quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Mugabe e o 25 de Abril do Zimbabwé

Na passado dia 15 de Novembro eclodiu um movimento militar no Zimbabwé a partir de Harare, tendo os militares bloqueado os acessos aos edifícios do governo e do Parlamento e ocupado as instalações da televisão. Ouviram-se explosões na cidade e foi anunciado que o Presidente Robert Mugabe estava detido e sob a protecção dos militares. A intenção dos militares não era clara, mas insistiram que não se tratava de um golpe de estado. Sucederam-se episódios diversos e a população começou a agitar-se nas ruas para exigir a demissão de Mugabe, não só pelos seus 93 anos de idade e 37 anos de poder, mas pelas suas práticas ditatoriais e comportamentos impróprios num estado democrático.
Mugabe ainda reapareceu em público mas recusou demitir-se. Na passada terça-feira, dia 21, não aguentou a pressão e renunciou à presidência através de uma carta enviada ao presidente do Parlamento em que dizia: “Eu, Robert Gabriel Mugabe, entrego formalmente a minha renúncia como Presidente do Zimbabwé com efeito imediato. Renunciei para fazer uma transferência de poder tranquila”.
O herói da independência que lutou com armas na mão contra o regime racista de Ian Smith e que estava no poder desde a independência do país em 1980, foi esquecido. O povo não lhe perdoou os excessos e saiu à rua para celebrar festivamente o seu afastamento. Em Harare ouviu-se um monumental concerto de buzinas e houve festa por todo o lado. Tudo normal em situações como esta.
O que não foi normal foi esta operação político-militar que, sem tiros nem confrontos, conseguiu afastar um ditador firmemente agarrado ao poder. Até parecia um 25 de Abril no Zimbabwé. A imprensa internacional acompanhou de perto esta situação e The Economist até dedicou a sua primeira página à queda do ditador.

Uma oportunidade para a paz na Síria

Desde há muito tempo que as notícias sobre a guerra na Síria eram muito escassas e que era muito difícil compreender a evolução de um conflito em que há muitos e bem diferentes envolvimentos e alianças. Porém, nas últimas semanas surgiram notícias de algumas derrotas do Daesh, quer no Iraque, quer na Síria, embora nem sempre se soubesse quem derrotou quem.
Apesar deste quase vazio de informações, nos últimos dias pudemos ver Hassan Rohani a declarar a derrota final do Daesh, depois ver Bashar Al-Assad a visitar a Rússia e a ser abraçado pelo seu Presidente e, por fim, ver Vladimir Putin a juntar à mesma mesa em Sochi, os seus colegas presidentes da Turquia, Recep Tayyp Erdogan e do Irão, Hassan Rohani. Significa que, em poucos dias, muita coisa parece ter mudado.
O jornal Tehran Times publica hoje a fotografia do encontro Putin-Erdogan-Rohani que abre uma enorme janela de oportunidade para acabar com o conflito, depois de seis anos de guerra que fizeram mais de 330 mil mortos. Vladimir Putin mostra-se confiante e declarou que serão necessárias concessões de todas as partes, incluindo do governo sírio, embora todos já tenham dado o seu acordo para a convocação de um congresso do povo sírio essencial para o estabelecimento de um diálogo inclusivo no país, a que se deve seguir uma reforma constitucional e eleições livres.
Nas últimas semanas e com o apoio russo, o regime sírio recuperou grande parte do seu território que estava sob o controlo de grupos rebeldes e extremistas e, segundo foi declarado, mais de 98% do território está agora nas mãos das forças do governo sírio, enquanto estão a ser eliminados alguns focos de resistência. É mesmo uma oportunidade para a paz na Síria.

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

A seca severa ou extrema que nos afecta

A península Ibérica e em especial a sua faixa ocidental, que o mesmo é dizer Portugal e a Galiza, estão a passar por um prolongado período de seca, cujas consequências podem tornar-se dramáticas. O ano de 2017 é um dos mais quentes desde que há registos e diversas regiões portuguesas e espanholas estão a sofrer com a falta de água e com o calor extremo porque choveu apenas 30% do que era habitual e as temperaturas médias têm estado três graus acima do que seria normal.
La Voz de Galicia informava ontem que a Galiza necessita de tanta chuva  [nas próximas semanas] como a que caiu em todo o ano de 2017 e tem em acção muitas medidas restritivas em relação ao consumo da água.
Nas regiões do interior e do sul de Portugal continental, porque a precipitação é muito inferior ao normal, também se atravessa um prolongado período de seca severa e extrema, com a agravante de não terem ocorrido as habituais chuvas do início do Outono que teriam desagravado a situação. Os rios e as ribeiras estão secos e as barragens com níveis de água residuais, havendo já necessidade de fazer transvases para acudir a situações de emergência. Muitas explorações agrícolas estão em risco de perder colheitas por falta de água e o governo admite racionar a água para consumo doméstico através das medidas tomadas ou a tomar pelas autarquias.
Esta alarmante situação é uma consequência das alterações climáticas que têm afectado o nosso planeta e, o que é muito preocupante, é que este cenário tende a agravar-se no futuro com temperaturas mais elevadas e menos chuva. Até há pouco tempo tudo isto parecia uma história de ficção promovida por cientistas da Geofísica e do Ambiente, mas agora a dura realidade das alterações climáticas está a bater-nos à porta. 

terça-feira, 21 de novembro de 2017

Macau e Timor estão unidos pela História

Entre o território da ilha de Timor, onde está estabelecida a República Democrática de Timor-Leste e o território de Macau, que é uma região administrativa especial da República Popular da China, existem afinidades históricas cujo denominador comum é Portugal, apesar de estarem separadas por 3.666 quilómetros.
No período da expansão marítima para o Oriente, os navegadores e os mercadores portugueses chegaram aos mares da China em 1513 e estabeleceram-se em Macau em 1557, tendo chegado a Lifau na ilha de Timor em 1514 e fundado a povoação de Dili em 1769. Os estabelecimentos de Macau e Timor estavam então sob a tutela do Vice-rei da Índia que residia em Goa, mas em 1844 a cidade de Macau e os estabelecimentos de Solor e Timor foram desligados do Estado da Índia e das autoridades de Goa, passando a constituir a província de Macau, Solor e Timor, com um governador residente em Macau e um governador subalterno em Timor, dele dependente.
Quase dois séculos depois, esses territórios pertencem hoje à China, à Indonésia e a Timor-Leste, mas a ligação íntima entre Macau e Timor que então nasceu por via administrativa e sob a bandeira portuguesa, ultrapassou muitas circunstâncias.
Não admira, por isso, que a edição do hojemacau destaque na primeira página da edição de hoje a fotografia de Mari Alkatiri, o primeiro-ministro de Timor-Leste, a propósito de uma moção de censura ao governo minoritário da Fretilin que a oposição timorense apresentou no Parlamento, por este ainda não ter apresentado o seu programa. É um mari de problemas, titula o jornal.
Entretanto, o presidente timorense Francisco Guterres Lu-Olo já avisou o governo e a oposição que a sua missão é servir o país, tal como todos fizeram conjuntamente na sua luta pela independência nacional.

