Mostrar mensagens com a etiqueta ORIENTALISMOS. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta ORIENTALISMOS. Mostrar todas as mensagens

domingo, 15 de março de 2026

Memória e devoção a S. Francisco Xavier

Quase 15.000 peregrinos reuniram-se ontem à volta do castelo de Javier, na Comunidade Foral de Navarra, para celebrar a figura de S. Francisco Xavier, conforme relata a edição de hoje do Diário de Navarra, que se publica em Pamplona.
Celebrava-se o 86º aniversário da Javierada, uma peregrinação que é organizada pelo Arcebispado de Pamplona e Tudela desde 1940, mas cuja origem remonta ao século XIX, quando foi atribuída a S. Francisco Xavier a responsabilidade por livrar o povo navarro de uma epidemia de cólera. A peregrinação acontece todos os anos durante os dois primeiros fins-de-semana de março, quando milhares de peregrinos, sobretudo fiéis católicos e outros seguidores da sua obra missionária, inundam as estradas que levam ao castelo de Javier para venerar o santo.
Francisco de Azpilcueta (1506-1552) nasceu no castelo de Xavier, estudou em Paris e foi um dos fundadores da Companhia de Jesus. Em 1540 instalou-se em Lisboa, em 1541 embarcou para a Índia na nau Santiago e em 1543 foi nomeado como superior das missões orientais desde o cabo da Boa Esperança até à China. A partir de Goa e em missão de evangelização viajou depois para a costa do Coromandel, Malaca, Molucas, Macau, China e Japão. Faleceu na ilha chinesa de Sanchoão, mas as suas relíquias foram trazidas para Goa.
Em 1622 foi canonizado pelo Papa Gregório XV e em 1748 foi declarado Padroeiro do Oriente pelo Papa Bento XIV. É o “santo de Goa” e para os católicos goeses é o Goencho Saib. O seu túmulo encontra-se na Basílica do Bom Jesus, em Velha Goa, sendo visitado anualmente por cerca de dois milhões de peregrinos de todas as religiões, que querem ver o seu corpo e pedir a sua proteção.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Diocese de Macau celebra 450 anos

Quando o mundo e a imprensa internacional hoje se concentram, falam e escrevem sobre Davos, Donald Trump, a Gronelândia e sobre essa criação trumpiana que é, ou vai ser, o Board of Peace, no território de Macau celebra-se o 450º aniversário da sua diocese, que foi criada por decisão de 23 de janeiro de 1576 do Papa Gregório XIII.
Nesta cidade de Macau, que até 1999 esteve sob soberania portuguesa, predomina a religião budista e apenas 4% da população segue a Igreja Católica, muitos deles imigrantes filipinos, a Diocese de Macau e a Santa Casa da Misericórdia de Macau são “pilares da identidade histórica do território”, como escreve na sua edição de hoje o jornal macaense Tribuna de Macau. Essa identidade é reconhecida pela Unesco ao classificar o Centro Histórico de Macau como património da Humanidade, com referência explícita aos símbolos do património cultural e religioso macaense, designadamente as ruínas de São Paulo, que é um ex-libris da cidade, a Sé Catedral, a Igreja de São Domingos e o edifício-sede da Santa Casa da Misericórdia, no Largo do SenadoAo longo da sua existência de 450 anos, a Diocese de Macau tem sido um centro de propagação do catolicismo no Oriente e tem assumido a missão de estabelecer pontes entre o Oriente e o Ocidente, promovendo a educação, a caridade, os direitos humanos e o serviço pastoral, mas por via indirecta também tem sido um símbolo da cultura portuguesa em Macau.
A efeméride será assinalada com um programa comemorativo que adoptou o tema “De Macau para o Mundo: 450 Anos de Missão e Misericórdia” e, durante o ano de 2026, organizará uma série de actividades e exposições comemorativas.
Actualmente. a diocese de Macau é gerida pelo Bispo D. Stephen Lee Bun-sang, natural de Hong Kong e com 69 anos de idade, que se formou em Arquitectura em Londres e trabalou como arquitecto em Hong Kong, antes de ser ordenado padre em 1988.

