sexta-feira, 4 de setembro de 2026

A Espanha mostra-se solidária com Ceuta

O caso de Ceuta já tem mais de um mês e continua a suscitar muitas interrogações sobre o que aconteceu, ou como foi possível que 80.000 pessoas “invadissem a cidade numa noite”. São conhecidas diversas teses sobre este caso e, embora Pedro Sánchez tenha excluído as responsabilidades de Marrocos e acusasse Israel, a Rússia e a extrema-direita, o facto é que Marrocos, bem como alguns dos seus “amigos”, parecem estar envolvidos nesta operação.
É caso para perguntar: quem quer retirar Ceuta à soberania espanhola e quem será que quer desforrar-se da independência de Pedro Sánchez? Sánchez é uma persona non grata para muita gente, porque tem carácter e pensamento próprio, reconheceu o Estado da Palestina e não pactua com os crimes israelitas em Gaza e na Cisjordânia, recusou a utilização das suas bases pelos Estados Unidos para atacar o Irão e rejeitou os ultimatos de Trump e do seu lacaio Mark Rutte quanto aos 5% do PIB em despesa militar.
Porém, o caso tem sido usado politicamente por vários membros da União Europeia para atacar Pedro Sánchez, mostrando uma grave falta de solidariedade que fragiliza ainda mais o projeto europeu, mas também pela oposição espanhola que aproveita esta oportunidade para atacar Sánchez, porque “esteve distraído” e “não foi capaz de resolver este problema".
Na passada 4ª feira realizaram-se grandes manifestações por toda a Espanha de “apoio a Ceuta” como território espanhol mas que, em alguns casos, também foram manifestações “contra Sánchez”, isto é, o apoio a Ceuta serviu de pretexto para a oposição atacar o governo. Essas manifestações “encheram” as capas de toda a imprensa espanhola, assim acontecendo com a edição de ontem do jornal Sur, el periódico de Málaga, em cuja fotografia de capa de vê, bem destacada, a bandeira gironada de oito peças de negro e prata, igual à bandeira de Lisboa, a lembrar que Ceuta foi portuguesa durante 225 anos!

Missão de 286 dias no mar é muito longa

Um dos princípios básicos dos regimes democráticos é a subordinação do poder militar ao poder político civil legitimado pelo voto popular, daí resultando que os militares aconselham tecnicamente a esfera política e actuam operacionalmente no sentido de executar as suas decisões, dentro da lei. Portanto, a autoridade final sobre o emprego das Forças Armadas pertence ao poder político civil constitucionalmente competente, mas os políticos não devem interferir na condução das operações militares.
Nas actuais circunstâncias da guerra entre os Estados Unidos e o Irão, assiste-se quase diariamente a uma intervenção do “comandante supremo das Forças Armadas” dos Estados Unidos que, muitas vezes, parece querer comandar operacionalmente as suas forças. Porém, há indícios de que algumas coisas não correm bem, como mostrou a recente demissão de Dan Driscill, o seu Secretário do Exército, que não suportou mais as fanfarronices de Trump e de Hegseth, bem como a anunciada falta de mísseis e outras armas e, ainda, o verdadeiro desterro a que foi sujeito o porta-aviões USS Abraham Lincoln e os 5.000 homens e mulheres que tem a bordo.
Segundo o jornal The San Diego Union-Tribune esta unidade naval, esteve 286 dias em missão no Médio Oriente e chegou a Laem Chabang, na Tailândia, para “um merecido período de descanso e lazer”, sendo acompanhada pelo destroyer USS Frank E. Oetersen Jr mas, segundo a Reuters, “ambas as embarcações apresentavam manchas de ferrugem e pintura irregular ao longo da linha d'água”.
Também o jornal canadiano The Globe and Mail deu notícia da chegada do USS Lincoln à Tailândia, com uma fotografia que mostra muita ferrugem no costado e com o título “finalmente em terra”, referindo em subtítulo as “crescentes preocupações com a saúde mental da tripulação”.
Uma permanência de 286 dias no mar até compara com as epopeias marítimas de Vasco da Gama, de Fernão de Magalhães, de Francis Drake, de James Cook, ou de Jean-François de La Pérouse. 
Donald Trump e a sua dócil entourage devem-se ter esquecido do USS Abraham Lincoln e das pessoas que tinha a bordo, o que mostra que não basta mandar, pois é preciso saber mandar.

