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sexta-feira, 3 de julho de 2026

Ronaldo: nome e marca de um superstar

Os portugueses passaram a última noite em frente dos televisores, em casa, nos cafés ou nas praças públicas, para ver o encontro entre as equipas de Portugal e da Croácia dos 16 avos de final do Campeonato Mundial de Futebol da FIFA que se disputou em Toronto, uma cidade canadiana onde vivem milhares de portugueses.
Era um jogo de mata-mata, uma expressão popularizada em Portugal pelo antigo selecionador nacional Luiz Felipe Scolari, que significa que o vencedor passa à fase seguinte, mas que o derrotado sai da competição, ou seja, é o “tudo ou nada” para cada uma das equipas. A equipa portuguesa esteve bem e foi mais feliz que a equipa adversária. Dominou mas sofreu um golo, reagiu e empatou através de uma grande penalidade que Cristiano Ronaldo converteu. Já no período de descontos, aos 94 minutos de jogo, surgiu o segundo golo da equipa portuguesa que foi marcado por Gonçalo Ramos que, finalmente, teve a oportunidade de jogar, pois o selecionador Martinez insiste em utilizar Ronaldo para além dos seus limites naturais. Embora Ronaldo e Ramos sejam “oficiais do nesmo ofício”, um com 41 anos e outro com 25 anos de idade, este jogo parece ter mostrado que, no plano futebolístico, têm rendimentos diferentes…
Provavelmente, a grande figura do jogo foi Diogo Costa, o guarda-redes que “se fartou de defender”, mas a imprensa canadiana, mexicana e de vários outros países sul-americanos destacaram Ronaldo como “a figura do jogo”, o que mostra que Ronaldo, embora seja um futebolista em fim de carreira, é uma marca valiosa e que é a mais conhecida marca portuguesa nesta aldeia global em que habitamos.
O jornal Toronto Sun de formato tablóide e de grande circulação, publicou com destaque de primeira página a fotografia de CR7 e escreveu que ele “ajudou a destruir as esperanças da Croácia”. É verdade, mas outros terão ajudado mais…

domingo, 14 de junho de 2026

Narendra Modi e os seus 12 anos de poder

Há muitos países que, embora não estando representados no Mundial de Futebol, continuam presentes nas agendas mediáticas mundiais e um deles é a Índia.
A Índia ou União Indiana é uma república constituída por 28 estados e sete territórios da União, tem uma grande diversidade em termos culturais, étnicos e linguísticos, sendo o país mais populoso do mundo.
Independente desde 1947, é uma democracia parlamentar que foi dirigida durante muitos anos por Nehru, pela sua família e pelo Partido do Congresso, que tinham lutado contra o domínio colonial britânico. Em 1980 nasceu o  Bharatiya Janata Party ou BJP, um partido populista da direita radical, de base religiosa e cultural hindu, ultranacionalista e conservador que, com 180 milhões de membros, reclama ser “o maior partido político do mundo”. Tem associada uma temida organização paramilitar de voluntários de extrema-direita que é o Rashtriva Swavamsevak Sangh (RSS), que mantém grande hostilidade e violência para com as comunidades muçulmanas e católicas do país. O BJP teve sucesso popular e hoje governa 22 dos 28 estados indianos e, desde há 12 anos, tem Narendra Modi como primeiro ministro da União.
A Índia aspira tornar-se a potência dominante da Ásia do Sul e tem fortalecido as suas Forças Armadas, pelo que todos os grandes fabricantes de armamento – Estados Unidos, Rússia, França e Reino Unido – se aproximam de Narendra Modi e esquecem o seu patrocínio às actividades violentas dos fanáticos do RSS.
Na Índia é vulgar que as empresas publiquem anúncios laudatórios dirigidos aos dirigentes políticos… A propósito dos seus 12 anos de governo, a empresa Apollo Tyres Ltd publicou um anúncio de felicitações a Narendra Modi no jornal Hindustan Times, que tem sede em Nova Delhi. É apenas um entre muitos anúncios, talvez a desejar que Modi se conserve no poder por muito mais tempo.

