terça-feira, 23 de junho de 2026

A França sufoca com o calor e nós também

O solstício de verão ocorreu há cerca de 48 horas, o que significa que em Lisboa aconteceu o dia maior do ano com luz solar durante 14 horas e 52 minutos, enquanto nas cidades de Murmansk (Rússia) e de Bodø (Noruega), não houve noite e os seus residentes estiveram 24 horas consecutivas a ver o sol. 
O hemisfério norte do nosso planeta recebe agora maior incidência solar e as temperaturas são mais altas, embora a desigual distribuição de continentes e oceanos altere as condições locais, mas tudo isto acontece num quadro anual repetitivo e que a ciência geofísica prevê com antecipação e rigor. 
Porém, o fenómeno das alterações climáticas que vai acontecendo, está a contrariar cada vez mais os ciclos meteorológicos e sucedem-se chuvas torrenciais, ciclones destruidores, inundações diluvianas e ondas de calor extremo, sempre com consequências mais ou menos trágicas.
Actualmente há uma onda de calor histórica na frente ocidental da Europa com temperaturas muito altas – acima de 40 graus – tendo sido emitidos alertas em Itália, no Reino Unido, na Alemanha, na Bélgica, na Espanha e em Portugal, mas de acordo com a imprensa francesa, será em França que a situação é mais preocupante. Quase todos os jornais franceses referem a palavra canicule e a edição de hoje do diário La Dépêche du Midi, que se publica em Toulouse, diz que a França sufoca com as temperaturas a ultrapassar os 40 graus e que os franceses estão assustados, com as escolas fechadas, os transportes públicos afectados, a economia perturbada e com os serviços de saúde de prevenção. As cidades de Toulouse (41,9º) e Poitiers (41,2º) foram aquelas onde se registaram as temperaturas mais altas, mas nas regiões ibéricas da Andaluzia e do Alentejo estiveram um pouco acima.
Assim, para quem ande por esta frente ocidental da Europa, há que evitar o sol e aumentar a hidratação.

domingo, 21 de junho de 2026

Uma festa a valer – Sanjoaninas 2026

As Sanjoaninas são as festas realizadas em honra de São João na cidade de Angra do Heroísmo e que são, porventura, as festas profanas mais espectaculares das muitas que são realizadas em todas as ilhas dos Açores.
Classificada pela Unesco como património mundial, Angra do Heroísmo é a mais importante cidade da ilha Terceira, que é uma das nove ilhas dos Açores, embora por vezes se diga que “os Açores são oito ilhas e um parque de diversões que é a ilha Terceira”, num reconhecimento pelo entusiasmo terceirense por todas as festas, nomeadamente o Carnaval, o Divino Espírito Santo e os Santos Populares, com os bailinhos, as marchas populares e as corridas à corda, que são marcas da identidade cultural terceirense.
A bela cidade espera e prepara durante muitos meses as Sanjoaninas e, neste ano de 2026, entre os dias 19 e 28 de junho enche-se de vida e transforma-se num enorme palco de cultura, cor, tradição e alegria, com espaços gastronómicos, muitos concertos e espectáculos ao vivo, torneios desportivos, exposições, animação de rua, corridas de touros e corridas à corda, cortejos e desfiles temáticos, regatas e um sempre apreciado espectáculo pirotécnico. A população da ilha e muitos visitantes convergem com alegria e entusiasmo para a histórica cidade, que se espraia pela orla da baía que lhe deu o nome e à sombra do Monte Brasil. Os números são bem expressivos, pois desfilarão 49 marchas populares com 4.500 marchantes, das quais 12 são provenientes de outras ilhas, da Madeira e do Canadá, havendo também 78 espaços gastronómicos espalhados pelo centro histórico da cidade.
As Sanjoaninas são sempre associadas a efemérides ou temas culturais e com o tema “Angra e a Açorianidade”, as Sanjoaninas 2026 foram associadas às comemorações do cinquentenário da Autonomia, que constitui um instrumento de valorização e dignificação da condição insular e a concretização de uma justa aspiração das populações açorianas, que só o 25 de Abril de 1974 tornou possível.

sexta-feira, 19 de junho de 2026

Socos e pontapés no aniversário do Donald

Donald Trump completou 80 anos de idade no dia 14 de junho e decidiu celebrar o acontecimento de uma forma peculiar. Podia ter organizado um jantar familiar, um comício com apoiantes, ou um grande concerto, mas decidiu associar-se ao Ultimate Fighting Championship (UFC) para receber sete combates de artes marciais mistas (MMA) no relvado da Casa Branca. Foi uma escolha que mostra o nível deste homem que os americanos elegeram para seu presidente, uma coisa “outrora inimaginável”. 
Para concretizar esta ideia foi instalada uma plataforma cercada de rede – o octógono – uma jaula onde os lutadores enclausurados trocam socos e pontapés, num chocante espectáculo de “vale tudo” e numa exibição de violência e de brutalidade que ofende a condição humana. Para agravar ainda mais esta insólita celebração, este deprimente espectáculo faz parte das comemorações do 250º aniversário da independência dos Estados Unidos, o que certamente deixou perplexos, tanto George Washington como Thomas Jefferson. 
A famosíssima e centenária revista The New Yorker tratou de ridicularizar esta iniciativa presidencial e, na sua última edição, fez capa com o “octógono” de Trump, onde sob seu olhar estão a lutar J.D.Vance e Marco Rubio, considerados os seus delfins.  
No dia seguinte a esta grotesca forma de celebrar aniversários, Donald Trump estava em Evian na cimeira do G7 e as televisões mostraram o servilismo com que foi tratado pelos líderes europeus, talvez incomodados por não terem sido convidados para o 80º aniversário do Donald.
Vi e só me ocorreu o Fado da Tristeza, uma inspirada canção de José Mário Branco.

quinta-feira, 18 de junho de 2026

Il re é sempre Lionel Andrés Messi

Os jornais argentinos e espanhóis, mas também de alguns outros países, destacaram o talento e a eficácia futebolística de Lionel Andrés Messi, que com 38 anos de idade, meteu os três golos com que a Argentina bateu a Argélia no seu primeiro jogo para o Mundial, disputado ontem em Kansas City. O famoso diário italiano La Gazzetta dello Sport, que se publica em Milão desde 1896 e é o mais antigo jornal desportivo da Europa, dedica-lhe a sua edição de hoje com a manchete “il re é sempre Leo”, isto é, o rei é sempre Leo.
Esta afirmação é demolidora para Cristiano Ronaldo que, no mesmo dia, teve uma exibição decepcionante contra a República Democrática do Congo em Houston e que, segundo o mesmo jornal, “tropeça em campo, não causa impacto, decepciona, nunca marca golo”.
Ao longo dos anos, Ronaldo e Messi sempre se encararam de frente, conquistando Bolas de Ouro e Ligas dos Campeões, “mas agora parecem mais distantes do que nunca, porque no mesmo dia um marca três golos e o outro decepciona”. O jornal escreve que, enquanto em Portugal “não perdoam” a Cristiano Ronaldo, na Argentina deliram com Messi que “se candidatasse amanhã à presidência da Argentina, teria 80% dos votos”.
Cristiano Ronaldo é o português mais famoso de toda a nossa história de nove séculos e merece a nossa admiração e o nosso respeito, pelo que é tão doloroso ler este tipo de comentários, como assistir a um jogo como aquele que a equipa nacional ontem disputou, sem alegria, sem ambição e sem vontade de vencer, o que deixou os portugueses em estado de choque, porque os mass media e os comentadores do regime os convenceram que iriam ser campeões do mundo.   Agora, como dizem os futebolistas quando perdem, “é preciso levantar a cabeça”

