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segunda-feira, 27 de outubro de 2025

ASEAN acolhe Timor-Leste como membro

No dia 20 de Maio de 2002 foi declarada a independência da República Democrática de Timor-Leste, numa cerimónia realizada em Tasi Tolu, nos arredores de Dili, na qual estiveram presentes Kofi Annan, Secretário-Geral da Nações Unidas, Xanana Gusmão, o primeiro Presidente da nova República Democrática de Timor-Leste, Megawati Sukarnoputri, Presidente da Indonésia, Jorge Sampaio, Presidente da República Portuguesa e Bill Clinton, Presidente dos Estados Unidos, para além de delegações de mais de nove dezenas de países. O novo país foi de imediato acolhido na CPLP (Comunidade de Países de Língua Portuguesa) e foi reconhecido como observador na ASEAN (Association of Southeast Asian Nations), uma organização intergovernamental regional do sueste asiático, que promove a cooperação entre os seus membros, mas também a integração económica, política, militar, educativa e cultural entre os seus membros e outros países asiáticos.
No dia 4 de Março de 2011 o governo timorense apresentou oficialmente o seu pedido de adesão à ASEAN, mas a aceitação plena da sua integração só aconteceu ontem em Kuala Lumpur, durante a 47ª Cimeira da ASEAN. Para o mais jovem país do Sueste Asiático, a sua condição de 11º estado-membro da ASEAN é a concretização de uma vontade de afirmação no panorama internacional, pois passa a ter como parceiros o Brunei, Camboja, Filipinas, Indonésia, Laos, Malásia, Myanmar, Singapura, Tailândia e Vietname que, juntos, representam 680 milhões de habitantes.
Na “fotografia de família” que é publicada com destaque na edição de hoje do centenário diário filipino Manila Bulletin estão presentes 17 personalidades políticas, entre as quais Xanana Gusmão (primeiro-ministro de Timor-Leste), José Ramos-Horta (presidente de Timor-Leste), António Costa (presidente do Conselho Europeu) e António Guterres (secretário-geral das Nações Unidas).
Quem podia imaginar que na Cimeira da ASEAN estivessem quatro individualidades cuja língua-mãe é o português!

quarta-feira, 4 de setembro de 2024

O Papa Francisco em Timor é uma festa!

O Papa Francisco chegou ontem à Indonésia para uma visita apostólica, tendo a edição de hoje do jornal The Jakarta Post destacado esse acontecimento que ocorre no maior país muçulmano do mundo. Trata-se da viagem mais longa do pontificado do Papa Francisco, em que percorrerá 32 mil quilõmetros com 44 horas de voo, com passagens por quatro países.
A Indonésia é constituída por milhares de ilhas entre a Ásia e a Austrália, sendo esta visita papal considerada um facto muito importante no actual contexto mundial, como afirmou Joko Widodo, o presidente da Indonésia, que convidou o Papa a visitar o país. Segundo as fontes do Vaticano, trata-se de construir pontes entre universos culturais diferentes e de estimular o diálogo interreligioso, tendo o Papa Francisco associado a “unidade na multiplicidade indonésia” à unidade das diferentes religiões, que perseguem o bem comum, a justiça social e a paz no mundo.
Depois da visita à Indonésia, o Papa Francisco seguirá para a Papua Nova-Guiné, Timor-Leste e Singapura.
No que respeita a Timor-Leste, um país onde se fala português e em que 95% da população é católica, a chegada do Papa Francisco acontecerá no dia 9 de setembro e, depois de cerca de 48 horas em Dili, seguirá para Singapura no dia 11 de setembro. A visita papal a Timor-Leste vai ser uma grande festa para a população e tem um significado especial porque a Igreja Católica foi um referencial de liberdade para os timorenses durante a violenta ocupação indonésia do território (1975-2002), tendo sido essencialmente através dela que se processou a comunicação interpessoal que permitiu a luta da resistência timorense.

