segunda-feira, 17 de agosto de 2026

A disputa fronteiriça sensata e amigável

Nos confins do mundo e no extremo norte do Atlântico, para além do círculo polar Ártico, encontra-se a Hans island, uma pequena ilha rochosa, sem recursos, desabitada e com cerca de 1,2 quilómetros quadrados de superfície, que está localizada no estreito de Nares, entre o território canadiano de Nanavut e a Gronelância, um território autónomo da Dinamarca. Em 1973 os dois países definiram e acordaram as suas fronteiras marítimas, mas a soberania da ilha Hans ficou sem resolução definitiva.
O estreito de Nares tem cerca de 35 km (19 milhas) de largura mas, segundo a lei marítima internacional, a soberania de um país estende-se até 12 milhas da sua orla costeira. Assim, tanto o Canadá como a Dinamarca passaram a considerar a ilha Hans como fazendo parte dos seus respectivos territórios. Essa indefinição nunca gerou quaisquer problemas, mas quando um ministro dinamarquês visitou a ilha em 1984, tendo hasteado uma bandeira dinamarquesa e deixado uma garrafa de conhaque, a situação alterou-se. Logo que soube deste episódio, o governo canadiano enviou ao local alguns militares que substituíram a bandeira dinamarquesa pela bandeira canadiana e, com humor, deixaram uma garrafa de uísque. Essa ritual de troca de bandeiras e de bebidas continuou por muitos anos, com os dois países a alternarem visitas à ilha para reafirmar simbolicamente as suas reivindicações territoriais e para deixar os seus simbólicos “presentes”.
Finalmente, no dia 11 de junho de 2022, os governos da Dinamarca, Groenlândia, Canadá e Nunavut concordaram em dividir a Ilha Hans ao meio, após 17 anos de negociações. A situação ficou conhecida mundialmente como a “guerra do Uísque”, um nome para classificar este conflito que, provavelmente, foi o mais amigável da história geopolítica recente.
O jornal National Post que se publica em Toronto, dedicou a sua edição de hoje a esta história como uma lição exemplar em que, sem ameaças nem tiros, se resolveu, pacificamente e com bom senso, um problema de soberania, semelhante a outros que, tantas vezes, geram litígios e provocam guerras. Talvez seja uma crítica às ambições de Donald Trump...

Espanha atrai indústria automóvel chinesa

Como os portugueses sabem, sobretudo os mais velhos, desde que em 1999 se concretizou a transferência da administração portuguesa de Macau para a República Popular da China, que muitos dirigentes portugueses visitaram aquele território e trataram de fazer afirmações sobre a “plataforma privilegiada para negócios com a China”, ou para a “entrada de empresas portuguesas na Ásia e em particular na China” ou, ainda, assinalando o papel de Macau como “ponte económica e financeira estratégica entre a China e Portugal”. Alguns até utilizaram a expressão "porta giratória". Para esses dirigentes – e foram muitos – o território de Macau não era um espaço de memória cultural portuguesa mas, sobretudo, era um espaço de oportunidade e de privilégio comercial para a economia portuguesa, mas esses visionários esqueceram que a economia portuguesa não tem dimensão, nem escala, para “entrar na China”. Porém, poderia acontecer que a China utilizasse essa "ponte" ou essa "porta" para potenciar os seus negócios na Europa através de Portugal, mas não temos sido diligentes nem competentes e, assim, isso não tem acontecido.
A notícia que o jornal Negócios hoje divulga é demolidora, ao anunciar que “gigantes chineses avançam em força para fábricas de carros em Espanha”. De facto, a Espanha já conta com cinco fábricas chinesas de produção automóvel, em operação ou em projecto, localizadas ou a localizar, no Ferrol, Barcelona, Valência, Saragoça e Linares (Jaén). A economia espanhola agradece.
Qual será a razão por que os nossos “amigos” chineses escolhem a Espanha e ignoram Portugal? Há que concluir que o sacrifício de Tomé Pires, o boticário que em 1516 chefiou a primeira embaixada portuguesa ao imperador da China, de pouco valeu. Contudo, ainda há alguns construtores automóveis chineses em vias de decidir aumentar o seu investimento na Europa, designadamente a BYD que já produz os seus apreciados veículos eléctricos na Hungria e na Turquia...
Como nota final e segundo anuncia o jornal Negócios, actualmente a produção automóvel espanhola é de 2,3 milhões de unidades anuais, enquanto Portugal fabrica cerca de 300.000 automóveis por ano.