terça-feira, 1 de setembro de 2026

Fernando Pimenta só sabe ganhar

Fernando Pimenta concluiu no passado domingo a participação portuguesa nos Mundiais de canoagem, em Poznan, na Polónia, tendo-se tornado num duplo campeão do mundo pois triunfou na prova de K1 5000m, depois de ter vencido no sábado a prova de K1 1000m. 
Com 37 anos de idade, o atleta Fernando Pimenta elevou para 187 o número de medalhas conquistadas nos Jogos Olímpicos, nos Campeonatos Mundiais, nos Campeonatos Europeus e em outras provas internacionais de canoagem, merecendo especial destaque as suas duas medalhas olímpicas – em Londres 2012 e em Tóquio 2020 – bem como os seus 14 títulos mundiais. “Uma proeza tremenda”, como se referiu o jornal Público às vitórias deste homem que é o maior atleta português de todos os tempos, num país de que também fazem parte outras glórias desportivas como Carlos Lopes e Rosa Mota, ou Eusébio e Cristiano Ronaldo, entre outras.
Exceptuando o Público que o homenageou com destaque de primeira página na sua edição de ontem, nenhum outro jornal generalista destacou os feitos desportivos de Fernando Pimenta e até os jornais desportivos se limitaram a publicar pequenas notas noticiosas de primeira página, pois andavam muito ocupados com a promoção desse grande futebolista que é João Palhinha, cuja fotografia ocupou as páginas dos jornais desportivos durante uma semana, ou mais.
Os feitos desportivos de Fernando Pimenta não mereciam esta miopia jornalística ou esta visão distorcida da imprensa desportiva portuguesa.
Fernando Pimenta é um exemplo de trabalho, de perseverança, de sacrifício e de talento, pois só com esses atributos é possível ter sido campeão do mundo em 14 ocasiões, mas também é um exemplo de sucesso e de grande orgulho para os desportistas portugueses.
Daqui a dois anos, entre 14 e 30 de julho de 2028, vão realizar-se os Jogos Olímpicos de Los Angeles. Todos contamos com Fernando Pimenta!

segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Islândia: vince il no, la Ue non attrae più

A Islândia é um país situado numa ilha do Atlântico Norte nas proximidades do Círculo Polar Ártico, com cerca de 193 mil quilómetros quadrados e aproximadamente 396.500 habitantes, a maior parte dos quais vive na região da sua capital, a cidade de Reykjavik.
É uma ilha vulcânica, com mais de duas centenas de vulcões, dos quais há cerca de três dezenas activos e alguns deles com erupções recentes, mas também tem glaciares e fiordes, lagos, alguns rios e muito gelo. A economia islandesa assenta sobretudo no sector das pescas, especialmente a pesca do bacalhau, mas também na exploração de alguns recursos minerais como o alumínio.
No passado sábado os islandeses foram chamados a participar num referendo em que lhes era pedido para responder à pergunta: “A Islândia deve reabrir as negociações de adesão com a União Europeia?”
Segundo foi ontem divulgado, houve 225.031 votos contabilizados, tendo 52,8% dos eleitores rejeitado a proposta do governo e 47,2% votado a favor. O governo islandês que é chefiado pela primeira-ministra Kristrún Frostadóttir, uma economista de 38 anos de idade que também é líder do partido social-democrata, de centro-esquerda, sofreu uma derrota, mas a União Europeia e os seus principais dirigentes em Bruxelas. também foram derrotados.
Como anuncia hoje a primeira página da edição do jornal romano La Reppublica - um diário fundado em 1976 e que adoptou o seu nome em homenagem ao jornal República que então existia em Portugal – na “Islanda, vince il no, la Ue non attrae più”. De facto, a União Europeia parece cada vez mais um navio sem rumo, desgovernado, sem coesão, sem liderança e a meter água por várias brechas.
Os islandeses mostraram que a União Europeia já não atrai como antes.

