terça-feira, 12 de dezembro de 2017

A guerra do Brasil é contra a violência

Na sua edição de hoje, o jornal O Globo que se publica no Rio de Janeiro, inicia uma reportagem sobre “a guerra do Brasil”, que ilustra na sua edição online com um expressivo documentário de cerca de 14 minutos sobre a violência no país.
A partir da triste realidade de terem sido assassinadas 786 mil pessoas no Brasil entre 2001 e 2015, significando que nesse período se registou um homicídio em cada 10 minutos, a reportagem aborda este drama brasileiro ou esta guerra em que o Brasil está envolvido.
Assim, a reportagem considera que o número total de mortos na guerra da Síria (331 mil) e na guerra do Iraque (268 mil), é inferior ao número de mortes por homicídio ocorridos no Brasil nos últimos 15 anos, o que mostra que a violência mata mais do que a guerra.
A violência no Brasil tem crescido nos últimos anos a um ritmo mais intenso do que o próprio crescimento da população e, em cada ano, já se contabilizam mais de 60 mil homicídios, sendo no Estado do Rio de Janeiro que a situação é mais grave. Mesmo nos países mais populosos do mundo, como a China ou a Índia, este drama não tem a gravidade que está a ter no Brasil.
Embora esta situação resulte de factores sociais muito diversos, incluindo a pobreza e a desigual distribuição do rendimento nacional, a reportagem sugere que o fenómeno está relacionado com a ausência de políticas públicas que tratem o problema da segurança em articulação com as questões sociais da pobreza e da exclusão.
Porém, a instabilidade política no Brasil tem sido tão grande que é difícil imaginar o desenvolvimento de uma estratégia nacional contra a violência, tal como contra a pobreza, a fome ou a corrupção, porque todas essas estratégias obrigam a atacar as raízes dos problemas e, naturalmente, a atacar muitos interesses instalados.

domingo, 10 de dezembro de 2017

A incerteza das eleições da Catalunha

Aproxima-se o dia 21 de Dezembro, o dia em que os catalães vão a votos para escolher um novo quadro político que possa contribuir para a resolução do conflito nascido nos últimos meses e que se agravou nas últimas semanas, quando o parlamento catalão proclamou a independência unilateral da Catalunha. Como resposta, o governo de Mariano Rajoy accionou o artigo 155 da Constituição, suspendeu a autonomia catalã, demitiu o governo de Carles Puigdemont e marcou novas eleições autonómicas para o dia 21 de Dezembro. Entretanto, os principais dirigentes soberanistas foram presos, ou estão em liberdade condicional depois de terem pago cauções, ou ainda, estão exilados em Bruxelas.
Ao fim da primeira semana de campanha eleitoral, começam a ser divulgadas algumas sondagens e as projecções apontam para um empate técnico entre soberanistas e unionistas. No campo independentista as sondagens apontam para 66 ou 67 dos 135 deputados (31 ou 32 da ERC, 30 da Coligação Junts pel Si e 5 da CUP), enquanto nas forças unionistas apontam para 68 ou 69 deputados (30 ou 31 dos Cyudadanos, 22 do PSC, 8 do PP e 8 do Podemos).
Para além da incerteza quanto ao bloco que vai obter a maioria parlamentar, também há uma grande incerteza quanto ao partido que vai ser mais votado, isto é, a ERC, o JxCat ou o Cys, pelo que, neste quadro de incerteza, o diário catalão elPeriódico alerta para uma possível Catalunha ingovernável.
Associadas às sondagens foram colocadas questões aos eleitores catalães e verificou-se que 70% admite que a economia catalã se ressentiu da Declaração Unilateral de Independência, que 57% confia em que se abra uma negociação com Madrid e que 46% acredita que o processo independentista continuará depois de 21 de Dezembro. Portanto, parece que depois de 21 de Dezembro, continuaremos com a Catalunha nas primeiras áginas dos jornais e como notícia de abertura dos telejornais das boas televisões se as houver.

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Trump já ultrapassou a linha vermelha?