segunda-feira, 29 de abril de 2024

A arte espanhola a deslumbrar a China

Na sua edição do último sábado o jornal Shanghai Daily destacou como manchete a exposição que está acontecer no Museum of Art Pudong da cidade de Shanghai, desde o dia 23 de abril e que se vai estender até ao dia 1 de setembro. Trata-se da maior exposição realizada na China pelo Museo Nacional del Prado e que tem por título Idades de Esplendor: Uma História da Espanha no Museu do Prado, na qual estão expostas setenta pinturas originais seleccionadas da coleção do Museu do Prado, metade das quais nunca foram vistas na Ásia, dezasseis que saem da Espanha pela primeira vez e nove que sairão do Museu do Prado pela primeira vez. O jornal escolheu como ilustração da sua capa a fotografia de “La Inmaculada Conceptión de Aranjuez”, um óleo de Bartolomé Esteban Murillo, de circa de 1675.
Na exposição estão representados cerca de cinquenta pintores de primeiro plano da arte europeia, que o público chinês vai poder apreciar, entre os quais Ticiano, Veronese, El Greco, Rubens, Velásquez, Goya, Murillo, Zurbarán, Ribera e outros, pelo que o jornal escreve em primeira página que a exposição da colecção vinda de Madrid é “uma festa para os olhos”.
A cxposição enquadra-se, naturalmente, numa aproximação cultural entre a Espanha e a China, sendo uma lição a aprender pela nossa diplomacia económica e cultural, se porventura estiver activa. Durante muitos anos falou-se de Macau como “porta giratória” para potenciar os interesses portugueses na China, mas são os espanhóis que marcam pontos sem precisarem de portas...

terça-feira, 23 de abril de 2024

A cidade de Macau: não há outra mais leal

No século XVI, segundo escreveu Luís de Camões, os portugueses andaram “por mares nunca de antes navegados e passaram ainda além da Taprobana”. Passados cinco séculos de convivência luso-asiática, as marcas dessa passagem ainda são observáveis em vários países e regiões da Ásia do Sul, do Sudoeste Asiático e da Ásia Oriental, tanto nos seus patrimónios materiais, como imateriais.
Macau é, porventura, o maior símbolo dessa realidade. Depois de 442 anos de administração portuguesa, o território regressou à soberania chinesa em 1999 e tornou-se a Região Administrativa Especial de Macau da República Popular da China que, de acordo com a famosa Declaração Conjunta Sino-Portuguesa de 1987, conservará durante 50 anos o seu modo de vida e as suas especificidades culturais, resultantes do longo período em que o território foi administrado por Portugal.
Hoje, a marca portuguesa em Macau não é tão forte como muitos desejariam, mas também não é tão fraca como muitos acusam. Um facto revelador da força da memória portuguesa em Macau aconteceu em 2005, quando a Unesco inscreveu o Centro Histórico de Macau na sua World Heritage List, como “testemunho único do encontro de influências estéticas, culturais, arquitectónicas e tecnológicas do Oriente e do Ocidente”. Nesse território, a que estão emocionalmente ligados muitos milhares de portugueses e onde existem três jornais diários em português, também os 50 anos do 25 de Abril vão ser comemorados, como anuncia na sua edição de hoje o diário hojemacau
Naturalmente, ocorre-nos o título concedido à cidade em 1654 pelo rei D. João IV, como recompensa à lealdade da população portuguesa da cidade durante a ocupação filipina: Cidade do Santo Nome de Deus de Macau, Não Há Outra Mais Leal.

segunda-feira, 15 de janeiro de 2024

Macau e as boas memórias portuguesas

A República Popular da China é o país que, depois da Itália, mais registos tem na World Heritage List da Unesco e, entre os seus 57 monumentos ou sítios classificados, encontra-se desde 2005 o “Centro Histórico de Macau”.
Macau foi uma criação portuguesa desde meados do século XVI e o seu traçado urbano, bem como os edifícios residenciais civis e religiosos, combinam os estilos português e chinês, constituindo “um testemunho excepcional do encontro das tendências estéticas e culturais, arquitectónicas e tecnológicas do Oriente e do Ocidente”, segundo relata a Unesco. Além disso, naquele espaço, ainda há o Farol da Guia, a Fortaleza do Monte, o Porto Interior, o templo de A-Ma e o morro da Penha, entre outros locais de grande interesse histórico e cultural. Porém, o território que em 1999 voltou à soberania da China, tem sido objecto de grandes construções que tendem a afectar os “corredores visuais” entre o centro histórico e a paisagem marítima, pelo que as autoridades foram alertadas pelo Comité do Património Mundial da Unesco para essa situação.
Dez anos depois de ter começado o processo de elaboração do Plano de Salvaguarda e Gestão do Centro Histórico de Macau, o regulamento administrativo está finalmente pronto, estabelecendo princípios orientadores, fixando 11 “corredores visuais”, 19 “ruas pitorescas” e 24 zonas de “tecido urbano”, que visam essencialmente as 22 edificações classificadas no centro histórico e definem as “condições restritivas de construção” e os “critérios para o restauro arquitectónico”.
O jornal ponto final, um dos três jornais portugueses que se publicam em Macau, destaca na sua edição de hoje a aprovação do Plano de Salvaguarda e Gestão do Centro Histórico de Macau que, se vier a ser cumprido, contribuirá para a preservação da memória portuguesa em Macau.