sábado, 31 de agosto de 2024

Evocação do referendo de 1999 em Timor

Por diversas razões, incluindo as anomalias da descolonização portuguesa e a guerra civil timorense, no dia 28 de novembro de 1975 a Fretilin (Frente Revolucionária de Timor-Leste Independente) proclamou unilateralmente a independência daquele território que ocupa a parte oriental da ilha de Timor, mas essa declaração não foi reconhecida por Portugal, nem pelas Nações Unidas, nem pela comunidade internacional.
Por isso, no dia 7 de dezembro de 1975, quando as tropas portuguesas se limitavam a uma presença simbólica na pequena ilha de Ataúro, a vizinha e poderosa Indonésia invadiu a antiga colónia portuguesa da ilha de Timor que, de jure, ainda tinha soberania portuguesa, decretando a sua anexação. A repressão indonésia foi violenta e gerou uma resistência armada que lutou nas montanhas e criou dificuldades aos ocupantes. Estima-se que tenham morrido quase duzentos mil timorenses. Apesar de alguns países, como a Austrália e os Estados Unidos, terem aceite a ocupação indonésia, os sucessivos governos portugueses defenderam a causa timorense e mobilizaram a comunidade internacional para respeitar o direito do povo timorense a escolher o seu destino. Depois de um longo e complexo processo diplomático, o secretário-geral das Nações Unidas, Kofi Annan, conseguiu que os governos da Indonésia e de Portugal estabelecessem negociações e chegassem a um Acordo sobre a Questão de Timor-Leste, que previa a realização de um referendo, que veio a ser realizado no dia 30 de agosto de 1999. Foi há 25 anos e a generalidade dos mass media portugueses estiveram distraídos e não evocaram esse dia histórico, tanto para Portugal como para Timor-Leste. Uma das honrosas excepções foi o Et cetera, o suplemento semanal do Jornal Económico, cuja primeira página evoca a figura de Xanana Gusmão, ex-comandante da guerrilha timorense, ex-presidente eleito da República e actual primeiro-ministro de Timor-Leste.
Nesse dia 30 de agosto de 1999, sob a supervisão das Nações Unidas, houve 78,5% de timorenses que rejeitaram a proposta de autonomia especial de Timor-Leste, o que significava a independência e a separação da Indonésia.
A independência chegou no dia 20 de maio de 2002. Foi um dia memorável em Portugal. Quem se recorda desse dia?

sábado, 27 de abril de 2024

25 de Abril: património comum do PALOP

As comemorações dos 50 anos do 25 de Abril, numa feliz iniciativa do presidente Marcelo Rebelo de Sousa, trouxeram a Lisboa os presidentes das Repúblicas de Angola, de Cabo Verde, da Guiné-Bissau, de Moçambique, de S. Tomé e Príncipe e de Timor Leste, apenas faltando o presidente Lula da Silva que se fez representar pelo seu Ministro dos Negócios Estrangeiros.
A par das grandes manifestações populares realizadas por todo o país e das habituais cerimónias promovidas na Assembleia da República, a sessão realizada no Centro Cultural de Belém em que participaram aqueles sete presidentes de países de língua oficial portuguesa, foi um marco relevante nas comemorações, mas tammbém no futuro da CPLP. Foram sete discursos de grande importância histórica e política, que condenaram o colonialismo salazarista e a guerra colonial, que elogiaram a liberdade reconquistada pelo 25 de Abril e a abertura de negociações para a paz, mas que reforçaram os sentimentos de amizade e de cooperação entre os países de língua oficial portuguesa. Como refere o Jornal de Angola e foi salientado por João Lourenço, o presidente da República Popular de Angola, “a nossa causa era a mesma que a do povo português”. O 25 de Abril foi, portanto, um movimento que libertou o povo português de uma ditadura cruel e retrógrada, mas também se pode afirmar que resgatou os povos colonizados e muitos dos excessos do colonialismo português.
Não é frequente que os presidentes dos países que têm a língua portuguesa como língua oficial se encontrem pessoalmente e, por isso, este encontro proporcionado pelas comemorações do 25 de Abril foi um ponto alto, que demonstra como aquele movimento libertador é um património comum que foi incorporado na história das antigas colónias portuguesas.

sexta-feira, 12 de maio de 2023

Timor-Leste, a ASEAN e o Sudeste Asiático

A Associação das Nações do Sudeste Asiático, ou ASEAN, é uma organização de carácter regional criada em 1967 com o objectivo de promover a cooperação económica e de segurança entre os seus dez membros: Brunei, Camboja, Indonésia, Laos, Malásia, Myanmar, Filipinas, Singapura, Tailândia e Vietnam. No seu conjunto, os países da ASEAN têm cerca de 662 milhões de pessoas e, por isso, a organização tem tido um papel importante na integração económica asiática, inspirando-se no modelo adoptado pela União Europeia.
Entre os dias 9 e 11 de Maio, a ASEAN realizou a sua 42ª Cimeira na estância indonésia de Labuan Bajo, situada no extremo oeste da ilha das Flores, na província de Nusa Tenggara Timur, com a curiosidade desta ilha ter sido uma “possessão portuguesa” até 1856, data em que foi vendida aos holandeses por 200 mil florins…
O anfitrião foi o presidente da Indonésia Joko “Jokowi” Widodo, que defendeu a união entre os membros da organização para que a região seja pacífica, estável e próspera, mas também para se afirmar como uma voz a ser escutada numa região muito sensível e muito disputada. Por razões relacionadas com o golpe militar e a crise institucional por que o país passa desde então, o Myanmar não participou na Cimeira, mas em contrapartida esteve presente Timor-Leste, o jovem país do sol nascente ou lorosae.
Timor-Leste solicitou oficialmente a adesão à ASEAN em 2011 e em 2022 foi admitido, em princípio, como o 11º membro da organização. Nesse sentido, uma delegação timorense que incluía o primeiro-ministro Taur Matan Ruak e a ministra dos Negócios Estrangeiros Adaljiza Xavier Magno, deslocou-se a Labuan Bajo num Airbus 320 da companhia timorense Aero Dili para participar na 42ª Cimeira da ASEAN. Segundo o relato do jornal The Jakarta Post os governantes de Timor-Leste tiveram a oportunidade de manter encontros bilaterais com os seus homónimos da ASEAN, potenciando o aprofundamento das relações de cooperação bilateral e multilateral.

