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segunda-feira, 31 de agosto de 2026

R.I.P. Narana Coissoró

No passado sábado, faleceu com 94 anos de idade o cidadão Narana Sinai Coissoró, que foi advogado e professor universitário, mas que teve uma actividade política relevante como deputado na Assembleia da República em oito legislaturas, tendo sido seu vice-presidente durante seis anos e líder parlamentar do seu partido durante treze anos.
Era natural de Goa, mas com 18 anos de idade veio estudar para a Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, onde se licenciou, tendo mais tarde valorizado a sua carreira académica ao doutorar-se em Ciência Política na Universidade de Londres.
Em junho de 1976 foi eleito, pela primeira vez, deputado à Assembleia da República pelo Centro Democrático Social (CDS), quando esse partido existia e era representado por deputados democratas cristãos, antes da recente deriva intelectual e ética daqueles que usam o nome do partido, mas que vivem pendurados no PSD.
Narana Coissoró era um democrata cristão muito respeitado por todos os partidos parlamentares, coerente, inteligente e de bom humor e, seguramente, não apoiaria aqueles que hoje dirigem o seu antigo partido, “um incapaz de pensar e outro capaz de pensar o pior”, como alguém escreveu nas redes sociais.
Originário de uma família brâmane hindu de Goa, o professor Narana Coissoró visitava regularmente o território onde nascera e foi aí que, depois de ter sido meu professor no ISCSP, tive a oportunidade de o conhecer mais de perto e beneficiar da cordialidade com que ele me distinguia, apesar de saber que eu navegava em águas políticas diferentes das suas. Depois, enquanto presidente da Casa de Goa, a que presidiu e de que sou um interessado membro, nunca deixou de me distinguir com a sua atenção e a sua amizade. 
Aqui lhe presto a minha homenagem com gratidão e afirmo que homens como Narana Coissoró fazem muita falta à nossa democracia!

quinta-feira, 28 de maio de 2026

R.I.P. Jorge Barros

O Jorge Barros deixou-nos ontem aos 81 anos de idade, depois de uma longa e corajosa luta contra o infortúnio. Conterrâneo e colega de escola e de turma, mantive com o António Jorge Pinto da Costa Barros – tínhamos o hábito de muitas vezes nos tratarmos pelos nossos extensos nomes – uma amizade que perdurou durante mais de setenta anos e, entre outras causas comuns como a ligação à terra alcobacense e o culto pela liberdade e pela justiça social, tinhamos a atracção pelos Açores, pela sua paisagem natural e pela sua riqueza cultural. 
Às ilhas dos Açores dedicou boa parte da sua obra, percorrendo as ilhas demoradamente e muitas vezes, observando a beleza natural, conversando com as pessoas, fotografando festas e fajãs, picos e enseadas, faróis e embarcações, baleeiros, romeiros e espantalhos. Nada escapou à sua atenta objectiva.
O jornal Público chamou-lhe “o fotógrafo de Portugal e do Atlântico”, porque durante muitos anos fotografou tudo com atenção e talento – as nossas raízes e as nossas gentes, as nossas paisagens e os nossos monumentos, além das mais peculiares práticas culturais e religiosas do nosso Portugal – com arte, com sensibilidade e com inteligência, como mostram as três dezenas de livros que publicou e a sua participação em mais de três centenas de exposições. Muitas das suas obras estão associadas a autores como Orlando Ribeiro, Fernando Pessoa e Raul Brandão, mas também a outros nomes consagrados da escrita, como Eugénio de Andrade, Fernando Assis Pacheco, João de Melo, José Cardoso Pires, Lídia Jorge, Manuel Alegre, Mário Cláudio e Sofia de Melo Breyner.
Homem discreto, quase a roçar a humildade, escondia uma enorme sabedoria que resultava de muita leitura e de muita observação, mas era também um conversador inteligente, um contador de estórias, um inspirado poeta e um amigo atento.
Caro Jorge: não nos voltaremos a encontrar nem por aqui, nem nas Lajes do Pico de que tanto gostavas. 
R. I. P.

