terça-feira, 17 de junho de 2014

Ainda a troika e os efeitos colaterais

Ontem tratamos aqui dos efeitos colaterais provocados pela acção concertada da troika e do governo, destacando o facto de cerca de 150 mil famílias, que representam cerca de 6,3% das famílias portuguesas, terem deixado de cumprir o pagamento dos empréstimos que contrairam para a compra de habitaçãp própria.
Hoje, o Diário de Notícias destaca naturalmente essa “enorme tragédia” que foi a derrota portuguesa na sua “estreia desastrada” no Mundial de Futebol, com a fotografia de Ronaldo a personificar essa derrota, mas isso não foi devido à troika. Porém, o jornal também informa que “341 portugueses abandonam o País todos os dias” e que “no último ano emigraram 128 mil portugueses”, acrescentando ainda que, apenas em dois anos, saíram de Portugal quase 250 mil pessoas, entre emigrantes permanentes e temporários. A acrescentar a esta dramática realidade demográfica está a quebra de natalidade que, em conjunto com a emigração, estão a conduzir o país a uma grave redução da população e ao seu rápido envelhecimento.
Este problema agravou-se com o programa de ajustamento económico e financeiro que lançou a nossa economia na recessão e no brutal aumento do desemprego. Esse agravamento é, portanto, uma consequência das políticas de austeridade da troika, que o governo cegamente adoptou e não deixa de ser mais um gravíssimo efeito colateral dessa austeridade, que põe em causa o nosso futuro como nação que tem um passado e uma história. Na sua actuação dominada pelo fanatismo e pela cegueira, os nossos governantes não vêem que estão a hipotecar o nosso futuro pela via demográfica e que, cada vez mais, há uma geração de jovens que sentem não ter direito a uma vida digna no seu país e que emigram, ao mesmo tempo que os que por cá ficam não têm estabilidade económica nem segurança para organizarem a sua vida e procriarem. É um caso de ausência de visão estratégia. É uma situação verdadeiramente dramática. "A que novos desastres determinas de levar estes reinos e esta gente", é o que lhes perguntaria Camões (Os Lusíadas, Canto IV, est.97).