segunda-feira, 3 de junho de 2024

José Mourinho sempre à caça dos milhões


O mundo do futebol é cada vez mais um mundo fantástico, que atrai multidões, que satisfaz emoções e que movimenta milhões, sobretudo no período que medeia entre o fim de uma época e o início da época seguinte. Nesse período, a que por vezes se chama o defeso, os clubes desportivos tentam reforçar as suas equipas de futebol através da contratação de jogadores e treinadores, ao mesmo tempo que procuram assegurar as suas fontes de financiamento, através de contratos para as transmissões televisivas ou para a exploração de espaços publicitários, que lhes garantam uma gestão desportiva e financeira equilibrada. Porém, a complicar a gestão dos clubes desportivos estão os adeptos e os seus entusiasmos, que exigem para o seu clube os melhores jogadores, os melhores técnicos e, naturalmente, os melhores resultados.
É nesse quadro que o Fenerbahçe Spor Kulübü, ou simplesmente Fenerbahçe, um importante clube turco de Istambul, tratou de contratar o treinador português José Mourinho. A fama deste treinador é tão grande que os jornais turcos esqueceram o Recep Tayyip Erdoğan, o Biden e o Trump, o Putin e o Zelensky, o Netanyahu e o Stoltemberg, porque, como diria o Camões, um Mourinho “mais alto se alevanta”. É ele que aparece em todas as primeiras páginas dos jornais. Ele é que é a notícia. Dizem os jornais que o treinador português vai ganhar 10 milhões de euros por época, acrescidos de bónus por objectivos atingidos. Não sei se ele é tão bom treinador como os dirigentes do Fenerbahçe pensam que é, mas sei que ele sabe muito de marketing e que sabe vender a sua imagem de marca como poucos, tendo levado os adeptos à loucura, como mostra a capa da edição de hoje do jornal desportivo fotoMaç.
Aos milhares de adeptos que o esperavam no Ulker Fenerbahçe Sukru Saracoglu Stadium, o novo ttreinador mostrou muita sabedoria e disse-lhes o que eles queriam ouvir: “Normalmente um treinador é amado depois de vitórias, mas neste caso sinto que sou amado ainda antes”, ou “esta camisola é a minha pele”, ou ainda, “os vossos sonhos são os meus sonhos”.

segunda-feira, 6 de maio de 2024

A promoção dos vinhos portugueses

A edição de hoje do jornal O Globo, que se publica no Rio de Janeiro, tem a sua primeira página ocupada com um anúncio da marca Vinhos de Portugal e informa que o maior evento de vinhos portugueses no Brasil se realizará no Rio de Janeiro entre os dias 7 e 9 de Junho. 
O evento seguirá depois para a cidade de São Paulo onde será apresentado entre os dias 13 e 15 de Junho no Pavilhão Ciccillo Matarazzo, uma infraestrutura de grande prestígio, que foi desenhada por Óscar Niemeyer no Parque Ibirapuera.
A marca Vinhos de Portugal/Wines of Portugal tem tido um assinalável sucesso comercial e resulta de uma iniciativa da ViniPortugal, uma organização interprofissional dos vinhos portugueses reconhecida pelo governo português, que foi fundada em 1996. A ViniPortugal faz a gestão daquela marca colectiva e tem como objectivo a promoção da qualidade e da excelência dos vinhos portugueses. A primeira campanha de marketing dos Vinhos de Portugal realizada no Brasil aconteceu em 2010 e a iniciativa agora anunciada já é a 11ª campanha, o que mostra o sucesso que os vinhos portugueses têm tido no Brasil ao longo dos anos. Esta importante parceria entre os produtores portugueses mostra-se muito activa e, nas mais recentes semanas, foram feitas apresentações e degustações de vinhos portugueses na cidade do México, em Toronto, Montreal, S. Francisco, Nova Iorque e Houston, a mostrar um dinamismo que não é habitual na economia portuguesa.  

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2024

A comunicação social como arma política

O jornal New York Post, um tablóide conservador americano que é o nono jornal de maior circulação nos Estados Unidos, é também o mais antigo jornal do país, pois foi fundado em 1801. Nos últimos tempos, o jornal tem-se destacado por tomar parte na campanha para as eleições presidenciais, por promover notícias e comentários contra o presidente e candidato Joe Biden. Há poucos dias chamava-lhe “velho” e, na sua edição de hoje, de forma depreciativa, chama-lhe “a marca”. Diz o jornal que Tony Bobulinski, um parceiro de negócios da família Biden, testemunhou no inquérito que está em curso visando Joe Biden, que foram feitos negócios em que “o vice-presidente Joe Biden era a marca que o filho Hunter e o irmão James estavam a vender por todo o mundo”, o que o jornal ilustra com uma embalagem de detergente da “marca Biden”.
Esta notícia é uma curiosidade em dois sentidos. Por um lado mostra como há quem se aproveite das suas ligações pessoais ou políticas para abrir portas e fazer negócios e, por outro, mostra como a imprensa escrita, ou televisiva, aproveita estes casos para difamar um qualquer cidadão com objectivos políticos, antes de ser provada a sua culpabilidade. Neste caso, uma declaração de um tal Bobulinshi serviu para “queimar Biden” perante os leitores do New York Post.
Por cá temos ambas as coisas como mostram dois casos recentes, isto é, temos gente que se aproveita do nome do pai para meter cunhas ou fazer negócios, mas também temos canais televisivos e jornalistas que se prestam a entrevistar ex-gestores da TAP, fora de tempo e com evidentes objectivos político-partidários.
A lição é simples: não há informação independente e temos que duvidar cada vez mais daquilo que dizem as televisões, os jornais e a internet.