terça-feira, 16 de junho de 2026

Vozinha e a boa surpresa de Cabo Verde

As equipas nacionais de Cabo Verde e da Espanha empataram ontem sem golos, no jogo que disputaram em Atlanta para o Grupo I do Mundial e o resultado constituiu o primeiro grande choque deste Mundial e fez de Cabo Verde “o lugar mais feliz do mundo neste momento”.
A Espanha é a actual campeã da Europa, é a equipa número 2 do ranking da FIFA e é a grande favorita para vencer o Mundial, enquanto Cabo Verde é estreante e ocupa apenas a posição 67 daquele ranking. Por isso, o jogo Espanha-Cabo Verde era apenas mais um jogo do Mundial de futebol e um duelo previsivelmente bastante desequilibrado e com um vencedor quase inevitável, mas não foi isso que aconteceu. A imprensa internacional elogiou a estreia histórica dos “tubarões azuis”, onde se destacam vários futebolistas que jogam em Portugal, sobretudo o guarda-redes Vozinha, que foi eleito o MVP (Most Valuable Player) do primeiro jogo de Cabo Verde numa fase final de um Mundial. Trata-se de um jogador do Desportivo de Chaves, que nasceu no Mindelo e tem 40 anos de idade, cujo nome completo é Josimar José Évora Dias. 
Na sua edição de hoje o jornal português Record fez manchete com o seu nome, escrevendo “Vozinha cala Espanha”. Porém, a exibição do guarda-redes caboverdiano foi muito elogiada em muitos jornais estrangeiros, nomeadamente n'O Globo (“Vozinha cala a favorita”), no Estado de S. Paulo (“Vozinha cala a Espanha”) e até no The Washington Post (“A hero for Cape Verde”), no The New York Times (“Vozinha, the 40-year-old Cape Verde hero”) e no The Wall Street Journal (“The 40-year-old goalkeeper who just shut out the World Cup favorites”).
A imprensa espanhola classificou o resultado do jogo com Cabo Verde como “petardazo”, “chasco”, “deprimente empate” ou “desilusionante debut”, enquanto o diário desportivo AS escreveu: “El muro caboverdiano y el cuarentón Vozinha provocan la primera gran sorpresa del Mundial”.
Grande Vozinha!

segunda-feira, 15 de junho de 2026

Acordo de paz entre o Irão e os EUA

Foi anunciado o imediato cessar-fogo e a reabertura do estreito de Ormuz para pôr fim ao conflito entre o Irão e os Estados Unidos que se prolongava há vários meses e essa grande notícia faz a manchete da edição de hoje do jornal espanhol El País, curiosamente com maior destaque do que fazem as edições do The New York Times e do The Washington Post, o que pode ter algum significado.
Se houve um acordo, quer dizer que essa foi a vontade das partes e que não há vencedores nem vencidos, que a dignidade das partes foi acautelada e que pode estar aberto um ciclo de desanuviamento na região. 
Porém, o regime extremista de Netanyahu não deve ter gostado nada deste acordo, pois não mostra sinais de contenção nem de respeito pela soberania dos vizinhos, o que pode configurar a continuação da sua agressão ao Líbano com o apoio dos americanos. Só o tempo dirá se este acordo entre o Irão e os Estados Unidos “tem pernas para andar”, ou se é apenas uma manobra para Donald Trump se exibir internamente e para menorizar os líderes que vão estar com ele na reunião do G7.
A credibilidade de Donald Trump está muito baixa e muitos têm dúvidas sobre este acordo. Há poucos dias, um canal televisivo referiu-se às “palavras vazias de Trump” e avançava com o conteúdo das suas declarações sobre a guerra no Irão: “acordo iminente (38 vezes), Irão derrotado (55 vezes), Irão destruído (35 vezes) e estreito de Ormuz aberto (25 vezes)”. Com tão intensa e tão mentirosa propaganda, muita gente desconfia. Porém, se o acordo vingar como desejam os amantes da paz, representará um passo importante para a redução das tensões no Médio Oriente, embora continuem por resolver questões relacionadas com o programa nuclear iraniano e outros pontos estratégicos, que deverão ser discutidos numa nova fase de negociações, dos quais Israel será certamente o mais importante.

domingo, 14 de junho de 2026

Narendra Modi e os seus 12 anos de poder

Há muitos países que, embora não estando representados no Mundial de Futebol, continuam presentes nas agendas mediáticas mundiais e um deles é a Índia.
A Índia ou União Indiana é uma república constituída por 28 estados e sete territórios da União, tem uma grande diversidade em termos culturais, étnicos e linguísticos, sendo o país mais populoso do mundo.
Independente desde 1947, é uma democracia parlamentar que foi dirigida durante muitos anos por Nehru, pela sua família e pelo Partido do Congresso, que tinham lutado contra o domínio colonial britânico. Em 1980 nasceu o  Bharatiya Janata Party ou BJP, um partido populista da direita radical, de base religiosa e cultural hindu, ultranacionalista e conservador que, com 180 milhões de membros, reclama ser “o maior partido político do mundo”. Tem associada uma temida organização paramilitar de voluntários de extrema-direita que é o Rashtriva Swavamsevak Sangh (RSS), que mantém grande hostilidade e violência para com as comunidades muçulmanas e católicas do país. O BJP teve sucesso popular e hoje governa 22 dos 28 estados indianos e, desde há 12 anos, tem Narendra Modi como primeiro ministro da União.
A Índia aspira tornar-se a potência dominante da Ásia do Sul e tem fortalecido as suas Forças Armadas, pelo que todos os grandes fabricantes de armamento – Estados Unidos, Rússia, França e Reino Unido – se aproximam de Narendra Modi e esquecem o seu patrocínio às actividades violentas dos fanáticos do RSS.
Na Índia é vulgar que as empresas publiquem anúncios laudatórios dirigidos aos dirigentes políticos… A propósito dos seus 12 anos de governo, a empresa Apollo Tyres Ltd publicou um anúncio de felicitações a Narendra Modi no jornal Hindustan Times, que tem sede em Nova Delhi. É apenas um entre muitos anúncios, talvez a desejar que Modi se conserve no poder por muito mais tempo.

