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sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

Uma “tempestade perfeita” na Venezuela

A Venezuela é governada desde 2012 por Nicolás Maduro Moros, um homem de elevada estatura, elevada arrogância e elevado autoritarismo. Começou por assumir a presidência interina do país após a vitória eleitoral de Hugo Chávez, devido à grave doença do presidente eleito que veio a falecer em março de 2013. No mês seguinte, Maduro conseguiu vencer as eleições presidenciais e tornar-se o 57º presidente da República Bolivariana da Venezuela. Cinco anos depois Maduro foi reeleito, embora o resultado das eleições de 2018 não tivesse sido reconhecido, tanto pela oposição, como pela generalidade da comunidade internacional que, desde então, o têm considerado um presidente ilegítimo e o consideram um ditador.
O país vive atrofiado pelo autoritarismo e pela repressão praticados pelo regime e, segundo é regularmente noticiado nos media, a Venezuela está em declínio socioeconómico, com aumento dos problemas políticos e sociais, incluindo o aumento da pobreza, da inflação, da criminalidade e da fome, mas também o crescimento descontrolado do narcotráfico. O ataque ao narcotráfico foi o pretexto que levou Donald Trump a restaurar a Doutrina Monroe, que tendo sido enunciada em 1823, tinha por lema “a América para os americanos”. Assim, há uma escalada na tensão entre os Estados Unidos e a Venezuela, estando a acontecer uma intensa movimentação militar americana para aquela região, tendo Donald Trump já anunciado que vai haver “ataques americanos contra alvos no interior da Venezuela”, o que é muito preocupante, sobretudo para os venezuelanos.
Perante este quadro, o jornal Diario 2001, que se publica em Caracas, dedica toda a manchete da sua edição de hoje à jovem Clara Vegas Goetz, que foi eleita Miss Venezuela em representação do estado de Miranda e que é “un orgullo para su mamá la también Miss Venezuela 1990 Andreina Goetz”.
Clara estará em Porto Rico no próximo ano e espera-se que seja “la octava corona universal para Venezuela”. 
Quando a situação venezuelana parece configurar uma “tempestade perfeita” que ameaça desabar sobre o país, os venezuelanos e a sua imprensa pensam nas misses 

terça-feira, 21 de novembro de 2023

Houve uma espécie de milagre económico

O desempenho económico de um país depende de muitos factores que estão presentes na sociedade e há as mais diversas opiniões sobre o assunto, umas que tudo criticam e outras que tudo elogiam, quase sempre em função dos seus interesses políticos particulares. O facto é que a avaliação macroeconómica depende de muitos indicadores económicos e sociais que normalmente são tratados pela política económica, sobretudo o crescimento do produto, a taxa de emprego, a inflação, o comércio externo, o desequilíbrio externo, a evolução da dívida e o investimento, mas de muitas outras variáveis estruturais e conjunturais. 
As comparações internacionais são também um instrumento indispensável à avaliação económica, bem como os estudos assinados pelos sindicatos e pelas organizações patronais. Assim, uma opinião fundamentada sobre o desempenho económico exige muito estudo, muita consulta de estatísticas e muitas comparações internacionais, mas também muitas análises sectoriais e regionais, tanto qualitativas como quantitativas. Por isso, são muito raros os especialistas independentes que, normalmente através da televisão, avaliam o desempenho económico do nosso país com base na informação necessária e com seriedade intelectual. O cidadão vive entre os que afirmam que tudo vai bem e aqueles que dizem que tudo vai mal.
Quando um famoso economista como Paul Krugman vem a Portugal, um país que ele bem conhece, é natural que a imprensa o entreviste e foi o que fez o jornal de Negócios, que hoje publicou essa entrevista em primeira página, destacando a sua frase: “Portugal é uma espécie de milagre económico”. Paul Krugman tem 70 anos de idade, é professor na Universidade de Princeton e em Yale, escreve regularmente nos jornais de referência americanos e em 2008 foi o vencedor do Prémio Nobel da Economia. Conhece bem a economia portuguesa e, nesta entrevista, até declarou que “é um pouco misterioso como é que as coisas correram tão bem”. Foi o planeamento económico? Foi a “mão invisível? Que importância teve António Costa e o seu governo para este resultado, com contas certas e queda brutal da nossa dívida externa?

quarta-feira, 27 de setembro de 2023

O reaparecimento do “legado do medo”