domingo, 17 de maio de 2026

R.I.P. João Abel Manta

Com 98 anos de idade faleceu João Abel Manta, um nome maior do panorama cultural português, com atividades artísticas tão diversificadas como a arquitetura e a pintura, o desenho e a cerâmica, a ilustração e o azulejo, além do cartoon, que foi a área que o tornou mais conhecido do público.
Ao longo da sua vida foi um cidadão que lutou pela Liberdade e pela Democracia, antes e depois do 25 de Abril de 1974, tendo participado no MUD Juvenil e sido preso pela PIDE em 1948, mas também nas campanhas contra a Ditadura do Estado Novo.
Começou a sua atividade profissional na arquitetura, mas depressa passou para as artes plásticas, em que entre outros trabalhos se destacou o seu painel de azulejos da Avenida Calouste Gulbenkian, em Lisboa, concebido em 1970 e aplicado em 1982. Depois, ainda antes e depois do 25 de Abril, publicou regularmente durante alguns anos os seus cartoons em jornais de grande tiragem como o Diário de Lisboa, o Diário de Notícias, O Jornal e o Jornal de Letras, sempre com uma abordagem crítica, inteligente e irónica sobre a situação política e social portuguesa e sobre o regime de Salazar. Do cartoon passou para a pintura onde também realizou uma obra notável, vindo a receber diversos prémios nacionais e internacionais de reconhecimento pela sua obra. 
Foi, inquestionavelmente, um homem do 25 de Abril, o “ilustrador da liberdade” ou o “artista da revolução”, com uma importância simbólica nas Artes Plásticas semelhante à que tiveram Zeca Afonso na Música, Manuel Alegre na Poesia, ou Salgueiro Maia na coragem com que ocupou o Largo do Carmo.
Aqui lhe prestamos a nossa homenagem, com a reprodução de Um problema difícil, o cartoon em que retratou a admiração do mundo sobre o que se passava em Portugal em 1975.

Um problema difícil

sexta-feira, 6 de março de 2026

R.I.P. António Lobo Antunes

António Lobo Antunes morreu ontem em Lisboa com 83 anos de idade e de imediato surgiu um coro de elogios à sua obra literária, que um crítico sintetizou numa simples frase: “O Nobel perdeu Lobo Antunes, não foi ele quem perdeu o Nobel”.
Nascido em Lisboa e licenciado em Medicina, foi mobilizado como médico militar para a guerra colonial no Leste de Angola e, no regresso, especializou-se em Psiquiatria. Porém, depressa  o gosto pela Medicina cedeu à sua paixão pela Literatura e aos 37 anos de idade publicou Memória de Elefante, o seu primeiro romance. Depois sucederam-se cerca de três dezenas de romances que levaram a crítica a considerá-lo um revolucionário da literatura portuguesa, sendo também considerado um dos grandes nomes da literatura mundial e sendo traduzido em mais de trinta línguas. O reconhecimento interno e internacional da sua obra levou a que em 2007 fosse distinguido com o Prémio Camões, o mais importante prémio da literatura em língua portuguesa, bem como com mais de uma dezena de prémios literários de grande prestígio em diversos países.
A notoriedade de António Lobo Antunes como escritor era grande até no estrangeiro e um dia, nos anos 1990 em Paris, um amigo francês que estava a ler António Lobo Antunes estranhou que eu nunca o tivesse lido. Fui a correr comprar Os Cus de Judas para não voltar a ser humilhado pela minha ignorância literária. 
António Lobo Antunes foi uma das mais importantes figuras da cultura portuguesa contemporânea e na sua obra, entre outras temáticas, retrata uma geração que viveu a experiência da guerra colonial e do fim do império, sempre com um olhar de grande sensibilidade e humanidade.
Na sua edição de hoje o jornal Público presta-lhe uma justa homenagem.
A cultura portuguesa está de luto.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

R.I.P. Brigitte Bardot

Brigitte Bardot morreu ontem em Paris com 91 anos de idade e muitas dezenas de títulos da imprensa francesa e mundial escolheram a sua fotografia e frases de homenagem à famosa actriz francesa para manchete das suas edições de hoje. O jornal Le Parisien é apenas um desses jornais e classifica a actriz como a “éternelle BB”, mas as frases com que é homenageada pelos seus compatriotas são, por exemplo, “ícone rebelde”, “imortal”, “ícone do cinema”, “um mito para a eternidade”, “a musa do cinema francês” ou “a exportação mais sedutora da França”, mostrando o enorme apreço que os franceses tinham pela artista que foi um sex symbol dos anos 1960 e que quebrou convenções sociais, mas que também foi uma das marcas da luta pela emancipação da mulher e que, através do cinema, também muito contribuiu para a projecção da imagem da França no mundo. A morte de Brigitte Bardot também teve ampla repercussão na imprensa mundial, porque era um símbolo de uma época e de um país, tendo o jornal The Washington Times, que também noticiou a sua morte em primeira página, feito referência à “French femme fatale” que, como acertadamente salienta, foi um “fenómeno cultural”.
Em Março de 1960 a artista visitou Lisboa e eu recordo como muitas dezenas de alunos do meu liceu faltaram às aulas e foram ao aeroporto para ver ao vivo esse ícone da beleza e da juventude. Não se falava noutra coisa e vivia-se uma verdadeira BB-mania.
O último filme de Brigitte Bardot foi apresentado em 1973, quando tinha 39 anos de idade, tendo a partir de então passado a dedicar-se integralmente à defesa dos direitos dos animais.