quarta-feira, 13 de dezembro de 2023

Goa, o mandó e a herança cultural lusitana

Está a decorrer na cidade de Panjim, a capital do estado indiano de Goa, o 56th All Goa State Level Mando Festival, no qual participam 29 grupos e que, durante dois dias, desperta um enorme interesse dos goeses, sobretudo daqueles que ainda estão ligados à cultura portuguesa. O suplemento Café do jornal Heraldo destacou na sua edição de ontem "o jovem e entusiástico" talento musical que este festival promove. 
Goa é uma terra de música e de músicos, onde se fundem harmonicamente as tradições musicais da Índia e do ocidente. O mandó é uma forma musical que nasceu e se desenvolveu em Goa durante o século XIX, quando o território fazia parte do Estado Português da Índia, tendo incorporado elementos musicais indianos e ocidentais. É cantado em concanim, a língua nacional de Goa, embora inclua muitas palavras de origem portuguesa. É uma expressão da música tradicional goesa e é muito popular entre a comunidade católica de todo o território, em especial na província de Salcete, no sul de Goa, sobretudo em Curtorim, Majorda, Raia e Margão, sendo cantado por pequenos grupos em ocasiões festivas e nas festas de casamento.
O mandó é, sobretudo, uma canção de amor, de afectos e de saudade, embora também inclua o lamento, a crítica social e o anúncio de acontecimentos. Associado à música, o mandó desenvolveu-se também como uma dança de salão de elevado requinte estético.
Apesar de haver muitos estudos sobre a música tradicional goesa e sobre o mandó, que procuram compreender a sua origem e as suas formas, não há unanimidade sobre esta matéria, embora todos reconheçam uma forte influência ocidental e, sobretudo, portuguesa.

quinta-feira, 23 de março de 2023

Um novo Macau apresenta-se em Lisboa

A imprensa que se publica no território de Macau anunciou nas suas edições de hoje que Ho Iat Seng, o Chefe do Executivo da Região Administrativa Especial de Macau (RAEM) visitará Portugal entre os dias 18 e 22 de Abril. O jornal Macau Daily Times, que é o único jornal de língua inglesa que se publica na RAEM, destaca essa notícia com uma imagem do Terreiro do Paço e informa que se trata da primeira visita de Ho Iat Seng para fora do país desde que tomou posse do seu cargo em Dezembro de 2019. 
O território de Macau é constituído pela pequena península de Macau e pelas ilhas da Taipa e Coloane e, depois de ter sido administrado por Portugal durante mais de quatro séculos, regressou à soberania da República Popular da China no dia 20 de Dezembro de 1999. Lamentavelmente, a língua portuguesa sempre foi pouco conhecida no território e, depois do regresso de Macau à mãe-China em 1999, o seu desaparecimento parece inevitável, embora as autoridades macaenses afirmem a importância da língua e da cultura portuguesas como elemento diferenciador e uma vantagem competitiva de Macau em relação a outras regiões chinesas. A visita de Ho Iat Seng tem, portanto, uma importância culturalmente simbólica, para além dos seus aspectos económicos, pois a missão macaense integra cerca de quatro dezenas de empresários.
Está anunciado que, entre os dias 15 e 22 de Abril, o Terreiro do Paço vai ser “ocupado” por Macau e pela divulgação promocional da sua cultura e potencial turístico e económico, estando programado um espectáculo de luz e imagem nas fachadas dos seus edifícios, com quatro apresentações por noite. 
É caso para dizer: benvindo Macau!

