segunda-feira, 21 de setembro de 2026

O conflito russo-ucraniano agrava-se

A guerra entre a Rússia e a Ucrânia já dura há muito tempo – 1.670 dias desde o dia em que a Rússia invadiu o território ucraniano (24 de fevereiro de 2022), ou 4.596 dias desde o dia em que as forças russas reagiram à violência ucraniana contra a minoria russa do Donbass e ocuparam a Crimeia (20 de fevereiro de 2014). Considerando que a Grande Guerra durou 1.567 dias e que a 2ª Guerra Mundial durou 2.193 dias, é caso para dizer que a disputa entre Moscovo e Kiev já dura há muito tempo.
Como aqui temos escrito desde há mais de quatro anos, é preciso parar e negociar. É preciso pensar e abandonar a lógica da polarização que domina o discurso ocidental – ou se é por Zelenkky ou por Putin. Somos pela paz para ucranianos e para russos. 
É preciso seguir os princípios de Robert Schuman que defendeu que “a paz mundial não pode ser salvaguardada sem esforços criativos proporcionais aos perigos que a ameaçam”, ou de Henry Kissinger, que escreveu que a questão ucraniana não é de saber se “a Ucrânia se junta ao Oriente ou ao Ocidente”, porque “deve funcionar como uma ponte entre eles”, pelo que “devemos buscar a reconciliação, não o domínio  de uma facção”.
Porém, Boris Johnson, Olaf Scholz, Emmanuel Macron, Ursula von der Leyen e mais alguns outros líderes europeus, por vezes contra a vontade dos seus eleitorados, abdicaram do seu dever de defender a paz e de moderar, apaziguar ou arbitrar o conflito, tornando-se parte muito activa dele, para lá canalizando muito dinheiro para mísseis, para drones, para mercenários e para muita corrupção. A indústria do armamento aplaude e o conflito parece agravar-se, porque a Europa está com líderes medíocres e sem coragem.
O recente ataque a Moscovo com mais de mil drones foi a maior campanha de drones da História e o maior ataque que a cidade sofreu desde 1942, conforme relata hoje o The Wall Street Journal, com uma expressiva fotografia de primeira página.
Esta operação mostra como o conflito está intenso e como os líderes europeus nele estão envolvidos, arrastando os seus países para uma guerra de consequências imprevisíveis e sem que os seus povos tenham sido ouvidos sobre essa matéria.

domingo, 20 de setembro de 2026

Robert Schuman, sempre o Pai da Europa

A edição de hoje do diário francês La Croix, um  jornal católico que se publica em Paris e que tem uma alargada difusão por todo o país, para além do seu habitual noticiário geral, inclui uma desenvolvida reportagem, que também é uma homenagem dedicada a Robert Schuman.
Robert Schuman (1886-1963) foi um verdadeiro europeu, pois nasceu no Luxemburgo, estudou na Alemanha e radicou-se em França, onde exerceu advocacia e teve actividade política como democrata-cristão. Durante a guerra integrou a Resistência Francesa e foi preso pela Gestapo. Com o fim da II Guerra Mundial tornou-se 1º Ministro da França (1947-1948) e seu Ministro dos Negócios Estrangeiros (1948-1953), tendo nessa condição feito um famoso discurso em Estrasburgo, no dia 9 de maio de 1950, que ficou conhecido como a Declaração Schuman.
Nessa histórica declaração lida quando a Europa ainda estava devastada pela guerra, Schuman disse que qualquer guerra entre a França e a Alemanha, rivais históricos, se tornaria "não apenas impensável, mas materialmente impossível" e declarou que "a paz mundial não pode ser salvaguardada sem esforços criativos proporcionais aos perigos que a ameaçam". Além disso, defendeu uma Europa unida, o estabelecimento de relações pacíficas entre todos e propôs que a produção franco-alemã de carvão e aço ficasse sob a alçada de uma autoridade internacional, aberta à participação de outros países europeus, daí nascendo a Comunidade Europeia do Carvão e do Aço (CECA), que esteve na origem da actual União Europeia.
Entre 1958 e 1960, Robert Schuman foi o primeiro presidente do Parlamento Europeu que, no final do seu mandato o distinguiu com o título de Pai da Europa. Robert Schuman não esteve sozinho na construção da “ideia de Europa” e com ele estiveram Jean Monnet, Konrad Adenauer, Alcide De Gaspieri, Paul-Henri Spaak e outros grandes estadistas, mas se Schuman hoje ressuscitasse e visse o que está a acontecer nesta Europa de António Costa, de Ursula von der Leyen e daqueles que os escolheram, ficaria decepcionado ao verificar que eles não estão a fazer os “esforços criativos proporcionais aos perigos que ameaçam a Europa”, vindos de todas as direcções. 
Essa é a mensagem implícita do jornal La Croix, ao homenagear Robert Schuman.