sábado, 13 de junho de 2026

A Espanha recebeu Leão XIV em euforia

No dia 21 de abril de 2025 foi anunciado o falecimento do Papa Francisco aos 88 anos de idade e 17 dias depois, no dia 8 de maio, os cardeais reunidos em Conclave elegeram Robert Francis Prevost como o 267º Papa da Igreja Católica, que escolheu o nome de Leão XIV. Como quase sempre acontece, esta escolha dos cardeais foi uma surpresa e na sua biografia, que rapidamente foi publicada pelo jornalista Christophe Henning, o novo Papa foi classificado como “o Sucessor Inesperado”.
O Cardeal Robert Prevost é americano e era pouco conhecido.
Durante os primeiros meses do seu pontificado, o Papa Leão XIV foi muito discreto, mas em novembro realizou a primeira viagem apostólica à Turquia e ao Líbano, depois esteve um dia no Mónaco e seguiu-se uma longa viagem à Argélia, Camarões, Angola e Guiné Equatorial. Nessas viagens falou de paz, criticou a guerra e apelou à reconciliação, o que não agradou ao seu compatriota Donald Trump que o criticou. Porém, o Papa declarou não ter medo do governo de Trump e com essa corajosa declaração mostrou que o Papa e a Igreja Católica são confiáveis.
Agora, entre 6 e 12 de junho, o Papa realizou uma importante viagem apostólica a Espanha com passagens por Madrid, Barcelona, Las Palmas de Gran Canaria e Santa Cruz de Tenerife, tendo levado consigo uma mensagem de união para toda a Espanha, enquanto importante país de maioria católica, mas também a afirmação do direito dos migrantes a serem tratados com dignidade, tendo inaugurado a imponente torre central da Basílica da Sagrada Família em Barcelona.
Toda a imprensa espanhola acompanhou a visita do Papa Leão XIV e a euforia com que foi recebido, mas o jornal El Día de Santa Cruz de Tenerife publicou uma edição especial alusiva à sua passagem pela ilha de Tenerife, que foi a primeira visita realizada por um Papa àquela ilha e que aconteceu no dia 12 de junho de 2026.

Começou o Mundial e são 38 dias de festa

A 23ª edição do Campeonato Mundial de Futebol da Federação Internacional de Futebol (FIFA) começou no dia 11 de junho na Cidade do México e vai decorrer até ao dia 19 de julho. Pela primeira vez a competição será disputada em três países e terá a presença de 48 equipas nacionais, divididas por 12 grupos de quatro equipas. Serão disputados 104 jogos em 16 cidades-sede: Cidade do México, Guadalajara e Monterrey (México), Atlanta, Boston, Dallas, Houston, Kansas City, Los Angeles, Miami, Nova Iorque/Nova Jersey, Filadélfia, Baía de São Francisco e Seattle (Estados Unidos) e Toronto e Vancouver (Canadá).
O mundo acompanha este Mundial com grande curiosidade e muito entusiasmo, com as guerras e as políticas a passar para segundo plano, mas o mundo dos negócios está atento e tem as suas garras afiadas, sobretudo no maior dos países anfitriões onde tudo tem que gerar rendimento e onde o Donald Trump vai aproveitar para se promover interna e internacionalmente e, certamente, para juntar mais alguns milhões à sua conta pessoal.
A seleção portuguesa está presente e os entendidos dizem que é uma das favoritas à vitória. Não sei se assim é mas, tal como a generalidade dos portugueses, vou acompanhar o Mundial com entusiasmo e vou desejar que tudo corra bem e que marquem mais golos do que os que tiverem que sofrer. Os nossos compatriotas vibram com a “equipa das quinas” e com as prestações artísticas dos seus ídolos. Se a “equipa de todos nós” tiver bons resultados, desperta uma onda de alegria e felicidade nos portugueses e anestesia-os das dores que sofrem diariamente com os baixos salários, o custo de vida, o aumento dos combustíveis, as esperas no SNS, a ausência de oiliciamento na via pública, a sujidade urbana e a mediocridade e impreparação de muitos políticos.
A imprensa mundial tem dedicado edições especiais a este fenómeno desportivo, mediático e comercial, assim acontecendo com o jornal italiano Corriere dello Sport que, não podendo falar da “escandalosa” ausência da Itália, evoca a rivalidade entre os “históricos” ícones Ronaldo e Messi, que vão ter “the last dance”, apontando como favoritos à vitória a França, a Argentina e a Espanha.

quarta-feira, 10 de junho de 2026

Um míssil que não chegou ao seu destino

Embora as notícias sejam muito contraditórias e estejam viciadas pela propaganda, parece evidente que Israel, a pretexto de garantir a sua segurança, está a seguir uma política expansionista agressiva e ilegal, que passou pela destruição de Gaza, pela presença militar activa na Cisjordânia que é solo palestiniano, pela ocupação de território de um país soberano que é a Síria e, mais recentemente, pela operação em curso que quer fazer ao sul do Líbano o mesmo que fez em Gaza. Como argumento, o regime do carniceiro Netanyahu invoca o seu direito para combater o Hamas e o Hezbollah, bem como a humilhação permanente da Autoridade Nacional Palestiniana, criada em 1994 e que, desde 2012, tem assento nas Nações Unidas com o estatuto de observador.
Porém, na sua desenfreada e criminosa corrida bélica contra tudo o que não se lhe submeta, o carniceiro de Israel decidiu atacar a cidade de Beirute, até porque continua a tirar partido da hipocrisia europeia e dos seus líderes medíocres e desprovidos de coragem, que uma vez mais se calaram. O mesmo não fez o Irão, cujo regime é controlado de forma autoritária e opressiva por líderes religiosos fanáticos, que, em solidariedade para com o Líbano, decidiu responder à ofensiva israelita com uma vaga de mísseis, no primeiro ataque desde o cessar-fogo de abril. Acontece que, no dia 8 de junho, um grande míssil balístico iraniano lançado contra Israel, caiu e ficou encravado no solo perto de Jericó, na Cisjordânia. 
Muitos jornais internacionais, como por exemplo o diário belga DeMorgen, ilustraram as suas primeiras páginas com a insólita fotografia do míssil iraniano.

terça-feira, 9 de junho de 2026

O actor Trump vai explorar o futebol

A dois dias da abertura oficial da fase final do Mundial de Futebol aumentam as notícias sobre aquele que, à escala global, é considerado “o maior acontecimento do ano”, em que se esperam milhões de espectadores nos estádios, em frente das televisões, ou a manipular os seus personal computers e smartphones.
A revista alemã Der Spiegel também tratou o tema, embora se tivesse concentrado no “actor Trump que explora o futebol” e tivesse escolhido como título de primeira página “o desmancha prazeres” e, em subtítulo, a frase “como Donald Trump está a abusar do Mundial”.
A ilustração que a revista escolheu é significativa. O troféu do Campeonato do Mundo da FIFA que foi criado em 1974 pela empresa italiana Stabilimento Artistico Bertoni e que é feito de ouro de dezoito quilates, mostra duas figuras humanas segurando o globo terrestre, mas os ilustradores da revista “substituíram” o globo terrestre pela cabeça de Donald Trump, numa alusão ao seu envolvimento nos interesses que o Mundial anima. Segundo é salientado pela imprensa “o Mundial está a tornar-se numa ‘mina de ouro’ para o governo de Trump” e “o gigantismo de Trump e a ganância de [Gianni] Infantino estão a transformar o Mundial numa máquina de fazer dinheiro para a FIFA e para os americanos”.
É sabido que Donald Trump não suporta quando alguém lhe rouba o protagonismo e, ainda segundo a imprensa, “há propaganda presidencial por toda a parte”, temendo-se que Trump procure “numa dimensão grotesca e perigosa”, estar em cena no maior palco do mundo deste verão. Como diz o Der Spiegel, será o desmancha prazeres deste Mundial, pois vai querer ser o protagonista e vai querer ofuscar o brilho dos jogadores.

