terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

António Guterres, um grande português

António Guterres recebeu ontem o doutoramento honoris causa com que foi distinguido pela Universidade de Lisboa, a partir de uma proposta do Instituto Superior Técnico (IST). Gostei dessa justa homenagem a um homem que é um exemplo para os políticos portugueses e cujo percurso de vida devia inspirar os nossos políticos que procuram ocupar postos internacionais apenas para ganhar dinheiro. E não são tão poucos como isso...
Muita gente importante quis estar presente na cerimónia pública para homenagear o homem que chegou ao lugar mais alto das Nações Unidas e que, segundo Marcelo Rebelo de Sousa, foi o "governante mais consensualmente amado desde sempre em democracia". Porém, na enorme assistência também havia alguns camaleões e travestis políticos que nunca deixam de aproveitar estas oportunidades para aparecerem e serem vistos, o que é lamentável e ridículo.
Guterres, que se licenciou em 1971 em Engenharia Electrotécnica com 19 valores, exactamente no IST, falou e mostrou a sua preocupação com as alterações climáticas, com a falta de regulação da ciber-guerra e com o Médio Oriente, para além de se referir aos seus temas de eleição que, desde há muitos anos, são a luta contra a pobreza e as desigualdades sociais e, mais recentemente, a inovação e a sustentabilidade.
Numa referência simbólica à escola onde se formou, disse que “se hoje tivesse de entrar para a universidade sabendo que iria fazer da vida aquilo que exatamente fiz, teria voltado a entrar para o IST”. É uma frase bonita para ser ouvida no IST, mas outros também dirão o mesmo das suas escolas, onde aprenderam a aprender, onde formaram o seu carácter e onde construiram as suas escalas de valores.
Com a honrosa excepção do Diário de Notícias, a imprensa portuguesa ignorou este relevante acontecimento da cultura e da política nacional, o que confirma que o nosso jornalismo anda muito próximo da mediocridade. Pela minha parte, é com satisfação que me associo à homenagem feita a António Guterres.

domingo, 18 de fevereiro de 2018

Animais nos restaurantes? Não, obrigado.

A Assembleia da República aprovou algumas propostas que vão permitir a entrada de todo o tipo de animais de companhia em espaços fechados de restauração e essa permissão vai entrar em vigor a partir do próximo mês de Maio. Hoje, o jornal Público anuncia essa nova lei em primeira página e eu fiquei assustado, pois já estou a imaginar que nunca mais possa entrar num restaurante português, porque desconfio da educação cívica da maioria dos donos dos animais que lá possam estar e não quero estar próximo deles. Essas mesmas pessoas não cuidam dos seus animais que ameaçam a saúde pública ao permitirem, por exemplo, que os dejectos caninos infestem a cidade, como se vê nas ruas de Lisboa. Como é possível que os responsáveis por essa pouca vergonha que é o ataque à higiene pública tenham o direito de entrar nos restaurantes com os seus cães ou com outros animais de estimação? Os comportamentos a que assisto repetidamente por parte dos donos dos cães, não me dão garantias de que esse comportamento seja diferente no interior dos restaurantes. E se forem cobras e lagartos? E ratos e sapos? E se os rottweillers, os pitbulls ou os cães de fila brasileiros estiverem nesses mesmos restaurantes? Como foi possível que a maioria dos deputados aprovasse uma lei destas?
Embora esta legislação seja uma novidade em Portugal, parece que já é uma prática corrente na maioria dos países europeus, se bem que não seja igual em todos eles. Talvez nesses países haja comportamentos cívicos diferentes dos hábitos dos donos dos cães e de outros animais de estimação em Portugal. Estou assustado e receoso de não voltar a frequentar restaurantes portugueses.
Animais no meu restaurante? Não, obrigado.