R.I.P. Narana Coissoró

No passado sábado, faleceu com 94 anos de idade o cidadão Narana Sinai Coissoró, que foi advogado e professor universitário, mas que teve uma actividade política relevante como deputado na Assembleia da República em oito legislaturas, tendo sido seu vice-presidente durante seis anos e líder parlamentar do seu partido durante treze anos.
Era natural de Goa, mas com 18 anos de idade veio estudar para a Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, onde se licenciou, tendo mais tarde valorizado a sua carreira académica ao doutorar-se em Ciência Política na Universidade de Londres.
Em junho de 1976 foi eleito, pela primeira vez, deputado à Assembleia da República pelo Centro Democrático Social (CDS), quando esse partido existia e era representado por deputados democratas cristãos, antes da recente deriva intelectual e ética daqueles que usam o nome do partido, mas que vivem pendurados no PSD.
Narana Coissoró era um democrata cristão muito respeitado por todos os partidos parlamentares, coerente, inteligente e de bom humor e, seguramente, não apoiaria aqueles que hoje dirigem o seu antigo partido, “um incapaz de pensar e outro capaz de pensar o pior”, como alguém escreveu nas redes sociais.
Originário de uma família brâmane hindu de Goa, o professor Narana Coissoró visitava regularmente o território onde nascera e foi aí que, depois de ter sido meu professor no ISCSP, tive a oportunidade de o conhecer mais de perto e beneficiar da cordialidade com que ele me distinguia, apesar de saber que eu navegava em águas políticas diferentes das suas. Depois, enquanto presidente da Casa de Goa, a que presidiu e de que sou um interessado membro, nunca deixou de me distinguir com a sua atenção e a sua amizade. 
Aqui lhe presto a minha homenagem com gratidão e afirmo que homens como Narana Coissoró fazem muita falta à nossa democracia!

sábado, 29 de agosto de 2026

A insensatez e o despropósito do Donald

Na sua mais recente e controversa decisão relativa às toponímias ou às geografias de que não gosta, o presidente Donald Trump assinou um decreto que altera o nome do Lago Ontário que, segundo a sua vontade, passa a chamar-se “Lago América”. 
Esta decisão não tem qualquer valor e, tal como aconteceu com a decisão de mudar o nome do Golfo do México para “Golfo América”, não passa de uma bizarra bizantinice do Donald. O Lago Ontário tem cerca de 19 mil quilómetros quadrados de superfície, localiza-se entre o estado de Nova Iorque (americano) e a província do Ontário (canadiana) e nas suas margens situam-se, entre outras, as cidades de Rochester (americana) e de Toronto (canadiana), o que significa que o lago é pertença dos dois estados.
Mark Carney, o primeiro-ministro do Canadá que por várias vezes tem enfrentado Trump sem tibiezas, rejeitou imediatamente esta decisão e afirmou que os canadianos “agora e para sempre” chamarão Lago Ontário a este lago.
Essa também foi a ideia escolhida na sua edição de ontem pelo jornal Toronto Star, ao escolher com grande destaque a manchete Lake Ontario Forever, completada com um subtítulo em que o jornal escreveu: “A manobra de Trump para mudar o nome do lago é um disparate, mas ele está a falar muito a sério quanto ao seu desprezo pelo Canadá”.
Esta é mais uma iniciativa de Donald Trump, a juntar à guerra do Irão e à crise económica, que faz com que a sua popularidade esteja em queda nos Estados Unidos e ao nível mais baixo de sempre, com apenas 33% de apoiantes e 65% de desaprovações.
De facto, o movimento Make America Great Again, tão ligado à personalidade e ao narcisismo do Donald, parece que falhou para sossego da América e do mundo.