sexta-feira, 24 de outubro de 2025

R.I.P. Francisco Pinto Balsemão

Com 88 anos de idade faleceu Francisco Pinto Balsemão, uma das mais importantes figuras da democracia portuguesa, pois foi um dos fundadores do PPD/PSD e exerceu as funções de primeiro-ministro de Portugal entre Janeiro de 1981 e Junho de 1983, quando sucedeu a Sá Carneiro após o desastre de Camarate. Porém, para além de ter sido um político de grande destaque, Francisco Pinto Balsemão também foi jornalista e empresário da comunicação social. Começou por trabalhar no Diário Popular e, em 1973, foi o criador do semanário Expresso, que desde logo se afirmou como uma referência na imprensa portuguesa e um inspirador de uma nova sociedade que se vinha desenhando desde as eleições legislativas de 1969.
Nessas eleições, acontecidas já nos últimos anos do Estado Novo, o marcelismo tinha mostrado alguma abertura ao rígido e monolítico regime herdado de Salazar e aceitara a constituição de uma Ala Liberal na Assembleia Nacional, de que fizeram parte como deputados os jovens Pinto Balsemão, Sá Carneiro, Miller Guerra, Pinto Leite, Magalhães Mota e Mota Amaral, entre outros, que se afirmaram numa linha política que já reclamava a democracia. Por isso, o dia 25 de Abril de 1974 foi vivamente saudado pelos homens da Ala Liberal, num tempo em que as outras referências da democracia portuguesa ainda estavam ausentes do país, pelo que uma das suas primeiras iniciativas foi exactamente a criação do PPD/PSD.
Em 1987, já afastado da política activa apesar de continuar a ser uma referência do seu partido, Francisco Pinto Balsemão criou a SIC, um projecto televisivo de grande sucesso e, nesse mesmo ano, teve a iniciativa da criação do Prémio Pessoa, um prémio atribuído anualmente a pessoas de nacionalidade portuguesa que durante esse período, e na sequência de atividade anterior, se tenham distinguido como protagonistas na vida científica, artística ou literária.
Eu nunca conheci Francisco Pinto Balsemão, mas é unânime o elogio à sua personalidade, aos seus ideais democráticos e à sua obra inovadora.
Em 2011 foi condecorado com a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade.

segunda-feira, 7 de julho de 2025

R.I.P. Amadeu Garcia dos Santos

Na passada sexta-feira faleceu na sua casa em Lisboa, com 89 anos de idade, o General Amadeu Garcia dos Santos, um homem com fortes ligações ao movimento militar do 25 de Abril de 1974, a cujos ideais se manteve sempre ligado com absoluta coerência. 
Na operação libertadora que devolveu aos portugueses a Liberdade, a Democracia e a Paz, o então tenente-coronel do Exército Português tinha 38 anos de idade e era um dos mais graduados militares que, com grande coragem e patriotismo, estiveram no Posto de Comando do Movimento das Forças Armadas, instalado num pavilhão do Regimento de Engenharia Nº 1, na Pontinha. Nessa medida, foi um dos mais determinantes militares que participaram na Operação Viragem Histórica, como responsável pela concepção e montagem das transmissões, uma área em que era perito por ser engenheiro, as quais asseguraram o sucesso das acções militares.
Após ter cumprido essa importante missão “regressou a casa”, mas as suas qualidades de inteligência e de competência “obrigaram-no” a aceitar os cargos de Chefe da Casa Militar do Presidente Eanes, de chefe do Estado-Maior do Exército e de presidente da Junta Autónoma de Estradas, onde o seu desempenho foi muito elogiado pela sua competência, coerência e frontalidade.
O general Garcia dos Santos foi um dedicado servidor da Democracia e dos ideais do 25 de Abril, que sempre defendeu com firmeza, designadamente como presidente da Assembleia Geral da Associação 25 de Abril, de que era sócio fundador, pelo que o seu nome figura, com toda a justiça, na galeria dos militares que mais se destacaram na preparação e na execução das operações do “dia inicial, inteiro e limpo”, como Sophia de Melo Breyner se referiu ao dia 25 de Abril de 1974.
Com o seu exemplo de coragem, de discrição e de inteligência, ele foi um dos grandes portugueses da sua geração e um dos símbolos maiores do 25 de Abril.