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Uma aplicação para aprender o português

A última edição do diário hojemacau, um dos jornais macaenses que utliza a língua portuguesa, anuncia com grande destaque que o Instituto Politécnico de Macau (IPM) desenvolveu uma aplicação para telemóvel que pode ser descarregada gratuitamente e que é totalmente dedicada ao ensino do português para falantes de chinês.
A aplicação foi concebida por académicos do IPM ligados à Linguística e à Informática e foi desenvolvida ao longo de cerca de nove meses de trabalho conjunto.
A aplicação chama-se “Diz lá” porque, segundo um dos responsáveis pelo projecto, “é uma frase muito portuguesa e que não existe em mais nenhuma língua”.
A aplicação tem três vertentes. Uma contempla a conjugação dos verbos e é muito importante para os chineses que estudam a língua portuguesa “porque no chinês não há tempos ou modos e isso é uma grande complicação”. A segunda vertente da aplicação é um guia diário de comunicação que inclui as expressões mais utilizadas no quotidiano. A terceira vertente da aplicação ensina ao utilizador uma nova palavra todos os dias por forma a enriquecer o vocabulário do utilizador.
É reconhecido que durante a permanência dos portugueses em Macau, que se prolongou por mais de quatro séculos, pouco ficou da língua portuguesa. Sabe-se lá se com esta aplicação não não vai aumentar a difusão da língua portuguesa em Macau, numa época em que os chineses já perceberam que têm vantagens em saber línguas ocidentais.

A grande ilusão do carnaval já terminou

Depois de vários dias de festa, sobretudo na Europa do sul e na América Latina, o carnaval de 2018 terminou. Pelo que se viu nas televisões houve muita alegria e diversão, muita imaginação, muita crítica social, muita despesa e muita vontade de esquecer as dificuldades do quotidiano. Terminou a grande ilusão do carnaval e a festa foi um momento de sonho que findou, pra tudo se acabar na quarta-feira, como escreveram e cantaram Vinicius de Moraes e Martinho da Vila.
O carnaval é uma festa com origens muito antigas no cristianismo e acontece antes da Quaresma, exprimindo-se através da fantasia ou do disfarce em que as pessoas mudam a sua aparência, a sua identidade e participam em grandes e animados desfiles públicos. Nos últimos tempos, o carnaval perdeu uma parte da sua espontaneidade popular e entrou na era da indústria turística porque é preciso cada vez mais imaginação para atrair os turistas no Rio ou em Tenerife, em Loulé ou em Torres Vedras.
Naturalmente, o maior carnaval do mundo acontece no Rio de Janeiro e, neste ano, brilhou o Grémio Recreativo Escola de Samba Beija-Flor ou Beija-Flor de Nilópolis, a escola de samba do município de Nilópolis, no Rio de Janeiro, que pela 14ª vez se sagrou como a grande campeã do carnaval de 2018.
Porém nisto de carnaval, nada me parece tão oportuno como o texto d’A Felicidade, o celebrado poema de Vinicius de Moraes:

A felicidade do pobre parece
A grande ilusão do carnaval
A gente trabalha o ano inteiro
Por um momento de sonho
Pra fazer a fantasia
De rei ou de pirata ou jardineira
Pra tudo se acabar na quarta-feira

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Israel-Síria-Irão: uma complexa equação

Depois da derrota do Daesh parecia que a guerra na Síria estava em vias de se encontrar uma solução de paz que tivesse o acordo dos diversos interesses presentes na região, não só sírios, mas também iraquianos, iranianos, turcos, libaneses e israelitas, além de russos e americanos.
Porém, na passada sexta-feira um helicóptero israelita abateu um drone que voava no espaço aéreo de Israel e que supostamente era iraniano. O caso tornou-se um pretexto para uma acção de retaliação e, como resposta, a força aérea israelita realizou uma acção contra o local de onde teria sido lançado o drone e onde estariam estacionadas forças iranianas e do Hezbollah libanês que apoiam o regime sírio de Bashar al-Assad. Nessa acção foi atingido um avião F16 israelita que se veio a despenhar já dentro do território de Israel, o que permitiu a recolha dos pilotos, embora um deles tivesse ficado gravemente ferido. Como resposta, foi lançada uma segunda onda de ataques aéreos israelitas contra doze alvos em território sírio, incluindo três baterias antiaéreas. Algumas horas depois, o primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu, afirmou que os ataques contra a Síria representaram um duro golpe para o Irão e para as forças do regime sírio, ameaçando que seriam para continuar se necessário fosse.
Entretanto, o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, condenou a alarmante escalada militar na Síria e os seus perigosos efeitos secundários nas fronteiras, pedindo a imediata redução das tensões na região. Vários jornais internacionais, caso do Libération, noticiaram estes preocupantes acontecimentos e a subida da tensão na região. Foi a primeira vez, desde que em 2011 começou a guerra na Síria, que Israel declarou ter visado alvos iranianos em território sírio, parecendo apostado em contrariar qualquer hipótese dos interesses da República Islâmica do Irão, aliados de Bashar El-Assad, se instalarem próximo das suas fronteiras. Não há certezas quanto à forma como as coisas se passaram, mas há que desconfiar do que dizem as duas partes.