A decisão de Donald Trump de reconhecer a cidade de Jerusalém como a capital do Estado de Israel e de para lá transferir a Embaixada dos Estados Unidos chocou o mundo e provocou reacções políticas e religiosas muito críticas e muito preocupadas.
O problema da coexistência entre Israel e a Palestina é, porventura, um dos maiores casos de conflitualidade que o mundo conhece e uma situação de potencial confronto generalizado, porque o estatuto de Jerusalém constitui uma questão central no conflito israelo-palestino.
Jerusalém é uma das mais antigas cidades do mundo e é considerada uma cidade sagrada por três das principais religiões, respectivamente o judaismo, o cristianismo e o islamismo. Por isso, no plano das Nações Unidas que levou à criação do Estado de Israel em 1948, a cidade de Jerusalém ficou com o estatuto de cidade internacional. Porém, nesse ano e na sequência da 1ª guerra israelo-árabe, a cidade foi ocupada por israelitas (Jerusalém Ocidental) e por jordanos (Jerusalém Oriental), mas em 1967 os israelitas ocuparam toda a cidade durante a Guerra dos Seis Dias. Israel tratou então de ocupar efectivamente a cidade e fazer dela a sua capital, mas a comunidade internacional rejeitou a anexação de Jerusalém Oriental e considerou essa parte como território palestiniano ocupado ilegalmente por Israel. Nesse sentido, em 1980 o Conselho de Segurança das Nações Unidas, através da sua Resolução 478, convidou todos os países a retirar as suas embaixadas de Jerusalém para Telavive. E assim aconteceu, pelo que não há quaisquer embaixadas em Jerusalém, que é a cidade onde a Palestina espera instalar a sua capital, o que mostra como é muito sensível este problema.
A decisão de Donald Trump parece ter resultado de problemas internos e de uma tentativa de recuperar o apoio do seu eleitorado mais radical, sobretudo os evangélicos conservadores mas também, embora em menor número, os judeus americanos.
As negociações de paz entre Israel e a Palestina estão seriamente comprometidas e o diário Gulf News que se publica no Dubai, ilustrou a sua primeira página com uma fotografia da cidade de Jerusalém, na qual aparece em plano destacado a cúpula dourada do milenar Domo da Rocha na cidade velha, que é um dos mais sagrados locais do Islão e um aviso que é esclarecedor: Trump ultrapassou a linha vermelha.
O mundo árabe está revoltado e já reagiu. Será que o Donald ultrapassou mesmo a linha vermelha?

Mais um troféu para Cristiano Ronaldo

Cristiano Ronaldo ganhou ontem pela 5ª vez o Ballon d’Or atribuido pela revista France Football e igualou o talentoso argentino Lionel Messi que antes conquistara cinco troféus. Os jornais desportivos portugueses e espanhóis destacaram a notícia e a fotografia de Cristiano Ronaldo encheu várias primeiras páginas, como por exemplo no diário madrileno as.
A atribuição de prémios de prestígio internacional a Cristiano Ronaldo transformou-se numa rotina que se sucede anualmente, não tanto por ser o melhor do mundo – uma coisa que não pode ser comprovada – mas por recolher simpatias e votos da comunidade futebolística mundial, como aconteceu agora ao recolher mais pontos numa votação exclusiva a  jornalistas de todo o mundo. Os 173 votantes deram 946 pontos a Cristiano Ronaldo, enquanto os seus rivais Messi e Neymar somaram 670 e 361 pontos, respectivamente.
É cada vez mais difícil contabilizar os prémios que o artista-futebolista do Funchal já recebeu entre Bolas e Botas vindas da FIFA, da UEFA e de outras organizações. É notável! O facto  indesmentível é que Cristiano Ronaldo é o português mais famoso que o mundo conhece e que ontem, num espectacular cenário, apareceu no centro da Torre Eiffel em Paris com o seu quinto Ballon d’Or. Foi isso o que o mundo viu.
Milhões de pessoas assistiram a um grande espectáculo televisivo e o prestígio de Portugal subiu mais uns pontos a reboque de Cristiano Ronaldo. O meu aplauso!