domingo, 28 de agosto de 2022

Filipe Neri Ferrão, o novo cardeal de Goa

O Papa Francisco presidiu ontem na Cidade do Vaticano a um Consistório Ordinário, isto é, uma reunião de cardeais que é destinada a assistir ou ajudar o Papa nas suas decisões. Foi o oitavo Consistório do seu pontificado e nele foram criados 20 novos cardeais, dos quais 16 eleitores e 4 eméritos (não eleitores), com a particularidade de terem sido criados os primeiros cardeais oriundos de Timor-Leste, do Paraguai e de Singapura. Dos 16 novos cardeais eleitores destacam-se o cardeal Filipe Neri António Sebastião do Rosário Ferrão, arcebispo de Goa e Damão e Patriarca das Índias Orientais, e o cardeal Virgílio do Carmo da Silva, arcebispo de Dili. Ambos são falantes de português e ambos dirigem dioceses historicamente ligadas à Igreja de Portugal.
A diocese de Goa foi a primeira diocese asiática da Cristandade, foi criada em 1533 pelo Papa Clemente VII, era inicialmente sufragânea da diocese do Funchal e estendia-se espacialmente desde o cabo da Boa Esperança até à China e ao Japão. 
A diocese de Dili foi criada em 1940 como sufragânea da arquidiocese de Goa, numa altura em que o território de Timor estava ocupado pelas forças japonesas.
Para aqueles que se identificam com a herança cultural portuguesa nascida da sua expansão marítima pelo mundo, ou para aqueles que se orgulham da lusofonia, católicos ou não católicos, a criação destes novos cardeais lusófonos, a que se juntam os dois novos cardeais brasileiros (os arcebispos de Manaus e de Brasília), é um motivo de grande satisfação cultural.
O jormal oHeraldo que se publica em Goa, onde o hinduísmo é a religião dominante, deu um grande destaque à elevação do seu Arcebispo ao Cardinalato e nós, que bem o conhecemos, também aqui expressamos o nosso regozijo.

sábado, 21 de maio de 2022

Timor Leste: 20 anos de independência

A República Democrática de Timor-Leste celebrou o 20º aniversário da sua independência e, ao mesmo tempo, empossou José Ramos-Horta como o seu sétimo presidente da República.
Portugal esteve representado neste evento através do presidente da República Portuguesa, que viajou num voo especial da EuroAtlantic Airways e que se fez acompanhar por uma comitiva de 18 pessoas, segundo indicam alguns relatos. As várias estações de televisão portuguesas também acompanharam Marcelo Rebelo de Sousa, pelo que o pudemos ver no cemitério de Santa Cruz e na sua intervenção no Parlamento Nacional, durante a sessão solene comemorativa dos 20 anos da Constituição da República Democrática de Timor-Leste, mas também em múltiplas situações de grande excitação de cariz populista e entusiasmo desproporcionado, em que abraçou, beijou, dançou e tirou selfies, exactamente como se estivesse em campanha eleitoral em Alcabideche ou em Carrazeda de Ansiães. Porém, o momento porventura mais emocionante desta visita, sobretudo para quem viveu localmente uma parte do processo independentista timorense, foi a merecida condecoração do padre João Felgueiras, um jesuíta natural de Caldas das Taipas, concelho de Guimarães, que dentro de um mês completará 101 anos de idade e que muitos timorenses consideram um símbolo da resistência e da preservação da língua e da cultura portuguesas em Timor, durante os anos da ocupação indonésia.
Lamentavelmente, com a excepção do Diário de Notícias, a imprensa escrita portuguesa ignorou o 20º aniversário da independência de Timor Leste.
A deslocação de Marcelo Rebelo de Sousa a Timor Leste coincidiu com a visita de António Costa ao Leste europeu e aquele não quis que este tivesse mais protagonismo do que ele e, por isso, tratou de comentar aquilo que um presidente da República não deve comentar. Alguns jornais chamaram-lhe gafes presidenciais. Tendo ambos feito importantes visitas de Estado, não havia necessidade destas guerras de popularidade.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2022

