domingo, 22 de outubro de 2017

A nova gestão emocional das calamidades

Afectos (ilustragargalo.bloguespot.com)
Os incêndios do passado fim-de-semana em Portugal foram uma calamidade e têm gerado reacções muito emocionadas por parte dos agentes políticos, umas mais sentidas e outras cheias de hipocrisia, outras inesperadas e outras tão oportunistas que, em conjunto, bem podem ser consideradas como um case study de uma nova disciplina a designar como Gestão emocional das calamidades públicas.
Os exemplos são muitos, mas basta ver alguns. O presidente da República levou a sua presença e uma palavra de alento às regiões sinistradas, mas rapidamente se deslumbrou e passou dos afectos a uma inoportuna e despropositada campanha de promoção pessoal; o primeiro-ministro esteve no meio de uma tempestade perfeita e viu-se cercado pelos estagiários do microfone e pelos comentadores de serviço, pelo que não reagiu bem à situação e até admitiu que não fez uma boa gestão emocional da tragédia; a deslumbrada jovem que dirige os centristas ainda inconformados com o seu afastamento do arco do poder, quis aproveitar a transição que se vive no PSD para sair da sua insignificância política, tratando de apresentar uma moção de censura ao governo e exigir o corte de cabeças, quando os incêndios ainda não estavam dominados.
Todas estas reacções merecem uma análise profunda que cada cidadão não dispensa de fazer Foi o que fez o cartoonista Vasco Gargalo que criou um cartoon com o título Afectos, dedicado a Marcelo Rebelo de Sousa e que publicou no passado dia 20 de Outubro no seu blogue.
A oportuna intervenção afectiva e solidária de Marcelo Rebelo de Sousa nas regiões sinistradas, rapidamente descambou para uma inoportuna peregrinação de demagogia presidencial, ornamentada por extensas comitivas de fotógrafos e de estagiários, naturalmente convidados pelos serviços da presidência da República para perpetuarem os afectos do presidente em imagem e som. Não está certo e, como diz o povo, no melhor pano cai a nódoa. Parabéns Vasco Gargalo.

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

A União Europeia apoia a Espanha unida

O Conselho Europeu reuniu ontem em Bruxelas e, segundo parece, tratou sobretudo dos problemas ibéricos. Por um lado, expressou solidariedade aos dois países perante a calamidade dos incêndios florestais, daí resultando que Portugal e a Espanha irão accionar de forma coordenada o fundo de solidariedade da União Europeia, na sequência dos grandes incêndios do passado fim-de-semana.
O Conselho Europeu não tomou posição quanto ao problema da Catalunha por ser um problema interno da Espanha, mas mostrou um total apoio à política que está a ser seguida por Mariano Rajoy, com o apoio do PSOE e dos Cyudadanos, afirmando-se a favor de uma Espanha unida, conforme hoje relata El País.
Significa que, os aventureiros líderes da Catalunha estão cada vez mais isolados, não só no plano político, mas também no plano económico e social, pois mais de 900 empresas já tiraram a sua sede da Catalunha e até a Volkswagen já deu luz verde para a saída da Seat da região. Com a aplicação do artigo 155 da Constituição espanhola e a suspensão da autonomia catalã, não tardará a que os efeitos económicos e sociais da deriva independentista resultante da arrogância, do populismo e da ausência de estratégia do governo de Carles Puigdemont.
Porém, o problema catalão está longe de estar resolvido, embora a marcação de eleições possa ser uma solução que traga serenidade e abra as portas ao diálogo.
A União Europeia teve uma crise financeira que depois se transformou numa crise económica, social e migratória, mas atravessa agora a ameaça de alguns governos extremistas ou xenófobos e está confrontada com o problema espanhol que é também um problema europeu, porque a Europa tem muitas catalunhas.