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Boeing-Airbus: um duelo de gigantes

A cidade francesa de Toulouse é considerada a capital europeia da aeronáutica e nela está localizada a sede e as principais linhas de montagem do Grupo Airbus, o que representa o emprego para dezenas de milhares de trabalhadores da cidade e arredores. Por isso, a aviação comercial e a actividade aeronáutica fazem parte da vida desta região e o diário local La Dépêche du Midi, que se publica na cidade desde 1870 e que reclama ser “le journal de la démocratie du Midi”, acompanha regularmente o tema da aviação e da indústria aeronáutica.
Assim, na sua edição de hoje o jornal destaca como principal tema o “duel au sommet” entre a Boeing e a Airbus, os dois maiores gigantes da indústria aeronáutica mundial que, por vezes, até parece um duelo entre a América e a Europa.
Segundo é referido nessa notícia, desde 2019 que a Boeing tem passado por “anos difíceis” com a “empresa de Toulouse” a ultrapassar claramente a “empresa de Seattle”, tanto em encomendas como em entregas. Nos anos mais recentes, as entregas da Airbus corresponderam a uma quota de mercado de cerca de 60% de aviões comerciais novos, ficando-se a Boeing por cerca de 40%. Porém, parece que a rivalidade, ou mesmo a luta entre os dois fabricantes, se reacendeu no ano passado, quando a Boeing voltou a ter mais encomendas do que o seu concorrente europeu e a conseguir superar a Airbus em encomendas líquidas: aproximadamente 908 contra 889.
No início do corrente ano, num quadro de forte aumento da procura mundial, os dois fabricantes tinham carteiras de encomendas “para muitos anos”, com a Airbus a registar 8.800 e a Boeing 6.200. Porém, o problema que se coloca actualmente é a capacidade de fabricar/entregar aviões e, nesse aspecto, a Boeing perde claramente com a Airbus. Hoje, a discussão sobre as características técnicas e económicas dos aviões produzidos pelos dois fabricantes tem pouco sentido. O que interessa, cada vez mais, é saber como respondem às necessidades do mercado, ou seja, a discussão passa menos por “quem consegue vender mais” e passa mais por “quem consegue fabricar e entregar mais depressa”.

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

O eclipse do Sol que até emocionou o povo

Ontem, que foi o dia 12 de agosto de 2026, aconteceu em Portugal um eclipse do Sol, isto é, no seu movimento em volta da Terra, a Lua passou entre a Terra e o Sol e o disco solar foi ocultado pelo disco lunar. O fenómeno durou cerca de duas horas, aproximadamente entre as 18 horas e 33 minutos e as 20 horas e 23 minutos. 
Naturalmente, a ocultação total do disco solar – o eclipse total – só aconteceu na região de Bragança e durou menos de meio minuto, mas nas outras regiões do país o eclipse foi parcial, com a percentagem do disco solar que foi encoberto pela Lua a situar-se entre os 100% e os 92%.
O fenómeno foi intensamente anunciado pelas televisões, que o aproveitaram para montar emissões sensacionalistas, como tanto gostam de fazer, recolhendo inúmeras entrevistas do povo anónimo que se preparava para viver aquele instante, único e imperdível, “com grande emoção”. 
Alguns milhares de pessoas dirigiram-se para o noroeste do país, com a hotelaria e a restauração a terem uma imprevista e elevada procura, isto é, “o eclipse do sol trouxe enorme retorno económico a Bragança”, como declarou a autarca da cidade. Em Espanha o eclipse também gerou uma anormal onda de curiosidade e, lá como cá, os jornais escolheram uma fotografia do momento do eclipse total do Sol para ilustrar as suas edições. O jornal El País escreveu que “el eclipse hipnotiza España”, enquanto em Portugal o jornal Público foi ainda mais poético e escreveu que “e do dia se fez noite”.
Entretanto, já foi anunciado que haverá um novo eclipse solar no dia 2 de agosto de 2027, que será parcialmente visível no sul do continente português, enquanto o próximo eclipse total do Sol só será visível em Portugal no ano de 2144.