segunda-feira, 8 de junho de 2026

Cristiano Ronaldo, the pride of Portugal

A poucos dias do início do Campeonato do Mundo de Futebol da FIFA, ou simplesmente Mundial, quando se publicam por todo o mundo edições especiais e “Guias do Mundial” com informações sobre jogadores, equipas, jogos e estádios, foi com surpresa que assistimos ao aparecimento de uma edição da revista americana Newsweek com 100 páginas e dezenas de fotografias, totalmente dedicada ao futebolista Cristiano Ronaldo.
O Mundial é um importante evento mediático, provavelmente mais comercial do que desportivo, sendo uma incomparável plataforma para a promoção de países, de marcas, de produtos, de ideias e até de personalidades. Neste aspecto, o presidente dos Estados Unidos não vai perder a oportunidade para se promover e está preparado para ser “o rei da festa” mas, com surpresa, também vemos que o nosso mais famoso futebolista, que de facto é “the pride of Portugal”, parece querer disputar-lhe o protagonismo e a popularidade com esta inesperada edição de promoção. Será mais ou menos justa, mas é desproporcionada.
O nosso maior poeta, que foi Luís de Camões, escreveu que “mudam-se os tempos, mudam-se as vontades” e que “todo o mundo é composto de mudança”. De facto assim é e a comunicação social é um bom exemplo desse tempo de mudança, especialmente os jornais e as televisões, que cada vez mais são suportes para tudo e, por vezes, até para algumas notícias. E não são apenas os chamados pasquins que alinham nessa moda, pois até os títulos de referência como é o Newsweek, parecem alinhar nos novos tempos. Como dizia Emídio Rangel, as televisões tanto vendem sabonetes como Presidentes da República. É preciso é que alguém pague…
Independentemente deste episódio mediático, espera-se que no Mundial a equipa portuguesa e o seu capitão Cristiano Ronaldo tenham boas prestações e entusiasmem os portugueses, que bem precisam de algumas alegrias.

sexta-feira, 5 de junho de 2026

Uma repreensão dirigida a Donald Trump

A Câmara dos Representantes dos Estados Unidos, cuja designação oficial é United States House of Representatives, ou simplesmente House, votou e aprovou uma resolução sobre os poderes presidenciais em relação à guerra contra o Irão. Embora a maioria desta câmara de deputados seja republicana, a minoria democrata prevaleceu com apoio de quatro votos republicanos e a resolução foi aprovada por 215 a 208 votos.
A resolução é indicativa para Donald Trump, no sentido de “retirar as forças armadas americanas das hostilidades com o Irão, a menos que o Congresso vote pela declaração de guerra, ou autorize o uso da força militar contra o país”, o que nunca aconteceu.
O jornal nova-iorquino Daily News destacou na sua edição de ontem que “a Câmara repreende Trump a respeito do Irão” ao votar pela suspensão da guerra e, se bem que seja uma declaração simbólica e a nada obrigue, ficam muito limitados os poderes presidenciais. Os membros da Câmara dos Representantes são eleitos pelo voto popular em cada estado e, de certo modo, representam a vontade dos eleitores que se estão a mostrar mais descontentes com a política de Trump, sobretudo em relação ao aumento do custo de vida e dos combustíveis, mas que também se mostram, cada vez mais, não apoiantes da guerra contra o Irão e os seus astronómicos custos.
O facto é que nos últimos tempos Donald Trump parece estar sem saber o que fazer, não tem mostrado o seu habitual ar fanfarrão e até já critica Benjamin Netanyahu, o criminoso a quem o Tribunal Penal Internacional expediu um mandato de captura com acusações de crimes de guerra e de crimes contra a humanidade, mas que continua a destruir e a matar os seus vizinhos... com a Europa calada. 
O Donald tem feito quase tudo o que lhe apetece e anda a incendiar o mundo, mas é um bom sinal que lhe tenha sido mostrado este cartão amarelo. Já não era sem tempo.

terça-feira, 2 de junho de 2026

A China vai fabricar automóveis na Galiza

A partir de 2028 a conhecida marca MG vai voltar a produzir automóveis na Europa e escolheu a Galiza para localizar a sua fábrica, segundo informou a edição de hoje do centenário jornal La Voz de Galicia, que se publica na cidade de La Coruña. Trata-se de um investimento de 200 milhões de euros, que criará 2.300 postos de trabalho e terá uma produção de 120.000 automóveis por ano.
A MG foi fundada em 1924 no Reino Unido, mas em 2005 foi adquirida por uma sociedade chinesa e passou a ter a sua sede na China, mas em 2007 foi comprada pelo grupo SAIC Motor (Shanghai Automobile Industry Corporation), o gigante chinês da indústria automóvel. Em 2016 deixou de produzir automóveis no Reino Unido, apesar de ter mantido a matriz britânica nos seus automóveis e de estar muito presente no mercado europeu, embora passasse a utilizar a engenharia de ponta chinesa.
A decisão da localização deste importante investimento chinês na Galiza, certamente ponderou todas as variáveis que determinam este tipo de escolhas, que vão desde o preço do terreno e das acessibilidades, até à existência de um bom porto (Ferrol), passando pela qualidade da mão-de-obra disponível, fiscalidade e ambiente político, entre muitos outros, incluindo a persuasão/pressão das autoridades locais e as contrapartidas que estas oferecem ao investidor. 
Portugal parece que ficou a ver navios. Porém, sempre ouvimos dizer que Macau era uma porta giratória para o investimento chinês em Portugal e até temos a AICEP - Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal, responsável pelo acolhimento de projectos de investimento estrangeiro, para o que dispõe de cerca de 500 funcionários e um orçamento de 547 milhões de euros em 2025.
Palavras para quê?