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Marcelo e Costa com emoções diferentes

Marcelo Rebelo de Sousa falou ontem ao país a partir da Câmara Municipal de Oliveira do Hospital e, visivelmente emocionado, prestou homenagem às vítimas dos incêndios do passado domingo e avisou que é preciso “abrir um novo ciclo” e que isso “inevitavelmente obrigará o governo a ponderar o quê, quem, como e quando melhor serve esse ciclo”.
Se num discurso conta a forma e o conteúdo da mensagem, o Presidente da República acertou nessas duas dimensões, pois levou uma palavra de conforto aos que dela precisavam, deu alento aos que suportaram o terror das chamas e deu um enorme safanão nos políticos em geral e, em especial, naqueles que estão no governo. Com as suas palavras e as suas atitudes e perante a tragédia que nos enlutou, Marcelo Rebelo de Sousa revelou uma grandeza que nos conforta e nos faz ter esperança em tempos melhores.
Antes, quando o país ainda ardia e as televisões nos mostravam a dimensão catastrófica daquele dia terrível, o primeiro-ministro António Costa falara ao país para anunciar que “no dia de ontem deflagraram 523 incêndios e no dia de hoje deflagraram mais 199”, acrescentando que “o país tem de estar consciente que a situação que estamos a viver vai seguramente prolongar-se para os próximos anos”. Embora o seu discurso tenha sido formalmente correcto e tenha dito que era um momento de luto e de ter manifestado condolências às famílias das vítimas, ter agradecido a todos, ter prometido solidariedade e ter assegurado que sentia a angústia e a aflição vivida nas últimas horas por muitos portugueses, o seu discurso foi frio e sem qualquer sinal de emoção, não conseguindo dar ânimo nem confiança aos portugueses e quase os repreendendo pelo que acontecera.
Todos os jornais destacaram a eloquente fotografía e as expressivas palavras de Marcelo, num inequívoco apoio ao comportamento presidencial, enquanto as críticas a Costa vieram de todos os sectores da sociedade.
Nesta calamidade que têm sido os incêndios florestais, com tantas mortes e tanta destruição de património, Marcelo e Costa estiveram em patamares bem diferentes, revelaram emoções diferentes e isso vai ter consequências. Os tempos que aí vêm não vão ser fáceis.

terça-feira, 17 de outubro de 2017

O "terrorismo del fuego" andou por aí

Ao contrário da imprensa portuguesa que hoje destaca o número de mortes que os incêndios florestais já provocaram e salienta as graves responsabilidades do Estado, a imprensa espanhola descreve os efeitos calamitosos da vaga de incêndios que deflagraram no norte de Espanha e defende a tese da sua origem intencional ou criminosa.
O diário ABC afirma mesmo na sua manchete que o que aconteceu no norte de Espanha e de Portugal é um terrorismo del fuego, com a polícia espanhola a atribuir a responsabilidade por todos os fogos havidos na Galiza a um grupo organizado, enquanto em Portugal se discutem as causas da tragédia com base na seca extrema e no descuido das populações, procurando-se identificar os responsáveis políticos. Será prudente que pensemos como os espanhóis e que também adoptemos a tese da intencionalidade ou do terrorismo, porque foram demasiados incêndios a deflagrar em Portugal no passado fim de semana. Não foi apenas a negligência dos homens, nem as condições meteorológicas anormais. Estamos, portanto, perante um problema a que o Ministério Público não pode ficar alheio.
O problema dos incêndios florestais é muito sério e, durante muitos anos, parece não ter merecido a atenção das autoridades e, por isso, quem agora pretende olhar para o assunto como um caso de negligência ou de incompetência política do actual governo comete um erro grave. O problema foi sempre tratado como um assunto menor e sempre se tapou o sol com a peneira, isto é, financiou-se o combate aos incêndios que tem sido uma manjedoura onde vai beber muitíssima gente de vários partidos e de muitos interesses, em vez de se financiar a prevenção e o ordenamento florestal. Construiram-se quartéis imponentes e compraram-se inúmeras viaturas para os bombeiros, mas acabaram-se com os guardas florestais. Facilitou-se a cultura do eucalipto e do pinheiro bravo. Não foi devidamente promovida a limpeza da floresta. Não se percebeu que o mundo rural já não é o que era. O erro é histórico e muito antigo, mas talvez seja possível que, sobre as cinzas das tragédias recentes que devastaram muitas regiões do país, se possa criar um consenso nacional para encarar o problema, sem a mesquinhez política que se tem visto nas televisões e que tem sido apoiada pela cegueira de muitos jornalistas e comentadores.

