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terça-feira, 21 de julho de 2026

Os faróis e a nossa herança marítima

No passado domingo, em que todas as atenções se concentravam no futebol e na final do Mundial, o jornal Açoriano Oriental, que se publica na cidade de Ponta Delgada e que no seu cabeçalho afirma ser “o mais antigo jornal português fundado em 1835 por Manuel António de Vasconcelos", dedicou uma “grande reportagem” aos faróis açorianos que “continuam a orientar quem navega pelo Atlântico”. 
Para ilustrar a sua primeira página, foi escolhida uma fotografia do belíssimo farol do Arnel, localizado na ponta nordeste da ilha de S. Miguel e que está em funcionamento desde 1876. Depois, a reportagem reparte-se por três páginas e assenta em duas entrevistas feitas a Rui Melo e Mário Riscado, dois dos 31 faroleiros que asseguram a operação e a manutenção dos faróis do arquipélago dos Açores e que, nesta reportagem, explicam a especificidade técnica da sua profissão e transmitem ao leitor uma exemplar postura de dedicação a este serviço público.
A reportagem é muito esclarecedora quanto à importância dos faróis, pela confiança que transmitem aos navegantes apesar das modernas ajudas à navegação em que se destaca o Global Positioning System, vulgarmente conhecido como GPS, mas também pelo seu enquadramento na paisagem marítima.
Na Ode Marítima, um dos mais conhecidos e inspirados poemas de Fernando Pessoa sob o heterónimo de Álvaro de Campos, o poeta evoca “o olhar humanitário dos faróis na distância da noite” e, de facto, sobretudo em condições meteorológicas adversas, os faróis são um sinal de hospitalidade para a comunidade marítima e para aqueles que se aproximam de terra, depois de horas ou dias de muito desconforto e de perigo.
Os faróis são, portanto, indispensáveis à navegação, mas também são uma memória histórica e um elemento patrimonial único da paisagem marítima.
Aqui deixo expressa a minha gratidão e o meu aplauso aos faróis e aos faroleiros, Que sejam mantidos e protegidos em nome da nossa herança cultural marítima.

domingo, 21 de junho de 2026

Uma festa a valer – Sanjoaninas 2026

As Sanjoaninas são as festas realizadas em honra de São João na cidade de Angra do Heroísmo e que são, porventura, as festas profanas mais espectaculares das muitas que são realizadas em todas as ilhas dos Açores.
Classificada pela Unesco como património mundial, Angra do Heroísmo é a mais importante cidade da ilha Terceira, que é uma das nove ilhas dos Açores, embora por vezes se diga que “os Açores são oito ilhas e um parque de diversões que é a ilha Terceira”, num reconhecimento pelo entusiasmo terceirense por todas as festas, nomeadamente o Carnaval, o Divino Espírito Santo e os Santos Populares, com os bailinhos, as marchas populares e as corridas à corda, que são marcas da identidade cultural terceirense.
A bela cidade espera e prepara durante muitos meses as Sanjoaninas e, neste ano de 2026, entre os dias 19 e 28 de junho enche-se de vida e transforma-se num enorme palco de cultura, cor, tradição e alegria, com espaços gastronómicos, muitos concertos e espectáculos ao vivo, torneios desportivos, exposições, animação de rua, corridas de touros e corridas à corda, cortejos e desfiles temáticos, regatas e um sempre apreciado espectáculo pirotécnico. A população da ilha e muitos visitantes convergem com alegria e entusiasmo para a histórica cidade, que se espraia pela orla da baía que lhe deu o nome e à sombra do Monte Brasil. Os números são bem expressivos, pois desfilarão 49 marchas populares com 4.500 marchantes, das quais 12 são provenientes de outras ilhas, da Madeira e do Canadá, havendo também 78 espaços gastronómicos espalhados pelo centro histórico da cidade.
As Sanjoaninas são sempre associadas a efemérides ou temas culturais e com o tema “Angra e a Açorianidade”, as Sanjoaninas 2026 foram associadas às comemorações do cinquentenário da Autonomia, que constitui um instrumento de valorização e dignificação da condição insular e a concretização de uma justa aspiração das populações açorianas, que só o 25 de Abril de 1974 tornou possível.

