quinta-feira, 1 de setembro de 2016

A enorme incerteza da política brasileira

Depois de cerca de nove meses durante os quais a presidente brasileira Dilma Roussef teve o seu mandato suspenso, o Senado votou ontem a favor da sua destituição com 61 votos a favor e 20 votos contrários. Dilma Roussef foi condenada e perdeu o seu mandato porque assinou três decretos de créditos suplementares sem autorização do Congresso e utilizou dinheiros da banca pública para financiar programas do governo. Tratou-se de manobras contabilísticas que nas democracias ocidentais ocorrem com frequência e que, embora estejam nas margens da ilegalidade, ninguém considera de índole criminosa.
Seguiu-se uma segunda votação destinada a decidir se Dilma Roussef perderia os seus direitos políticos e ficaria impedida de exercer cargos públicos, mas esta votação foi-lhe favorável. Houve 42 votos favoráveis à cassação desses direitos mas Dilma teve 36 votos a sua favor, tendo havido 3 abstenções.
Poucas horas depois, nos termos constitucionais, foi empossado Michel Temer, antigo vice-presidente de Dilma Roussef, apesar de estar impedido de ser eleito para cargos públicos durante oito anos por ter violado as leis eleitorais brasileiras e ter o seu nome envolvido em graves processos judiciais. Provavelmente, o mundo tremeu de espanto com a destituição da presidente eleita pelo voto popular, até porque entre os senadores que ontem empossaram Michel Temer em Brasília, há uma imensa maioria que enfrenta processos judiciais, sobretudo por corrupção, incluindo o próprio Temer que está envolvido no caso Lava Jato e no escândalo da Petrobras, assim como Eduardo Cunha que era o presidente da Câmara dos Deputados e que é considerado o mentor da destituição ou impeachment de Dilma Roussef que, curiosamente, é uma das poucas figuras políticas eleitas no Brasil sem ligações a qualquer caso de corrupção. Hoje o Correio Braziliense pergunta, acertadamente, o que virá após o impeachment. Depois do enorme sucesso dos Jogos Olímpicos, os senadores brasileiros deram um valente tiro no pé e puseram a incerteza na política brasileira e o nome do país nas páginas humorísticas da imprensa mundial. É pena, é mesmo muito triste ver o Brasil assim.