O crescente interesse na língua portuguesa

A expansão marítima portuguesa foi pioneira no quadro da expansão europeia no Oriente e a língua portuguesa tornou-se a língua franca naquelas regiões até ao século XIX, daí resultando que muitas palavras portuguesas enriqueceram os vocabulários de algumas línguas orientais, como o hindi, o concanim, o cingalês, o malaio, o bahasa indonésio ou o tetum. Porém, a segunda metade do século XIX e, sobretudo o século XX, impuseram definitivamente o inglês como a principal língua de comunicação na Ásia do Sul e na Oceânia.
Apesar de ser a língua oficial do Estado da Índia, de Macau e de Timor até meados do século XX, o português nunca foi a língua de comunicação de corrente nesses territórios e só foi adoptado pelas elites e por franjas minoritárias das sociedades locais, pelo que muitos portugueses que no tempo colonial visitavam esses territórios se impressionavam com a dura realidade de quase ninguém falar português.
Os tempos mudaram. Timor tornou-se independente em 2002, adoptou o português como língua oficial e, segundo afirmou recentemente José Ramos-Horta, se no tempo colonial se estimava que existia 1% de falantes de português, “hoje, a estatística oficial aponta para cima de 40%”. Em Goa tem sido feito um grande esforço, por parte do Instituto Camões e da Fundação Oriente, para apoiar as escolas onde se ensina português, que tem produzido bons resultados, embora não sejam conhecidas estatísticas. Finalmente, foi ontem anunciado pelo jornal Tribuna de Macau, com base nas estatísticas oficiais, que no corrente ano lectivo de 2021/2022, há em Macau 8.800 alunos a estudar português no ensino secundário, quando nos três anos anteriores tinham sido registados 6.700, 8.000 e 8.400 alunos. A mesma fonte indica que 1.482 estudantes frequentam cursos em português na Universidade de Macau.
Estes números revelam um continuado aumento do interesse pela aprendizagem da língua portuguesa, embora haja muitas interpretações a respeito desta realidade. A mais lógica é a que se baseia na convicção de que o conhecimento do português “pode abrir a porta” para um passaporte português, ou para maior facilidade em chegar a Portugal, à União Europeia, ao Brasil ou aos países africanos de expressão portuguesa. 
Não são saudades, nem qualquer portuguesismo tardio, mas apenas o interesse prático.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

Não esqueçamos o povo irmão de Timor

As relações entre Macau e Timor tornaram-se íntimas desde que em 1844 ambos foram desligados do Estado da Índia e das autoridades de Goa, tendo passado a constituir a província de Macau, Solor e Timor, com um governador residente em Macau e um governador subalterno em Timor, dele dependente. Depois, ainda houve algumas alterações deste quadro político, mas em 1863 o território de Timor foi declarado como província ultramarina de Portugal, tendo a vila de Dili sido elevada à categoria de cidade.
A distância de Lisboa foi apenas uma das razões porque Timor nunca se desenvolveu, embora existam alguns edifícios que  testemunham alguma coisa do que foi feito pelas autoridades portuguesas e pelas missões católicas. Um deles, construído em 1932 e actualmente em ruinas, é o belo edifício escolar do reino de Kelicai, no distrito de Baucau e nas proximidades do famoso monte Matebian que tem 2316 metros de altitude, que parece ter sobrevivido à ocupação japonesa (1942-1945) e indonésia (1975-1999). A escola funcionou até 1942 e só voltou a funcionar em 2014, mas em condições muito precárias, com as salas cobertas com folhas de zinco, bambu e folhas de palmeira. O jornal macaense ponto final veio agora divulgar que foi constituída uma Associação de Reabilitação do Edifício Escolar do Reino de Kelicai–Timor Leste (AREESK-TL) para recuperar e salvaguardar aquele edifício histórico e com ele preservar a cultura portuguesa em Timor Leste. O presidente não executivo desta associação é o bispo D. Ximenes Belo, prémio Nobel da Paz em 1996. Nesta altura estão reunidos 25 mil euros dos 360 mil que são necessários para reabilitar a escola onde 200 alunos do ensino secundário, entre outras coisa, poderão aprender o português.
Tanto quanto sei, há várias associações de amizade Portugal–Timor Leste registadas. Então, se existem, que façam alguma coisa de útil e que, ao menos uma delas, se interesse por este desafio que é a reabilitação da escola de Kelicai.


