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domingo, 12 de julho de 2026

Boston acolheu “desfile naval do século”

O estado de Massachusetts e a sua capital que é a cidade de Boston, estão a celebrar o 250º aniversário da independência dos Estados Unidos de forma entusiástica, conforme se pode ler na edição de hoje do jornal Boston Herald e na generalidade da imprensa da cidade.
Massachusetts foi a segunda colónia britânica mais antiga da América, depois da Virginia, tendo sido uma das treze colónias que em 1775 se revoltaram contra o poder colonial britânico. No seu território aconteceram as primeiras batalhas da guerra da independência, que a tradição história conserva como uma marca cultural daquela cidade, daquele estado e de toda a região da Nova Inglaterra.
Por isso, a comemoração dos 250 anos da independência dos Estados Unidos foi organizada nesta cidade com especial cuidado e foi possível juntar na cidade muitos dos grandes veleiros históricos provenientes de mais de vinte países para participarem no desfile naval comemorativo, que aconteceu ontem no porto de Boston e nas festividades incluídas no Sail Boston 2026, que decorrerão até ao dia 16. No desfile naval participaram mais de sessenta navios que, durante cerca de seis horas, desfilaram tendo como guia a barca americana Eagle, sempre acompanhados por muitas dezenas de pequenas embarcações, sob a admiração e o aplauso de muitos milhares de espectadores. No desfile incorporaram-se, entre outros veleiros, o Americo Vespuci, o Dar Mlodziezy, o Esmeralda, o Gloria, o Gorch Fock, o Libertad e a famosa barca portuguesa Sagres, mas também os históricos May Flower II e Constitution. Segundo foi referido com assinalável exagero, foi o sail of the century, ou o “desfile do século”.
As festividades continuaram com um espectáculo pirotécnico e continuarão nos próximos dias com actividades dedicadas às tripulações dos navios.

domingo, 5 de julho de 2026

Ainda sobre a festa nos Estados Unidos

Os americanos celebraram ontem o dia 4 de julho de 1776 e os 250 anos da sua independência, com muitos eventos e muitas boas razões, tendo-se mais uma vez destacado o narcisismo de Donald Trump, que continua perturbado pela sua vaidade cega. 
Porém, nem todos alinharam no espectáculo preparado pelo Donald e a edição de ontem do jornal The Philadelphia Inquirer, que é publicado desde 1829, é um excelente exemplo dessa recusa, ao ignorar as festividades patrocinadas pelo Donald e ao dedicar a sua primeira página à “Declaração Unânime dos Treze Estados Unidos da América” assinada pelos 56 “Pais Fundadores da nação”, transcrevendo parte do seu famoso preâmbulo:

We hold these truths to be self-evident, that all men are created equal, that they are endowed by their Creator with certain unalienable Rights, that among these are Life, Liberty and the pursuit of Happiness.

(Consideramos estas verdades como evidentes por si mesmas: que todos os homens são criados iguais, que são dotados por seu Criador de certos direitos inalienáveis, entre os quais estão a Vida, a Liberdade e a busca da Felicidade).

A mensagem transmitida pelo The Philadelphia Inquirer, é exemplar porque é portadora de um sentido pedagógico para os americanos, para as suas raízes históricas e para os seus ideais democráticos mais profundos, parecendo um aviso para os que vivem subjugados pelos interesses do “Complexo Militar-Industrial Americano”, identificado em 1961 por Dwight Eisenhower, mas também para os seguidores do actual “vale-tudo” do modelo “Make America Great Again”, inventado por Donald Trump, que tanto agitado o mundo e tanto tem aumentado a sua fortuna pessoal.

sábado, 4 de julho de 2026

Os 250 anos da independência americana

No dia 4 de julho de 1776 foi aprovada a Declaração de Independência dos Estados Unidos pelos delegados das 13 colónias britânicas reunidos no Pennsylvania State House, em Filadélfia. Esses delegados são conhecidos como os “Pais Fundadores da Nação” e rejeitaram em definitivo o poder colonial britânico e as suas raízes.
A independência americana nasceu em resposta às tensões entre os colonos e o poder colonial devido aos excessivos impostos, nomeadamente o Stamp Act de 1765, mas também em protesto contra a ausência de representação política. Depois, os confrontos foram-se acumulando, com destaque para o massacre de Boston de 1770 em que os soldados britânicos mataram cinco colonos e para o Boston Tea Party de 1773, quando os colonos atiraram chá ao mar em protesto contra os impostos coloniais. Em 1775 os colonos passaram à luta armada e foram bem sucedidos nas batalhas de Lexington e de Concord. A Declaração de Independência foi o passo seguinte, tendo sido também a expressão de uma nova era de liberdade, pois a revolução americana de 1776 ficou na História como a primeira revolta do colonizado contra o colonizador.
A história dos Estados Unidos não cabe neste texto, mas a guerra hispano-americana de 1898, a participação na Grande Guerra a partir de 1917 e a decisiva entrada na 2ª Guerra Mundial depois de 1941, fizeram dos Estados Unidos a superpotência mundial nos domínios económico, científico e militar.
Hoje os americanos celebram o 250º aniversário da sua independência e a revista alemã Der Spiegel dedicou-lhe a primeira página da sua edição de ontem, com George Washington a dançar sob os olhares desconfiados de Donald Trump.
Há 50 anos os americanos celebraram o Bicentenário e eu estava em Filadélfia a tomar parte na festa.

