domingo, 19 de julho de 2020

Hagia Sophia como nova bandeira de quê?


No passado dia 10 de Junho, com base numa recomendação do Conselho de Estado da Turquia, o presidente Recep Tayvip Erdoğan assinou um decreto que determina a reclassificação da Basílica de Santa Sofia, também conhecida como Hagia Sophia, que em 1934 tinha sido convertida em museu e se tinha tornado um símbolo do secularismo e da moderna Turquia sob a direcção de Mustafa Ataturk. O majestoso edifício que é famoso pela sua enorme cúpula que é um exemplo único da excelência da arquitectura bizantina, foi inicialmente construído no século VI para servir de catedral de Constantinopla, mas em 1453 com a queda do Império Romano do Oriente a cidade foi renomeada como Istambul e a catedral foi transformada em mesquita, até que em 1934 foi adaptada como museu. Com a decisão agora tomada por Erdoğan, a Hagia Sophia vai voltar a ser uma mesquita, o que mostra a complexidade de quinze séculos de História das relações europeias e turcas ou das tradições cristãs e islâmicas.
A decisão turca gerou críticas internas e interessou a opinião pública europeia pois a reconversão da Hagia Sophia vem sendo interpretada como uma jogada nacionalista ditada pelas ambições políticas internas de Erdoğan, mas também pelos desejos turcos de verem o seu país tornar-se uma potência regional e de, eventualmente, se poderem entusiasmar num afrontamento político e religioso à Europa que não deseja ter  um polo de instabilidade na sua fronteira oriental. O jornal Público diz que Erdoğan está a enterrar de vez a Turquia laica e, de facto, assim parece.
Paradoxalmente, a Turquia continua a pertencer à NATO, enquanto faz negócios com a Rússia e apazigua as suas tensões com o Irão. É mesmo complexa aquela região do mundo.