domingo, 11 de fevereiro de 2018

O diálogo pode acontecer nas Coreias

A abertura dos Jogos Olímpicos de Inverno em PyeongChang permitiu que as delegações das duas Coreias desfilassem juntas e sob a mesma bandeira, mas também proporcionou o encontro entre Moon Jae-in, o Presidente da Coreia do Sul, e Kim Yo-jong, a irmã de Kim Jong-un, o líder da Coreia do Norte. Na sua edição de hoje o jornal londrino The Independent destaca esse encontro e pergunta em título de primeira página se os sorrisos podem aliviar as tensões entre as duas Coreias.
Durante esse encontro, a senhora Kim Yo-jong convidou formalmente o presidente Moon Jae-in a visitar a Coreia do Norte e terá dito que deseja vê-lo em Pyongyang num futuro próximo, acrescentando que a troca de pontos de vista entre os dois presidentes pode melhorar as difíceis relações do passado. Trata-se, sem dúvida, de uma iniciativa positiva no sentido do desanuviamento da tensão na península coreana.
Acontece que, nesta altura, o vice-presidente americano Mike Pence está em PyeongChang e que até esteve a poucos metros da senhora Kim Yo-jong, sem se terem cumprimentado. Não sei se queriam ou se podiam cumprimentar-se, mas teria sido útil que o fizessem. Em vez disso, Mike Pence, preferiu alimentar a tensão e fazer uma declaração em que reafirmou que a Coreia do Sul e os Estados Unidos estão unidos perante a ameaça de Kim Jong-un.
Se Pence soubesse como aconteceu a aproximação de Richard Nixon à China depois de 25 anos sem qualquer contacto comercial ou relação diplomática, teria actuado de outra maneira. Nixon visitou a China em 1972 e classificou essa visita como "a semana que mudou o mundo", mas a parceria Trump-Pence parece que quer manter alta a tensão no mundo e preferir que as Coreias não se entendam.

Uma notável entrevista de António Costa

Não é habitual que um político português seja entrevistado por um grande jornal internacional e seja dado um tão grande destaque a essa entrevista, mas é o que acontece hoje com a edição do jornal conservador espanhol ABC e com a entrevista ao Primeiro-Ministro de Portugal, cuja fotografia ocupa toda a primeira página. O lead da entrevista é, por si só, um elogio ao governo português e nem precisa de tradução:
En apenas unos años Portugal ha pasado de ser um país rescatado a convertirse en modelo a seguir logrando una envidiable recuperación económica. Ha reducido el déficit, la deuda y el paro; se ha convertido en un foco de atracción de capitales, y la economía crece al mismo fuerte ritmo com que lo hacen el turismo y las exportaciones. Los portugueses han dicho adiós a la austeridad. Pero no ha sido un milagro. Detrás hay planificación política, y la respuesta activa del tejido empresarial que ha sabido encontrar una oportunidad para expandir su negocio fuera de las fronteras. Este «milagro» luso se ha producido en un novedoso contexto político. El socialista António Costa se convirtió a finales de 2015 en primer ministro a pesar de no ganar las elecciones. Lo consiguió dejando a un lado las diferencias con dos de sus rivales políticos, los comunistas y el Bloco Esquerda (BE), y consiguiendo que lo apoyaran pero sin hipotecarse a sus postulados más radicales. Costa ha demostrado estar dotado para el diálogo y el consenso”.
A entrevista é notável e é mais um contributo para o prestígio ascendente de Portugal além-fronteiras, com Costa a juntar-se a Guterres, a Centeno, a Cristiano Ronaldo e mais alguns portugueses de talento. Em determinada altura, um dos três entrevistadores refere que Portugal “ha protagonizado una recuperación económica espectacular” e até pergunta a António Costa se “no querría hacer política en España?”
Perante isto, nem sabemos o que dizer da gritaria que ouvimos na Assembleia da República e dos sistemáticos insultos que Assunção Cristas e Hugo Soares fazem a António Costa.