domingo, 31 de maio de 2026

Leão XIV e a Magnifica Humanitas

O L'Osservatore Romano que é propriedade da Santa Sé mas que não é o seu jornal oficial, anunciou na sua edição de 26 de maio que o Papa Leáo XIV apresentara a sua primeira Carta Encíclica, a que deu o título Magnifica Humanitas, “sobre a salvaguarda da pessoa humana na era da inteligência artificial”.
O texto oficial da encíclica foi divulgado pela Santa Sé, ocupa 48 páginas, distribui-se por 245 pontos e merece uma leitura atenta e reflexiva, sobretudo por quem se preocupe com o que se vai passando no mundo.
Logo no início o Papa Leão XIV diz que há 135 anos o Papa Leão XIII publicou a Encíclica Rerum Novarum que constituiu uma “reflexão sobre a sociedade, a economia e política a que hoje chamamos Doutrina social da Igreja”. Depois, acrescenta que hoje a Doutrina Social da Igreja é um património de sabedoria que nos ajuda “a ler os desafios do presente com lucidez, identificando caminhos adequados para viver, com alegria”. Tal como acontecia em finais do século XIX, também agora a tecnologia disponibiliza um poder sem precedentes, sobre a natureza, sobre a informação e até mesmo sobre a vida humana, numa lógica que se manifesta também na persistência da guerra como instrumento de afirmação política e de humilhação dos mais fracos. Nunca a Humanidade dispôs de tantos meios para controlar, vigiar, influenciar, dominar ou destruir.
O Papa Leão XIII enfrentou os desafios sociais e humanos da Revolução Industrial através da Encíclica Rerum Novarum. Agora, o Papa Leão XIV parece ter visto um paralelismo histórico entre o passado e o presente, pois à Revolução Industrial do século XIX está a suceder a Revolução Digital do século XXI e o Papa parte dessa realidade para “interpretar as grandes tendências do nosso tempo, em particular os progressos da técnica, a digitalização, a inteligência artificial (IA) e a robótica que estão a transformar o mundo” e a criar uma nova cultura do poder.
O Papa Leão XIV defende a civilização do amor, não como utopia sentimental mas como alternativa antropológica, política e cultural à cultura do poder.

sábado, 30 de maio de 2026

A soberania de Cuba está sob ameaça

A República de Cuba é uma antiga colónia espanhola que depois da guerra hispano-americana de 1898 se tornou um protetorado americano e que em 1902 se tornou independente. Desde então, Cuba é um estado soberano com autoridade completa sobre um território, com uma população permanente, tem um governo com jurisdição em todo o território, tem a capacidade de se relacionar com outros estados e, no dia 24 de outubro de 1945, foi um dos cinquenta membros fundadores das Nações Unidas.
O país era governado pelo ditador Fulgencio Batista e contra ele se revoltaram Fidel Castro e os seus guerrilheiros, em que se destacavam Che Guevara, Raul Castro, Camilo Cienfuegos e Juan Almeida. No dia 1 de janeiro de 1959 o ditador fugiu de Cuba e Fidel Castro e os homens tomaram o poder, que nunca mais largaram e já passaram 67 anos.
Os princípios da revolução cubana eram o idealismo revolucionário, o nacionalismo, a luta contra uma ditadura, o anti-imperialismo, a procura da justiça social e a solidariedade internacional, pelo que despertou muitas simpatias pelo mundo. 
Os americanos também começaram por apoiar Fidel, mas depressa viram os seus interesses económicos na ilha serem afrontados e passaram a hostilizar Cuba. Então, o regime virou-se para a URSS, a sua revolução radicalizou-se e o país tornou-se “exportador da revolução” para a América Latina e para a África. Com a queda da URSS o futuro de Cuba ficou ameaçado porque os Estados Unidos condenaram Cuba ao isolamento. Com Donald Trump a situação agravou-se porque “ele não gosta de Cuba” e tratou de ameaçar o país militarmente, naquilo que poderá ser mais uma intervenção ilegal a que Trump já nos habituou.
Com esse quadro é surpreendente a última edição da revista Newweek que, um pouco contra a sua linha editorial centrista e não alinhada e contra a sua credibilidade editorial, ou porque cedeu ao trumpismo, parece apoiar as intenções de Donald Trump e faz o “funeral” do regime cubano, num evidente desrespeito pela sua soberania e pelo direito internacional.

sexta-feira, 29 de maio de 2026

Joana Vasconcelos: exposição em Málaga

A cidade espanhola de Málaga é a capital da província do mesmo nome, sendo uma das oito províncias da comunidade autónoma da Andaluzia, que é a maior das 17 comunidades autónomas espanholas e é do tamanho de Portugal. A cidade situa-se na orla do mar Mediterrâneo, é a capital da Costa del Sol e tem 600 mil habitantes, a que se juntam milhões de turistas. 
Nesta cidade nasceu Pablo Picasso, um dos mais influentes artistas mundiais do século XX, sobretudo na pintura, na escultura e na cerâmica e, em sua homenagem, a cidade criou o Museo Picasso Málaga. Este museu foi inaugurado em 2003 e recebeu 285 obras doadas por membros da família de Picasso, o que o torna uma referência no panorama museológico espanhol.
Neste museu é hoje inaugurada uma exposição de Joana Vasconcelos intitulada Transfiguración, em que estarão expostas 13 obras produzidas entre a década de 1990 e a actualidade, que poderão ser vistas até 27 de setembro em salas de dois andares do museu. Segundo a informação já divulgada pelo museu, a exposição integra obras cedidas por instituições como a Fundação Louis Vuitton, o Museu de Arte Contemporânea de Castela e Leão (MUSAC), o Museu Extremenho e Iberoamericano de Arte Contemporânea (MEIAC), a Fundação EDP, a Coleção Luis Adelantado e o próprio estúdio de Joana Vasconcelos. 
É uma grande exposição e em declarações que fez, a artista disse que “este diálogo no espaço com Picasso” é um marco importante na sua carreira. A edição de hoje do diário malaguenho La Opinión destaca na sua primeira página el art de Joana Vasconcelos com uma fotografia em que a artista aparece junto do sapato de salto alto que criou em 2009 com panelas Silampos e respectivas tampas, a que deu o título Marilyn
Afinal não são apenas os nossos artistas-futebolistas que são apreciados no estrangeiro…

quinta-feira, 28 de maio de 2026

R.I.P. Jorge Barros

O Jorge Barros deixou-nos ontem aos 81 anos de idade, depois de uma longa e corajosa luta contra o infortúnio. Conterrâneo e colega de escola e de turma, mantive com o António Jorge Pinto da Costa Barros – tínhamos o hábito de muitas vezes nos tratarmos pelos nossos extensos nomes – uma amizade que perdurou durante mais de setenta anos e, entre outras causas comuns como a ligação à terra alcobacense e o culto pela liberdade e pela justiça social, tinhamos a atracção pelos Açores, pela sua paisagem natural e pela sua riqueza cultural. 
Às ilhas dos Açores dedicou boa parte da sua obra, percorrendo as ilhas demoradamente e muitas vezes, observando a beleza natural, conversando com as pessoas, fotografando festas e fajãs, picos e enseadas, faróis e embarcações, baleeiros, romeiros e espantalhos. Nada escapou à sua atenta objectiva.
O jornal Público chamou-lhe “o fotógrafo de Portugal e do Atlântico”, porque durante muitos anos fotografou tudo com atenção e talento – as nossas raízes e as nossas gentes, as nossas paisagens e os nossos monumentos, além das mais peculiares práticas culturais e religiosas do nosso Portugal – com arte, com sensibilidade e com inteligência, como mostram as três dezenas de livros que publicou e a sua participação em mais de três centenas de exposições. Muitas das suas obras estão associadas a autores como Orlando Ribeiro, Fernando Pessoa e Raul Brandão, mas também a outros nomes consagrados da escrita, como Eugénio de Andrade, Fernando Assis Pacheco, João de Melo, José Cardoso Pires, Lídia Jorge, Manuel Alegre, Mário Cláudio e Sofia de Melo Breyner.
Homem discreto, quase a roçar a humildade, escondia uma enorme sabedoria que resultava de muita leitura e de muita observação, mas era também um conversador inteligente, um contador de estórias, um inspirado poeta e um amigo atento.
Caro Jorge: não nos voltaremos a encontrar nem por aqui, nem nas Lajes do Pico de que tanto gostavas. 
R. I. P.