segunda-feira, 25 de dezembro de 2023

Merry Christmas ou, antes, um Feliz Natal

Hoje é dia de Natal e, como escreveu o poeta António Gedeão, é o dia de ser bom e é o dia de pensar nos outros. Hoje é dia de Natal e, como também escreveu o poeta António Gedeão, é dia de Amor, de Paz, de Felicidade, de Sonhos e de Venturas.
Para a Cristandade é um dia de grande festa religiosa, com os seus múltiplos símbolos como o presépio, a “missa do galo”, a ceia de Natal, as músicas natalícia e os cumprimentos de “Boas Festas”, mas a sociedade de consumo cristã ou não cristã, adoptou o Natal como a grande festa do consumo, da troca de presentes, das grandes festas profanas, da árvore da Natal e das iluminações públicas e, sobretudo, dessa invenção comercial e sem enquadramento histórico que é o Pai Natal, viajando desde a Lapónia num trenó rebocado por uma rena, fazendo a distribuição de presentes às crianças.
O impacto comercial do Natal é cada vez maior e a imprensa, que faz a intermediação entre os produtos e os consumidores, designadamente através da Publicidade e das suas sugestivas técnicas, tem um papel importante nesta onda consumista natalícia, através de mensagens, umas directas e outras subliminares. Assim devem ser interpretadas algumas manchetes apresentadas por jornais, sobretudo americanos, como acontece na edição de hoje do The Standard-Times, que se publica na cidade de New Bedford, no estado de Massachusetts, que ao desejar um Feliz Natal aos seus leitores, está subliminarmente a mobilizá-los para a ideia do consumo e não para os valores intrínsecos do Natal.Apesar disso, o Natal ainda é um tempo de reflexão, em que se pensa na paz no mundo e na solidariedade entre os homens e as nações, para que não haja sofrimento, nem fome, nem destruição.
Naturalmente, são muitos os que desejam o fim das guerras na Ucrânia e em Gaza, que tanto sofrimento e tanta dor causam, perante a indiferença ou a cumplicidade de tantos dirigentes políticos mundiais.
Finalmente, no Natal cumprimentam-se os amigos e deseja-se que tenham saúde e sucesso nas suas vidas. É essa a mensagem que aqui fica para os leitores deste texto.

segunda-feira, 25 de setembro de 2023

Os jornais e o ex-jornalismo independente

Os tradicionais meios de comunicação social ou mass media são a imprensa, a rádio e a televisão, mas com o aparecimento de novos suportes como a internet e as redes sociais, a imprensa e a rádio têm perdido influência no espaço mediático. Dessa forma, esses meios de comunicação têm menos leitores e menos ouvintes, as suas audiências regridem, as suas receitas publicitárias descem e as suas equações económicas tornam-se mais difíceis de resolver. Por isso, o jornalismo e os jornais independentes são cada vez mais raros, sendo os leitores e os ouvintes confrontados com manipulações e inverdades de toda a ordem.
No caso dos jornais – mas não só nos jornais – a sobrevivência “obriga” a que os seus espaços cedam a lógica noticiosa e informativa, às lógicas da publicidade comercial e da propaganda política. Assim, para que possam “sobreviver”, os jornais disponibilizam e vendem cada vez mais o seu espaço para fins não informativos, deixando de ser suportes com notícias, para se transformarem em plataformas ao serviço de quem paga para vender produtos, serviços ou ideias. É, evidentemente, o fim do jornalismo independente.
No passado dia 19 de Setembro a primeira página do The New York Times era ocupada com um anúncio das malas de alumínio da marca Rimowa e no dia 21 de Setembro o diário espanhol ABC cedia toda a sua primeira página para expressar a sua gratidão à Coca-Cola, “por estos 25 años juntos”. Ontem foi a Folha de S. Paulo e outros jornais brasileiros, que publicaram em primeira página, um “informe publicitário” relativo à reunião do G20 do próximo ano no Rio de Janeiro, numa evidente cedência à propaganda do governo brasileiro.
Nestes casos, o The New York Times, o ABC e a Folha de S. Paulo puderam facturar muitos milhares para equilibrar a sua tesouraria, mas cada um deles “violou” a sua independência jornalística e abalou a sua credibilidade junto dos seus leitores.  