quarta-feira, 26 de março de 2025

A eficiência na captura de um submarino

A notícia foi divulgada pela Polícia Judiciária e informava que um submarino vindo da América do Sul, que transportava cerca de sete toneladas de cocaína, tinha sido interceptado e capturado a sul do arquipélago dos Açores. Nunca tal tinha acontecido na Zona Económica Exclusiva portuguesa e, por isso e pela importante captura efectuada, esta acção vai ficar como um exemplo da eficiência portuguesa no combate ao tráfico de droga.
A acção que recebeu o nome de Operação Nautilus desenvolveu-se durante alguns dias com a cooperação da Marinha e da Força Aérea portuguesas, tendo sido o resultado de uma investigação em que cooperaram várias entidades ou agências portuguesas, espanholas, americanas e britânicas.
A Polícia Judiciária também informou que o submarino interceptado pertencia a uma organização criminosa e que havia cinco tripulantes a bordo, sendo três de nacionalidade brasileira, um espanhol e um colombiano, que foram detidos e transportados para Ponta Delgada a bordo de um navio da Marinha Portuguesa. O submarino foi rebocado e também já se encontra no porto de Ponta Delgada.
A imprensa portuguesa, tanto continental como açoriana, destacaram esta notícia, mas foi o jornal galego Diario de Pontevedra que publicou a mais esclarecedora fotografia deste submarino que, embora utilizado em acções criminosas, não deixa de admirar aqueles que andam, ou andaram no mar, pela ousadia de atravessar o Atlântico em tão precárias condições.
Naturalmente, também aqui se saúda a eficiência da Polícia Judiciária e a boa cooperação que lhe foi prestada nesta importante operação.

quarta-feira, 1 de janeiro de 2025

Pico, ou a beleza no coração do Atlântico

A revista Volta ao Mundo é uma referência no que respeita à divulgação de destinos turísticos e na sua edição de Janeiro de 2025 destaca a ilha do Pico, referindo-se-lhe como uma “[ilha] de beleza no coração do Atlântico”. Ao escolher a ilha do Pico entre “12 destinos para amantes de séries e filmes”, entre os quais se incluem a cidade de Budapeste e as ilhas Canárias, a revista presta uma boa homenagem àquela ilha açoriana que designa como “a ilha baleeira, a ilha de pedra, a ilha cinzenta, a ilha sofredora, de cujo ‘chão roto’ um frei tirou um vinho ímpar, vai para séculos”. Para quem gosta da ilha ou nela tenha raízes familiares ou culturais, esta reportagem é uma excelente maneira de iniciar o ano de 2023. 
Porém, a leitura da reportagem deixa uma sensação de vazio ao leitor. De facto, a própria reportagem anuncia que “a Volta ao Mundo viajou a convite da Alma do Pico Nature Residence”, um empreendimento localizado na vila da Madalena e, naturalmente, tem o formato editorial que se classifica como publireportagem, isto é, um texto de publicidade que elogia um produto ou serviço, por vezes de forma exorbitante e desproporcionada, que é publicado para parecer um artigo jornalístico objectivo, independente e verdadeiro. Dessa forma, ao comprar a revista, o leitor e o potencial visitante estão a comprar gato por lebre. Evidentemente que o texto se fundamenta na verdade e na recolha de depoimentos de vários residentes mas, como escreveu o poeta popular António Aleixo (1899-1949), “pra mentira ser segura e atingir profundidade, tem que trazer à mistura qualquer coisa de verdade”.
E há tanta coisa grandiosa, interessante, atraente e verdadeira na ilha do Pico, que não é necessário recorrer a este tipo de reportagens por encomenda.

sábado, 27 de julho de 2024

As surpresas do anticiclone dos Açores

A ponta dos Rosais, na ilha de S. Jorge
A meteorologia dos Açores é dominada pelo seu famoso anticiclone, que é um centro de altas pressões atmosféricas que influencia o tempo e o clima de vástas áreas da Europa, do Norte de África e das Américas. Este sistema é um exemplo de um anticiclone subtropical quente e tem variações de posição ao longo do ano, mas no Verão mantém-se bastante estacionário na proximidade do arquipélago, o que origina um tempo ameno, com ventos fracos e fraca pluviosidade. Porém, o comportamento do anticiclone não é regular pelo que, apesar das condições meteorológicas favoráveis em que a luminosidade oferece panoramas de grande deslumbramento, também se sucedem fenómenos de excepção, designadamente no mar, onde a temperatura da água atingiu os 26 graus nos últimos dias, bem como situações de invernia fora do tempo, com ondulação e mar encapelado, nevoeiro e pouca visibilidade, vento e alguma pluviosidade. 
Foi nessas condições de excepção que navegamos recentemente da ilha do Pico para a ilha Graciosa, mas o anticiclone surpreendeu-nos. A passagem pela ponta dos Rosais, na extremidade ocidental da ilha de S. Jorge, proporcionou nesse dia uma visão digna da passagem do cabo Horn, tido como o "lugar mais perigoso do mundo para os navegantes". Na fotografia que então captei destaca-se o dia sombrio, o mar encapelado e, imponente e solitário, o farol dos Rosais.