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Um novo rumo para as Nações Unidas

No próximo dia 1 de janeiro de 2027 iniciará o seu mandato o novo secretário-geral das Nações Unidas, que substituirá António Guterres que exerce o cargo desde 2017.
A corrida para a sucessão já começou há muito tempo e nela estão envolvidos os seguintes candidatos: Rebeca Grynspan (Costa Rica), Carolyn Rodrigues-Birkett (Guiana), Michelle Bachelet (Chile), María Fernanda Espinosa (Equador), Rafael Grossi (Argentina), Macky Sall (Senegal) e Olara Otunnu (Uganda). Existe a expectativa de, pela primeira vez, ser uma mulher a ocupar aquele cargo e que seja respeitada a rotação geográfica que, depois de Kofi Annan (Gana), Bab Ki-moon (Coreia do Sul) e António Guterres (Portugal), deverá favorecer a América Latina e Caraíbas.
As candidaturas foram apresentadas pelos governos dos estados membros e são apreciadas e votadas pelos 15 membros do Conselho de Segurança, onde prevalece a capacidade de veto dos seus cinco membros permanentes. Dessa forma, o consenso é difícil, mas é dele que resulta a escolha e a proposta, com um só nome, que depois é votada na Assembleia Geral.
Até agora houve nove secretários-gerais das Nações Unidas e António Guterres terá sido um dos que melhor preparados estava para desempenhar o cargo, mas não foi feliz no seu desempenho, tendo sido frequentemente hostilizado por Donald Trump e sem nunca ter tido o apoio claro da União Europeia. Daí que não tenha obtido resultados positivos na questão palestiniana, nem nos conflitos da Ucrânia e do Irão, nem no combate às alterações climáticas, nem no controlo das migrações. Na realidade, as Nações Unidas têm estado paralisadas política e até financeiramente, têm excesso de burocracia e têm perdido autoridade no mundo. Guterres não conseguiu libertar-se dessa complexa teia e embora seja injusto afirmá-lo, a decadência das Nações Unidas tem um rosto: António Guterres.
Por isso, o jornal catalão El Punt Avui, que se publica em Barcelona, não elogia o desempenho de António Guterres e escreve que “a ONU procura um novo rumo”, acentuando que o modelo criado em 1945 já está ultrapassado e que a organização carece de uma profunda reforma.

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Westminster, a Celtic Alliance e o futuro

O Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda, ou simplesmente Reino Unido, está estabelecido desde 1801 e é formado por quatro nações, ou quatro territórios: Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte.
A História mostra que nestas nações sempre existiram movimentos independentistas com formas distintas e muita contestação, por não aceitarem a tutela “colonial” inglesa.
Recentemente, estes movimentos convergiram devido a dois factores: a memória do Brexit e o facto de, pela primeira vez na sua história, as três nações terem governantes de partidos nacionalistas, ou independentistas.
Em 2016 o Brexit foi rejeitado na Escócia (62%), na Irlanda do Norte (56%) e no País de Gales (48%) e, por isso, sempre foi grande o descontentamento pela decisão do governo britânico de abandonar a União Eueopeia e, inversamente, tornou-se um elemento de contestação ao centralismo de Londres. Agora os líderes dos três territórios assinaram em Cardiff um memorando de entendimento conjunto, alegando que o modelo centralizado de Londres faliu e exigem que o governo britânico facilite mecanismos constitucionais para que as nações decidam o seu próprio futuro, isto é, exigem referendos.
Mary Lou McDonald e Michelle O’Neill (Sinn Féin da Irlanda do Norte), Rhun ap Iorwerth (Plaid Cymru do País de Gales) e John Swinney (do SNP – Partido Nacional Escocês) fizeram-se fotografar e tornaram-se a imagem de um desafio, que o jornal The National, que se publica em Glasgow, bem como outros jornais, divulgaram. Este jornal anuncia mesmo que "end of Union is coming".
O facto é que, embora seja considerada pouco provável de ter pés para andar, a hipótese de uma dissolução do Reino Unido ganhou novos contornos ao serem reivindicados referendos visando a independência das três nações, a separação de Westminster e uma eventual reintegração na União Europeia.
Já lhe chamam a Celtic Alliance (SNP, Plaid Cymru e Sinn Féin) e está em marcha.