segunda-feira, 17 de julho de 2023

Com Favaios não há desmaios

A Publicidade é uma técnica de comunicação que codifica ideias e as transmite para o espaço público, para influenciar o comportamento das pessoas, levando-as a adquirir um bem ou um serviço, a adoptar uma determinada opinião ou a escolher o candidato a quem deve dar o seu voto. 
Tal como o Jornalismo, a Publicidade também obedece a regras de conduta ética e deve inspirar-se na verdade, embora estas actividades nem sempre cumpram essas regras, sobretudo em ambientes mediáticos do tipo “vale tudo”.
No complexo mundo da comunicação, a codificação de mensagens publicitárias é uma arte em que a imaginação é essencial para que os receptores distingam, reconheçam e adoptem certas mensagens e rejeitem outras mensagens de concorrentes ou de adversários. No quadro de intoxicação publicitária em que vivem as sociedades contemporâneas, a Publicidade por vezes distingue-se como uma expressão de inteligência e de oportunidade. Assim aconteceu um dia destes.
O Supremo Magistrado da Nação estava na Costa da Caparica, sentiu-se mal disposto e desmaiou, tendo sido transportado de urgência numa ambulância dos Bombeiros da Trafaria para o Hospital de Santa Cruz, em Carnaxide. Era um problema simples, recuperou rapidamente e, no seu habitual estilo de não estar calado, tratou de informar os jornalistas que desmaiou porque… “tomei o moscatel quente”.  
Nestas circunstâncias, a Adega de Favaios que produz o Moscatel do Douro, semelhante ao Moscatel que incomodou o Supremo Magistrado da Nação, veio dizer que “com Favaios não há desmaios”.
Isto é que é Publicidade inteligente e, provavelmente, eficaz.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2023

Ronaldo e a atração pelos dólares sauditas

O futebolista Cristiano Ronaldo conseguiu aos 37 anos de idade fazer o maior contrato alguma vez feito no mundo do futebol e esse facto é notícia porque se trata do português mais famoso que alguma vez existiu num país com quase nove séculos de História. Porém, à decisão de ir jogar para a Arábia Saudita não é alheio o enorme cheque que acompanha a assinatura do contrato com o Al-Nassr que, segundo tem sido divulgado, será de 500 milhões de euros por dois anos e meio, isto é, até Junho de 2025. Serão, portanto, cerca de 200 milhões de euros por ano o que fazem da sua remuneração a mais alta de sempre de um futebolista.
O Al-Nassr é o quinto clube na carreira de Cristiano Ronaldo, depois de ter jogado com as camisolas do Sporting, do Manchester United, do Real Madrid e da Juventus, tendo ganho cinco Taças dos Campeões Europeus e muitos outros troféus.
Ontem o jogador foi apresentado em Riade no estádio do seu novo clube, tendo chegado na companhia da mulher e de quatro dos seus cinco filhos, tendo sido recebido em delírio por cerca de 25 mil adeptos.
Num relato excitadíssimo, um jornalista português dizia ontem que Cristiano Ronaldo iria aparecer hoje nas primeiras páginas dos jornais de todo o mundo. Enganou-se. Exceptuando os jornais portugueses, apenas um jornal mexicano e um outro jornal dos Emirados destacou a apresentação de Cristiano Ronaldo em Riade como notícia de primeira página.
Provavelmente, a imprensa internacional considerou esta transferência de Cristiano Ronaldo, mais como uma operação de marketing internacional do que uma contratação futebolística, pois estará alinhada com as Nações Unidas que consideram que na Arábia Saudita, “os abusos dos direitos humanos estão descontrolados e incluem torturas, detenções arbitrárias e execuções”. É neste mundo que Ronaldo vai viver, embora anestesiado pelos dólares sauditas.

terça-feira, 15 de março de 2022

A Ucrânia, as balas e a comunicação

Na guerra que está a devastar a Ucrânia há todos os pontos de vista que nos chegam diariamente através de notícias e de comentários, com argumentos a favor ou contra cada uma das partes, uns mais moderados e outros mais radicais.
Hoje o jornal El País e alguns outros jornais, publicaram uma curiosa fotografia, captada durante a emissão do principal noticiário nocturno da televisão russa, intitulado Vremya, que é transmitido no Piervy Kanal. Enquanto a jornalista lia as notícias em directo, uma pessoa colocou-se atrás dela com um cartaz onde se lia, em russo e em inglês, “não à guerra”, “parem a guerra”, “não acredites na propaganda” e “russos contra a guerra”. Significa que, mesmo na Rússia, não há unanimidade quanto à guerra, como mostrou a mensagem exibida em directo na televisão russa. Aquela imagem tem o efeito de uma bala.
A comunicação mostra-se uma arma tão decisiva como os aviões, a artilharia ou os mísseis e, nessa medida, ocorre-nos uma famosa teoria sociológica ou modelo de comunicação que vingou sobretudo no período entre as duas guerras mundiais e que teve no sociólogo americano Harold Lasswell um dos seus principais teorizadores. Chamou-se a teoria hipodérmica ou a teoria das balas mágicas, porque no processo de comunicação compara a mensagem à injecção de uma seringa que afecta todo o corpo humano, ou a uma bala que atinge cada pessoa e a massa de público, produzindo poderosos efeitos políticos, sociais e culturais. Assim, através da propaganda, da publicidade e de outras técnicas, mais ou menos assumidas, a comunicação de massa tem características manipuladoras junto do público. Embora a teoria tenha sido criticada durante muitos anos, o facto é que veio a ter sucesso por considerar semelhantes os efeitos das mensagens e das balas.
Hoje, provavelmente, os mesmos académicos que criticaram a teoria de Lasswell poderão estar a rever as suas críticas.