European Medicines Agency: Amesterdão

A corrida que estava em curso para conquistar a futura localização da Agência Europeia do Medicamento (EMA na sigla inglesa) terminou ontem e os 27 Estados-membros reunidos num Conselho Europeu de Assuntos Gerais escolheram a cidade de Amsterdão.
A EMA é um organismo descentralizado da União Europeia que foi criado em 1995 e que tem total responsabilidade pela monitorização científica, avaliação, supervisão e segurança de todas as substâncias e medicamentos desenvolvidos por laboratórios farmacêuticos para uso no espaço europeu. A sua sede é em Londres, mas por causa do Brexit vai ter que ser relocalizada.
Apareceram 19 cidades candidatas a albergar esta importante agência e uma delas foi a cidade do Porto. Um estudo realizado por uma consultora tinha concluido que a vinda da EMA para Portugal teria um impacto de 1.130 milhões de euros na economia nacional e iria permitir a criação de 5.300 novos empregos. A corrida por esta agência era, por isso, muito disputada.
Na primeira volta da votação nenhuma das 19 candidatas conseguiu reunir as preferências de pelo menos 14 dos Estados-membros para vencer. A cidade do Porto recolheu 10 votos, tendo sido a sétima cidade mais votada, enquanto as cidades de Milão, Amesterdão e Copenhaga passaram à segunda volta. Venceu Amsterdão.
Como curiosidade regista-se que a cidade eslovaca de Bratislava era uma das favoritas, foi a quarta cidade mais votada e foi eliminada. Porém, o ministro eslovaco amuou e recusou-se a continuar a participar na votação o que, obviamente, é um sinal de pouca compostura democrática.
Outra curiosidade foi o destaque dado pela imprensa espanhola a este acontecimento e o seu aproveitamento político. A candidatura de Barcelona não vingou e esse resultado negativo foi atribuído à instabilidade em que vive a cidade por causa do independentismo. “Europa castiga a Barcelona por alentar la independencia”, escreveu o El Mundo; “El soberanismo arrebata a Barcelona a EMA”, titulou La Razón. O diário ABC publicou na capa uma fotografia da cidade onde se destaca a Torre Agbar, a obra-prima de Jean Nouvel, escolhendo como título “Barcelona paga el precio del separatismo”. 
O Porto perdeu, mas não veio daí mal ao mundo. Parece que a candidatura se portou com dignidade. Ficamos sem saber o que fazem os portuenses Paulo Rangel e Nuno Melo em Bruxelas.

domingo, 19 de novembro de 2017

Argentina busca submarino desaparecido

O submarino argentino ARA San Juan (S-42) saiu de Ushuaia, a mais austral cidade do mundo e capital da província da Patagónia, no extremo sul do território da Argentina e navegava para a sua base na cidade de Mar del Plata. Era uma longa viagem de quase duas mil milhas em que teria de navegar desde os 55 graus até aos 38 graus de latitude sul. Na quarta-feira, dia 15 de Outubro, o submarino navegava na latitude de 42 graus sul quando pela última vez comunicou com terra via rádio. Cerca de 48 horas depois, na sexta-feira dia 17 de Outubro, as autoridades navais argentinas comunicaram a falta de informações sobre o submarino e que já estavam a decorrer buscas no sentido de o encontrar. No dia seguinte, todos os jornais argentinos divulgaram a preocupante notícia e o diário Clarín, que é o maior jornal argentino, destacou na sua primeira página a “dramática búsqueda del submarino perdido en el Sur con 44 tripulantes”.
O ARA San Juan integra uma pequena frota de três submarinos que foram incorporados na Marinha argentina em 1985 e que tem a sua base na cidade de Mar del Plata. Foi construído na Alemanha e pertence à classe TR, tendo sido objecto de fabricos de modernização para lhe aumentar o tempo de vida útil, entre 2007 e 2014.
Não há qualquer indício sobre o que se terá passado e a área de busca é muito extensa, mas as autoridades apontam para uma avaria no sistema de comunicações ou no seu sistema de propulsão eléctrico, o que mantém acesa a hipótese de não ter acontecido qualquer tragédia.
Porém, estão decorridos quase quatro dias desde a última comunicação do submarino e o desespero começa a tomar conta das famílias dos 44 tripulantes do ARA San Juan.

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Leonardo da Vinci é um valor eterno

Leonardo da Vinci, Salvator Mundi, ca. 1500
A leiloeira Christie’s vendeu na passada quarta-feira à noite em Nova Iorque um quadro de Leonardo da Vinci datado de cerca de 1500, intitulado Salvator Mundi, que mostra Jesus Cristo com a mão direita levantada em posição de benção e a mão esquerda a segurar uma bola de cristal.
O pequeno quadro de 45 por 66 centímetros é uma das 16 obras conhecidas de Leonardo da Vinci e é a única que faz parte de colecções privadas, tendo sido vendida por 450,3 milhões de dólares (380 milhões de euros). Tornou-se a mais cara transacção do mercado da arte de todos os tempos, pois nunca tinha sido pago um valor tão alto por uma peça de arte num leilão. Antes, a tabela das obras de arte mais caras de sempre era liderada por As mulheres de Argel (Versão 0) de Pablo Picasso que foi vendido por 152 milhões de euros em Maio de 2015, também na Christie's, em Nova Iorque.
Existiam algumas dúvidas quanto à autenticidade desta obra, mas os críticos de arte desfizeram qualquer polémica e certificaram-na.
O comprador não foi identificado, mas certamente não é português. Ao contrário do que sucede com as outras obras de Leonardo da Vinci, como por exemplo a famosa Mona Lisa del Giocondo que pode ser observada no Museu do Louvre, o Salvator Mundi vai continuar fora dos olhares do público.
Fui fazer contas e verifiquei que o valor pago por este quadro dava para comprar quatro aviões Airbus 320 e ainda sobravam alguns milhões.

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

A encomenda do século para a Airbus

Vai ser anunciado hoje no salão aeronáutico do Dubai a compra de 430 aviões de médio-curso da família A320 da Airbus pelo fundo de investimento americano Indigo Partners por um montante de 42 mil milhões de euros. É a maior encomenda da história da Airbus e o jornal La Dépêche du Midi, que se publica em Toulouse, classifica-a como a encomenda do século, porque mais do que duplica a actual carteira de encomendas que estava nas 288 unidades. Agora, com 718 encomendas, a Airbus vai ultrapassar o seu rival americano Boeing que, no corrente ano, tem 605 encomendas.
Há poucos dias, a Boeing recebera uma encomenda de 300 aviões durante a visita de Donald Trump à China e agora foi a companhia Emirates a anunciar a encomenda de 40 aviões Boeing 787 Dreamliner por mais de 12 mil milhões de euros.
Porém, esta encomenda do século projecta a Airbus para a liderança do mercado da aeronáutica comercial, sobretudo nos aviões de médio-curso, tendo entusiasmado as indústrias fornecedoras de componentes, designadamente em Espanha, cuja imprensa destacou esta encomenda pelo trabalho que vai proporcionar na região de Cádis.
Esta competição entre os dois gigantes aeronáuticos que são a Airbus e a Boeing mostra que a economia mundial está a passar por um período de dinamismo e de crescimento, mas também mostra que Portugal é um país demasiado pequeno.