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Os bonecos de Estremoz são património

A 12ª Reunião do Comité da UNESCO para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial que está a decorrer na Coreia do Sul, classificou hoje a produção dos “Bonecos de Estremoz”, como Património Cultural Imaterial da Humanidade.
Os “Bonecos de Estremoz” são parte de uma arte de carácter popular com mais de três séculos de história documentada, tendo sido o primeiro figurado do mundo a receber a aquela classificação, na sequência da candidatura apresentada pela Câmara Municipal de Estremoz.
A técnica de fabrico consiste na modelação manual de figuras em barro cozido e policromado, sendo conhecidas mais de uma centena de diferentes figuras que estão inventariadas. Segundo foi indicado pelos promotores da candidatura, dedicam-se a esta arte mais de uma dezena de artesãos do concelho de Estremoz. Depois da classificação do fado, da dieta mediterrânica, do cante alentejano, do fabrico de chocalhos, do barro preto de Bisalhães e da falcoaria portuguesa, a identidade cultural portuguesa sai reforçada com a decisão tomada pela UNESCO na Coreia do Sul. Seria muito interessante que este tipo de distinções contribuíssem para a valorização do artesanato das regiões do interior e, dessa forma, se tornassem num factor adicional de atracção de pessoas, actividades e recursos  e, consequentemente, de combate à desertificação do nosso território.

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Iémen: a guerra que todo o mundo ignora

Desde Março de 2015 que está acesa uma guerra civil no Iémen que tem os seus fundamentos próprios e as suas características particulares, mas que se inscreve na chamada Primavera árabe de 2011. A mais recente edição do The Economist aborda esse tema como “the war the world ignores”.
O Iémen situa-se no extremo sudoeste da península arábica, tem 527 mil km2 de superfície o que significa que é maior do que a Espanha, tem 28 milhões de habitantes e controla a entrada do Mar Vermelho no estreito de Bab el Mandeb.
O actual conflito nasceu das divergências entre dois grupos que reivindicam o poder no Iémen, respectivamente as forças leais ao presidente Abd Rabbuh Mansur Hadi que dominam a área de Aden e as forças leais ao ex-presidente Ali Abdullah Saleh, maioritariamente constituídas pelos Houthis. Estas forças serão apoiadas pelo Irão, Eritreia, Rússia e Coreia do Norte, enquanto as forças de Hadi são apoiadas por uma coligação liderada pela Arábia Saudita, em que participam Bahrein, Egipto, Jordânia, Kuwait, Emirados Árabes Unidos, Marrocos, Qatar e Sudão, com o apoio dos Estados Unidos. Os dois grupos ou facções não são mais que uma extensão da conflitualidades entre xiitas e sunitas ou, entre o Irão e a Arábia Saudita.
A situação no terreno não é bem conhecida mas parece que os Houthis controlam a capital Sanaa, enquanto as forças de Hari controlam a cidade de Aden. Embora os Houthis sejam os responsáveis pelo início desta guerra, as forças sauditas, ou apoiadas pelos sauditas, são acusadas de crimes de guerra, sobretudo por bombardeamentos aéreos sobre mercados, escolas, hospitais e mesquitas.
Diz-se que os Houthis são muito fracos para dominar o Iémen, mas que são muito poderosos para serem derrotados pela Arábia Saudita, pelo que a guerra prossegue. As organizações humanitárias internacionais têm denunciado a gravíssima crise que se vive no país e alguns países ocidentais que deveriam promover a paz, estão a ser acusados de entrar nesta guerra para alimentar os seus negócios de armamento com os sauditas e seus aliados, sobretudo com a venda de aviões e de munições. Porém, o mundo parece ignorar esta guerra.

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Uma grande vitória para Mário Centeno