terça-feira, 11 de agosto de 2026

United States: a Nation of Immigrants

A edição de domingo do diário The New York Times inclui uma extensa reportagem sobre as raízes étnicas e culturais da população dos Estados Unidos que fazem com que o país se tenha tornado um “caldeirão cultural, tapeçaria, mosaico, caleidoscópio”. 
A reportagem intitulada “Tracing the Roots of a Nation of Immigrants”, recorreu a pesquisas de grande qualidade académica e jornalística, identificando as regiões dos Estados Unidos em que predominam as populações migrantes que, desde o século XVI e até à actualidade, contribuíram para a formação do tecido socio-cultural americano.
Assim, o estudo – que é documentado por abundantes gráficos e ilustrações – mostra as regiões e até algumas cidades onde mais de 20% da população é de origem mexicana, ou afro-americana, ou chinesa, ou nativo-americana e, até, americana, um conceito que é usado para definir os descendentes dos primeiros imigrantes ingleses, escoceses e irlandeses que chegaram ao continente americano. A situação é caracterizada através de alguns exemplos de cidades cuja população é maioritariamente mexicana (81% em Phoenix), somali (53% em Minneapolis) ou indiana (37% em Houston).
Curiosamente, o estudo nunca refere as comunidades portuguesas que se fixaram nas regiões da Califórnia e da Nova Inglaterra, designadamente nos estados da Califórnia, Massachusetts, Rhode Island e Connecticut, o que parece significar que são muito minoritárias nesses estados. Contudo, a reportagem requere uma leitura e uma interpretação mais profundas, que não cabem no âmbito deste texto.
Como nota final, que o estudo não contempla, refere-se que Donald Trump, o presidente dos Estados Unidos, é neto de imigrantes alemães pelo lado paterno e filho de uma imigrante escocesa pelo lado materno, além de ser casado com uma imigrante eslovena. É caso para perguntar o que o leva a perseguir os imigrantes…

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

Campo Maior: a festa da cultura popular

As Festas do Povo de Campo Maior, também conhecidas por Ruas Floridas, são uma das mais vivas expressões da cultura popular portuguesa, que a Unesco reconheceu em 2021 como Património Cultural Imaterial da Humanidade. A sua inauguração aconteceu no dia 8 de agosto com a presença do Presidente da República e o evento vai decorrer até ao dia 16 de agosto.
Desde 1889 que as festas se realizam com periodicidade irregular e sempre que o povo de  Campo Maior decide ornamentar as ruas e as praças da sua vila com milhões de flores de papel feitas de forma artesanal pelos moradores durante semanas ou meses, que proporcionam um singular panorama de arte popular e de múltiplas formas e cores, provocando um verdadeiro deslumbramento estético. A preparação deste espetacular exemplo de genuína cultura popular também é um fator de coesão social para a população desta vila alentejana, que recebe com simpatia e evidente satisfação as muitas centenas de milhar de visitantes portugueses e estrangeiros, sobretudo espanhóis da vizinha Comunidade Autónoma da Extremadura.
As casas são caiadas e os pavimentos limpos, enquanto as ruas “enramadas” se transformam e se enchem de criatividade e de originalidade, proporcionando um cenário inesquecível de beleza para quem o idealizou e preparou, mas também para quem o visita.
Ontem a imprensa da Extremadura deu destaque às Festas do Povo, designadamente o jornal Hoy, que se publica em Badajoz.
Hoje tive o privilégio de ter estado em Campo Maior devido à generosidade do ASV e da ML, guias e companheiros experimentados, que nos proporcionaram uma excelente prova de “turismo cá dentro”, com grande proveito e muita satisfação.