sexta-feira, 30 de agosto de 2019

Evocação do referendo de 1999 em Timor

Depois dos chamados acordos de Nova Iorque assinados no dia 5 de Maio de 1999 entre Jaime Gama e Ali Alatas, em representação dos governos de Portugal e da Indonésia com a mediação de Kofi Annan, o secretário-geral das Nações Unidas, realizou-se no dia 30 de Agosto de 1999 um referendo em Timor Leste.
Nessa consulta não se falava em independência e, muito habilmente, perguntava-se aos timorenses se aceitavam ou não uma autonomia especial para o seu território. A resposta foi negativa e 78,5% dos timorenses optaram por rejeitar essa “oferta” de estatuto, o que nos termos dos acordos de Nova Iorque significava o fim do vínculo indonésio a Timor-Leste e a restauração do estatuto que tinha até à invasão indonésia do seu território. Estava aberta a porta para a independência de Timor-Leste e para a substituição das forças militares e policiais indónésias por uma Força Internacional para Timor-Leste (INTERFET).
A notícia da realização da consulta popular que foi acordada em 5 de Maio, provocou muitas acções de intimidação contra os independentistas e muitos assassinatos. Com os resultados de 30 de Agosto, as milícias pró-indonésias com a cumplicidade dos militares indonésios, criaram uma situação de generalizada violência e destruição no território, sobretudo na cidade de Dili, assassinando muitas centenas de pessoas e levando muitos milhares a refugiarem-se em territórios vizinhos. As infraestruturas do território foram destruídas quase completamente, incluindo casas, escolas, igrejas, hospitais, bancos e os sistemas de irrigação, de abastecimento de água e de electricidade. As televisões mostraram a tragédia vivida pelos timorenses durante vários dias, pois só no dia 20 de Setembro desembarcou a força das Nações Unidas comandada pelo major-general australiano Peter Cosgrove. Hoje, o jornal Público evoca o 20º aniversário do referendo que abriu as portas da independência a Timor Leste, com uma fotografia da "alegria do povo".

terça-feira, 21 de novembro de 2017

Macau e Timor estão unidos pela História

Entre o território da ilha de Timor, onde está estabelecida a República Democrática de Timor-Leste e o território de Macau, que é uma região administrativa especial da República Popular da China, existem afinidades históricas cujo denominador comum é Portugal, apesar de estarem separadas por 3.666 quilómetros.
No período da expansão marítima para o Oriente, os navegadores e os mercadores portugueses chegaram aos mares da China em 1513 e estabeleceram-se em Macau em 1557, tendo chegado a Lifau na ilha de Timor em 1514 e fundado a povoação de Dili em 1769. Os estabelecimentos de Macau e Timor estavam então sob a tutela do Vice-rei da Índia que residia em Goa, mas em 1844 a cidade de Macau e os estabelecimentos de Solor e Timor foram desligados do Estado da Índia e das autoridades de Goa, passando a constituir a província de Macau, Solor e Timor, com um governador residente em Macau e um governador subalterno em Timor, dele dependente.
Quase dois séculos depois, esses territórios pertencem hoje à China, à Indonésia e a Timor-Leste, mas a ligação íntima entre Macau e Timor que então nasceu por via administrativa e sob a bandeira portuguesa, ultrapassou muitas circunstâncias.
Não admira, por isso, que a edição do hojemacau destaque na primeira página da edição de hoje a fotografia de Mari Alkatiri, o primeiro-ministro de Timor-Leste, a propósito de uma moção de censura ao governo minoritário da Fretilin que a oposição timorense apresentou no Parlamento, por este ainda não ter apresentado o seu programa. É um mari de problemas, titula o jornal.
Entretanto, o presidente timorense Francisco Guterres Lu-Olo já avisou o governo e a oposição que a sua missão é servir o país, tal como todos fizeram conjuntamente na sua luta pela independência nacional.

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Timor Leste e o seu futuro político

Nas eleições legislativas ontem realizadas em Timor Leste, a Frente Revolucionária do Timor-Leste Independente (FRETILIN) dirigida por Mari Alkatiri obteve 168.422 votos, enquanto o Congresso Nacional da Reconstrução Timorense (CNRT) liderado por Xanana Gusmão conseguiu 167.330 votos, isto é, verificou-se uma diferença de apenas 1092 votos, o que é realmente um acontecimento! Este resultado faz com que dos 65 assentos do parlamento timorense, haja 23 cadeiras a ocupar pelos deputados da FRETILIN, 22 assentos a ocupar pelos eleitos do CNRT e que haverá 20 lugares a ser ocupados pelos restantes partidos, sendo que o Partido da Libertação Popular (PLP) do ex-Presidente Taur Matan Ruak ocupará 8 cadeiras. 
Este resultado é muito problemático e pode gerar uma situação de grande instabilidade política porque o provável governo de Mari Alkatiri estará sempre em minoria, a não ser que faça uma coligação com o seu adversário mais directo. Por isso, Xanana Gusmão está mais uma vez no centro da vida política timorense, tal como tem acontecido desde há mais de quarenta anos.
Acontece que estas eleições legislativas foram as primeiras realizadas exclusivamente pelas autoridades timorenses e já foram consideradas as mais tranquilas de sempre, não tendo sido registados quaisquer incidentes graves durante a campanha eleitoral ou no dia da votação. Essa circunstância é uma boa indicação quanto ao futuro político do país, que vai continuar nas mãos experientes de homens que vieram da Resistência e da luta armada.
Por isso, existe um clima de confiança no país, até porque Francisco Guterres, o Presidente da República de Timor Leste eleito em 20 de Março e que também é oriundo da FRETILIN, é um patriota e um companheiro de percurso de Alkatiri e de Xanana, o que vai certamente favorecer uma solução de estabilidade política e de boa governabilidade. É, também, o que esperam aqueles que, como nós, conhecem a ilha de Timor.