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Marrocos e a cobiça sobre Ceuta e Melilla

Nos dias 30 e 31 de julho de 2026, cerca de 80.000 migrantes entraram em Ceuta a partir de Marrocos, a nado ou contornando as barreiras fronteiriças. Este número é equivalente à totalidade da população desta cidade autónoma espanhola, tendo o seu presidente Juan Jesús Vivas definido esta violação da fronteira como uma “invasão” e exigido o regresso imediato dos migrantes que eram, sobretudo, jovens marroquinos. O acontecimento tem contornos muito complexos, mas serviu para alimentar o discurso da oposição espanhola, o debate europeu sobre o combate ao tráfico de pessoas, a discussão sobre a proteção das fronteiras e, também, para algumas precipitadas críticas de alguns países europeus que não foram solidários com a Espanha nesta delicada questão.
Hoje o jornal El Pueblo de Ceuta traduz o sentimento da população da cidade ao destacar a frase “Ceuta dice hasta aquí”, que significa “Ceuta diz já chega”. No conjunto de imagens que ilustram a capa da edição pode observar-se um cartaz que diz "no quiero invasores, quiero mi libertad”, a mostrar que a "invasão" perturbou o quotidiano dos ceutences ou, como eles dizem, dos ceuties.
Na altura da referida “invasão” escrevemos que a ocorrência “não tem ar de ser espontânea e terá sido ‘organizada’ pelo governo marroquino”, mas alguns factos mais recentes evidenciam o inequívoco envolvimento do governo de Marrocos.
Há dois dias, o ministro dos Assuntos Islâmicos de Marrocos reivindicou a soberania marroquina sobre Ceuta e Melilla durante uma cerimónia religiosa realizada no Palácio Real de Rabat, perante o rei Mohamed VI e o príncipe herdeiro, tendo utilizado expressões como “territórios ocupados” e “libertação da ocupação ibérica”. Não foi a primeira vez, nem foi o único dignitário marroquino a fazer este tipo de declarações, a mostrar que Marrocos sobe de tom nas suas reivindicações sobre Ceuta e Melilla.
Afinal, mais do que um problema humanitário e de direitos humanos, a questão de Ceuta é um problema político.

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Ucrânia celebra 35 anos de independência

A Ucrânia celebra hoje o 35º aniversário da sua independência – o que aqui se saúda. 
A independência foi declarada pelo parlamento ucraniano no dia 24 de agosto de 1991 e aconteceu na sequência da perestroika, um plano de reforma estrutural da União Soviética conduzido por Mikhail Gorbachev que, quatro meses depois, renunciou ao seu cargo de presidente. Em 1990 Gorbachev tinha sido distinguido com o Prémio Nobel da Paz e, depois da "guerra fria", esperava-se que houvesse desanuviamento, cooperação e paz.
O que se passou depois, tanto na antiga União Soviética, como nas suas duas principais ex-repúblicas da Rússia e da Ucrânia, é complexo e não se enquadra na análise do evento que hoje se celebra em Kiev que, como a história nos ensina, é uma cidade que é o berço cultural comum para ucranianos, bielorrussos e russos.
Entretanto, durante alguns anos, a Rússia e a NATO aproximaram-se, estabeleceram estruturas de cooperação e chegou a ser equacionada a integração russa na NATO. Porém, os violentos acontecimentos de 2014 na Praça Maidan, em Kiev, embora tenham contornos ainda desconhecidos, marcaram o futuro político da Ucrânia e a crescente polarização entre as forças sociais e políticas ucranianas, tanto pró-Europa como pró-Rússia.
Hoje, sabemos que há uma guerra desde 2022, ou mesmo desde 2014, que é quase uma guerra civil; que essa guerra tem levado a morte e a destruição a muitas cidades ucranianas; que há muita gente na Rússia que se opõe a Putin e à guerra; que há muita gente na Ucrânia que se opõe a Zelensky e à guerra; que circula muita notícia falsa e muita desinformação; que há narrativas de suporte a todas as conveniências; que quase metade dos europeus (39%), segundo a última edição do Eurostat, discorda do apoio à Ucrânia para aquisição de equipamento militar; que estão a ser gastos biliões de euros em armamento que são pagos pelos contribuintes e pelos consumidores europeus e que estão a engordar os lucros das indústrias de guerra.
Como aqui sempre foi salientado, nunca haverá vencedores nesta guerra e todas as partes perderão, sobretudo o povo ucraniano, que merece toda a solidariedade.
Hoje, o jornal polaco Gazeta Wyborcza, que se publica em Varsóvia, assinala o 35º aniversário da independência da Ucrânia com a manchete Wolności i pokoju que, traduzido, significa Liberdade e paz.
Hoje, também os líderes europeus visitaram Kiev, mas pouco falaram de paz e continuaram a alimentar a guerra ao prometerem mais dinheiro e mais armamento.
António Costa afirmou mesmo que, no conflito entre Moscovo e Kiev, ou entre Putin e Zelensky, a Europa não é neutra. Porém, deveria ser neutra, mediadora, pacificadora e, naturalmente, um árbitro capaz e conciliador. 

