domingo, 5 de julho de 2026

Ainda sobre a festa nos Estados Unidos

Os americanos celebraram ontem o dia 4 de julho de 1776 e os 250 anos da sua independência, com muitos eventos e muitas boas razões, tendo-se mais uma vez destacado o narcisismo de Donald Trump, que continua perturbado pela sua vaidade cega. 
Porém, nem todos alinharam no espectáculo preparado pelo Donald e a edição de ontem do jornal The Philadelphia Inquirer, que é publicado desde 1829, é um excelente exemplo dessa recusa, ao ignorar as festividades patrocinadas pelo Donald e ao dedicar a sua primeira página à “Declaração Unânime dos Treze Estados Unidos da América” assinada pelos 56 “Pais Fundadores da nação”, transcrevendo parte do seu famoso preâmbulo:

We hold these truths to be self-evident, that all men are created equal, that they are endowed by their Creator with certain unalienable Rights, that among these are Life, Liberty and the pursuit of Happiness.

(Consideramos estas verdades como evidentes por si mesmas: que todos os homens são criados iguais, que são dotados por seu Criador de certos direitos inalienáveis, entre os quais estão a Vida, a Liberdade e a busca da Felicidade).

A mensagem transmitida pelo The Philadelphia Inquirer, é exemplar porque é portadora de um sentido pedagógico para os americanos, para as suas raízes históricas e para os seus ideais democráticos mais profundos, parecendo um aviso para os que vivem subjugados pelos interesses do “Complexo Militar-Industrial Americano”, identificado em 1961 por Dwight Eisenhower, mas também para os seguidores do actual “vale-tudo” do modelo “Make America Great Again”, inventado por Donald Trump, que tanto agitado o mundo e tanto tem aumentado a sua fortuna pessoal.

sábado, 4 de julho de 2026

Os 250 anos da independência americana

No dia 4 de julho de 1776 foi aprovada a Declaração de Independência dos Estados Unidos pelos delegados das 13 colónias britânicas reunidos no Pennsylvania State House, em Filadélfia. Esses delegados são conhecidos como os “Pais Fundadores da Nação” e rejeitaram em definitivo o poder colonial britânico e as suas raízes.
A independência americana nasceu em resposta às tensões entre os colonos e o poder colonial devido aos excessivos impostos, nomeadamente o Stamp Act de 1765, mas também em protesto contra a ausência de representação política. Depois, os confrontos foram-se acumulando, com destaque para o massacre de Boston de 1770 em que os soldados britânicos mataram cinco colonos e para o Boston Tea Party de 1773, quando os colonos atiraram chá ao mar em protesto contra os impostos coloniais. Em 1775 os colonos passaram à luta armada e foram bem sucedidos nas batalhas de Lexington e de Concord. A Declaração de Independência foi o passo seguinte, tendo sido também a expressão de uma nova era de liberdade, pois a revolução americana de 1776 ficou na História como a primeira revolta do colonizado contra o colonizador.
A história dos Estados Unidos não cabe neste texto, mas a guerra hispano-americana de 1898, a participação na Grande Guerra a partir de 1917 e a decisiva entrada na 2ª Guerra Mundial depois de 1941, fizeram dos Estados Unidos a superpotência mundial nos domínios económico, científico e militar.
Hoje os americanos celebram o 250º aniversário da sua independência e a revista alemã Der Spiegel dedicou-lhe a primeira página da sua edição de ontem, com George Washington a dançar sob os olhares desconfiados de Donald Trump.
Há 50 anos os americanos celebraram o Bicentenário e eu estava em Filadélfia a tomar parte na festa.