terça-feira, 14 de novembro de 2017

Alterações climáticas: um aviso ao mundo

A edição anual da revista BioScience que ontem foi publicada pelo American Institute of Biological Sciences, inclui um texto intitulado World Scientists’ Warning to Humanity: A Second Notice, que é subscrito por 15.364 cientistas de 184 países e que é um alerta quanto às alterações climáticas que ameaçam o futuro da Humanidade.
O texto surge em linha com um outro texto intitulado World Scientists’ Warning to Humanity, publicado em 1992 e que então foi subscrito por cerca de 1700 cientistas, no qual era afirmado que os seres humanos e o mundo actual estavam em colisão e que as actividades humanas causavam danos severos e, por vezes, irreversíveis no ambiente e nos recursos. É, por isso, um segundo aviso e os cientistas de todo o mundo voltam a chamar a atenção para a continuada destruição do nosso planeta com as emissões de dióxido de carbono ou a desflorestação, a redução dos recursos hídricos, a deterioração das zonas costeiras ou a extinção de algumas espécies. “A Humanidade não está a fazer o que deve ser feito urgentemente para salvaguardar a biosfera ameaçada”, diz o referido texto que se baseia num estudo internacional coordenado pela Universidade do Oregon e inclui nove gráficos que mostram como evoluíram algumas variáveis do ambiente nos últimos 25 anos.
Na sua edição de hoje o jornal Público destaca este texto-aviso na sua primeira página e trata de alguns aspectos críticos das alterações climáticas, desde o aquecimento global à sustentabilidade dos rios e destacando, ainda, a falta de coesão territorial associada à desertificação da paisagem e ao despovoamento do mundo rural.
Ao ler-se este texto, facilmente se conclui que há muito para fazer no mundo e também em Portugal para salvar o planeta, mas que a generalidade dos políticos portugueses ainda não percebeu isso.

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Um novo desafio para Carlos Tavares

Carlos Tavares é um gestor português que, depois de ter sido o número dois do grupo Renault Nissan, se tornou em finais de 2013 o número um do grupo Peugeot Citroën (PSA), o seu principal concorrente no mercado francês.
Em poucos anos o grupo PSA, que produz as marcas Peugeot e Citroën, inverteu os seus resultados devido à estratégia adoptada por Carlos Tavares e, hoje, é salientado que o grupo “está bem e recomenda-se”.
Nos primeiros dias do passado mês de Março o grupo PSA anunciou a compra da Opel ao grupo americano General Motors por 2.200 milhões de euros, incluindo não só a actividade produtiva da Opel e da Vauxhall no Reino Unido, mas também as operações da sucursal financeira da GM na Europa, neste caso em joint-venture com o banco BNP Paribas.
Esta operação faz do grupo PSA o segundo maior grupo automóvel da Europa com uma quota de mercado de 17%, sendo de notar que as marcas de ambos os grupos fizeram em conjunto vendas de 17.700 milhões de euros em 2016.
Carlos Tavares e a sua equipa têm trabalhado no grande desafio que é salvar a Opel e fazer do grupo PSA um grande grupo automóvel mundial, capaz de concorrer com a indústria automóvel americana e asiática. Porém, o desafio é enorme e implica a integração de culturas de gestão e engenharias bem diferentes, a concretização de economias de escala e de sinergias, a concepção de novos produtos e a abordagem a novos mercados.
Carlos Tavares deu ao jornal francês La Tribune uma grande entrevista na qual apresenta a sua visão sobre o futuro do grupo PSA e da nova ligação à Opel. Um português a brilhar.

domingo, 12 de novembro de 2017

Catalunha: a luta soberanista continua

Realizou-se ontem em Barcelona uma gigantesca manifestação a exigir a libertação dos chamados “presos políticos”, isto é, a dezena de pessoas ligadas ao governo regional da Catalunha que a Justiça espanhola constituiu como arguidos e mandou para a prisão com a acusação de sedição, rebelião e desvio de fundos, na sequência das trapalhadas que foram o acto referendário de 1 de Outubro e a declaração unilateral de independência (DUI).
A realização desta grande manifestação onde foi cantada a “Grândola vila morena”, mostra que o independentismo não está derrotado e que já se está a mobilizar para as eleições de 21 de Dezembro e para as lutas que virão no futuro, provavelmente sem Puigdemonts, Junqueras, Forcadells e outros líderes que terão traído a causa catalã. É curioso que enquanto os jornais da Catalunha, caso do ara mas não só, publicaram com grande destaque as fotografias dessa manifestação, a generalidade da imprensa espanhola ignorou-a. Significa, portanto, que a imprensa está alinhada com os unionistas ou com os independentistas e que, para sabermos a verdade, teremos que ler os jornais afectos às duas partes. É enorme a quantidade de mensagens que estão a ser passadas para o público, umas verdadeiras e outras não verdadeiras, com o objectivo evidente de manipular o eleitorado. Hoje, por exemplo, o prestigiado El País invoca uma sondagem para dizer que “a maioria dos catalães apoia a realização de eleições” e que “dois de cada três habitantes da Catalunha consideram agora impossível a secessão”.
Por tudo isto, o imbróglio catalão tem que continuar a ser acompanhado por quem deseje que seja encontrada a melhor solução que, naturalmente, não passa por aventureirismos.

A nascente do rio Douro secou

O Jornal de Notícias apresenta hoje uma reportagem de grande qualidade jornalística assinada por Eduardo Pinto, intitulada “A nascente do rio Douro secou”.
Essa reportagem é ilustrada com excelentes fotografias e como por vezes uma imagem vale mais do que mil palavras, neste caso o resultado é esclarecedor quanto ao que se está a passar.
Eduardo Pinto foi aos picos de Urbión onde o rio Douro nasce a 2.160 metros de altitude, falou com algumas pessoas de Duruelo de la Sierra e viu que o rio já é pouco mais do que um fio de água, devido à falta de chuva e à seca extrema que afecta toda a Península Ibérica. Ouviu os mais velhos dizer que nunca tinham visto uma seca tão grave, que os pastos faltam e que os rebanhos estão ameaçados. Depois, o jornalista seguiu o curso dos 897 quilómetros do rio até ao Porto.
A primeira represa do rio é o Embalse de la Cuerda del Pozo, que fica a 20 quilómetros da nascente e que apenas mostra um fio de água. A ponte romana que ficou submersa aquando da construção da barragem tem, literalmente, a água a passar-lhe outra vez por baixo. É uma imagem impressionante! A caminho de Aranda del Duero, na província de Burgos, vê-se que o rio Douro leva água, mas corre devagar e apresenta-se turvo. Depois a paisagem volta a mudar. Entra-se na zona de Valladolid e na Ribeira del Duero, onde se produzem alguns dos melhores vinhos de Espanha. Chega-se depois a Zamora e o panorama continua a ser desolador. Após passar Zamora e antes de chegar a Portugal há o Embalse de Ricobayo, um dos mais impressionantes da Europa e que nesta altura está com menos de 15% da sua capacidade de água.
A situação do rio Douro impressiona. Em Espanha, tal como em Portugal, a seca é a grande ameaça do momento e as previsões dos técnicos da meteorologia para os próximos tempos não são nada animadoras.