O Ministro Mário Centeno foi ontem eleito para presidir ao Eurogrupo, um grupo informal dos Ministros das Finanças dos Estados-membros da União Europeia cuja moeda oficial é o euro, que se reune mensalmente para ajustarem a coordenação das suas políticas económicas. Assim, a partir do próximo dia 13 de Janeiro, Mário Centeno substituirá o holandês Jeroen Dijsselbloem e desempenhará a função de presidente do Eurogrupo nos próximos dois anos e meio.
É um motivo de satisfação para Portugal e um enorme elogio para a política orçamental portuguesa e, sobretudo, para Mário Centeno. Ele é um dos raros portugueses doutorados em Harvard, por acaso a primeira ou segunda melhor universidade do mundo na área económica e, por isso, tem uma qualidade académica bem diferente da ignorância exibida por outros economistas que por aí circulam. O Finantial Times, em título de primeira página, escreveu que "Centeno wins race to be eurogroup head" e começa a noticia da seguinte maneira: "Harvard educated economist Mario Centeno...". Portanto, a sua eleição é o reconhecimento da credibilidade do governo portugués e da forma como foi preparada a candidatura, mas também da qualidade académica do candidato, um aspecto que por cá tem sido muito pouco salientado.
Muitos políticos e comentadores, provavelmente dominados pela tradicional inveja lusitana, têm posto em causa esta escolha, duvidando da capacidade de se ser, simultaneamente, presidente do Eurogrupo em Bruxelas e ministro das Finanças em Portugal. Porém, Mário Centeno tem respondido a esses profetas, que até parece que gostavam que as coisas corressem mal para por uma vez terem razão, com a sua sobriedade habitual e até garantiu que o seu novo cargo nada muda na relação com os parceiros parlamentares portugueses. A escolha de Centeno é uma valente bofetada em Cavaco Silva, Passos Coelho, Marques Mendes, Carlos Costa e nessas figurinhas menores que são Teodora Cardoso e Maria Albuquerque, porque todos eles desconfiaram da capacidade de Centeno, ao contrário de Merkel e de Macron. Grande Centeno!
Independentemente dessas vozes “que não chegam ao céu”, o facto é que com Mário Centeno a presidir ao Eurogrupo, a imagem e a credibilidade de Portugal no mundo melhoram consideravelmente e o país bem precisa disso, depois de vários anos em que se deixou humilhar.
Wolfgang Schäuble tinha razão: Mário Centeno é mesmo o “Ronaldo do Ecofin”.

O Brexit é mais difícil do que se pensava

Num referendo realizado em Junho de 2016 verificou-se que 51,9% dos britânicos votaram pela saída da União Europeia, pelo que governo iniciou um processo de negociações conhecido por Brexit. Nesse processo, as dificuldades têm sido enormes, não só pela estreita margem de votos que levou à decisão de saída, mas também pelas diferentes opções dos quatro “países constituintes” do Reino Unido, respectivamente a Escócia, Gales, a Inglaterra e a Irlanda do Norte.
Ontem, numa reunião em Bruxelas encontraram-se o presidente da Comissão Europeia Jean-Claude Juncker e a Primeira-Ministra britânica Theresa May, tendo como agenda a discussão do futuro dos cidadãos europeus que vivem no Reino Unido e dos britânicos que vivem na União Europeia, isto é, as questões da livre circulação de pessoas e mercadorias, bem como o futuro do livre comércio.
Porém, acontece que na única fronteira terrestre do Reino Unido, que separa a República da Irlanda da Irlanda do Norte, poderão vir a ser reinstalados os normais controlos fronteiriços, o que altera substancialmente a vida dos cidadãos da Irlanda do Norte, que até votaram maioritariamente contra o Brexit. Daí que se procure um estatuto de excepção para a Irlanda do Norte diferente do resto do Reino Unido, mas essa solução foi vetada pelo DUP (Democratic Unionist Party) que é o quarto maior partido britânico e que suporta o governo de Theresa May, que não aceita qualquer solução que afaste Belfast de Londres. Porém, essa hipótese de estatuto de excepção e de permanência no mercado único agrada aos que estiveram e estão contra o Brexit, sobretudo os escoceses e a cidade de Londres, que votaram maciçamente pela permanência na União Europeia. Com este imbroglio, Theresa May saíu derrotada e humilhada. Não houve acordo e essa foi a notícia do dia da imprensa britânica. Entretanto, muitos britânicos, com Tony Blair à cabeça, pedem um segundo referendo porque "as pessoas têm o direito de mudar de ideias".