sábado, 27 de junho de 2026

O Canadá está em festa, mas sob ameaça

Aproxima-se o Dia do Canadá, o dia em que se celebra a constituição de uma federação nascida no dia 1 de julho de 1867, quando se uniram quatro regiões da Província Unida do Canadá (o Ontário, que era o Canadá Ocidental e o Quebec que era o Canadá Oriental), com a Nova Escócia e a Nova Brunswick, provavelmente como forma de dissuasão de qualquer tentativa de anexação por parte dos Estados Unidos. 
Estas quatro províncias constituíram então o Domínio do Canadá, que era um reino que fazia parte do Império Britânico mas que, ao longo da história, cresceu até às atuais dez províncias e três territórios, quase todas ex-colónias britânicas, constituindo o segundo maior país do mundo em território, embora tenha apenas 40 milhões de habitantes. Apesar de ser parte do Império Britânico, o Canadá adquiriu um nível crescente de controlo político e de governação sobre os seus assuntos internos, enquanto o poder colonial se exercia na área da defesa nacional, das relações externas e nos assuntos constitucionais. Em 1982, com a aprovação da Lei Constitucional de 1982, o Canadá adquiriu a sua completa soberania.
O jornal National Post, que se publica em Toronto, antecipou a celebração dos 159 anos do que chama o Dominion of Freedom com uma ilustração que nos sugere a festa dos canadianos, mas também escreve em manchete que “mais do que oito em cada dez continuam orgulhosos de ser canadianos, embora muitos temam que o país não se mantenha unido”.
Realmente, com um vizinho poderoso e sob a governação de um homem ambicioso, tudo é possível e sem grande alarido para manipular a vontade política dos canadianos, bastando usar as novas tecnologias informáticas, as redes sociais e a exposição televisiva, acompanhadas pela mentira e pelo silenciamento da voz do adversário. Sem qualquer ameaça militar ou guerra económica.

quarta-feira, 24 de junho de 2026

Dez anos de Brexit: cansaço e fracasso

No dia 23 de junho de 2016 realizou-se no Reino Unido um referendo sobre a permanência do país na União Europeia, em que votaram cerca de 33 milhões de eleitores, depois de uma intensa campanha. Apurados os resultados, verificou-se que 48,11% dos eleitores votaram na permanência (remain) mas que 51,89% escolheram sair (leave), isto é, o Brexit venceu e, depois de demoradas negociações, o Reino Unido abandonou a União Europeia. 
Dez anos depois, os britânicos estão muito insatisfeitos e há uma progressiva onda de apoio ao regresso à União Europeia, como se vai verificando na imprensa diária, o que também foi revelado por um estudo feito pelo European Council on Foreign Relations (ECFR), que agora foi divulgado, que mostra que dois terços dos britânicos considera que o Brexit foi um erro e um fracasso e que a decisão teve consequências negativas para o país, tanto a nível económico como social. Os britânicos associam a sua saída da União Europeia ao agravamento de diversos problemas considerados centrais para o país, incluindo o aumento do custo de vida, o abrandamento económico, a redução de oportunidades para os mais jovens, as dificuldades comerciais e uma gestão menos eficaz da imigração ilegal. Além disso, também defendem uma maior aproximação económica à União Europeia e, até no domínio da segurança e defesa, só 18% dos britânicos considera os Estados Unidos como o seu principal aliado. 
Na sua edição de hoje, o jornal The Independent diz que “uma geração inteira foi traída” e exibe em primeira página as fotografias de Boris Johnson e de Nigel Farage, que continuam no activo e são os grandes responsáveis pelo Brexit e por outras maldades, incluindo o incentivo para que não houvesse acordo no conflito da Ucrânia.