No último texto que aqui publicamos foi tratado o ex-jornalismo independente e era referida uma comunicação de massas que produz e reproduz ideologias mascaradas de independência e neutralidade em relação aos interesses comerciais, políticos e até do próprio Estado. Os efeitos sociais dos mass media são intensos e são estudados desde há muitos anos, até existindo a “teoria das balas mágicas” que afirma que o processo de comunicação de massas é equivalente ao que se passa numa carreira de tiro, pois bastava atingir o alvo para que este caísse.
No actual contexto em que a comunicação social é um negócio, o jornalista deixou de ser um profissional independente e de valores próprios, para passar a partilhar os valores do seu patrão ou da sua empresa. Esta realidade tem-se agravado nos últimos anos e aplica-se à imprensa, à radio e à televisão. Nessa linha de pensamento, também o iluminado Marshall McLuhan afirmou que a rádio e a televisão estavam a fazer do nosso planeta uma “aldeia global”. De facto, são bem conhecidos os efeitos sociais e culturais dos mass media e, há poucos anos, um jornalista português de referência dizia que “a televisão vende sabonetes e até vende presidentes da república”.
Quando, na sua edição de hoje, o Diário de Notícias diz que “40% dos juízes admite que comunicação social influencia decisões”, confirmamos aquilo que há muito tempo era uma evidência e ficamos preocupados com os correios da manha e outros pasquins que, servindo duvidosos valores e princípios, utilizam a difamação, a inverdade, o sensacionalismo, a violação do segredo de justiça e o “vale tudo”, para estimular os julgamentos e as condenações na praça pública. Assim se ressuscita aquilo que os cientistas sociais americanos designam por “legado do medo”, isto é, o medo dos jornais e das televisões, o medo da difamação e da propaganda, o medo da suspeita malévola e sem fundamento, o medo das redes sociais, isto é, o medo da comunicação de massas.

domingo, 24 de abril de 2022

Viva o 25 de Abril, viva o dia da Liberdade!

Cartaz da Associação 25 de Abril
Já lá vai o tempo em que alguns discutiam se o 25 de Abril tinha valido a pena, mas 48 anos depois daquele dia inicial inteiro e limpo, já ninguém ousa discutir a importância que tiveram para a sociedade portuguesa as portas que Abril abriu.  Hoje, só os mais velhos sabem o que foram os tempos sombrios da ditadura e das suas verdades indiscutíveis, das perseguições políticas e da emigração maciça, do obscurantismo cultural e do subdesenvolvimento económico, da intransigência salazarista-caetanista e da guerra colonial.
As sociedades são dinâmicas e evoluem por ciclos. Os nossos quase nove séculos de história mostram-nos isso mesmo, com ciclos como os tempos faustosos das índias e dos brasis, mas também com os tempos das humilhações da ocupação filipina e das invasões francesas. Mais recentemente, ao ciclo da repressão política e do conformismo em que vivemos desde 1926, seguiu-se depois de 1974 um esperançoso ciclo com a integração no espaço democrático europeu e a apressada recuperação do tempo perdido, com liberdade, bem-estar económico e paz social.
Porém, nos tempos que vivemos é imprevisível definir ou antecipar que outro tipo de ciclo nos espera. Por isso, a evocação do 25 de Abril não pode ser apenas uma referência histórica e um marco festivo e emocional para aqueles que viveram a alegria da libertação, mas tem que constituir um momento de reflexão relativamente aos princípios e valores que esse dia nos ajudou a adquirir, mas que carecem de aprofundamento no que respeita ao nosso sistema político e social, designadamente na defesa dos interesses e das causas públicas, no combate às desigualdades sociais e às assimetrias regionais, no reforço da solidariedade nacional e na prevenção das alterações climáticas e dos seus efeitos. 
Os princípios democráticos e de desenvolvimento que nortearam o 25 de Abril têm que ser reafirmados a propósito da sua celebração, para mostrar aos cidadãos e aos que eles escolheram como seus representantes, que desejamos uma sociedade mais justa e mais solidária, sem corrupção, sem tráfico de influências e sem clientelismo. 
Será nesse espírito que amanhã havemos de celebrar o 25 de Abril.

terça-feira, 29 de junho de 2021

Marcelo foi contagiado pela futebolite

O jornal Tal & Qual foi fundado em 1980 e teve grande sucesso editorial, mas em 2007 cessou a sua publicação. Porém, cerca de catorze anos depois, voltou às bancas como semanário de informação geral e é um regresso que se saúda.
Na sua última edição o jornal escolheu para manchete “Marcelo anda a pôr Belém num virote”, mas o assunto não me interessou porque não tenho nenhuma curiosidade em saber a forma como o venerando Chefe do Estado faz a gestão da sua residência oficial.
Entretanto, vieram os dias do Euro 2020, com a comunicação social a infectar a sociedade portuguesa de uma forma absolutamente desproporcionada e a deixar no espírito dos mais distraídos a ideia de que o futebol era a coisa mais importante das nossas vidas. Com o entusiasmo fora dos limites, não só o Presidente da Assembleia da República perdeu a cabeça, como o próprio Presidente da República veio dar razão ao Tal & Qual, ao pôr o país num virote, pois alinhou no generalizado desvario que se abateu sobre o país, fazendo ao mesmo tempo de comentador, de adepto e de seleccionador. Foi um absoluto exagero, estudado e preparado, sempre com os microfones e as câmaras à vista, como ele tanto gosta. Naturalmente, decidiu assistir ao jogo Portugal-Bélgica, mas não escolheu o recato da sua casa, mas preferiu um restaurante com os inevitáveis microfones à volta. No dia seguinte, tomou a decisão de ir esperar os jogadores que, por acaso tiveram a pior prestação de sempre naquela competição. Mais um exagero. O jornal O Jogo escreveu que “Marcelo decidiu dar colo à selecção”, mas mais nenhum jornal ligou à inapropriada presença de Marcelo Rebelo de Sousa, que foi dizer que éramos tão bons como o campeão do mundo, que éramos melhores que o número um do ranking mundial, que jogámos mais do que eles e que a luta continua. Foi demasiado colo. É demasiado populismo. É bom que o Presidente da República seja inteligente, culto, cosmopolita e democrata, mas estes exageros não são nada recomendáveis.