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Um museu das arábias: Louvre Abu Dhabi

A cidade de Abu Dhabi é a capital do emirado de Abu Dhabi e é também a capital federal dos Emirados Árabes Unidos (EAU), uma federação de sete monarquias árabes soberanas que, entre outras, inclui os emirados de Abu Dhabi e do Qatar. A sua enorme riqueza em hidrocarbonetos fez desta federação uma das regiões mais ricas do mundo, com o Abu Dhabi a possuir 9% das reservas mundiais de petróleo e quase 5% das reservas mundiais de gás natural. 
Com uma superfície de 67 340 km2, representando cerca de 86,7% dos EAU, o dinheiro é coisa que não falta no Abu Dhabi. Assim, há dez anos a cidade negociou com o Museu do Louvre a utilização do seu nome por um período de 30 anos num projecto museológico que iria ser construído na ilha Saadiyat, a cerca de 500 metros da costa do Abu Dhabi. Esse projecto – Louvre Abu Dhabi - da autoria do famoso arquitecto francês Jean Nouvel, pretende ser um dos maiores e melhores do mundo e demorou cerca de dez anos a ser construído. É composto por mais de cinco dezenas de blocos brancos, a maioria dos quais rodeada de água o que faz do conjunto uma espécie de arquipélago. A sua peça central é uma gigantesca cúpula prateada que cobre todo o espaço museológico e que apesar da sua aparente leveza pesa 7500 toneladas, o mesmo que a Torre Eiffel.
Segundo refere o diário francês Le Télégramme, os responsáveis do novo museu pagarão mil milhões de euros pelo uso da marca Louvre durante 30 anos e por facilidades no empréstimo de obras de referência de museus e monumentos franceses, estando asseguradas na exposição inaugural obras de Leonardo da Vinci, Van Gogh e Edouard Manet. Vai mesmo ser um museu das arábias!

terça-feira, 7 de novembro de 2017

A anormalidade da meteorologia ibérica

A noção de bom tempo está sempre relacionada com a ocorrência de dias solarengos com altas temperaturas, mas muitas vezes são esquecidos os efeitos que este bom tempo produz quando acontece fora de tempo e fora de lugar. É o que está a acontecer em muitas regiões de Espanha onde, segundo revela hoje o diário ABC, se está a viver o quinquénio mais quente da história espanhola, originando que as barragens estejam a níveis de 20% da sua capacidade, que haja ondas de incêndios devastadores, que sejam feitos cortes no abastecimento de água e se verifiquem perdas milionárias nos campos e nas explorações agrícolas devido à seca. O mês de Outubro foi uma verdadeira anomalia meteorológica e em algumas cidades como Salamanca, Cáceres e Ourense, jamais se tinham verificado temperaturas tão altas com os termómetros a alcançarem valores da ordem dos 35º C. Estas altas temperaturas associadas à falta de chuvas, têm agravado a situação espanhola que é classificada como uma situação grave de seca.
Naturalmente, a situação descrita hoje na reportagem do ABC, também se está a verificar em Portugal.
O IPMA anunciou que o mês de Setembro foi “extremamente quente” e que, em finais do mês, cerca de 81% do território continental estava em seca severa, 7,4% em seca extrema, 10,7% em seca moderada e 0,8% em seca fraca. Significa que a conjugação de valores da precipitação inferiores ao normal com valores da temperatura do ar muito superiores ao normal, deu origem em Portugal aos mesmos problemas que se verificaram em Espanha, com seca severa, incêndios devastadores, escassez de água nas barragens, racionamento na utilização da água e pouca humidade no solo.
O problema é muito grave e só é lamentável que seja aproveitado por alguns para a luta política.

Donald Trump impôs o medo e a incerteza

No dia 8 de Novembro de 2016, com surpresa geral, os americanos elegeram Donald Trump como o 45º presidente dos Estados Unidos e, aos 70 anos de idade, tornou-se o homem mais velho de sempre a ser eleito para um primeiro mandato presidencial.
Apesar de só ter tomado posse no dia 20 de Janeiro de 2017, a passagem do primeiro aniversário da sua eleição está a dar origem ao aparecimento na imprensa internacional de balanços sobre o seu desempenho. Assim faz a revista alemã Der Spiegel na sua última edição, com uma sugestiva capa em que a onda de Trump parece arrasar ou inundar as instituições e a sociedade americana.
Os Estados Unidos estão mais divididos do que nunca quanto ao desempenho presidencial e numa recente sondagem da Gallup Poll, o presidente recebia apenas 35% das opiniões favoráveis, que é a mais baixa taxa de popularidade alguma vez tida por um presidente em exercício. Porém, o bom desempenho da economia americana e a ausência de uma oposição consequente que ainda não se refez da derrota de 2016, têm permitido que Donald Trump esqueça muitas das suas promessas eleitorais.
Porém, para muitos observadores, a política externa errática de Trump pode ter graves consequências para a Humanidade, devido às suas escolhas políticas, à sua fanfarronice e aos seus tweets incendiários e provocadores.
Na Europa, a popularidade de Trump também deixa muito a desejar e, segundo a Odoxa-Dentsu Consulting, quase 90% dos europeus têm uma má imagem do presidente americano. A grandeza e a respeitabilidade americanas que durante sete décadas foram a base da segurança global estão a ser corroídas por Donald Trump e os Estados Unidos já deixaram de ser uma referência para os europeus. O slogan “America first” tem dado muito maus resultados e os exemplos das más políticas de Trump sucedem-se por todo o lado, desde a Coreia do Norte à Síria, passando pelo muro do México, o Obamacare ou os acordos de Paris.
Trump trouxe o medo e a incerteza, quando todos precisávamos de confiança e de serenidade para enfrentar os enormes desafios do nosso planeta. Evidentemente que a América merecia melhor e o mundo também.

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Web Summit 2017 e a Lisboa cosmopolita

A partir de hoje Lisboa vai ser a capital mundial da tecnologia durante quatro dias ao receber no Altice Arena e nas instalações da FIL a conferência global Web Summit 2017, na qual participarão 60 mil pessoas, 20 mil empresas, dois mil jornalistas e mil oradores, entre os quais se destacam o secretário-geral da ONU António Guterres, o antigo vice-presidente dos Estados Unidos Al Gore, o antigo presidente francês François Holland, o ex-primeiro ministro grego George Papandreou e diversos primeiros-ministros em actividade.
Esta cimeira tecnológica que junta startups e grandes companhias em torno das tecnologias e do mundo digital, nasceu em 2010 na Irlanda, mas em 2016 mudou-se para Portugal por três anos, tendo registado nesse ano a participação de visitantes de 166 países e gerado uma injecção estimada de 200 milhões de euros na economia portuguesa, um quarto dos quais foi absorvido pela indústria hoteleira.
É comummente aceite que a Web Summit veio dar projecção e melhorar a imagem internacional de Portugal como um país moderno e aberto à inovação tecnológica, o que constitui um factor de atracção de investimento. Os elogios à capacidade organizativa portuguesa chegam de todo o lado e esta manhã já se viam muitos participantes na conferência na linha do metropolitano que serve o Parque das Nações, cujas estações estão adequadamente sinalizadas para ajudar os visitantes.
A cidade de Lisboa está, portanto, na agenda mediática internacional por boas razões: ontem assistiu à largada da 3ª etapa da Volvo Ocean Race e hoje vai assistir à abertura da Lisbon Web Summit 2017. Lisboa é mesmo uma cidade cosmopolita.