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

A tragédia regressou com os incêndios

Todos os jornais portugueses desta manhã dedicaram as suas manchetes aos graves incêndios florestais que têm afectado de forma trágica o norte e o centro de Portugal, anunciando que já tinha havido três mortes. O Jornal de Notícias escreveu em primeira página que “o Diabo andou à solta” e a Protecção Civil classificou o dia de ontem como o pior do ano, com 523 ocorrências.
Hoje, o centro do país estava envolvido numa espessa núvem de fumo, muitos incêndios continuavam activos e anunciavam-se 36 mortes e 63 feridos em consequência do fogo. As imagens televisivas têm mostrado a violência dos incêndios e o dramatismo da tragédia, a escassez de meios para combater o fogo, o desespero das populações e até a imbecilidade de alguns jornalistas, apostados em fazer espectáculo e em antecipar um julgamento político da tragédia.
O drama que está a cair sobre Portugal também chegou à Galiza e os jornais galegos escolheram títulos significativos como “Ataque incendiario y mortal a Galicia” (La Voz de Galicia da Coruña), “Muerte y horror por el terrorismo incendiario” (Faro de Vigo) e “Ataque a Galicia” (El Progresso de Lugo).
Porém, enquanto na Galiza é assumido pela imprensa e pelas autoridades que a vaga de incêndios resulta de ataques incendiários e terroristas, em Portugal continua a tratar-se este assunto como resultado da reconhecida falta de cuidado das populações ou como resultado da actuação casual e criminosa de incendiários, embora já tivesse aparecido alguém com responsabilidades a declarar que acredita “que haja uma organização terrorista que esteja premeditadamente a incendiar o nosso país”.
O país ainda não estava refeito do choque dos incêndios do passado mês de Junho que afectaram dramaticamente Pedrógão Grande e agora vê-se confrontado com nova calamidade. Perderam-se mais de uma centena de vidas nos dois incêndios e as duas tragédias não vão ser esquecidas. O nosso país está de luto. É preciso um esforço colectivo para ultrapassar esta calamidade e, tal como em Junho, é despropositado que alguém faça aproveitamentos políticos desta tragédia. É preciso actuar dando ouvidos a quem sabe.

domingo, 15 de outubro de 2017

Brasília sofre com o calor e com a seca

A cidade de Brasília parece estar a ser vítima das alterações climáticas, pois os termómetros marcaram 35ºC no dia mais quente do ano e a humidade relativa chegou a 12%. O jornal Correio Braziliense pergunta que clima é este, que em pleno mês de Outubro, o mês em que as chuvas começam a chegar, está a sofrer os efeitos de um clima típico do deserto, com excesso de calor e baixa humidade, mas também alguns incêndios florestais e o racionamento de água. O calor e a seca estão a afectar os brasilienses e não se espera que chova nos próximos dias, enquanto as previsões apontam para que esta situação se mantenha por mais uma semana pelo menos. O recorde histórico de 36,4ºC registado em Brasília em Outubro de 2015, pode ser ultrapassado nos próximos dias.
Os brasilienses estão desesperados e a subsecretaria da Defesa Civil declarou o estado de emergência no Distrito Federal, recomendando que seja interrompido o trabalho ao ar livre entre as 10 e as 17 horas.
A juntar ao calor e à seca extremos, também ocorreram alguns incêndios florestais, sobretudo o que afectou o Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, enquanto os reservatórios de água estão nos seus limites mínimos e é cada vez mais provável que venha a ser racionado o abastecimento regular de água potável.
Significa que as alterações climáticas são mesmo uma realidade à escala global e que é necessário cumprir com o Acordo de Paris assinado em 2015 por 195 países, para gerir a redução das emissões de dióxido de carbono  e reduzir o aquecimento global.

