Antigamente,
dizia-se que não se podia esperar da Espanha, “nem bom vento, nem bom casamento”,
mas esses tempos já estão muito distantes porque da Espanha soberana, independente
e orgulhosa, nos chegam estimulantes exemplos de uma política externa própria e
de não subserviência aos arrogantes disparates, como aquele que está a ser
conduzido por Donald Trump contra o Irão, talvez por causa do petróleo, talvez
pelo caso Epstein, ou sabe-se lá porquê. Tal como a guerra do Iraque em 2003, também
agora se inventou uma ameaça enquanto se negociava. Ao contrário do que
acontece com outros países europeus e como hoje anuncia a manchete do jornal El
País, a “España rechaza las bases para los ataques de EE UU a Irán”,
mas esta recusa já levou o fanfarrão a anunciar o corte de todas as relações
comerciais com a Espanha. Há poucos meses, o governo de Espanha acusou o regime
de Netanyahu de “exterminar o povo palestiniano” e anunciou medidas contra
Israel, porque “da mesma forma que condenou o Hamas, também condena o genocídio
em Gaza”, quando toda a Europa se calou perante a destruição e as atrocidades
cometidas pelos extremistas de Israel no território de Gaza.
Os espanhóis são uns
valentes, mas não só na festa brava em que enfrentam os touros. A sua política
externa também é corajosa e merece todo o respeito, até porque compara com a
generalizada subserviência europeia às ameaças e às excentricidades belicosas
de Donald Trump. Daí que a situação nos evoque o texto que José de Almada
Negreiros escreveu em 1915 e que intitulou Manifesto
anti-Dantas, em que criticou com ironia o escritor teatral Júlio Dantas e escreveu:
O Dantas é o escárnio da Consciência!
O Dantas é a vergonha da intelectualidade portuguesa!
O Dantas é a meta da decadência mental!
Se o Dantas é português eu quero ser espanhol!

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