domingo, 13 de outubro de 2019

Belém do Pará e a religiosidade brasileira

O Brasil, ou pelo menos o estado do Pará, estão em festa com a realização do círio de Nossa Senhora da Nazaré que é considerado a maior manifestação religiosa católica do mundo e que está a decorrer na cidade de Belém e seus arredores, delas dando detalhada notícia o jornal paraense O Liberal. 
As festividades foram levadas para o Brasil pelos padres jesuítas portugueses e acontecem desde 1793, reunindo sempre mais de dois milhões de pessoas. Ao longo dos anos, o cerimonial ajustou-se à procura dos devotos e, actualmente, as manifestações religiosas estendem-se por duas semanas durante a chamada Quadra Nazarena, em que se destacam procissões e romarias, com as seguintes actividades: o Translado que corresponde ao percurso pelas ruas da cidade da imagem de Nossa Senhora da Nazaré desde a Basílica até ao município vizinho de Ananindeua, a Romaria Rodoviária em que a imagem vai em procissão para a vila de Icoaraci, a Romaria Fluvial em que a imagem é embarcada e segue em procissão fluvial até ao cais de Belém, a Moto-Romaria que recebe a imagem no cais e a transporta sob escolta de motoqueiros, a Trasladação que é uma procissão de velas, a Procissão do Círio que é, porventura, o ponto alto das cerimónias religiosas, a Ciclo-Romaria, a Romaria da Juventude que é a mais animada de todas as romarias, a Romaria das Crianças, a Romaria dos Corredores, a Procissão da Festa e o Recírio que encerra a Festividade Nazarena e que é o momento em que os paraenses se despedem da Rainha da Amazónia. Significa que o círio de Nossa Senhora da Nazaré consta de várias procissões, uma dúzia de romarias oficiais além de outras de menor afluência e muito fervor religioso. Segundo rezam as crónicas, durante a Quadra Nazarena é enorme a devoção dos paraenses e acontecem alguns milagres...

quinta-feira, 10 de outubro de 2019

O Donald decidiu abandonar os curdos

A esperada ofensiva turca contra os curdos já começou, por terra e pelo ar, com as agências noticiosas a divulgar as primeiras imagens que mostram os efeitos dos bombardeamentos e das explosões sobre as zonas urbanas das cidades fronteiriças sírias e a população em fuga ao longo das estradas. A imprensa americana, caso do Washington Post, do The New York Times e do The Wall Street Jounal, destaca que a Turquia lançou uma ofensiva contra os aliados dos Estados Unidos e esta referência ao abandono a que foram sujeitos os seus aliados, não deixará de perturbar a América e de aumentar a impopularidade do seu actual presidente. Alguns jornais europeus são mais severos e referem a traição de Trump ou, como sucede com o britânico The Independent, afirmam que os curdos foram abandonados por Trump. A União Europeia, através dos cinco países que actualmente integram o Conselho de Segurança das Nações Unidas (França, Reino Unido, Alemanha, Bélgica e Polónia) pediu uma reunião urgente deste órgão e o fim da ofensiva turca.
No terreno a situação é complexa, quer  militar quer politicamente. Em termos militares é enorme a desproporção de forças, mas a ofensiva turca pode não ser um passeio militar, pois as forças curdas são formadas na base de unidades de guerrilha bem armadas e muito experientes e isso pode custar caro aos turcos. Em termos políticos a situação pode ser ainda mais grave se os turcos ultrapassarem o que foi acordado com Donald Trump e levarem o seu ataque para além do objectivo anunciado de criar uma zona de segurança fronteiriça de 30 km, o que pode conduzir à intervenção das forças de Bashar al-Assad. Significa que, uma vez mais, o juiz daquela região vai continuar a ser Vladimir Putin.

