sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Tempos muito sombrios - II

Como era previsível, o anúncio das linhas gerais do Orçamento do Estado para 2012 provocou uma depressão emocional e uma generalizada onda de protestos, pelo seu carácter recessivo e insensibilidade social, mas também por não promover a recuperação económica e por potenciar o aumento do desemprego e da pobreza.
As pessoas escutaram e assustaram-se com a brutalidade de uma terapêutica semelhante à que tem sido aplicada na Grécia, mas onde não tem obtido resultados. As pessoas perceberam que “o estado a que isto chegou” resultou de um processo cumulativo de erros em que todos participamos, no qual os políticos e a banca têm as maiores responsabilidades.
Agora, a porta de saída é estreita. Com a política orçamental delineada, a economia vai correr sérios riscos de implodir, com os trabalhadores a lutar pelo emprego e pelo salário, as empresas a procurar a sobrevivência e os bancos a tentar reforçar a sua liquidez e a recuperar os seus créditos. O emprego, o investimento e o crédito estão ameaçados, tal como a coesão social.
Uma geração jovem e muito qualificada vai continuar a procurar o futuro noutras paragens. O anunciado corte nos subsídios de Natal e de férias atingirá todos os reformados com pensões acima dos mil euros, quer do sistema público quer do sistema privado. Uma nova onda de excluídos, de indignados e de desempregados perfila-se no horizonte.
A sociedade civil, e em especial os sindicatos, começam a reagir a este quadro de brutal austeridade, que é também um quadro de não-esperança, preparando-se para exercer o seu direito à indignação. Entretanto, começam a ser detectados alguns sinais de hesitação e desnorte na governação. Os agentes económicos não recuperaram a confiança. Não sei como é que isto vai acabar. São tempos muito sombrios.

O sector automóvel e a nossa crise

A ACAP – Associação Automóvel de Portugal é a única associação empresarial que representa a globalidade do sector automóvel, congregando cerca de duas mil empresas associadas, distribuídas por todo o território nacional.
Mensalmente, a ACAP divulga na sua website as estatísticas das vendas de veículos automóveis em Portugal. Assim, podemos verificar que, entre Janeiro e Setembro de 2011, foram vendidos 123.540 veículos, correspondentes a uma quebra de 23,5% em relação ao mesmo período de 2010, em que foram vendidas 161.399 unidades.
Na análise das vendas por marcas, verifica-se que nos primeiros nove meses de 2011 a marca-rainha do mercado português foi a Renault com 13.282 unidades vendidas. Nesse mesmo período foram vendidos 5797 BMW, 5472 Mercedes e 4995 Audi, mas também 216 Porsche, 82 Jaguar, 16 Aston Martin, 14 Ferrari e, ainda, alguns Bentley, Maserati e Lamborghini.
Estes números permitem inúmeras leituras, incluindo a constatação de uma quebra global de 23,5% nas vendas a caracterizar uma crise do sector automóvel, que habitualmente antecipa uma crise mais geral da economia, mas também a apetência portuguesa pelas marcas alemãs de gama média-alta e, ainda, que há compradores para os Porsche, os Aston Martin e os Ferrari, apesar da crise que atravessamos.
Eu bem gostava de saber quem é que em Portugal tem este tipo de rendimentos e qual a sua origem, mas também se esses compradores pagam impostos como eu.

Tempos muito sombrios - I

As linhas gerais do Orçamento do Estado para 2012 que ontem foram anunciadas, são de uma violência inesperada e antecipam tempos muito sombrios.
Sabia-se, desde há muitos anos, que as coisas tinham que mudar e não podiam continuar como estavam. Porém, a febre de ganhar eleições e de empregar as clientelas foi adiando a resolução do problema. Prometeu-se tudo a todos. Venderam-se ilusões. Votaram-se facilidades. Exigiram-se utopias. A prosperidade tomou conta das nossas vidas. Ninguém ligou à teoria do pântano, nem à teoria da tanga.
De repente, num quadro de crise internacional, acordamos com os credores à porta. Acreditamos que não era necessário aumentar impostos e que bastava cortar nas gorduras do Estado e nos consumos intermédios, extinguir governos civis, institutos, fundações e pronto. Afinal não era assim. Era apenas propaganda eleitoral.
Ontem, o primeiro-ministro afirmou que nunca tinha pensado ser necessário anunciar ao país medidas tão severas e tão difíceis de aceitar, como por exemplo a eliminação dos subsídios de férias e de Natal, justificando-as com uma derrapagem orçamental da responsabilidade do anterior governo. Isso não é verdade! Isso é, mais uma vez, atirar poeira para os nossos olhos! O nosso problema nasceu com a nossa integração europeia e com os milhões que vinham de Bruxelas. Com o facilitismo. Com o novo-riquismo. Com a ganância da banca. Com as nossas vaidades. A classe política fechou os olhos à realidade, deslumbrou-se com a Europa, instalou-se no aparelho de Estado, favoreceu clientelas, enriqueceu materialmente e, muito democraticamente, foi alternando no poder.
No crítico momento por que passamos actualmente, a derrapagem orçamental é conjuntural e resulta das receitas do Estado estarem abaixo das previsões devido ao clima recessivo e, do lado da despesa, é a consequência do tão falado corte das gorduras do Estado e dos consumos intermédios ter sido pouco mais do que propaganda.
“Nunca nos deveríamos ter permitido chegar a este ponto”, disse o primeiro-ministro e é verdade. Agora, perguntem ao Cavaco, ao Constâncio e ao pequeno Jardim, entre outros, porque deixaram que as coisas seguissem este caminho tão sombrio.