segunda-feira, 15 de março de 2021

Desconfinamento requer muita prudência

Hoje inicia-se o processo de desconfinamento, ou como diz o jornal Público, o lento regresso à normalidade ou, ainda, o já chamado regresso a conta-gotas, sendo a face mais visível da nova situação a abertura das escolas para os mais novos, o que vai fazer com que mais de um milhão de pessoas volte à rua. Porém, este início de desconfinamento tem mesmo que ser prudente pois o vírus ainda não desapareceu, tem novas variantes e está activo em países bem próximos de nós.
O governo ouviu os especialistas e definiu um plano de desconfinamento para os próximos três meses, com indicação das medidas específicas a cumprir nas diferentes áreas de actividade, embora se mantenha o dever cívico de recolhimento domiciliário e as regras gerais de uso de máscara e de distanciamento social que têm vigorado.
Como sempre, surgiram críticas daqueles que entendem que ainda era cedo para desconfinar e daqueles que criticam a timidez das medidas tomadas. Eu confio no plano apresentado pois é equilibrado e, como qualquer outro plano, não é rígido e pode ser reapreciado a qualquer momento perante novas evidências.
A situação pandémica é muito crítica em diversos países e regiões, designadamente em alguns países da Europa, parecendo que há uma quarta onda de covid-19 que se aproxima, o que a todos obriga ao cumprimento das regras já conhecidas. 
Entretanto, em relação à vacinação da população, há muito pouca informação. É sabido que houve cortes nas remessas de vacinas que se previa serem enviadas para Portugal o que poderá ter alterado os planos de vacinação, mas também parece que há muita pressão de certas corporações para serem consideradas prioritárias e que denotam um espírito egoísta e não solidário relativamente aos grupos dos mais velhos. Há demasiada gente a reivindicar que são prioritários.
É o que parece, mas talvez seja eu que esteja a ver mal

domingo, 4 de outubro de 2020

Chissano e a guerra em Cabo Delgado

Por razões históricas, muitos portugueses conheceram a orla costeira da província moçambicana de Cabo Delgado desde o início do século XVI, quando as naus da carreira da Índia escalavam ou invernavam na ilha de Moçambique, tendo-se estendido até 1975, quando a República Popular de Moçambique se tornou independente. Por isso, por razões históricas e emocionais, o que se passa em Cabo Delgado interessa a muitos portugueses que por lá passaram, como é o nosso caso.  A região é muito rica em recursos naturais e tem abundantes reservas de gás natural, mas está pouco desenvolvida, enquanto uma parte da sua população é fortemente islamizada. A cidade de Maputo, que é a capital, encontra-se a quase dois mil quilómetros e a população tem dificuldade em apoiar um poder político tão distante e tão ausente, para além de sentir que o seu empenhamento na luta armada de libertação nacional continua a não ser reconhecido. Por tudo isso parece haver muito descontentamento em Cabo Delgado. 
Em Outubro de 2017 grupos armados não identificados atacaram a vila costeira de Mocímboa da Praia, registando-se desde então um crescente número de assaltos a povoações que já causaram mais de um milhar de mortos e que levou a que mais de cem mil pessoas abandonassem as suas aldeias e procurassem refúgio em áreas mais seguras. As forças de defesa moçambicana e, eventualmente, grupos de mercenários contratados pelo governo não têm tido sucesso e a situação parece agravar-se. Trata-se de uma insurreição ou de uma guerra? Que apoios nacionais ou internacionais têm os insurgentes? Será uma tentativa para criar um estado islâmico no norte de Moçambique? Que relação tem esta guerra com a exploração do gás natural? 
É neste contexto que, numa sábia entrevista ao jornal O País, o antigo presidente moçambicano Joaquim Chissano veio dizer que “é preciso aprofundar as causas da guerra em Cabo Delgado”. Exactamente.

segunda-feira, 6 de abril de 2020

Europa Ocidental está no olho do furacão

O jornal espanhol ABC destaca em primeira página na sua edição de hoje as fotografias dos primeiros-ministros de seis países da Europa Ocidental, com a indicação das percentagens de apoio popular que as suas medidas de combate à pandemia do covid-19 têm suscitado. Apesar de ser um assunto interessante, é de lamentar que o jornal tenha evidentes e inoportunos objectivos políticos contra Pedro Sánchez, porque ao mostrar que ele tem o mais baixo apoio de entre todos os líderes da Europa Ocidental, acaba por se colocar num patamar crítico e de fora de uma união nacional que nesta altura é essencial para ultrapassar a grave situação por que passa a Espanha. Não é a altura de atacar primeiros-ministros. Inversamente, António Costa surge nesta apresentação como o líder com mais apoio popular da Europa Ocidental, com a particularidade de ter os apoios do principal partido da oposição e de uma muito larga maioria parlamentar.
O facto é que a pandemia assentou arraiais nesta faixa do continente europeu e que a Europa Ocidental está no olho deste furacão. Nos seis países considerados, verifica-se que, segundo os números mais recentes, já houve 43.419 óbitos em consequência do covid-19, repartidos por Itália (15.887), Espanha (12.641), França (8.078), Reino Unido (4.934), Alemanha (1.584) e Portugal (295). Como até agora estão contabilizados 65.509 óbitos em todo o mundo devidos ao covid-19, significa que nestes seis países da Europa Ocidental aconteceram 66% dessas fatalidades. Os países que desde o século XVI dominaram o mundo e que, provavelmente, têm os mais elevados índices civilizacionais da humanidade, são aqueles que mais estão a sofrer com a pandemia do covid-19
Já apareceram algumas teorias explicativas, mas nenhuma delas parece convincente. Será uma consequência de estilos de vida? De hábitos de consumo? De práticas de higiene? Ora aí está mais um tema a merecer a atenção da investigação científica, até porque pode ajudar a resolver ou a atenuar o problema.