terça-feira, 8 de outubro de 2019

R.I.P. Maria Manuela Silva

A  economista  Maria Manuela Silva faleceu ontem aos 87 anos de idade, depois de uma longa carreira académica como professora catedrática do Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG) e de ter dedicado a sua vida às causas da justiça social, sobretudo o combate às desigualdades e à pobreza, que considerava uma violação dos direitos humanos.
O percurso académico e a militância religiosa cruzaram-se ao longo da sua vida, tendo centrado a sua investigação académica nas áreas da pobreza, das desigualdades sociais e da distribuição de rendimentos, defendendo políticas económicas dirigidas em primeiro lugar ao bem-estar social.
Teve, também, uma intervenção política ao integrar o 1º governo constitucional presidido por Mário Soares, como secretária de Estado do Planeamento e, durante o recente período de assistência financeira externa, foi uma voz activa contra o programa de estabilidade imposto pela troika.
Professora jubilada do ISEG e Doutora Honoris Causa pela então Universidade Técnica de Lisboa, Manuela Silva esteve activamente envolvida nos movimentos católicos, tendo sido Presidente do Movimento Internacional dos Intelectuais Católicos e da Comissão Nacional Justiça e Paz. Era uma economista ao serviço das pessoas, sobretudo das mais desfavorecidas e, certamente, vai ser recordada como uma dinâmica mulher de causas e pelo seu percurso cívico inspirado no Evangelho e na doutrina social da Igreja.
Há muitos anos fui seu aluno no ISEG e, depois, através de amigos comuns, tornei-me seu amigo e reforcei a minha admiração por tão exemplar figura de cidadania. 

O sacrifício curdo e o regresso do Daesh

Em Dezembro do ano passado o presidente Donald Trump anunciou que os militares americanos estacionados no nordeste da Síria iriam regressar a casa porque tinham derrotado o Estado Islâmico (Daesh) e, por isso, a sua missão tinha terminado.
A retirada americana está agora em vias de ser concretizada, depois de um acordo celebrado entre Donald Trump e Recep Tayyip Erdogan que “autoriza” a Turquia a ocupar uma zona de segurança de 30 km de profundidade ao longo da sua fronteira com a Síria. Segundo refere a imprensa internacional, a retirada americana pode ter graves consequências para as unidades de protecção do povo curdo (YPG), que foram a principal força de combate contra o Daesh e que agora ficam desprotegidas perante o seu inimigo turco, sobretudo nas áreas que eles pretendem ocupar. O jornal Libération pergunta mesmo se os curdos vão ser sacrificados, depois de tudo o que fizeram.
A gradual retirada americana daquelas regiões já começou a ter efeitos negativos, primeiro no Iraque onde o Daesh reapareceu com iniciativa operacional e, agora, no norte da Síria onde também começou a actuar em territórios de onde tinha sido expulso. De acordo com os serviços de informação americanos encontram-se no Iraque e na Síria entre 14 a 18 mil membros do Daesh, incluindo cerca de três mil combatentes estrangeiros, que já retomaram a sua actividade através de assassínios, emboscadas e atentados suicidas.
Significa que quando se imaginava que, embora lentamente, se caminhava para a estabilidade naquela região com a Rússia, o Irão, a Turquia, o Iraque e a Síria a entenderem-se, a retirada americana deixa os curdos à mercê dos turcos e parece abrir as portas ao regresso do Daesh. A ofensiva militar turca já está anunciada e, nestas coisas, o mais difícil é começar...

segunda-feira, 7 de outubro de 2019

As eleições legislativas em Portugal

A clara vitória socialista nas eleições legislativas que ontem se realizaram em Portugal foi o tema dominante das primeiras páginas da imprensa portuguesa que, de uma forma geral, foram ilustradas com a fotografia de António Costa que foi o vencedor com 36,6% dos votos expressos. Porém, a generalidade da imprensa estrangeira não deu qualquer relevo às eleições portuguesas, talvez porque os seus resultados fossem esperados, embora alguns jornais da Catalunha, bem como a La Voz de Galicia, tivessem destacado a vitória socialista de António Costa.
As televisões nacionais acompanharam todo o processo e, na noite eleitoral, sucederam-se um sem número de comentários feitos por um sem número de comentadores que, de uma forma geral, se limitaram a dizer o óbvio e a fazer uma futurologia política pouco fundamentada.
Por um dia, o futebol cedeu o seu lugar à política e, contra o que é habitual, houve quem assumisse ter sido derrotado, num caso devido certamente ao discurso insultuoso que foi utilizado durante muito tempo e, num outro, porque um antigo primeiro-ministro não percebeu que o seu tempo já passou.
A solução governativa vai exigir negociações, até porque na Assembleia da República vão estar representados dez partidos políticos, mas essa diversidade ideológica pode ser um factor de enriquecimento da nossa Democracia.
Dizem os especialistas que, em consonância com a teoria dos ciclos económicos e com a difícil conjuntura internacional, se aproxima um tempo de crise na Europa e no mundo. Há que confiar que o futuro governo vai saber manter a estabilidade política e social, apoiar o crescimento da economia e do emprego, melhorar os sistemas de saúde, educação e protecção social e, de uma forma mais geral, contribuir para a melhoria da qualidade de vida dos portugueses, para a defesa do ambiente e da paisagem e para a atenuação dos desequilíbrios regionais.