sexta-feira, 4 de julho de 2025

R.I.P. Diogo Jota

Num terrível acidente de viação ocorrido ontem nas proximidades da cidade espanhola de Zamora, perdeu a vida o futebolista Diogo José Teixeira da Silva, conhecido no mundo do futebol como Diogo Jota e que era um talentoso futebolista português com sucesso internacional. No mesmo acidente também morreu o seu irmão André Silva de 25 anos de idade, que era futebolista do Penafiel.
Diogo Jota tinha 28 anos de idade e na sua carreira passara pelas equipas do Gondomar, Paços de Ferreira, Atlético de Madrid, F.C. Porto, Wolverhampton e, desde 2020, alinhava na equipa do Liverpool F.C., onde venceu uma Taça da Inglaterra, duas Taças da Liga Inglesa e a Premier League 2024-25. Fez parte das selecções nacionais de Sub-17, Sub-21, Sub-23 e, a partir de 2019, foi chamado à selecção nacional, ao serviço da qual fez 49 jogos, marcou 14 golos e ganhou duas Ligas das Nações de UEFA.
Num tempo em que a notoriedade mundial de Cristiano Ronaldo deixou na sombra muitos dos futebolistas portugueses de qualidade internacional, o talento de Diogo Jota foi reconhecido pelos adeptos do Liverpool que, na lógica específica do mundo do futebol, o veneravam.
A sua morte foi notícia destacada na imprensa portuguesa e na imprensa europeia, incluindo The Times, The Guardian, L´Equipe, La gazzeta dello Sport e outros periódicos, não só pelas suas qualidades humanas e futebolísticas, mas também pelo dramatismo do acidente que lhe roubou a vida e que é uma impressionante tragédia familiar. As imagens televisivas das homenagens que foram feitas a Diogo Jota e ao irmão, tanto em Portugal como na Inglaterra, demonstram o apreço com que todos o distinguiam. 
O futebol português ficou mesmo de luto.

terça-feira, 22 de abril de 2025

R. I. P. Papa Francisco

Poucas horas depois de, no Domingo de Páscoa, ter aparecido na varanda da Basílica de São Pedro, no Vaticano, para dar a tradicional benção Urbi et Orbi, o Papa Francisco não resistiu a um AVC e entrou em coma, a que se seguiu um quadro irreversível de insuficiência cardíaca.
O Papa Francisco, nascido em Buenos Aires como Jorge Mario Bergoglio, tinha 88 anos de idade e foi o 266º Papa da Igreja Católica e o primeiro pontífice não europeu em mais de mil anos. Foi eleito Papa no dia 13 de Março de 2013 e escolheu o nome de Francisco, em referência a São Francisco de Assis e à sua “simplicidade e dedicação aos pobres”, tendo sido o primeiro membro da Companhia de Jesus que foi escolhido para dirigir a Igreja Católica e para ser Bispo de Roma.
A morte do Papa Francisco ocupa a primeira página dos jornais internacionais, o que mostra o reconhecimento do mundo pela sua figura e a sua obra, definindo-o como “o Papa de todos”, “o Papa dos pobres”, “o Papa do povo” ou “o Papa da coragem”. 
Durante o seu pontificado (2013-2025) o Papa Francisco realizou 48 viagens apostólicas em todos os continentes, incluindo duas viagens a Portugal em 2017 e 2023, escreveu algumas exortações apostólicas ou encíclicas papais e cartas apostólicas, estabeleceu diálogos intensos com a juventude e com o Islão, tomou posição sobre as problemáticas bioéticas e ambientais, a justiça social, os abusos sexuais na Igreja, a participação das mulheres na Igreja e condenou os excessos do capitalismo – esta economia mata ou o dinheiro deve servir e não governar.
O Papa Francisco foi uma das poucas vozes mundiais que defendeu negociações e lutou pela paz, tanto na Ucrânia como no Médio Oriente, não cedendo à narrativa dominante dos que estimulam a guerra.
Os 1400 milhões de católicos estão de luto, mas todo o mundo reconhece a grandeza e o exemplo do Papa Francisco.