sexta-feira, 21 de junho de 2024

Sanjoaninas: a festa maior dos Açores

As nove ilhas do arquipélago dos Açores constituem uma região autónoma integrada na República Portuguesa desde 1976. No conjunto das ilhas ou na especificidade de cada uma, os seus espaços físicos e culturais distinguem-se e impressionam o visitante, quer pela exuberância da paisagem marítima, quer pela singularidade das suas práticas culturais, tanto religiosas como profanas.
De entre todas as ilhas destaca-se a ilha Terceira, pelo seu relevante protagonismo na História de Portugal e por ser a mais “festeira” de todas as ilhas do arquipélago, havendo uma expressão popular que afirma que “os Açores são oito il,has mais um parque de diversões” (que é a ilha Terceira). É na ilha Terceira que se apresentam os bailinhos de Carnaval, que desfilam as marchas populares e que o povo vibra com as touradas à corda mas, sobretudo, se organizam as grandes festas no Verão, em especial nas cidades da Praia da Vitória e de Angra do Heroísmo. Na cidade de Angra, que a UNESCO classificou em 1983 como património da Humanidade, festejam-se as famosas Sanjoaninas, que são consideradas as maiores festas lúdicas dos Açores e que, nesta edição de 2024, celebram os 50 anos do 25 de Abril, sob o tema “Angra: teu nome é Liberdade”.
Entre os dias 21 e 30 de junho, as Sanjoaninas 2024 vão encher as ruas da cidade de Angra do Heroísmo com concertos, gastronomia, tauromaquia, desporto, desfiles, exposições e marchas populares, num encontro de tradição e modernidade em que a marca libertadora do 25 de Abril vai estar presente.
Para quem alguma vez assistiu às Sanjoaninas, facilmente concluiu que a ilha Terceira e a cidade de Angra são mesmo um parque de diversões…

sábado, 18 de maio de 2024

As festas do Espírito Santo nos Açores

As festas do Espírito Santo são, provavelmente, a marca mais forte e mais importante da identidade e da cultura popular açoriana, realizando-se em todo o arquipélago e na diáspora. Porém, o seu palco mais notável ocorre na ilha do Pico onde tem um carácter especial, pois não há freguesia nem lugar que não celebre o Espírito Santo, num dos nove dias que vão do sábado de Pentecostes ou sábado do Espírito Santo (18 de Maio) até ao domingo da Trindade (26 de Maio).
O jornal Ilha Maior que se publica na vila da Madalena destaca na sua última edição os 29 Impérios e mais de 16 mil convidados – mais do que a própria população residente da ilha – salientando que são “5 dias de festa em toda a ilha do Pico”. O jornal publica um roteiro das festividades por toda a ilha, com a indicação dos locais e datas, dos respectivos mordomos e do número de convidados que, por exemplo na comunidade de São Roque, atingem o impressionante número de 1150. É uma semana intensa, sempre igual mas sempre renovada, em que muitos picoenses atravessam o Atlântico e regressam à ilha para participar nas cerimónias, umas de carácter religioso e outras de natureza profana. Toda a população se envolve nos festejos e se veste a rigor. A coroa do Espírito Santo segue para a igreja num desfile com a bandeira do Espírito Santo, seguindo-se a cerimónia da coroação. Depois, os irmãos e os amigos são convidados para as sopas servidas num salão devidamente decorado, sendo tudo preparado numa operação em que participa toda a comunidade, seguindo-se a solidária e tradicional distribuição de rosquilhas e de vésperas.
A música nunca falta, ou não houvesse nos Açores mais de uma centena de bandas filarmónicas, mas por vezes também aparecem os foliões, grupos de três ou quatro homens com vestes próprias e lenços na cabeça, que tocam pandeiros e tambores para animar as festas.
As festas do Espírito Santo não são apenas uma manifestação de fé e um símbolo da cultura popular açoriana, mas também são uma das mais expressivas manifestações da cultura popular portuguesa.