domingo, 6 de outubro de 2019

Um grande homem que é um novo cardeal

Realizou-se ontem na Basílica de São Pedro, em Roma, um Consistório presidido pelo Papa Francisco, que investiu 13 novos cardeais da Igreja Católica, entre os quais D. José Tolentino Mendonça, que tem 53 anos de idade e é natural da vila do Machico, na ilha da Madeira.
Antigo professor e vice-reitor da Universidade Católica Portuguesa, o novo cardeal exerce actualmente as funções de arquivista e bibliotecário do Vaticano, tendo-se tornado no 46º cardeal português e o segundo madeirense a atingir o cardinalato. É um acontecimento importante para a Igreja Católica portuguesa mas, por razões culturais, também é relevante para a sociedade portuguesa, inclusive aquela que não professa a religião católica.
Toda a imprensa portuguesa destacou esta escolha do Papa e enalteceu as qualidades intelectuais do novo cardeal, como pensador, como escritor, como ensaísta e como poeta. Autor de uma vasta obra literária e com uma presença regular na imprensa, é uma figura de grande destaque na cultura portuguesa. Ao ser questionado pelos jornalistas quanto às dificuldades que iria enfrentar no quadro da Cúria Romana, o corpo administrativo que auxilia o Papa no seu governo da Igreja, disse o novo cardeal que “a vida é difícil para todos, também será para um cardeal, mas também é bela, também é entusiasmante e é nisso que eu penso”, acrescentando que “a vida de um cardeal é pesada, mas a vida de um pai de família também é, a vida de um operário, a vida de um desempregado, a vida de um homem sobre a terra, a vida de um refugiado, a vida de alguém que constrói a sociedade”.
Naturalmente, o Diário de Notícias do Funchal, bem como toda a imprensa da Madeira, deram um grande destaque a este acontecimento que enche de orgulho os madeirenses, mas que também é muito gratificante para a generalidade dos portugueses que gostam de ver reconhecidos os seus concidadãos.

sábado, 5 de outubro de 2019

R.I.P. Diogo Freitas do Amaral

Com 78 anos de idade e depois de uma vida com cerca de cinco décadas de intervenção pública, faleceu Diogo Freitas do Amaral e o Governo, muito justamente, decretou um dia de luto nacional para honrar a sua memória e o seu exemplo cívico, que foi reconhecido por gente de todos os quadrantes políticos e sociais.
Freitas do Amaral foi uma personalidade importante da Democracia portuguesa. Em 1967 completou o seu doutoramento em Ciências Jurídico-Políticas na Faculdade de Direito de Lisboa e, nesse mesmo ano, iniciou o cumprimento do serviço militar obrigatório na Marinha, como oficial da Reserva Naval. Na sequência da revolução de 25 de Abril de 1974 foi o fundador e o primeiro presidente do CDS, tendo sido deputado à Assembleia Constituinte e, depois, deputado à Assembleia da República, havendo muita gente que lhe atribui o mérito de ter transformado a direita marcelista numa direita democrática. Fez parte dos governos da Aliança Democrática entre 1979 e 1983, tendo sido primeiro-ministro interino após a morte de Sá Carneiro. Em 1986 foi candidato à presidência da República com o apoio do CDS e do PSD, conseguiu obter 48,8% dos votos mas foi derrotado por Mário Soares. Mais tarde, integrou um governo socialista como ministro dos Negócios Estrangeiros. Foi, também, o único português que presidiu à Assembleia Geral das Nações Unidas, o que aconteceu em 1995-1996 na sua 50ª Sessão.
Hoje, Freitas do Amaral teve justas honras de Estado e muitas personalidades da política, da cultura e da academia prestaram-lhe a última homenagem, à qual me associo apesar de nunca lhe ter dado o meu voto. Porém, ninguém ficou indiferente à hipocrisia de alguns figurões que marcaram presença nas exéquias dos Jerónimos, com destaque para aquele que obrigou Freitas do Amaral a arcar sozinho com as dívidas da campanha eleitoral de 1986 (Cavaco) e para o outro que retirou a fotografia do fundador do CDS da sede do partido e que  a enviou para o Largo do Rato (Portas). Ambos estiveram nos Jerónimos. A hipocrisia destes dois figurões é inqualificável.