segunda-feira, 14 de abril de 2025

R.I.P. Carlos de Matos Gomes

Carlos Manuel Serpa de Matos Gomes, Coronel de Cavalaria e Capitão de Abril, deixou-nos ontem aos 78 anos de idade e, segundo foi comunicado pela família, “partiu sereno e com as músicas de Abril”.
Aquela triste notícia foi um choque para os seus amigos e enlutou todos os que com ele combateram na Guiné e lhe conheciam a coragem física, a lucidez da inteligência e os ideais democráticos, mas também a sua vasta cultura, a excelência da sua obra literária e os seus conhecimentos sobre a nossa história contemporânea.
Carlos de Matos Gomes foi um militar brilhante e um combatente de eleição que serviu nos Comandos, tendo participado em muitas operações militares, de que se destaca a Operação Ametista Real, uma das mais ousadas que se realizaram na Guiné, quando o PAIGC e os seus aliados cubanos já dominavam boa parte do território. A violência da guerra foi a sua inspiração para sonhar com a Paz e para lutar pela Democracia, sendo um dos primeiros capitães a conspirar activamente em torno do ideal que levaria ao 25 de Abril de 1974.
Com o pseudónimo de Carlos Vale Ferraz publicou várias obras literárias sobre o tema da guerra colonial, em que se destaca o romance “Nó Cego” e, como investigador, publicou várias obras de natureza histórica em parceria com o Coronel Aniceto Afonso, de que sobressai “Guerra Colonial”. No ano passado, usando o seu próprio nome, publicou “Geração D” que é uma homenagem e uma biografia da geração que conheceu a ditadura, a repressão, a guerra colonial e fez o 25 de Abril de 1974.
O desaparecimento físico de Carlos de Matos Gomes, de que eu era amigo há mais de 50 anos, é uma perda irreparável para toda a geração que sonhou com um país livre, democrático, pacífico e socialmente justo.

domingo, 16 de fevereiro de 2025

R.I.P. Jorge Nuno Pinto da Costa

Faleceu ontem, com 87 anos de idade, o homem que durante mais de 42 anos dirigiu o Futebol Clube do Porto (FCP) e, por isso, o clube e a cidade do Porto estão de luto. Chamava-se Jorge Nuno de Lima Pinto da Costa.
Eleito pela primeira vez em 1982, soube imprimir uma dinâmica à gestão do seu clube e à prática competitiva das suas equipas das diversas modalidades desportivas, conseguindo muitos êxitos que colocaram o FCP no topo dos grandes clubes portugueses e mundiais. Dizem as notícias publicadas que os portistas festejaram 2.591 conquistas desportivas durante a presidência de Pinto da Costa, levando o FCP a sagrar-se Campeão da Europa e do Mundo em várias modalidades e escalões.
A presidência de Pinto da Costa fez do FCP o clube português com mais títulos oficiais no futebol, ao vencer 23 Campeonatos Nacionais, 22 Supertaças, 15 Taças de Portugal, duas Taças Intercontinentais, uma Taça dos Clubes Campeões Europeus e outra Liga dos Campeões, uma Taça UEFA e uma Liga Europa, uma Supertaça Europeia e uma Taça da Liga. A notoriedade da cidade do Porto cresceu em ligação com a notoriedade do FCP e da gestão desportiva de Pinto da Costa, que se tornou uma figura representativa da cidade do Porto e da região norte do país. 
A notícia da morte do antigo presidente do FCP encheu as páginas dos jornais, tanto desportivos como generalistas, mas também ocupou largas horas da programação de todos os canais televisivos, em que foram destacadas as suas qualidades de líder carismático e gestor desportivo, mas também a sua inteligência e o seu elevado estatuto cultural. Como sempre acontece com os grandes homens, a sua vida suscita aplauso e reconhecimento, mas também crítica e controvérsia.
Como hoje alguém escreveu, na história do FCP há um antes e um depois de Jorge Nuno Pinto da Costa.

domingo, 22 de dezembro de 2024

R.I.P. Carlos de Almada Contreiras

Vitimado por doença súbita faleceu na passada 4ª feira o Comandante Carlos de Almada Contreiras, uma das figuras mais importantes do Movimento das Forças Armadas (MFA), tendo sido um dos principais elementos que levou à participação da Marinha nas operações da queda do regime que visaram restaurar a Liberdade e a Democracia em Portugal. Tanto no período da conspiração e da redacção do Programa do MFA, como também na preparação da acção militar de 25 de Abril de 1974, o Comandante Contreiras mostrou grande coragem, muita determinação e capacidade de liderança. Foi ele que, em circunstâncias decisivas, escolheu a canção “Grandôla Vila Morena” para ser transmitida no “Programa Limite” da Radio Renascença para servir de senha para o início das operações militares do "dia inicial, inteiro e limpo".
O Comandante Carlos Contreiras tinha 83 anos de idade e integrou a primeira Comissão Coordenadora do Programa do MFA, foi Conselheiro de Estado, Conselheiro da Revolução e, em 1986, foi condecorado com a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade. Era um dos símbolos do 25 de Abril e destacava-se pela sua sobriedade, dinamismo e inteligência.
Ontem, o cortejo fúnebre que saíu de Beja para Lisboa, fez uma pausa em Grândola, onde a Câmara Municipal lhe promoveu uma homenagem, após a qual seguiu em direcção a Lisboa para a Capela de São Roque, nas instalações da Marinha. 
Hoje, o Comandante Contreiras voltou a ser homenageado na Capela de São Roque com a participação da Associação 25 de Abril e, depois, na Praça do Município com a participação da Sociedade Musical Fraternidade Operária Grandolense. Presentes também  muitos amigos, que não esqueceram o Homem nem o seu importante contributo para o movimento do 25 de Abril, para o prestígio das Forças Armadas e para a democratização do país. Todos perdemos um grande Homem!