domingo, 5 de novembro de 2017

Moçambique e a febre dos Mercedes

Em meados do corrente ano, o governo de Moçambique adquiriu 18 viaturas Mercedes-Benz para atribuir a deputados da Assembleia da República, que custaram cerca de três milhões e quinhentos mil euros e essa decisão provocou polémica e muita indignação, porque o país atravessa uma grande crise financeira, tem grandes manchas de pobreza e tem adoptado medidas de austeridade muito severas. O semanário Savana que se publica em Maputo associou-se a essa indignação e, na sua última edição, destaca que “há Mercedes a mais na Pérola do Índico”.
A imprensa moçambicana tem criticado os excessos de despesa com a compra de viaturas e tem salientado as muitas as carências básicas do país, aludindo à falta de medicamentos nos hospitais, à necessidade de carteiras escolares, à falta de papel e de tinteiros nas repartições públicas e à precaridade dos transportes públicos que transporta os passageiros em condições desumanas. A crítica à actuação governamental também se tem centrado na execução do Programa Estratégico para a Redução da Pobreza Urbana que recebe uma verba semelhante à que foi afectada à aquisição de viaturas.
Agora, indiferente a uma generalizada indignação que nascera com a aquisição dos 18 Mercedes-Benz destinados a deputados, o governo moçambicano decidiu comprar mais 45 viaturas de luxo para dirigentes do Estado, em que abundam os Mercedes-Benz e os Toyota Land Cruisers, tendo a respectiva factura atingido um milhão e seiscentos mil euros.
É um escândalo nacional esta febre pelos bons carros. O Presidente da República, Filipe Nyusi, não tem deixado de criticar o despesismo da administração pública moçambicana, sobretudo em relação à aquisição de viaturas e à mentalidade de alguns dirigentes que não abdicam de viatura para a cidade e viatura para o campo. Onde terão aprendido estas vaidades os dirigentes moçambicanos?

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

O independentismo catalão não cede

A Catalunha é uma das 17 comunidades autónomas de Espanha, tem língua, história e cultura próprias e, também, tem a aspiração de se tornar um estado independente. É uma história que tem alguns séculos e que terá começado quando, na segunda metade do século XVI, o rei Fernando de Aragão casou com a rainha Isabel de Castela, levando à unificação da Espanha, que passou a integrar a Catalunha. Mais tarde, com a guerra da Sucessão em que a Europa e a Espanha se dividiram, aconteceu o cerco de Barcelona e a sua rendição no dia 11 de Setembro de 1714. A soberania catalã foi então abolida e foram impostos a língua e os costumes castelhanos, fazendo da Catalunha uma “província espanhola” tutelada por Madrid. Quando em 1931 a Espanha se tornou uma república, a Catalunha voltou a conquistar a autonomia, mas perdeu-a com a ditadura franquista. A restauração da democracia trouxe a autonomia de novo à Catalunha em 1979.
A Catalunha tem, portanto, um arreigado e secular sentimento independentista e as aspirações catalãs não podem ser ignoradas. Porém, como não estamos no tempo de libertadores nem de caudilhos, tudo tem que cumprir certos preceitos, designadamente o da legalidade interna e a da aceitação internacional.
Acontece que o governo da Catalunha foi longe de mais e no dia 1 de Outubro avançou para um pseudo-referendo e inventou algumas centenas de feridos resultantes da violência policial castelhana. Só acreditou quem quis, mas a escalada da tensão entre Madrid e Barcelona acentuou-se. No dia 27 de Outubro, um grupo de 70 dos 135 deputados do Parlamento da Catalunha votou a Declaração Unilateral de Independência. Ninguém a reconheceu externamente. A resposta de Madrid foi dura ao anular aquela declaração, demitir o governo e suspender a autonomia catalã. Alguns responsáveis políticos foram presos, mas Carles Puigdemont está ausente em Bruxelas, numa atitude de grande cobardia e, eventualmente, de traição à causa catalã. Entretanto, a imprensa catalã colocou-se abertamente contra a repressão das autoridades de Madrid e tem-se mobilizado na defesa da autonomia e dos governantes catalães e, na sua edição de hoje, o diário catalão EL Punt Avui publica o cartaz que exige a libertação dos presos políticos.  
Como aqui escrevemos no dia 29 de Setembro a “aspiração independentista catalã vai provavelmente sair reforçada deste processo, mas vai exigir que no futuro seja conduzida por gente mais capaz que os Puigdemont e os Oriol Junqueras”.

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Macau - Creative City of Gastronomy

A imprensa de Macau destacou hoje a recente atribuição do título de Creative City of Gastronomy que foi conferido à cidade pela Unesco Creative Cities Network (UCCN), durante o XI UCCN Annual Meeting que terminou no passado dia 31 de Outubro na cidade francesa de Enghien-les-Bains. O jornal Macau Post destaca aquela notícia na sua edição de hoje e apresenta uma entrevista com Maria Helena de Senna Fernandes, a directora do Gabinete de Turismo do Governo de Macau, em que salienta a importância que terá para o turismo macaense o facto da cidade passar a ser membro da UCCN.
A UCCN foi lançada em 2004 pela Unesco como um projecto destinado a promover a cooperação entre as cidades que apostam na criatividade, na inovação e nas indústrias culturais como factores estratégicos para a promoção do seu desenvolvimento sustentável e, actualmente, já agrega 180 cidades de 72 países, que se distribuem pelas sete categorias ou campos em que as cidades mais se distinguem na área da criatividade: Artesanato e folclore, Media arts, Cinema, Design, Gastronomia, Literatura e Música.
Embora se trate de atributos ou rótulos ainda sem significativo impacto, verificamos que há algumas cidades portuguesas que já são membros da UCCN, assim sucedendo com Óbidos (Literatura) e Idanha-a-Nova (Música) desde 2015, mas também com as cidades de Amarante (Música), Barcelos (Artesanato) e Braga (Media arts), que foram aceites na recente reunião de Enghien-les-Bains.
Com a adesão a esta interessante iniciativa da Unesco, as cidades lutam pela vida, pela sua notoriedade e pelo seu reconhecimento.

terça-feira, 31 de outubro de 2017

A violência que tanto amedronta o Brasil

O Brasil ou República Federativa do Brasil é um grande país e, segundo revelam os rankings, é o 5º maior país do mundo e, com mais de 200 milhões de habitantes, é o 6º país mais populoso do planeta. É, provavelmente, o mais multicultural e multiétnico país do mundo, devido à imigração que recebeu de todas as partes do mundo.
As suas potencialidades económicas são enormes, bem como o dinamismo da sua população, mas esses factos não excluem o país das crises cíclicas que, um pouco por todo o mundo, afectam o progresso das populações e geram demasiada instabilidade social. Há razões exógenas e endógenas para o aparecimento dessas crises e dessa instabilidade, que têm contornos muito diversos, em que se cruzam a ineficácia dos poderes públicos, o desemprego, a pobreza e de uma forma geral uma cultura de violência. 
A edição de hoje da Folha de S. Paulo salienta que, com base nos números ontem divulgados pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública relativos ao ano de 2016, o número de mortes violentas intencionais registadas no Brasil atingiu 61.619 pessoas, o que representa um acréscimo de 4,7% em relação ao ano anterior e se traduz num impressionante indicador: uma média de sete mortes violentas por hora. Esse indicador revela níveis de insegurança e de violência extremas, com uma taxa média nacional de mortes violentas de 29,9 assassinatos por 100 mil habitantes, com maior incidência nos Estados nordestinos de Sergipe, Rio Grande do Norte e Alagoas.
Outras informações divulgadas pelo mesmo jornal mostram que em 2016 foram mortos 437 polícias brasileiros em acções violentas e que se verificaram 557 mil roubos de veículos, o que representa o furto de um veículo por minuto.
Hoje a violência e a insegurança estão espalhadas por todo o país e já não são exclusivas dos grandes Estados. É um problema nacional que amedronta a população brasileira.