Macau festejou os 70 anos da RPC

A propósito das comemorações do 70º aniversário da proclamação da República Popular da China (RPC), as autoridades da Região Administrativa Especial de Macau (RAEM) organizaram um programa comemorativo que, entre outras iniciativas, incluíu um espectáculo de video mapping projectado na fachada das Ruínas da Igreja de S. Paulo. O jornal Tribuna de Macau (jtm) destacou esse espectáculo, que teve um conteúdo marcadamente político em que predominaram os tons vermelhos e em que foram projectadas muitas imagens e símbolos da RPC, tendo por isso sido muito criticado pela comunidade católica do território.
Por isso, a Diocese de Macau também reagiu à realização deste espectáculo com o argumento de que a fachada da Igreja de S. Paulo “representa a profunda e duradoura herança católica em Macau”, parecendo “quase contraditório proclamar uma realidade que é marxista sem Deus, numa fachada que afirma a presença de Deus”. Além disso, a Diocese de Macau acrescentou que aquelas Ruínas não são apenas um ex-libris da cidade, de forte simbolismo histórico e religioso, mas também são um dos elementos que integram o Centro Histórico de Macau, que em 2005 foi classificado pela Unesco como património da Humanidade.
Embora as Ruínas não sejam propriedade da Igreja Católica, continuam a ser um símbolo do Catolicismo e da fé cristã em Macau, pelo que a Diocese reivindicou que quaisquer futuros espectáculos na fachada de S. Paulo passem a ter um conteúdo que se adeque ao contexto religioso do monumento. As autoridades macaenses referiram que este tipo de espectáculos já se realizaram em cinco anos consecutivos sem quaisquer problemas, mas aceitam discutir futuramente os seus conteúdos com a Diocese de Macau, até porque está previsto um novo espectáculo por ocasião da celebração dos 20 anos da criação da RAEM. Há, portanto, muita abertura das duas partes, certamente atentas ao que está a acontecer ali bem perto em Hong Kong.

quinta-feira, 3 de outubro de 2019

Portugal: le nouvel eldorado

A edição de hoje do semanário francês Courrier international dedica a sua primeira página a Portugal, com uma fotografia da ponte 25 de Abril e do Tejo a toda a largura da capa e o título Portugal: le nouvel eldorado.
O pretexto para este destaque é a realização das eleições legislativas do próximo dia 6 de Outubro, cuja campanha correu com bastante serenidade, até que nos últimos dias se desviou para o insulto pela boca da gentinha do costume, que aproveitou uma encenação feita por quem devia estar à margem da luta política, o que lamentavelmente  já não acontece pela primeira vez.
Apesar do semanário tecer comentários previsionais sobre os resultados das próximas eleições, o que torna mais interessante a edição do semanário são as análises que são feitas quanto à estabilidade do país num contexto europeu de alguma instabilidade e em que as lideranças estão diminuídas.  Diz o Courrier que Portugal é um país ensolarado e com muita abertura aos outros, o que faz dele um objecto de ganância e um eldorado europeu para os estrangeiros. Numa Europa abalada por ondas de nacionalismos e muito enfraquecida pela tormenta do Brexit, o país continua hermético ao populismo e tornou-se um refúgio de estabilidade, constituindo “um laboratório em termos de sociedade”, com políticas sociais inovadoras, uma forte aposta na sua dimensão cultural, um bom relacionamento com as suas antigas colónias e que, além disso, atrai turistas, expatriados, artistas e, cada vez mais, investidores que, para além do imobiliário, se interessam cada vez mais por outros sectores produtivos, desde o sector automóvel à exploração do lítio e da cannabis terapêutica.
Se esta edição tivesse surgido duas semanas antes e com aqueles elogios todos, apesar deste semanário ter a credibilidade própria do grupo Le Monde, todos diriam que estava ao lado do governo de António Costa na disputa eleitoral.