terça-feira, 2 de julho de 2024

R.I.P. Fausto Bordalo Dias

Deixou-nos aos 75 anos de idade o homem que foi considerado “um monumental criador de canções” e cuja obra maior foi o Por Este Rio Acima, provavelmente o mais importante disco da música portuguesa. Num tempo de grande criatividade musical em que se destacaram criadores famosos como José Afonso, Sérgio Godinho e José Mário Branco, aquele notável disco de Fausto como criador e cantautor, parece ultrapassá-lo a si próprio, pois permanece vivo desde 1982. 
Essa sua obra de referência explora o tema dos descobrimentos marítimos portugueses, um tema simultaneamente grandioso e polémico, tendo procurado inspiração na Peregrinação de Fernão Mendes Pinto e nos seus enredos, como por exemplo o medo, o horror, a escravidão, o sonho e a saudade, que exprime em canções como “O barco vai de saída”, “Navegar, navegar” ou “A guerra é a guerra”, em que se serviu de uma diversidade musical e instrumental invulgares, cujas raízes se encontram no folclore português e na música africana.
Fausto nascera em 1948 a bordo do paquete Pátria em pleno oceano Atlântico, quando o navio navegava de Lisboa para Luanda, tendo vivido em Angola até 1968, ano em que rumou a Lisboa para iniciar os seus estudos universitários. Consigo, trouxe o ritmo musical africano que passou a conjugar com a tradição da música popular portuguesa, que se tornaram marcas distintivas da sua obra.
Fausto Bordalo Dias partiu, mas deixou-nos o Por Este Rio Acima, para ouvirmos muitas mais vezes. Apesar de outros grandes destaques do dia, a morte de Fausto foi noticiada em primeira página pela imprensa portuguesa, designadamente pelo jornal Público, que dedicou três páginas ao "genial alquimista da música portuguesa".

segunda-feira, 1 de julho de 2024

R.I.P. Manuel Cargaleiro

Com 97 anos de idade faleceu ontem o pintor e ceramista Manuel Cargaleiro, um dos mais importantes artistas plásticos do nosso tempo, a quem se atribui o mérito de ter renovado a azulejaria portuguesa.
O Diário de Notícias prestou-lhe uma justificada homenagem, ao noticiar o seu falecimento na primeira página da sua edição ce hoje. A sua obra teve sempre o reconhecimento da crítica e dispersa-se pela cerâmica, pintura, gravura, tapeçaria e desenho, embora o seu talento artístico se tivesse distinguido sobretudo na cerâmica, talvez a sua arte favorita, pois executou diversos painéis cerâmicos em edifícios, igrejas, jardins e escolas, com destaque para a estação de Champs Elysées-Clémenceau do Metropolitano de Paris (1995) e para a estação do Colégio Militar/Luz do Metropolitano de Lisboa (1988), embora as estações do Rato e da Cidade Universitária, em Lisboa, também tenham beneficiado das suas intervenções, ao transpor para painéis cerâmicos algumas obras relevantes da pintura de Arpad Szènes e de Maria Helena Vieira da Silva.
Desde 1957 que Manuel Cargaleiro vivia em Paris mas nunca esqueceu as suas raízes lusitanas que lhe serviam de inspiração, sobretudo na procura da harmonia das cores, tendo a sua obra sido apreciada pelos Presidentes da República Ramalho Eanes, Mário Soares e Marcelo Rebelo de Sousa que condecoraram este homem cujo legado artístico é relevante no quadro da cultura portuguesa.
Eu sou modesto um admirador da sua obra, que se distingue no panorama da nossa arte contemporânea, que se expressou além-fronteiras, que vai perdurar e que continua a sensibilizar-me esteticamente.