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Da costa do Malabar ao Estado de Kerala

Na sua edição de ontem, o diário The Washington Post, provavelmente o mais influente jornal americano, decidiu evocar na sua primeira página a passagem do centenário da Revolução de Outubro, com uma fotografia de Lenine e uma alargada reportagem intitulada “One of the few places where a communist can still dream”. Esse lugar é o Estado de Kerala, situado na costa ocidental da península do Industão e que é um dos 28 estados da União Indiana. Tem cerca de 36 mil quilómetros quadrados de superfície, cerca de 35 milhões de habitantes e a sua capital é a cidade de Trivandrum, um porto do mar Arábico situado no extremo sul do seu território.
O Estado de Kerala não foi constituído em 1947 aquando da independência da Índia e, tal como em muitas regiões do subcontinente indiano, só veio a ser formado mais tarde. A criação do estado e as primeiras eleições aconteceram em 1956 e o vencedor foi o Communist Party of India que formou o governo, considerado o primeiro governo comunista eleito livremente no mundo. Desde então, a coligação liderada por aquele partido tem alternado o poder com a coligação liderada pelo Indian National Congress, tendo sido desenvolvidos com sucesso muitos programas de desenvolvimento social ao longo dos anos. O resultado foi a transformação de Kerala no melhor exemplo indiano do progresso, tendo todos os seus indicadores económicos e sociais acima da média indiana, assim sucedendo com o mais elevado Índice de Desenvolvimento Humano, a mais elevada esperança de vida, a maior taxa de alfabetização, a menor taxa de mortalidade infantil e a melhor saúde pública. Além disso, é considerado pela Transparência Internacional como o “estado menos corrupto da Índia”, que é um dos países mais corruptos do mundo.
A orla costeira do Estado de Kerala é a costa do Malabar, onde há menos de quatro séculos existiam as fortalezas ou feitorias portuguesas de Cananor (Kannur), Calicute (Kozhikode), Cranganor (Kodungallur), Cochim (Kochi) e Coulão (Kollam), entre outras. Quem percorra aquela região não tem dificuldade em notar alguns traços de influência cultural portuguesa, porque alguma coisa por lá ficou, nomeadamente na língua, no património religioso e militar, nas práticas religiosas e até nos apelidos adoptados, pois nas listas telefónicas da região não faltam os almedas, os costas, os souzas, os pereras e outros nomes que nos são comuns.

domingo, 29 de outubro de 2017

Volvo Ocean Race de novo em Lisboa

A primeira etapa da edição de 2017-2018 da Volvo Ocean Race saiu de Alicante, navegou até à ilha da Madeira e, depois de percorrer cerca de 1450 milhas, já chegou a Lisboa. É a terceira vez consecutiva que a maior prova de vela oceânica que se disputa à volta do mundo escala o porto de Lisboa, o que é muito prestigiante para a imagem de modernidade e cosmopolitismo da capital portuguesa.
A famosa prova surgiu em 1973 e denominava-se Whitbread Round the Word Race, mas a partir de 2001 passou a ser patrocinada pelo mais conhecido fabricante de automóveis sueco e passou a designar-se como Volvo Ocean Race, disputando-se de três em três anos. Como norma, a regata sai da Europa para a África do Sul, segue depois para a Austrália, visita portos chineses para satisfazer patrocinadores, desce em latitude para escalar a Nova Zelândia, navega pelos mares do sul para contornar o cabo Horn, percorre o Atlântico ocidental até Newport e regressa à Europa. São cerca de 40 mil milhas e estima-se que, a actual corrida, termine na Holanda na última semana de Junho de 2018.
Nesta 13ª edição da prova participam sete embarcações, que são conhecidas como a Formula 1 da vela e cujas tripulações se caracterizam pela sua heterogeneidade, pois são provenientes de muito diferentes países, um pouco como acontece com as grandes equipas do futebol internacional.
Ontem, dia 28 de Outubro, todas as sete equipas participantes chegaram à doca de Pedrouços, com diferenças mínimas entre si, mas o primeiro foi o Vestas 11th Hour Racing, que iça bandeira americana e cujos nove tripulantes têm nacionalidade americana (3), australiana (2), inglesa (2), irlandesa (1) e neozelandesa (1). Foi, naturalmente, um grande espectáculo e uma bonita festa, a que não faltaram muitas centenas ou milhares de curiosos.
Assinala-se que entre as seis dezenas de tripulantes das sete embarcações concorrentes há dois portugueses: António Fontes é tripulante do AkzoNobel que hasteia bandeira holandesa e Bernardo Freitas é tripulante do Turn the Tide on Plastic que enverga o pavilhão das Nações Unidas.
Até ao dia 5 de Novembro o centro mundial da vela oceânica estará na doca de Pedrouços e, como aconteceu antes, para lá convergirão muitos milhares de curiosos.

sábado, 28 de outubro de 2017

A aventura independentista da Catalunha

Ontem, por motivos diferentes, foi um dia histórico para a Espanha e, em especial, para a Catalunha: o parlamento catalão proclamou a sua independência unilateral e o governo espanhol aplicou pela primeira vez o artigo 155º da Constituição que suspende a autonomia catalã.
Como consequência, o governo de Carles Puigdemont foi demitido, o parlamento catalão foi dissolvido e foram convocadas eleições autonómicas antecipadas para o dia 21 de Dezembro.
Parece um golpe e um contra-golpe, a revelar uma situação grave, complexa e preocupante.
O fim-de-semana que hoje começa afigura-se como um tempo de reflexão para as duas ideias que se confrontam, simbolizadas nas palavras Barcelona e Madrid ou em Catalunha e Espanha. Ninguém sabe o que se vai passar. O salto foi muito grande, como hoje escreve o Libération. Ninguém sabe como os catalães vão exercer uma independência que ninguém reconhece, nem como o governo de Mariano Rajoy vai assumir os poderes directos da administração da Catalunha. Ninguém sabe a quem vai obedecer a polícia catalã, os tão falados Mossos d’Esquadra, nem como reagirá a população a alguns apelos que já circulam para a desobediência civil generalizada. Ninguém sabe se a fuga de empresas vai continuar ou quando ficarão vazios os cofres catalães, sem o suporte do Estado espanhol. O isolamento da Catalunha é absoluto e a imprensa internacional utiliza expressões como “à beira do abismo” ou “um salto no escuro” para caracterizar a situação, até porque já é evidente que, aconteça o que acontecer, a Catalunha vai passar por uma enorme crise económica e uma grande instabilidade social. Naturalmente, a Espanha não deixará de ser contagiada pelas consequências económicas da crise catalã e o rectângulo lusitano não ficará imune à doença do seu principal parceiro comercial.
Todos temem que “este comboio desgovernado” que tem sido o processo independentista catalão provoque as sua vítimas, ou mesmo os seus mártires, o que daria algum alento a uma causa que, por agora, parece estar perdida devido à maneira aventureirista e incompetente como foi conduzida por Carles Puigdemont e seus aliados.