quarta-feira, 1 de abril de 2020

O novo mundo da tecnologia já chegou


Meio mundo está em quarentena e, nesse quadro, as comunicações electrónicas adquiriram uma importância que, embora seja inesperada, tem surpreendido. Muitas actividades quotidianas deixaram de exigir a presença física das pessoas e a quantidade de funções que passaram a depender da internet e da world wide web são incontáveis. Na na situação de emergência por que passamos, generalizou-se a adopção de computadores e dos seus derivados. Mesmo os mais irredutíveis cidadãos começam a render-se ao novo mundo porque, através do computador, escrevemos e guardamos textos, podemos ter música e cinema, mas também o teletrabalho, a teleconferência, a telescola, o home banking e inúmeras App, o que significa um novo mundo de eficiência, mas também de maior desumanização. Os novos reis da comunicação são o WhatsApp, o Skype, o Facebook, o Instagram, o Twitter, o Google+ e o Youtube. Num pequeno equipamento de 14 por 7 centímetros, ou mesmo mais pequeno, que pode custar menos de cem euros, podemos ligar-nos ao mundo e telefonar, escrever, ver filmes, mandar mensagens, fotografar, filmar, pagar despesas, ter consultas médicas, comprar livros, encomendar provisões ou refeições e muitas mais coisas que muitas vezes até desconhecemos.
Com os dias de quarentena e de confinamento, as nossas casas estão a tornar-se verdadeiros home offices, de onde cada um de nós telefona, recebe e envia mensagens, conferencia, consulta o banco, paga facturas, marca consultas médicas, recebe as compras dos supermercados, visita bibliotecas e museus, compra livros e discos e faz muitas mais coisas. As habituais idas ao multibanco e ao supermercado tendem a ser desnecessárias. Esta quarentena está mesmo a acelerar a chegada de um novo mundo da tecnologia. Estamos realmente a entrar na era do home office como hoje referia uma revista brasileira.

segunda-feira, 30 de março de 2020

Depois disto, nada vai ser como dantes


Quando há mais de duas semanas começamos a tomar medidas de distanciamento social ou de voluntária quarentena, todos imaginamos que a situação de confinamento poderia durar até meados do mês de Abril, depois começou a falar-se em Maio e um jornal de Lisboa anuncia hoje que a quarentena pode durar até finais de Junho. Todos os dias somos informados com novas previsões baseadas em estudos matemáticos que vão atirando o fim desta pandemia para mais tarde, mas o facto é que esses modelos matemáticos pretendem prever a evolução de um fenómeno novo e até há pouco tempo desconhecido. Portanto, nesta preocupante situação por que estamos a passar, parece que vivemos mais no campo do palpite do que no campo da verdade científica.
Independentemente de se saber o andamento da curva epidemiológica e de se saber se vai ter um pico ou se achata, ou se tem um pico agora e outro pico mais tarde, já ninguém tem dúvidas que o nosso modo de vida vai mudar e que muitos dos exageros civilizacionais a que a sociedade chegou, não sobreviverão a esta crise.
Daí que, na sua última edição, o Courrier International tenha aberto um debate à volta do tema repensar o mundo. Porém, a mudança de paradigma que necessariamente nos vai alterar o modo de vida, não vai depender dos poderes dos estados, das orientações dos líderes ou dos sistemas económicos, mas vai ser obra de cada ser humano e da sua adaptação a novos tipos de relacionamento social e familiar, a novos modelos de consumo e a uma nova atitude perante o ambiente e a paisagem. Depois desta pandemia do covid-19 vão ser diferentes a sociedade, a economia, as relações internacionais, o desporto, o turismo, o nosso modo de vida. Nada vai ser como dantes.

