segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Portas e os saldos de vistos dourados

Em tempo de promoções e saldos, o governo decidiu fazer saldo de passaportes e autorizações de residência. Foi há um ano que foi criado um regime regime especial de autorização de residência para "actividade de investimento" em território nacional que  permite que cidadãos de países terceiros, que não pertençam à União Europeia ou não integrem o Acordo de Schengen, garantam uma autorização de residência em Portugal. Para a atribuição dessa autorização - o visto gold - é necessário que a “actividade de investimento” seja desenvolvida por um período mínimo de cinco anos, prevendo-se várias opções, em que se incluem a transferência de capital num montante igual ou superior a um milhão de euros, a criação de pelo menos dez postos de trabalho ou a compra de imóveis num valor mínimo de 500 mil euros.
O introdutor em Portugal desta galinha dos ovos de ouro foi o irrevogável ministro Portas. Desde então, a um ritmo muito regular, a sua máquina de propaganda tem feito o elogio do genial ministro e anunciado o sucesso da ideia: entraram 20 milhões de euros e foram concedidos 30 vistos (Junho), 90 milhões e 145 vistos (Setembro) e 306,7 milhões e 471 vistos (Dezembro). Esses “investidores”, que tanto podem ajudar a resolver a nossa crise, vêm da China, Rússia, Angola, Brasil, Líbano, Paquistão, África do Sul, Índia, Colômbia, Tunísia, São Cristóvão e Nevis, Estados Unidos, Ucrânia, Turquia e Guiné-Bissau, segundo tem sido anunciado. Até parece uma nova corrente de fundos comunitários...
Tudo isto reflecte a decadência a que chegamos e o sentido de dignidade nacional a que esta gente nos sujeita. Nesta terra começa a valer tudo e até se vendem passaportes e vistos de residência a troco de um maço de notas. Havia paraísos fiscais, agora há paraísos domiciliários. Seremos um branqueador das muitas traficâncias que se fazem pelo mundo. A lei deixa de ser igual para todos e passa a depender do estatuto económico de cada um. É preciso dizer não à nova idolatria do dinheiro, como nos ensina o Papa Francisco. Seria interessante saber que “actividades de investimento” e quantos empregos já foram ou vão ser criados. Que eu saiba, nenhum partido político ergueu a sua voz contra esta humilhante habilidade e muito poucos jornalistas e comentadores a denunciaram.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

A navegar à vela de Sydney para Hobart

Iniciou-se ontem a famosa regata anual Rolex Sydney to Hobart Yacht Race 2013, conhecida na Austrália como a Bluewater Classic, que faz a ligação entre o porto de Sydney na costa oriental da Austrália e o porto de Hobart na ilha da Tasmânia, numa extensão de cerca de 630 milhas (1170 Km). A regata disputa-se desde 1945 e tem a sua largada no Boxing Day, isto é, o dia a seguir ao Natal, atraindo velejadores e embarcações de todo o mundo. É considerada como uma das mais difíceis regatas do mundo, tendo-se tornado num ícone do desporto de verão australiano.
Desde meados dos anos 70 que o número de embarcações participantes tem quase sempre ultrapassado a centena e em 1994 registou-se a participação record de 371 embarcações. O record da regata foi estabelecido em 2012 pelo iate australiano Wild Oats XI que gastou 1 dia, 18 horas, 23 minutos e 12 segundos para ligar Sydney a Hobart e que, este ano, é o favorito.
A edição de hoje do jornal The Sydney Morning Herald destacou na sua primeira página uma fotografia da espectacular largada da regata, que constitui um exemplo de bom fotojornalismo e parece justificar a famosa ideia de que “uma imagem vale mais do que mil palavras”.

O património cultural de Angola

O Jornal de Angola anuncia hoje que o governo angolano apresentará à UNESCO no próximo mês de Janeiro a candidatura do centro histórico da cidade de M’banza Congo, a antiga cidade de São Salvador do Congo e capital da província do Zaire, para integrar a sua lista do Património Mundial da Humanidade. Esta candidatura foi lançada pela primeira vez em 1996, quando Angola apresentou uma lista de locais candidatos para futuramente integrarem a lista da UNESCO, mas o processo tem avançado muito lentamente. Porém, no passado mês de Junho a cidade de M’banza Congo foi classificada com a categoria de Centro Histórico Nacional, um dos pressupostos indispensáveis para que Angola possa formalizar a candidatura da capital do antigo reino do Congo.
A cidade de M’banza Congo foi fundada antes da chegada dos portugueses e era a capital de uma dinastia que governava desde os finais do século XV. Por influência de missionários portugueses, o local tomou o nome de São Salvador do Congo, tendo sido construída uma igreja católica que é provavelmente a mais antiga da África Sub-Saariana e que em 1596 foi elevada ao estatuto de catedral. A cidade tinha muitas edificações de pedra, incluindo o palácio e muitas igrejas e em 1630 teria cem mil habitantes, mas veio a ser abandonada durante as guerras civis que eclodiram no século XVII.
O projecto “M’banza Congo - cidade a desenterrar para preservar" está em curso e pretende estudar aquela que é uma das mais antigas civilizações abaixo do Equador, com vestígios da sua história e da sua evolução soterrados na cidade e ainda por descobrir. Refere-se que Angola, através do Instituto Nacional do Património Cultural, apresentou no passado mês de Junho três pré-candidaturas para virem a ser classificadas como Património Mundial da Humanidade - o Centro Histórico e Arqueológico de M’banza Congo, na província do Zaire, a Paisagem Cultural de Tchitundu-Hulu, na província do Namibe e o Corredor do Kwanza (Luanda/ Kwanza-Norte).

