sexta-feira, 4 de maio de 2018

A morte de Dhlakama e as incertezas

O desaparecimento de Afonso Dhlakama ontem anunciado e que hoje é destacado no diário moçambicano O País, é um acontecimento importante para a história de Moçambique, porque se trata de uma personalidade que levava 39 anos de liderança da Renamo (Resistência Nacional Moçambicana), o principal partido político da oposição moçambicana.
A Renamo foi criada em 1975 por dissidentes da Frelimo e em 1979, quando os dois partidos já combatiam na guerra civil, Afonso Dhlakama tornou-se o seu líder político e militar. A guerra de guerrilhas que comandou contra as forças governamentais da Frelimo durou 16 anos e, após prolongadas negociações conduzidas pela Igreja moçambicana e pela Comunidade de Santo Egídio, com o apoio do governo italiano, foi assinado em 1992 um Acordo Geral de Paz e foram anunciadas eleições para 1994, sob a supervisão das Nações Unidas. Afonso Dhlakama ganhou a batalha pela Democracia e participou depois em cinco eleições presidenciais, mas perdeu sempre para o candidato da Frelimo: perdeu para Joaquim Chissano em 1994 e 1999 com 33,7% e 47,7% dos votos; perdeu para Armando Gebuza em 2004 e 2009 com 31,7% e 16.4% dos votos e perdeu para Filipe Nyusi em 2014 com 36,61% dos votos. Porém, estes resultados revelam que tanto Dhjakama como a Renamo tinham espaço político e eleitoral em Moçambique mas que, apesar disso, nunca perderam a ideia de unidade nacional e nunca ameaçaram com quaisquer separatismos das províncias onde eram maioritários.
Os anos de 2013 e 2014 foram de grande tensão, tendo Afonso Dhjakama abandonado a capital e começado a reorganizar as suas forças por considerar que o Acordo Geral de Paz de 1992 não estava a ser cumprido, que o Estado estava descridibilizado pela excessiva partidarização dos seus orgãos, que a Renamo estava a ser afastada da esfera do poder e que muitos dos seus militantes eram perseguidos. Tudo parecia correr agora de feição para Filipe Nyusi e para Afonso Dhlakama, no caminho para um renovada parceria de paz e de progresso para Moçambique. O inesperado aconteceu. Dhlakama partiu. Todos lhe prestam homenagem. Agora é preciso que as incertezas do futuro sejam ultrapassadas.

O fim da ETA e o tempo novo no Euskadi

A Euskadi Ta Askatasuna, mais conhecida pela sigla ETA, que lutou durante cerca de seis dezenas de anos pela independência do País Basco, anunciou ontem a sua dissolução definitiva e muita gente respirou de alívio, embora a generalidade da imprensa e dos partidos políticos critique o comunicado de dissolução por esquecer as vítimas.
A ETA nasceu em 1959 como uma organização de defesa da cultura basca, mas alguns anos depois tinha evoluido para uma organização paramilitar separatista que pegou em armas para conquistar a independência de uma região histórica cujo território se distribui entre a Espanha e França.
Ontem em Genebra e perante “diferentes personalidades”, dois históricos militantes da ETA – Josu Urrutikoetxea ou ‘Josu Ternera’ e Soledad Iparraguirre ‘Anboto’ leram uma “Declaración final de ETA al Pueblo Vasco”, em castelhano, basco e francês, em que a organização socialista revolucionária basca de libertação nacional informou o fim da sua trajectória política e militar e o total desmantelamento de todas as suas estruturas. Para trás ficaram 853 mortos e mais 6.389 feridos pelas acções da ETA, além das vítimas associadas aos 79 sequestros praticados pela organização.
Porém, os “sobreviventes” da ETA prometem continuar a sua luta pelo ideal da independência do País Basco, em termos semelhantes ao que está a acontecer com “el procés” na Catalunha, mas existe a convicção de que depois de seis décadas de perturbação e de terrorismo, ninguém vai querer ouvir falar desta gente durante muitos anos. Aliás, os títulos dos jornais espanhóis são unânimes na condenação do triste final da ETA, que foi derrotada e que enegreceu ainda mais o seu historial, mostrando uma enorme frieza e falta de vergonha ao ignorar as suas vítimas, como denuncia El Diário Vasco de Bilbau.