quinta-feira, 9 de setembro de 2021

Histórias de Um Império: exposição a ver

A pandemia do covid-19 desorientou bastante as nossas vidas e os nossos hábitos sociais e culturais mas, apesar de ainda ser necessária muita prudência, começa a sentir-se algum desanuviamento. A vida social agita-se com a retoma das férias, com a chegada dos turistas e com a frequência de restaurantes, enquanto as iniciativas culturais começam a aparecer sobretudo quando podem garantir o “distanciamento social” que as autoridades sanitárias recomendam. Assim acontece com as exposições que, quando são bem planeadas e organizadas, significam aprendizagem e fruição cultural.
Quando ainda está activa no Palácio da Ajuda a excelente exposição D. Maria II. De princesa brasileira a rainha de Portugal. 1819-1853, surge na cidade de Lisboa uma outra exposição intitulada Histórias de Um Império, apresentada pela Fundação Oriente e comissariada por um reconhecido especialista nas artes orientais que é Nuno Vassalo e Silva.
Trata-se uma exposição inédita de obras da Colecção Távora Sequeira Pinto, que documenta, com 150 peças, as relações artísticas entre Portugal e as culturas do império asiático. A exposição centra-se em oito núcleos temáticos e mostra “a riqueza, a complexidade e a surpreendente beleza da arte produzida nas redes comerciais criadas por Portugal, um pouco por toda a Ásia”. As obras de arte e os objetos característicos apresentados documentam uma diversidade muito alargada de origens, tipologias e materiais.
A exposição estará patente até Outubro de 2022 e conta com a publicação de um catálogo que reúne textos de investigadores nacionais e estrangeiros, especialistas nas temáticas abordadas. Segundo foi anunciado, a importante colecção particular de Távora Sequeira Pinto vai encontrar uma nova casa no Matadouro Industrial de Campanhã, uma das 16 futuras “estações” do Museu da Cidade do Porto.
Eu já visitei e recomendo.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2021

A Pátria honrai que a Pátria vos contempla

O jornal Ponto Final é um dos três jornais em língua portuguesa da Região Administrativa Especial de Macau da República Popular da China (RAEM) e foi fundado em 1991 quando o território era administrado pela República Portuguesa. 
Actualmente o chefe do Executivo de Macau é Ho lat-seng e a RAEM, que vivia um período de prosperidade, está agora a sofrer as vicissitudes económicas devidas à crise pandémica. As medidas tomadas pelas autoridades sanitárias macaenses não diferem das que são tomadas em outros países, embora em grau diverso. Na sua edição de hoje o jornal destaca, entre outros assuntos, as limitações que continuam a ser impostas aos estrangeiros para pretendam entrar em Macau, até que a situação epidémica tenha um claro abrandamento. Naturalmente, esta medida é criticada, porque lá como cá, qualquer medida das autoridades sanitárias é criticada pelos que entendem que se foi longe demais e pelos que entendem que se ficou aquém do possível e necessário. Porém, o que aqui se destaca é a fotografia das Portas do Cerco que foi escolhida pelo jornal para sugerir a fronteira da RAEM com o território da RPC. 
Nessa fotografia pode continuar a ler-se a frase “A Pátria honrai que a Pátria vos contempla”, que desde 1871 encima o arco das Portas do Cerco e que desde 1836 é a divisa dos navios da Armada, como determinou o Ministro da Marinha e Ultramar José da Silva Mendes Leal. Aquela frase mostra a íntima relação que houve entre Macau e a Marinha, mas também parece mostrar que as autoridades macaenses preservam a herança cultural portuguesa.

quarta-feira, 15 de julho de 2020

Macau: o património português à deriva


O Centro Histórico de Macau foi classificado pela Unesco e entrou na lista do Património Mundial da Humanidade em 2005, mas quinze anos depois, o legado português deixado naquele território ao longo de quase cinco séculos, numa fusão entre as arquitecturas e as tradições culturais chinesas e portuguesas, parece estar em perigo. Na sua edição de hoje, o jornal Macau hoje titula que o património está à deriva e ilustra essa manchete com a fotografia do Farol da Guia, que é o mais antigo farol das costas chinesas.
A classificação da Unesco representou um ponto alto na afirmação da permanência cultural portuguesa em Macau ao integrar vários sítios e construções históricas como o edifício e o largo do Leal Senado, a Santa Casa da Misericórdia, as igrejas da Sé, de São Lourenço, de Santo António, de Santo Agostinho, de São Domingos, as Ruínas de São Paulo e o Largo da Companhia de Jesus, além do Farol da Guia. O Grupo para a Salvaguarda do Farol da Guia tem criticado a gestão do património histórico em Macau, sobretudo o simbólico farol, denunciando que já quase se não vislumbra por estar entalado entre prédios altos que descaracterizam aquela colina. Porém, a mesma crítica é feita em relação a outros edifícios classificados, cada vez mais desenquadrados da nova paisagem urbana macaense. Significa, portanto, que a construção urbana tem mais força que a protecção do património, apesar da pressão que tem sido feita sobre as autoridades da Região Administrativa Especial de Macau para que tome medidas decisivas para reduzir a altura dos edifícios em construção e dos edifícios que vierem a ser construídos. Porém, será uma luta bem difícil, provavelmente inglória.