terça-feira, 15 de setembro de 2026

Os BRICS afirmam-se como o Global South

No passado fim-de-semana realizou-se em Nova Delhi a 18ª Cimeira dos BRICS, uma organização intergovernamental criada pelo Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, a que se juntaram posteriormente o Egipto, Etiópia, Irão, Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita e Indonésia. 
O anfitrião da cimeira foi o primeiro-ministro indiano Narendra Modi, que recebeu Vladimir Putin, Xi Jinping e Cyril Ramaphosa, mas também Masoud Pezeshkian, presidente do Irão, Prabowo Subianto, o presidente da Indonésia, enquanto Lula da Silva se fez substituir pelo seu ministro das Relações Exteriores. 
Os BRICS representam cerca de 49% da população mundial e cerca de 41% do PIB mundial, controlando cerca de 26% do comércio global. Segundo relatou a imprensa, a cimeira de Nova Delhi foi marcada pelas guerras na Ucrânia e no Médio Oriente, pelas crescentes tensões entre os Estados e a China, pela questão do petróleo e pela defesa de uma ordem internacional mais multipolar, baseada em regras e no diálogo, com mais equilíbrio e maior participação dos países em desenvolvimento. Os países que constituem os BRICS procuram uma nova ordem internacional, designadamente mais assentos no Conselho de Segurança das Nações Unidas, mas também pretendem aumentar a sua influência no mundo e construir caminhos conjuntos de cooperação para enfrentar os desafios globais. 
O documento final, ou Declaração de Nova Delhi, inclui 140 pontos e foi assinado por unanimidade, pedindo a “máxima contenção” no Médio Oriente, manifestando forte oposição ao deslocamento forçado de palestinianos e afirmando a unidade do Global South, como mostra a capa do jornal indonésio The Jakarta Post. Quando onze países com regimes políticos, interesses económicos e visões geopolíticas tão diferentes, mostram esta unidade em torno da ideia do Global South e esta vontade de cooperar, é porque encontram um elemento comum que os une. Será a Europa, ou os Estados Unidos, ou apenas Donald Trump e a sua ambição de dominar o mundo?

domingo, 13 de setembro de 2026

A escola, os alunos e os novos tempos

Foram divulgados os resultados do PISA 2025 e uma onda de preocupações alastrou pelos países da OCDE, sobretudo na Alemanha, França, Espanha e até Portugal, que registaram os seus piores resultados de sempre em Leitura, Matemática e Ciências, atingindo mínimos históricos desde que o programa foi criado no ano de 2000.
O jornal luxemburguês Le Quotidien reflectiu essa preocupação ao trazer o tema para a sua primeira página e ao escrever que “o nível dos alunos [está] em queda livre”.
O PISA (Programme for International Student Assessment) é um programa internacional de avaliação de alunos que funciona como uma rede mundial de desempenho escolar coordenada pela OCDE, com vista a melhorar as políticas e os resultados no sector da educação. A avaliação é realizada de três em três anos pelos países membros da OCDE e por alguns outros países não membros, com base numa amostra de alunos de 15 anos de idade das diversas redes de ensino, etnias, género e níveis socioeconómicos.
O relatório publicado na corrente semana - que não lemos - é preocupante, segundo revelou a imprensa, que informa que “as competências em Matemática e Leitura dos alunos têm vindo a diminuir em todo o mundo, sobretudo devido à digitalização e à diminuição da leitura por lazer, o que causou consternação e promessas de ação em toda a Europa”. 
Actualmente há uma enorme heterogeneidade cultural dos alunos, os efeitos da evolução tecnológica no processo educativo são intensos e, muitas vezes, a escola já não é o que era e não se adaptou aos novos tempos, nem à conflitualidade laboral no sector, que enfraqueceu a autoridade dos professores e diminuiu o reconhecimento social da sua profissão. 
A sociedade portuguesa tem sérios problemas na saúde, na habitação, na justiça, na demografia, na desertificação do interior, na emigração dos jovens, no combate à pobreza e, agora, está confrontada com uma dura realidade na educação. 
A comunicação social anda ocupada com o João Palhinha e com o Luís Neves.
Espera-se que os nossos políticos tenham tempo para pensar nisto tudo.