quarta-feira, 27 de maio de 2026

No centenário da ditadura do Estado Novo

Há um século, quando em Portugal se viviam tempos de insatisfação social, de debilidade económica, de grande instabilidade política, se sucediam golpes de estado e se destituíam governos, eclodiu um movimento militar no dia 28 de maio de 1926 que logrou o apoio da generalidade dos militares e de largos sectores sociais. O movimento prometia “um governo forte que tenha permissão de salvar a pátria, que concentre em si todos os poderes para na hora própria o restituir a uma verdadeira representação nacional”. Anunciava-se uma ditadura para acabar com a corrupção, a demagogia e a ditadura dos “democráticos”, para regressar depois ao parlamentarismo republicano.
A cabeça visível deste movimento iniciado em Braga foi o general Gomes da Costa, que marchou sobre Lisboa, onde o presidente Bernardino Machado reagiu à insurreição nomeando o almirante Mendes Cabeçadas para chefiar o governo. A solução não foi aceite pelos revoltosos, vindo a ser constituído um triunvirato com Gomes da Costa, Mendes Cabeçadas e o general Óscar Carmona, mas depressa os dois primeiros foram afastados. Para resolver o grave problema das Finanças Públicas foi chamado de Coimbra um tal professor Salazar, que “não aguentou” e regressou a Coimbra. Voltou a Lisboa em 1928, impôs uma ditadura financeira e um regime corporativo de partido único, apoiado numa forte repressão policial e na ausência das mais elementares liberdades cívicas. Não mais largou o poder até à morte e foi idolatrado por muita gente, mas também condenou muitos portugueses ao obscurantismo, ao analfabetismo, à pobreza, à servidão e ao subdesenvolvimento.
Porém História é História e o jornal Público, na sua edição de 24 de maio, evocou a histórica data de 28 de maio de 1926, em que nasceu o regime do Estado Novo e o salazarismo, ao publicar uma extensa reportagem sobre os “cem anos da marcha que abriu caminho à ditadura de Salazar”, ou sobre “o golpe que abriu a porta à longa noite do salazarismo”.
Tal como disse Winston Churchill em 1947, “a democracia é o pior dos regimes, à excepção de todos os outros”. Assim, a evocação histórica do centenário do 28 de maio de 1926 não pode ser uma operação de branqueamento de uma ditadura, mas antes uma boa oportunidade para saudar a democracia e liberdade do 25 de Abril de 1974, “o dia inicial, inteiro e limpo / onde emergimos da noite e do silêncio”.

segunda-feira, 25 de maio de 2026

A maturidade democrática de Cabo Verde

A República de Cabo Verde, ou simplesmente Cabo Verde, é um país constituído por dez ilhas, divididas entre o grupo de Barlavento e o grupo de Sotavento e com a sua capital na cidade da Praia, na ilha de Santiago. 
Cabo Verde tem um pouco mais de 500 mil habitantes, mas haverá mais caboverdianos em Portugal, em França e nos Estados Unidos, do que no próprio país. Independente desde 1975, é uma democracia estável em que existe paz social e uma verdadeira alternância do poder.
No passado dia 17 de maio realizaram-se eleições legislativas para escolher os seus 72 deputados. Havia 414.088 eleitores inscritos e entraram nas urnas 192.746 votos, isto é, o país também sofre da "abstencionite", embora o fenómeno da emigração caboverdiana justifique uma boa parte dessa elevada abstenção.
Apresentaram-se ao sufrágio cinco partidos, com destaque para o Partido Africano da Independência de Cabo Verde (PAICV) de Francisco Carvalho que conseguiu eleger 36 deputados e para o Movimento para a Democracia (MpD) de Ulisses Correia e Silva, que conseguiu 32 deputados. Estes partidos inverteram posições: o PAICV ganhou 6 lugares e ficou com a maioria absoluta, enquanto o MpD perdeu 6 deputados e vai perder o atual 1º ministro Ulisses Correia e Silva, que vai ceder o cargo a Francisco Carvalho. Tudo com exemplar normalidade democrática e, assim, Cabo Verde avança.
Também concorreram às eleições a União Caboverdiana Independente e Democrática (UCID) que elegeu 2 deputados, o Partido de Trabalho e Solidariedade (PTS) e o Partido Social Democrata (PSD) que não elegeram quaisquer deputados.
O que aqui se regista com agrado é a exemplar maturidade democrática de Cabo Verde, que a edição do semanário Expresso das Ilhas acentua e, porque aí vem o Mundial de Futebol, aqui se deseja que a equipa de Cabo Verde tenha muito sucesso para alegria de caboverdianos e de portugueses.

Os líderes fracos e o declínio da Europa

Como tem sido evidente desde há alguns anos e como neste espaço tem sido salientado algumas vezes, a Europa está em acentuado declínio e tem desperdiçado o seu histórico capital de credibilidade perante o mundo, sobretudo porque tem sido dirigida por gente incompetente, vaidosa e medíocre. Gente que, simplesmente não presta. 
A edição de fim-de-semana do jornal The Guardian inclui uma excelente reportagem sobre a impopularidade dos líderes europeus, salientando the sinking feeling, ou o sentido de afundamento. A capa desta edição é esclarecedora, com uma embarcação a afundar-se com Keir Starmer, Emmanuel Macron e Friedrich Merz, enquanto Pedro Sánchez e Giorgia Meloni usam bóias que ainda os poderão salvar. Segundo a ilustração, apenas a dinamarquesa Mette Frederiksen consegue salvar-se numa pequeno bote a remos, porque enfrentou com coragem o fanfarrão americano.
O jornal revela os índices de popularidade, ou de apoio-rejeição, dos líderes europeus: Starmer (27-63), Merz (19-76) e Macron (18-75), isto é, são ainda mais impopulares que Donald Trump (38-57). Quando os líderes alemão e francês, que também são os líderes da União Europeia, têm apenas o apoio de 19% e de 18% dos seus cidadãos, é caso para nos preocuparmos, tal como nos sentimos enganados quando vemos as tristes figuras que fazem os submissos Mark Rutte e Ursula van der Leyen.
Evidentemente que os europeus não aceitam a timidez, ou até a cobardia, destes líderes perante Donald Trump, nem a sua passividade, ou mesmo cumplicidade, face ao comportamento criminoso de Netanyahu. Nem reconhecem que a solução do problema ucraniano esteja na entrega de rios de dinheiro a Zelensky e na aplicação de sanções a Putin. 
Significa, portanto, que os líderes europeus têm estado do lado errado, do lado de quem não privilegia a paz, do lado do extremismo e a favor dos interesses das indústrias do armamento e que são cúmplices com a desinformação que tem enganado os europeus.