quinta-feira, 18 de abril de 2024

Açoriano Oriental: 189 anos de vida cívica

Completa hoje 189 anos de idade o jornal Açoriano Oriental, um diário que se publica na ilha de São Miguel desde o dia 18 de abril de 1835, sempre com o mesmo nome e de forma contínua e regular. É uma relíquia ou um monumento nacional, pois não só é o mais antigo jornal em circulação em Portugal, como também é um dos dez jornais mais antigos do mundo.
Hoje, o jornal mantém o seu dinamismo editorial e, a provar que está vivo e de boa saúde, assinalou o seu 189º aniversário com uma edição especial dedicada ao debate do tema “Que futuro para os Açores, 50 anos após o 25 de Abril”, na qual diversos especialistas tratam a problemática das ilhas dos Açores em diferentes áreas temáticas, incluindo o desenvolvimento económico, a cultura, a política, os parques tecnológicos, o turismo, a agricultura e as pescas, engtre outros, sempre orientados para o futuro.
A propósito da efeméride que hoje se celebra, também foi organizada uma exposição na cidade de Ponta Delgada em que, através da apresentação de algumas das suas primeiras páginas, é possível apreciar a evolução gráfica do jornal e recordar o relato então feito de alguns momentos históricos da vida açoriana, como a erupção vulcânica dos Capelinhos ou a visita do Papa João Paulo II.
Enquanto leitor do Açoriano Oriental desde há muitos anos, é com muita satisfação que acompanho esta histórica efeméride e aplaudo aqueles que diariamente constroem cada edição do jornal.

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2024

Os Açores votaram na continuidade

Realizaram-se ontem as eleições para a Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores ou, de forma mais simples, as eleições regionais açorianas, que resultaram da não aprovação do Orçamento dos Açores para 2024 e da consequente queda do Governo Regional, presidido por José Manuel Bolieiro.
Estas eleições antecederam em cerca de um mês as eleições para a Assembleia da República, que se realizarão no dia 10 de março, pelo que os politólogos e os comentadores trataram de produzir diktats sobre as sondagens, os resultados e a eventual influência dos resultados regionais no plano nacional.
As eleições decorreram sem quaisquer incidentes, conforme anuncia na sua edição de hoje o Açoriano Oriental, o mais antigo jornal português, pois foi fundado em 1835. Estavam inscritos 229.830 eleitores e votaram 115.662, o que significa que houve uma abstenção de 49,67%, que é menor do que nas eleições de 2020. Os resultados apurados mostram que seis das nove ilhas açorianas trocaram o seu sentido de voto relativamente às anteriores eleições de 2020, pois as ilhas de São Miguel, Terceira, Pico, São Jorge e Graciosa que tinham votado PS votaram agora AD, enquanto a ilha do Corvo que antes tinha votado numa coligação local, votou agora PS.
Os resultados apurados nas 156 freguesias açorianas foram os seguintes: Aliança Democrática (42,08% - 26 deputados), Partido Socialista (35,91% - 23 deputados), Chega (9,19% - 5 deputados), Bloco de Esquerda (2,54% - 1 deputado), Iniciativa Liberal (2,15% - 1 deputado) e PAN (1,65% - 1 deputado).
O novo governo reconduzirá José Manuel Bolieiro como presidente do Governo Regional. Faltando-lhe três deputados para ter a maioria parlamentar de que necessita, parece ir governar sem alianças, o que para uns significa continuidade, para outros estabilidade e para outros, ainda, instabilidade.
Porém, os açorianos escolheram como escolheram e, agora, merecem ser bem servidos.