sábado, 14 de outubro de 2017

A Europa diz "não" à república catalana


No dia 29 de Setembro escrevemos aqui que a independência da Catalunha ficava adiada e que nenhum país europeu apoiava a Catalunha porque,” em maior ou menor grau, todos têm as suas próprias catalunhas na Escócia, na Flandres, na Córsega, na Sardenha e em tantos outras regiões americanas, russas ou chinesas”.
De facto, assim está a acontecer, sucedendo-se as declarações de apoio à unidade da Espanha. Hoje, os jornais espanhóis, como por exemplo o elPeriódico, destacam as declarações de Jean Claude Juncker, o presidente da Comissão Europeia, que veio agora tomar posição e afirmar que não quer “uma União Europeia de 98 países dentro de 15 anos”, que não apoia a pretensão da Catalunha e quer evitar o contágio independentista.
Um dos principais objectivos da União Europeia é a coesão económica, social e territorial, assim como a solidariedade entre os seus Estados-membros para promover o seu desenvolvimento harmonioso, a redução das disparidades e o atraso das regiões menos favorecidas. Por isso, no caso da Catalunha, a par de uma legítima aspiração histórica, está a uma vontade egoista de pagar menos e de ser menos solidária, o que contraria o espírito da União Europeia.
Porém, essa falta de solidariedade não é apenas catalã. Todos nos lembramos das declarações de Jeroen Dijsselbloem, o presidente do Eurogrupo, quando criticava os países do sul e, hoje mesmo, a imprensa refere a realização no próximo dia 22 de Outubro de referendos na Lombardia (região de Milão) e no Véneto (região de Veneza), que são as mais ricas regiões de Itália, alegadamente para conseguirem maior autonomia financeira em relação ao governo de Roma, mas o facto é que o virus independentista no norte da Itália apenas está adormecido.
Quanto à Catalunha, a incerteza continua. Desde o dia 1 de Outubro, houve mais de cinco centenas de empresas que já mudaram a sua sede para fora da Catalunha, mas as linhas mais radicais de apoio à independência continuam activas e a pressionar Carles Puigdemont.

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Os 20 anos do Museu Guggenheim Bilbao

A Espanha tem estado concentrada na situação política que se vive na Catalunha e que todos os dias regista novos episódios em que se torna evidente a perda de força das teses soberanistas. Os independentistas terão a História pelo seu lado mas não conseguem nenhum apoio internacional, estão ameaçados pelo caos económico e o seu projecto político afasta-se claramente da Europa da solidariedade. A razão começa a sobrepor-se à emoção e muitos começam a desmobilizar. Carles Puigdemont e as suas coligações começam a fracturar-se, embora ainda não se vislumbre a luz ao fundo do túnel quanto à solução da instabilidade na Catalunha.
Entretanto, o jornal El Correo que se publica na cidade de Bilbau, a capital da província da Vizcaya, uma das três províncias da Comunidade Autónoma do País Basco, não deixou de publicar hoje uma fotografia do seu mais conhecido ícone – o Museu Guggenheim Bilbao, um museu de arte contemporânea que foi desenhado pela equipa do arquitecto Frank Gehry e que foi inaugurado em 1997. A propósito do 20º aniversário da sua inauguração, o Ayuntamiento de Bilbao, a Diputación de Bizkaia e a Iberdrola encomendaram a uma empresa britânica um espectáculo de luz, cor e som com cerca de 20 minutos de duração que está a ser apresentado até ao próximo sábado, desde as 20.30 às 23.00 horas. O espectáculo intitula-se “Reflexões”, é exibido sete vezes por dia e nele trabalhou uma equipa de cinquenta pessoas durante um ano, que é a mesma que foi responsável pelo vídeo inaugural dos Jogos Olímpicos de Londres. Segundo dizem as crónicas, o efeito é deslumbrante, embora torne intransitáveis as ruas mais próximas.
Curiosamente, nas proximidades encontra-se o Paraninfo da Universidade do País Basco, uma obra do arquitecto português Álvaro Siza Vieira que foi inaugurada em 2010.

