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sexta-feira, 4 de março de 2022

Há demasiados ‘outdoors’ a poluir Lisboa

Lisboa goza da fama de ser uma bonita cidade, mas não é só fama, pois é realmente uma bela cidade. Porém, é preciso que os burocratas não estraguem o trabalho que tem sido feito por muitos profissionais para a preservar, embelezar e modernizar.
Na praça Marquês de Pombal, uma das áreas mais movimentadas da cidade, foi colocado um significativo número de painéis publicitários, habitualmente conhecidos por outdoors, que foram instalados em volta da praça e que são muito inestéticos, o que dá um ar suburbano à cidade. É lamentável que a Câmara Municipal tenha autorizado essa instalação e tenha cedido a esse tipo de interesses comerciais, apenas para arrecadar uma receita suplementar para os seus cofres. Os serviços distraíram-se ou fizeram-se distraídos. O novo presidente, Carlos Moedas, ainda não deve ter visto este verdadeiro atentado à harmonia urbana, que parece estar a tomar conta de algumas zonas nobres da cidade e chegou agora ao coração da cidade.
Houve quem reagisse e não perdesse tempo e que, exactamente num desses painéis, escrevesse a frase Take this shit off. We want trees! 
Uma frase muito oportuna, que os lisboetas certamente aplaudem.
Espera-se que Carlos Moedas veja esta mensagem e mande rapidamente retirar os outdoors da praça Marquês de Pombal e de outras zonas nobres da cidade.

sábado, 1 de fevereiro de 2020

As singulares mensagens dos ‘graffiti’

Lisboa - Alameda Dom Afonso Henriques
Os graffiti são simples textos ou desenhos feitos nas paredes ou em outras superfícies, por vezes com grande arte e criatividade, mas que são práticas artísticas marginais que sujam e poluem a paisagem urbana, os monumentos, os edifícios e os transportes públicos. Porém, há que reconhecer que os graffiti estão na moda e, nalgumas situações, surpreendem mesmo os mais avessos a este tipo de mensagens, umas vezes pela sua qualidade artística, outras vezes pelo conteúdo da sua mensagem e outras, ainda, pelo humor que nos transmitem.
Na alameda Dom Afonso Henriques e nas proximidades da Fonte Luminosa, em Lisboa, encontra-se uma dessas mensagens que nos atraem, não tanto pelo seu teor anarquista, em que o autor se afirma contra toda a autoridade imposta pelas estruturas do Estado ou da Sociedade, mas em que aceita com reverência a carinhosa autoridade da sua mãe – contra toda a autoridade excepto a da minha mãe.
Esta mensagem é inteligente e bem humorada e, por isso, aqui a destaco.

quinta-feira, 5 de julho de 2018

As bandeiras como símbolo de gratidão

Num país de forte emigração como é Portugal, há os emigrantes que regressam em definitivo e há aqueles que regressam para passar férias e para matar saudades.
Como expressão de gratidão à terra que os acolheu ou como exibição de um sucesso que a emigração proporcionou, muitos desses emigrantes criaram o hábito, que já tem o estatuto de tradição, de hastear a bandeira do país de acolhimento ao lado da bandeira nacional.
Assim, não é raro, sobretudo no Verão, encontrarmos algumas casas nas aldeias portuguesas em que são visíveis as bandeiras de alguns dos países de acolhimento, como por exemplo da França e da Alemanha.
Porém, esta prática tem uma singular expressão nos Açores. Os Açores são historicamente uma terra de emigrantes e nas suas nove ilhas proliferam os sinais que nos recordam essa realidade e são muito frequentes as bandeiras de Portugal e da Região Autónoma, muitas vezes acompanhadas pelas bandeiras dos Estados Unidos da América e do Canadá. Ontem, na ilha do Pico, fui confrontado com uma expressão de amizade luso-canadiana que me era desconhecida: uma bandeira-homenagem em que o escudo português se sobrepõe à folha do plátano-bastardo (Acer pseudoplatanus) que é a árvore nacional do Canadá. A curiosa bandeira flutuava ao vento junto da bandeira da Região Autónoma dos Açores e tratei de a registar próximo da vila da Madalena do Pico.