Até no futsal somos campeões da Europa

Antigamente chamava-se futebol de salão ou futebol de cinco e era a paixão dos jovens. Eu próprio gastei muitas horas da minha juventude a jogar futebol de salão, mas os tempos mudaram e aquele futebol profissionalizou-se e até adoptou o estrangeirado nome de futsal. A UEFA, que durante muito tempo ignorou esta modalidade menor, abriu-lhe as portas em 2002 quando aceitou a realização anual da UEFA Futsal Cup ou Taça dos Clubes Campeões Europeus de Futsal e, em 2010, quando promoveu a realização do primeiro UEFA Futsal Euro ou Campeonato Europeu de Futsal. Ontem realizou-se a final do UEFA Futsal Euro 2018 no Arena Stožice, em Ljubljana, na Eslovénia.
A equipa portuguesa, depois de ter derrotado a Roménia (4-1),a Ucrânia (5-3), o Azerbeijão (8-1) e a Rússia (3-2), chegou à final para defrontar a Espanha. Era um desafio temível, até porque nas dez edições anteriores da prova a Espanha obtivera sete triunfos, enquanto Portugal apenas conseguira um segundo lugar e dois quartos lugares. O trunfo português parecia ser apenas o jogador Ricardinho, que é um artista e ostenta o título de melhor jogador de futsal do mundo.
A equipa portuguesa venceu por 3-2 após prolongamento, sob o aplauso entusiástico de um numeroso grupo de jovens portugueses que estudam na Eslovénia. Portugal foi, pela primeira vez, campeão da Europa de futsal. A televisão tinha transmitido todos os jogos da equipa portuguesa e, por isso, em Portugal o assunto não passou ao lado do interesse do público. E foi realmente mais um caso para fazer subir a auto-estima dos portugueses que, de facto, têm conseguido grandes vitórias internacionais nos últimos tempos e transformado a imagem do nosso país na comunidade internacional. Hoje, todos os jornais generalistas portugueses, para além dos jornais desportivos, destacaram este acontecimento.

sábado, 10 de fevereiro de 2018

O carnaval é um tempo de festa e de folia

O carnaval chegou. É um tempo de festa e de folia para quem gosta, sobretudo as crianças que ontem em Lisboa se viam em enormes filas enquadradas pelos seus professores e com as mais coloridas indumentárias a festejar com alegria o carnaval. Ao mesmo tempo, chegam-nos os anúncios dos festejos carnavalescos em Loures e Torres Vedras, em Ovar, Loulé e em muitas mais localidades, mas também a informação de que os hotéis nessas cidades estão cheios por causa do dito carnaval, a demonstrar que há muita gente que gosta do carnaval ou que somos um país de foliões e não uma terra de tristes macambúzios.
Porém, estes carnavais lusitanos não têm a expressão artística nem o envolvimento popular do carnaval brasileiro e, em especial, do carnaval do Rio de Janeiro que é o mais famoso do mundo, atraindo muitos milhares de turistas e deixando os brasileiros extasiados ou quase enlouquecidos, para tudo se acabar na quarta-feira....
Acontece que o carnaval também é festejado em muitas regiões espanholas, com destaque para as ilhas Canárias, onde as cidades de Las Palmas e de Santa Cruz de Tenerife rivalizam na apresentação do melhor carnaval e na escolha das suas rainhas, que depois são promovidas pela imprensa. Parece que nesta competição canária o Carnaval de Santa Cruz de Tenerife tem vantagem, porque é considerado o segundo carnaval mais popular e mais conhecido internacionalmente, depois do carnaval do Rio de Janeiro. Este ano a rainha é Carmen Laura Lourido Pérez de 33 anos de idade que foi escolhida entre 13 candidatas e que nos próximos dias será sujeita a um enorme esforço físico, pois terá que arrastar a sua complexa vestimenta que pesa muitas, mas muitas, dezenas de quilogramas e participar em demorados desfiles. No entanto, quem corre por gosto não cansa... além de que o reinado e as respectivas mordomias e benesses duram um ano. 

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

PyeongChang pode aproximar as Coreias?

