Nos dias 30 e 31
de julho de 2026, cerca de 80.000 migrantes entraram em Ceuta a partir de
Marrocos, a nado ou contornando as barreiras fronteiriças. Este número é equivalente à totalidade da população desta
cidade autónoma espanhola, tendo o seu presidente Juan Jesús Vivas definido esta violação da fronteira como uma
“invasão” e exigido o regresso imediato dos migrantes que eram, sobretudo,
jovens marroquinos. O acontecimento tem contornos muito complexos, mas serviu
para alimentar o discurso da oposição espanhola, o debate europeu sobre o
combate ao tráfico de pessoas, a discussão sobre a proteção das fronteiras e,
também, para algumas precipitadas críticas de alguns países europeus que não
foram solidários com a Espanha nesta delicada questão.
Hoje o jornal El Pueblo de Ceuta traduz o sentimento da população da
cidade ao destacar a frase “Ceuta dice hasta aquí”, que significa “Ceuta diz já
chega”. No conjunto de imagens que ilustram a capa da edição pode observar-se
um cartaz que diz "no quiero invasores, quiero mi libertad”, a mostrar que a "invasão" perturbou o quotidiano dos ceutences ou, como eles dizem, dos ceuties.
Na altura da
referida “invasão” escrevemos que a ocorrência “não tem ar de ser espontânea e
terá sido ‘organizada’ pelo governo marroquino”, mas alguns factos mais
recentes evidenciam o inequívoco envolvimento do governo de Marrocos.
Há dois dias, o
ministro dos Assuntos Islâmicos de Marrocos reivindicou a soberania marroquina
sobre Ceuta e Melilla durante uma cerimónia religiosa realizada no Palácio Real
de Rabat, perante o rei Mohamed VI e o príncipe herdeiro, tendo utilizado expressões
como “territórios ocupados” e “libertação da ocupação ibérica”. Não foi a
primeira vez, nem foi o único dignitário marroquino a fazer este tipo de
declarações, a mostrar que Marrocos sobe de tom nas suas reivindicações sobre
Ceuta e Melilla.
Afinal, mais do
que um problema humanitário e de direitos humanos, a questão de Ceuta é um
problema político.