sexta-feira, 3 de julho de 2026

Ronaldo: nome e marca de um superstar

Os portugueses passaram a última noite em frente dos televisores, em casa, nos cafés ou nas praças públicas, para ver o encontro entre as equipas de Portugal e da Croácia dos 16 avos de final do Campeonato Mundial de Futebol da FIFA que se disputou em Toronto, uma cidade canadiana onde vivem milhares de portugueses.
Era um jogo de mata-mata, uma expressão popularizada em Portugal pelo antigo selecionador nacional Luiz Felipe Scolari, que significa que o vencedor passa à fase seguinte, mas que o derrotado sai da competição, ou seja, é o “tudo ou nada” para cada uma das equipas. A equipa portuguesa esteve bem e foi mais feliz que a equipa adversária. Dominou mas sofreu um golo, reagiu e empatou através de uma grande penalidade que Cristiano Ronaldo converteu. Já no período de descontos, aos 94 minutos de jogo, surgiu o segundo golo da equipa portuguesa que foi marcado por Gonçalo Ramos que, finalmente, teve a oportunidade de jogar, pois o selecionador Martinez insiste em utilizar Ronaldo para além dos seus limites naturais. Embora Ronaldo e Ramos sejam “oficiais do nesmo ofício”, um com 41 anos e outro com 25 anos de idade, este jogo parece ter mostrado que, no plano futebolístico, têm rendimentos diferentes…
Provavelmente, a grande figura do jogo foi Diogo Costa, o guarda-redes que “se fartou de defender”, mas a imprensa canadiana, mexicana e de vários outros países sul-americanos destacaram Ronaldo como “a figura do jogo”, o que mostra que Ronaldo, embora seja um futebolista em fim de carreira, é uma marca valiosa e que é a mais conhecida marca portuguesa nesta aldeia global em que habitamos.
O jornal Toronto Sun de formato tablóide e de grande circulação, publicou com destaque de primeira página a fotografia de CR7 e escreveu que ele “ajudou a destruir as esperanças da Croácia”. É verdade, mas outros terão ajudado mais…

quinta-feira, 2 de julho de 2026

Trump, o negócio e o declínio da América

O diário espanhol El País destaca na sua edição de hoje que Donald Trump “ganó 1.200 millones com las criptomonedas em 2025”, mas os grandes jornais de referência americanos, como por exemplo o The New York Times e o Los Angelers Times referem que foram 2 mil milhões de dólares os lucros obtidos pelo seu presidente com o negócio das criptomoedas.
Donald Trump está a ser acusado de comportamento eticamente reprovável e de estar a enriquecer através do uso indevido da sua posição política, mas tem-se mostrado indiferente a essas acusações porque, afirma, já era rico antes de ser presidente. Segundo foi divulgado pela revista Forbes o património pessoal de Donald Trump quase triplicou entre 2024 e 2026, ao passar de 2,3 para 6,5 mil milhões de dólares, pelo que está a ser acusado de conflito de interesses, por ter investido nas criptomoedas, ao mesmo tempo que tomava várias medidas para desregulamentar o sector, fazendo disparar o preço dos seus activos. Aos lucros com as criptomoedas acrescentou os lucros com os produtos da marca Trump, que vão desde o vestuário e os seus bonés, até aos autocolantes para para-choques, mas também as bíblias vendidas em parceria com um cantor célebre.
Os rendimentos de Melania Trump também cresceram muito e incluem 10 milhões de dólares por um documentário que lhe é dedicado e que foi transmitido online pela Amazon, além de mais 500 mil dólares pelo livro “Melania”.
Isto não é apenas corrupção, mas é também um sinal de uma Democracia e de um Estado de Direito que não funcionam e, em última análise, é o declínio da América.
Perante este quadro, em que Donald Trump junta uma corrupção absoluta a um estilo pessoal narcisista, ganancioso, grosseiro e fanfarrão, é caso para dizer que a melhor maneira que os americanos teriam para celebrar os 250 anos da sua independência era demiti-lo. Ganhavam os Estados Unidos e ganhava o mundo.