quinta-feira, 2 de abril de 2026

Celebrando 50 anos da nossa Constituição

Há 50 anos, no dia 2 de abril de 1976, os 250 deputados que integravam a Assembleia Constituinte votaram e aprovaram por 234 votos, correspondentes a 93,6% do plenário constituinte, a nova Constituição da República Portuguesa, verificando-se que apenas os 16 deputados do CDS votaram contra aquele documento, que consagra a liberdade e os direitos fundamentais dos portugueses.
A Constituição da República Portuguesa entrou em vigor no dia 25 de Abril de 1976, exactamente dois anos depois do “dia inicial, inteiro e limpo” e foi preparada num contexto complexo de transição de uma ditadura repressiva para uma democracia, com um processo revolucionário também muito complexo, mas resultou num documento fundador da nossa democracia que concretiza os “valores de Abril” e um regime político democrático, assente na soberania popular, no pluralismo e no Estado de direito. Meio século depois e apesar de já ter passado por sete processos de revisão constitucional – 1982, 1989, 1992, 1997, 2001, 2004 e 2005 – a Constituição da República Portuguesa continua a ser a matriz do nosso sistema político, a protetora dos direitos fundamentais dos cidadãos e a “expressão mais duradoura do pacto cívico e social que emergiu da Revolução de Abril”.
Hoje é dia de festa e o jornal Público associou-se à efeméride reproduzindo na primeira página da sua edição de hoje uma parte do preâmbulo do texto constitucional que foi preparado por uma comissão presidida pela deputada Sophia de Mello Breyner Andresen e de que foi relator o deputado Manuel Alegre, que começa da forma seguinte:

A 25 de Abril de 1974, o Movimento das Forças Armadas, coroando a longa 
resistência do povo português e interpretando os seus sentimentos profundos,
derrubou o regime fascista.
Libertar Portugal da ditadura, da opressão e do colonialismo representou uma 
transformação revolucionária e o início de uma viragem histórica da sociedade portuguesa.

Evocar a Constituição da República Portuguesa é evocar o 25 de Abril e os seus valores de Liberdade, Democracia, Paz, Progresso e Solidariedade.
Viva a Constituição da República Portuguesa!

terça-feira, 24 de março de 2026

Angola evoca a batalha de Cuito Cuanavale

Ontem, dia 23 de março, celebrou-se o Dia da Libertação da África Austral, uma data que está associada à histórica batalha do Cuito Cuanavale, considerada um marco decisivo na luta contra o regime sul-africano do apartheid, na consolidação da independência da Namíbia e até na libertação de Nelson Mandela.
Desde que se tornou independente em 1975 que Angola viveu em guerra civil, sobretudo entre as forças do exército angolano (FAPLA) e as tropas da União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA), que ocupava o sudoeste de Angola e tinha a sua base na Jamba do Cuando. Em 1987 o governo angolano decidiu retomar o controlo dessa região e, entre os dias 15 de novembro de 1987 e 23 de março de 1988, ocorreu uma grande batalha na extinta província angolana do Cuando-Cubango que opôs as FAPLA e as tropas cubanas às tropas do exército sul-africano e da UNITA, sendo considerada uma das maiores batalhas no terreno do século XX. Foi uma dura e prolongada batalha com o envolvimento de milhares de soldados angolanos, cubanos, sul-africanos, namibianos e outros, com trincheiras, barricadas, artilharia, carros de combate e helicópteros. O sucesso militar foi reclamado por ambos os contendores, mas o facto é que os angolanos conseguiram expulsar os sul-africanos do seu território.
Em dezembro de 1988 o MPLA e a UNITA assinaram um acordo em Nova Iorque que levou à possibilidade da implementação da Resolução 435/78 do Conselho de Segurança das Nações Unidas.
A batalha de Cuito Cuanavale foi o maior confronto militar da guerra civil angolana e alterou profundamente o panorama político e o futuro da África Austral. Na sua edição de ontem o Jornal de Angola recordou essa página da história de Angola.

sábado, 17 de janeiro de 2026

Viva o povo e a democracia de Cabo Verde

A República de Cabo Verde celebrou no passado dia 13 de janeiro o Dia da Liberdade e Democracia, assinalando o 35º aniversário das primeiras eleições multipartidárias realizadas no país, que representaram o fim do regime de partido único e o início do Estado de Direito Democrático. O semanário Expresso das Ilhas, que se publica na cidade da Praia, assinalou a efeméride com uma edição especial.
O dia maior do país é, certamente, o dia 5 de julho de 1975, data em que foi proclamada a independência nacional depois de um processo de negociação entre o governo português e o PAIGC, que resultou da guerra travada no território da Guiné-Bissau e da revolução portuguesa de 25 de Abril de 1974. Porém, o dia 13 de janeiro de 1991 também é considerado um marco histórico na vida do país porque os caboverdianos votaram livremente pela primeira vez e terminaram com o mito da unidade Guiné - Cabo Verde, criado no tempo colonial, bem como com a transformação local do PAIGC em PAICV. Depois, no dia 25 de setembro de 1992, entrou em vigor a nova Constituição da República e essas três datas de 1975, de 1991 e de 1992, são as mais importantes para o povo caboverdiano.
Nas celebrações realizadas este ano destacou-se a inauguração do Monumento da Liberdade e Democracia, reproduzido na capa do Expresso das Ilhas, bem como a realização de muitas outras actividades desportivas e culturais, com destaque para o Festival Liberdade & Democracia, na Achada Grande Frente, na cidade da Praia.
Não há países nem sociedades perfeitas, mas Cabo Verde aproxima-se muito dessa condição, sendo um modelo de harmonia política e cultural, o que naturalmente é um motivo de orgulho para os portugueses, sobretudo os que conhecem o país e não dispensam uma boa cachupa, nem uma morna na voz de Cesárea Évora ou das vozes que a seguiram. E para coroar a exemplaridade caboverdiana, a sua selecção vai estar presente no Campeonato do Mundo de Futebol que se vai realizar este ano.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

