quarta-feira, 27 de maio de 2026

No centenário da ditadura do Estado Novo

Há um século, quando em Portugal se viviam tempos de insatisfação social, de debilidade económica, de grande instabilidade política, se sucediam golpes de estado e se destituíam governos, eclodiu um movimento militar no dia 28 de maio de 1926 que logrou o apoio da generalidade dos militares e de largos sectores sociais. O movimento prometia “um governo forte que tenha permissão de salvar a pátria, que concentre em si todos os poderes para na hora própria o restituir a uma verdadeira representação nacional”. Anunciava-se uma ditadura para acabar com a corrupção, a demagogia e a ditadura dos “democráticos”, para regressar depois ao parlamentarismo republicano.
A cabeça visível deste movimento iniciado em Braga foi o general Gomes da Costa, que marchou sobre Lisboa, onde o presidente Bernardino Machado reagiu à insurreição nomeando o almirante Mendes Cabeçadas para chefiar o governo. A solução não foi aceite pelos revoltosos, vindo a ser constituído um triunvirato com Gomes da Costa, Mendes Cabeçadas e o general Óscar Carmona, mas depressa os dois primeiros foram afastados. Para resolver o grave problema das Finanças Públicas foi chamado de Coimbra um tal professor Salazar, que “não aguentou” e regressou a Coimbra. Voltou a Lisboa em 1928, impôs uma ditadura financeira e um regime corporativo de partido único, apoiado numa forte repressão policial e na ausência das mais elementares liberdades cívicas. Não mais largou o poder até à morte e foi idolatrado por muita gente, mas também condenou muitos portugueses ao obscurantismo, ao analfabetismo, à pobreza, à servidão e ao subdesenvolvimento.
Porém História é História e o jornal Público, na sua edição de 24 de maio, evocou a histórica data de 28 de maio de 1926, em que nasceu o regime do Estado Novo e o salazarismo, ao publicar uma extensa reportagem sobre os “cem anos da marcha que abriu caminho à ditadura de Salazar”, ou sobre “o golpe que abriu a porta à longa noite do salazarismo”.
Tal como disse Winston Churchill em 1947, “a democracia é o pior dos regimes, à excepção de todos os outros”. Assim, a evocação histórica do centenário do 28 de maio de 1926 não pode ser uma operação de branqueamento de uma ditadura, mas antes uma boa oportunidade para saudar a democracia e liberdade do 25 de Abril de 1974, “o dia inicial, inteiro e limpo / onde emergimos da noite e do silêncio”.

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