segunda-feira, 29 de junho de 2026

Venezuela sofre com sismos destruidores

No passado dia 24 de junho o território venezuelano, sobretudo a cidade de Caracas e o estado costeiro de La Guaira, foi devastado por um duplo abalo sísmico de grande intensidade, com magnitudes de 7,2 e 7,5 na escala de Richter, que aconteceram com apenas 39 segundos de intervalo. Mais tarde, foi anunciado que já se registaram 138 réplicas desde a ocorrência dos dois sismos.
As primeiras notícias sobre o sismo anunciavam uma catástrofe e informavam sobre a enorme destruição causada e, algumas delas, referiam que “o número de vítimas pode chegar a 100 mil”. Porém, de forma prudente, na sua edição de 25 de junho, o jornal Diário 2001 que se publica em Caracas, limitou-se a anunciar em manchete que “dos terremotos sacuden el país”, informando que a presidente Delcy Rodriguez “reportó 32 fallecidos y más de 700 heridos”, que “La Guaira es un caos” e que “Donald Trump ofreció ayuda a Venezuela”.
As imagens divulgadas mostram muita destruição e a ansiedade das pessoas que procuram familiares e amigos desaparecidos, certamente bloqueados pelos destroços dos prédios que ruíram. Vários países mobilizaram-se com equipas especializadas para ajudar na busca de sobreviventes e com auxílios materiais diversos.
Cinco dias depois da tragédia, estão contabilizados 1.450 mortos e 3.150 feridos, mas mais de 50 mil pessoas continuam desaparecidas. As operações de busca e salvamento já resgataram com vida 33 pessoas que estavam soterradas. Na importante comunidade portuguesa que vive na Venezuela estão registadas 53 mortos e 89 desaparecidos.
Muito duros têm sido os tempos recentes para a Venezuela e para os venezuelanos!

sábado, 27 de junho de 2026

O Canadá está em festa, mas sob ameaça

Aproxima-se o Dia do Canadá, o dia em que se celebra a constituição de uma federação nascida no dia 1 de julho de 1867, quando se uniram quatro regiões da Província Unida do Canadá (o Ontário, que era o Canadá Ocidental e o Quebec que era o Canadá Oriental), com a Nova Escócia e a Nova Brunswick, provavelmente como forma de dissuasão de qualquer tentativa de anexação por parte dos Estados Unidos. 
Estas quatro províncias constituíram então o Domínio do Canadá, que era um reino que fazia parte do Império Britânico mas que, ao longo da história, cresceu até às atuais dez províncias e três territórios, quase todas ex-colónias britânicas, constituindo o segundo maior país do mundo em território, embora tenha apenas 40 milhões de habitantes. Apesar de ser parte do Império Britânico, o Canadá adquiriu um nível crescente de controlo político e de governação sobre os seus assuntos internos, enquanto o poder colonial se exercia na área da defesa nacional, das relações externas e nos assuntos constitucionais. Em 1982, com a aprovação da Lei Constitucional de 1982, o Canadá adquiriu a sua completa soberania.
O jornal National Post, que se publica em Toronto, antecipou a celebração dos 159 anos do que chama o Dominion of Freedom com uma ilustração que nos sugere a festa dos canadianos, mas também escreve em manchete que “mais do que oito em cada dez continuam orgulhosos de ser canadianos, embora muitos temam que o país não se mantenha unido”.
Realmente, com um vizinho poderoso e sob a governação de um homem ambicioso, tudo é possível e sem grande alarido para manipular a vontade política dos canadianos, bastando usar as novas tecnologias informáticas, as redes sociais e a exposição televisiva, acompanhadas pela mentira e pelo silenciamento da voz do adversário. Sem qualquer ameaça militar ou guerra económica.

quinta-feira, 25 de junho de 2026

A longevidade futebolística de CR7

Depois de uma exibição descolorida, desinspirada e medíocre contra a República Democrática do Congo e de fortes críticas internas que lhe foram dirigidas, a seleção nacional de futebol defrontou a equipa do Uzbequistão e ganhou por 5-0, com uma exibição e golos que entusiasmaram os portugueses.
Foi um caso em que, com toda a propriedade, os jogadores passaram de bestas a bestiais. Marcar cincos golos num jogo do Mundial é uma coisa rara, mas aconteceu com naturalidade, o que veio animar aqueles que acham que a equipa portuguesa pode ganhar a competição. “A idade não perdoa” mas, ao contrário do que tem acontecido nos últimos tempos, os 41 anos de idade de Cristiano Ronaldo estiveram ativos, ele jogou com a equipa e marcou dois golos. Em 2006 tinha marcado um golo ao Irão, em 2010 à Coreia do Norte, em 2014 ao Gana, em 2018 à Espanha (três golos) e a Marrocos e, em 2022, marcou ao Gana. Com os dois golos agora marcados ao Uzbequistão somou dez golos e ultrapassou Eusébio como o melhor marcador português em Mundiais, tornando-se o primeiro futebolista a marcar golos em seis campeonatos do mundo. A imprensa internacional destacou este feito histórico e alguns jornais desportivos internacionais escolheram a sua fotografia para ilustrar as suas primeiras páginas, como aconteceu com o diário mexicano esto, impressionados com a longevidade de CR7 e com o desempenho do jogador de campo mais velho deste Mundial.
Apesar desta unanimidade em torno do singular historial futebolístico de Cristiano Ronaldo, que faz dele o mais famoso português de todos os tempos, é necessário respeitar a sua idade e fazer a sua gestão desportiva de forma equilibrada, para evitar danos emocionais irreparáveis ao próprio e aos seus admiradores.
Entretanto, o Mundial vai continuar