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

A super-Lua de que os americanos gostam

Aconteceu ontem que o nosso satélite natural esteve, em simultâneo, em fase de Lua Cheia e no ponto da sua órbita mais próximo da Terra, o chamado perigeu, isto é, a uma distância de 357.492 quilómetros. A coincidência dessas duas situações não é frequente mas suscita muita curiosidade porque a Lua aparenta ser maior do que o habitual, sobretudo quando está próxima do horizonte, mas essa impressão é apenas uma ilusão de óptica.
O fenómeno é conhecido como a super-Lua. As super-Luas não são um fenómeno inédito, podendo acontecer várias vezes por ano e, muito proximamente, nos dias 1 e 31 de Janeiro de 2018, voltarão a acontecer e a Lua aparecerá na esfera celeste e parecerá ser 14% maior e 30% mais brilhante, segundo informam os observatórios astronómicos.
O acontecimento é muito apreciado pelos profissionais e pelos curiosos da fotografia e, embora tivesse sido possível observá-lo em todo o mundo, parece que só os grandes jornais americanos não se dispensaram da publicação de uma fotografia da super-Lua. Assim aconteceu com o The Wall Street Journal, mas também com o The Washigton Post e o USA Today, por exemplo, que nas suas edições de hoje publicaram na sua primeira página uma fotografia da Lua a transitar em Washington sobre o Capitólio. O interesse destes jornais pela super-Lua reflecte apenas o interesse dos seus leitores, isto é, os americanos gostam como ninguém da super-Lua.

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

A tragédia que tanto enlutou a Argentina

Sem surpresa, a Marinha da Argentina anunciou ontem que dava por terminada a operação de busca e resgate dos 44 tripulantes do submarino ARA San Juan, desaparecido desde há duas semanas no Atlântico Sul, por já ter passado "mais do que o dobro do tempo de busca” recomendado pelas práticas internacionais nestas situações.
Significa que as autoridades argentinas consideram que a guarnição não sobreviveu ao episódio ocorrido no dia 15 de Novembro, quando o submarino navegava de Ushuaia para a sua base em Mar del Plata e que, infelizmente, não há vidas para salvar.
No entanto, as operações de busca prosseguem para que o submarino possa ser localizado e, desde que foi anunciado o seu desaparecimento, têm estado envolvidos navios e aviões de inúmeros países com as mais desenvolvidas tecnologias utilizadas nestas emergências, estando anunciado o envolvimento nesta operação de 28 navios, nove meios aéreos e cerca de quatro mil pessoas. Trata-se, portanto, de uma operação multinacional em larga escala que está em marcha com a solidariedade que caracteriza a comunidade marítima.
Qualquer ocorrência marítima em que se perdem vidas humanas é sempre trágica, mas no caso do desaparecimento do submarino ARA San Juan torna-se dramática, pela longa e dolorosa ansiedade dos familiares dos tripulantes que durante vários dias esperaram por notícias. Ontem a Marinha da Argentina anunciou a má notícia e, hoje, o jornal Crónica que se publica em Buenos Aires, presta homenagem aos 44 submarinistas argentinos e classifica-os como heróis.
A Argentina emocionou-se e está de luto.

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Angola e Portugal: acabem com os amuos!

Nos dois últimos dias realizou-se em Abidjan, na Costa do Marfim, a 5.ª Cimeira União Africana - União Europeia que reuniu os dirigentes dos 55 Estados-membros da União Africana e dos 28 Estados-membros da União Europeia, que teve como tema central o investimento na juventude.
O tema é importante porque a maioria da população africana tem actualmente menos de 25 anos de idade e se estima que, até meados deste século, uma em cada quatro pessoas no mundo será africana. Por isso, a cimeira procurou definir orientações no sentido de se investir nos jovens africanos e na sustentabilidade das suas vidas, através da educação e das infraestruturas, mas também da paz, da segurança e da boa governação.
Nestas cimeiras, acontecem sempre muitos encontros bilaterais e, de entre eles, revestiu-se de particular interesse o encontro entre o Presidente João Lourenço de Angola e o 1º Ministro António Costa de Portugal. No seguimento desse encontro ao mais alto nível, o ministro angolano das Relações Exteriores, Manuel Augusto, garantiu que as relações entre Angola e Portugal “são excelentes”, mas que estão “ensombradas por um caso específico que releva da actuação da justiça portuguesa”, referindo-se ao caso que envolve o antigo vice-presidente angolano Manuel Vicente, que está acusado pela justiça portuguesa por corrupção activa na forma agravada, branqueamento de capitais e falsificação de documentos. O ministro angolano salientou que Angola respeita a separação de poderes e que a única coisa que pretende é que o poder judicial português tenha em conta os interesses de Portugal e de Angola, o que foi destacado hoje pelo jornal O PAÍS em notícia de primeira página.
Sobre o mesmo assunto, António Costa afirmou que o caso transcende o poder político e é da exclusiva responsabilidade das autoridades judiciárias portuguesas, mas também disse que os dois países estão a ultrapassar as dificuldades económicas recentes e que isso “permite encarar com optimismo e confiança o crescimento das relações económicas nos próximos anos” e reafirmar Angola como o principal parceiro português em África.
Os portugueses precisam de Angola e os angolanos precisam de Portugal. Acabem, portanto, com os amuos.

