sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Um navio que evoca a glória ibérica

Durante o próximo fim-de-semana, a nau Victoria que é a réplica da nau que concluiu a primeira volta ao mundo da História (1519-1522), estará atracada no porto andaluz de Almeria e poderá ser visitada pelo público. Esta visita está enquadrada numa viagem pelas costa mediterrânica espanhola e, antes de Almeria, o navio esteve em visita aos portos de Sanlúcar, Algeciras e Fuengirola, onde recebeu milhares de visitantes, sobretudo estudantes, que puderam conhecer a história do navio e da sua memorável viagem que, como se sabe, foi inicialmente comandada pelo navegador português Fernão de Magalhães e na qual participaram muitos marinheiros portugueses.
A nau Victoria foi construida entre 2004 e 2006 e já realizou uma volta ao mundo com escala em 17 países, numa viagem de representação nacional e de promoção da cultura e da História de Espanha.
É muito interessante esta iniciativa espanhola de divulgar a sua história marítima através da apresentação da nau Victoria por diferentes portos e, por essa via, estimular o interesse da juventude pelo mar e contribuir para o reforço da coesão nacional, numa acção a que se associa a imprensa da cidade de Almeria. Porém, teremos sempre que lembrar que a glória desta viagem é ibérica, porque na sua preparação e execução houve uma grande participação portuguesa que, por vezes, é esquecida pelos nossos vizinhos.
Aqui entre nós, este tipo de acções de representação não é inédita, embora não tenhamos, nem sei se devíamos ter, uma réplica da nau São Gabriel na qual Vasco da Gama chegou à Índia em 1498. Contentemo-nos com o navio-escola Sagres!

Portugal e a tensão financeira mundial

Vivemos um “tempo de incerteza” como disse, muito sabiamente, o nosso ainda Presidente da República na sua mensagem de Ano Novo, decerto por ter lido que o mundo enfrentava riscos crescentes de entrar em recessão, devido às crises nos países emergentes e em especial na China. A incerteza resulta de muitos factores que intranquilizam o mundo, desde a desaceleração da economia chinesa à guerra na Síria, passando pela crise política brasileira, pelas eleições americanas, pelo problema dos refugiados na Europa e até pelas recentes dúvidas sobre a solidez do Deutsche Bank que, entre os dias 5 e 11 de Fevereiro, viu as suas cotações cairem 9,3%.
O jornal inglês City A.M. (Business with Personality!) é um dos muitos periódicos europeus que hoje analisa a última semana e que destaca a queda das cotações dos principais bancos europeus. O jornal francês Les Echos fala na débâcle boursière, nos banques attaquées e diz que a Société Génerale plonge. Na Espanha, segundo o El Economista, na semana de 8 a 11 de Fevereiro a queda bolsista atingiu 8,86% e é noticiado que, juntos, o Santander, o BBVA e a Telefonica perderam cem mil milhões de euros, isto é, mais de metade do PIB português.
As bolsas estão em vias de entrar em crash e a finança internacional está assustada. Esses é que são os sinais da incerteza mas, num artigo intitulado “Les raisons d’un krach”, o jornal Les Echos destaca hoje a derrocada das bolsas mas, lamentavelmente, vem dizer escrever a frase “le Portugal au centre des inquiétudes”. Como é possível dizer-se uma coisa destas? Como é possível que com tanta incerteza no mundo e tanta falta de rumo na Europa, sejam algumas centenas de milhões de euros do Orçamento português  e dois ou três décimos de défice a perturbar Jean-Claude Juncker, Pierre Moscovici, Wolfgang Schäuble e Jeroen Dijsselbloem?
Estamos realmente perante uma violenta tempestade que ameaça a Europa com a guerra, com milhares de refugiados, com o brexit, o desemprego maciço, o envelhecimento demográfico, os nacionalismos e os autoritarismos, mas estes dirigentes-burocratas vivem obcecados com os países do sul que erguem a sua voz e escolhem um caminho de dignidade. É que eles não estão preocupados com Portugal mas, depois da Grécia, vivem agora assustados com o que pode acontecer com a Espanha e com a Itália.