segunda-feira, 2 de março de 2020

A agonia da língua portuguesa no Oriente

O Jornal de Letras, Artes e Ideias, ou simplesmente Jornal de Letras ou, ainda só JL, destaca na sua última edição que em Macau… ainda se escreve em português. Trata-se de uma edição especial dedicada à passagem do 20º aniversário da transferência da soberania para a República Popular da China, na qual alguns especialistas procuram responder à pergunta: o que ficou da cultura portuguesa?
Se fizermos uma analogia com o que se passa em Goa, rapidamente somos levados a pensar que, dentro de poucos anos, a cultura imaterial portuguesa terá desaparecido e que a cultura material portuguesa, isto é, os edifícios históricos e a arquitectura militar e religiosa, estarão “submersos” pelas gigantescas torres que vão nascendo pelo território. A língua portuguesa nunca foi a língua franca, nem em Goa nem em Macau, mas em tempos de globalização esse cenário agrava-se e a língua portuguesa é, cada vez mais, uma língua sem interesse prático, quase fossilizada e, sobretudo, uma língua que só alguns velhos ainda falam. Os esforços que têm sido feitos por várias entidades, quer em Goa quer em Macau, para manter viva a língua portuguesa não têm conseguido travar a sua lenta agonia. Pode haver muitos alunos a frequentar as escolas de português e até saber cantar A Portuguesa, mas esses alunos pensam e falam em inglês, em mandarim ou numa qualquer outra língua. Camões e Pessoa não lhes dizem nada.
É verdade que, no caso de Macau há três jornais que usam o português – Tribuna de Macau, Hojemacau e Ponto final – mas essa realidade é demasiado enganadora. Também é verdade que continua a haver alguns autores que, em Goa e em Macau, escrevem em português os seus livros de memórias e as suas reflexões sobre um outro tempo que viveram, mas esses autores são portugueses e esses casos são muito raros.
A língua portuguesa ainda será a língua oficial de Macau por mais trinta anos, mas nessa altura não portugalidade em Macau, nem haverá emprego para portugueses, nem a nova geração de macaenses falará português. É doloroso que isto aconteça, mas é a lei da vida ou o fluir da História.

sábado, 31 de março de 2018

Goa tem o estatuto de “Europa da Índia”

O jornal hindustan times tem a sua sede em Nova Deli, é o segundo maior jornal da Índia e tem uma circulação superior a um milhão de exemplares.
A sua primeira página costuma ser vendida como suporte de publicidade e foi isso que aconteceu na sua edição de hoje, em que uma empresa denominada Provident Housing, uma subsidiária do grupo Puravankara que se considera como uma das maiores imobiliárias da Índia, comprou esse espaço para dizer aos seus leitores Go home to Goa ou, dito em português, vá para casa em Goa. O anúncio refere-se ao pré-lançamento de um grande empreendimento de apartamentos em condomínio que vai ser construído em Goa, junto a Chicalim e próximo do aeroporto de Dabolim e do porto de Mormugão. O anúncio foi ilustrado com uma fotografia de uma jovem ocidental na praia, deixando subliminarmente a ideia de que “Goa é a Europa da Índia” o que, de resto, é uma ideia que prevalece naquele país.
O empreendimento foi baptizado com o sugestivo nome de  Adora de Goa e, este nome, tal como a fotografia da jovem com vestes ocidentais, visam estimular o interesse dos indianos das classes médias emergentes para a aquisição de um apartamento em Goa, cuja descrição evoca a permanência dos portugueses durante 451 anos.
A curiosidade deste anúncio está apenas no facto da herança cultural portuguesa, visível em muitos aspectos do quotidiano goês, desde o património à língua e passando por muitas práticas culturais, estar a ser usada para atrair os pequenos investidores e o turismo interno indianos para a ocidentalidade, para as praias e para os monumentos de Goa.

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Uma aplicação para aprender o português

A última edição do diário hojemacau, um dos jornais macaenses que utliza a língua portuguesa, anuncia com grande destaque que o Instituto Politécnico de Macau (IPM) desenvolveu uma aplicação para telemóvel que pode ser descarregada gratuitamente e que é totalmente dedicada ao ensino do português para falantes de chinês.
A aplicação foi concebida por académicos do IPM ligados à Linguística e à Informática e foi desenvolvida ao longo de cerca de nove meses de trabalho conjunto.
A aplicação chama-se “Diz lá” porque, segundo um dos responsáveis pelo projecto, “é uma frase muito portuguesa e que não existe em mais nenhuma língua”.
A aplicação tem três vertentes. Uma contempla a conjugação dos verbos e é muito importante para os chineses que estudam a língua portuguesa “porque no chinês não há tempos ou modos e isso é uma grande complicação”. A segunda vertente da aplicação é um guia diário de comunicação que inclui as expressões mais utilizadas no quotidiano. A terceira vertente da aplicação ensina ao utilizador uma nova palavra todos os dias por forma a enriquecer o vocabulário do utilizador.
É reconhecido que durante a permanência dos portugueses em Macau, que se prolongou por mais de quatro séculos, pouco ficou da língua portuguesa. Sabe-se lá se com esta aplicação não não vai aumentar a difusão da língua portuguesa em Macau, numa época em que os chineses já perceberam que têm vantagens em saber línguas ocidentais.