Ilusões de Natal

O nosso primeiro Passos cumpriu o seu dever formal de se dirigir à nação no Natal. Cansado das minhas festividades natalícias, fiz um enorme esforço para não adormecer com aquela lenga-lenga auto-elogiosa que foi lida sem alma e com um optimismo que até parecia que estávamos noutro país. Parecia um discurso de campanha eleitoral, feito por um vendedor de ilusões. Esqueceu a injusta e imoral austeridade que nos impôs e que tem feito empobrecer a classe média e aumentado a fortuna dos mais ricos. Esqueceu a profunda desarticulação que impôs à nossa sociedade, que põe em risco a nossa coesão social. O homem que se deslumbrou com o poder, que quis cair nos braços da troika e que sempre disse que governaria com o FMI, mantém a sua estratégia de obedecer a tudo o que lá de fora lhe mandam fazer, embora agora queira fazer passar a ideia de que quer expulsar a troika e recuperar a soberania nacional porque, com a sua acção, o país foi salvo do colapso.
Disse ele que “a nossa economia começou a dar a volta”, que “começamos a vergar a dívida externa e pública”, que “a economia começou a crescer e acima do ritmo da Europa” e que “em termos líquidos, até ao terceiro trimestre foram criados 120 mil novos postos de trabalho”. É preciso ter muita imaginação e pouco pudor para se dizer isto numa mensagem de Natal, que deveria ser de verdade e de esperança. É uma mera convicção sem fundamento.
A mensagem do nosso primeiro quis mostrar erudição e foi buscar inspiração a algumas frases feitas, que ele certamente aprecia. Disse ele, inspirando-se em George W. Bush, que “na recuperação do nosso país, ninguém pode ficar para trás”. Depois, a finalizar a sua mensagem fez um mix entre Napoleão Bonaparte e Barack Obama, dizendo: “Como um povo orgulhoso, dono do seu próprio destino, que não receia o futuro e que sabe que, do alto de quase 900 anos de história, os seus melhores anos ainda estão para vir”.
Foi, concerteza, uma mensagem a pensar nas eleições que hão-de vir. Merecíamos melhor.

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Presentes de Natal

Hoje é dia de Natal e, dada tradição e a solenidade do dia, não se publicaram jornais na generalidade dos países onde predomina a religião cristã, embora os poucos títulos publicados não deixassem de assinalar o festivo dia com notícia de primeira página e adequada ilustração.
O Natal celebra-se um pouco por todo o mundo desde tempos muito antigos e a sua celebração foi-se renovando e adaptando ao longo do tempo, embora mantenha aspectos simbólicos que são comuns a todas as regiões – os presépios, as árvores de Natal, a ceia de Natal, as músicas de Natal e o cerimonial da troca de presentes, uma tradição que se julga estar inspirada na oferta de presentes feita a Jesus Cristo pelos Reis Magos que é relatada na Bíblia. Mais recentemente nasceu a figura do Pai Natal, uma figura lendária nascida na Lapónia e que vestida de vermelho, percorre o mundo na véspera de Natal num trenó puxado por renas para entregar presentes às crianças do mundo inteiro.
Inspirado na troca de presentes, a edição de hoje do Correio Braziliense é, cheia de originalidade, pois destaca “o presente de Natal que os eleitores do DF querem dos políticos”. A síntese das 14 respostas seleccionadas na primeira página é a seguinte:
Espero que parem de roubar. Gostaria que honrassem a palavra. Que tenham mais transparência. Que dêem mais atenção à saúde. Que tenham moral e eficiência. Peço mais consciência e honestidade. Tenham vergonha na cara. Menos corrupção e roubalheira. Mais investimento na saúde, transportes e educação. Ouçam mais o que a população pede. Prestem atenção à segurança pública. Roubem menos e façam mais. Quero o fim da impunidade e do voto secreto. Espero que dêem prioridade à educação.
Seria bem interessante que também se perguntasse aos eleitores portugueses que presente de Natal querem dos políticos. As respostas seriam muito diferentes das que foram dadas em Brasília?