Os XXIII Jogos Olímpicos de Inverno foram hoje oficialmente abertos em PyeongChang, na Coreia do Sul, com uma espectacular cerimónia de abertura que também ficou marcada pelo cumprimento do Presidente da Coreia do Sul à irmã mais nova do líder da Coreia do Norte. Este aperto de mão e o facto dos atletas das duas Coreias terem marchado sob uma bandeira da Coreia unificada no desfile de abertura, são sinais bem encorajadores de uma aproximação histórica entre as duas Coreias. Foi realmente um passo importante porque, em termos técnicos, os dois países continuam em guerra, já que em 1953 apenas foi assinado um armistício. É, portanto, um raro momento de aproximação que acontece numa época de grande tensão, embora aparentemente aconteça sem o apoio dos Estados Unidos. Porém, o grande desafio acontecerá quando terminarem os Jogos Olímpicos e expirar a “trégua olímpica”, pois só então se poderá ver se esta aproximação tem pernas para andar.
No que respeita aos aspectos desportivos dos Jogos Olímpicos, os principais aspectos a salientar são a participação de atletas de 92 países, que competirão em 15 disciplinas de inverno e poderão ter acesso a 102 finais.
As maiores delegações presentes em PyeongChang vieram dos Estados Unidos e do Canadá. A participação portuguesa é meramente simbólica e será assegurada por dois atletas: Arthur Hanse e Kequyen Lam.
Arthur Hanse é descendente de emigrantes portugueses, vive em Lyon e vai competir em slalom gigante e slalom; Kequyen Lam é filho de pais chineses que fugiram do Vietnam para Macau por causa da guerra sino-vietnamita e que, mais tarde, emigrou para o Canadá onde vive e vai competir em esqui de fundo.
Muitos jornais internacionais como o US Today dedicaram as suas edições de hoje aos Jogos Olímpicos, mas a imprensa portuguesa ignorou o assunto. É compreensível.

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

A estratégia nuclear de Donald Trump

No passado dia 30 de Janeiro, durante o seu Discurso sobre o Estado da União, Donald Trump anunciou uma nova estratégia relativamente às armas nucleares e disse que “devemos modernizar e reconstruir o nosso arsenal nuclear com a  esperança de nunca termos de o usar, mas fazendo-o tão forte e poderoso que impeça quaisquer actos de agressão. Talvez um dia, no futuro, haja um momento mágico em que os países se juntem para eliminar as suas armas nucleares mas, infelizmente, ainda não chegamos lá”.
A revista Time escolheu essa questão como o tema central da sua última edição e ilustrou a sua capa com uma fotografia de uma explosão nuclear durante um teste realizado em 1952 no Nevada Proving Grounds, que está encerrado há muitos anos e que Donald Trump mandou agora preparar para novos testes. O título escolhido pela revista foi “making America nuclear again”, mas o principal artigo intitula-se “Donald Trump Is Playing a Dangerous Game of Nuclear Poker”.
O discurso de Trump de 30 de Janeiro não surpreendeu. Antes, o Donald  já ameaçara a Coreia do Norte com um ataque de “fogo e fúria como o mundo nunca viu” e, nos primeiros dias de Janeiro, depois de Kim Jong-un ter dito que tinha um botão nuclear sempre na secretária, respondeu-lhe que também tinha um botão nuclear muito maior e mais poderoso do que o dele e que funcionava. De resto, a Administração de Trump já decidira o desenvolvimento de uma nova ogiva nuclear táctica, tendo disponibilizado muitos milhões de dólares para o efeito, com o argumento de que o arsenal nuclear americano já tem 34 anos de idade e precisava de ser renovado.
Há actualmente nove países que têm capacidade nuclear (Estados Unidos, Rússia, França, China, Reino Unido, Paquistão, Índia, Israel e Coreia do Norte), mas a nova doutrina Trump entende que só pode ser limitado o perigo nuclear mundial se a América tiver “capacidade para aniquilar os seus inimigos”. Porém, hoje o perigo nuclear é muito maior do que no tempo da Guerra Fria. A Rússia e a China modernizaram o seu armamento nuclear e a Coreia do Norte, o Paquistão, a Índia e Israel continuam a construir novos sistemas de armas nucleares. Já não são apenas duas potências em competição. Ao contrário das armas nucleares estratégicas que podem destruir cidades, as novas armas nucleares tácticas poderão ser aplicadas cirurgicamente e com objectivos mais limitados. Com a sua política, Trump está a gerar uma nova corrida às armas nucleares e o mundo está muito mais perigoso.