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

A chocante crueldade da guerra na Síria

A fotografia de Omran Daqneesh, um menino de 5 anos de idade que reside na cidade síria de Aleppo, foi publicada nas primeiras páginas dos principais jornais mundiais e, por exemplo, o jornal escocês The National publicou-a a seis colunas. A fotografia mostra Omran atordoado e coberto de pó e de sangue, depois de ter sido ferido e recolhido numa ambulância, na sequência de um bombardeamento aéreo efectuado sobre a cidade de Aleppo e tornou-se um símbolo da crueldade da guerra que se trava desde 2011.
Tal como muitos milhares de crianças sírias, o menino Omran não sabe o que é a paz, pois nunca conheceu outra coisa que não fosse a guerra. Esse facto tem que ter o repúdio da Humanidade e justifica que sejam censurados com firmeza os países e os dirigentes que têm alimentado a guerra, sem ter encontrado soluções para acabar com ela.
No caso concreto da guerra na Síria a  destruição humana e material é catastrófica. Depois de mais de cinco anos de guerra deixou de haver protagonistas bons e protagonistas maus. São todos maus e as grandes potências serão certamente as principais responsáveis por terem incentivado a guerra e não terem conseguido pará-la. Na actual fase do conflito é cada vez mais difícil perceber quem combate quem e quem apoia quem. O que é evidente é que a crueldade da guerra é cada vez maior.
A figura de Omran Daqneesh vai ficar gravada na memória de quem a viu e bom seria que fosse vista pelos dirigentes de Damasco, Ancara, Moscovo, Nova Iorque, Pequim, Londres, Paris, Teerão e tantas mais capitais. Para que actuem rapidamente na procura da paz.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Uma publicidade peculiar e baratinha

Na Baixa Pombalina, que provavelmente constitui a mais atraente área histórica e comercial da cidade de Lisboa, existe uma boa concentração de restaurantes, pastelarias e casas de petiscos ou tascas, umas mais tradicionais e mais antigas, outras mais inovadoras e mais modernas. Pode dizer-se que na Baixa Pombalina estão presentes os sabores de quase todo o mundo, embora naturalmente sejam a gastronomia e a doçaria portuguesas as que mais se destacam.
Muitas casas, algumas delas centenárias, despertam o interesse dos gourmets do paladar apurado e do gosto pelas especialidades da gastronomia e da doçaria portuguesas. Algumas dessas casas são muito famosas, como acontece com os restaurantes Gambrinus, Martinho da Arcada ou João do Grão. Igualmente famosas são as pastelarias, como por exemplo a Ferrari, a Confeitaria Nacional, a Casa Brasileira ou a Casa Chinesa. Porém, as tascas especializadas em “vinhos e petiscos”, onde o visitante pode provar alguns dos mais apreciados petiscos portugueses, não são apenas famosas, como são um sinal identitário da Baixa Pombalina. Assim sucede, por exemplo, com a Tendinha, A Ginginha ou a Nova Pombalina.
A Nova Pombalina localiza-se na Rua do Comércio e, de vez em quando, utiliza uma peculiar publicidade que, além do mais, é baratinha. Junto a uma travessa de bem tostado leitão e duas cestas de apetecíveis bolas de pão caseiro cozidas em forno de lenha, por vezes está colada no vidro da respectiva montra uma toalha de papel onde, de forma insinuante, é pedido a quem passa: por favor não me lamba a montra.
Não sei se a frase é eficaz como mensagem publicitária, mas é certamente muito peculiar.