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Há demasiados abutres a voar por aí

O jornal i revela hoje que as empresas públicas comunicaram o pagamento de prémios de quase 38 milhões de euros em 2012, num ano em que os bónus estiveram suspensos para gestores públicos, dirigentes de institutos e reguladores, mas este valor está calculado por defeito porque apenas 55% das empresas responderam ao questionário realizado pela Direcção-Geral da Administração e do Emprego Público (DGAEP). Relativamente a suplementos, o montante pago ainda é mais impressionante pois atingiu 367 milhões de euros, segundo revela a Direcção-Geral do Tesouro e Finanças (DGTF). Estes valores carecem, naturalmente, de uma análise pormenorizada que aqui não farei, mas revelam que a obcessão do governo na questão da convergência das pensões e na poupança de cerca de 380 milhões de euros (cerca de 0,2% do PIB) é absolutamente ridícula e é um roubo descarado. Um caso de vingança e de insensibilidade contra os mais fracos e mais envelhecidos. O governo e os seus ministros deviam ter vergonha pelo mal que fazem ao país, mas também pelo apoio que dão aos mais fortes e pela perseguição que fazem aos mais fracos. A mentira tornou-se a regra desta gente e parece haver dinheiro para alimentar todas as suas vaidades com assessorias, automóveis e viagens. Se não se trata de pilhagem organizada, parece!
Entretanto, os jornais também anunciaram que, de acordo com a Direcção-Geral do Orçamento (DGO), desde 2012 e até ao  momento, a troika trazida para o nosso país pela dupla Passos-Portas com o apoio de Belém, já recebeu quase três mil milhões de euros em juros e comissões. Os nossos sacrifícios dão para tudo e até para alimentar os bolsos das comitivas de avaliadores da troika que nos visitam e que à nossa custa “se instalam com vista para o Parque”. É esta a solidariedade da troika – FMI, Comissão Europeia de Barroso e BCE de Constâncio e é esta a submissão a que os nossos governantes não reagem!

sábado, 21 de dezembro de 2013

Macau preserva a memória portuguesa

Foi no dia 20 de Dezembro de 1999 que, por acordo entre Portugal e a República Popular da China, o território de Macau voltou a estar sob soberania chinesa, depois de cerca de quatro séculos e meio de administração portuguesa.
Macau foi o primeiro entreposto europeu na China e foi, também, o último território europeu nas costas chinesas, pelo que a sua história não cabe num pequeno texto. Agora, decorridos 14 anos sobre a transferência de soberania, o território de Macau parece apostar no seu passado lusófono para se projectar internacionalmente em diferentes dimensões, promovendo diversas iniciativas. Os jornais macaenses evocaram aquela data e procuraram analisar as transformações por que passou o território, agora designado por Região Administrativa Especial de Macau da República Popular da China. O jornal hojemacau destaca o “Desfile por Macau, Cidade Latina”, que foi transmitido em directo pela televisão e celebrou os 14 anos da transferência de poderes de Portugal para a China, no qual centenas de figurantes desfilaram pelas ruas do centro histórico de Macau durante três horas, desde as ruínas de São Paulo até à praça do Tap Seac, um local amplo com calçada à portuguesa e edifícios históricos. Milhares de turistas e de residentes assistiram a este desfile que, também, serviu para manter viva a herança cultural portuguesa na cidade.
Macau tem servido cada vez mais de ponte entre a China e os países de língua portuguesa, mas também de elo de ligação com os países latinos, pelo que no desfile participaram  grupos locais e do exterior, principalmente de países de língua portuguesa como Portugal e Brasil, mas também de países latinos como a Colômbia, Peru, Argentina, Cuba ou Bolívia.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Foi apenas um aviso: ainda não vale tudo

O Tribunal Constitucional (TC) chumbou, por voto unânime dos seus 13 juízes, a lei da convergência das pensões, alegando que "viola o princípio da confiança consagrado na Constituição". Obviamente que, se o governo fosse uma equipa de futebol, depois desta goleada o seu treinador era imediatamente despedido. Porém, não se trata de futebol, mas de um outro tipo de jogo em que o treinador derrotado atira a responsabilidade para terceiros e mantém toda a sua equipa técnica.
Já nas últimas semanas, se assistira a intoleráveis pressões internas e externas sobre o TC, feitas por muita gente, em que se incluiram o primeiro-ministro português e os seus apoiantes, o presidente da Comissão Europeia, o presidente do BCE e os membros da troika. Parecia que o futuro do mundo dependia da decisão do TC, até que ontem foi lido o seu acordão. Independentemente das suas consequências políticas, o acórdão veio mostrar que a nossa Lei Fundamental, elaborada pelos legítimos representantes do povo português, resiste aos ditames de quem a quer ignorar e que a soberania nacional ainda tem quem a respeite e não tolera pressões. Além disso, o acórdão também evidencia que na acção do governo não vale tudo, sobretudo quando essa acção é contrária aos princípios universais das democracias e dos Estados de direito.  Estavam em causa cerca de 370 milhões de euros que apenas representam cerca de 0,2% do PIB, o que mostra como foi absurda e incompreensível a reacção desesperada de alguns lacaios do poder, como se tivesse acontecido uma tragédia nacional. Numa linguagem grosseira e mentirosa condenaram o TC e a oposição, ignorando o que há dias disse, numa entrevista publicada pelo Finantial Times, um dos membros da troika quando afirmou que "as distorções na economia se acumularam ao longo de décadas e que o ajustamento da economia portuguesa vai demorar mais dez a quinze anos". Quem não percebe isso não percebe nada, mas é essa gente que infelizmente nos governa. Entretanto, à custa deste acórdão, a economia e o emprego agradecem.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Papa Francisco - Person of the Year 2013