domingo, 23 de agosto de 2026

As eleições presidenciais no Brasil (II)

As eleições brasileiras estão à porta e serão cerca de 158 milhões de eleitores que irão às urnas para escolher o presidente da República, os governadores estaduais, os senadores e os deputados, federais, estaduais e distritais.
A campanha eleitoral já começou há uma semana mas, para quem observa o processo desde a margem oriental do Atlântico, o interesse das eleições gerais brasileiras está centrado na escolha presidencial e daí que se dê muita atenção às sondagens, a primeira das quais foi divulgada pela Datafolha, a mais credível agência de pesquisa brasileira. Os resultados dessa sondagem foram ontem revelados pela imprensa, designadamente pelo jornal O Globo, que se publica no Rio de Janeiro e que mostra uma disputa intensa na chamada corrida ao Planalto, em que se destacam o actual presidente Lula da Silva, com 39% das intenções de voto, e o candidato Flávio Bolsonaro, que recolhe 33% das intenções de voto. Numa simulação para a 2ª volta, a realizar, se necessário, no dia 25 de outubro, as intenções de voto aparecem repartidas entre Lula da Silva (47%) e Bolsonaro (43%).
A vantagem de Lula da Silva é estatisticamente reduzida e a sondagem mostra que, consideradas as margens de erro, estamos perante um empate técnico.
Faltam 42 dias para o veridicto dos eleitores brasileiros, que vão ser sujeitos a verdadeiras “lavagens ao cérebro”, com propaganda, desinformação, campanhas difamatórias e interferências externas, além de mentiras, de calúnias e de ameaças.
O panorama internacional também se apresenta incerto e confuso, o que pode afetar a serenidade de que os brasileiros precisam para fazer as suas escolhas eleitorais.
Como aqui já foi escrito antes, os brasileiros que se cuidem…