A evocação dos 84 anos de Pearl Harbor

Desde o fim da 2ª Guerra Mundial que os Estados Unidos são a maior potência mundial, um estatuto que resultou da sua participação vitoriosa nesse conflito, em que morreram cerca de 405 mil militares americanos.
Para os Estados Unidos a guerra começou às primeiras horas da manhã do dia 7 de dezembro de 1941, quando a aviação da Marinha Imperial japonesa atacou de surpresa a Base Naval de Pearl Harbor, nas ilhas Hawai, onde se encontravam cerca de 87 mil militares, dos quais morreram 2.400. 
Foi há 84 anos e ontem, em Honolulu, durante o 84th Pearl Harbor Remembrance Day Ceremony, esse dia foi evocado com solenidade e nessa evocação estiveram presentes três veteranos de guerra centenários, cuja fotografia foi hoje publicada na primeira página do jornal The Wall Street Journal.
Porém, nenhum dos doze sobreviventes do ataque de 1941 compareceu à cerimónia, pois nenhum deles conseguiu deslocar-se ao Hawai. Todos os anos, à excepção do ano de 2020 por causa da covid-19, os sobreviventes desse dia trágico deslocavam-se a Honolulu para tomar parte nas cerimónias evocativas, inclusive no ano passado, em que dois deles ainda estiveram em Honolulu apesar da sua muito avançada idade.
Este ano estiveram presentes mais de três mil pessoas nas cerimónias evocativas realizadas, incluindo familiares de alguns dos militares que morreram nesse dia, mas também alguns cidadãos japoneses sobreviventes da bomba atómica lançada sobre Nagasaki, que estavam de visita à ilha de Oahu.
O tempo tem a virtude de apagar muitas feridas, mesmo quando são muito dolorosas. Assim aconteceu com americanos e japoneses, com alemães e franceses e, terá de acontecer com russos e ucranianos.

terça-feira, 11 de novembro de 2025

Angola celebrou 50 anos de independência

A República de Angola e os angolanos festejaram hoje com grande alegria o 50º aniversário da independência nacional e, por razões históricas e culturais, esse acontecimento também foi evocado com alegria em Portugal, como se observou na imprensa portuguesa que evocou a independência angolana, mas também em vários espaços das cadeias televisivas que mostraram os desfiles cívico e militar com que Luanda festejou o acontecimento. De resto, calcula-se que haverá cerca de 100 mil portugueses em Angola, sobretudo empresários, enquanto estão recenseados mais de 92 mil angolanos em Portugal, o que mostra claramente uma íntima relação entre os dois países que vai para além do interesse económico.
Angola é um grande país de 32 milhões de habitantes, sendo o sétimo maior de África e o vigésimo segundo do mundo, estando a assumir cada vez mais o estatuto de potência regional no sul do continente africano e no Atlântico Sul. Porém, ninguém esquece que o país viveu 27 dos seus 50 anos de independência em guerra civil, com muitas mortes e muita destruição, mas os tempos de paz e de reconciliação que os angolanos vivem desde 2002 têm trazido progressos assinaláveis. O presidente João Lourenço falou aos angolanos e disse, num exercício de retórica adequado à efeméride que se celebrava, que “em 50 anos fizemos mais que o regime colonial português em 500 anos”, mas também salientou que estão a ser dados “passos firmes para romper o ciclo de subdesenvolvimento” do país.
É isso exactamente o que se deseja para os angolanos, a partir do estimulante sinal de confiança no futuro que representou a festa dos 50 anos da independência de Angola.