sábado, 8 de agosto de 2026

As eleições presidenciais no Brasil

As eleições presidenciais no Brasil vão realizar-se no próximo dia 4 de outubro e, nesse dia, mais de 150 milhões de brasileiros irão escolher o presidente e o vice-presidente da República, os governadores e vice-governadores dos 26 estados e do Distrito Federal e, ainda, 78 senadores, 513 deputados federais e 1035 deputados estaduais.
Apesar desta diversidade de cargos a eleger, é a eleição presidencial que atrai todas as atenções. Nesta altura, a menos de dois meses da votação, as candidaturas estão lançadas, mas as sondagens já estão a ser conhecidas desde há alguns meses, embora a mais credível de todas seja aquela que é recolhida pelo Datafolha, um instituto independente de pesquisa de opinião do Grupo Folha de S. Paulo.
Na sua edição de ontem a revista Veja apresenta os dois principais candidatos presidenciais, respetivamente Luiz Inácio Lula da Silva (Partido dos Trabalhadores) que procura a reeleição, e Flávio Bolsonaro (Partido Liberal) que tenta ocupar o lugar antes ocupado pelo pai, que está preso e impedido de concorrer.
Na última sondagem divulgada pelo Datafolha há cerca de duas semanas, o candidato Lula da Silva aparece com 40% das intenções de voto e o candidato Bolsonaro com 32%, seguindo-se nove outros candidatos com intenções de voto abaixo dos 4%. Se, como se espera, houver necessidade de realizar uma segunda volta, então os brasileiros irão às urnas no dia 25 de outubro e, nesse cenário, o petista Lula da Silva aparece com 48% contra 43% de intenções de voto do seu adversário direto.
Com as incertezas próprias de todas as sondagens, com a evidente interferência externa dos aliados de Bolsonaro, sobretudo nos Estados Unidos e na Argentina e, ainda, com os efeitos da desinformação veiculada pelas redes sociais, todos os cenários são possíveis.
Como aqui escrevi antes, os brasileiros que se cuidem...

Os rios da Europa em estado crítico

A edição de ontem do jornal Libération escolheu uma fotografia do rio Danúbio para ilustrar o tema da seca na Europa e a frase “e no meio há um rio”, acrescentando que “depois de um inverno sem chuva e de repetidas ondas de calor, o nível dos caudais dos rios da Europa nunca foram tão baixos e as consequências económicas estão a ser muito graves”. Aquela fotografia “vale mais que mil palavras” e mostra o areal seco do leito do rio e a estreita faixa do leito por onde corre a água.
O rio Danúbio é o segundo rio mais longo da Europa e atravessa o continente de oeste para leste, desde a sua nascente na Alemanha até à sua foz no mar Negro, em território romeno, passando por uma dezena de países e por várias capitais como Viena, Bratislava, Budapeste e Belgrado, ao longo de quase três mil quilómetros de extensão.
Porém, o problema não existe apenas no Danúbio, pois também está a acontecer no Reno e em outros rios europeus, levando os seus caudais a mínimos históricos e justificando as generalizadas preocupações com esta emergência hídrica, resultante da emergência climática por que passa a Europa.
A imprensa tem relatado algumas curiosidades derivadas desta situação, como o aparecimento de navios que foram afundados durante a 2ª Guerra Mundial e que, com a descida histórica do nível da água, ficaram a descoberto. No entanto, o problema é bem mais importante e pode tornar-se dramático, designadamente em relação ao abastecimento público de água de muitas regiões, à produção de energia eléctrica nas centrais nucleares, ao transporte fluvial de mercadorias e, até, ao fluxo do turismo fluvial europeu, de que dependem muitas empresas e muitos trabalhadores.
É caso para dizer que o declínio da Europa até se vê no declínio dos rios, ou que o Danúbio já não seria inspirador para o compositor vienense Johann Strauss II, como foi em 1866, quando compôs a famosa valsa O Danúbio Azul.

