sexta-feira, 3 de abril de 2015

R.I.P. Manoel de Oliveira

Com 106 anos de idade faleceu ontem na sua cidade do Porto o realizador Manoel de Oliveira. Porém, não se trata de um homem que apenas se destacou pela sua singular longevidade mas, sobretudo, por uma vida inteiramente dedicada ao cinema, que cultivou com mestria. Era considerado “o mais velho realizador em actividade” e teve prémios, condecorações e reconhecimentos académicos em Portugal e em outros países, sendo muito respeitado pela crítica, tanto em Portugal como no estrangeiro. O seu primeiro trabalho foi realizado em 1931, mas ao longo da sua carreira de cineasta realizou 32 longas metragens, onde se incluem Aniki-Bóbó (1942), Amor de Perdição (1978), Francisca (1981), Non ou Vã Glória de Mandar (1990), Vale Abraão (1993) e Um filme falado (2003), entre outros.
Um dos aspectos mais relevantes da obra de Manoel de Oliveira foi o facto de ter transformado o cinema português numa actividade cultural de referência e a ter levado até às elites europeias, sobretudo em França e na Itália, vencendo as dificuldades inerentes a uma periferia geográfica e cultural do nosso país. Daí, que o seu desaparecimento seja destacada notícia não apenas na imprensa portuguesa, mas também na imprensa francesa, italiana e espanhola, com especial destaque para o diário francês Libération.
A vasta obra de Manoel de Oliveira que tantas vezes foi incompreendida, objecto de polémica e por vezes símbolo de má qualidade no nosso limitado meio cultural, vai agora poder ser revista e reapreciada no cinema, na televisão, ou nos espaços indoor através do DVD. Provavelmente, como sucede muitas vezes no campo das artes, o reconhecimento é tardio porque, habitualmente, o apreço pela obra de genialidade só surge post mortem. Por isso, com humildade, eu vou reapreciar a obra. Não quero cair na hipocrisia colectiva daqueles que elogiam Manoel de Oliveira sem ter visto um só dos seus filmes.