sexta-feira, 19 de maio de 2017

R.I.P. Mário Carrascalão

Timor Leste está de luto porque  morreu Mário Carrascalão quando ontem conduzia a sua viatura próximo do bairro do Farol na cidade de Díli e foi acometido de doença súbita. Tinha 80 anos de idade e morreu um dia depois de ter sido galardoado com a mais alta condecoração timorense, que lhe foi entregue por Taur Matan Ruak, um dos antigos líderes da guerrilha e actual chefe de Estado da República de Timor Leste.
Mário Carrascalão nasceu em 1937 em Venilale e era filho de um anarquista português que foi deportado para Timor, tendo vindo para Portugal para completar o ensino secundário e para frequentar o Instituto Superior de Agronomia, onde se licenciou. De regresso a Timor, assumiu o cargo de chefe dos Serviços de Agricultura, função que ocupava quando em 1975 rebentou a guerra civil. Durante a ocupação indonésia foi nomeado governador de Timor Leste, cargo que exerceu entre 1982 e 1992, o que levou a que muitos timorenses o acusassem de traição e de colaboracionismo com o ditador Suharto. Porém, muitos timorenses que passaram pelas prisões indonésias, sempre reconheceram o apoio que Mário Carrascalão deu às suas famílias e até às redes clandestinas, o que permitiu salvar centenas de vidas e manter viva a ideia da independência. Além disso, contribuiu para que centenas de timorenses estudassem em universidades indonésias e, sobretudo, foi o grande impulsionador do diálogo com a Resistência, tendo ele próprio tido encontros com o guerrilheiro Xanana Gusmão em 1983 e 1990, que abriram as portas ao processo que desaguou na independência de Timor-Leste.
Conheci o Engenheiro Mário Carrascalão e com ele convivi em diferentes locais e circunstâncias, designadamente na Fazenda Algarve, próximo de Liquiça, que é propriedade da sua família e onde, provavelmente, será sepultado no cemitério da família.
Biológica e culturalmente, Mário Carrascalão tinha tanto de timorense, como de português. Honrou esses dois legados. Com a sua morte, Timor Leste perdeu um dos seus filhos mais notáveis, mas Portugal também perdeu um dos seus grandes amigos timorenses.

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Timor evoca a chegada dos portugueses

O jornal semanal timorense Matadalan que se publica em tétum na cidade de Dili, anuncia na sua última edição hoje divulgada, que o Estado timorense vai comemorar os 500 anos da chegada dos portugueses à ilha de Timor. De facto, desde Julho de 2015 que está constituída uma comissão organizadora presidida por Dionísio Babo Soares, que tem por missão a organização das Comemorações dos 500 Anos da Afirmação da Nova Identidade Timorense, devendo as cerimónias oficiais decorrer na Região Administrativa Especial de Oe-Cusse Ambeno no dia 28 de Novembro de 2015, que é o dia da proclamação da independência nacional em 1975.
É no enclave do Oe-Cusse que se situa a povoação de Lifau, que foi o ponto onde os portugueses terão desembarcado pela primeira vez no dia 18 de Agosto de 1515, conforme está assinalado num obelisco que existe em Lifau e resistiu aos 25 anos de ocupação indonésia, que o jornal Matadalan reproduziu na sua primeira página. As autoridades timorenses pretendem assinalar a longa caminhada histórica de Timor-Leste na construção da sua identidade nacional, marcada pelo primeiro contacto com os portugueses há 500 anos e, ao mesmo tempo, promover um sentimento de unidade nacional num território repartido por muitos reinos, muitos grupos etno-linguísticos e muitas mestiçagens culturais, sendo de salientar que a memória da chegada dos portugueses a Timor, seja um contributo tão importante para a afirmação da unidade nacional do país.

domingo, 1 de dezembro de 2013

O cinema timorense distinguido na Índia

Aos poucos, a República de Timor-Leste afirma-se internacionalmente em novos domínios, como se viu com o filme A Guerra da Beatriz, que acaba de vencer o Golden Peacock ou Pavão de Ouro na categoria de melhor filme da 44ª edição do International Film Festival of India, que ontem se concluiu em Goa. O filme é a primeira longa metragem timorense, tendo sido concebido, produzido, realizado e interpretado por timorenses. É falado em tétum e é legendado em inglês, tendo sido estreado na cidade de Dili no dia 17 de Setembro e apresentado em Outubro no Adelaide Film Festival 2013.
O filme conta a história de Timor-Leste durante o período da ocupação indonésia entre 1975 e 1999, através do amor de uma mulher pelo marido que era membro da Resistência, tendo sido filmado sobretudo na aldeia de Kraras, perto de Viqueque, o local onde há 30 anos ocorreu um massacre perpetrado por soldados indonésios. O filme foi realizado pela timorense Betty Reis e pelo italiano Luigi Acquisto, um dos poucos estrangeiros que esteve envolvido no filme que foi apoiado pela Dili Film Works e pela FairTrade Films Australia. A Guerra da Beatriz, foi escrito pela timorense Irim Tolentino, que também faz o papel de Beatriz, enquanto o elenco é composto por vários actores timorenses, incluindo José da Costa o mais conhecido actor timorense. Depois do sucesso que o filme teve no International Film Festival of India, é com muita expectativa que aguardamos a apresentação em Portugal d’A Guerra da Beatriz.