No ano de 1927 a revista Time teve a iniciativa editorial de escolher “O Homem do Ano” e de lhe dedicar uma edição especial, tendo então escolhido o aviador Charles Lindbergh, que realizara o primeiro voo transatlântico solitário e sem escalas. A revista continuou com a sua iniciativa anual e, nos anos seguintes, entre outras personalidades, foram escolhidos Mahatma Gandhi, Adolf Hitler, Josef Stalin, Winston Churchill, Franklin D. Roosevelt e Dwight Eisenhower, entre outros. Em 1999, a revista modernizou a sua iniciativa e em vez de “O Homem do Ano”, passou a escolher a pessoa do ano - Person of the Year - que mantém o espírito anterior e continua a destacar o perfil de um homem, mulher, casal, grupo, ideia, lugar ou máquina que "para o bem ou para o mal, mais influenciou o mundo durante o ano". Este ano a revista Time escolheu o Papa Francisco como a personalidade do ano, depois de em anos anteriores já ter escolhido outros chefes da Igreja Católica, respectivamente João XXIII (1962) e João Paulo II (1994). O Papa Francisco nasceu em Buenos Aires como Jorge Mário Bergoglio e é o primeiro papa nascido no continente americano, tendo sido eleito no dia 13 de Março de 2013.
A escolha da revista Time reconhece a coragem, o prestígio, a bondade e a enorme influência mundial do Papa Francisco no seu curto pontificado, observável através do exemplo da sua atitude e da sua palavra contra a fome, a pobreza, a desigualdade e a exclusão e, em especial, pela sua recente e lúcida exortação apostólica Evangelii Gaudium, em que toma posição sobre os grandes desafios que a Humanidade enfrenta e se declara contra “uma economia de exclusão e de desigualdade social”, porque “essa economia mata”.
Foi uma boa escolha da revista Time.

 

O Brasil escolhe aviões suecos

O governo brasileiro anunciou ontem a escolha dos aviões Gripen NG da fabricante sueca Saab, para equipar e modernizar a Força Aérea Brasileira (FAB), encerrando um processo que foi lançado em 2001 pelo governo de Fernando Henrique Cardoso. O negócio foi fechado por 4,5 mil milhões de dólares (3,26 mil milhões de euros) e representa a aquisição de 36 unidades que deverão começar a ser entregues em 2018. O desenvolvimento do novo modelo - hoje existe apenas um protótipo do Gripen NG - será feito em conjunto com a FAB e com a Embraer, devendo contar ainda com a participação de outras indústrias brasileiras, o que se traduzirá num projecto de tecnologiza partilhada. A Presidente Dilma Roussef sublinhou que embora o Brasil seja um país pacífico, não ficará indefeso, “pois um país com as suas dimensões deve estar sempre pronto a proteger cidadãos, património e soberania".
Para a aquisição dos caças, o governo brasileiro abriu um concurso que contou com a participação dos franceses da Dassault (modelo Rafale), dos americanos da Boeing (modelo F-18) e dos suecos da Saab (modelo Gripen NG). Os jornais brasileiros destacaram esta notícia, mas alguns jornais franceses como o diário económico La Tribune, também o fizeram para assinalar “o roubo” que os suecos da Saab fizeram aos franceses da Dassault, apesar das habituais pressões presidenciais francesas. Este negócio mostra bem como dois Estados-membros da União Europeia procuram apoiar as suas indústrias, disputando influências e mercados numa verdadeira guerra comercial, que mostra como o espírito nacionalista prevalece sobre o espírito federalista europeu.

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Estaleiros: uns sobrevivem, outros não

Na sua edição de hoje o diário La Voz de Galicia anuncia que através de uma das suas filiais, a Pemex-Petróleos Mexicanos assumiu o controlo dos estaleiros Hijos de J. Barreras (Astillero Barreras) em Vigo, com um investimento de 5,1 milhões de euros na compra de 51% do seu capital social. O estaleiro entregara o ferry-boat 'Volcan de Tinamar' em Junho de 2011 e, desde então, passaram-se dois anos e meio sem que os estaleiros tivessem encomendas e trabalho, mas agora recuperam a sua actividade. O jornal galego anuncia que serão criados quatro mil postos de trabalho e que, desta forma, é reactivada a indústria naval espanhola. Os estaleiros Barreras ficam com trabalho garantido para os próximos dois anos, pois já estão asseguradas encomendas no valor de 300 milhões de euros, sendo um navio atuneiro no valor de 85 milhões de euros, mais três navios-tanques e um navio de apoio a plataformas petrolíferas. Entretanto, há conversações para a possível encomenda de mais três outros “grandes navios” e espera-se que essas encomendas sejam confirmadas até ao final do ano.
A menos de cem quilómetros para sul de Vigo situam-se as instalações dos Estaleiros Navais de Viana do Castelo (ENVC) e, comparando o que se passa nos dois estaleiros, ficamos estupefactos. Uns sobrevivem e dão um acrescentado ânimo à economia espanhola, enquanto outros são extintos por um advogado investido de poderes ministeriais. Já tínhamos o tira-dentes e o mata-frades. Agora temos o mata-estaleiros. Ao contrário das autoridades espanholas que encontraram uma boa solução para o seu problema, o governo português e o ministro Branco não quiseram ou não foram capazes de encontrar uma solução e, na sua ânsia de abater o que ainda mexe, arranjaram uma saída catastrófica que passa pelo despedimento de seis centenas de trabalhadores e pela extinção da maior unidade portuguesa da indústria da construção e reparação naval. Nem sequer foram a Bruxelas pedir ajuda. Ainda não se sabe porquê, mas o Departamento Central de Investigação e Acção Penal já estará a analisar o caso após uma queixa apresentada por suspeitas de gestão danosa no processo de subconcessão dos terrenos e infra-estruturas dos ENVC à Martifer. Por favor sejam rápidos e desmascarem  esta gente.