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Eanes um Presidente para a História

A revista do Expresso publicou na sua última edição uma longa e muito interessante entrevista com António Ramalho Eanes, o primeiro Presidente da República eleito pelo regime democrático quando tinha apenas 41 anos de idade.
É uma entrevista notável do homem que ocupou o Palácio de Belém entre 1976 e 1986 num tempo de grandes dificuldades políticas, económicas e sociais, na qual revela a sua inteligência, a sua sabedoria e a sua grande estatura intelectual na abordagem dos mais diversos temas nacionais e internacionais.
O conteúdo da entrevista só me merece uma palavra: imperdível.
Apesar de Mário Soares (1986-1996) e Jorge Sampaio (1996-2006) terem cumprido mandatos presidenciais merecedores de grande apreço por parte dos portugueses, o facto é que a figura e o desempenho presidencial de Ramalho Eanes permanecem vivos na memória dos portugueses e a leitura desta sua entrevista mostra porquê. “Estou em paz comigo mesmo. Posso ter cometido erros mas entendo que os cometi quase sempre com bom propósito, boa intenção, com uma correcção ética preocupada”.
Ao longo da entrevista o general Ramalho Eanes responde com segurança e pertinência às questões que lhe são colocadas no domínio da vida política nacional, dos partidos, dos sindicatos, das Forças Armadas, da reforma educativa, da reforma fundiária, do endividamento dos portugueses, da moeda única, da União Europeia, das consequências do Brexit, da política internacional e de muitos outros assuntos internos e internacionais. Está esperançado, mas também preocupado com o futuro porque “a paz mundial não está garantida”. Elogia a solução política actual por ter quebrado o princípio da inevitabilidade, porque “não há inevitabilidades e quem escreve o futuro são os povos”. Com grande verticalidade e sem complexos, afirmou que “socialmente sou um homem de esquerda”, porque defende a igualdade e a solidariedade.
Em síntese, é uma entrevista notável de um homem notável, que deve ser lida atentamente.

As relações entre a política e o futebol

As relações entre o futebol e a política portuguesa são muito íntimas, mas são indesejáveis e muito perigosas. Quando vemos as tribunas dos estádios sempre recheadas de políticos e sabemos que, todos os anos, os presidentes dos grandes clubes de futebol se encontram em jantares com os deputados afectos aos seus clubes, como hoje destaca o jornal i, não podemos deixar de nos preocupar.
Esta intimidade nada tem a ver com o gosto pelo espectáculo do futebol que é fantástico dentro das chamadas quatro linhas. Eu gosto de ver o Real Madrid e o Barcelona, o Manchester United e o Chelsea, o Mónaco e o PSG, mas não me interessam os longos e indigestos serões televisivos portugueses em que os chamados comentadores gritam, insinuam e acusam, revelando por vezes muita falta de educação e, sobretudo, a autêntica degradação que essa gente está a fazer desse fenómeno popular que é o futebol.
Os políticos podiam e deviam distanciar-se desta barafunda, mas perdem-se na sua ganância de aparecerem e ser vistos para ganharem notoriedade e votos. A aliança entre a televisão e o futebol favorece-os e permite-lhes estabelecer relações íntimas com esse estranho mundo do futebol que já não é um desporto, mas uma manta de interesses, em que domina o dinheiro e, provavelmente, a corrupção. Os deputados deviam ser o exemplo das virtudes e dos valores dos portugueses, mas quando se juntam ao mundo do futebol, ficam sujeitos ao ditado popular: diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és.
Os deputados são eleitos em nome de um partido e, portanto, têm o compromisso de defender o seu ideário político que, naturalmente, visa a defesa da soberania nacional, o progresso económico e social, a administração da justiça, a preservação do ambiente e da paisagem, além de muitas outras linhas programáticas. Por isso, integram as listas dos partidos para defender os programas dos seus partidos. Os eleitores escolhem o ideário de um partido e não escolhem deputados do SLB, do SCP ou do FCP. Quando estes mesmos deputados se coligam futebolisticamente não estão a dar resposta aos eleitores que neles votaram, porque o seu envolvimento no estranho mundo do futebol os descredibiliza e desautoriza. Os deputados não se devem envolver com o futebol. Aprendam: ao futebol o que é do futebol e à política o que é da política.
Jantares de deputados com os donos da bola? Não, obrigado!

