segunda-feira, 17 de agosto de 2026

A disputa fronteiriça sensata e amigável

Nos confins do mundo e no extremo norte do Atlântico, para além do círculo polar Ártico, encontra-se a Hans island, uma pequena ilha rochosa, sem recursos, desabitada e com cerca de 1,2 quilómetros quadrados de superfície, que está localizada no estreito de Nares, entre o território canadiano de Nanavut e a Gronelância, um território autónomo da Dinamarca. Em 1973 os dois países definiram e acordaram as suas fronteiras marítimas, mas a soberania da ilha Hans ficou sem resolução definitiva.
O estreito de Nares tem cerca de 35 km (19 milhas) de largura mas, segundo a lei marítima internacional, a soberania de um país estende-se até 12 milhas da sua orla costeira. Assim, tanto o Canadá como a Dinamarca passaram a considerar a ilha Hans como fazendo parte dos seus respectivos territórios. Essa indefinição nunca gerou quaisquer problemas, mas quando um ministro dinamarquês visitou a ilha em 1984, tendo hasteado uma bandeira dinamarquesa e deixado uma garrafa de conhaque, a situação alterou-se. Logo que soube deste episódio, o governo canadiano enviou ao local alguns militares que substituíram a bandeira dinamarquesa pela bandeira canadiana e, com humor, deixaram uma garrafa de uísque. Essa ritual de troca de bandeiras e de bebidas continuou por muitos anos, com os dois países a alternarem visitas à ilha para reafirmar simbolicamente as suas reivindicações territoriais e para deixar os seus simbólicos “presentes”.
Finalmente, no dia 11 de junho de 2022, os governos da Dinamarca, Groenlândia, Canadá e Nunavut concordaram em dividir a Ilha Hans ao meio, após 17 anos de negociações. A situação ficou conhecida mundialmente como a “guerra do Uísque”, um nome para classificar este conflito que, provavelmente, foi o mais amigável da história geopolítica recente.
O jornal National Post que se publica em Toronto, dedicou a sua edição de hoje a esta história como uma lição exemplar em que, sem ameaças nem tiros, se resolveu, pacificamente e com bom senso, um problema de soberania, semelhante a outros que, tantas vezes, geram litígios e provocam guerras. Talvez seja uma crítica às ambições de Donald Trump...

Espanha atrai indústria automóvel chinesa

Como os portugueses sabem, sobretudo os mais velhos, desde que em 1999 se concretizou a transferência da administração portuguesa de Macau para a República Popular da China, que muitos dirigentes portugueses visitaram aquele território e trataram de fazer afirmações sobre a “plataforma privilegiada para negócios com a China”, ou para a “entrada de empresas portuguesas na Ásia e em particular na China” ou, ainda, assinalando o papel de Macau como “ponte económica e financeira estratégica entre a China e Portugal”. Alguns até utilizaram a expressão "porta giratória". Para esses dirigentes – e foram muitos – o território de Macau não era um espaço de memória cultural portuguesa mas, sobretudo, era um espaço de oportunidade e de privilégio comercial para a economia portuguesa, mas esses visionários esqueceram que a economia portuguesa não tem dimensão, nem escala, para “entrar na China”. Porém, poderia acontecer que a China utilizasse essa "ponte" ou essa "porta" para potenciar os seus negócios na Europa através de Portugal, mas não temos sido diligentes nem competentes e, assim, isso não tem acontecido.
A notícia que o jornal Negócios hoje divulga é demolidora, ao anunciar que “gigantes chineses avançam em força para fábricas de carros em Espanha”. De facto, a Espanha já conta com cinco fábricas chinesas de produção automóvel, em operação ou em projecto, localizadas ou a localizar, no Ferrol, Barcelona, Valência, Saragoça e Linares (Jaén). A economia espanhola agradece.
Qual será a razão por que os nossos “amigos” chineses escolhem a Espanha e ignoram Portugal? Há que concluir que o sacrifício de Tomé Pires, o boticário que em 1516 chefiou a primeira embaixada portuguesa ao imperador da China, de pouco valeu. Contudo, ainda há alguns construtores automóveis chineses em vias de decidir aumentar o seu investimento na Europa, designadamente a BYD que já produz os seus apreciados veículos eléctricos na Hungria e na Turquia...
Como nota final e segundo anuncia o jornal Negócios, actualmente a produção automóvel espanhola é de 2,3 milhões de unidades anuais, enquanto Portugal fabrica cerca de 300.000 automóveis por ano.