quinta-feira, 28 de maio de 2026

R.I.P. Jorge Barros

O Jorge Barros deixou-nos ontem aos 81 anos de idade, depois de uma longa e corajosa luta contra o infortúnio. Conterrâneo e colega de escola e de turma, mantive com o António Jorge Pinto da Costa Barros – tínhamos o hábito de muitas vezes nos tratarmos pelos nossos extensos nomes – uma amizade que perdurou durante mais de setenta anos e, entre outras causas comuns como a ligação à terra alcobacense e o culto pela liberdade e pela justiça social, tinhamos a atracção pelos Açores, pela sua paisagem natural e pela sua riqueza cultural. 
Às ilhas dos Açores dedicou boa parte da sua obra, percorrendo as ilhas demoradamente e muitas vezes, observando a beleza natural, conversando com as pessoas, fotografando festas e fajãs, picos e enseadas, faróis e embarcações, baleeiros, romeiros e espantalhos. Nada escapou à sua atenta objectiva.
O jornal Público chamou-lhe “o fotógrafo de Portugal e do Atlântico”, porque durante muitos anos fotografou tudo com atenção e talento – as nossas raízes e as nossas gentes, as nossas paisagens e os nossos monumentos, além das mais peculiares práticas culturais e religiosas do nosso Portugal – com arte, com sensibilidade e com inteligência, como mostram as três dezenas de livros que publicou e a sua participação em mais de três centenas de exposições. Muitas das suas obras estão associadas a autores como Orlando Ribeiro, Fernando Pessoa e Raul Brandão, mas também a outros nomes consagrados da escrita, como Eugénio de Andrade, Fernando Assis Pacheco, João de Melo, José Cardoso Pires, Lídia Jorge, Manuel Alegre, Mário Cláudio e Sofia de Melo Breyner.
Homem discreto, quase a roçar a humildade, escondia uma enorme sabedoria que resultava de muita leitura e de muita observação, mas era também um conversador inteligente, um contador de estórias, um inspirado poeta e um amigo atento.
Caro Jorge: não nos voltaremos a encontrar nem por aqui, nem nas Lajes do Pico de que tanto gostavas. 
R. I. P.

1 comentário:

  1. UtopicaMente 76
    Hoje fiquei mais pobre!

    A notícia da morte do fotógrafo Jorge Barros deixou-me com a certeza que o meu imprevisível e desconhecido futuro, será abissalmente mais pobre.
    Não só eu sinto essa sensação de perda de um sempre Amigo, como os Açores perdem um enorme apaixonado por este território, um criativo do seu pessoal conceito de açorianidade e um sempre seu acérrimo defensor.
    O Artista que agora nos deixa teimou em ignorar as suas fragilidades pessoais, para priorizar os sonhos, as paixões, a sua família e os amigos.
    Ao Amigo que agora nos deixa, quero agradecer as lições de vida que me concedeu e a partilha de momentos que dificilmente esquecerei.
    Através das suas câmaras e dos seus (megalómanos) projetos, foi-se alimentando de sonhos, sempre zelando pelos outros.
    Este grande Homem (e exemplo para todos nós) deu-me o privilégio de o conhecer e de com ele partilhar projetos e sonhos, desde a nossa participação num júri do concurso de fotografia “Videre 83-08”, que já nessa altura pretendia registar, em imagens, as mutações de um território definitivamente destruído pelo grande sismo de 1 de janeiro de 1980 e de algumas das suas incontornáveis consequências na cidade de Angra do Heroísmo, entretanto classificada pela UNESCO como património da humanidade.
    A partir desse primeiro momento, fomo-nos conhecendo e partilhando sonhos, projetos, exposições, publicações, sucessos e insucessos, … sem que nunca tenha sentido, da sua parte, uma quebra de solidariedade ou uma lacuna na sua indestrutível crença na amizade e no apoio ao próximo.
    Este Açoriano “de coração” merecerá todas as homenagens que se lembrem de lhe merecidamente conceder, mas será inegavelmente um exemplo de conduta a recordar e valorizar.
    A sua vasta obra de fotografia, por vezes imortalizada em publicações várias, deverá ser estudada e divulgada por todos nós, começando pelo arquipélago que tanto amou e pelas gentes de quem se revelou um verdadeiro Amigo.
    Não pretendendo qualquer tipo de competição com as notas biográficas que vão aparecendo nos órgãos de comunicação social, recuso-me a encerrar este assunto e a abrir mão de múltiplas cumplicidades que com ele partilhei…
    Comemoremos as suas mais de oito décadas de vida, partilhando, estudando e divulgando, a sua obra e as suas lições de vida!
    Até um dia, Amigo Jorge Barros!

    Angra do Heroísmo, 28 de maio de 2026
    Paulo Vilela Raimundo

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