sexta-feira, 4 de setembro de 2026

A Espanha mostra-se solidária com Ceuta

O caso de Ceuta já tem mais de um mês e continua a suscitar muitas interrogações sobre o que aconteceu, ou como foi possível que 80.000 pessoas “invadissem a cidade numa noite”. São conhecidas diversas teses sobre este caso e, embora Pedro Sánchez tenha excluído as responsabilidades de Marrocos e acusasse Israel, a Rússia e a extrema-direita, o facto é que Marrocos, bem como alguns dos seus “amigos”, parecem estar envolvidos nesta operação.
É caso para perguntar: quem quer retirar Ceuta à soberania espanhola e quem será que quer desforrar-se da independência de Pedro Sánchez? Sánchez é uma persona non grata para muita gente, porque tem carácter e pensamento próprio, reconheceu o Estado da Palestina e não pactua com os crimes israelitas em Gaza e na Cisjordânia, recusou a utilização das suas bases pelos Estados Unidos para atacar o Irão e rejeitou os ultimatos de Trump e do seu lacaio Mark Rutte quanto aos 5% do PIB em despesa militar.
Porém, o caso tem sido usado politicamente por vários membros da União Europeia para atacar Pedro Sánchez, mostrando uma grave falta de solidariedade que fragiliza ainda mais o projeto europeu, mas também pela oposição espanhola que aproveita esta oportunidade para atacar Sánchez, porque “esteve distraído” e “não foi capaz de resolver este problema".
Na passada 4ª feira realizaram-se grandes manifestações por toda a Espanha de “apoio a Ceuta” como território espanhol mas que, em alguns casos, também foram manifestações “contra Sánchez”, isto é, o apoio a Ceuta serviu de pretexto para a oposição atacar o governo. Essas manifestações “encheram” as capas de toda a imprensa espanhola, assim acontecendo com a edição de ontem do jornal Sur, el periódico de Málaga, em cuja fotografia de capa de vê, bem destacada, a bandeira gironada de oito peças de negro e prata, igual à bandeira de Lisboa, a lembrar que Ceuta foi portuguesa durante 225 anos!

Missão de 286 dias no mar é muito longa

Um dos princípios básicos dos regimes democráticos é a subordinação do poder militar ao poder político civil legitimado pelo voto popular, daí resultando que os militares aconselham tecnicamente a esfera política e actuam operacionalmente no sentido de executar as suas decisões, dentro da lei. Portanto, a autoridade final sobre o emprego das Forças Armadas pertence ao poder político civil constitucionalmente competente, mas os políticos não devem interferir na condução das operações militares.
Nas actuais circunstâncias da guerra entre os Estados Unidos e o Irão, assiste-se quase diariamente a uma intervenção do “comandante supremo das Forças Armadas” dos Estados Unidos que, muitas vezes, parece querer comandar operacionalmente as suas forças. Porém, há indícios de que algumas coisas não correm bem, como mostrou a recente demissão de Dan Driscill, o seu Secretário do Exército, que não suportou mais as fanfarronices de Trump e de Hegseth, bem como a anunciada falta de mísseis e outras armas e, ainda, o verdadeiro desterro a que foi sujeito o porta-aviões USS Abraham Lincoln e os 5.000 homens e mulheres que tem a bordo.
Segundo o jornal The San Diego Union-Tribune esta unidade naval, esteve 286 dias em missão no Médio Oriente e chegou a Laem Chabang, na Tailândia, para “um merecido período de descanso e lazer”, sendo acompanhada pelo destroyer USS Frank E. Oetersen Jr mas, segundo a Reuters, “ambas as embarcações apresentavam manchas de ferrugem e pintura irregular ao longo da linha d'água”.
Também o jornal canadiano The Globe and Mail deu notícia da chegada do USS Lincoln à Tailândia, com uma fotografia que mostra muita ferrugem no costado e com o título “finalmente em terra”, referindo em subtítulo as “crescentes preocupações com a saúde mental da tripulação”.
Uma permanência de 286 dias no mar até compara com as epopeias marítimas de Vasco da Gama, de Fernão de Magalhães, de Francis Drake, de James Cook, ou de Jean-François de La Pérouse. 
Donald Trump e a sua dócil entourage devem-se ter esquecido do USS Abraham Lincoln e das pessoas que tinha a bordo, o que mostra que não basta mandar, pois é preciso saber mandar.