sábado, 18 de outubro de 2025

A reconciliação nacional em Angola

Aproxima-se a data em que a República de Angola celebra os 50 anos da sua independência, que aconteceu depois de cerca de 13 anos de luta de libertação nacional contra o colonialismo português, na qual os movimentos que combateram as tropas portuguesas eram o MPLA dirigido por Agostinho Neto, a FNLA dirigida por Holden Roberto e a UNITA dirigida por Jonas Savimbi.
Estes três movimentos tinham origens diferentes e eram rivais, não tinham implantação nacional e tinham ideários e apoios internacionais distintos, pelo que algumas vezes se combateram entre si, o que acabou por auxiliar indirectamente as tropas portugueses. Porém, como se verificou com o movimento do 25 de Abril, o problema de Angola era político e não militar, pelo que em face da pressão interna e internacional, o Estado Português se limitou a reconhecer o direito à autodeterminação e independência de Angola. Porém, durante o período de transição da soberania, os três movimentos de libertação combateram-se intensamente, mas foi possível chegar aos Acordos do Alvor assinados no dia 28 de Janeiro de 1975 entre o Estado Português e os três movimentos de libertação, em que era aceite que o governo de Angola seria exercido por um Alto-comissário português em conjunto com representantes de cada movimento. As rivalidades acentuaram-se e à guerra de libertação nacional, sucedeu-se a guerra civil que durou até 2002 e terminou com a vitória do MPLA. Os derrotados foram proscritos mas, lentamente, tanto a FNLA como a UNITA foram integrados na democracia angolana.
Com a aproximação da festa dos 50 anos da independência e de acordo com o jornal O País, o presidente João Lourenço decidiu condecorar a título póstumo os homens que assinaram os Acordos do Alvor, num gesto de reconciliação nacional que vence muitos tabus da história recente de Angola e está em linha com a verdade histórica.
O progresso e o futuro dos 35 milhões de angolanos também passa por este tipo de medidas.

quarta-feira, 6 de agosto de 2025

A catástrofe de Hiroshima foi há 80 anos

Foi no dia 6 de agosto de 1945, exactamente há 80 anos, que um avião bombardeiro B-29 americano, comandado pelo tenente-coronel Paul Tibbets, lançou uma bomba atómica sobre a cidade japonesa de Hiroshima, de que resultou a morte imediata de mais de 70.000 pessoas. Três dias depois, uma segunda bomba atómica foi lançada sobre Nagasaki, estimando-se que tenham sido mortas mais 80.000 pessoas.
O avião de Paul Tibbets foi baptizado como “Enola Gay” e ambos ficaram na História como os responsáveis pelo primeiro ataque nuclear contra seres humanos a que a Humanidade assistiu, embora o presidente Harry Truman tivesse dito à tripulação do avião, após o seu regresso aos Estados Unidos: “não percam o sono por terem cumprido esta missão; a decisão foi minha, vocês não podiam escolher”.
São muito poucos os jornais que evocam esta triste efeméride nas suas edições de hoje e a excepção é o diário francês L’Humanité, que dedica toda a sua primeira página ao “terror nuclear”.
A partir de Hiroshima e Nagasaki, a ameaça nuclear passou a perturbar as nossas vidas e a manter a humanidade intranquila, pois haverá uma dezena de países que já dispõem da arma nuclear. Cada um deles, sobretudo os Estados Unidos e a Rússia, parecem viver num “equilíbrio de terror”, porque demasiadas vezes tratam das suas rivalidades e das suas conflitualidades com o olho posto nos respectivos arsenais nucleares.  
A cidade de Hiroshima reergueu-se da catástrofe de 1945 e hoje recebe um número recorde de países nas cerimónias evocativas do “dia em que a cidade desapareceu”, embora três potências nucleares – China, Rússia e Paquistão – estejam ausentes.
Que o “espírito de Hiroshima”, que visa promover a paz no mundo e a abolição das armas nucleares, seja reforçado para o bem da humanidade.

domingo, 13 de julho de 2025

A memória de Elcano regressou à Corunha

A edição de hoje do jornal El Ideal Gallego que se publica na cidade da Corunha desde 1917, insere uma bela fotografia a toda a largura da sua primeira página, na qual se vê o navio-escola Juan Sebastián de Elcano a aproximar-se da Torre de Hércules, o histórico farol que se encontra à entrada do porto.
A Torre de Hércules foi construída pelos Romanos no século I d.C. sobre um rochedo de 57 metros de altitude e tem 55 metros de altura, dos quais 34 correspondem à construção romana e 21 metros foram acrescentados quando a torre foi restaurada no século XVIII. No ano de 2009 a Torre de Hércules foi inscrita pela UNESCO na sua Lista do Património Mundial.
O jornal destaca em título que “Elcano” regressou à Corunha, numa dupla alusão à visita do veleiro e às celebrações do 5º centenário da partida da expedição de Garcia Jofre de Loaysa para as Molucas, a que os espanhóis então chamavam islas del Poniente, na qual tomou parte o experiente Juan Sebastián de Elcano. 
A expedição de Loaysa largou da Corunha e foi a primeira que o Imperador Carlos V enviou às Molucas, depois de Fernão de Magalhães ter descoberto em 1519, o estreito que liga o Atlântico ao Pacífico. Nessa expedição, que partiu da Corunha no dia 15 de julho de 1525, participaram sete navios, mas só um chegou ao seu destino e, tanto Elcano como Loaysa, morreram antes de chegar às Molucas.