sábado, 12 de janeiro de 2019

As “fake news” são um verdadeiro perigo

As fake news parecem estar na moda e são, cada vez mais, um perigo para a democracia e para o modelo social em que vivemos. Esta afirmação é actualmente recorrente e Le Nouvel Observateur ou L’OBS, que é a mais importante revista de informação francesa, dedica  a capa da sua última edição ao tema das notícias falsas ou mentirosas que estão a corromper a nossa forma de vida, sobretudo depois de se terem instalado nas novas plataformas digitais e, em especial, no facebook e nos blogues ditos especializados, que se disfarçam de jornais digitais. A revista francesa trata o tema como “le cancer des fake news”, ou como "la maladie contemporaine des fake news".
Se poucos acreditam em alguém que esteja na rua a falar de cara tapada e com a voz distorcida, há pelo contrário, muita gente, incluindo muitos milhares de portugueses, que aceitam ler, que acreditam no que lêem e até reproduzem o que encontram escrito no facebook e em muitos outros sites de desinformação anónimos que estão a proliferar.
Porém, as fake news não apareceram nos anos mais recentes com a internet, nem são exclusivas dos nossos dias, nem apenas do mundo digital. Antigamente eram os boatos e agora são as fake news.
Os jornais impressos e as televisões de referência também usam as fake news e, todos recordamos, as mentiras que levaram ao bombardeamento de Belgrado pela NATO (1999), a invasão do Iraque pelos Estados Unidos (2003) ou os alegado uso de armas químicas contra civis pelo regime de Bashar el-Assad (2012), mas também os casos mais recentes dos pasquins que em Portugal usam as fake news para condenar sem julgamento ou para fazer assassinatos de carácter na opinião pública, sem um mínimo de investigação credível.
As fake news espalham-se rapidamente pelas pessoas e grupos sociais que têm as mesmas crenças (políticas, religiosas, desportivas ou outras), com as mensagens falsas e mentirosas a circular e a amplificar-se, não por serem verdadeiras, mas apenas porque reforçam essas mesmas crenças.
Assim terá sido eleito Trump e Bolsonaro, assim se alimentam diariamente os adeptos dos grandes clubes desportivos portugueses e, assim, acabarão por ser influenciados os resultados das eleições que se aproximam.

terça-feira, 13 de novembro de 2018

Será o fim do jornalismo em Portugal?

As comemorações do fim da 1ª Guerra Mundial tiveram grande repercussão, não só para honrar os seus milhões de mortos, mas também para apelar à paz e a uma pedagogia da paz e da concórdia entre as nações. As cerimónias realizadas em Paris foram marcantes, devido à presença de muitas dezenas de chefes de Estado e de governo, mas muitas outras foram realizadas por todo o mundo. A edição de ontem do jornal canadiano Toronto Sun escolheu uma sugestiva imagem para a sua primeira página e escreveu como lead a seguinte frase:  “Assinalando 100 anos desde o fim da 1ª Guerra Mundial, realizaram-se cerimónias por todo o país e por todo o mundo como tributo aos que lutaram e aos que morreram”. Significa que, de uma forma ou de outra, a evocação da 1ª Guerra Mundial correu mundo.
Portugal entrou na guerra nas frentes da Flandres e nas fronteiras de Angola e Moçambique e embora não se conheça exactamente o número de portugueses mortos em combate ou por doença, as estimativas apontam para cerca de seis mil, que o país nunca deixou de homenagear.
Como já ontem referimos, nenhum jornal português assinalou ou deu importância a esta efeméride de significado mundial, talvez porque somos terrivelmente periféricos na Europa e no mundo, não só na geografia, mas também no culto de valores culturais e da nossa História. Lamentavelmente, a nossa imprensa é cada vez mais papel borrado de tinta. O que conta para a nossa imprensa escrita (e televisiva) é um tal Bruno de Carvalho, uma figura menor da nossa terra que, até prova em contrário, não fez nada de mal e apenas está a ser investigado. O caso nem merecia notícia, mas o Diário de Notícias, o Público, o Jornal de Notícias e, naturalmente, o Correio da Manha, não falam noutra coisa. Impera a lei de "vender papel" a qualquer preço ou o jornalismo de vão de escada. Não quero crer que acabou o jornalismo em Portugal, apesar de ver tanta mediocridade, tanta incompetência e tanta falta de sentido de serviço ao público.

sábado, 24 de março de 2018

Facebook – a comunicação que ameaça

A notícia já corre há alguns dias e revela que o Facebook, ou feicebuque como o meu amigo JNB gosta de escrever, tratou de fazer batota e começou a explorar o exibicionismo dos seus utilizadores e a segmentá-los ou arrumá-los por perfis etários, psicológicos, económicos, culturais e outros. Assim, construiu uma monumental base de dados com milhões de registos de grande valor o que levou o deslumbrado Mark Zuckerberg, o criador do Facebook, a vender essas informações privadas a uma tal Cambridge Analytica.
Os efeitos sociais dos mass media já eram bem conhecidos desde finais da primeira metade do século XX, através dos trabalhos de Paul Lazarsfeld e do casal Lang, que estudaram os efeitos das notícias sobre os consumidores e sobre os eleitores, isto é, sobre o consumo e sobre o voto. Hitler e a sua equipa também conheceram essas teorias de manipulação das decisões das pessoas e o canadiano Marshall McLuhan veio dizer que, sob a pressão dos mass media, o mundo se tinha transformado numa aldeia, daí nascendo o conceito de aldeia global.
Com a televisão, com a internet e com as redes sociais, o problema aprofundou-se. É agora possível definir os públicos-alvo com grande precisão e ser mais directo e mais eficaz na transmissão de mensagens comerciais ou políticas, canalizando a mensagem para os alvos preferenciais, se necessário através das fake news ou as notícias produzidas expressamente para produzir certos efeitos, que são tão comuns em Portugal, sobretudo nas fugas ao segredo de justiça que condenam qualquer cidadão perante a opinião pública, antes do julgamento em tribunal.
Assim, a Facebok e a sua associada Cambridge Analytica trataram de manipular os perfis dos seus utilizadores para uso publicitário e eleitoral e, segundo parece, foi daí que resultaram as surpresas eleitorais que deram a vitória ao Brexit e a Donald Trump. O assunto é muito sério porque é um enorme perigo para a paz e para a convivência democrática, tendo sido retratado na capa da edição de hoje do Der Spiegel.
Bem pode Mark Zuckerberg pedir desculpas, mas o facto é que o nosso modo de vida está ameaçado.