sábado, 22 de agosto de 2026

Ainda não vale tudo no mundo do futebol

Foi no dia 19 de julho que terminou o Campeonato do Mundo de Futebol, que a Espanha venceu depois de ter batido a Argentina na final disputada no MetLife Stadium em East Rutherford, New Jersey, na presença do rei de Espanha, dos presidentes os Estados Unidos e do México e do primeiro-ministro de Canadá.
Depois de um percurso em que cada uma das equipas finalistas efectuou 7 jogos, ambas estavam pressionadas pela rivalidade, pelo “nacionalismo” dos seus adeptos e pela ambição de vencer: a Argentina ambicionava pela renovação do título que conquistara em 2022 e a Espanha aspirava recuperar o título que já ganhara em 2010.
O jogo da final foi equilibrado, mas tenso e duro, tendo ficado empatado, pelo que as equipas tiveram que ir a um prolongamento no qual o espanhol Ferran Torres, que é jogador do Paris Saint-Germain, meteu um golo que deu a vitória à equipa da Espanha. Os argentinos, que não são um modelo de desportivismo desportivo, possivelmente acreditavam nalgum “milagre de Messi”, semelhante ao “milagre de Maradona” de 1986, quando marcou um golo com a mão à Inglaterra que foi validado e a que ele se referiu mais tarde como tendo sido marcado pela “mão de Deus”.
Como isso não aconteceu, alguns jogadores argentinos não gostaram de ver a euforia espanhola, não suportaram a dor e perderam a cabeça, mostrando não saber perder e agrediram alguns jogadores espanhóis, como a televisão mostrou em directo.
Passou um mês e, na sua edição de hoje, o diário espanhol Marca destaca o “duro castigo por não saber perder” aplicado pelo Comité Disciplinar da FIFA, que disse de sua justiça e puniu o jogador Paredes com 10 jogos de suspensão e o jogador Molina com 7 jogos de suspensão, tendo ambos sido alvo de uma multa de 77 mil euros. Além disso, a selecção argentina também foi punida por ter apoiado manifestações de caráter não desportivo em relação às ilhas Malvinas.
Foi um duro e desprestigiante castigo para a Argentina e aqui está, no meio de tantas dissonâncias futebolísticas que diariamente acontecem, a prova de que no futebol ainda não vale tudo…

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

A gigantesca dívida pública americana

“A dívida pública dos Estados Unidos ultrapassa os 40 biliões de dólares” é o título mais destacado da edição de hoje do The Wall Street Journal, o diário que tem sede em Nova Iorque e é o jornal impresso com maior circulação nos Estados Unidos.
Este montante é o valor mais elevado de sempre na história das Finanças Públicas americanas e, tão relevante como este valor astronómico, é o alarmante ritmo com que a dívida pública tem aumentado devido a circunstâncias diversas que se conjugam. De entre elas salientam-se a redução de impostos promovida por Donald Trump, o serviço da dívida, ou os juros pagos aos financiadores da dívida cujo montante atinge um bilião de dólares por ano e, naturalmente, os gastos militares que se acentuaram com o conflito no Irão e estão a consumir biliões de dólares. Dessa forma, o nível de despesa da administração americana ultrapassa em cerca de dois biliões de dólares anuais as suas receitas fiscais, daí resultando que o défice público americano esteja actualmente em cerca de 6% a 7% do Produto Interno Bruto (PIB).
A dívida pública americana representa 125% do PIB dos Estados Unidos, que é um valor elevado e que compara com os grandes devedores da União Europeia que são a Grécia (143,5%) e a Itália (138.9%), mas também com a França (117,6%), com a Bélgica (109,1%) e com a Espanha (101,6%). A média da União Europeia está em 82,9% e Portugal está com 89,6%, mas a sua dívida pública em valor absoluto é 123 vezes menor do que a dos Estados Unidos.
Acontece que, quando o défice americano se situava entre 3% e 4% do PIB já causava preocupação nos mercados financeiros, pelo que é grande a preocupação internacional pelo actual quadro financeiro exibido pelos Estados Unidos e, muitos especialistas, lembram as grandes crises financeiras mundiais, como a Grande Depressão (1929-1939), a crise do petróleo (1973-195) e a crise financeira em que faliu o Lehman Brothers e muitos outros bancos (2007-2009).
O senador democrata Mark Kelly afirmou que "o presidente disse que liquidaria a dívida no seu primeiro mandato. Bem, todos nós sabíamos que era mentira. Em vez disso, ele deixou-a crescer até 40 biliões de dólares, enquanto ele e a sua família acumulavam biliões”. 
Ontem foi o The New York Times, hoje é o The Wall Street Journal a mostrar que ainda pode haver informação independente.

quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Donald Trump está atolado num lamaçal