domingo, 24 de maio de 2026

Mark Rutte, o lacaio favorito do Donald

Nas teorias da comunicação surgidas no século XX para conhecer os efeitos sociais dos novos meios de comunicação - rádio e da televisão – é sempre destacada a célebre emissão radiofónica da CBS conduzida em 1938 por Orson Welles, baseada em “A Guerra dos Mundos”. 
Esse programa “transmitiu em directo” uma invasão devastadora de marcianos que atacaram Nova Iorque e outras cidades americanas. O pânico foi generalizado, os nova-iorquinos ficaram aterrorizados e essa histórica emissão passou a ser um paradigma dos efeitos sociais dos mass media. Quase cem anos depois, um palerma chamado Mark Rutte, que é o secretário-geral da NATO, veio usar a mesma ideia para criar o pânico e para nos dizer que o perigo são os russos e não são os marcianos.
Conforme noticia o jornal The Independent, o palerma disse que “a Rússia poderar atacar a NATO dentro de cinco anos” e voltou a adirmar que “as despesas militares devem aumentar rapidamente para que as nossas forças armadas disponham dos meios de que necessitam para nos manter seguros”. Há poucos meses, em directo pela televisão, o palerma sabujou-se de uma forma ridícula e indigna ao presidente do Estados Unidos, ao atribuir-lhe “todo o mérito” por levar os membros da NATO a aumentar as despesas militares para 5% do PIB e dizer-lhe que a Europa iria comprar e pagar material americano.
Donald Trump é um homem de negócios e, segundo afirmam os jornais, já acrescentou a sua fortuna em milhares de milhões desde que chegou à presidência dos Estados Unidos. Tudo lhe serve para ganhar dinheiro – bonés e perfumes, jantares e hotéis e, naturalmente, mísseis, drones e aviões.
O palerma do Mark Rutte é o seu lacaio favorito e o seu agente de negócios junto dos países da NATO. Por isso, para ser eficaz no marketing dos interesses do seu patrão, recorre à imaginação de Orson Welles e ameaça com o perigo russo, tal como acontecia nos anos mais tensos da Guerra Fria.

terça-feira, 19 de maio de 2026

Macau cuida da bela Ponte da Amizade

Toda a imprensa macaense de hoje destaca que a Ponte da Amizade, que liga a península de Macau à ilha da Taipa, vai ser objecto de “obras em larga escala” que demorarão cerca de dois meses e meio. Segundo foi anunciado, será feita a repavimentação asfáltica das faixas de rodagem e a substituição das juntas de dilatação, para além de outros trabalhos de manutenção.
Actualmente a península de Macau tem cinco pontes que a ligam às ilhas da Taipa e de Coloane e à zona de Hengqin, tendo as duas mais antigas sido construídas pela administração portuguesa do terrritório. A primeira dessas pontes, ligando a península à ilha da Taipa, é a Ponte Governador Nobre de Carvalho – a ponte velha – que foi projectada pelo engenheiro Edgar Cardoso e foi inaugurada em 1974. A segunda ponte mais antiga a ligar aqueles dois espaços territoriais é a Ponte da Amizade – a ponte nova – que foi projectada pelo engenheiro José Câncio Martins, com uma peculiar e artística forma ondulada e quatro faixas de rodagem, que começou a ser construída em 1990 e foi inaugurada em 1994.
Em 2005 o Centro Histórico de Macau entrou na Lista do Património Mundial da Unesco, em reconhecimento pela sua arquitectura e pela sua história, enquanto pioneiro entreposto comercial europeu com a China. Nessa longa história de cerca de 450 anos de permanência portuguesa em Macau, as duas pontes construídas pelos portugueses constituem dois importantes legados arquitectónicos, como destaca a edição de hoje do jtm – Tribuna de Macau.
Este texto é, também, uma homenagem aos meus amigos cujas vidas passaram por Macau e, de forma especial, ao meu amigo FDC.

domingo, 17 de maio de 2026

Reino Unido parece arrependido do Brexit

O jornal The Independent, mas também outros jornais londrinos, anunciam hoje que os rivais do primeiro-ministro Keir Starmer e, em especial, o deputado Wesley Paul William Streeting que se vem apresentando como candidato a ocupar o gabinete do nº 6 de Downing Street, declararam que o Brexit foi um erro e que o Reino Unido deve voltar a olhar para a União Europeia como um destino e não apenas como uma vizinhança. Significa que, antes de serem anunciadas eleições antecipadas no Partido Trabalhista, já Wes Streeting veio dizer que quer ser primeiro-ministro e levar o Reino Unido de volta à União Europeia.
Isto acontece num tempo em que a situação britânica é muito complexa, sobretudo depois do país ter escolhido o Brexit em 2016 e ter abandonado a União Europeia em 2020. Desde então, ao primeiro-ministro David Cameron sucederam Theresa May, Boris Johnson, Liz Truss, Rishi Sunak e Keir Starmer. Quando há muitos primeiros-ministros significa que há muitas mais clientelas a servir. Depois, à crise política junta-se a crise económica, mais a inflação, mais a imigração e, ainda, os graves problemas do National Health Service (NHS). O Reino Unido já não é o que era e ameaça afundar-se. Alguém escreveu que “os adversários de Starmer estão apenas a rearrumar as suas cadeiras no convés do Titanic” e, na sua mais recente edição, a prestigiada revista The Economist escolheu como manchete a pergunta: Is Britain ungovernable?
Infelizmente, muitos dos problemas britânicos também são comuns à generalidade dos países europeus, parecendo confirmar o declínio que muita gente anuncia no nosso velho continente. Porém, o Reino Unido faz falta à União Europeia e à ideia de Europa e, juntos, talvez possam remar melhor contra a maré.

R.I.P. João Abel Manta

Com 98 anos de idade faleceu João Abel Manta, um nome maior do panorama cultural português, com atividades artísticas tão diversificadas como a arquitetura e a pintura, o desenho e a cerâmica, a ilustração e o azulejo, além do cartoon, que foi a área que o tornou mais conhecido do público.
Ao longo da sua vida foi um cidadão que lutou pela Liberdade e pela Democracia, antes e depois do 25 de Abril de 1974, tendo participado no MUD Juvenil e sido preso pela PIDE em 1948, mas também nas campanhas contra a Ditadura do Estado Novo.
Começou a sua atividade profissional na arquitetura, mas depressa passou para as artes plásticas, em que entre outros trabalhos se destacou o seu painel de azulejos da Avenida Calouste Gulbenkian, em Lisboa, concebido em 1970 e aplicado em 1982. Depois, ainda antes e depois do 25 de Abril, publicou regularmente durante alguns anos os seus cartoons em jornais de grande tiragem como o Diário de Lisboa, o Diário de Notícias, O Jornal e o Jornal de Letras, sempre com uma abordagem crítica, inteligente e irónica sobre a situação política e social portuguesa e sobre o regime de Salazar. Do cartoon passou para a pintura onde também realizou uma obra notável, vindo a receber diversos prémios nacionais e internacionais de reconhecimento pela sua obra. 
Foi, inquestionavelmente, um homem do 25 de Abril, o “ilustrador da liberdade” ou o “artista da revolução”, com uma importância simbólica nas Artes Plásticas semelhante à que tiveram Zeca Afonso na Música, Manuel Alegre na Poesia, ou Salgueiro Maia na coragem com que ocupou o Largo do Carmo.
Aqui lhe prestamos a nossa homenagem, com a reprodução de Um problema difícil, o cartoon em que retratou a admiração do mundo sobre o que se passava em Portugal em 1975.