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Os milhões de lucro da banca são extorsão

A banca portuguesa está em festa porque os seus lucros continuam num nível muito elevado, como se a sua actividade decorresse num país economicamente rico e socialmente equilibrado, com recursos abundantes e sustentáveis, com uma boa base tecnológica e industrial, com grande capacidade exportadora e com empresários empreendedores e com mão-de-obra qualificada.
Hoje, toda a imprensa portuguesa de referência anunciou esse sucesso: o Jornal de Notícias informou em manchete que “maiores bancos cobram aos clientes sete milhões por dia em comissões”, o Diário de Notícias destacou em primeira página que “cinco maiores bancos lucram meio milhão de euros por hora” e o Público anunciou que os “bancos lucram mais de dois mil milhões semestrais pelo quarto ano consecutivo”. É muito dinheiro e não há milagres.
Estes resultados são escandalosos e obscenos, porque como escreve o Jornal de Notícias as “comissões salvam lucros dos bancos e clientes pagam a conta”. Não está em causa a legitimidade da banca para cobrar taxas e comissões pelos serviços que presta, mas não é aceitável a autêntica extorsão que é a cobrança de comissões, sobretudo as chamadas despesas de manutenção de conta e as anuidades dos cartões de crédito a que não temos alternativa, que penalizam o pequeno depositante e fazem inchar os lucros da banca. Dizem os banqueiros que os preços destas comissões não sobem, mas o facto é que também não descem, depois de terem sido aumentadas durante anos consecutivos.
Os pequenos depositantes conhecem bem a injustiça que é o diferencial entre juros passivos (que o cliente paga ao banco pelos empréstimos que contraiu) e os juros activos (que o cliente recebe pelo dinheiro que empresta ou deposita no banco), porque é a imagem mais fiel das práticas de extorsão bancária em Portugal.
Por isso, eu digo ao gestor Macedo a mesma coisa que diz a publicidade do Continente: "Assim também eu!".
Nestas circunstâncias, ocorre-nos O Canto e as Armas de Manuel Alegre, publicado em novembro de 1967 que, no belo Poemarma, diz: 
Que o poema […] chegue ao banco e grite: abaixo a pança!"