quarta-feira, 24 de junho de 2026

Dez anos de Brexit: cansaço e fracasso

No dia 23 de junho de 2016 realizou-se no Reino Unido um referendo sobre a permanência do país na União Europeia, em que votaram cerca de 33 milhões de eleitores, depois de uma intensa campanha. Apurados os resultados, verificou-se que 48,11% dos eleitores votaram na permanência (remain) mas que 51,89% escolheram sair (leave), isto é, o Brexit venceu e, depois de demoradas negociações, o Reino Unido abandonou a União Europeia. 
Dez anos depois, os britânicos estão muito insatisfeitos e há uma progressiva onda de apoio ao regresso à União Europeia, como se vai verificando na imprensa diária, o que também foi revelado por um estudo feito pelo European Council on Foreign Relations (ECFR), que agora foi divulgado, que mostra que dois terços dos britânicos considera que o Brexit foi um erro e um fracasso e que a decisão teve consequências negativas para o país, tanto a nível económico como social. Os britânicos associam a sua saída da União Europeia ao agravamento de diversos problemas considerados centrais para o país, incluindo o aumento do custo de vida, o abrandamento económico, a redução de oportunidades para os mais jovens, as dificuldades comerciais e uma gestão menos eficaz da imigração ilegal. Além disso, também defendem uma maior aproximação económica à União Europeia e, até no domínio da segurança e defesa, só 18% dos britânicos considera os Estados Unidos como o seu principal aliado. 
Na sua edição de hoje, o jornal The Independent diz que “uma geração inteira foi traída” e exibe em primeira página as fotografias de Boris Johnson e de Nigel Farage, que continuam no activo e são os grandes responsáveis pelo Brexit e por outras maldades, incluindo o incentivo para que não houvesse acordo no conflito da Ucrânia.

terça-feira, 23 de junho de 2026

A França sufoca com o calor e nós também

O solstício de verão ocorreu há cerca de 48 horas, o que significa que em Lisboa aconteceu o dia maior do ano com luz solar durante 14 horas e 52 minutos, enquanto nas cidades de Murmansk (Rússia) e de Bodø (Noruega), não houve noite e os seus residentes estiveram 24 horas consecutivas a ver o sol. 
O hemisfério norte do nosso planeta recebe agora maior incidência solar e as temperaturas são mais altas, embora a desigual distribuição de continentes e oceanos altere as condições locais, mas tudo isto acontece num quadro anual repetitivo e que a ciência geofísica prevê com antecipação e rigor. 
Porém, o fenómeno das alterações climáticas que vai acontecendo, está a contrariar cada vez mais os ciclos meteorológicos e sucedem-se chuvas torrenciais, ciclones destruidores, inundações diluvianas e ondas de calor extremo, sempre com consequências mais ou menos trágicas.
Actualmente há uma onda de calor histórica na frente ocidental da Europa com temperaturas muito altas – acima de 40 graus – tendo sido emitidos alertas em Itália, no Reino Unido, na Alemanha, na Bélgica, na Espanha e em Portugal, mas de acordo com a imprensa francesa, será em França que a situação é mais preocupante. Quase todos os jornais franceses referem a palavra canicule e a edição de hoje do diário La Dépêche du Midi, que se publica em Toulouse, diz que a França sufoca com as temperaturas a ultrapassar os 40 graus e que os franceses estão assustados, com as escolas fechadas, os transportes públicos afectados, a economia perturbada e com os serviços de saúde de prevenção. As cidades de Toulouse (41,9º) e Poitiers (41,2º) foram aquelas onde se registaram as temperaturas mais altas, mas nas regiões ibéricas da Andaluzia e do Alentejo estiveram um pouco acima.
Assim, para quem ande por esta frente ocidental da Europa, há que evitar o sol e aumentar a hidratação.