sábado, 5 de julho de 2025

Viva a independência de Cabo Verde

A República de Cabo Verde celebra hoje 50 anos de independência e está anunciada uma grande celebração oficial que conta com a presença de quatro chefes de Estado, entre os quais Marcelo Rebelo de Sousa. Aqui, também saudamos essa efeméride e associamo-nos ao semanário Nação que se publica na Cidade da Praia.
O país consta de um arquipélago de dez ilhas com uma superfície total de cerca de 4.033 km2, que fica situado na costa ocidental africana na latitude do Senegal. Descoberto pelos navegadores portugueses e colonizado desde meados do século XV, o arquipélago esteve sob soberania portuguesa até à proclamação da sua independência no dia 5 de Julho de 1975. A reivindicação independentista foi dirigida por Amílcar Cabral e pelo PAIGC (Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde), embora só tivesse tido expressão armada na Guiné. Porém, o sentido descolonizador do movimento do 25 de Abril em Portugal e os princípios da Carta das Nações Unidas, levaram a que, através do Acordo de Argel de 26 de Agosto de 1974, o governo português tivesse reconhecido formalmente "o direito do povo de Cabo Verde à autodeterminação e independência".
Desde então, a República de Cabo Verde afirmou-se na cena internacional como um exemplo no contexto dos países africanos, com uma população instruída e com bons índices de desenvolvimento económico e social. O sentimento nacional é grande entre a população e “não há saudades do tempo colonial”, embora Portugal seja uma referência permanente para os cabo-verdianos, pela língua, pelas tradições culturais, pela memória histórica, pelos seus emigrantes que vivem em Portugal e pelo entusiasmo com o futebol, mas também por coisas que os portugueses muito apreciam como as mornas e coladeiras e por essa maravilha gastronómica que é a cachupa.
O país de Amílcar Cabral, Aristides Pereira, Pedro Pires, Cesária Évora, Germano de Almeida, Corsino Fortes, Titina, Bana, B Leza, Tito Paris e tantas outras ilustres personalidades, é um grande país. E aqui neste velho Portugal, onde gostamos de chamar “nuestros hermanos” aos espanhõis e irmãos aos brasileiros, o que haveremos de chamar às gentes de Cabo Verde, que nos estão tão próximas histórica e culturalmente e que aprenderam connosco a dizer sodade?

sexta-feira, 4 de julho de 2025

EUA nos seus 249 anos de independência

Hoje é o Dia da Independência dos Estados Unidos, um dia que celebra a Declaração de Independência de 1776 assinada em Filadélfia pelas Treze Colónias, quando estas se sublevaram e declararam a separação do Império Britânico. É o feriado mais festejado nos Estados Unidos, mas a edição de ontem do USA TODAY antecipava a festa nacional americana e destacava que em seis pequenas cidades é “sempre” o 4 de Julho – Gallup (New Mexico), Bedford (Virginia), Bristol (Rhode Island), Audubon (New Jersey), Gettysburg (Pennsylvania) e Cooperstown (New York). 
De acordo com o jornal, a festa da independência nestas seis comunidades “recorda a glória – e o sacrifício – da liberdade” e evoca os nomes dos fundadores dos Estados Unidos, em especial Thomas Jefferson, John Adams e Benjamin Franklin, mas também Abraham Lincoln, o 16º presidente dos Estados Unidos que preservou a União durante a Guerra Civil e conseguiu a emancipação dos escravos.
As festas do Dia da Independência nestas seis comunidades, como em nenhum outro lugar dos Estados Unidos, constam de paradas militares, de desfiles de bandas de música, de corporações de bombeiros e de majorettes sempre mostrando as cores vermelha, azul e branca da bandeira nacional americana, que é conhecida pela The Stars and Stripes.
Numa época de alguma turbulência nos Estados Unidos e de muita incerteza no mundo, o que se deseja é que o dia 4 de Julho de 2025 seja um dia de reflexão para os americanos e para as suas autoridades, no sentido de se encontrarem os caminhos que conduzam à paz no mundo.