Não é clara a situação bélica que se vive no estreito de Ormuz, nem no Irão, nem nos países do golfo Pérsico, embora todos os dias haja comentadores televisivos que não têm dúvidas e que tudo explicam.
Ontem, a edição do The Washington Post anunciava em primeira página que “war has Trump in a quagmire”, o que significa que “a guerra deixou Trump atolado num lamaçal”. As últimas sondagens mostram que o apoio interno a Donald Trump caiu ao nível mais baixo do seu mandato e que é rejeitado por 64% dos americanos, insatisfeitos com a guerra e os seus efeitos, com a situação económica e com o comportamento quotidiano do presidente que, ao tomar posse, prometera “evitar conflitos militares prolongados”.
Assim não aconteceu e Donald Trump decidiu apoiar o extremista Netanyahu e atacar directamente o Irão na noite de 21 para 22 de junho de 2025. Terá sido avisado para não se meter nisso, mas não ouviu ninguém. Passaram alguns meses e, em março de 2026, declarou que “war will last four weeks”, disse “we don’t need Nato help against Iran” e, já em abril, afirmou “make a deal by tonight or entire country can be taken out”. Com estas declarações mais ou menos fantasiosas e propagandísticas, até os americanos se cansaram de tanta mentira, tanta trapalhada e tanta fanfarronice – eram quatro semanas, mas já vai em 14 meses.
Não se sabe exactamente o que se passa, mas o mundo ficou estarrecido quando o Donald veio declarar que “will declare Strait of Hormuz a U.S. territory when Iran war ends”.
Embora não conheça os actuais indicadores da economia americana e estejamos sujeitos a muita desinformação, este tipo de declarações presidenciais e as suas constantes ameaças, dão total credibilidade à notícia do The Washington Post: o presidente Donald Trump está atolado num lamaçal.

terça-feira, 18 de agosto de 2026

A Cisjordânia sofre e a Europa assobia

O Estado da Palestina já foi reconhecido por 157 dos 193 estados membros das Nações Unidas e o seu território actual, depois das anexações que se seguiram às diversas guerras de expansão territorial em que os israelitas se envolveram, está reduzido à Cisjordânia e à Faixa de Gaza, recentemente destruída com mais de setenta mil mortos, numa acção de brutal violência que foi classificado como genocídio.
A política expansionista e agressiva de Israel não se limitou à destruição de Gaza e, como hoje denuncia o jornal francês Libération, os actos de violência multiplicam-se, não só em Gaza onde continua a haver bombardeamentos, mas agora de forma continuada na Cisjordânia, onde a violência é encorajada por Netanyahu e por vários dos seus ministros, enquanto a comunidade internacional aceita passiva e cobardemente, a autêntica anexação dos territórios palestinianos pelos colonos judeus. É uma “annexation de fait” diz o jornal Libération que, em manchete, escreve que “a Cisjordânia está entregue ao terror dos colonos”, pois a anexação progride a um ritmo sem precedentes e multiplicam-se os ataques às aldeias palestinianas, com total impunidade dos colonos judeus, que têm a protecção de soldados israelitas.
A Cisjordânia tem cerca de 5.000 quilómetros quadrados, que é uma área semelhante ao Algarve, aí vivendo três milhões de palestinianos. Os colonos têm actuado no sentido de fragmentar o território e isolar as aldeias que ficam cercadas, para depois serem atacadas com violência, numa ação de verdadeira “limpeza étnica”.
Tudo isto é sabido e não é novo, mas a Europa da Liberdade, da Democracia e dos Direitos Humanos parece aceitar tudo isto passivamente e sem um grito de revolta. Nunca pensei que o presidente do Conselho Europeu pudesse ser cúmplice desta situação.