domingo, 21 de junho de 2026

Uma festa a valer – Sanjoaninas 2026

As Sanjoaninas são as festas realizadas em honra de São João na cidade de Angra do Heroísmo e que são, porventura, as festas profanas mais espectaculares das muitas que são realizadas em todas as ilhas dos Açores.
Classificada pela Unesco como património mundial, Angra do Heroísmo é a mais importante cidade da ilha Terceira, que é uma das nove ilhas dos Açores, embora por vezes se diga que “os Açores são oito ilhas e um parque de diversões que é a ilha Terceira”, num reconhecimento pelo entusiasmo terceirense por todas as festas, nomeadamente o Carnaval, o Divino Espírito Santo e os Santos Populares, com os bailinhos, as marchas populares e as corridas à corda, que são marcas da identidade cultural terceirense.
A bela cidade espera e prepara durante muitos meses as Sanjoaninas e, neste ano de 2026, entre os dias 19 e 28 de junho enche-se de vida e transforma-se num enorme palco de cultura, cor, tradição e alegria, com espaços gastronómicos, muitos concertos e espectáculos ao vivo, torneios desportivos, exposições, animação de rua, corridas de touros e corridas à corda, cortejos e desfiles temáticos, regatas e um sempre apreciado espectáculo pirotécnico. A população da ilha e muitos visitantes convergem com alegria e entusiasmo para a histórica cidade, que se espraia pela orla da baía que lhe deu o nome e à sombra do Monte Brasil. Os números são bem expressivos, pois desfilarão 49 marchas populares com 4.500 marchantes, das quais 12 são provenientes de outras ilhas, da Madeira e do Canadá, havendo também 78 espaços gastronómicos espalhados pelo centro histórico da cidade.
As Sanjoaninas são sempre associadas a efemérides ou temas culturais e com o tema “Angra e a Açorianidade”, as Sanjoaninas 2026 foram associadas às comemorações do cinquentenário da Autonomia, que constitui um instrumento de valorização e dignificação da condição insular e a concretização de uma justa aspiração das populações açorianas, que só o 25 de Abril de 1974 tornou possível.

sexta-feira, 19 de junho de 2026

Socos e pontapés no aniversário do Donald

Donald Trump completou 80 anos de idade no dia 14 de junho e decidiu celebrar o acontecimento de uma forma peculiar. Podia ter organizado um jantar familiar, um comício com apoiantes, ou um grande concerto, mas decidiu associar-se ao Ultimate Fighting Championship (UFC) para receber sete combates de artes marciais mistas (MMA) no relvado da Casa Branca. Foi uma escolha que mostra o nível deste homem que os americanos elegeram para seu presidente, uma coisa “outrora inimaginável”. 
Para concretizar esta ideia foi instalada uma plataforma cercada de rede – o octógono – uma jaula onde os lutadores enclausurados trocam socos e pontapés, num chocante espectáculo de “vale tudo” e numa exibição de violência e de brutalidade que ofende a condição humana. Para agravar ainda mais esta insólita celebração, este deprimente espectáculo faz parte das comemorações do 250º aniversário da independência dos Estados Unidos, o que certamente deixou perplexos, tanto George Washington como Thomas Jefferson. 
A famosíssima e centenária revista The New Yorker tratou de ridicularizar esta iniciativa presidencial e, na sua última edição, fez capa com o “octógono” de Trump, onde sob seu olhar estão a lutar J.D.Vance e Marco Rubio, considerados os seus delfins.  
No dia seguinte a esta grotesca forma de celebrar aniversários, Donald Trump estava em Evian na cimeira do G7 e as televisões mostraram o servilismo com que foi tratado pelos líderes europeus, talvez incomodados por não terem sido convidados para o 80º aniversário do Donald.
Vi e só me ocorreu o Fado da Tristeza, uma inspirada canção de José Mário Branco.