sexta-feira, 4 de março de 2022

Há demasiados ‘outdoors’ a poluir Lisboa

Lisboa goza da fama de ser uma bonita cidade, mas não é só fama, pois é realmente uma bela cidade. Porém, é preciso que os burocratas não estraguem o trabalho que tem sido feito por muitos profissionais para a preservar, embelezar e modernizar.
Na praça Marquês de Pombal, uma das áreas mais movimentadas da cidade, foi colocado um significativo número de painéis publicitários, habitualmente conhecidos por outdoors, que foram instalados em volta da praça e que são muito inestéticos, o que dá um ar suburbano à cidade. É lamentável que a Câmara Municipal tenha autorizado essa instalação e tenha cedido a esse tipo de interesses comerciais, apenas para arrecadar uma receita suplementar para os seus cofres. Os serviços distraíram-se ou fizeram-se distraídos. O novo presidente, Carlos Moedas, ainda não deve ter visto este verdadeiro atentado à harmonia urbana, que parece estar a tomar conta de algumas zonas nobres da cidade e chegou agora ao coração da cidade.
Houve quem reagisse e não perdesse tempo e que, exactamente num desses painéis, escrevesse a frase Take this shit off. We want trees! 
Uma frase muito oportuna, que os lisboetas certamente aplaudem.
Espera-se que Carlos Moedas veja esta mensagem e mande rapidamente retirar os outdoors da praça Marquês de Pombal e de outras zonas nobres da cidade.

quarta-feira, 21 de julho de 2021

A publicidade insólita e absurda da SATA

Anúncio da SATA na ilha do Pico 
A Publicidade é uma forma de comunicação que, entre outros objectivos, visa intervir no espaço público para informar consumidores, mas também para chamar a atenção, suscitar o interesse e levar à aquisição do produto ou do serviço anunciado. A Publicidade é também uma técnica de comunicação e uma arte que codifica mensagens através de textos, de imagens e de sons, a fim de as tornar mais apetecíveis e mais compreensíveis pelos públicos a quem se destinam. Na óptica empresarial, a Publicidade é um investimento, pois representa uma aplicação de recursos com vista à obtenção de benefícios no futuro.
Estas considerações sobre a Publicidade vêm a propósito de uma mensagem publicitária insólita e absurda, difundida em algumas ilhas açorianas através de grandes cartazes outdoor pela companhia açoriana de transporte aéreo – a SATA ou Azores airlines. A SATA tem carreiras regulares entre os Açores e a Madeira que, provavelmente não têm rentabilidade comercial, nem constituem obrigação de serviço público, sendo uma opção de gestão cujo fundamento desconheço mas que, provavelmente, apenas visa satisfazer um qualquer ego.
As ligações aéreas entre os Açores e a Madeira não têm viabilidade comercial porque o mercado é limitado. A SATA não conseguirá os passageiros de que precisa. Assim, em vez de recomendar aos açorianos que visitem as várias ilhas do arquipélago, vai por outro caminho e recomenda-lhes a Madeira – um lugar onde tu pertences!, mostrando-lhes uma imagem de miradouros e montanhas, que é coisa que algumas ilhas bem conhecem. Ou será que esta mensagem é para lembrar aos turistas que visitam os Açores, que existe a Madeira que é um destino turístico mais apetecível?