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

Macau e a festividade do Ano Novo Chinês

No próximo dia 16 de Fevereiro de 2018 começa o Ano Novo Chinês que só terminará no dia 4 de Fevereiro de 2019.
O Ano Novo Chinês, que também é conhecido como Ano Novo Lunar Chinês, é a mais importante festividade para os chineses e a sua celebração dura 15 dias, durante os quais são seguidos inúmeros rituais e tradições com a finalidade de atrair a sorte. A cor vermelha é a cor predominante nos festejos, porque significa transformação e vida, mas também são utilizadas outras cores como o amarelo, o dourado e o roxo porque, segundo a cultura chinesa, atraem a prosperidade e a riqueza e, parece, que também o amor. Nas vésperas do início do seu Novo Ano os chineses limpam as casas, cortam o cabelo, preparam as roupas, fecham as contas e dão presentes aos seus deuses, além de outros rituais. Todos eles são levados muito a sério e com grande superstição.
Durante as festividades as pessoas acendem lanternas vermelhas e penduram-nas diante da porta principal das suas casas durante os 15 dias de festejos e queimam muito fogo de artifício para afastar o azar e os maus espíritos.
As festividades em Macau são um grande acontecimento, não só para os macaenses mas também para os visitantes, pelo que as autoridades aproveitam para promover o Turismo. Hoje, o jornal macaense ponto final – um dos três jornais diários de Macau publicados em português – apresenta a imagem dos festejos de 2017 com o desfile do dragão gigante dourado no Largo do Senado (vendo-se à direita a Santa Casa da Misericórdia). O jornal informa que este ano são esperados 960 mil visitantes durante os 15 dias dos festejos mas, no ano passado, o mesmo jornal afirmara que “Macau tinha recebido 2,2 milhões de visitantes por ocasião das festividades do Ano Novo Chinês”. Serão, portanto, um ou dois milhões de visitantes em 15 dias. Considerando que o território de Macau tem actualmente cerca de 617 mil habitantes, não há dúvida que as festividades do Ano Novo Chinês são um excelente contributo para a economia da Região Administrativa Especial de Macau da República Popular da China.

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Macau - Creative City of Gastronomy

A imprensa de Macau destacou hoje a recente atribuição do título de Creative City of Gastronomy que foi conferido à cidade pela Unesco Creative Cities Network (UCCN), durante o XI UCCN Annual Meeting que terminou no passado dia 31 de Outubro na cidade francesa de Enghien-les-Bains. O jornal Macau Post destaca aquela notícia na sua edição de hoje e apresenta uma entrevista com Maria Helena de Senna Fernandes, a directora do Gabinete de Turismo do Governo de Macau, em que salienta a importância que terá para o turismo macaense o facto da cidade passar a ser membro da UCCN.
A UCCN foi lançada em 2004 pela Unesco como um projecto destinado a promover a cooperação entre as cidades que apostam na criatividade, na inovação e nas indústrias culturais como factores estratégicos para a promoção do seu desenvolvimento sustentável e, actualmente, já agrega 180 cidades de 72 países, que se distribuem pelas sete categorias ou campos em que as cidades mais se distinguem na área da criatividade: Artesanato e folclore, Media arts, Cinema, Design, Gastronomia, Literatura e Música.
Embora se trate de atributos ou rótulos ainda sem significativo impacto, verificamos que há algumas cidades portuguesas que já são membros da UCCN, assim sucedendo com Óbidos (Literatura) e Idanha-a-Nova (Música) desde 2015, mas também com as cidades de Amarante (Música), Barcelos (Artesanato) e Braga (Media arts), que foram aceites na recente reunião de Enghien-les-Bains.
Com a adesão a esta interessante iniciativa da Unesco, as cidades lutam pela vida, pela sua notoriedade e pelo seu reconhecimento.