Um problema difícil

quinta-feira, 14 de maio de 2026

Donald Trump não convence Xi Jinping

Os presidentes dos Estados Unidos e da China decidiram encontrar-se pessoalmente e Donald Trump viajou para Pequim, onde foi recebido por Xi Jinping. O encontro dos líderes das duas maiores potências mundiais, numa altura em que há duas guerras a perturbar a paz e uma crise económica a ameaçar o mundo, é um sinal muito positivo para atenuar tensões, para aproximar posições e dar alguma estabilidade à ordem mundial. Mesmo que não se venham a conhecer as exatas conclusões do encontro de Trump e Xi, certamente que dele sairão melhores perspectivas para a paz mundial.
Diz a generalidade dos especialistas que Donald Trump está em Pequim numa posição de fraqueza, com demasiadas derrotas no seu ativo, embora continue a apregoar a sua superioridade sobre tudo e sobre todos. Porém, não é necessário saber muito de política internacional para ver que a China está a ganhar posições e prestígio no mundo, enquanto os Estados Unidos estão em declínio económico e em rumo muito incerto, mesmo quando usam o seu singular poderio militar. Os chineses fazem pontes, aeroportos, estradas, hospitais e desenvolvem muitos outros negócios em África e na América do Sul, enquanto os americanos optam por gastar milhares de milhões de dólares em guerras no Médio Oriente. 
Conhecedora do narcisismo e da vaidade de Trump, a China estendeu-lhe a passadeira vermelha como anuncia o jornal Californian Post na sua edição de hoje, mas isso é apenas a sabedoria chinesa a funcionar. Donald Trump não consegue convencer Xi Jinping, que não hesitou em afirmar que vai continuar a apoiar o Irão e de, sem papas na língua, alertar Trump sobre um possível confronto por causa de Taiwan.
É de prever que Donald Trump regresse a Washington de orelhas caídas e sem a sua habitual exuberância...

A tristeza de George Washington

A revista semanal The New Yorker tem 101 anos de idade e tem sido uma publicação de referência nos Estados Unidos pela sua diversidade temática, pois inclui jornalismo, comentário, crítica, ensaio, ficção, poesia e sátira, mas também pelo seu posicionamento político, tendo apoiado os candidatos presidenciais do Partido Democrata, incluindo John Kerry, Barack Obama, Hillary Clinton, Joe Biden e Kamala Harris. Segundo os estudos de opinião conhecidos, é a revista da classe média e média alta, do centro-esquerda e dos liberais americanos, daí resultando que assuma posições muito críticas em relação à administração de Donald Trump.
Na sua mais recente edição a revista escolheu George Washington para ilustrar a sua capa e, se “uma imagem vale mais que mil palavras”, a capa do The New Yorker é bem elucidativa e o editor não precisou de quaisquer palavras para a completar. A imagem fala por si mesma.
George Washington é “um dos pais fundadores dos Estados Unidos”, pois comandou as tropas americanas na guerra da independência contra a Grã-Bretanha, presidiu à convenção que elaborou a Constituição e foi o primeiro presidente dos Estados Unidos. Agora, ao olhar para o que vai fazendo Donald Trump e os seus seguidores, George Washington evidencia a sua mágoa e a sua tristeza expressas no seu olhar melancólico, refugia-se em copos e cigarros como se vê na ilustração e pensa nas voltas que o mundo dá, designadamente nos Estados Unidos, onde os eleitores escolheram um homem que tem sido caracterizado com adjectivos como controverso, arrogante, populista, narcisista, impulsivo, autoritário, provocador, incompetente, imprevisível e fanfarrão.
Com uma taxa de desaprovação de 62%, a impopularidade do presidente Donald Trump atinge actualmente o valor mais alto de sempre, porque tem semeado ventos por todo o lado e muitos americanos temem que possam vir a colher tempestades.

segunda-feira, 11 de maio de 2026

A polémica instalação artística em Paris

Terão sido iniciados hoje em Paris os trabalhos de montagem de La Caverne du Pont Neuf, uma instalação temporária de arte urbana concebida pelo artista JR e que vai “transformar” a Pont Neuf, a mais antiga ponte que atravessa o rio Sena na cidade de Paris e que foi construída em finais do século XVI.
A arte urbana ou street art popularizou-se nos últimos anos nos espaços públicos em todo o mundo, desde os mais simples graffiti até às mais complexas instalações (krafts), que combinam arquitectura, escultura, multimedia e até pessoas, de forma a envolver emocionalmente o visitante.
La Caverne du Pont Neuf terá 120 metros de comprimento e presta homenagem aos artistas Christo e Jeanne-Claude, que em 1985 “embrulharam” aquela ponte e, mais tarde, revestiram o Arco do Triunfo. Agora o artista JR vai transformá-la numa gigantesca caverna que estará aberta ao público gratuitamente, de dia e de noite, de 6 a 28 de junho, mas onde não haverá circulação de automóveis e apenas poderão transitar peões e ciclistas.
A estrutura terá a aparência de uma massa rochosa, cuja estrutura será apoiada em módulos têxteis insufláveis, pesará cinco toneladas e não exigirá fundações invasivas. O ar será o principal material utilizado para minimizar o peso, o transporte e o impacto no local. Os 18.900 metros quadrados de tecido foram impressos com tintas à base de água e, em seguida, trabalhados artesanalmente por 25 artesãos numa empresa da Bretanha.
O diário Le Parisien dedica a primeira página da sua edição de hoje a esta iniciativa artística que é muito polémica e daí que a sua edição online tivesse sido “invadida” por comentários, de que transcrevemos apenas dois:

- Quanto custa tudo isso? Esta ponte é linda por si só. Por que estragá-la, mesmo que temporariamente? Esse dinheiro poderia ser usado de forma mais inteligente. Para salvar igrejas, castelos, monumentos em perigo... Chambord, por exemplo!

- Excelente iniciativa, original, extremamente criativa e ambiciosa, tudo em homenagem ao trabalho de Christo e Jeanne-Claude. Mal posso esperar para estar lá.

É caso para dizer que “o mundo fala de tudo tenha ou não tenha razão”, como nos ensina a fábula de ”O Velho, o Rapaz e o Burro”.