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

9/11 - O mundo mudou, mas ficou pior

Foi há 25 anos que um grupo de dezanove elementos fundamentalistas islâmicos da Al-Qaeda sequestrou quatro aviões comerciais – dois Boeing 757 e dois Boeing 767 – conseguindo levar dois deles a colidir com as Torres Gémeas do World Trade Center, em Nova Iorque, o terceiro avião a colidir com o Pentágono, nos arredores de Washington, enquanto o quarto avião se despenhou depois de alguns passageiros e tripulantes terem resistido à acção dos sequestradores.
As Torres Gémeas não resistiram ao impacto dos dois aviões, incendiaram-se e ruíram em pouco tempo, representando o episódio mais trágico dos acontecimentos desse dia, em que morreram quase três mil pessoas de cerca de setenta nacionalidades, incluindo os 227 passageiros e tripulantes que se encontravam a bordo dos quatro aviões e os 19 sequestradores.
Foi um acto terrorista de uma violência extrema e sem precedentes, com o mundo a assistir horrorizado a quase tudo em directo pela televisão. Hoje o jornal Público evocou a tragédia do 11 de Setembro de 2001, conhecido nos Estados Unidos pela expressão 9/11, com destaque de primeira página e, como manchete, escolheu a frase “o mundo mudou mas não ficou melhor”. De facto, existe uma ameaça permanente de acções terroristas e essa convicção é mais forte, quando se lê o que disse o responsável do MI5 britânico, Ken McCallum, numa entrevista hoje publicada pelo jornal The Independent.
Disse ele que a Grã-Bretanha está perante uma ameaça maior e mais complexa do que aconteceu em 2001, isto é, alertou para que um possível novo choque estratégico, semelhante aos ataques de 11 de Setembro, pode já estar a ser preparado em áreas que os serviços de informação não estão a monitorizar e sugeriu-lhes para olharem para além das ameaças do passado e para se adaptarem aos desafios emergentes e inesperados. Algumas acções realizadas no conflito do Médio Oriente, designadamente o assassinato selectivo de personalidades iranianas, sugere que hoje há formas mais sofisticadas e igualmente letais de terrorismo, sem necessidade de sequestrar aviões Boeing.

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

A limpeza étnica em Gaza e na Cisjordânia

O genocídio conduzido pelos israelitas em Gaza prossegue como antes, embora a um ritmo mais silencioso, mas tão sistemático e letal como antes, perante o silêncio e a cobardia da União Europeia. Há dias, o diário espanhol El País noticiava que tinham sido assassinados 1.100 palestinianos desde o cessar-fogo de outubro de 2025 e que a situação na Cisjordânia (West Bank) estava a agravar-se, com a acção dos colonos, do exército e do governo israelitas que estão  preparar a anexação de jure do território.
Calcula-se que a quinta parte do território da Cisjordânia, que constitui a base territorial do estado da Palestina, reconhecido pelas Nações Unidas em 2025 e por cerca de 148 países, já está nas mãos dos colonos e das sua milícias, que proíbem as pessoas de se deslocarem entre a parte norte e a parte sul do território. Assim, a continuidade fisica entre o norte e o sul, ou entre Ramala e Belém está cortada pelo exército e pelos colonos, o que nunca acontecera desde os acordos de Oslo de 1993. Nenhum governo israelita procurou antes romper a continuidade geográfica da Cisjordânia, como agora acontece. Hoje é evidente que Israel quer inviabilizar a soberania palestiniana sobre o território da Cisjordânia e impedir a criação do estado da Palestina, em violação das resoluções das Nações Unidas que defendem a “solução de dois estados”, isto é, a existência de Israel e da Palestina como dois estados independentes, soberanos e contíguos, coexistindo lado a lado em paz e segurança.
A Europa tem estado cobardemente calada e demasiado cúmplice com o carrasco Netanyahu, com a honrosa excepção de Pedro Sánchez e, agora, de Andy Burnham, o primeiro-ministro britânico desde há menos de dois meses, que condenou explicitamente “a limpeza étnica executada por terroristas israelitas na Cisjordânia”, como hoje anunciou o diário The Guardian.
Então os líderes europeus não vêm isto? Talvez agora aprendam com Andy Burnham que condenou a besta com firmeza e que, desejavelmente, irá mais longe na denúncia dos crimes do regime de Netanyahu.

quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Ventania ameaça a Alemanha e a Europa

Depois de alguns dias com o computador inoperativo, ou em que a competência foi insuficiente para resolver a situação, parece que o problema estará ultrapassado.
Neste interregno em que a Terra rodou à volta do Sol durante vários dias, os acontecimentos dominantes terão sido os resultados das eleições estaduais no estado alemão da Saxónia-Anhalt, onde a extrema-direita da AfD (Alternativa para a Alemanha), obteve uma vitória esmagadora com cerca de 44% dos votos.
Depois da reunificação alemã em 1990, a República Federal Alemã juntou aos onze estados que formavam a Alemanha Ocidental, os cinco estados que constituíam a República Democrática Alemã, entre os quais a Saxónia-Anhalt, cuja capital é Magdeburgo.
Este resultado surpreendeu a Alemanha e a Europa, acelerando as preocupações sobre o avanço das forças da extrema-direita em países como a a Itália, a França, a Espanha e Portugal, entre outros, mas Donald Trump aplaudiu. No caso da Alemanha e com o apoio das classes trabalhadoras mais desfavorecidas, a AfD derrotou claramente a histórica CDU com um programa que promete uma ofensiva de deportação de estrangeiros, ou daquilo a que chamam “remigração”, mais detenções de estrangeiros e cortes nos apoios à integração. Relativamente às escolas, o AfD quer criar turmas separadas para crianças refugiadas, aumentar o controlo do governo sobre os manuais escolares, retirar financiamento aos programas de integração e proibir bandeiras LGBTQIA nas escolas. O partido de extrema-direita defende, ainda, o regresso à energia nuclear e ao gás russo, bem como o levantamento das sanções contra Moscovo e o fim do envio de armas para a Ucrânia.
E aí está como, 81 anos depois da Segunda Guerra Mundial, um partido político de extrema-direita pode chegar ao poder estadual. O jornal francês Libération destaca este importante assunto e diz que na Alemanha aconteceu “le choc fasciste”.

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

A Espanha mostra-se solidária com Ceuta

O caso de Ceuta já tem mais de um mês e continua a suscitar muitas interrogações sobre o que aconteceu, ou como foi possível que 80.000 pessoas “invadissem a cidade numa noite”. São conhecidas diversas teses sobre este caso e, embora Pedro Sánchez tenha excluído as responsabilidades de Marrocos e acusasse Israel, a Rússia e a extrema-direita, o facto é que Marrocos, bem como alguns dos seus “amigos”, parecem estar envolvidos nesta operação.
É caso para perguntar: quem quer retirar Ceuta à soberania espanhola e quem será que quer desforrar-se da independência de Pedro Sánchez? Sánchez é uma persona non grata para muita gente, porque tem carácter e pensamento próprio, reconheceu o Estado da Palestina e não pactua com os crimes israelitas em Gaza e na Cisjordânia, recusou a utilização das suas bases pelos Estados Unidos para atacar o Irão e rejeitou os ultimatos de Trump e do seu lacaio Mark Rutte quanto aos 5% do PIB em despesa militar.
Porém, o caso tem sido usado politicamente por vários membros da União Europeia para atacar Pedro Sánchez, mostrando uma grave falta de solidariedade que fragiliza ainda mais o projeto europeu, mas também pela oposição espanhola que aproveita esta oportunidade para atacar Sánchez, porque “esteve distraído” e “não foi capaz de resolver este problema".
Na passada 4ª feira realizaram-se grandes manifestações por toda a Espanha de “apoio a Ceuta” como território espanhol mas que, em alguns casos, também foram manifestações “contra Sánchez”, isto é, o apoio a Ceuta serviu de pretexto para a oposição atacar o governo. Essas manifestações “encheram” as capas de toda a imprensa espanhola, assim acontecendo com a edição de ontem do jornal Sur, el periódico de Málaga, em cuja fotografia de capa de vê, bem destacada, a bandeira gironada de oito peças de negro e prata, igual à bandeira de Lisboa, a lembrar que Ceuta foi portuguesa durante 225 anos!