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

O ben-u-ron, a dor de cabeça e a Mona Lisa

A Publicidade é uma técnica de comunicação que codifica ideias e as transmite para o espaço público, para influenciar o comportamento do público, ou de uma parte dele, levando-o a adquirir um bem ou um serviço, a adoptar uma determinada opinião e, até, a escolher o candidato em que deve depositar o seu voto. No complexo mundo da comunicação, a codificação das mensagens publicitárias é uma arte em que a imaginação é essencial para que o receptor distinga e reconheça umas mensagens mais interessantes do que outras. Por isso, os anunciantes procuram mostrar que o seu produto lava mais branco ou anda mais rápido, que a sua viagem é mais confortável, que ninguém lhe oferece melhores condições de crédito ou que o seu candidato é o melhor. Nesta corrida para ganhar a preferência dos consumidores, dos utentes, dos leitores, dos telespectadores, dos sócios ou dos eleitores, a mensagem publicitária recorre à criatividade, mas muitas vezes é mentirosa e manipuladora, pelo que nos surpreende cada vez menos. A sua função traduz-se muitas vezes por um modelo simplificado, o chamado modelo AIDA, isto é, pretende chamar a atenção, despertar o interesse, suscitar o desejo e levar à aquisição, mas os exageros dos publicitários por vezes não despertam o interesse e até provocam a rejeição da mensagem.
Tudo isto vem a propósito do anúncio da bene farmacêutica, Lda, a filial portuguesa da companhia alemã bene-Arzneimittel GmbH que, para vender o ben-u-ron – que existe em todas as casas portuguesas – até conseguiu pôr a Mona Lisa ou Gioconda, a obra-prima de Leonardo da Vinci, com dores de cabeça ou enxaqueca e a suspirar por um ben-u-ron.
Trata-se, realmente, de uma ideia muito criativa e que não atenta com nenhuma das regras do código deontológico da Publicidade.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

O ano de 2020 termina. Mejor año nuevo!

Hoje é o último dia do ano de 2020 e, por todo o mundo, muitos jornais despedem-se de um ano que querem esquecer e transmitem mensagens de esperança no ano de 2021, que se inicia dentro de poucas horas. De entre essas mensagens de esperança para o novo ano, destacamos a mensagem bem simples que aparece hoje na capa dos principais jornais de Madrid e de Barcelona. Diz apenas Mejor año nuevo e vem assinada com um pequeno M, quase escondido, mas que a generalidade dos leitores identifica espontaneamente com a Movistar, a marca comercial de grande notoriedade da operadora de telefonia móvel do grupo Telefónica, que opera em Espanha e em vários países latino-americanos como a Argentina, Chile, Colômbia, Costa Rica, Equador, El Salvador, Guatemala, México, Panamá, Peru, Uruguai, Venezuela e Brasil, neste caso através da operadora Vivo. É uma presença publicitária de grande criatividade que reforça a imagem de marca da Movistar e que aumenta os níveis de confiança da sua clientela. 
Em situações de crise económica e social como aquela que o mundo atravessa, este tipo de mensagens publicitárias não se destina a aumentar as vendas ou a angariar clientes, mas apenas a reforçar o prestígio das marcas e a gerar uma confiança acrescentada no público. Com esta mensagem a desejar mejor año nuevo, a Movistar reforça a sua presença junto do público e deixa no subconsciente dos seus clientes actuais ou potenciais, a ideia de que é melhor e mais confiável do que as outras operadoras de telefonia móvel que operam em Espanha - a Orange, a Vodafone e a Yoigo.
E nós, tal como a Movistar, também desejamos mejor año nuevo aos nossos leitores.

sábado, 19 de outubro de 2019

O Luxemburgo e a sua marinha mercante

O pequeno grão-ducado do Luxemburgo que tem uma superfície que não chega a ser metade do Algarve e que não tem qualquer ligação ao mar, tem hoje uma importante marinha mercante e cerca de 20.000 inscritos marítimos, segundo informa o jornal luxemburguês Le Quotidien.
Há 217 navios inscritos no registo luxemburguês, representando cerca de 1,41 milhões de toneladas mas, no mínimo, esta realidade parece ser um paradoxo.
Tudo começou em 1990 quando o Luxemburgo decidiu que a sua economia, até então especializada nos sectores financeiro e dos serviços, se lançasse no sector marítimo, como forma de dar oportunidades à sua banca de investimento e de assegurar uma receita fiscal aos cofres luxemburgueses.
Curiosamente, o primeiro navio registado na praça luxemburguesa foi o Prince Henri, um navio-transporte de produtos químicos que antes estava registado na Bélgica, mas a partir de então a procura pela praça luxemburguesa aumentou, apesar de ser uma opção mais cara do que o registo nas praças de Malta ou do Chipre.
Porém, para entrar neste mercado do registo marítimo o Luxemburgo apostou na diferenciação e decidiu não aceitar o registo dos grandes petroleiros com o argumento de que não querem ser coniventes com a poluição causada pelos acidentes marítimos. Além disso, só aceita que o pavilhão luxemburguês seja içado em navios novos, modernos e não poluentes, devendo o proprietário ou armador ter uma base empresarial ou uma sucursal em território luxemburguês. Significa, portanto, que o Luxemburgo se inspirou nas técnicas de marketing e apostou num posicionamento e numa diferenciação do seu “produto”, o que se traduziu já no registo de 217 navios.
Com este negócio inovador mas paradoxal, que é um país sem mar ter uma marinha, o Luxemburgo considera ter aberto mais uma porta para as suas actividades económicas e para o seu melhor posicionamento no mundo.

