terça-feira, 3 de março de 2026

A exemplar autonomia política da Espanha

Antigamente, dizia-se que não se podia esperar da Espanha, “nem bom vento, nem bom casamento”, mas esses tempos já estão muito distantes porque da Espanha soberana, independente e orgulhosa, nos chegam estimulantes exemplos de uma política externa própria e de não subserviência aos arrogantes disparates, como aquele que está a ser conduzido por Donald Trump contra o Irão, talvez por causa do petróleo, talvez pelo caso Epstein, ou sabe-se lá porquê. Tal como a guerra do Iraque em 2003, também agora se inventou uma ameaça enquanto se negociava. Ao contrário do que acontece com outros países europeus e como hoje anuncia a manchete do jornal El País, a “España rechaza las bases para los ataques de EE UU a Irán”, mas esta recusa já levou o fanfarrão a anunciar o corte de todas as relações comerciais com a Espanha. Há poucos meses, o governo de Espanha acusou o regime de Netanyahu de “exterminar o povo palestiniano” e anunciou medidas contra Israel, porque “da mesma forma que condenou o Hamas, também condena o genocídio em Gaza”, quando toda a Europa se calou perante a destruição e as atrocidades cometidas pelos extremistas de Israel no território de Gaza.
Os espanhóis são uns valentes, mas não só na festa brava em que enfrentam os touros. A sua política externa também é corajosa e merece todo o respeito, até porque compara com a generalizada subserviência europeia às ameaças e às excentricidades belicosas de Donald Trump. Daí que a situação nos evoque o texto que José de Almada Negreiros escreveu em 1915 e que intitulou Manifesto anti-Dantas, em que criticou com ironia o escritor teatral Júlio Dantas e escreveu:

    O Dantas é o escárnio da Consciência!
    O Dantas é a vergonha da intelectualidade portuguesa!
    O Dantas é a meta da decadência mental!
    Se o Dantas é português eu quero ser espanhol!

Calem-se os canhões e avance o diálogo

O violento e brutal ataque contra o Irão que foi desencadeado pela parelha Trump-Netanyahu e está em curso, não é apenas uma grosseira violação da ordem e da lei internacionais, mas é também uma tentativa de controlar o petróleo iraniano e um crime contra as populações indefesas e, esperemos, que não seja uma provocação aos aliados do Irão, sobretudo a Rússia e a China.
Donald Trump revela cada vez mais desequilíbrios mentais, vive obcecado com a sua promessa de fazer a América grande outra vez e já afirmou várias vezes que defende os interesses americanos, isto é, a pilhagem dos recursos naturais dos outros países, seja o petróleo da Venezuela ou do Irão, sejam as terras raras da Ucrânia e da Gronelândia.
Se Luís XIV dizia que “l’État c’est moi”, o Donald sonha em poder um dia afirmar “I rule the world”. Não lhe interessam os regimes políticos desde que os países se submetam à sua vontade e para esse desígnio subversivo, usa o poder das suas armas, o terror das suas bombas, a violência da sua destruição. As imagens que nos chegam pela televisão mostram-nos mais uma vez o horror da guerra, tal como faz a primeira página do jornal britânico The Guardian, porque os jornais americanos não mostram a face hedionda da guerra e preferem enfatizar a morte do clérigo ditador Ali Khamenei, talvez para ajudar o Donald, ou por ter medo dele.
Porém, os cidadãos americanos não estão com o Donald e estão maioritariamente contra esta ação da parelha Trump/Netanyahu. Segundo uma pesquisa da Reuters/Ipsos há 43% dos americanos que estão contra e apenas 27% apoiam os ataques militares ao Irão, mas uma sondagem da CNN revela que 59% dos americanos desaprovam a iniciativa de Trump. 
Por isso, que se calem os canhões e que avance o diálogo.