Missão de 286 dias no mar é muito longa

Um dos princípios básicos dos regimes democráticos é a subordinação do poder militar ao poder político civil legitimado pelo voto popular, daí resultando que os militares aconselham tecnicamente a esfera política e actuam operacionalmente no sentido de executar as suas decisões, dentro da lei. Portanto, a autoridade final sobre o emprego das Forças Armadas pertence ao poder político civil constitucionalmente competente, mas os políticos não devem interferir na condução das operações militares.
Nas actuais circunstâncias da guerra entre os Estados Unidos e o Irão, assiste-se quase diariamente a uma intervenção do “comandante supremo das Forças Armadas” dos Estados Unidos que, muitas vezes, parece querer comandar operacionalmente as suas forças. Porém, há indícios de que algumas coisas não correm bem, como mostrou a recente demissão de Dan Driscill, o seu Secretário do Exército, que não suportou mais as fanfarronices de Trump e de Hegseth, bem como a anunciada falta de mísseis e outras armas e, ainda, o verdadeiro desterro a que foi sujeito o porta-aviões USS Abraham Lincoln e os 5.000 homens e mulheres que tem a bordo.
Segundo o jornal The San Diego Union-Tribune esta unidade naval, esteve 286 dias em missão no Médio Oriente e chegou a Laem Chabang, na Tailândia, para “um merecido período de descanso e lazer”, sendo acompanhada pelo destroyer USS Frank E. Oetersen Jr mas, segundo a Reuters, “ambas as embarcações apresentavam manchas de ferrugem e pintura irregular ao longo da linha d'água”.
Também o jornal canadiano The Globe and Mail deu notícia da chegada do USS Lincoln à Tailândia, com uma fotografia que mostra muita ferrugem no costado e com o título “finalmente em terra”, referindo em subtítulo as “crescentes preocupações com a saúde mental da tripulação”.
Uma permanência de 286 dias no mar até compara com as epopeias marítimas de Vasco da Gama, de Fernão de Magalhães, de Francis Drake, de James Cook, ou de Jean-François de La Pérouse. 
Donald Trump e a sua dócil entourage devem-se ter esquecido do USS Abraham Lincoln e das pessoas que tinha a bordo, o que mostra que não basta mandar, pois é preciso saber mandar.

terça-feira, 1 de setembro de 2026

Fernando Pimenta só sabe ganhar

Fernando Pimenta concluiu no passado domingo a participação portuguesa nos Mundiais de canoagem, em Poznan, na Polónia, tendo-se tornado num duplo campeão do mundo pois triunfou na prova de K1 5000m, depois de ter vencido no sábado a prova de K1 1000m. 
Com 37 anos de idade, o atleta Fernando Pimenta elevou para 187 o número de medalhas conquistadas nos Jogos Olímpicos, nos Campeonatos Mundiais, nos Campeonatos Europeus e em outras provas internacionais de canoagem, merecendo especial destaque as suas duas medalhas olímpicas – em Londres 2012 e em Tóquio 2020 – bem como os seus 14 títulos mundiais. “Uma proeza tremenda”, como se referiu o jornal Público às vitórias deste homem que é o maior atleta português de todos os tempos, num país de que também fazem parte outras glórias desportivas como Carlos Lopes e Rosa Mota, ou Eusébio e Cristiano Ronaldo, entre outras.
Exceptuando o Público que o homenageou com destaque de primeira página na sua edição de ontem, nenhum outro jornal generalista destacou os feitos desportivos de Fernando Pimenta e até os jornais desportivos se limitaram a publicar pequenas notas noticiosas de primeira página, pois andavam muito ocupados com a promoção desse grande futebolista que é João Palhinha, cuja fotografia ocupou as páginas dos jornais desportivos durante uma semana, ou mais.
Os feitos desportivos de Fernando Pimenta não mereciam esta miopia jornalística ou esta visão distorcida da imprensa desportiva portuguesa.
Fernando Pimenta é um exemplo de trabalho, de perseverança, de sacrifício e de talento, pois só com esses atributos é possível ter sido campeão do mundo em 14 ocasiões, mas também é um exemplo de sucesso e de grande orgulho para os desportistas portugueses.
Daqui a dois anos, entre 14 e 30 de julho de 2028, vão realizar-se os Jogos Olímpicos de Los Angeles. Todos contamos com Fernando Pimenta!