A emergência climática ameaça a Europa

Há uma parte da Europa que está preocupada com o seu reequipamento militar para fazer face à “ameaça que vem do leste”, pelo que vai gastar 5% do PIB em despesa militar, mas há outra parte que sofre com os efeitos das alterações climáticas, que parecem não ser uma prioridade para as autoridades europeias.
De facto, há uma emergência climática que está abalar a Europa, com elevadas temperaturas, extensas áreas devastadas por fogos florestais, a falta de chuva e elevados níveis de seca e, mais recentemente, com a brutal redução do caudal dos rios. Todos estes fenómenos estão a causar mortes, a afetar as populações e a ter um grande impacto económico em muitos países europeus.
O diário alemão Frankfurter Rundschau que se publica na cidade alemã de Frankfurt am Main escolheu como manchete da sua edição de hoje uma frase relativa ao reduzido caudal do Reno e escreveu “a economia está em crise, a seleção nacional de futebol enfrenta dificuldades e, agora, o Reno também está a secar”. Hoje, também o diário Die Tageszeitung que se publica em Berlim, salienta os níveis muito baixos do caudal dos rios Reno, Elba e Danúbio, escrevendo em manchete que “o nível de água alemão baixa para o nível de [Friedich] Merz”, o chanceler alemão. No caso do rio Reno, que é uma das principais vias fluviais no centro da Europa, no último fim-de-semana registou o nível de água mais baixo de sempre.
Porém, não é só na Alemanha que o problema é grave. Os incêndios em Espanha, França, Escócia, Itália e Grécia têm sido devastadores. Na Roménia, na Hungria, na Itália, na Eslováquia e na Croácia, a falta de chuva e o calor extremo já perturbam a economia e o abastecimento de água já tem restrições. As autoridades romenas e húngaras foram obrigadas a parar o funcionamento dos seus reatores nucleares por não haver água no Danúbio para os refrigerar.
A emergência climática e a “grande seca europeia” estão a levar a mínimos históricos os caudais do Danúbio, do Reno e de outros rios, afetando a produção das centrais nucleares, o abastecimento público de água, o transporte de mercadorias e o importante turismo fluvial europeu, vendo-se muitas áreas que normalmente estão submersas a emergir devido aos níveis muito baixos dos caudais.
Como é evidente, estes são alguns dos verdadeiros perigos que ameaçam a Europa.

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Ceuta, assalto all’Europa

O problema surgido com a “invasão” de Ceuta “obriga-nos a pensar”, como escrevemos no último texto que aqui publicamos pois tem interpretações muito diversas, embora seja evidente que não se tratou de um acto espontâneo de cerca de 60 mil pessoas, sobretudo jovens, que de repente decidiram abandonar Marrocos e entrar na cidade autónoma de Ceuta, historicamente território espanhol, mas que o reino de Marrocos reivindica como território marroquino. 
Naturalmente, alguém instrumentalizou muitos daqueles jovens que procuram uma vida melhor e cujos direitos humanos devem ser respeitados, mas o que se passou terá sido “organizado” com a participação das redes sociais e pode ter sido um ensaio patrocinado pelo governo marroquino para avaliar as reações espanhola e da União Europeia, mas também pode ter sido “um plano pérfido de Marrocos contra a União Europeia” como escreveu o jornal austríaco Kronen Zeitung.
Porém, o jornal italiano La Stampa, que se publica em Turim, escolheu como manchete da sua edição a frase “Ceuta, o assalto à Europa”, havendo também abundante noticiário internacional que liga o que aconteceu com as relações íntimas entre Donald Trump, Benjamin Netanyahu e o rei de Marrocos, insinuando que os serviços secretos destes países prepararam esta “invasão” para criar dificuldades a Pedro Sánchez, o único chefe de governo da União Europeia que teve a coragem de condenar Netanyahu e de contrariar Donald Trump, designadamente ao não aceitar as orientações do presidente americano e do seu lacaio Mark Rutte, para gastar 5% do PIB em despesas militares.
Ainda ninguém explicou, com verdade e credibilidade, o que realmente se passou, mas objectivamente foi um assalto à Europa, como salientou o diário La Stampa. Os acontecimentos de Ceuta são de uma enorme gravidade, são um aviso e um alerta para a soberania europeia, mas serviram apenas para evidenciar a decadência da Europa, para mostrar a fragilidade dos seus vaidosos líderes e para excitar os extremistas europeus e os seus ideais xenófobos.