sexta-feira, 3 de novembro de 2023

As riquezas naturais e culturais dos Açores

O aeroporto da Ilha do Pico e a montanha
Uma visita às ilhas dos Açores, mesmo nesta época do ano em que a meteorologia é mais imprevista, é sempre um acontecimento muito emocionante. As ilhas açorianas, sobretudo no Grupo Central e em especial nas chamadas ilhas de baixo, mostram sempre “a frescura das manhãs em que se chega”, como se lhes referiu Fernando Pessoa. As suas paisagens marítimas animadas pelo voo das gaivotas, dos cagarros e dos garajaus, mais o intenso azul do mar, o verde das pastagens salpicadas por mansas vacas e o casario branco das povoações onde se destacam as torres das igrejas, são um deslumbramento e moldam um quadro de ruralidade e de tranquilidade que contrasta com o quotidiano agitado que se vive nas cidades.
A situação periférica destas ilhas atlânticas foi sempre um handicap que penalizou os açorianos em muitas das suas aspirações, mas que permitiu o desenvolvimento de práticas culturais específicas de grande qualidade estética, profanas e religiosas, observáveis por exemplo nas festividades do Divino Espírito Santo e na arquitectura dos impérios, mas também na música, na literatura e em diversas artes manuais, desde o scrimshaw ao bordado e, ainda, nas artes da construção naval e da baleação.
Depois de revisitar todo este rico panorama natural e cultural, o visitante fica naturalmente mais enriquecido e, certamente, com vontade de conhecer as particularidades culturais de cada ilha e até de cada comunidade dentro da mesma ilha.
A fotografia aqui publicada foi captada ontem em contraluz e mostra o aeroporto da ilha do Pico e, em segundo plano, a montanha mais alta de Portugal com 2.351 metros de altitude.

quinta-feira, 22 de junho de 2023

Angra em festa com as Sanjoaninas 2023!

A cultura popular açoriana é muito diversificada e tem raízes de várias origens geográficas, o que confere a cada uma das nove ilhas do arquipélago uma identidade distinta, com as suas práticas culturais específicas, que são observáveis nas festividades religiosas e em especial no culto do Divino Espírito Santo, na paisagem rural, nas tradições, na música popular, na gastronomia e em muitos outros aspectos do quotidiano. Porém, neste panorama cultural riquíssimo destaca-se a ilha Terceira, onde para além da sua singular carga histórica, existe uma enorme atração pela participação em festas. Há mesmo uma frase irónica que afirma que o arquipélago dos Açores é constituído por oito ilhas e mais um parque de diversões, que é a ilha Terceira.
São da ilha Terceira os bailinhos de Carnaval, as marchas populares, as touradas à corda e inúmeras festas de cariz religioso e profano que se realizam por toda a ilha, com destaque para as famosas Sanjoaninas, a festa maior da cidade de Angra do Heroísmo.
Neste ano de 2023 as Sanjoaninas realizam-se de 22 de Junho a 2 de Julho e, durante os onze dias de festa, há de tudo um pouco, mas destacamos aqui os cinco desfiles de marchas – dos adultos, das crianças, dos grupos etnográficos, das freguesias e das filarmónicas – com a informação de que no desfile das marchas dos adultos, que se realiza no dia 23, tomam parte 35 grupos com muitas centenas de marchantes alegres e divertidos. 
É notável esta enorme participação popular e, por isso, o nosso aplauso às Sanjoaninas 2023 e à bela cidade de Angra do Heroísmo.

segunda-feira, 1 de maio de 2023

O mar dos Açores é um imenso recurso

O jornal Correio dos Açores celebrou hoje o seu 103º aniversário e publicou uma edição especial dedicada ao “mar imenso dos Açores”, porque é o mar que “empresta dimensão a Portugal e à União Europeia”. A edição inclui diversos artigos sobre a problemática do mar e as suas especificidades no arquipélago dos Açores.
O mar é um grande desafio e uma grande oportunidade para Portugal, através dos seus recursos conhecidos e não conhecidos, desde a pesca ao aproveitamento da energia das ondas para a produção de electricidade, mas passando por outras actividades como o transporte marítimo, os portos, a construção e reparação naval, os desportos náuticos ou a observação de espécies, todas elas potenciando a criação de valor para o desenvolvimento económico nacional.
As zonas marítimas sob soberania portuguesa, de acordo com a Convenção das Nações Unidas do Direito de Mar (CNUDM), compreendem as águas interiores marítimas, o mar territorial, a zona económica exclusiva (ZEE) e a plataforma continental, o que torna muito assimétrica e desproporcionada a relação entre os escassos espaços territoriais e os enormes espaços marítimos portugueses. No caso do arquipélago dos Açores, cujas nove ilhas têm cerca de 2.322 km2 de superfície terrestre, a zona económica exclusiva ocupa 930.687 km2, isto é, a área marítima é 400 vezes maior do que a área terrestre.
Nestas circunstâncias, o mar é um grande desafio e uma grande oportunidade para Portugal, sobretudo para a Região Autónoma dos Açores, para onde devem ser canalisados os recursos necessários para criar uma verdadeira economia do mar açoriana.