quarta-feira, 2 de outubro de 2019

Renasce a luta política na Catalunha

No dia 1 de Outubro de 2017 realizou-se o referendo de independência da Catalunha, conhecido na imprensa espanhola como o 1-O, que foi convocado pelo Governo Regional da Catalunha, mas que foi considerado ilegal pelo Governo e pelo Tribunal Constitucional de Espanha, com base num preceito da Constituição espanhola de 1978 que não permite qualquer votação relativa à independência de qualquer região espanhola. Nesse referendo que foi uma farsa não democrática pois apenas participaram 42% dos eleitores inscritos, o independentismo teve 92% dos votos que ninguém controlou, mas que os separatistas têm utilizado como bandeira.
Passaram-se dois anos e, a propósito da passagem desse acontecimento, houve comemorações e o actual presidente Quim Torra veio lembrar aquela data e recordar o espírito do 1-O, para afrontar os desafios do futuro e “avanzar sin excusas hacia la república catalana". 
No mesmo dia também decorreu uma manifestação independentista em que, segundo a Guardia Civil, participaram 18.000 pessoas, o que mostra algum grau de desmobilização.
Porém, a vida política na Catalunha parece estar a aquecer. Acontece que a sentença quanto ao chamado procés está para ser anunciada e há quem espere pesadas penas para os dirigentes independentistas, sobretudo os que estiveram mais ligados à preparação do referendo ilegal e à declaração de independência unilateral de 27 de Outubro de 2017, que foi lida por Carles Puigdemont, o então presidente da Generalitat. As forças políticas independentistas, sobretudo o Junts per Catalunya liderado por Carles Puigdemont (actualmente exilado na Bélgica), a Esquerra Republicana Catalana presidida por Oriol Junqueras (actualmente na prisão) e a CUP - Candidatura d’Unitat Popular, já vieram divulgar um manifesto em que afirmam não aceitar outra sentença que não seja a absolvição dos seus dirigentes e apelam desde já aos catalães para a desobediência civil e para darem uma resposta massiva, mas sem violência, à esperada decisão judicial.

No 70º aniversário da revolução chinesa

No dia 1 de Outubro de 1949, pela voz de Mao Tsé-Tung foi proclamada a República Popular da China (RPC) sob a liderança do Partido Comunista Chinês e, passados 70 anos, exactamente no mesmo local da Praça Tiananmen onde Mao fizera a sua proclamação, também o presidente Xi Jinping falou ao mundo.
O jornal Libération deu grande destaque às comemorações do aniversário da revolução chinesa e acentuou que se trata de mais uma etapa no processo chinês de chegar mais longe no concerto das nações. Na sua proclamação, o presidente Xi destacou que a revolução comunista “transformou completamente o miserável destino da China, que foi pobre, débil e humilhada durante mais de cem anos” mas, sobretudo, presidiu a um grandioso desfile militar que assinalou o 70º aniversário do estabelecimento da RPC, apesar da gravidade da situação de protesto em Hong Kong e das acesas lutas comerciais com os Estados Unidos.
O imponente e impressionante desfile militar que as televisões mostraram, teve a participação de cerca de 15 mil militares dos diferentes ramos das Forças Armadas, mas também incorporou as mais recentes conquistas tecnológicas chinesas, como os mísseis nucleares estratégicos, designadamente o míssil balístico intercontinental DF-41 e o míssil hipersónico DF-17. Segundo a doutrina chinesa, com o fortalecimento das suas forças militares a RPC persegue o objectivo de “garantir a sua segurança estratégica, através do reforço de uma capacidade de dissuasão que possa desincentivar quaisquer países de ameaçar ou utilizar armas nucleares contra a China”. Naturalmente, a grandeza da celebração dos 70 anos da proclamação da RPC teve intenções diferenciadas e talvez seja um aviso para aqueles que, interna e externamente, ainda não vêm a RPC como uma potência mundial em ascensão.