domingo, 11 de fevereiro de 2018

Uma notável entrevista de António Costa

Não é habitual que um político português seja entrevistado por um grande jornal internacional e seja dado um tão grande destaque a essa entrevista, mas é o que acontece hoje com a edição do jornal conservador espanhol ABC e com a entrevista ao Primeiro-Ministro de Portugal, cuja fotografia ocupa toda a primeira página. O lead da entrevista é, por si só, um elogio ao governo português e nem precisa de tradução:
En apenas unos años Portugal ha pasado de ser um país rescatado a convertirse en modelo a seguir logrando una envidiable recuperación económica. Ha reducido el déficit, la deuda y el paro; se ha convertido en un foco de atracción de capitales, y la economía crece al mismo fuerte ritmo com que lo hacen el turismo y las exportaciones. Los portugueses han dicho adiós a la austeridad. Pero no ha sido un milagro. Detrás hay planificación política, y la respuesta activa del tejido empresarial que ha sabido encontrar una oportunidad para expandir su negocio fuera de las fronteras. Este «milagro» luso se ha producido en un novedoso contexto político. El socialista António Costa se convirtió a finales de 2015 en primer ministro a pesar de no ganar las elecciones. Lo consiguió dejando a un lado las diferencias con dos de sus rivales políticos, los comunistas y el Bloco Esquerda (BE), y consiguiendo que lo apoyaran pero sin hipotecarse a sus postulados más radicales. Costa ha demostrado estar dotado para el diálogo y el consenso”.
A entrevista é notável e é mais um contributo para o prestígio ascendente de Portugal além-fronteiras, com Costa a juntar-se a Guterres, a Centeno, a Cristiano Ronaldo e mais alguns portugueses de talento. Em determinada altura, um dos três entrevistadores refere que Portugal “ha protagonizado una recuperación económica espectacular” e até pergunta a António Costa se “no querría hacer política en España?”
Perante isto, nem sabemos o que dizer da gritaria que ouvimos na Assembleia da República e dos sistemáticos insultos que Assunção Cristas e Hugo Soares fazem a António Costa.

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Eanes um Presidente para a História

A revista do Expresso publicou na sua última edição uma longa e muito interessante entrevista com António Ramalho Eanes, o primeiro Presidente da República eleito pelo regime democrático quando tinha apenas 41 anos de idade.
É uma entrevista notável do homem que ocupou o Palácio de Belém entre 1976 e 1986 num tempo de grandes dificuldades políticas, económicas e sociais, na qual revela a sua inteligência, a sua sabedoria e a sua grande estatura intelectual na abordagem dos mais diversos temas nacionais e internacionais.
O conteúdo da entrevista só me merece uma palavra: imperdível.
Apesar de Mário Soares (1986-1996) e Jorge Sampaio (1996-2006) terem cumprido mandatos presidenciais merecedores de grande apreço por parte dos portugueses, o facto é que a figura e o desempenho presidencial de Ramalho Eanes permanecem vivos na memória dos portugueses e a leitura desta sua entrevista mostra porquê. “Estou em paz comigo mesmo. Posso ter cometido erros mas entendo que os cometi quase sempre com bom propósito, boa intenção, com uma correcção ética preocupada”.
Ao longo da entrevista o general Ramalho Eanes responde com segurança e pertinência às questões que lhe são colocadas no domínio da vida política nacional, dos partidos, dos sindicatos, das Forças Armadas, da reforma educativa, da reforma fundiária, do endividamento dos portugueses, da moeda única, da União Europeia, das consequências do Brexit, da política internacional e de muitos outros assuntos internos e internacionais. Está esperançado, mas também preocupado com o futuro porque “a paz mundial não está garantida”. Elogia a solução política actual por ter quebrado o princípio da inevitabilidade, porque “não há inevitabilidades e quem escreve o futuro são os povos”. Com grande verticalidade e sem complexos, afirmou que “socialmente sou um homem de esquerda”, porque defende a igualdade e a solidariedade.
Em síntese, é uma entrevista notável de um homem notável, que deve ser lida atentamente.