quinta-feira, 23 de junho de 2022

Sanjoaninas 2022, a grande festa de Angra

Amanhã, dia 24 de Junho, é o Dia de São João e a próxima noite é a Noite de São João.
O nascimento de João Baptista é uma festa cristã que celebra aquele que profetizou o advento ou a chegada do Messias na pessoa de Jesus Cristo, tendo-o baptizado. É uma festa religiosa marcada por grande devoção e por missas e procissões, mas que evoluiu para um festival pagão de características populares, com práticas diferentes em cada comunidade. Alguns desses festivais enraizaram-se no gosto popular e tornaram-se elementos identitários de algumas comunidades, como por exemplo as festas das cidades do Porto, de Braga ou de Angra do Heroísmo.
É muito ingrato escrever sobre estas festas, sobretudo porque têm características muito diferentes, mas atrevo-me a salientar as famosas Sanjoaninas, que se realizam na cidade de Angra do Heroísmo, na ilha Terceira, que envolvem, com grande entusiasmo, uma cidade e uma ilha. Durante alguns dias as Sanjoaninas têm de tudo, incluindo torneios desportivos e mostras de artesanato, concertos e espaços gastronómicos, desfiles de filarmónicas, fogo-de-artifício, bailes populares e muitas outras iniciativas em que participam milhares de pessoas. Porém, são as touradas de praça e à corda e, sobretudo, as marchas de São João, que mais caracterizam as Sanjoaninas de Angra do Heroísmo, a competir em criatividade e entusiasmo popular com as Festas da Senhora da Agonia e com tantas outras festas populares em que Portugal é rico.
O desfile das marchas de São João é realmente uma manifestação de grande animação e criatividade popular e a televisão nunca deixa de as transmitir em directo.

sexta-feira, 13 de agosto de 2021

As neblinas e o Monumento ao Baleeiro

Costuma dizer-se que nas ilhas dos Açores as quatro estações do ano se sucedem em cada dia e nem é preciso invocar as alterações climáticas para verificarmos essa realidade resultante da localização atlântica do arquipélago açoriano. Mesmo neste tempo de Agosto, em que seriam de esperar meteorologias benignas, os dias de sol intercalam-se com alguns períodos de chuva, enquanto algumas ventanias e muitas neblinas se esforçam por demonstrar que a vida meteorológica dos Açores é uma matéria complexa.
Há dias a neblina envolveu São Roque do Pico e o Monumento ao Baleeiro, localizado em frente do Museu da Indústria Baleeira, destacou-se e ofereceu um contraste nada habitual, a proporcionar uma fotografia inédita e interessante de um monumento que tantas vezes fotografei, mas sem que alguma vez tivesse conseguido este resultado.
Após cerca de um mês de deambulações por estas paragens do concelho de São Roque do Pico, esta é a melhor homenagem que posso fazer à terra onde estão sempre presentes as evocações da baleação e dos seus homens.

quarta-feira, 21 de julho de 2021

A publicidade insólita e absurda da SATA

Anúncio da SATA na ilha do Pico 
A Publicidade é uma forma de comunicação que, entre outros objectivos, visa intervir no espaço público para informar consumidores, mas também para chamar a atenção, suscitar o interesse e levar à aquisição do produto ou do serviço anunciado. A Publicidade é também uma técnica de comunicação e uma arte que codifica mensagens através de textos, de imagens e de sons, a fim de as tornar mais apetecíveis e mais compreensíveis pelos públicos a quem se destinam. Na óptica empresarial, a Publicidade é um investimento, pois representa uma aplicação de recursos com vista à obtenção de benefícios no futuro.
Estas considerações sobre a Publicidade vêm a propósito de uma mensagem publicitária insólita e absurda, difundida em algumas ilhas açorianas através de grandes cartazes outdoor pela companhia açoriana de transporte aéreo – a SATA ou Azores airlines. A SATA tem carreiras regulares entre os Açores e a Madeira que, provavelmente não têm rentabilidade comercial, nem constituem obrigação de serviço público, sendo uma opção de gestão cujo fundamento desconheço mas que, provavelmente, apenas visa satisfazer um qualquer ego.
As ligações aéreas entre os Açores e a Madeira não têm viabilidade comercial porque o mercado é limitado. A SATA não conseguirá os passageiros de que precisa. Assim, em vez de recomendar aos açorianos que visitem as várias ilhas do arquipélago, vai por outro caminho e recomenda-lhes a Madeira – um lugar onde tu pertences!, mostrando-lhes uma imagem de miradouros e montanhas, que é coisa que algumas ilhas bem conhecem. Ou será que esta mensagem é para lembrar aos turistas que visitam os Açores, que existe a Madeira que é um destino turístico mais apetecível?