terça-feira, 26 de setembro de 2017

O outro fantasma de Pyongyang

O jornalista brasileiro Renato Alves do diário Correio Braziliense conseguiu um visto especial para visitar a Coreia do Norte durante dez dias e, apesar da vigilância a que esteve sujeito pelo regime de Kim Jong-un, conseguiu recolher mais de 500 fotografias, dezenas de curtos vídeos e muitas histórias.
No passado dia 3 de Setembro, data em que se realizou o sexto e, até então, mais potente teste nuclear norte-coreano, o jornalista estava em Pyongyang e sentiu a terra tremer debaixo dos seus pés.
A extensa reportagem dessa visita à Coreia do Norte começou a ser publicada no seu jornal com o título “Passaporte para o segredo” e ontem foi dedicada ao “fantasma de 105 andares” ou ao “ícone do desperdício” que existe em Pyongyang.
Trata-se de um arranha-céus inacabado que se situa no centro da cidade e que é impossível não ser visto com os seus 330 metros de altura. Seria ou é o Hotel Ryugyong, pensado como o maior hotel do mundo e como símbolo de modernidade de um país ambicioso e em ascensão.
A sua construção iniciou-se em 1987, mas nunca foi concluído devido aos mais diversos contratempos, desde a falta de financiamento até ao aparecimento de problemas estruturais. Em 2011 o governo norte-coreano decidiu concluir o exterior do enorme edifício em forma de pirâmide, com painéis de vidro e antenas de telecomunicações, mas o seu interior continuou vazio. Trinta anos depois do início da sua construção, a fachada do Hotel Ryugyong está completa e com as janelas instaladas, mas o seu interior continua vazio, enquanto os seus 3 mil quartos continuam sem equipamentos e sem hóspedes. Caso tivesse sido concluído em 1989 seria o maior hotel do mundo, mas actualmente seria apenas o 47º mais alto e o quinto maior em número de quartos.
Em vez de Kim Jong-un e Donald Trump se ameaçarem constantemente, porque não chegam a um acordo para que a experiência hoteleira da Trump Organization, que opera a partir da Trump Tower em Manhattan, possa resolver o problema do Hotel Ryugyong? O Donald nunca escondeu que gosta de bons negócios e esta pode ser uma boa oportunidade para estender os seus interesses até à Coreia do Norte.

domingo, 9 de julho de 2017

Um novo Albuquerque regressa a Malaca?

O futebol está a tornar-se um desporto e um negócio à escala global e a sua mundialização está a atingir dimensões inesperadas, devido à popularidade que deriva das transmissões televisivas e do endeusamento dos mais talentosos jogadores. No desenvolvimento desse fenómeno encontram-se muitos portugueses, uns como jogadores e outros como treinadores.
Hoje, quando folheava a edição do jornal MHI ou Melaka Hari Ini que se publica na cidade malaia de Malaca, reparei num dos seus títulos de primeira página escrito na língua malaia, para mim indecifrável, que dizia “Almeida tempah laluan sukar buat kedah” e, no desenvolvimento da reportagem, verifiquei que a notícia se referia a Eduardo Almeida. Pedi ajuda ao meu amigo Google para esclarecer o assunto e verifiquei que o cidadão português Eduardo Almeida é, aos 39 anos de idade, o treinador do Melaka United F. C., um clube de futebol fundado em 1924 e que disputa a Liga Super Malaysia.
Malaca ou Melaka foi uma cidade importante do império oriental português, conquistada por Afonso de Albuquerque em 1511 e perdida para os holandeses em 1641, tendo estado sob soberania portuguesa durante 130 anos. Os portugueses foram expulsos da cidade mas deixaram muitas memórias na língua, nos costumes, na gastronomia e na religião. Depois, exceptuando os turistas, foram poucos os portugueses que estiveram em Malaca a desenvolver qualquer actividade.
Agora, com Eduardo Almeida a treinar o clube de Malaca desde o passado mês de Junho, são altas as expectativas e, se o treinador português tiver sucesso, depressa vai ser considerado, em especial no Bairro Português de Malaca ou Kampung Portugis, como um novo Albuquerque.