quinta-feira, 18 de junho de 2026

Il re é sempre Lionel Andrés Messi

Os jornais argentinos e espanhóis, mas também de alguns outros países, destacaram o talento e a eficácia futebolística de Lionel Andrés Messi, que com 38 anos de idade, meteu os três golos com que a Argentina bateu a Argélia no seu primeiro jogo para o Mundial, disputado ontem em Kansas City. O famoso diário italiano La Gazzetta dello Sport, que se publica em Milão desde 1896 e é o mais antigo jornal desportivo da Europa, dedica-lhe a sua edição de hoje com a manchete “il re é sempre Leo”, isto é, o rei é sempre Leo.
Esta afirmação é demolidora para Cristiano Ronaldo que, no mesmo dia, teve uma exibição decepcionante contra a República Democrática do Congo em Houston e que, segundo o mesmo jornal, “tropeça em campo, não causa impacto, decepciona, nunca marca golo”.
Ao longo dos anos, Ronaldo e Messi sempre se encararam de frente, conquistando Bolas de Ouro e Ligas dos Campeões, “mas agora parecem mais distantes do que nunca, porque no mesmo dia um marca três golos e o outro decepciona”. O jornal escreve que, enquanto em Portugal “não perdoam” a Cristiano Ronaldo, na Argentina deliram com Messi que “se candidatasse amanhã à presidência da Argentina, teria 80% dos votos”.
Cristiano Ronaldo é o português mais famoso de toda a nossa história de nove séculos e merece a nossa admiração e o nosso respeito, pelo que é tão doloroso ler este tipo de comentários, como assistir a um jogo como aquele que a equipa nacional ontem disputou, sem alegria, sem ambição e sem vontade de vencer, o que deixou os portugueses em estado de choque, porque os mass media e os comentadores do regime os convenceram que iriam ser campeões do mundo.   Agora, como dizem os futebolistas quando perdem, “é preciso levantar a cabeça”

terça-feira, 16 de junho de 2026

Vozinha e a boa surpresa de Cabo Verde

As equipas nacionais de Cabo Verde e da Espanha empataram ontem sem golos, no jogo que disputaram em Atlanta para o Grupo I do Mundial e o resultado constituiu o primeiro grande choque deste Mundial e fez de Cabo Verde “o lugar mais feliz do mundo neste momento”.
A Espanha é a actual campeã da Europa, é a equipa número 2 do ranking da FIFA e é a grande favorita para vencer o Mundial, enquanto Cabo Verde é estreante e ocupa apenas a posição 67 daquele ranking. Por isso, o jogo Espanha-Cabo Verde era apenas mais um jogo do Mundial de futebol e um duelo previsivelmente bastante desequilibrado e com um vencedor quase inevitável, mas não foi isso que aconteceu. A imprensa internacional elogiou a estreia histórica dos “tubarões azuis”, onde se destacam vários futebolistas que jogam em Portugal, sobretudo o guarda-redes Vozinha, que foi eleito o MVP (Most Valuable Player) do primeiro jogo de Cabo Verde numa fase final de um Mundial. Trata-se de um jogador do Desportivo de Chaves, que nasceu no Mindelo e tem 40 anos de idade, cujo nome completo é Josimar José Évora Dias. 
Na sua edição de hoje o jornal português Record fez manchete com o seu nome, escrevendo “Vozinha cala Espanha”. Porém, a exibição do guarda-redes caboverdiano foi muito elogiada em muitos jornais estrangeiros, nomeadamente n'O Globo (“Vozinha cala a favorita”), no Estado de S. Paulo (“Vozinha cala a Espanha”) e até no The Washington Post (“A hero for Cape Verde”), no The New York Times (“Vozinha, the 40-year-old Cape Verde hero”) e no The Wall Street Journal (“The 40-year-old goalkeeper who just shut out the World Cup favorites”).
A imprensa espanhola classificou o resultado do jogo com Cabo Verde como “petardazo”, “chasco”, “deprimente empate” ou “desilusionante debut”, enquanto o diário desportivo AS escreveu: “El muro caboverdiano y el cuarentón Vozinha provocan la primera gran sorpresa del Mundial”.
Grande Vozinha!