sexta-feira, 31 de julho de 2026

"Ceuta, invadida", obriga-nos a pensar

A pressão migratória sobre a Europa continua a ser muito intensa e esse é um dos temas políticos, económicos e humanitários mais complexos da actualidade, colocando desafios à gestão das fronteiras, à integração dos migrantes nas sociedades de acolhimento e à cooperação entre os diferentes estados-membros da União Europeia. 
Este movimento migratório tem raízes essencialmente económicas, mas também resulta do crescimento demográfico, de conflitos armados, de efeitos das alterações climáticas e de perseguição política ou religiosa, mas representa sempre uma fuga à pobreza, à fome e, de uma forma geral, às condições indignas em que vivem milhões de pessoas no mundo, esquecidas pelos ricos e poderosos que se vão ocupando a fazer guerras. A Grécia, a Itália e a Espanha são os destinos mais procurados pelos migrantes através do mar Mediterrâneo mas, actualmente, a rota do Mediterrâneo Ocidental parece ser a que está a ser mais usada e, por terra ou por mar, a cidade autónoma espanhola de Ceuta é um dos objectivos dos migrantes legais ou ilegais que querem entrar na Europa.
Nas últimas horas, segundo informaram as autoridades espanholas, cerca de 49.000 migrantes entraram no enclave de Ceuta em apenas 24 horas, a nado ou saltando vedações, havendo já o registo de 19 mortos. Este número de entradas representa um aumento de quase 50% na população da cidade que tem 83.600 habitantes, resultando numa pressão insustentável sobre alojamentos e alimentos, vendo-se muitas centenas de jovens migrantes a dormir nas ruas, enquanto mais migrantes continuam a entrar no território. 
O jornal ABC diz hoje que Ceuta foi “invadida”, mas toda a imprensa espanhola se mostrou alarmada. E tem boas razões de alarme, porque se trata uma de violação da integridade territorial da Espanha e do espaço comunitário, que não tem ar de ser espontânea e terá sido "organizada" pelo governo marroquino. Esta situação vem provar quão irresponsáveis e incompetentes são os líderes europeus que continuam a assustar-nos com a ameaça russa e que não sabem o que são direitos humanos, nem que há outros tipos de ameaças ao nosso modo de vida e bem estar. 
Como dizia o Velho do Restelo no Canto IV d’Os Lusíadas, “deixas criar às portas o inimigo, por ires buscar outro de tão longe”.  Nem mais, nem menos.

Infantino, Trump e o futebol como negócio


O Mundial de 2026 já terminou há quase duas semanas com a vitória da selecção da Espanha, mas o balanço do evento começa agora a ser feito, mostrando números inéditos de público nos estádios e de audiências televisivas. Estima-se que nos estádios estiveram 6,81 milhões de espectadores, o que representa uma média de 65.490 espectadores por cada um dos 104 jogos disputados e uma taxa de ocupação dos estádios de 99,7%, apesar dos preços exorbitantes ou mesmo escandalosos dos bilhetes. Estima-se, também, que cerca de 5,2 mil milhões de pessoas – quase dois terços da população mundial – assistiu pelo menos uma vez às transmissões televisivas.
A FIFA previa uma “equação económica” simples para o Mundial: do lado das receitas esperavam-se mais de 7 mil milhões de euros (um crescimento de 56% em relação ao Mundial de 2022), incluindo 3,5 mil milhões de euros de direitos televisivos, enquanto do lado das despesas estavam orçamentados 3,2 mil milhões de euros, nelas se incluindo os prémios às seleções, aos clubes que cederam os jogadores e aos próprios jogadores, mas também as ofertas a Donald Trump e aos seus familiares e amigos. A ser assim, a FIFA terá tido um lucro da ordem dos 3 a 4 mil milhões de euros!
Gianni Infantino, o presidente da FIFA, e Donald Trump, o dono da Trump Tower e presidente do Estados Unidos, devem ter ficado deslumbrados com estes números e “embrulharam-se” em favores e elogios. Infantino atribuiu a Trump o primeiro Prémio da Paz da FIFA e Trump quer ver Infantino como secretário-geral das Nações Unidas, isto é, favor com favor se paga. Agora Infantino quer vender 20% dos direitos comerciais do Mundial, com Trump e a sua família a quererem comprar, embora Trump queira muito mais desta “galinha dos ovos de ouro” que é o futebol.
O jornal L’Équipe pergunta onde é que eles vão parar, nesta corrida que já foi chamada o “negócio do século da FIFA” e que, uma vez mais, vem mostrar o que o futebol é um negócio onde domina a grande corrupção. 

terça-feira, 28 de julho de 2026

O Brasil e os brasileiros que se cuidem...