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Putin: o novo czar de todas as Rússias

A revista The Economist, uma prestigiada publicação inglesa dedicada aos assuntos políticos e económicos internacionais, escolheu como tema principal da sua última edição a Federação Russa e o seu actual líder Vladimir Putin, a propósito da passagem do primeiro centenário da revolução russa de Outubro de 1917, também conhecida como Revolução Bolchevique ou Revolução Vermelha.
Como consequência da insatisfação popular, no dia 25 de Outubro de 1917  as forças bolcheviques ocuparam o Palácio de Inverno em Moscovo e sob a direcção de Vladimir Lenine tomaram o poder, forçaram a retirada russa da 1ª Guerra Mundial, desencadearam uma violenta guerra civil e, em 1922 , criaram a União Soviética (URSS).
A intenção de levar a revolução a todo o mundo foi tenazmente perseguida pela URSS, sobretudo depois da 2ª Guerra Mundial, em que esteve ao lado dos vencedores. O seu poder militar e o seu pioneirismo aeroespacial foram marcantes na imagem internacional da URSS, mas muitas coisas correram mal, a crise instalou-se e o regime implodiu.
A URSS foi dissolvida em 26 de Dezembro de 1991, através de uma declaração do Soviete Supremo que reconheceu a independência das antigas repúblicas soviéticas, enquanto o presidente Mikhail Gorbachev entregava o poder (e os códigos do arsenal nuclear soviético) ao novo presidente russo Boris Iéltsin. Foi um período muito duro para os russos, muitas vezes humilhados no plano internacional.
A partir de 1999, na sequência da renúncia de Iéltsin, a Federação Russa passou a ser governada por Vladimir Putin, um ex-agente do KGB e chefe dos serviços secretos soviéticos e russos. A Rússia reergueu-se e a sua voz passou a ser escutada no mundo. Dezassete anos depois de ter chegado ao poder, ora como Primeiro-ministro, ora como Presidente, Vladimir Putin tem reafirmado a força do seu país após as humilhações da década de 1990 e tem mostrado à comunidade internacional as suas ambições, designadamente na anexação da Crimeia e nas campanhas da Síria e da Ucrânia. Hoje está recuperado o prestígio russo no seio da comunidade internacional e o The Economist considera Putin o novo czar de todas as Rússias, um czar pós-moderno e o mais poderoso dirigente russo depois de Staline mas, apesar de ter apenas 65 anos de idade, já há quem discuta o problema da sua sucessão.

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Ronaldo é o homem que ganha tudo

Na passada segunda-feira a FIFA distribuiu The Best FIFA Football Awards 2017, isto é, os prémios para os melhores do mundo do futebol em 2017, tendo distinguido Cristiano Ronaldo com o prémio do Melhor Jogador de Futebol Masculino da FIFA. Pela quinta vez, Ronaldo foi considerado o melhor futebolista do mundo com 43,16% dos votos, superando o argentino Lionel Messi (19,25%) e o brasileiro Neymar Júnior (6,97%). Mais uma vez, a televisão e os jornais mundiais destacaram este acontecimento e, depois da onda de notícias trágicas sobre Portugal dos últimos dias, o mundo viu e ouviu falar de Portugal por boas razões.
O responsável foi o indíviduo do costume e, mesmo aqueles que não gostam de futebol, não podem deixar de felicitar o Cristiano Ronaldo por esta escolha feita pelo voto de treinadores e capitães das selecções nacionais, jornalistas e público. A notícia e a sua fotografia apareceram na primeira página de muitas dezenas de jornais de todo o mundo, por vezes ocupando todo o seu espaço editorial, assim acontecendo por exemplo com o diário desportivo mexicano Esto, que reconheceu o acerto da escolha da FIFA e escolheu uma sugestiva frase para a notícia: Gana Todo.
Na mesma cerimónia que distinguiu Cristiano Ronaldo, também foi anunciado o nome do Melhor Treinador de Futebol Masculino da FIFA que foi Zinedine Zidane, o francês que treina a equipa do Real Madrid, sendo curioso verificar que José Mourinho (5,28%) e Leonardo Jardim (4,84%), ficaram em 5º e 6º lugar na classificação dos treinadores.
Em síntese, Portugal não é apenas o Campeão da Europa de futebol, mas também tem treinadores de excelência e, ainda, o melhor jogador do mundo, aquele que gana todo.

domingo, 22 de outubro de 2017

A nova gestão emocional das calamidades

Afectos (Fonte: ilustragargalo.blogspot.com)
Os incêndios do passado fim-de-semana em Portugal foram uma calamidade e têm gerado reacções muito emocionadas por parte dos agentes políticos, umas mais sentidas e outras cheias de hipocrisia, outras inesperadas e outras tão oportunistas que, em conjunto, bem podem ser consideradas como um case study de uma nova disciplina a designar como Gestão emocional das calamidades públicas.
Os exemplos são muitos, mas basta ver alguns. O presidente da República levou a sua presença e uma palavra de alento às regiões sinistradas, mas rapidamente se deslumbrou e passou dos afectos a uma inoportuna e despropositada campanha de promoção pessoal; o primeiro-ministro esteve no meio de uma tempestade perfeita e viu-se cercado pelos estagiários do microfone e pelos comentadores de serviço, pelo que não reagiu bem à situação e até admitiu que não fez uma boa gestão emocional da tragédia; a deslumbrada jovem que dirige os centristas ainda inconformados com o seu afastamento do arco do poder, quis aproveitar a transição que se vive no PSD para sair da sua insignificância política, tratando de apresentar uma moção de censura ao governo e exigir o corte de cabeças, quando os incêndios ainda não estavam dominados.
Todas estas reacções merecem uma análise profunda que cada cidadão não dispensa de fazer Foi o que fez o cartoonista Vasco Gargalo que criou um cartoon com o título Afectos, dedicado a Marcelo Rebelo de Sousa e que publicou no passado dia 20 de Outubro no seu blogue.
A oportuna intervenção afectiva e solidária de Marcelo Rebelo de Sousa nas regiões sinistradas, rapidamente descambou para uma inoportuna peregrinação de demagogia presidencial, ornamentada por extensas comitivas de fotógrafos e de estagiários, naturalmente convidados pelos serviços da presidência da República para perpetuarem os afectos do presidente em imagem e som. Não está certo e, como diz o povo, no melhor pano cai a nódoa. Parabéns Vasco Gargalo.

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

A União Europeia apoia a Espanha unida

O Conselho Europeu reuniu ontem em Bruxelas e, segundo parece, tratou sobretudo dos problemas ibéricos. Por um lado, expressou solidariedade aos dois países perante a calamidade dos incêndios florestais, daí resultando que Portugal e a Espanha irão accionar de forma coordenada o fundo de solidariedade da União Europeia, na sequência dos grandes incêndios do passado fim-de-semana.
O Conselho Europeu não tomou posição quanto ao problema da Catalunha por ser um problema interno da Espanha, mas mostrou um total apoio à política que está a ser seguida por Mariano Rajoy, com o apoio do PSOE e dos Cyudadanos, afirmando-se a favor de uma Espanha unida, conforme hoje relata El País.
Significa que, os aventureiros líderes da Catalunha estão cada vez mais isolados, não só no plano político, mas também no plano económico e social, pois mais de 900 empresas já tiraram a sua sede da Catalunha e até a Volkswagen já deu luz verde para a saída da Seat da região. Com a aplicação do artigo 155 da Constituição espanhola e a suspensão da autonomia catalã, não tardará a que os efeitos económicos e sociais da deriva independentista resultante da arrogância, do populismo e da ausência de estratégia do governo de Carles Puigdemont.
Porém, o problema catalão está longe de estar resolvido, embora a marcação de eleições possa ser uma solução que traga serenidade e abra as portas ao diálogo.
A União Europeia teve uma crise financeira que depois se transformou numa crise económica, social e migratória, mas atravessa agora a ameaça de alguns governos extremistas ou xenófobos e está confrontada com o problema espanhol que é também um problema europeu, porque a Europa tem muitas catalunhas.