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2024

R.I.P. Artur Jorge

Com 78 anos de idade faleceu ontem o cidadão Artur Jorge Braga de Melo Teixeira, conhecido no mundo do futebol apenas como Artur Jorge. 
Foi um talentoso futebolista que, como avançado, integrou as equipas do FC Porto, Académica de Coimbra, SL Benfica e CF Os Belenenses, mas também a selecção nacional que representou 16 vezes. A partir de 1980 iniciou uma carreira de treinador de futebol, tornando-se o primeiro treinador português a triunfar na Liga dos Campeões Europeus na época de 1986-1987, quando a equipa do FC Porto bateu a equipa do Bayern de Munique em Viena. Enveredou depois por uma carreira internacional treinando várias equipas em França, Espanha, Holanda, Arábia Saudita, Rússia e foi seleccionador das selecções de Portugal, Suiça e Camarões. Hoje há vários treinadores com sucesso internacional, mas Artur Jorge foi o primeiro.
Era um universitário, um intelectual e um homem de cultura, que deixou obra poética publicada, mas também teve intervenção cívica em defesa dos valores da liberdade e da democracia, pelo que sempre foi uma referência do futebol português, sobretudo porque olhava para o futebol como uma arte e não como o negócio em que se tem transformado.
A imprensa portuguesa, sobretudo a imprensa desportiva, homenagearam-no nas suas edições de hoje, enquanto os jornais franceses L’Équipe, Le Parisien e Le Figaro, também lembraram a sua memória e, nas suas edições de hoje, anunciaram a sua morte nas suas primeiras páginas.

quinta-feira, 28 de dezembro de 2023

R.I.P. Jacques Delors

Jacques Delors, um cidadão francês e militante do Partido Socialista que foi presidente da Comissão Europeia entre 1985 e 1995, faleceu ontem em Paris com 98 anos de idade e parece haver unanimidade quanto aos seus excepcionais méritos, pois nenhum dos seus sucessores – Jacques Santer, Romano Prodi, Durão Barroso, Jean-Claude Juncker e Ursula von der Leyen – alguma vez se mostraram à altura da “alma europeia de Delors” e da sua verdadeira dimensão europeista. Foi durante a sua presidência e sob a sua inspiração, que os governadores dos bancos centrais apresentaram o chamado Relatório Delors sobre os passos a dar para a realização da União Económica e Monetária, daí nascendo o novo Tratado da União Europeia ou Tratado de Maastricht que concretizou a nova arquitectura europeia e que, a partir de 1 de Janeiro de 1999, lançou o euro como a nova moeda única europeia.
Portugal tinha sido admitido na Comunidade Económica Europeia (CEE) em 1986 e Jacques Delors afirmou-se como um bom “amigo de Portugal”, que lhe retribuiu com condecorações e doutoramentos honoris causa pelo seu valor humano, mas também como expressões de gratidão pelos generosos fundos estruturais concedidos para a modernização da economia portuguesa.
O tempo de Jacques Delors foi, provavelmente, o ponto mais alto da materialização do ideal europeu desde o Tratado de Roma e é legítimo falar-se de um tempo pós-Delors, em que a Europa tem perdido progressivamente lideranças, protagonismos e ideais.
Homens idóneos e de espírito europeu como Jacques Delors fazem-nos falta nos tempos conturbados que atravessamos na Europa.

domingo, 9 de julho de 2023

R.I.P. Professor José Mattoso

Com 90 anos de idade faleceu ontem o Professor José Mattoso, uma notável figura da cultura portuguesa, com uma vasta obra publicada sobre a nossa História Medieval. Reconhecido como um dos mais ilustres historiadores medievistas portugueses, como investigador e como professor universitário, era também muito respeitado pelo seu percurso de vida, em que se destacavam a sua militância cívica, a sua inteligência e a sua humildade.
Após o curso liceal que frequentou na sua cidade natal de Leiria, foi monge da Ordem de São Bento, tendo vivido na abadia portuguesa de Singeverga e na cidade belga de Lovaina, em cuja Universidade Católica se licenciou e doutorou em História Medieval.
Depois de cerca de vinte anos de vida monástica, regressou à vida laica em 1970 e iniciou a sua carreira académica em Portugal, onde foi professor catedrático da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Em 1987 foi a primeira personalidade a quem foi atribuído o prestigiado Prémio Pessoa e, entre 1996 e 1998, dirigiu o Arquivo Nacional da Torre do Tombo. Publicou mais de três dezenas de obras de referência, dirigiu a edição em oito volumes da História de Portugal (Círculo de Leitores) e coordenou o projecto de inventariação do Património de Origem Portuguesa no Mundo (Fundação Calouste Gulbenkian).
Viveu em Timor-Leste no período imediatamente anterior e posterior à sua independência, dirigindo de forma competente e persistente a recuperação da memória histórica timorense e a criação dos Arquivos Nacional e da Resistência. Foi aí que o conheci e que com ele privei algumas horas de conversa, rendido à sua cultura, à sua humildade, ao seu espírito de missão e à sua sabedoria.
Portugal e a cultura portuguesa perderam uma das suas mais distintas personalidades da segunda metade do século XX.