segunda-feira, 15 de junho de 2026

Acordo de paz entre o Irão e os EUA

Foi anunciado o imediato cessar-fogo e a reabertura do estreito de Ormuz para pôr fim ao conflito entre o Irão e os Estados Unidos que se prolongava há vários meses e essa grande notícia faz a manchete da edição de hoje do jornal espanhol El País, curiosamente com maior destaque do que fazem as edições do The New York Times e do The Washington Post, o que pode ter algum significado.
Se houve um acordo, quer dizer que essa foi a vontade das partes e que não há vencedores nem vencidos, que a dignidade das partes foi acautelada e que pode estar aberto um ciclo de desanuviamento na região. 
Porém, o regime extremista de Netanyahu não deve ter gostado nada deste acordo, pois não mostra sinais de contenção nem de respeito pela soberania dos vizinhos, o que pode configurar a continuação da sua agressão ao Líbano com o apoio dos americanos. Só o tempo dirá se este acordo entre o Irão e os Estados Unidos “tem pernas para andar”, ou se é apenas uma manobra para Donald Trump se exibir internamente e para menorizar os líderes que vão estar com ele na reunião do G7.
A credibilidade de Donald Trump está muito baixa e muitos têm dúvidas sobre este acordo. Há poucos dias, um canal televisivo referiu-se às “palavras vazias de Trump” e avançava com o conteúdo das suas declarações sobre a guerra no Irão: “acordo iminente (38 vezes), Irão derrotado (55 vezes), Irão destruído (35 vezes) e estreito de Ormuz aberto (25 vezes)”. Com tão intensa e tão mentirosa propaganda, muita gente desconfia. Porém, se o acordo vingar como desejam os amantes da paz, representará um passo importante para a redução das tensões no Médio Oriente, embora continuem por resolver questões relacionadas com o programa nuclear iraniano e outros pontos estratégicos, que deverão ser discutidos numa nova fase de negociações, dos quais Israel será certamente o mais importante.

domingo, 14 de junho de 2026

Narendra Modi e os seus 12 anos de poder

Há muitos países que, embora não estando representados no Mundial de Futebol, continuam presentes nas agendas mediáticas mundiais e um deles é a Índia.
A Índia ou União Indiana é uma república constituída por 28 estados e sete territórios da União, tem uma grande diversidade em termos culturais, étnicos e linguísticos, sendo o país mais populoso do mundo.
Independente desde 1947, é uma democracia parlamentar que foi dirigida durante muitos anos por Nehru, pela sua família e pelo Partido do Congresso, que tinham lutado contra o domínio colonial britânico. Em 1980 nasceu o  Bharatiya Janata Party ou BJP, um partido populista da direita radical, de base religiosa e cultural hindu, ultranacionalista e conservador que, com 180 milhões de membros, reclama ser “o maior partido político do mundo”. Tem associada uma temida organização paramilitar de voluntários de extrema-direita que é o Rashtriva Swavamsevak Sangh (RSS), que mantém grande hostilidade e violência para com as comunidades muçulmanas e católicas do país. O BJP teve sucesso popular e hoje governa 22 dos 28 estados indianos e, desde há 12 anos, tem Narendra Modi como primeiro ministro da União.
A Índia aspira tornar-se a potência dominante da Ásia do Sul e tem fortalecido as suas Forças Armadas, pelo que todos os grandes fabricantes de armamento – Estados Unidos, Rússia, França e Reino Unido – se aproximam de Narendra Modi e esquecem o seu patrocínio às actividades violentas dos fanáticos do RSS.
Na Índia é vulgar que as empresas publiquem anúncios laudatórios dirigidos aos dirigentes políticos… A propósito dos seus 12 anos de governo, a empresa Apollo Tyres Ltd publicou um anúncio de felicitações a Narendra Modi no jornal Hindustan Times, que tem sede em Nova Delhi. É apenas um entre muitos anúncios, talvez a desejar que Modi se conserve no poder por muito mais tempo.