sábado, 14 de dezembro de 2013

Angola: prosperidade e muita confiança

O dinamismo da economia e da sociedade angolanas revelam-se todos os dias nos mais diferentes domínios. Cerca de dez anos depois do fim da guerra civil em Angola, o país atravessa um clima de expansionismo económico e de euforia social, resultantes sobretudo das suas enormes riquezas naturais, embora ainda haja uma substancial parte da sua população que não conhece os benefícios da prosperidade.
O bom conhecimento das geografias angolanas e a língua comum fazem com que o quotidiano de Angola se torne facilmente observável em Lisboa, não só pelo que se lê, mas também que se sabe através dos angolanos que por cá circulam ou através dos portugueses que por lá andam.
Ontem, o jornal Sol – Angola destacou em primeira página o projecto de construção de várias torres na ilha de Luanda, implantados numa área de construção com 494 mil metros quadrados e num investimento da ordem dos cinco mil milhões de euros. Também o semanário Expresso noticia hoje que “portugueses apostam no imobiliário na baía de Luanda” e que há portugueses entre os arquitectos e os doze investidores da Sociedade Baía de Luanda, que já requalificou a baía e vai gerir o projecto imobiliário. A primeira fase do projecto arrancará no próximo mês de Janeiro e construirá 25 edifícios que representam cerca de 30% do loteamento total, num investimento de 1,1 mil milhões de euros que se espera fique concluído dentro de três anos. Há realmente prosperidade e muita confiança para aproveitar o magnífico cenário da baía de Luanda.

Uma gaiola dourada em Paris

Há menos de um mês realizou-se em Lisboa uma manifestação contra os cortes previstos no Orçamento do Estado para 2014 que, pela primeira vez, juntou todas as polícias e que se concentrou em frente das escadarias da Assembleia da República. Seriam cerca de 12 mil polícias de diferentes corporações e o ambiente era de alguma tensão como costuma acontecer nessas circunstâncias, com manifestantes a empurrarem as grades de segurança que acabariam por ser recuadas. Em determinada altura os polícias (em protesto) conseguiram furar o cordão dos polícias (em serviço) que os impediam de subir as escadarias da Assembleia da República. Subiram-nas e só pararam à porta do edifício. Foi uma atitude simbólica dos polícias (em protesto) e uma atitude sensata dos polícias (em serviço), mas rapidamente tudo serenou. O governo não esperava esta “grave afronta" ou esta "insubordinação” e decidiu demitir imediatamente o director geral da PSP, vindo a nomear para o cargo o comandante da força policial que, mal ou bem, não evitou que as escadarias fossem ocupadas pelos manifestantes. O assunto nunca foi claramente esclarecido, talvez para poupar a demissão do ministro, como seria normal que acontecesse. Porém, ele aí mostrou que tem pouca verticalidade. Passou menos de um mês e o governo, como salienta hoje o Diário de Notícias, decidiu nomear o antigo director da PSP para um lugar especialmente criado para ele: oficial de ligação do seu ministério na embaixada portuguesa em Paris, onde irá ganhar 12 mil euros por mês, isto é, o triplo do que auferia como diretor da PSP. Nunca esse cargo foi necessário e é uma autêntica e escandalosa gaiola dourada. Podia ser em Alcoutim ou em Penedono, mas teve que ser em Paris. Embrulhem! O homem até podia não aceitar e ficaria na história como um insubornável e incorruptível, mas aceitou. E o ministro podia não criar estes tachos neste tempo tão nebuloso, quando o seu governo abusa da austeridade e promove despedimentos, faz aumentar a pobreza e aumenta a desigualdade. Que vergonha é esta de termos o ministro Macedo a baixar ao nível dos seus pobres pares, ao arranjar tachos que vão ser pagos com os dinheiros das nossas pensões, salários e  impostos e, de uma forma geral, com os nossos sacrifícios, a demonstrar que a austeridade não é para todos! Que vulgar macedo.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Os independentistas catalães não cedem