domingo, 9 de julho de 2017

A modernidade da língua portuguesa

A edição de hoje do oHeraldo, o centenário jornal que se publica em Goa e que até 1983 utilizou a língua portuguesa, destaca na sua primeira página uma entrevista com Edgar Valles, um advogado português de origem goesa que preside à direcção da Casa de Goa em Lisboa.
O conteúdo desta entrevista e a sua colocação na primeira página do jornal devem ser destacadas, porque os jornais goeses não se costumam interessar por notícias de Portugal, embora o oHeraldo seja uma excepção, pois de vez em quando faz uma ou outra referência ao futebolista Cristiano Ronaldo, às cerimónias de Fátima ou aos resultados da Liga Portuguesa de Futebol. Na sua entrevista, Edgar Valles salientou que “os goeses devem compreender que os laços indo-portugueses não são semelhantes aos laços indo-britânicos”, um facto evidente que muito poucas vezes é salientado. Além disso, Edgar Valles destacou a modernidade da língua portuguesa e defendeu que “o português deve ser ensinado a todos os goeses como a língua dos nossos antepassados, mas também aos indianos que se instalam em Goa. A ligação dos goeses a Portugal não pode ser apenas para obter um passaporte português para ir trabalhar para o Reino Unido. O português é a quarta língua mais falada no mundo e os goeses devem aprender português e procurar trabalho em Portugal e nos outros países do mundo onde se fala português”.
Estas declarações não são novas, mas têm um renovado peso cultural, por terem sido feitas por uma personalidade goesa que representa uma prestigiada associação de goeses em Portugal. Naturalmente, a entrevista de Edgar Valles também é um estímulo para os que se dedicam ao ensino do português em Goa, tanto na Fundação Oriente como no Instituto Camões.

domingo, 2 de abril de 2017

É preciso muito mais ética na advocacia

A revista advocatus inclui na sua última edição uma entrevista com Guilherme Figueiredo, o novo Bastonário da Ordem dos Advogados, destacando uma afirmação na primeira página em que diz que “a advocacia tem de ser uma profissão exclusiva”. É óbvio que toda a gente que gosta de viver numa sociedade equilibrada e democrática concorda com esta afirmação: a advocacia é uma actividade que deve ser exercida em exclusividade. Não é a única, porque há outras actividades assim no nosso país.
Há que esperar, portanto, que o Bastonário seja coerente e seja consequente com o princípio que ele próprio enunciou, para bem de todos nós. Assim, espera-se que o Bastonário denuncie a promiscuidade e o conflito de interesses que se vive na Assembleia da República e proponha medidas legislativas para acabar com aquilo que Paulo Morais disse ser um antro de corrupção, talvez o maior do país, onde se fazem muitos negócios.
Depois é preciso acabar com a cena quotidiana de ver sócios de poderosos escritórios de advogados que defendem sempre os interesses dos seus clientes, mas que intervêm como supostos comentadores televisivos independentes e levam o público a comer gato por lebre. Apenas alguns nomes e respectivos registos: José Miguel Júdice (PLMJ/RTP), António Lobo Xavier (MLGTS/SIC), Luís Marques Mendes (Abreu Advogados/SIC), Nuno Morais Sarmento (PLMJ/TVI), António Vitorino (Cuatrecasas/SIC), Luís Nobre Guedes (NGMS/RTP), José Eduardo Martins (Abreu Advogados/RTP) e outros famosos advogados que aparecem mais ou menos regularmente.
Este tipo de personagens com o carimbo dos grandes escritórios de advogados, também são useiros e vezeiros em ter lugares nos governos, sucedendo-se notícias - verdadeiras ou falsas - de que fazem contratos por ajuste directo para favorecer amigos políticos e contratam assessorias jurídicas pagas principescamente, já para não falar de isenções ou perdões fiscais. Ora, é preciso muito mais ética na profissão de advogado, porque não vale tudo.
 

sábado, 6 de setembro de 2014

Há gente para tudo!

Numa interessantíssima e esclarecedora entrevista ao jornal i, um antigo administrador do antigo BES veio mostrar a verdadeira face dos serventuários do poder, isto é, daqueles que não têm espinal medula e tudo aceitam a troco de um punhado de lentilhas e que, até no plano ético, se limitam a esconder-se atrás do mais forte e não atrás das suas ideias e dos seus ideais. Para este tipo de gente, a palavra carácter não existe, nem tão pouco a palavra coragem, nem a palavra pudor e nem sequer dignidade. Não têm vergonha nenhuma.
Referindo-se ao BES, o entrevistado veio dizer-nos que “os administradores não executivos são verdadeiros verbos de encher” e que, em seis anos, entrou “mudo e saiu calado”, o mesmo acontecendo com todos os administradores. Eu fiquei estupefacto, não porque o homem entrasse mudo e saísse calado, mas tão só porque aceitou esse papel durante seis anos sem pestanejar, sem indignar e sem se demitir, apenas porque isso lhe dava algum rendimento e influência. É preciso não ter coluna vertebral!
Ao ler isto e outras declarações bombásticas, como aquela referência ao transporte de uma mala com dinheiro para um partido político, ficamos com a verdadeira estatura do figurão e a conhecer o tipo de serviços a que já se prestara e que, certamente, também poderia prestar no BES. De resto, é lamentável a forma como se encosta a toda a classe política dominante e como engraxa e se humilha perante aqueles que têm poder em Portugal, desde Cavaco a Costa, passando por Marcelo e Gaspar, que são tão diferentes. É mesmo de quem não tem coluna vertebral. O figurão de apelido Matos é, por isso, um travesti político pronto para fazer todos os papéis desde que lhe paguem. Infelizmente para nós, parece que o país está cheio de Matos destes… Há, realmente, gente para tudo!