quinta-feira, 12 de junho de 2025

Os 40 anos de Portugal na União Europeia

No dia 12 de Junho de 1985, exactamente há 40 anos, foi assinado por Mário Soares e por outros governantes portugueses, o tratado de adesão de Portugal à Comunidade Económica Europeia (CEE) e o jornal i evocou esse acontecimento histórico ao escrever, em primeira página, que foram “quatro décadas que mudaram Portugal”.
Assim foi de facto. Depois do Ciclo do Império, iniciado no século XV com a conquista de Ceuta e a expansão marítima ultramarina, vieram a democratização e a descolonização como conquistas que só o 25 de Abril tornou possível e Portugal e os portugueses “regressaram” à Europa.
Foi uma evolução natural de acordo com os “ventos da História” e todos os indicadores económicos e sociais revelam uma profunda mudança no país, devida sobretudo a factores endógenos mais evidentes na Educação e na Saúde, mas também devido a factores de ordem externa, materializados através dos fundos comunitários que têm sido uma alavanca essencial para a Economia e para as Infraestruturas.
Desde o dia 1 de Janeiro de 1986 que Portugal é membro de pleno direito da União Europeia, que em 1992 sucedeu à CEE. Eram então 12 países da Europa ocidental e atlântica, mas os tempos expandiram este bloco e agregaram mais 15 países da Europa oriental. Hoje são 27 estados-membros com 24 línguas oficiais e nacionais, numa situação intermédia entre o federalismo e os nacionalismos regionais, com uma unidade só aparente, configurando-se quase como uma Europa das Pátrias, onde ainda procuram manter parte da soberania nacional como sonhara o general De Gaulle.
De Bruxelas para Lisboa veio modernidade, progresso e muito dinheiro – quase 200 mil milhões de euros em termos nominais nos últimos 40 anos – mas nem tudo corre bem por lá. Foi criada uma estrutura burocrática cujo combustível é o dinheiro, a ganância e o despesismo, há demasiada arrogância e falta de liderança, enquanto o bem-estar dos povos europeus deixou de ser a preocupação dos burocratas de Bruxelas. Homens como Robert Schuman, Jean Monnet, Konrad Adenauer, François Mitterand ou Jacques Dellors, não existem mais. Agora a liderança europeia está confiada a gente menor que casa dia mais afunda o sonho europeu de respeito pela paz, liberdade, democracia, igualdade, estado de direito e respeito pela dignidade e pelos direitos humanos.

domingo, 8 de junho de 2025

O Dia D nas praias da Normandia

No dia 6 de Junho de 1944, sob o comando do general americano Dwight Eisenhower, que então era o comandante Supremo das Forças Aliadas na Europa, as suas tropas desembarcaram nas praias da Normandia, então ocupadas pelos exércitos de Adolfo Hitler. Foi a chamada Operação Overlord que marcou o início da libertação da França e da Europa, mas também o colapso do regime alemão e o fim das atrocidades que praticava. 
Todos os anos essa efeméride é comemorada pelos sobreviventes que participaram nessa operação e, neste seu 81º aniversário, assim voltou a acontecer. Os poucos veteranos que ainda sobrevivem, certamente centenários, reuniram-se em diferentes locais da Normandia para evocar aquela operação que inverteu o curso da guerra. Ao longo do litoral e perto das praias do desembarque do Dia D, dezenas de milhares de espectadores compareceram às comemorações, que incluíram saltos de paraquedas, sobrevoos, cerimônias de memória, desfiles e reconstituições históricas. 
A Operação Overlod mobilizou a maior frota de navios, tropas, aviões e veículos da História, para romper as defesas de Hitler na Europa Ocidental e, logo no seu primeiro dia, morreram 4.414 soldados aliados, Na batalha que se seguiu, morreram 73 mil soldados aliados e houve 153 mil feridos, mas também houve milhares de civis franceses que morreram devido aos combates. 
Harold Terens, um veterano americano de 101 anos de idade, segundo uma reportagem publicada no The Wall Street Journal, disse: “Rezo pela liberdade do mundo inteiro. Pelo fim da guerra na Ucrânia, na Rússia, no Sudão e em Gaza. Acho a guerra nojenta. Absolutamente nojenta”. E falou bem.
De facto, só quer a guerra quem nunca passou por ela e pelos excessos que provoca.