segunda-feira, 17 de agosto de 2026

A disputa fronteiriça sensata e amigável

Nos confins do mundo e no extremo norte do Atlântico, para além do círculo polar Ártico, encontra-se a Hans island, uma pequena ilha rochosa, sem recursos, desabitada e com cerca de 1,2 quilómetros quadrados de superfície, que está localizada no estreito de Nares, entre o território canadiano de Nanavut e a Gronelância, um território autónomo da Dinamarca. Em 1973 os dois países definiram e acordaram as suas fronteiras marítimas, mas a soberania da ilha Hans ficou sem resolução definitiva.
O estreito de Nares tem cerca de 35 km (19 milhas) de largura mas, segundo a lei marítima internacional, a soberania de um país estende-se até 12 milhas da sua orla costeira. Assim, tanto o Canadá como a Dinamarca passaram a considerar a ilha Hans como fazendo parte dos seus respectivos territórios. Essa indefinição nunca gerou quaisquer problemas, mas quando um ministro dinamarquês visitou a ilha em 1984, tendo hasteado uma bandeira dinamarquesa e deixado uma garrafa de conhaque, a situação alterou-se. Logo que soube deste episódio, o governo canadiano enviou ao local alguns militares que substituíram a bandeira dinamarquesa pela bandeira canadiana e, com humor, deixaram uma garrafa de uísque. Essa ritual de troca de bandeiras e de bebidas continuou por muitos anos, com os dois países a alternarem visitas à ilha para reafirmar simbolicamente as suas reivindicações territoriais e para deixar os seus simbólicos “presentes”.
Finalmente, no dia 11 de junho de 2022, os governos da Dinamarca, Groenlândia, Canadá e Nunavut concordaram em dividir a Ilha Hans ao meio, após 17 anos de negociações. A situação ficou conhecida mundialmente como a “guerra do Uísque”, um nome para classificar este conflito que, provavelmente, foi o mais amigável da história geopolítica recente.
O jornal National Post que se publica em Toronto, dedicou a sua edição de hoje a esta história como uma lição exemplar em que, sem ameaças nem tiros, se resolveu, pacificamente e com bom senso, um problema de soberania, semelhante a outros que, tantas vezes, geram litígios e provocam guerras. Talvez seja uma crítica às ambições de Donald Trump...

Espanha atrai indústria automóvel chinesa

Como os portugueses sabem, sobretudo os mais velhos, desde que em 1999 se concretizou a transferência da administração portuguesa de Macau para a República Popular da China, que muitos dirigentes portugueses visitaram aquele território e trataram de fazer afirmações sobre a “plataforma privilegiada para negócios com a China”, ou para a “entrada de empresas portuguesas na Ásia e em particular na China” ou, ainda, assinalando o papel de Macau como “ponte económica e financeira estratégica entre a China e Portugal”. Alguns até utilizaram a expressão "porta giratória". Para esses dirigentes – e foram muitos – o território de Macau não era um espaço de memória cultural portuguesa mas, sobretudo, era um espaço de oportunidade e de privilégio comercial para a economia portuguesa, mas esses visionários esqueceram que a economia portuguesa não tem dimensão, nem escala, para “entrar na China”. Porém, poderia acontecer que a China utilizasse essa "ponte" ou essa "porta" para potenciar os seus negócios na Europa através de Portugal, mas não temos sido diligentes nem competentes e, assim, isso não tem acontecido.
A notícia que o jornal Negócios hoje divulga é demolidora, ao anunciar que “gigantes chineses avançam em força para fábricas de carros em Espanha”. De facto, a Espanha já conta com cinco fábricas chinesas de produção automóvel, em operação ou em projecto, localizadas ou a localizar, no Ferrol, Barcelona, Valência, Saragoça e Linares (Jaén). A economia espanhola agradece.
Qual será a razão por que os nossos “amigos” chineses escolhem a Espanha e ignoram Portugal? Há que concluir que o sacrifício de Tomé Pires, o boticário que em 1516 chefiou a primeira embaixada portuguesa ao imperador da China, de pouco valeu. Contudo, ainda há alguns construtores automóveis chineses em vias de decidir aumentar o seu investimento na Europa, designadamente a BYD que já produz os seus apreciados veículos eléctricos na Hungria e na Turquia...
Como nota final e segundo anuncia o jornal Negócios, actualmente a produção automóvel espanhola é de 2,3 milhões de unidades anuais, enquanto Portugal fabrica cerca de 300.000 automóveis por ano.