domingo, 18 de novembro de 2012

Um bravo para a acção da GNR em Timor

Os 140 militares da GNR e os três elementos da equipa médica do INEM destacados em Timor-Leste, terminaram a sua missão operacional ao serviço da ONU e regressaram a Portugal, tendo sido homenageados numa cerimónia presidida pelo primeiro-ministro timorense Xanana Gusmão, que teve a presença de outras autoridades timorenses e representantes do corpo diplomático. A missão da GNR em Timor-Leste iniciou-se em Março de 2000, quando um seu contingente foi integrado na UNTAET - Administração Transitória das Nações Unidas. Depois, com a criação em 2006 da UNMIT - Missão Integrada da ONU, a GNR continuou em Timor, tendo sido integrada na nova estrutura. Durante a sua longa permanência em Timor ao serviço da ONU, a instituição granjeou a simpatia e o respeito das autoridades e da população timorense e prestigiou o nosso país. No princípio deste ano, o então Presidente Ramos-Horta elogiara a GNR e, metaforicamente, dissera que “as autoridades timorenses estavam dispostas a pagar para que a GNR continuasse no país depois da saída da UNMIT”. Agora que terminou a missão da UNMIT, o ex-Presidente José Ramos-Horta comentou o fim da missão e classificou a GNR como “a força de segurança mais eficaz que esteve em Timor-Leste”. Todos os portugueses que na última dúzia de anos visitaram ou trabalharam no novo país, não deixaram de apreciar e de se orgulhar com a compostura, o profissionalismo e a competência da GNR em Timor-Leste. Bravo!
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domingo, 20 de maio de 2012

Taur Matan Ruak

Decorreram em Timor-Leste as festas comemorativas da passagem do décimo aniversário da restauração da sua independência, que se verificou no dia 20 de Maio de 2002. Numa altura em que ainda estão bem presentes na nossa memória as dolorosas etapas que, desde 1974 até à actualidade, levaram à construção do Estado timorense, a celebração desta efeméride tem todo o sentido no plano simbólico, quer em Timor-Leste, quer em Portugal. A história recente da ilha do crocodilo e do povo timorense é uma grande epopeia. Depois da turbulência do período de descolonização e do abandono português, aconteceu uma guerra civil a que se seguiu a brutal invasão e ocupação indonésia, com as cumplicidades americana e australiana. Embora martirizados pela guerra e pelos ocupantes, os timorenses resistiram nos meios urbanos e nas montanhas. Em Díli, no Matebian e no cemitério de Santa Cruz. Na rede clandestina e na luta armada. Com Nicolau Lobato e Konis Santana. Com Xanana Gusmão e Taur Matan Ruak. O referendo de 1999 premiou a tenacidade e a coragem timorenses e o povo escolheu o seu próprio destino, embora algumas forças reaccionárias tivessem então destruído quase todo o património edificado em território timorense. Disse-se, então, que não houvera uma tão extensa destruição desde a 2ª guerra mundial. A comunidade internacional percebeu nessa altura que, embora encaixados entre a Indonésia e a Austrália, os timorenses tinham direito à sua identidade e à sua dignidade. Assim, a efémera independência que tinha sido declarada em 1975 foi restaurada em 2002. Depois de Xanana Gusmão e José Ramos-Horta terem ocupado a Presidência da República, no dia em que se comemoraram dez anos sobre a restauração da independência, esta passou a ser ocupada por José Maria Vasconcelos, casado com Isabel da Costa Ferreira. Porém, Vasconcelos não usa o seu nome de baptismo e mantém o nome de guerra que usou durante a luta armada: Taur Matan Ruak.

sábado, 28 de abril de 2012

Uma ilha com muitos Bispos

Lajes do Pico. Na rua Capitão-mor Garcia Gonçalves Madruga, a principal artéria da vila das Lajes do Pico, encontra-se uma placa de azulejos que assinala que nessa casa nasceu D. João Paulino de Azevedo e Castro que, entre 1902 e 1918, foi o bispo da diocese de Macau, que então abrangia a ilha de Timor. Essa placa foi descerrada em 2003 por D. Carlos Ximenes Belo, o primeiro bispo natural de Timor, sendo essa visita de um Prémio Nobel à ilha do Pico ainda muito recordada e um motivo local de grande orgulho. No século passado houve cinco bispos naturais da ilha do Pico que governaram dioceses no Oriente, tendo três deles exercido autoridade eclesiástica sobre Timor. Para além de D. João Paulino de Azevedo e Castro, foi D. José da Costa Nunes que lhe sucedeu como bispo de Macau (1920-1940) e que depois foi Arcebispo de Goa e Damão e Patriarca das Índias Orientais (1940-1953), atingindo o cardinalato em 1962. Outro bispo picoense foi D. José Vieira Alvernaz que foi bispo de Cochim (1941-1953) e depois Arcebispo de Goa e Damão e Patriarca das Índias Orientais (1953-1962). D. Jaime Garcia Goulart foi o primeiro bispo da diocese de Díli (1940-1967) e D. Arquimínio Rodrigues da Costa foi o último bispo de Macau de origem portuguesa (1976-1988). A ilha do Pico tem sido uma ilha com muitos Bispos, sempre vocacionados para servir no Oriente!