sábado, 4 de maio de 2019

EUA: a campanha eleitoral já começou

A edição do New York Post, um dos mais antigos jornais americanos, anuncia hoje que o desemprego nos Estados Unidos é de 3,6%, o que corresponde à mais baixa taxa de desemprego americano desde Dezembro de 1969. Além disso, é salientado que os salários estão a crescer e que, contrariamente ao que afirmam os Democratas, as classes médias e os pobres americanos não estão a perder poder de compra. O jornal reproduz em primeira página uma frase de Donald Trump em que, com a sua costumada fanfarronice, afirma que “nós somos a inveja do mundo”. Parece mesmo uma página de publicidade paga.
O New York Post é um jornal alinhado à direita, é considerado populista e apoiou a candidatura de Donald Trump nas eleições presidenciais de Novembro de 2016. Nessa altura o seu editor-chefe era Col Allan, um experiente jornalista e confesso admirador de Donald Trump, que foi premiado pela sua dedicação e foi trabalhar para junto do seu patrão e principal accionista do jornal, o australo-americano Rupert Murdoch, também ele amigo próximo do Donald.
Porém, porque os americanos estão a cerca de 18 meses das eleições presidenciais de 2020, Rupert Murdoch tratou de recolocar Col Allan como editor-chefe do jornal e é nessa lógica que a primeira página da edição de hoje já se parece com um anúncio de apoio à candidatura de Donald Trump, ou mesmo, com um indirecto apelo ao voto no actual presidente.
Portanto, os americanos já estão em campanha paras as eleições presidenciais de 3 de Novembro de 2020 e, segundo dizem algumas crónicas, para o Donald agora apenas contam essas eleições e não lhe interessam outros temas, como a Venezuela ou a Coreia, nem tão pouco Putin ou Kim Jong-un.

sábado, 9 de fevereiro de 2019

A boina do Che ainda potencia negócios

A edição deste fim de semana do jornal La République des Pyrénées que se publica na pequena cidade francesa de Oloron-Sainte-Marie, destaca na sua primeira página a famosa fotografia do guerrilheiro argentino Che Guevara da autoria de Alberto Korda e a dúvida surgiu naturalmente: porquê esta fotografia do Che numa cidade perdida dos Pirinéus e porquê agora?
A cidade de Oloron está situada nos Pirinéus Atlânticos, na região administrativa francesa da Nova Aquitânia e é conhecida pelo seu artesanato têxtil e, em especial, pelo fabrico de boinas. A boina terá nascido em meados do século XIX e conta-se que Napoleão III, estando uma vez em Biarritz, perguntou que coisa era aquela que os bascos usavam na cabeça e que lhe responderam que eram boinas. Ele terá dito que então eram boinas bascas e, como ninguém ousou contrariá-lo, ficaram para sempre as boinas bascas.
Uma das mais conhecidas marcas de boinas é a Laulhère, fundada em 1840 por Lucien  Laulhère que, actualmente, tem oito fábricas na cidade e vinte em toda a França. É o mais famoso fabricante de boinas e, de facto, uma boina com origem chez Laulhère é um símbolo de distinção e de bom gosto. O ponto alto da moda da boina foi nos anos 1960, quando a Laulhère fabricava um milhão de boinas sobretudo para homens e 400 mil boinas para o Exército, mas actualmente a boina passou de moda e a produção actual é de cerca de 40 mil boinas por ano, sendo 30 mil tradicionais para homens e 10 mil para o Exército, para além das bérets-mode para as senhoras.
Parece, portanto, que o negócio das boinas já não é o que era. Porém, o marketing pode fazer milagres e, nesse aspecto, a descoberta que a mítica boina que o Che Guevara exibe na fotografia de Korda foi fabricada chez Laulhère, em Oloron, bem pode ser a chave da recuperação do negócio daquela marca. É o marketing!