sábado, 15 de maio de 2021

A ilha do Pico a despertar para o turismo

Na sua edição de hoje o jornal Público decidiu homenagear a ilha do Pico e, naturalmente, para quem como nós costuma estar e actualmente está na ilha, esta divulgação feita num órgão de comunicação nacional de referência é mesmo um grande acontecimento. Porém, é preciso muita ponderação para analisar esse acontecimento, porque numa altura em que há importantes ocorrências em Portugal e no mundo, pode questionar-se por que razão terá um tão prestigiado jornal escolhido uma fotografia da ilha do Pico para ilustrar toda a largura da sua primeira página. Essa fotografia, em que os elementos dominantes são o mar e a montanha mais alta de Portugal, aparece apenas como uma chamada de atenção para os textos incluídos no seu suplemento Fugas, o que é jornalisticamente um exagero.
Nesse suplemento encontram-se textos muito bem escritos e bem ilustrados, destacando-se a referência a Paulo Afonso, um grande campeão de caça submarina que o país não conhece. Porém, embora qualquer reportagem jornalística tenha que fazer opções temáticas, verificamos que a generalidade dos temas foram “cirurgicamente” escolhidos, mostrando as facetas turísticas picoenses que a ATA – Associação de Turismo dos Açores escolheu ou sugeriu que fossem tratados.
Portanto, embora me agradasse ter visto a ilha do Pico referida na primeira página de um jornal de referência, o facto é que o suplemento Fugas acolheu uma verdadeira publireportagem, que uma qualquer agência de viagens ou de comunicação poderia fazer para promover um destino turístico. Podia fazê-lo? Sem dúvida. Porém, a fotografia de primeira página de que tanto gostei, é uma enorme gaffe jornalística.
Portanto, o Público errou. 

domingo, 21 de fevereiro de 2021

A população da ilha do Corvo foi vacinada

Num tempo em que, por todo o mundo, o quotidiano está a ser dominado pelo covid-19 e pelas vacinas, sobretudo no que respeita aos atrasos na sua produção e à sua consequente escassez, o jornal Público anuncia hoje que “há uma ilha em Portugal onde todos os habitantes já estão vacinados” e publica uma fotografia da ilha do Corvo. O aparecimento da ilha do Corvo na primeira página de um jornal de referência é, só por si, um acontecimento!
A ilha do Corvo é o território mais ocidental da Europa, tem apenas 17 quilómetros quadrados de superfície e começou a ser habitado em permanência por volta de 1580. No seu historial há incursões de corsários ingleses e de piratas magrebinos, mas também a curiosidade da pequena povoação ter sido elevada à condição de vila e sede de concelho em 1832 por D. Pedro IV, em reconhecimento do seu apoio à causa liberal.
O isolamento da ilha foi sempre muito grande e manteve-se até data bem recente, só começando a ser quebrado pelo estatuto de autonomia açoriana, que foi consagrado constitucionalmente depois de Abril de 1974. Foi a partir de então que começou a ser construída uma nova história desta ilha, que teve total consagração quando no dia 28 de Setembro de 1983 foi inaugurado o aeródromo do Corvo, com uma pista de 800 metros. Hoje a ilha do Corvo tem cerca de 450 habitantes e as suas principais necessidades básicas estão satisfeitas, pois tem um médico residente, cobertura por telefone e internet, agência bancária e multibanco e, segundo informava uma recente reportagem televisiva, tem 22 professores que lecionam os cerca de cinquenta estudantes que frequentam as doze classes do ensino básico e secundário.
Ao falarmos da ilha do Corvo, que várias vezes visitamos nos tempos do isolamento, não podemos deixar de evocar a memória do nosso amigo Óscar José Nunes, um estudioso corvino que bem conhecia a cultura local, que recebia com cordialidade os poucos visitantes que desembarcavam no Portinho da Casa e que, durante 32 anos, representou a autoridade marítima na ilha.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2021