Os partidos políticos independentistas da Catalunha chegaram a um acordo para realizar um referendo sobre a independência desta região do nordeste da Espanha no dia 9 de Novembro de 2014, segundo anunciou Artur Mas, o chefe do governo catalão, que também indicou as perguntas a dirigir ao eleitorado:
     - Querem que a Catalunha se transforme num Estado?
     - E em caso afirmativo, querem que seja independente?
A notícia foi destacada por toda a imprensa espanhola, que também destacou a solene declaração de Mariano Rajoy a rejeitar a autorização para a realização ou para qualquer negociação relativa a esse referendo, porque é contrário à unidade indissolúvel da nação espanhola e, portanto, é inconstitucional. O problema é muito sério pois reflecte uma legítima aspiração histórica da Catalunha, mas também porque esconde a grave situação económica catalã que está sob um programa de ajustamento financiado pelo governo central e, sobretudo, porque é um processo que pode conduzir à fragmentação da Espanha. Actualmente os partidos que apoiam a realização do referendo – CiU, ERC, ICV e CUP – dispõem de uma maioria de 88 deputados dos 135 que fazem parte do Parlamento catalão (65%), embora as últimas sondagens apontem para um apoio de apenas 47% do eleitorado à independência catalã.
O referendo não é vinculativo, mas está a fazer aumentar a tensão entre Madrid e Barcelona ou entre Mariano Rajoy e Artur Mas. Curiosamente, caso o referendo catalão se realize, acontecerá menos de dois meses depois do referendo sobre a independência da Escócia que acontecerá no dia 18 de Setembro de 2014, o que pode influenciar os resultados na Catalunha.

Os maus passos e os erros da troika

O Parlamento Europeu decidiu investigar a trapalhada que têm sido os passos e os erros da troika em Portugal, que têm aprofundado a nossa crise e que nos têm conduzido a um progressivo empobrecimento, a uma insustentável situação social e a uma humilhante dependência externa. Apesar do discurso mais ou menos optimista do poder, o quotidiano dos portugueses continua nebuloso, sem esperança e sem futuro.
Christine Lagarde, a directora-geral do FMI, admitiu que o erro em relação aos efeitos da austeridade obrigou Portugal (e a Grécia) a aplicar programas de ajustamento num espaço de tempo demasiado curto, referindo também que os elevados custos da electricidade prejudicam o crescimento económico em Portugal. Durão Barroso, o presidente da Comissão Europeia, tinha dito que a austeridade atingiu o limite, que não fizemos tudo bem e reconhecia que se tinha cedido demasiado a “conselheiros tecnocratas”. Mario Draghi, o presidente do BCE, veio exigir à banca que deixe de aplicar o dinheiro que recebe do BCE no rendoso negócio da dívida pública (que em Portugal ascende a 23,5 mil milhões de euros) para passar a emprestá-lo às empresas.
Estes dirigentes são os principais responsáveis pela troika e disseram o que já tinha sido dito muitas vezes, por muita gente e desde há muito tempo. Porém, teimosa e fanaticamente, o governo quis “ir mais longe que a troika” e avisou que não precisava “nem de mais tempo, nem de mais dinheiro”. O governo e o seu responsável máximo instalaram-se legitimamente no poder, mas não estavam preparados. São medíocres. Deslumbrados. Não conheciam o país. Mandaram emigrar os portugueses e estão a vender o nosso património. Viajam muito e pensam pouco. Tornaram-se os agentes da troika e dos grandes interesses. Habituaram-se a não reagir e a ceder a tudo, a deixar-se humilhar e a não ter dignidade, nem patriotismo, nem orgulho nacional.  Agora sofrem o vexame de ter que receber o Parlamento Europeu para investigar esta trapalhada. É demasiada mentira e muita incompetência. Mário Soares tem razão.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Os americanos repensam o problema sírio

No passado mês de Setembro o governo sírio aceitou entregar o arsenal de armas químicas do seu exército a inspectores internacionais, de acordo com um plano apresentado pela Rússia, travando assim uma mais que provável intervenção americana contra alvos sírios, que o Presidente Obama tinha declarado ser “limitada, proporcional e consequente”. A partir de então, a Síria saiu da agenda dos media internacionais, embora a guerra tivesse continuado com muita dureza, assim como a ajuda militar aos opositores a Bashar El Assad que era fornecida por americanos e ingleses, mas também pela Arábia Saudita e pelo Qatar.
Passaram menos de três meses e, segundo revela hoje o diário espanhol El País, os Estados Unidos e o Reino Unido decidiram retirar a ajuda militar aos rebeldes sírios, designadamente ao Exército Livre Sírio (ELS), porque uma milícia do Estado Islâmico, uma nova amálgama de milícias opositoras do regime, assaltou a sede do Conselho Militar Líbio e vários dos seus depósitos de armas, capturando armas anti-aéreas e anti-tanque. Essa acção levou os Estados Unidos a suspender o apoio aos rebeldes do ELS com receio que essa ajuda vá parar às mãos dos grupos extremistas sunitas, aos jihadistas estrangeiros ou à Al Qaeda, isto é, os americanos parece que aprenderam, que  já repensam o problema sírio e que começam a perceber que a alternativa à ditadura de Bashar El Assad é uma ditadura fundamentalista.  Michael Hayden, o ex-director da CIA veio agora dizer que uma vitória de Bashar El Assad "é o melhor de três muito, muito horríveis cenários" e o único que pode evitar a fragmentação do país.
Entretanto, parece estar em preparação uma conferência de paz a iniciar provavelmente em Janeiro e bom seria que as nações mais poderosas ou mais influentes trabalhassem para a paz na Síria, tendo sempre em mente o que aconteceu ao Iraque e à Síria depois do derrube de Sadam Hussein e de Muamar Kadafi.   