R.I.P. Belmiro de Azevedo

A notícia surgiu inesperada e anunciava que o empresário Belmiro de Azevedo falecera aos 79 anos de idade.
Nunca o encontrei e, provavelmente, não tinhamos concepções de vida parecidas, mas ouvi-o muitas vezes, desassombrado e directo, a comentar a vida política e económica portuguesas, com objectividade, com inteligência e com frontalidade. Porém, não era essa a faceta que mais admirava no homem que reergueu a Sonae e que estendeu a sua actividade a diversas áreas da nossa actividade económica como a distribuição (Continente e Modelo), o jornal Público, as telecomunicações (Optimus) e o retalho especializado (Worten, Vobis, Bonjour, Sportzone), entre outras.
Num país em que há uma enorme lacuna de empreendedores que assumam riscos empresariais, que transformem os nossos recursos e que acrescentem valor aos nossos produtos e serviços, o engenheiro Belmiro de Azevedo foi um pioneiro na gestão e na inovação mas, sobretudo, foi um dos maiores criadores de emprego que Portugal conheceu depois da revolução de 1974.  Nos sectores de actividade em que se envolveu e, em especial, no sector da distribuição, foi um criador de muitos milhares de empregos directos e indirectos. Serão cerca de 40 mil trabalhadores directos que hoje têm um posto de trabalho permanente naquilo a que se chama o “universo Sonae”, que Belmiro de Azevedo criou.
Logo que a notícia da sua morte foi conhecida, sucederam-se inúmeras declarações de elogio e de homenagem a um homem que, sendo rico, se comportava como um grande trabalhador e com hábitos sociais muito moderados. 
Homens destes fazem muita falta a Portugal.

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

O conflito catalão para além da política

A questão da Catalunha que está a mobilizar os constitucionalistas e os independentistas para as eleições de 21 de Dezembro, tem uma dimensão política que prevalece sobre todas as outras, mas também tem uma importante dimensão económica. Porém, nos últimos dias revelou-se uma dimensão cultural ou patrimonial que está a interessar a Espanha e que é hoje tratada no diário catalão elPeriódico.
O Real Monasterio de Santa Maria de Sigena ou Sijena remonta ao século XII e fica situado nas proximidades de Huesca na comunidade autónoma de Aragão, cuja capital é Saragoça. Nele professaram rainhas e princesas, solteiras ou viúvas, pelo que ao longo dos séculos o mosteiro acumulou preciosidades e riquezas de incalculável valor histórico e artístico. Porém, em 1983 as monjas residentes venderam 97 obras de arte religiosa do mosteiro à Generalitat da Catalunha, o que levou as autoridades de Aragão a exigir a devolução imediata dessas obras com mais de três séculos, porque “são parte da história e do património artístico de Aragão”.
O caso chegou aos tribunais. Houve sentença favorável a Aragão em Abril de 2015  e, em Julho de 2016 foram devolvidos 51 objectos que estavam expostos no Museu Diocesano de Lleida, mas o assunto não ficou arrumado. O Departamento de Cultura da Generalitat da Catalunha recusou-se a devolver 44 obras, algumas delas do século XV e únicas no mundo, com o argumento de que a decisão judicial tomada em 1ª instância iria ser revogada na instância superior e que, além disso, porque o transporte das peças era muito arriscado devido a serem muito frágeis.
Até que com a aplicação do artigo 155 da Constitução, que suspendeu a autonomia catalã, o ministro Iñigo Méndez de Vigo passou a acumular o cargo de ministro da Cultura do governo espanhol com a responsabilidade pela cultura catalã, tendo determinado que se proceda imediatamente ao cumprimento da sentença judicial, isto é, que o Museu de Lleida devolva as referidas 44 peças ao mosteiro de Sijena. Significa que o famoso 155, para além dos problemas políticos que resolve ou adia, também resolve outro tipo de problemas.
Para os independentistas esta decisão do ministro foi provocatória e pode ser mais uma pequena acha para a fogueira catalã.