As declarações insultuosas para o presidente Lula da Silva e para o Brasil, feitas no passado sábado na cidade de S. Paulo por Javier Milei, o presidente da Argentina, estão a dar origem a “uma escalada sem precedentes de crise diplomática entre os dois países”, segundo salienta a edição de hoje do centenário jornal paulista Folha de S. Paulo.
Javier Milei participou na convenção nacional do Partido Liberal que declarou apoio à candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro, tendo-se referido ao presidente do Brasil como “ladrão” e “presidiário” e a Alexandre de Moraes, que é professor catedrático e ministro e vice-presidente do Supremo Tribunal Federal, como “lixo careca”.
O governo brasileiro reagiu a estes insultos proferidos em território brasileiro e chamou o seu embaixador em Buenos Aires para consultas, segundo a fórmula usada nestes casos pela diplomacia, o que é considerado um gesto diplomático de elevada gravidade.
A atitude de Milei foi também criticada na Argentina, onde Axel Kicillof, o governador da província de Buenos Aires e potencial candidato peronista à presidência da Argentina nas eleições do próximo dia 24 de outubro, repudiou a postura de insultuosa e ofensiva de Milei e disse ter tido “vergonha” das suas afirmações, que “não representam o sentir do povo argentino”. Além disso, Kicillof lembrou que o Brasil é o principal parceiro económico da Argentina e que as declarações de Milei podem colocar em risco empregos, investimentos e interesses argentinos, ao fazer aquelas “palhaçadas” apenas para “apoiar um candidato por ordem de Trump”.
Significa que Bolsonaro já tem o apoio de Donald Trump, de Javier Milei e do Netanyahu, o carniceiro que tem um mandato de captura internacional expedido pelo TPI.
É caso para dizer aos brasileiros que se cuidem…

segunda-feira, 27 de julho de 2026

Ele é o maior ciclista de todos os tempos

Terminou a 113ª edição do Tour de France que é, seguramente, um dos maiores espectáculos desportivos da actualidade, sobretudo pela excelência das suas transmissões televisivas, que nos permitem acompanhar a prova com bastante detalhe informativo, observar o entusiasmo popular que suscita e ver muitas imagens do património natural e arquitectónico francês.
Naturalmente, há competições desportivas que atraem o interesse e o entusiasmo de públicos mais numerosos, como acontece com os Jogos Olímpicos, os grandes torneios de futebol da FIFA e da UEFA, os torneios de ténis do Grand Slam ou as corridas de Formula 1, mas pode afirmar-se que o entusiasmo mobilizador do Tour de France é único. 
Nesta ano de 2026 os ciclistas pedalaram 3.320,7 quilómetros desde Barcelona até Paris, repartidos por 21 etapas das quais oito em alta montanha, nos Pirinéus, no Maciço Central, nos Vosges, no Jura e nos Alpes.
O vencedor foi o ciclista esloveno Tadej Pogačar que, com 27 anos de idade, juntou o seu nome ao lote de pentacampeões do Tour de France, de que fazem parte os franceses Jacques Anquetil e Bernard Hinault, o belga Eddy Merckx e o espanhol Miguel Induráin. Os jornais desportivos franceses e espanhóis, designadamente a Marca, com que ilustramos este texto, mas também alguns jornais generalistas, destacaram a vitória deste excepcional atleta que já é considerado o maior ciclista de todos os tempos.
Como curiosidade registamos que o único português que participou nesta edição do Tour de France foi o ciclista Nélson Oliveira da equipa espanhola Movistar. Terminou na 65ª posição entre os 158 ciclistas que concluíram a prova, mas bateu um recorde, ao tornar-se no primeiro ciclista a cumprir 24 grandes Voltas consecutivas sem abandonos. É obra!