quinta-feira, 17 de março de 2022

A Ucrânia e os negócios do armamento

A Crimeia é uma península situada na orla setentrional do mar Negro e uma república autónoma da Ucrânia, mas foi invadida e anexada pela Rússia em 2014, na sequência do movimento conhecido por Euromaidan, que destituiu o presidente Yanukovych. Nessa altura, o conflito entre russos e ucranianos, ou entre a ligação à Rússia ou à União Europeia, acentuou-se e a Rússia decidiu ocupar a Crimeia. Essa invasão foi condenada pela comunidade internacional, especialmente pelos países europeus, mas a Rússia argumentou com os fortes laços históricos e culturais que mantinha com a Crimeia e com os resultados de um referendo. Porém, os Estados Unidos e a União Europeia consideraram esse referendo ilegítimo e, em Julho de 2014, anunciaram um pacote de sanções contra a Rússia em que se incluía o embargo de armamento, que proibia “a venda, fornecimento, transferência ou exportação directa ou indirecta de armas e material conexo”.
Passaram-se oito anos e a Rússia invadiu o território da Ucrânia, dando origem a uma guerra de grande violência, com muita destruição, muitos refugiados e muita apreensão. Numa altura em que é unânime a condenação da Rússia e em que se procura o cessar-fogo e a paz, a notícia de que um terço dos estados-membros da União Europeia exportou armamento para a Rússia, violando o embargo decretado em 2014, é muito chocante e revela a hipocrisia que domina as relações internacionais. A informação foi hoje divulgada pelo jornal Público, com base nas revelações do consórcio Investigate Europe e indica que mísseis, foguetes, torpedos, bombas e cargas explosivas, mas também “equipamento de imagem, aviões com os seus componentes e drones” foram fornecidos à Rússia e que, segundo o jornal, poderão estar a ser usados na Ucrânia.
A França foi o país que mais exportou para a Rússia, utilizando uma lacuna na legislação que proíbe a venda de equipamento militar àquele país, seguindo-se a Alemanha, Itália, Áustria, Bulgária, República Checa, Croácia, Finlândia, Eslováquia e Espanha. 
Haverá hipocrisia maior do que esta?