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Macron e os independentistas corsos

O Presidente Emmanuel Macron realiza hoje a sua primeira deslocação oficial à Córsega para homenagear Claude Érignac, o prefeito de Ajaccio que foi assassinado há 20 anos por um comando da Frente de Libertação Nacional da Córsega (FLNC). O tema está na capa do Libération que refere a visita presidencial como "o momento corso"
É um momento muito ousado e muito difícil para Macron pois tomou a iniciativa inédita de conversar com os dirigentes nacionalistas corsos, nomeadamente o presidente do executivo local que é o autonomista Gilles Simeoni e o presidente da Assembleia Regional que é o líder independentista Jean-Guy Talamoni, que também é membro do partido independentista Corsica libera e do Conselho da Língua e da Cultura Corsa. Tal como tem acontecido nos anos anteriores, enquanto o autonomista Simeoni estará presente na cerimónia de homenagem a Érignac, o independentista Talamoni estará ausente. Desconhece-se a agenda destes encontros, mas Simeoni já declarou que é uma janela de oportunidade histórica para sair da lógica do conflito e passar para a lógica do diálogo, mostrando que a lição da Catalunha está presente na Córsega.
As reivindicações independentistas corsas resultam do facto da população que tem um pouco mais de 300 mil pessoas, ter língua e cultura próprias e se sentir mais italiana do que francesa. Por isso, em 1976 foi criada a FLNC (Fronte di Liberazione Naziunale Corsu), como movimento político que defende a independência da ilha de 8 mil km2, mas que é considerada uma organização criminosa por usar métodos de acção violentos que são inspirados na mafia italiana, como atentados, sequestros e vinganças.
A actividade da FLNC foi sempre muito dinâmica, embora tivesse anunciado em 2014 a sua progressiva desmilitarização e saída da clandestinidade. Emmanuel Macron terá aproveitado esta pausa e esta oportunidade para homenagear Claude Érignac, mas também para  tomar a iniciativa política e conversar com autonomistas e independentistas, por forma a evitar que a Córsega se transforme num problema semelhante ao da vizinha Catalunha.

domingo, 4 de fevereiro de 2018

O que fazer com o regresso dos jihadistas?

O Estado Islâmico do Iraque e do Levante, também conhecido por Isis e por Daesh, que em 2014 tinha proclamado um califado e que durante alguns anos ocupou grandes áreas territoriais da Síria e do Iraque, foi derrotado militarmente. Essa informação foi veiculada por russos e americanos, iraquianos e iranianos, a partir do dia 17 de Outubro de 2017 quando, após cinco meses de intensos combates, a cidade síria de Raqqa foi reconquistada pelas milícias curdas. Raqqa era a capital do Daesh e como sempre sucede nestes conflitos, a perda da capital significa a derrota.
Porém, a generalidade dos analistas considera que a derrota do Daesh não é o fim daquela organização e pensa que nesta altura ela já se estará a preparar para estabelecer uma rede global de terrorismo, provavelmente com base no Afeganistão.
O futuro do Daesh é, por isso, uma incógnita. No entanto, sabe-se que muitos dos seus combatentes estão a regressar aos seus países de origem acompanhados pelas suas famílias que entretanto se tornaram altamente enfeudadas ao fundamentalismo islâmico e que, talvez, estejam mobilizadas para a prática de actos terroristas. A capa do Courrier International é expressiva, com uma família a caminhar trazendo por mochila uma granada de mão. De acordo com um estudo publicado pelo semanário Le Point, desde 2014 terão partido 1700 franceses para o Iraque e para a Síria, dos quais 278 foram mortos, 690 ainda estarão na região, 302 já regressaram a França e 430 estarão em trânsito para regressar a França.
A imprensa francesa tem tratado regularmente este preocupante assunto, questiona-se sobre o quadro legal aplicável e pergunta “quelle justice pour les terroristes", analisando o seu “l’impossible retour”. Sabe-se que alguns deles já terão conseguido apoios para reintegração social e subsídios de desemprego, mas opinião pública francesa parece condenar esta reintegração e estes casos de crime sem castigo. Devem ou não regressar? Quem os julgará? A França procura as respostas.