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Humor inteligente, oportuno e divertido


Esta manhã em Lisboa, quando a partir do Saldanha eu descia a avenida em direcção às Picoas, fui surpreendido ao verificar que a Avenida Fontes Pereira de Melo tinha sido “rebaptizada” e que passara a ser a Avenida Álvaro Santos Pereira, “grande obreiro da reindustrialização de Portugal”. A “nova placa sinalética” impressa sobre papel foi colocada em vários locais de boa visibilidade e, naturalmente, percebi que se tratava de uma iniciativa satírica dedicada ao ministro que pediu para ser apenas Álvaro. 
Depois, mais abaixo, verifiquei que a Avenida da Liberdade passou a ser Avenida Miguel Relvas, "herói da liberdade de expressão” e vim a saber depois que, durante a noite, um grupo de cidadãos anónimos “tinha alterado” a toponímia de algumas avenidas, ruas e praças da cidade, para celebrar o segundo aniversário do governo, conforme uma mensagem que esse mesmo grupo fez chegar ao semanário “Expresso”.
Soube, também, que para além daqueles dois gurus do governo, houve outros governantes que foram escolhidos pelo humor daquele grupo de cidadãos anónimos: a Praça dos Restauradores e o Rossio tornaram-se a Praça Pedro Passos Coelho, o "restaurador da independência financeira de Portugal" e a Rua Augusta foi baptizada como Rua Vítor Gaspar, o "grande inspirador do Portugal Novo". Os autores da iniciativa não resistiram e também elegeram os "enviados especiais" do Goldman Sachs, respectivamente António Borges, o "grande ideólogo da competitividade de Portugal" e Carlos Moedas, o “zeloso guardião do ajustamento de Portugal”.
Eu aplaudo esta inteligente, oportuna e divertida sátira a mostrar que, mesmo na eminência de um naufrágio, ainda há espaço para o humor.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Amarração por Amor

Em Lisboa, na Rua Tenente Espanca, mesmo em frente das instalações da Fundação Gulbenkian, foi colocado um conspícuo anúncio relativo a um problema concreto (a desarmonia conjugal ou o arrefecimento dos afectos) e à venda de um serviço que resolve esse problema (a Amarração por Amor). O serviço é prestado por alguém que se intitula “especialista em unir casais” e é, claramente, um caso que se enquadra na Lei da Oferta e da Procura!
Aparentemente é um serviço que se baseia em artes mágicas e que trata das ditas amarrações e de encantamentos, exorcização de más influências, descarrego de mau-olhado, pactos para enriquecimento,  desligamento de enguiços, rituais de união perpétua, eu sei lá que mais. Habitualmente, tudo isto era anunciado com alguma discrição, através do chamado pequeno anúncio de jornal ou da entrega directa de cartões, flyers ou folhetos, mas agora assumiu um carácter mais profissionalizado e chegou ao espaço público com grandes cartazes. É uma novidade. Há clientela! Contudo, a curiosidade maior será, porventura, o “pagamento após resultado”, isto é, o serviço só ser pago quando a “amarração” estiver assegurada.
Se este serviço de Amarração por Amor fosse utilizado pelos nossos políticos, sobretudo quando fazem coligações, não aconteceriam tantos amuos como aqueles a que temos assistido entre os pedros e os paulos. Além disso, se o nosso pagamento que tem a forma de impostos, fosse feito após o resultado, certamente muito dinheiro pouparíamos.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

O povo diz que o regime apodreceu

Em Cascais, na parede que corre ao longo do Passeio Maria Pia e liga a Avenida Dom Carlos I à Marina de Cascais, passando junto do Clube Naval e do Marégrafo, foi pintado um graffiti.
Esse graffiti  revela o sentimento de desagrado que começa a tomar conta dos portugueses e cujo texto compara a esperança de um certo passado e o desencanto do nosso presente. Diz o seguinte:

Otelo amigo o regime apodreceu! Derrubemo-lo!