segunda-feira, 30 de setembro de 2019

Memórias náuticas de Cabo Delgado

Ao ver a capa da edição de ontem do jornal Domingo em que é representada a orla costeira moçambicana da província de Cabo Delgado, entre o rio Rovuma e a baía de Mocímboa da Praia, senti uma estranha sensação de familiaridade com cada uma daquelas baías e ilhas, que há mais de cinquenta anos visitei inúmeras vezes quando, por dever de ofício, percorri aqueles mares.  
Lá está o rio Rovuma em que não ousávamos entrar por razões hidrográficas e diplomáticas, bem como as ilhas Rongui e Tekomagi, mais a Vamizi e a Tambuzi, além de outras ilhas do arquipélago das Quirimbas, não sendo difícil identificar as estreitas passagens entre as ilhas e a orla costeira, por onde se arriscava a navegação para ganhar tempo ou para tirar partido do abrigo que proporcionavam relativamente ao mau estado do mar no canal de Moçambique.
E lá estão, invisíveis, os baixos de coral onde as conchas raras eram procuradas pelos malacologistas, onde havia peixe e marisco em abundância e onde a limpidez das águas não tinha igual no mundo. Lá estão, também, as antigas povoações de Quionga e de Palma, o aldeamento do Olumbe e a vila de Mocímboa da Praia, hoje certamente bem diferentes do que eram há cinquenta anos. Era um tempo de conflito militar e, naquela região periférica do território norte de Moçambique, por ali passamos muitos dias e muitas noites nas chamadas missões de fiscalização, mas também em apoio de todos os que nós necessitavam no mar sem cuidar de saber de que lado estavam.
A capa do jornal Domingo fez-me mergulhar em muitas memórias da minha juventude marinheira e até me fez recordar alguns episódios mais ou menos pitorescos que por lá aconteceram, mas também me recordou que aquela mesma região se confronta hoje com a descoberta de hidrocarbonetos e a exploração de gás natural em larga escala e daí o título "5 mil milhões para o Rovuma". Porém, há alguma tensão naquela área resultante da acção de grupos jihadistas e isso é muito preocupante.

domingo, 29 de setembro de 2019

Sevilla apresenta “el viaje más largo”

Como tem sido referido em diversos textos já aqui publicados, a frota de Fernão de Magalhães que com a bandeira de Castela saíu para descobrir a passagem do oceano Atlântico para o Mar do Sul e chegar às Molucas navegando para ocidente, largou de Sevilha no dia 10 de Agosto de 1519 e percorreu cerca de 80 quilómetros até à foz do rio Guadalquivir em Sanlúcar de Barrameda. Aí permaneceu durante algumas semanas para ultimar os preparativos da viagem, largando finalmente no dia 20 de Setembro.
Agora que se comemora o 5º Centenário dessa viagem que se tornou na primeira volta ao Mundo, a cidade de Sevilha que foi a capital da expansão marítima espanhola para as Américas e que hoje é uma cidade moderna, dinâmica e ambiciosa, encontrou neste feito histórico uma oportunidade para assumir a liderança dessas comemorações.
Por isso, no quadro das actividades comemorativas espanholas, o programa preparado pela cidade de Sevilha é muito diversificado. Porém, a exposição El Viaje Más Largo: la primera vuelta al Mundo, que está patente em Sevilha no Archivo General de Indias e que apresenta 106 peças e documentos originais é, seguramente, um dos pontos mais altos destas comemorações.
A exposição foi inaugurada no dia 12 de Setembro pelos reis de Espanha e foi organizada pela Acción Cultural Española e pelo Ministerio de Cultura y Deporte, juntando uma colecção de documentos originais únicos, a par de uma apresentação pedagogicamente esclarecedora e com um relato que, no essencial, respeita a verdade histórica, embora seja evidente alguma marginalização da participação portuguesa na viagem. Porém, é uma excelente exposição que interessa a todos os estudiosos da epopeia marítima dos povos ibéricos e, por isso, alguns portugueses já fizeram os 500 quilómetros de Lisboa até Sevilha e, certamente, deram por bem empregue o seu tempo.