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

O caos económico ameaça a Catalunha

Os acontecimentos na Catalunha têm-se sucedido com enorme rapidez, sobretudo depois do dia 1 de Outubro, com avanços e recuos a fazerem lembrar-nos o Verão Quente de 1975 em Portugal.
O referendo realizado nesse dia foi um acto meramente simbólico e sem credibilidade, mas efectuou-se apesar das tentativas da polícia para o bloquear. O governo da Catalunha tratou de anunciar vitória e acusou a polícia nacional de acções desproporcionadas e violentas de que resultaram muitas centenas de feridos, mas esses anúncios não passaram de acções de propaganda. Entretanto, as forças apoiantes da unidade da Espanha reagiram e vieram para as ruas de Barcelona numa grande manifestação, comparável às que tinham apoiado a realização do referendo e a independência da Catalunha. A Catalunha ficou mais dividida. Os defensores da unidade da Espanha ganharam um novo fôlego, enquanto os independentistas perderam uma parte do seu fulgor. Ao mesmo tempo surgiram os anúncios da retirada da Catalunha das sedes de muitas empresas, enquanto chegavam de diversas capitais europeias muitos avisos de que a independência da Catalunha significaria a saída da União Europeia. A ideologia começou a ceder à economia e alguns jornais começaram a falar em caos, como sucede hoje com El País. O cerco às teses de Carles Puigdemont e Oriol Junqueras acentuou-se, interna e internacionalmente. O seu aventureirismo e os seus saltos no escuro foram desmascarados. O recuo parecia ser a atitude mais sensata e mais prudente para evitar o agravamento da crise económica e social que já se anuncia na Catalunha, mas havia o compromisso de declarar a DUI (Declaração Unilateral de Independência).
Ontem, Carles Puigdemont falou no Parlamento da Catalunha e não foi capaz de desenrolar o novelo em que se envolveu. Acusou o governo de Mariano Rajoy, vitimizou-se e não deixou claro se declarou ou não a independência, voltando a pedir uma mediação internacional para negociar, embora saiba que o governo espanhol a rejeita. Os seus apoiantes independentistas da CUP ficaram decepcionados e ameaçam abandoná-lo. O seu recuo para ganhar tempo mostra que já foi engolido pelos acontecimentos. Esta manhã o governo espanhol encostou-o à parede e perguntou-lhe se declarou ou não a independência da Catalunha. Puigdemont ficou encurralado "entre a espada e a parede", vai ser "preso por ter cão e preso por não o ter" e vai ter um triste fim político.
Como aqui escrevemos no dia 29 de Setembro, o futuro da Catalunha terá de ser conduzido por gente mais capaz que os Puigdemont e os Oriol Junqueras, que já perderam esta batalha pela independência da Catalunha.