O restauro dos Painéis de São Vicente

A edição de hoje do jornal Público destaca na sua primeira página uma imagem dos Painéis de São Vicente, com a notícia que estão a ser restaurados “para nos devolver o original”. É uma grande notícia a relatar um grande acontecimento, o que aqui se salienta porque, por vezes, acontecem grandes manchetes com relatos ou notícias de não-acontecimentos. 
Portanto, o jornal está de parabéns por dedicar a sua manchete e uma parte do seu espaço ao restauro de uma peça notável do nosso património móvel, o que não é vulgar na imprensa portuguesa
Trata-se de um políptico composto por seis painéis, que se julga ter sido executado circa 1470 por Nuno Gonçalves e que foi casualmente descoberto em 1882 no Paço Patriarcal de São Vicente de Fora, encontrando-se actualmente no Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa. Com mais de quinhentos anos de idade e com evidente necessidade de restauro, tornou-se necessário fazer um diagnóstico correcto e ouvir especialistas nacionais e estrangeiros, para se avaliar o que deve ser feito, isto é, saber até onde devem ir os técnicos de restauro na sua busca da pintura original e na correcção dos eventuais repintes feitos em anteriores intervenções de restauro. Hoje o restauro utiliza conhecimentos científicos e recorre a múltiplas técnicas que asseguram uma superior qualidade do restauro, o que permite esperar que a operação decorra com o desejado sucesso.
O projecto iniciou-se no dia 18 de Maio e prevê-se que tenha uma duração de dois anos, devendo assegurar a preservação de uma das maiores obras da pintura portuguesa e restitui-la ao seu aspecto original. 

segunda-feira, 26 de outubro de 2020

Os Açores e o seu novo quadro político

As eleições regionais açorianas deram a vitória ao Partido Socialista e ao seu líder Vasco Cordeiro, embora sem a maioria absoluta que lhe permitiria governar sustentado num apoio parlamentar estável e coerente, pelo que a partir de agora terá que governar com uma geometria variável de alianças e de apoios que, à semelhança do que se passa no Continente, torna o exercício da governação muito mais complexo. Se agora adicionarmos as novas dificuldades devidas às consequências sociais e económicas da pandemia, o quadro de dificuldade política vai necessariamente aumentar e os açorianos podem vir a passar por um quadro de instabilidade que não conheceram até agora. 
Se analisarmos a evolução da política açoriana num contexto de ciclo de longa duração, verificamos que a alternância democrática - que é uma característica fundamental da Democracia – tem existido nos Açores. Assim, desde que foi consagrada a autonomia dos Açores e que como Região Autónoma passou a ter um Governo Regional, já houve doze governos regionais, sendo seis do PSD e seis do PS. Entre 1976 e 1996 foram vinte anos de governação social-democrata e, entre 1996 e 2000, foram vinte e quatro anos de governos socialistas. Não sei se, para além do estilo, há muita diferença entre uns e outros porque, enquanto zona ultraperiférica, a governação dos Açores depende demasiado de Lisboa e de Bruxelas. Nas eleições ontem realizadas o PS elegeu 25 deputados e o PSD 21, mas a novidade foi que os outros 11 deputados se distribuíram por seis partidos – CDS (3), Chega (2), Bloco de Esquerda (2), PPM (2), PAN (1) e Iniciativa Liberal (1) – enquanto a coligação CDU perdeu o seu deputado. 
São nove ilhas e esta dispersão político-partidária parece reflectir a diversidade cultural do arquipélago, onde só a beleza natural e a qualidade da população são comuns em todas as ilhas.

domingo, 25 de outubro de 2020

Açores votam para a Assembleia Regional

Estão a decorrer hoje as eleições para a Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores e, por via indirecta, para o Governo Regional dos Açores. 
Não são conhecidas sondagens que indiquem como serão repartidos os votos nem qual o partido que vai ganhar, nem se o vencedor terá ou não maioria absoluta e, por isso, até ao encerramento das urnas haverá incerteza. No entanto, se olharmos para o que se passou na campanha eleitoral, facilmente concluímos que se verificou um assinalável respeito mútuo entre as diferentes forças políticas e que os candidatos se apresentaram ao eleitorado com serenidade e com propostas, fazendo uma campanha mínima de cartazes e sem o habitual exagero de distribuição de T-shirts, bonés, esferográficas, isqueiros e outros produtos de merchandising. Este tipo de campanha eleitoral dignifica a democracia e, por isso, independentemente dos resultados, os Açores e os açorianos estão de parabéns e é pena o seu exemplo não seja aqui seguida no rectângulo continental.
Há 227.999 eleitores inscritos que irão escolher 57 deputados regionais, que representarão as nove ilhas açorianas e os seus 19 concelhos.