quinta-feira, 4 de outubro de 2018

Theresa May e o marketing político

Theresa May, a líder do Partido Conservador e primeira-ministra da Grã-Bretanha, falou ontem aos seus correlegionários em Birmingham, durante o congresso do seu partido, poucos minutos depois do deputado James Duddridge lhe ter apresentado a demissão do governo e de ter afirmado que ela não é pessoa certa para liderar o partido e o país.
Muitos observadores consideram que a atitude de Duddridge está em linha com as posições de Boris Johnson, que se demitiu do cargo de Ministro dos Negócios Estrangeiros e se prepara para se apresentar como alternativa à liderança dos conservadores.
Neste quadro de críticas e numa altura em que o ambiente é pesado e incerto no Partido Conservador e na Grã-Bretanha pela falta de acordo com Bruxelas relativamente ao Brexit, os congressistas estavam muito ansiosos para ouvir Theresa May num momento particularmente difícil. Porém, por vezes o marketing político pode fazer milagres e foi isso que aconteceu:
Theresa May subiu ao palco ao som de “Dancing Queen”, dos Abba, não deixando de exibir boa disposição e de ensaiar alguns passos de dança. Mesmo antes de falar, já tinha conquistado a plateia que a aplaudiu com entusiasmo. Os congressistas gostaram e os passos de dança de Theresa May encheram as redes sociais, enquanto toda a imprensa britânica os reproduziu em primeira página.

quinta-feira, 12 de julho de 2018

Ronaldo continua a construir uma lenda

Estava prevista para a próxima segunda-feira, quando estivessem a esgotar-se os últimos episódios do Mundial de Futebol com festa em Paris ou em Zabreg, a apresentação em Turim de um novo jogador da Juventus Football Club: Cristiano Ronaldo. Foi isso que anunciou hoje La Gazzetta dello Sport, ao referir uma verdadeira presentazione show con CR7.
Porém, a mega-apresentação que estava a ser preparada com contornos hollywoodescos foi suspensa, segundo uns devido a dificuldades logísticas e de segurança na preparação de uma festa grandiosa e, segundo outros, apenas para não agravar os problemas causados pela greve de protesto que foi desencadeada pelos sindicatos da FIAT.
A transferência de Cristiano Ronaldo do futebol espanhol para o futebol italiano é um acontecimento inesperado que encheu as primeiras páginas de muitos jornais, sobretudo em Espanha e na Itália. Depois de nove anos no Real Madrid onde se tornou um ídolo e uma referência, é caso para perguntar porquê esta transferência de um jogador com 33 anos de idade pelo qual foram pagos ao Real Madrid mais de uma centena de milhões de euros e vão ser pagos ao jogador todos os anos, contratualmente, 30 milhões de euros. A resposta é simples: é uma grande operação de marketing que visa mobilizar a Juventus e os seus adeptos, potenciar novos negócios de publicidade e merchandising e, em última análise, transferir de Espanha para a Itália alguns dos centros de interesse do futebol mundial. Com Ronaldo em Turim, a Itália vai esquecer-se que nem sequer esteve no Mundial da Rússia e o mundo vai deixar de pensar que futebol é apenas Real Madrid e Barcelona ou o United e o City de Manchester. Ronaldo vai esquecer o fisco espanhol e, mais do que os golos que vai marcar, a Juventus comprou a marca Ronaldo porque precisa dela para se reerguer e para reerguer o futebol italiano no contexto do futebol mundial.

terça-feira, 27 de março de 2018

A publicidade institucional na Austrália

The Australian é um jornal que se publica em Sydney e que é propriedade de Rupert Murdoch, o famoso magnate da comunicação, sendo também o jornal de circulação nacional mais vendido na Austrália. Na sua edição de hoje o jornal não resistiu e cedeu a sua primeira página à Fincantieri Australia para publicar um anúncio publicitário, certamente por muito dinheiro.
A Fincantieri – Cantieri Navali Italiani S.p.A. é uma das maiores empresas mundiais de construção naval que tem sede em Trieste e que está vocacionada para a construção de navios de grande porte e de alta tecnologia, incluindo navios militares, tendo sido escolhida pelo governo australiano para conceber e construir nove novas fragatas para a Royal Australian Navy, num programa designado por SEA 5000. Por razões operacionais ou por obrigações do contrato, a empresa criou a Fincantieri Australia e instalou escritórios em Camberra e Adelaide, até porque os navios serão construidos em estaleiros australianos e com mão-de-obra maioritariamente australiana, pelo que já assinou diversos acordos com os sindicatos australianos.
Nove fragatas custam muito dinheiro e este negócio da indústria naval italiana deve ter deixado as concorrências francesa, espanhola, inglesa, alemã e outras mais, absolutamente roídas de inveja. Porém, o sucesso dos italianos neste negócio tem como contrapartida a transferência da sua tecnologia e do seu know how para a Austrália.
A importância deste negócio é tal que a Fincantieri Australia decidiu fazer uma campanha de publicidade institucional para aumentar a sua notoriedade e criar uma boa imagem junto da opinião pública, das autoridades decisoras, dos sindicatos e de outros parceiros deste negócio de muitos milhões e de muitos anos. Foi por isso que deve ter pago muito dinheiro para ocupar a primeira página do The Australian.