As alegrias únicas que o futebol nos dá

A selecção nacional de futebol venceu ontem a selecção suiça no estádio da Luz e apurou-se para o Campeonato do Mundo de Futebol que, no próximo ano, se vai disputar na Rússia.
A noite de ontem, serviu não só para assegurar esse apuramento, mas também para elevar o orgulho nacional e a auto-estima dos portugueses. Com esse festejado triunfo, Portugal ingressou no restrito grupo de países que estará no Mundial, o que o torna sujeito num dos temas dominantes da actualidade, porque a partir de agora, através dos meios de comunicação social, o mundo vai falar das selecções e dos países que vão estar presentes na Rússia.
As imagens televisivas foram esclarecedoras quanto ao entusiasmo ou mesmo à euforia dos portugueses. De resto, quase tudo parece correr bem nesta terra, desde a paz social até ao bom desempenho da economia, passando pela estabilidade política, pela multidão de turistas que nos visitam e pelo futebol. Só a prolongada seca, a persistência dos incêndios, o aumento da dívida externa e a demagogia de certas figuras políticas nos contrariam o nosso contentamento.
A imprensa destacou, naturalmente, o apuramento português e o jornal A Bola escolheu o sugestivo título de Nação Valente, retirado do texto do Hino Nacional que milhares de espectadores cantaram no final do jogo, num inesperado momento de grande emoção.
Infelizmente, este momento de euforia vai ser efémero nas nossas televisões. Vão voltar rapidamente os longos espaços televisivos com enjoativos debates sobre o futebol caseiro e com a exibição de um doentio fanatismo clubístico, apoiado no discurso injurioso dos dirigentes, nas vicissitudes das arbitragens ou na enfadonha discussão sobre se numa determinada jogada houve mão na bola ou bola na mão.
É uma pena que as televisões, sobretudo o serviço público de televisão, dê guarida a tantos fanáticos investidos em comentadores de televisão.

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Che Guevara, 50 anos depois da sua morte

Foi há 50 anos, no dia 9 de Outubro de 1967, que Ernesto Guevara de la Serna, mundialmente conhecido como “Che” Guevara, foi executado em La Higuera, na província de Vallegrande, no sudoeste da Bolívia. Tinha 39 anos de idade e a revista Time considerou-o uma das cem personalidades mais importantes do século XX.
Nascera em 1928 na cidade argentina de Rosário no seio de uma família abastada e formara-se em Medicina na Universidade de Buenos Aires, mas veio a trocar a vida confortável que o esperava por uma causa em que acreditou, ao juntar-se aos oposicionistas cubanos que lutavam contra o ditador Fulgêncio Baptista, então exilados no México. No dia 26 de Novembro de 1956 integrou o grupo de 82 homens que sob o comando de Fidel de Castro, partiu do porto mexicano de Tuxpan a bordo do pequeno iate Granma e, uma semana depois, desembarcou numa praia da província cubana do Oriente. Durante o desembarque o grupo foi atacado pela aviação cubana e apenas 12 homens sobreviveram. Ernesto Guevara foi um deles. Esse pequeno núcleo de sobreviventes reagrupou-se na Sierra Maestra, conduziu a guerrilha contra o regime cubano e cerca de 25 meses depois, no dia 1 de Janeiro de 1959, as forças do exército rebelde entraram triunfantes em Havana. Foi uma grande vitória militar e o médico argentino que integrara a guerrilha, tornara-se num dos seus mais destacados comandantes. Mais do que Fidel, Camilo ou Raúl, o Che tornou-se o símbolo da vitória.
Sobre a revolução cubana que foi dura, violenta e sangrenta já quase tudo foi escrito, quer pelos seus inflamados defensores, quer pelos seus intransigentes críticos.
Depois de ter ocupado vários importantes cargos no período pós-revolucionário, o Che deixou Cuba em 1965 com a intenção de levar a luta armada ao Terceiro Mundo. Nunca mais voltou a Cuba. Primeiro esteve em África a apoiar a independência do Congo e, depois, instalou-se nas montanhas da Bolívia onde, inspirado no exemplo da Sierra Maestra, pretendeu criar um foco guerrilheiro. Porém, não teve os apoios populares por que esperava e foi derrotado. No dia 8 de Outubro de 1967 foi capturado pelas forças militares bolivianas apoiadas pela CIA, quando estava ferido e doente. Na manhã seguinte, veio de La Paz a ordem para que fosse executado e a ordem foi cumprida com uma rajada de espingarda metralhadora. Nasceu então o mito do Che revolucionário, idealista e mártir.
Cinquenta anos depois, o simbolo maior da revolução cubana e da utopia da libertação dos povos da América Latina mantém-se vivo. As actuais gerações que por todo mundo  usam a imagem do Che, quase como uma marca comercial de sucesso, mas não o fazem por razões políticas ou ideais revolucionários, mas apenas porque ele representa um homem de causas e de ideais que não se deixou corromper pelo poder e que tudo sacrificou a esses valores. Por isso, o seu exemplo continua presente um pouco por todo o lado e alguns jornais, como o diário boliviano La Razón, evocam o homem e a sua memória.

