
Na manifestação integraram-se bandeiras de Espanha, da Catalunha e da União Europeia e muitos militantes dos principais partidos políticos, destacando-se algumas palavras de ordem como “Estamos fartos”, ou “Somos Catalunha, somos Espanha”, ou “Puigdemont para a prisão”.
O jornal conservador ABC descreveu esta manifestação (em castelhano), tal como o ara ou o El Punt Avui descreverão as manifestações soberanistas (em catalão).