sexta-feira, 26 de maio de 2023

R.I.P. Tina Turner

Tina Turner, que era considerada a rainha do rock and roll, faleceu ontem na sua casa de Kusnacht, perto da cidade suiça de Zurique, onde vivia desde 1994. Tinha 83 anos de idade. Nasceu no Tennessee e o seu verdadeiro nome era Anna Mae Bullock, mas cedo adoptou o nome artístico que não só a tornou famosa, como também contribuiu para fazer dela a artista feminina mais bem-sucedida da sua geração, por ter vendido mais de 200 milhões de discos em todo o mundo e por ter vencido por doze vezes o Grammy, o prémio que reconhece a excelência do trabalho na arte da produção musical.
Por razões de sensibilidade pessoal nunca fui um admirador entusiasta de Tina Turner nem acompanhei a sua carreira, mas o seu desaparecimento foi reportado pela imprensa de todo o mundo com grande destaque, o que habitualmente só acontece com grandes dirigentes políticos mundiais e só raramente acontece com figuras do espectáculo desportivo ou musical.
A sua imagem de marca terá sido a canção simply the best, pois essa frase passou a estar associada ao seu nome que, segundo relata a imprensa, inspirou milhões de pessoas com “a sua verdade e a sua voz”. O jornal nova-iorquino Daily News dedica-lhe toda a sua primeira página e chama-lhe "legend of soul, rock, stage and screen", isto é, vê em Tina Turner quase a perfeição.
Tina Turner esteve em Portugal por duas vezes, tendo-se apresentado em Lisboa onde deu dois grandes concertos, respectivamente no Estádio de Alvalade em 1990 e, seis anos depois, no Estádio do Restelo.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2022

R.I.P. Edson Arantes do Nascimento (Pelé)

Edson Arantes do Nascimento, o cidadão brasileiro que todo o mundo conheceu como Pelé, faleceu ontem em S. Paulo, com 82 anos de idade. O governo brasileiro decretou três dias de luto nacional, mas a tristeza de todo o Brasil vai permanecer por muito mais tempo, porque Pelé era o seu maior ídolo, embora também fosse idolatrado no exterior pela generalidade dos adeptos do futebol. Ele era um verdadeiro ícone e um símbolo do futebol-desporto e do futebol-arte, tendo sido considerado como um dos maiores atletas de todos os tempos e sido eleito como o “Jogador do Século” por diversas organizações internacionais. Foi Campeão do Mundo por três vezes – em 1958, 1962 e 1970 – um palmarés que nenhum outro futebolista conseguiu alcançar até agora, o que lhe confere um estatuto único na história do futebol.
Com o seu talento e a sua arte, mas também com a sua humildade, inteligência e personalidade, o futebolista Pelé tornou-se um exemplo e um orgulho para milhões de brasileiros, um verdadeiro embaixador do Brasil e um ídolo de milhões de adeptos do futebol por todo o mundo, mas também o símbolo da transformação do futebol num fenómeno universal.
Hoje, muitas centenas de jornais de todo o mundo, designadamente a Folha de S.Paulo, homenageiam Pelé e dedicam-lhe todo o espaço das suas primeiras páginas e classificam-no como o rei, o imortal, o eterno. A morte de Pelé está a inundar de tristeza a sociedade brasileira e nem o afastamento de Bolsonaro ou a posse de Lula da Silva conseguem atenuar a dor de um país que chora a morte do homem que, como nenhum outro, tornou o Brasil conhecido e admirado no mundo.

sexta-feira, 11 de novembro de 2022

R.I.P. Gal Costa

Gal Costa, uma das mais importantes vozes da música popular brasileira, faleceu anteontem em São Paulo com 77 anos de idade e o Brasil, mas também aqueles que fora do Brasil apreciam a cultura brasileira, estão de luto e, certamente, já com saudades da sua voz. Chamava-se Gal Maria da Graça Costa Penna Burgos, era natural da cidade de Salvador, a capital do estado da Bahia, tendo-se destacado como cantora, mas também como compositora e multi-instrumentista. 
O seu percurso artístico foi fortemente marcado pela relação de amizade nascida na adolescência comum e pela parceria musical com o chamado quarteto baiano – Caetano Veloso, Maria Bethânia, Gilberto Gil e Gal Costa.
Gal Costa era reconhecida no meio artístico como a “musa eterna do tropicalismo” e a notícia da sua morte foi destacada pela imprensa portuguesa, mas sobretudo pela imprensa brasileira, que lhe dedicou grandes espaços nas suas primeiras páginas, como aconteceu com o jornal O Dia, que se publica no Rio de Janeiro, que a homenageou com o título “Eternamente Gal”.
Mal foi conhecida a triste notícia da morte de Gal Costa, o espaço mediático da lusofonia encheu-se de tributos, de imagens e de vídeos em sua homenagem e, dessa forma, todos pudemos voltar a ouvir a voz inconfundível de Gal Costa.
O Brasil está de luto e a morte de Gal Costa também foi sentida em Portugal.