sexta-feira, 27 de setembro de 2019

A subida dos oceanos já ameaça a Terra

As preocupações ambientais não são um assunto recente, como por vezes parece. Já em 1988 as Nações Unidas tinham criado um grupo de trabalho intergovernamental, aberto a todos os seus Estados-membros, com o objectivo de monitorizar as informações de ordem científica, técnica e socio-económica que pudessem contribuir para uma melhor compreensão das ameaças ligadas ao aquecimento global resultante da acção do homem. Esse grupo passou a denominar-se Groupe d'experts intergouvernemental sur l'évolution du climat (GIEC) ou Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC) e tem analisado os efeitos das mudanças climáticas nos oceanos e na criosfera (gelo compactado, geleiras, calotas polares e solos congelados), tendo produzido relatórios com regularidade. Um desses relatórios recentemente divulgado, provocou algum alarme, sobretudo em França, ao estimar que o aumento do nível do mar até 2100 pode atingir 1,10 metros. Esta estimativa resulta do facto de, segundo o relatório, entre Janeiro de 2008 e Janeiro de 2018, o nível médio do mar ter subido 3,3 milímetros por ano e 4,3 centímetros nesse mesmo período.
A subida dos oceanos é uma das principais consequências do aquecimento global e, a médio prazo, poderá fazer com que 280 milhões de pessoas sejam afectadas em todo o mundo, porque vivem junto à orla costeira e, muitas vezes, em áreas situadas abaixo do nível médio do mar.
O relatório do GIEC indica a França como uma das regiões mais ameaçadas da Europa, sobretudo por efeito das inundações costeiras e da erosão que provocam. Por isso, o jornal Le Dauphiné, que se publica em Grenoble, foi um dos jornais franceses que deu notícia deste relatório do GIEC, ilustrando a sua primeira página com uma sugestiva ilustração que em que o nosso planeta está a ser inundado por efeito da subida dos oceanos.

quinta-feira, 26 de setembro de 2019

Bolsonaro na ONU a envergonhar o Brasil

Jair Bolsonaro foi a Nova Iorque e pela primeira vez falou numa sessão de abertura da Assembleia Geral das Nações Unidas, mas o seu discurso de 32 minutos foi fortemente criticado, tanto no Brasil como no exterior, tendo sido acusado pela imprensa de romper uma tradição de moderação e pragmatismo da diplomacia brasileira e de ter perdido uma oportunidade para desfazer a má imagem internacional do seu governo pela forma como tem tratado o problema dos incêndios e da devastação da Amazónia.
Bolsonaro não revelou quaisquer dotes de estadista e adoptou um tom de confronto e de intolerância com muitos exageros e muitas falsidades, tendo criticado o “espírito colonialista” de alguns países como a França por terem questionado a política ambiental brasileira e chamado “falácia” à tese que defende que a Amazónia é património da humanidade. Igualmente polémica foi a sua declaração de que o Brasil esteve à beira do socialismo durante os governos de Lula e Dilma Rousseff, bem como os ataques que fez a Cuba e à Venezuela.
Bolsonaro passou ao lado da agenda e das preocupações do mundo e foi fazer propaganda ideológica, tendo sido duramente criticado por ter levado para Nova Iorque alguns temas da política interna brasileira como a corrupção e a criminalidade, mas também pelas insinuações que fez aos estrangeiros que defendem os índios e o meio ambiente que, segundo disse, apenas o fazem como pretexto para cobiçar as riquezas da Amazónia.
O Brasil é um dos maiores países do mundo e é aproximadamente 96 vezes maior do que Portugal, mas o Jair perdeu uma oportunidade para readquirir e elevar o estatuto de prestígio que o país merece no seio da comunidade internacional. O Jair, enquanto inquilino do Palácio do Planalto, deveria ser um exemplo para o progresso do Brasil, mas manifestamente não é capaz.