terça-feira, 28 de novembro de 2017

Aprovação do Orçamento reforça Governo

A Assembleia da República aprovou ontem o Orçamento do Estado para 2018 (OE2018) com os votos favoráveis do PS, Bloco de Esquerda, PCP, Os Verdes e PAN e os votos contra do PSD e do CDS, o que significa que foi aprovado por 56% dos 230 deputados. De acordo com a imprensa, o OE2018 consagra menos impostos para as famílias e mais impostos para as empresas com lucros muito elevados, o que se traduz em boas notícias para grande parte dos contribuintes, dos reformados, dos senhorios e dos desempregados.
Em termos técnicos, o Orçamento do Estado inclui em cada ano o montante das despesas autorizadas e a previsão das receitas, pelo que é o documento que assegura a actividade financeira do Estado e, por isso, está muito condicionado pela situação da dívida e do défice públicos. Porém, o Orçamento é mais complexo porque discrimina inúmeras receitas e despesas que afectam o rendimento e a vidas das pessoas, daí resultando que a proposta inicial apresentada pelo Governo acaba por receber muitas alterações para satisfazer interesses muito diversos e para assegurar que é votado favoravelmente. Negociar o Orçamento é sempre uma procura de equilíbrio entre o desejável e o possível, entre as necessidades ilimitadas e os recursos escassos.
Sem Orçamento o Governo não pode governar e, por isso, também é um instrumento de luta política, em que cada partido intervém em função do seu próprio interesse e das suas futuras perspectivas eleitorais. É natural que uns queiram uma coisa e outros defendam outra. O que não é natural é que quem dirige o CDS e porque não sobe nas sondagens, mantendo-se com os habituais 7%, esteja a perder a compostura e a revelar falta de educação, mostrando demasiada agressividade e insultando continuadamente António Costa e o seu governo.

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

A tradição britânica ainda é o que era

Todos os jornais de referência ingleses publicam hoje na sua primeira página uma fotografia alusiva à cerimónia do render da guarda que ontem se realizou em Buckingham Palace, a residência oficial da Rainha da Inglaterra, e esse destaque resulta do ineditismo de uma cerimónia que se realiza desde 1660, isto é, há 357 anos.
Durante esse longo período, a guarda foi sempre assegurada por um dos cinco Foot Guards Regiments da Army's Household Division, mas ontem essa responsabilidade passou temporariamente para a Royal Navy, numa acção de propaganda inserida numa declaração governamental que instituiu o ano de 2017 como o Year of the Navy.
Cerca de noventa marinheiros destacados de 45 unidades e estabelecimentos da Royal Navy foram especialmente preparados para a cerimónia realizada na manhã de ontem que, como sempre, teve a presença de muitos turistas que aplaudiram. As fotografias publicadas nos diferentes jornais, como por exemplo no The Times, mostram o contraste entre a altura do marinheiro Alex Stacey e a considerável estatura do granadeiro que é rendido. A cerimónia vai ser repetida nas próximas semanas nas instalações reais do castelo de Windsor, da Torre de Londres e do St. James's Palace, naturalmente para promoção da Royal Navy. A questão é saber-se porque tudo isto acontece para animar os ingleses e se tem alguma relação com o Brexit.
Em Portugal também temos, não diariamente, mas no terceiro domingo de cada mês pelas onze horas, a cerimónia pública do render da guarda no Palácio de Belém que é um grande espectáculo de cor e som, que atrai muita gente. Será o que o Presidente da República se lembra de promover essa cerimónia e lhe dá para substituir temporariamente a GNR pela Marinha?