sábado, 7 de outubro de 2017

Mocímboa da Praia e as minhas memórias

Mocímboa da Praia é uma localidade por onde passam muitas das minhas memórias pessoais, consolidadas há muitos anos quando visitava a sua pequena baía e vestia a camisa do botão de âncora.
Localizada na costa moçambicana da província de Cabo Delgado e a menos de 100 quilómetros da fronteira com a Tanzânia, a vila apareceu ontem referida com grande destaque no diário moçambicano O País, com o título "Tensão em Mocímboa da Praia". As notícias referem que a povoação foi atacada por cerca de três dezenas de elementos fundamentalistas islâmicos que integram uma célula do grupo terrorista Al-Shabab, que também actua na Somália e no Quénia. O grupo terá atacado três ou quatro postos policiais e, segundo as informações disponíveis, nos confrontos havidos terão sido abatidos dez terroristas e detidos quinze, enquanto terão sido mortos quatro agentes policiais. Uma parte do grupo atacante parece ainda estar a ocupar parte da vila, pelo que a tensão é muito grande, com as ruas desertas e quase todo o comércio e serviços fechados, incluindo as instituições estatais.
A presença em território moçambicano deste grupo fundamentalista islâmico, que é formado maioritariamente por jovens, já dura há alguns anos, mas tem vindo a intensificar-se nos últimos tempos. Segundo informa o jornal, vários contingentes da Unidade de Intervenção Rápida da Polícia moçambicana estão na região a fim de restabelecer a ordem.
Moçambique já tem alguns problemas sérios, mas não pode deixar de dar muita atenção a esta ameaça, até porque o islamismo tem uma forte implantação naquela região que, há pouco mais de cem anos, era dominada pelo sultanato de Zanzibar. Portanto, as autoridades moçambicanas têm que estar atentas e actuar enquanto é tempo.

The Times e o bom fotojornalismo inglês

A imprensa britânica cultiva o fotojornalismo, por certo como nenhuma outra no mundo, sobretudo quando regista imagens de efemérides astronómicas ou de paisagens marítimas.
Nessa linha editorial, o diário The Times destaca hoje na sua primeira página e com grande destaque uma fotografia a quatro colunas da Lua cheia, captada no Solent, isto é, o canal que separa o sul da Inglaterra da ilha de Wight, próximo de um dos quatro fortes construídos no século XIX para proteger o porto de Portsmouth de qualquer ataque marítimo vindo do sul. É uma bela fotografia que valoriza a capa do jornal.
A Lua ocupa um lugar importante em muitas mitologias e lendas populares de inúmeras culturas do nosso planeta. De acordo com a cultura britânica e norte-americana, cada uma das Luas cheias que ocorre durante o ano tem um nome diferente relacionado com as estações do ano no hemisfério norte e que serve de referencial para as diversas épocas agrícolas. A Lua cheia de Setembro é a mais próxima do equinócio do Outono (22 de Setembro) e é conhecida como a Harvest Moon ou Fruit Moon. Porém, neste ano de 2017, essa Lua cheia só aconteceu em Outubro o que já não acontecia desde 2009.
Foi essa imagem da Lua cheia sobre o Solent que o jornal The Times publicou.
Curiosamente, a mesma edição anuncia uma entrevista com António Horta Osório, o presidente executivo do famoso Lloyds Bank que afirma que, no exercício das suas relevantes funções, o stress quase o quebrou.