segunda-feira, 21 de abril de 2025

As eleições constituintes de 1975

Há cinquenta anos, no dia 25 de Abril de 1975, o processo democrático português cumpriu uma das suas principais metas, que foi a realização de eleições livres, tal como tinha sido prometido ao país no programa apresentado um ano antes pelo Movimento das Forças Armadas. As eleições para a Assembleia Constituinte realizadas nesse dia destinaram-se a eleger, por sufrágio universal, os 250 deputados que iriam redigir uma nova Constituição da República para substituir a Constituição de 1933.
O recenseamento eleitoral foi uma campanha memorável, porque os anteriores registos incluíam apenas cerca de 1.800.000 eleitores e nos novos cadernos eleitorais foram registados 6.231.372 eleitores.
Apresentaram-se ao escrutínio 12 partidos políticos e duas associações cívicas representativas dos interesses de Macau, houve uma campanha eleitoral muito disputada e debates televisivos a que os portugueses não estavam habituados e em que, entre outros líderes políticos, puderam melhor conhecer Mário Soares, Francisco Sá Carneiro, Álvaro Cunhal e Diogo Freitas do Amaral. Votaram 91,66% dos eleitores inscritos, um resultado que nunca mais foi igualado e que mostrou o entusiasmo dos portugueses pelo processo democrático. Foi, seguramente, uma das maiores vitórias da revolução dos cravos.
No dia 2 de Junho de 1975 a Assembleia Constituinte iniciou o seu mandato para redigir a Constituição, com 116 deputados do PS, 81 do PSD, 30 do PCP, 16 do CDS, 5 do MDP/CDE, um da UDP e um da ADIM - Associação para a Defesa dos Interesses de Macau, enquanto o país continuou a ser governado por governos provisórios.
Com muita oportunidade, o JL – Jornal de Letras, Artes e Ideias dedicou a sua última edição à história e às memórias das primeiras eleições livres.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2025

O legado singular de Carlos Paredes

No próximo domingo, que é o dia 16 de Fevereiro, o grande Carlos Paredes - que a última edição do JL - Jornal de Letras, Artes e Ideias classifica como “o génio da guitarra” - completaria 100 anos de idade.
Carlos Paredes nasceu em Coimbra e foi um dos mais importantes e influentes músicos portugueses do século XX, tendo sido um talentoso criador de um repertório original que levou ao mais alto nível as possibilidades da guitarra portuguesa. Activo oposicionista ao regime do Estado Novo, foi preso pela Pide em 1958, tendo estado preso no Aljube e no Reduto Norte do Forte de Caxias, durante cerca de 15 meses.
Com a sua arte e a sua inspiração, Carlos Paredes emocionou os  portugueses rendidos ao seu virtuosismo e influenciou gerações de músicos nacionais e internacionais, contribuindo para a popularização da guitarra portuguesa junto de vastas audiências.
Por tudo o que representa na cultura portuguesa, está em curso um programa para assinalar os 100 anos do seu nascimento e celebrar o seu legado, que inclui mais de uma centena de concertos, colóquios, filmes, oficinas e um plano de salvaguarda e divulgação da sua obra. O programa intitula-se “Variações para Carlos Paredes” e vai estender-se pelos próximos meses por todo o país, mas também por 17 cidades de 12 países em quatro continentes, incluindo Xangai, Pequim, Osaka, Buenos Aires, São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Madrid e Sevilha. Vai ser mesmo um festival itinerante da cultura portuguesa e o nosso país bem precisa de se mostrar ao mundo como exemplo de uma comunidade com vida cultural.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2025

O mundo não pode esquecer Auschwitz

No dia 27 de Janeiro de 1945, na sua caminhada em direcção a Berlim, o exército russo forçou as portas do campo de extermínio de Auschwitz, localizado a sul do território polaco, onde muitos milhares de seres humanos encontraram a morte e libertou alguns dos condenados que ali se encontravam. Hoje celebram-se 80 anos sobre esse dia libertador e o mundo vive alarmado pela ameaça de novos auschwitzes, embora com características muito diferentes. Auschwitz, ou Auschwitz-Birkenau, foi um campo de extermínio e tornou-se um dos maiores símbolos do genocídio perpetrado pela Alemanha nazi contra seis milhões de judeus europeus, um milhão dos quais morreu naquele local entre 1940 e 1945, juntamente com mais de 100 mil não judeus. Auschwitz foi criado em 1940 por ordem de Heinrich Himmler como campo de concentração e para ali passaram a convergir comboios provenientes da Europa ocupada pelos nazis, com destino às câmaras de gás daquele campo. Não se sabe exactamente quantas pessoas morreram em Auschwitz, mas os números oscilam entre um e três milhôes, que foram executados nas câmaras de gás, mas também devido à fome, doenças infecciosas, trabalhos forçados, execuções individuais ou experiências médicas.

O dia 27 de Janeiro foi oficialmente proclamado como o Dia Internacional da Memória das Vítimas do Holocausto, para assinalar e comemorar a libertação daquele campo de concentração e extermínio. Actualmente, o campo e as câmaras de gás de Auschwitz-Birkenau são visitáveis e o “campo de concentração e extermínio nazi alemão de 1940-1945”, foi classificado em 1979 como Património da Humanidade pela Unesco. Hoje, alguns jornais como o Libération, evocaram o 80.º aniversário da libertação de Auschwitz, que foi assinalado com uma cerimónia oficial que contou com a presença de cerca de meia centena de sobreviventes e 54 delegações internacionais. O mundo não pode esquecer Auschwitz