sexta-feira, 25 de julho de 2014

Que soco! Que mais nos irá acontecer?

Desde há cerca de um mês que se têm acentuado as notícias sobre as dificuldades por que passa o Grupo Espírito Santo (GES) que, por ignorância ou encomenda, os jornais portugueses sempre trataram como uma questão de rivalidade familiar entre tios e primos, que se transformou numa luta pelo poder. Apesar de aparecerem de vez em quando algumas insinuações a respeito dos seus negócios menos claros, a solidez do GES e do seu banco eram glorificadas pelos jornais e pelos jornalistas, constituindo um marco de absoluta confiança para o cidadão comum. O que corria mal no país era a dimensão exagerada do Estado social, o peso da despesa pública e a legislação laboral demasiado permissiva, para além dos portugueses viverem acima das suas possibilidades. O que corria bem eram os lucrativos grupos financeiros, a venda da dívida pública, as exportações do portas e a partilha de favores e de interesses entre os políticos e a banca. Os poderes públicos instalados em Belém e São Bento alinharam nessa teoria que não era verdadeira e a presença da troika a humilhar-nos e a sua caricata saída limpa que tão celebrada foi pelo coro juvenil do portas, são episódios bem tristes da nossa vida recente.
Afinal, a história parece ser bem diferente daquela que tem sido contada, porque nos últimos dias temos sido surpreendidos com notícias que nos deixam estupefactos e que ainda não entendemos. Os portugueses não têm vivido acima das suas possiblidades, mas alguns portugueses têm acumulado milhões fraudulentamente. Essa é a verdade. Depois das falências do BPN e do BPP, depois das imensas ajudas canalizadas para a banca, depois da vigilância da troika e da maior atenção do regulador, podíamos ter pensado que a ganância da banca arrefecera. Porém, somos agora confrontados com suspeitas de burla, abuso de confiança, falsificação e branqueamento de capitais que envolvem um grupo de referência nacional que era o símbolo da solidez e da confiança. Como é possível ter-se chegado a este ponto de declínio civilizacional em que, para além da promiscuidade entre políticos e banqueiros  e da cobardia e do silêncio da generalidade dos jornalistas, todos os dias somos confrontados e desmoralizados com mais episódios deste impensável abandalhamento. Que mais nos irá acontecer?