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

O novo Terminal de Cruzeiros de Lisboa

No quadro da globalização e, em especial, da abertura económica que hoje caracteriza a União Europeia, as cidades competem para valorizar a sua base económica e para atrair actividades e recursos. O caso da Agência Europeia do Medicamento que vai sair de Londres e para a qual se candidataram 19 cidades para a acomodar no futuro, mostra como é dura a luta das cidades para atrair organizações, actividades, eventos, congressos, investimentos e tudo o que possa gerar rendimentos, criar empregos, aumentar a notoriedade, valorizar a sua imagem e atrair visitantes.
Portugal e em particular a sua capital não têm descurado esta nova filosofia. Apesar de ser um país e periférico e de muitas vezes não poder competir com os seus parceiros economicamente mais fortes, Portugal tem desenvolvido um significativo esforço no sentido de se modernizar e de atrair grandes eventos internacionais. Assim aconteceu com a Expo 98, com o Euro 2004 e com a Web Summit 2016, mas também com o Rock in Rio que é um dos maiores festivais de música do mundo e que desde 2004 se tem realizado em Lisboa ou com a Volvo Ocean Race, a volta ao mundo à vela que desde 2012 escala o porto de Lisboa. A cidade de Lisboa tem sido a cidade portuguesa mais beneficiada com estes eventos, tendo aproveitado a sua relação íntima com o rio Tejo para se afirmar, daí resultando que tenha sido contemplada com a construção de novas infraestruturas que vêm harmonizando essa relação, muito importante para o turismo e para a economia do mar.
Depois da construção do Centro de Investigação para o Desconhecido da Fundação Champalimaud, um projeto de autoria do arquitecto goês Charles Correa que foi inaugurado em 2010 e do MAAT – Museu de Arte, Arquitectura e Tecnologia que foi concebido pela arquitecta britânica Amanda Levete, inaugurado em 2016, está em vias de ser inaugurado o novo Terminal de Cruzeiros de Santa Apolónia, uma obra da autoria do arquitecto Carrilho da Graça.
Hoje o jornal Público publicou uma entrevista com o autor da obra e, por acaso, havia hoje 4 grandes navios de cruzeiro atracados nos cais adjacentes ao novo Terminal, a mostrar que o turismo de massa está em Lisboa.

A Catalunha terá de esperar mais tempo

A edição que hoje foi posta a circular da revista The Economist destaca como tema principal a situação na Catalunha e afirma que “quem fizer a declaração de independência será responsável pelo enorme dano que se fará à Catalunha e aos catalães, à Espanha e aos espanhóis e à Europa e aos europeus”.
Carles Puigdemont tem ameaçado que fará brevemente a DUI (Declaración Unilateral de Independencia), mas os seus entusiasmados apoiantes parece que se estão lentamente a desmobilizar. Ao fim de alguns dias de verdadeira insurreição patrocinada pelo governo catalão, o balanço começa a ser muito desfavorável para os independentistas, pois não conseguiram reconhecimento internacional e começam a assistir aos primeiros sinais de uma crise económica e financeira que se aproxima e que será muito dura para a população.
O referendo do dia 1 de Outubro foi uma farsa em que cada um votou como quis, as vezes que quis e nos locais que quis. As cargas policiais que vimos foram sobretudo respostas a provocações e não foram diferentes das que acontecem para resolver problemas com claques do futebol. Ninguém viu um único dos mais de oito centenas de feridos que foram anunciados e que, por serem desproporcionados, não foram levados a sério.
Os dirigentes independentistas já estão derrotados pela sua própria estratégia que não serviu a sua causa, eventualmente justa, mas que requeria uma abordagem menos emocionada e mais racional, menos de rua e mais de negociação. A generalizada desobediência e a quase insurreição popular que foi patrocinada pelos independentistas não agradou aos seus possíveis aliados europeus que têm as suas próprias catalunhas e não querem abrir nenhuma caixa de Pandora, num tempo em que há outros problemas para resolver. Carles Puigdemont e Oriol Junqueras já perderam esta batalha. Parece-me que a independência da Catalunha vai ter de esperar.