O texto evoca um tempo passado. O tempo de Otelo e o simbolismo do 25 de Abril de 1974. Um tempo de boas memórias. De liberdade e de mobilização popular. De criatividade e de alegria. De esperança no futuro. De confiança.
Mas o texto também evoca um tempo presente. Compara o entusiasmo dos dias de 1974 com os dias angustiantes por que passamos em 2012 e reflecte a frustração, o desencanto, a indignação popular, a ameaça da pobreza e a perda de confiança que nos invade, apelando à mudança.
Para a geração que passou pelos dois tempos e a quem estão agora a roubar o que mensalmente pouparam ao longo de muitos anos, este graffiti é, sobretudo, um grito de angústia e um acto de protesto contra tudo o que nos está a acontecer.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Médicos privados ou privados de médicos

Os graffiti são inscrições caligrafadas ou desenhos pintados em paredes que, por todo o mundo, se enquadram na paisagem urbana das grandes cidades. Antigamente constituíam contravenções às normas estabelecidas, mas actualmente são aceites e até são considerados como uma expressão de arte pública ou da novíssima street art.
Em Portugal os graffiti invadiram o espaço público a partir de 1974, constituindo um suporte para inscrições de carácter político, muitas das quais estão conservadas nas nossas memórias e ficaram registadas fotograficamente em algumas edições, incluindo algumas obras clássicas de História de Portugal.
Porém, nos últimos anos os graffiti têm degenerado e têm servido de expressão a grafiteiros e tribos urbanas que causam uma verdadeira poluição gráfica nas nossas cidades, não poupando sequer o património histórico-cultural. No entanto, alguns grupos militantes ainda utilizam o graffiti de conteúdo político que, para ser eficaz, costuma ter algum humor.
Numa discreta rua secundária de Sintra está um graffiti com a seguinte mensagem:
Os ricos com médicos privados
Os pobres privados de médicos
Numa altura em que o acesso aos cuidados de saúde está mais dificultado devido às restrições orçamentais em vigor, a mensagem é não só curiosa mas também prenunciadora de um novo e preocupante aperto social.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

A utilidade de uma informação – II

Na chamada Zona Industrial do Casal da Areia, próximo de Alcobaça, situam-se as instalações da Veco Design - Fábrica de Parques Infantis e Mobiliário Urbano, uma empresa portuguesa a que já foi atribuído o prestigioso estatuto de PME Excelência. As suas instalações ocupam cerca de 10 mil metros quadrados e constam de uma fábrica e de um armazém, além de um show-room permanente, em que se destacam o colorido e o design dos equipamentos que a empresa comercializa, não só em Portugal, mas também em Angola, Espanha, França, Marrocos, Brasil e Alemanha. É uma empresa bem sucedida e, talvez por isso, cobiçada pelos amigos do alheio. Porém, num enorme cartaz colocado junto da sua porta principal, a empresa avisa os senhores ladrões que não temos telemóveis, portáteis ou dinheiro para roubar, “mas temos trabalho para dar!...” É uma informação útil que certamente desincentiva os ladrões, mas com o elevado desemprego que temos, a Veco Design corre o risco de ver milhares de desempregados à sua porta a procurar o trabalho que a empresa afirma ter para dar.

sábado, 31 de dezembro de 2011

A utilidade de uma informação - I

À entrada do lado nascente da vila da Benedita, num local conhecido por Moinho Velho, encontra-se uma estação de serviço que se apresenta sob a marca Oleofat.
Aparentemente, a estação não tem nada que, de forma especial, a distinga de tantas outras que se encontram disseminadas ao longo das estradas do país.
Porém, antecipando-se a uma eventual visita a esta estação dos “amigos do alheio”, foi afixada uma placa bastante conspícua junto das respectivas bombas de abastecimento de combustível que, recorrendo a um tratamento de grande deferência, presta uma informação de grande utilidade para os Srs. Ladrões.
A gerência da Oleofat parece enfrentar os tempos com realismo e é, de facto, muito bem humorada!