segunda-feira, 31 de março de 2014

As reflexões de Alípio Dias

Tendo estado afastado das minhas rotinas durante alguns dias e de algumas das minhas fontes de informação habituais, só agora tive conhecimento da entrevista que Alípio Dias deu ao jornal i e que julgo ter sido publicada na edição do dia 22 de Março a propósito do 40º aniversário do 25 de Abril. O lead da notícia era um bocado enganador, pois a entrevista era muito mais substantiva: “Mandei fechar o Banco Borges às 10 da manhã. Já não tínhamos notas”.
Alípio Dias é uma personalidade relevante do nosso regime democrático: economista, docente universitário, deputado pelo PSD, Secretário de Estado das Finanças e do Orçamento em cinco governos constitucionais, vice-governador do Banco de Portugal, Presidente do Banco Totta & Açores e Administrador do BCP, entre outras funções desempenhadas. A sua entrevista é fluente, muito interessante e, sem comentários, dela destaco algumas passagens.
Sobre o serviço militar obrigatório: O governo ter acabado com o serviço militar obrigatório foi um erro gravíssimo. Não digo que durasse três anos e tal, mas 12 a 14 meses, sim […] porque se misturavam pessoas de norte a sul, gente que não tinha nada com gente que tinha tudo, havia uma miscigenação, uma amálgama, mas aproximava as pessoas, havia camaradagem. Digo-lhe uma coisa: se não fosse a Marinha, a minha vida tinha sido outra.
Sobre as negociações com a troika: Hoje há muita incompetência, é por isso que estamos na situação em que estamos. E é por isso que as negociações com a troika são o que são. Eu fiz as negociações com o FMI: havia coisas que eles não aceitavam, havia outras que não aceitávamos nós. Por isso digo que há incompetência e há desonestidade intelectual. Não é possível manter isto.
Sobre a geração que está hoje no poder: Falta-lhe ser educada. Education, no sentido inglês do termo. Esta geração não teve education, permitem-se fazer tudo, não respeitam constituições, não respeitam leis. Tenho muito respeito pelo Pedro, mas não pode ser. Ele não pode dizer o que disse ao Bloco de Esquerda na Assembleia da República, tem de responder. Mas sabem que estão a conduzir uma política errada […] Porque é que Vítor Gaspar saiu? Percebeu que esta política só nos conduzia à desgraça e não quis participar nisto, safou-se. […] Hoje há muita incompetência, é por isso que estamos na situação em que estamos. E é por isso que as negociações com a troika são o que são. 
É militante do PSD. Já explicou isso a Passos Coelho? Não posso não ser leal e tenho as quotas pagas até 2019. Enviei uma carta ao primeiro-ministro e ao Presidente da República. Acho que estamos no limite, mas o Pedro está convencido de que o divino Espírito Santo o iluminou. Eu acho que estão a abusar. Há uma coisa que vem na Constituição: Portugal reconhece o direito dos povos à autodeterminação e independência, ao desenvolvimento, bem como o direito de insurreição contra todas as formas de opressão... Estamos a chegar a esta parte. Escrevi para chamar a atenção e dizer, cuidado, podemos chegar aqui.

sexta-feira, 28 de março de 2014

Stiglitz e a dívida pública portuguesa

Joseph Stiglitz, o Prémio Nobel da Economia de 2001, esteve em Macau há alguns meses a convite da Autoridade Monetária e Cambial, mas regressou agora para participar no arranque do Fórum e Exposição Internacional de Cooperação Ambiental (MIECF) e para proferir algumas palestras. O jornal Hoje Macau destaca na sua edição de hoje as principais linhas das intervenções de Stiglitz, em que defende o combate às desigualdades sociais e à corrupção, para além de apontar caminhos que o jornal sintetiza com a frase “morte aos cheques”, porque em sua opinião, mais importante do que dar cheques à população, é necessário o investimento na saúde e na educação, para que sejam áreas acessíveis a todos, uma vez que as desigualdades começam desde a infância.
Interrogado a respeito da situação portuguesa o Prémio Nobel da Economia preferiu não dizer se assinaria o manifesto assinado em Portugal por 74 personalidades em que pedem a reestruturação da dívida pública, mas defendeu que o país precisa de o fazer “de forma profunda” e acrescentou:
“Se essa reestruturação não for suficiente, voltarão a ter problemas dentro de três anos, tal como a Grécia teve”.
Joseph Stiglitz também chamou a atenção para a posição das estruturas europeias:
“Há uma resistência muito grande no Banco Central Europeu e na Alemanha à reestruturação da dívida. Representam os interesses dos credores que querem sempre estrangular o devedor. O que é pouco inteligente, porque estrangulando o devedor conseguem menos do que conseguiriam se o tratassem bem. Mas há uma propensão para estrangular”.
Bom seria que os nossos submissos e insensíveis governantes aprendessem com Stiglitz e, tivessem orgulho no nosso povo,  não se deixando humilhar pela troika, pelos seus funcionários e pelos seus mentores.