Há um século,
quando em Portugal se viviam tempos de insatisfação social, de debilidade
económica, de grande instabilidade política, se sucediam golpes de estado e se
destituíam governos, eclodiu um movimento militar no dia 28 de maio de 1926 que
logrou o apoio da generalidade dos militares e de largos sectores sociais. O movimento
prometia “um governo forte que tenha permissão de salvar a pátria, que
concentre em si todos os poderes para na hora própria o restituir a uma
verdadeira representação nacional”. Anunciava-se uma ditadura para acabar com a
corrupção, a demagogia e a ditadura dos “democráticos”, para regressar depois
ao parlamentarismo republicano.
A cabeça visível
deste movimento iniciado em Braga foi o general Gomes da Costa, que marchou
sobre Lisboa, onde o presidente Bernardino Machado reagiu à insurreição nomeando
o almirante Mendes Cabeçadas para chefiar o governo. A solução não foi aceite
pelos revoltosos, vindo a ser constituído um triunvirato com Gomes da Costa,
Mendes Cabeçadas e o general Óscar Carmona, mas depressa os dois primeiros
foram afastados. Para resolver o grave problema das Finanças Públicas foi
chamado de Coimbra um tal professor Salazar, que “não aguentou” e regressou a
Coimbra. Voltou a Lisboa em 1928, impôs uma ditadura financeira e um regime
corporativo de partido único, apoiado numa forte repressão policial e na
ausência das mais elementares liberdades cívicas. Não mais largou o poder até à
morte e foi idolatrado por muita gente, mas também condenou muitos portugueses
ao obscurantismo, ao analfabetismo, à pobreza, à servidão e ao
subdesenvolvimento.
Porém História é História e o jornal Público,
na sua edição de 24 de maio, evocou a histórica data de 28 de maio de 1926, em
que nasceu o regime do Estado Novo e o salazarismo, ao publicar uma extensa
reportagem sobre os “cem anos da marcha que abriu caminho à ditadura de
Salazar”, ou sobre “o golpe que abriu a porta à longa noite do salazarismo”.
Tal como disse
Winston Churchill em 1947, “a democracia é o pior dos regimes, à excepção de
todos os outros”. Assim, a evocação histórica do centenário do 28 de maio de
1926 não pode ser uma operação de branqueamento de uma ditadura, mas antes uma
boa oportunidade para saudar a democracia e liberdade do 25 de Abril de 1974,
“o dia inicial, inteiro e limpo / onde emergimos da noite e do silêncio”.

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