A França também tem uma crise social

Por razões históricas e culturais que, ao longo do processo histórico nem sempre foram as melhores, há uma relação muito intensa entre Portugal e a França. Muitos milhares de portugueses e de luso-descendentes vivem em França e, por isso, tudo o que por lá se passa nos interessa.
Hoje, os jornais franceses destacam a “irrespirable” poluição de Paris e perguntam “pourquoi on respire si mal”, tratam do “chaos centrafricain” e dos dois soldados franceses que lá morreram e anunciam a ambição bretã de participar com uma equipa na America’s Cup de 2017. Porém, os mais surpreendentes destaques da imprensa francesa nas suas edições de hoje dizem respeito à situação social por que passa o país, que é um dos pilares da União Europeia.
O jornal Midi Libre que se publica em Montpellier analisa a situação social francesa, investiga a situação da pobreza e procura compreender essa nova realidade que é “vivre avec 600 euros”, enquanto o diário Le Figaro destaca em primeira página “ces jeunes qui ne voient plus leur avenir en France”. De facto, há muitos milhares de jovens franceses que estão a deixar o país na procura de alternativas para a falta de dinamismo da sua economia e para a não criação de novos empregos, que se verifica no “hexágono”. Esses jovens, afinal tão desesperados como os jovens portugueses, espanhóis, gregos ou italianos, dirigem-se para a Suiça, para a China ou para o Qatar, mas também para os Estados Unidos, para a Austrália e para o Canadá. A Europa está mesmo mal e não se vê quem cuide dela.

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Acudam aos jovens, antes que seja tarde

O Jornal de Notícias é um dos jornais que hoje destaca um estudo sobre emigração que acaba de ser divulgado e que revela que 57% dos jovens portugueses, entre os 15 e os 24 anos de idade, querem emigrar para conseguir um emprego e melhores condições de vida, ou já emigraram. O estudo foi encomendado pela seguradora Zurich e avaliou a situação em 12 países de diversos continentes, incluindo os vizinhos da Espanha, da Itália, da Irlanda e de Marrocos, concluindo que Portugal é país da Europa com maior desejo de emigração (57%), igualado pelos marroquinos e apenas superado pelos russos com 64%, embora estes tenham outras motivações. Relativamente às outras faixas etárias, o valor da vontade de emigrar dos portugueses também é muito elevado. Na faixa etária entre os 25 e os 34 anos, os que ponderam emigrar ou que já o fizeram representa 50% e, na faixa etária entre os 35 e os 44 anos, essa vontade ainda se aproxima dos 50%. Este fenómeno era evidente nas nossas famílias e no nosso círculo de amigos, traduzindo-se, por exemplo, no facto de em 2012 terem emigrado mais de 121 mil portugueses, o mais elevado número desde 1966.
A situação está a ter graves consequências económicas e demográficas, porque está a conduzir ou a acelerar o processo de empobrecimento e de envelhecimento da população portuguesa. A catástrofe social é uma ameaça efectiva e a emigração jovem tende a tornar-se no nosso “vesúvio a soterrar pompeia”.
Perante este desafio, muito complexo e a exigir urgentes medidas para o atenuar, assistimos à irresponsável indiferença dos nossos governantes, que sorriem sem vergonha apenas porque o produto cresceu 0,1%! Eles até podem reduzir a dívida, diminuir o défice, fazer “um milagre económico”, restaurar a nossa credibilidade externa, etc. & tal, mas com esta indiferença estão realmente a acabar com o país.

 

Há indignação e protesto na Ucrânia

A Ucrânia está a passar por momentos de grande tensão e o protesto contra o governo e contra o Presidente Viktor Yanukovytch tem mobilizado algumas centenas de milhares de pessoas nas ruas de Kiev, que reclamam pela aproximação à União Europeia e pelo seu afastamento da Rússia. No domingo, um grupo de manifestantes com o rosto coberto e que empunhavam bandeiras do partido ultranacionalista, destruiu a estátua de Lenine, o líder da revolução russa de 1917. Este simbólico acto anti-russo, a lembrar o derrube da estátua de Sadam Hussein, revela a grande instabilidade por que está a passar o país.
A Ucrânia é um país da Europa Oriental com quase 50 milhões de habitantes que tem fronteiras com a Rússia e com a União Europeia (Roménia, Hungria, Eslováquia e Polónia), encontra-se na fronteira entre a chamada “civilização ocidental” e a “civilização russa”, pelo que é natural que haja forças e interesses reclamando maior ligação a um dos dois referidos blocos.  No entanto, não se trata apenas de questões civilizacionais, culturais, históricas e espirituais, pois o problema também envolve dimensões geoestratégicas de natureza económica, logística e militar. É, portanto, um assunto interno da Ucrânia, mas é um assunto muito importante para a Europa. Curiosamente, enquanto vários países da União Europeia estão a sofrer os efeitos da crise e da austeridade, com manifestações, bloqueios e protestos violentos que põem em causa os seus fundamentos e a moeda única, na longínqua Ucrânia é derrubada uma estátua de Lenine no centro de Kiev e reclama-se a “europeização” do país e a adopção dos valores europeus. O que se está a passar em Kiev não é indiferente para a União Europeia, nem sequer para os portugueses que se habituaram a conviver com uma numerosa comunidade ucraniana, que tão bem se adaptou à sua cultura e ao seu modo de vida.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

