quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Marrocos e a cobiça sobre Ceuta e Melilla

Nos dias 30 e 31 de julho de 2026, cerca de 80.000 migrantes entraram em Ceuta a partir de Marrocos, a nado ou contornando as barreiras fronteiriças. Este número é equivalente à totalidade da população desta cidade autónoma espanhola, tendo o seu presidente Juan Jesús Vivas definido esta violação da fronteira como uma “invasão” e exigido o regresso imediato dos migrantes que eram, sobretudo, jovens marroquinos. O acontecimento tem contornos muito complexos, mas serviu para alimentar o discurso da oposição espanhola, o debate europeu sobre o combate ao tráfico de pessoas, a discussão sobre a proteção das fronteiras e, também, para algumas precipitadas críticas de alguns países europeus que não foram solidários com a Espanha nesta delicada questão.
Hoje o jornal El Pueblo de Ceuta traduz o sentimento da população da cidade ao destacar a frase “Ceuta dice hasta aquí”, que significa “Ceuta diz já chega”. No conjunto de imagens que ilustram a capa da edição pode observar-se um cartaz que diz "no quiero invasores, quiero mi libertad”, a mostrar que a "invasão" perturbou o quotidiano dos ceutences ou, como eles dizem, dos ceuties.
Na altura da referida “invasão” escrevemos que a ocorrência “não tem ar de ser espontânea e terá sido ‘organizada’ pelo governo marroquino”, mas alguns factos mais recentes evidenciam o inequívoco envolvimento do governo de Marrocos.
Há dois dias, o ministro dos Assuntos Islâmicos de Marrocos reivindicou a soberania marroquina sobre Ceuta e Melilla durante uma cerimónia religiosa realizada no Palácio Real de Rabat, perante o rei Mohamed VI e o príncipe herdeiro, tendo utilizado expressões como “territórios ocupados” e “libertação da ocupação ibérica”. Não foi a primeira vez, nem foi o único dignitário marroquino a fazer este tipo de declarações, a mostrar que Marrocos sobe de tom nas suas reivindicações sobre Ceuta e Melilla.
Afinal, mais do que um problema humanitário e de direitos humanos, a questão de Ceuta é um problema político.