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Marcelo e Costa com emoções diferentes

Marcelo Rebelo de Sousa falou ontem ao país a partir da Câmara Municipal de Oliveira do Hospital e, visivelmente emocionado, prestou homenagem às vítimas dos incêndios do passado domingo e avisou que é preciso “abrir um novo ciclo” e que isso “inevitavelmente obrigará o governo a ponderar o quê, quem, como e quando melhor serve esse ciclo”.
Se num discurso conta a forma e o conteúdo da mensagem, o Presidente da República acertou nessas duas dimensões, pois levou uma palavra de conforto aos que dela precisavam, deu alento aos que suportaram o terror das chamas e deu um enorme safanão nos políticos em geral e, em especial, naqueles que estão no governo. Com as suas palavras e as suas atitudes e perante a tragédia que nos enlutou, Marcelo Rebelo de Sousa revelou uma grandeza que nos conforta e nos faz ter esperança em tempos melhores.
Antes, quando o país ainda ardia e as televisões nos mostravam a dimensão catastrófica daquele dia terrível, o primeiro-ministro António Costa falara ao país para anunciar que “no dia de ontem deflagraram 523 incêndios e no dia de hoje deflagraram mais 199”, acrescentando que “o país tem de estar consciente que a situação que estamos a viver vai seguramente prolongar-se para os próximos anos”. Embora o seu discurso tenha sido formalmente correcto e tenha dito que era um momento de luto e de ter manifestado condolências às famílias das vítimas, ter agradecido a todos, ter prometido solidariedade e ter assegurado que sentia a angústia e a aflição vivida nas últimas horas por muitos portugueses, o seu discurso foi frio e sem qualquer sinal de emoção, não conseguindo dar ânimo nem confiança aos portugueses e quase os repreendendo pelo que acontecera.
Todos os jornais destacaram a eloquente fotografía e as expressivas palavras de Marcelo, num inequívoco apoio ao comportamento presidencial, enquanto as críticas a Costa vieram de todos os sectores da sociedade.
Nesta calamidade que têm sido os incêndios florestais, com tantas mortes e tanta destruição de património, Marcelo e Costa estiveram em patamares bem diferentes, revelaram emoções diferentes e isso vai ter consequências. Os tempos que aí vêm não vão ser fáceis.

terça-feira, 17 de outubro de 2017

O "terrorismo del fuego" andou por aí

Ao contrário da imprensa portuguesa que hoje destaca o número de mortes que os incêndios florestais já provocaram e salienta as graves responsabilidades do Estado, a imprensa espanhola descreve os efeitos calamitosos da vaga de incêndios que deflagraram no norte de Espanha e defende a tese da sua origem intencional ou criminosa.
O diário ABC afirma mesmo na sua manchete que o que aconteceu no norte de Espanha e de Portugal é um terrorismo del fuego, com a polícia espanhola a atribuir a responsabilidade por todos os fogos havidos na Galiza a um grupo organizado, enquanto em Portugal se discutem as causas da tragédia com base na seca extrema e no descuido das populações, procurando-se identificar os responsáveis políticos. Será prudente que pensemos como os espanhóis e que também adoptemos a tese da intencionalidade ou do terrorismo, porque foram demasiados incêndios a deflagrar em Portugal no passado fim de semana. Não foi apenas a negligência dos homens, nem as condições meteorológicas anormais. Estamos, portanto, perante um problema a que o Ministério Público não pode ficar alheio.
O problema dos incêndios florestais é muito sério e, durante muitos anos, parece não ter merecido a atenção das autoridades e, por isso, quem agora pretende olhar para o assunto como um caso de negligência ou de incompetência política do actual governo comete um erro grave. O problema foi sempre tratado como um assunto menor e sempre se tapou o sol com a peneira, isto é, financiou-se o combate aos incêndios que tem sido uma manjedoura onde vai beber muitíssima gente de vários partidos e de muitos interesses, em vez de se financiar a prevenção e o ordenamento florestal. Construiram-se quartéis imponentes e compraram-se inúmeras viaturas para os bombeiros, mas acabaram-se com os guardas florestais. Facilitou-se a cultura do eucalipto e do pinheiro bravo. Não foi devidamente promovida a limpeza da floresta. Não se percebeu que o mundo rural já não é o que era. O erro é histórico e muito antigo, mas talvez seja possível que, sobre as cinzas das tragédias recentes que devastaram muitas regiões do país, se possa criar um consenso nacional para encarar o problema, sem a mesquinhez política que se tem visto nas televisões e que tem sido apoiada pela cegueira de muitos jornalistas e comentadores.

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

A tragédia regressou com os incêndios

Todos os jornais portugueses desta manhã dedicaram as suas manchetes aos graves incêndios florestais que têm afectado de forma trágica o norte e o centro de Portugal, anunciando que já tinha havido três mortes. O Jornal de Notícias escreveu em primeira página que “o Diabo andou à solta” e a Protecção Civil classificou o dia de ontem como o pior do ano, com 523 ocorrências.
Hoje, o centro do país estava envolvido numa espessa núvem de fumo, muitos incêndios continuavam activos e anunciavam-se 36 mortes e 63 feridos em consequência do fogo. As imagens televisivas têm mostrado a violência dos incêndios e o dramatismo da tragédia, a escassez de meios para combater o fogo, o desespero das populações e até a imbecilidade de alguns jornalistas, apostados em fazer espectáculo e em antecipar um julgamento político da tragédia.
O drama que está a cair sobre Portugal também chegou à Galiza e os jornais galegos escolheram títulos significativos como “Ataque incendiario y mortal a Galicia” (La Voz de Galicia da Coruña), “Muerte y horror por el terrorismo incendiario” (Faro de Vigo) e “Ataque a Galicia” (El Progresso de Lugo).
Porém, enquanto na Galiza é assumido pela imprensa e pelas autoridades que a vaga de incêndios resulta de ataques incendiários e terroristas, em Portugal continua a tratar-se este assunto como resultado da reconhecida falta de cuidado das populações ou como resultado da actuação casual e criminosa de incendiários, embora já tivesse aparecido alguém com responsabilidades a declarar que acredita “que haja uma organização terrorista que esteja premeditadamente a incendiar o nosso país”.
O país ainda não estava refeito do choque dos incêndios do passado mês de Junho que afectaram dramaticamente Pedrógão Grande e agora vê-se confrontado com nova calamidade. Perderam-se mais de uma centena de vidas nos dois incêndios e as duas tragédias não vão ser esquecidas. O nosso país está de luto. É preciso um esforço colectivo para ultrapassar esta calamidade e, tal como em Junho, é despropositado que alguém faça aproveitamentos políticos desta tragédia. É preciso actuar dando ouvidos a quem sabe.