sexta-feira, 9 de junho de 2017

Macau, a herança portuguesa e a UNESCO

O território de Macau que desde 1999 constitui a Região Administrativa Especial de Macau da República Popular da China, viu em 2005 o seu centro histórico ser inscrito pela UNESCO na lista do Património Cultural da Humanidade. Esse centro histórico inclui estruturas construidas desde o século XVII e estilos arquitectónicos em que se misturam a tradição portuguesa e a tradição chinesa.
Segundo a edição do hojemacau, o Comité do Património Mundial da UNESCO alertou recentemente o governo de Macau por não estar a dar cumprimento às exigências resultantes daquela classificação e, em especial, pela não entrega do Plano de Salvaguarda e Gestão do Centro Histórico de Macau, ao mesmo tempo que mostrava preocupação pela construção de prédios altos e novos projectos de aterro, que colocam em causa a visibilidade do Farol da Guia e da Colina da Penha.
O problema parece ser sério e, aparentemente, tem a ver com o facto de existirem em Macau grandes interesses imobiliários ligados a entidades que sempre foram poderosas, quer durante a administração portuguesa, quer na actualidade. Essa é uma das razões porque não existe um verdadeiro plano director municipal e porque não funciona o regime relativo à salvaguarda do património cultural que existe desde 2013.
Por isso, o Plano de Salvaguarda e Gestão do Centro Histórico de Macau exigido pela UNESCO desde 2013 corre riscos de não ver a luz do dia e Macau corre o risco de ser retirado da lista do Património Mundial da Humanidade, o que seria bem triste para o nosso orgulho pela herança cultural e pelo património arquitectónico que deixamos na Ásia Oriental.

sábado, 16 de abril de 2016

A poesia como farol da língua portuguesa

Se é verdade que, ao longo de mais de quatro séculos, a língua portuguesa nunca se impôs em Macau, também é verdade que há muita gente, mesmo depois da transferência da soberania para a República Popular da China, que insiste na defesa do português e não se cansa de ter iniciativas para a sua promoção. É muito louvável. Assim, por iniciativa do Instituto Politécnico de Macau, realizou-se ontem a 11ª edição do Concurso de Declamação de Poesia em português, uma oportunidade para que a comunidade estudantil chinesa celebre e preste homenagem à língua portuguesa.
De acordo com a organização, o evento visa, sobretudo, “estimular o gosto pela língua portuguesa, pelas culturas e literaturas” e promover o intercâmbio e o diálogo entre as instituições de ensino superior da República Popular da China, onde o português é leccionado.
O acontecimento contou com a presença de doze instituições de ensino superior, mais cinco do que era habitual, incluindo oito do interior da República Popular da China, tendo o número de alunos em competição atingido as 32 participações.
O Jornal Tribuna de Macau destacou a realização deste Concurso com uma fotografia na sua primeira página, mas refere apenas os desempenhos de duas participantes: Li Ruiping que disse o “Poema do Silêncio” de José Régio e Chan Kit Ieng, que concorreu com “A Flor e a Náusea” de Carlos  Drummond de Andrade. É pena que o jornal não nos tenha dado mais informação sobre esta tão interessante iniciativa.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Luso-descendentes asiáticos organizam-se

O jornal hojemacau destaca hoje como principal notícia de capa que os luso-descendentes asiáticos criticam a CPLP e que se sentem “humilhados e esquecidos”, pelo que estão a organizar-se em bloco, como resposta ao que consideram ser o esquecimento daquela organização dos países de língua portuguesa, que apenas se interessa pelas “nações ricas”. Essa resposta nascerá de um encontro a ter lugar em Malaca, onde reside uma das maiores comunidades de descendentes de portugueses, por altura da festa do São Pedro, que se realiza entre 23 e 29 de Junho do próximo ano. Segundo revelaram os seus organizadores, esse encontro terá representantes da Malásia (Malaca), Índia (Goa, Damão e Diu), Sri Lanka, Singapura, China (Macau), Tailândia (Banguecoque), Austrália (Perth), Indonésia (Jacarta, Ambon e Flores), Timor-Leste e Myanmar, embora haja muitos outros lugares onde existem comunidades luso-descendentes. Muitas destas comunidades sobreviveram a séculos de isolamento, mas têm sido “redescobertas” nos tempos mais recentes devido ao interesse de académicos e de alguns (poucos) diplomatas, à facilidade de viajar e de comunicar, ao turismo e à internet.
A organização do encontro que é dinamizada por Joseph Sta Maria, um cidadão de Malaca, reconheceu que as comunidades euro-asiáticas são minorias sem força política, mas são grupos que “mantém a cultura portuguesa há cinco séculos” e que,. em muitos casos, ainda comunicam em português, utilizando um crioulo malaio-português.
Não sei o que poderá fazer a CPLP para ajudar esta organização, mas certamente que o governo português poderá dinamizar este evento por diferentes formas quer simbólicas quer concretas,, através da Secretaria de Estado das Comunidades. A aspiração daquelas comunidades é muito legítima e a remuneração anual de um só gestor do Banif dava para fazer muito...