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

A reinvenção da descoberta da Austrália

A edição de ontem do Diário de Notícias anunciou que um “canhão português reinventa descoberta da Austrália”. Segundo informa o jornal, um jovem de 13 anos de idade residente na cidade de Darwin, num dia em que as marés foram excepcionalmente baixas, encontrou numa praia do norte da Austrália um canhão pedreiro semelhante aos que eram utilizados nos navios portugueses do século XVI. O Museu de Darwin tem estado a examinar o referido canhão para confirmar a sua origem, embora se pense que poderá ter pertencido a navios portugueses que eventualmente tenham visitado o norte da Austrália no século XVI.
A hipótese da prioridade portuguesa na visita aos territórios do sul foi levantada pela primeira vez em 1977 pelo historiador australiano Kenneth Gordon McIntyre no seu livro ”A descoberta secreta da Austrália”, no qual procurou demonstrar que foram os portugueses os primeiros europeus a visitar as costas australianas. Depois foram os holandeses que contactaram a chamada Nova Holanda e, só em finais do século XVIII, é que o território foi abordado pelo Comandante Cook.
É sabido que os portugueses contactaram Timor desde 1515 e muitos historiadores estranham o facto de não haver provas inequívocas de também terem visitado os territórios situados a 285 milhas para sul, apesar dos nomes de António de Abreu, Francisco Serrão, Cristóvão de Mendonça, Diogo Lopes de Sequeira ou Manoel Godinho de Erédia aparecerem muitas vezes ligados a essas possíveis viagens.
A descoberta do canhão que agora foi feita pode ajudar a provar que os portugueses estiveram na Austrália no mesmo período em que visitaram Timor e isso seria um importante contributo para a história da expansão portuguesa no mundo no século XVI.

sábado, 2 de julho de 2011

A longa luta do país do Sol Nascente

No princípio do ano de 2001, as ruas de Díli e a maioria das vilas e aldeias de Timor estavam destruídas devido à violência que se seguiu ao referendo de 1999. O diplomata brasileiro Sérgio Vieira de Melo representava as Nações Unidas e as forças internacionais que ocupavam o território, consumiam muitos dos recursos de que o país carecia e, em geral, não estavam preparadas para ajudar os timorenses. Era um tempo de muita incerteza.
Na medida das minhas possibilidades, eu acompanhara os acontecimentos de 1975 e tudo o que se passara depois. Quando em 2001 fui a Timor, procurei saber mais sobre o país do crocodilo. Estudei os tempos de Celestino da Silva, a guerra do Manufai e os protagonismos de Dom Boaventura e de Filomeno da Câmara. Pesquisei sobre a ocupação japonesa e sobre as figuras de Dom Aleixo Corte-Real e de D. Jaime Garcia Goulart. Informei-me sobre os complexos acontecimentos de 1975, a guerra civil e a invasão indonésia de 7 de Dezembro de 1975. “Conheci” Nicolau Lobato, Xanana Gusmão, Ma’Huno e Konis Santana. Fui a alguns dos locais mais simbólicos da resistência timorense, desde a orla do Matebian até à igreja de Motael e ao cemitério de Santa Cruz. Estive em Balibó, Maliana, Batugadé, Manatuto, Baucau, Viqueque, Lospalos e Aileu. Conheci e convivi com alguns dos resistentes, com vários anos na prisão de Cipinang ou com muitos anos de exílio. Gente experimentada. Gente que se organizou e que hoje está a dar um futuro ao país.
Alguns têm raízes étnicas e culturais portuguesas. Um deles correu meio mundo a procurar apoios para a causa timorense e foi premonitório quando, em 1994, escreveu “Amanhã em Díli”. Depois foi distinguido com o Prémio Nobel da Paz e, quando regressou a Timor, partilhou algumas das suas memórias e conversas com um discreto hóspede do já extinto Hotel Dom Aleixo. É o actual Presidente da República de Timor-Leste. Agora, uma vez mais, veio a Lisboa e, certamente, não deixará de visitar a sua casa paterna de Buarcos e de olhar o Tejo, de onde um dia o seu pai saiu como deportado por razões políticas.
Neste registo, deixo esta breve homenagem ao JRH.