United Colors of Football

Aproxima-se o Campeonato do Mundo de Futebol – o Brasil 2014 – e o entusiasmo já está instalado na comunicação social dos 32 países participantes, sobretudo depois do sorteio das equipas que vão integrar cada um dos 8 grupos. O sorteio teve transmissão televisiva em directo para todo o mundo e os resultados desse sorteio deram origem a muitos comentários relativos às hipóteses de cada equipa passar ou não passar a 1ª fase. Uns mais eufóricos que outros, mas todos muito confiantes. Sabemos como o futebol se tornou uma das maiores indústrias do nosso tempo e como os jogadores mais talentosos são contratados pelas equipas mais ricas que, cada vez mais, são uma miscelânea de nacionalidades. Assim, há equipas inglesas com poucos ou nenhuns jogadores ingleses, há equipas portuguesas com poucos jogadores portugueses e o mesmo acontece na generalidade dos países europeus.
Hoje o diário desportivo as, que se publica em Madrid, publica uma fotografia de seis futebolistas do Real Madrid que, certamente, estarão no Brasil em Junho de 2014 a representar a Argentina, França, Espanha, Portugal, Brasil e Croácia. O que é curioso é que, mesmo em Portugal, a equipa do Futebol Clube do Porto poderia juntar numa mesma fotografia, não seis mas nove jogadores que provavelmente vão estar no Brasil a representar Portugal, Brasil, França, Argentina, Rússia, México, Bélgica, Colômbia e Argélia. Esses atletas trabalham para o mesmo clube que lhes paga os seus avultados salários, passam um ano inteiro conjuntamente em treinos, estágios, viagens, concentrações e jogos, habituam-se a falar a mesma língua e, depois, por uma só vez, encontram-se frente a frente durante 90 minutos a jogar por diferentes equipas.
Esta verdadeira salada futebolística obriga-nos a pensar o Brasil 2014 como uma grande festa desportiva cheia de bons actores e não como uma  guerra entre nações rivais.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Nelson Mandela e a hipocrisia anibalesca

O desaparecimento de Nelson Mandela obriga-nos a uma reflexão sobre a vida do homem e do legado político de tolerância e de apaziguamento que deixou ao seu país, ao continente africano e ao mundo, porque ele foi um exemplo e hoje estamos carentes de exemplos como o que ele nos deu. É isso o que está  a ser feito por todo o mundo e, nesse aspecto, não somos excepção e até tivemos o privilégio de ter ouvido o depoimento de alguns portugueses que o conheceram e com ele conviveram. Nessa reflexão, tem sido recordada a 77ª sessão plenária da Assembleia Geral das Nações Unidas realizada no dia 20 de Novembro de 1987 em foi aprovada a Resolução A/RES/42/23 (G) sobre a acção internacional a desenvolver para a eliminação do apartheid, que o condena expressamente e que, no seu ponto 4, insta o governo sul-africano a “release immediately and unconditionally Nelson Mandela and all other political prisioners, detainers and restricters”. Soube-se agora pela imprensa que essa Resolução das Nações Unidas foi aprovada com 129 votos a favor e 23 abstenções, tendo havido apenas três países que votaram contra: os Estados Unidos de Ronald Reagan, o Reino Unido de Margareth Tatcher e o Portugal de Cavaco Silva. Estávamos em Novembro de 1987 e o mundo pressionava a África do Sul para libertar Nelson Mandela, o que só aconteceu cerca de 27 meses depois, em Fevereiro de 1990, perante a indiferença ou mesmo a não aprovação do governo português.
Agora, o mesmo homem que deu instruções para se votar contra a libertação de Nelson Mandela e que nada fez para que fosse libertado, escreve que ele “deixa um extraordinário legado de universalidade que perdurará por gerações” e que “o  exemplo de coragem política, a sua estatura moral e a confiança que depositava na capacidade de reconciliação constituem verdadeiras lições de humanidade”. Como é possível tanta hipocrisia política e esta enorme cambalhota do Aníbal?

R. I. P. Nelson Mandela

A notícia era esperada desde há algumas semanas mas, apesar disso, consternou o mundo como se pode verificar nas muitas dezenas de jornais que em todo o mundo homenagearam Nelson Mandela com a publicação da fotografia em primeira página do homem que foi o primeiro presidente negro da República da África do Sul e que morreu ontem na sua casa de Joanesburgo com 95 anos de idade.
Nascido em 1918, formou-se em Direito e tornou-se um activista e lutador contra o regime do apartheid que foi oficializado em 1948 e que negava à maioria negra, aos mestiços e aos asiáticos todos os direitos políticos, económicos e sociais. Em 1961 foi consequente com os seus ideais e passou à clandestinidade para se tornar o primeiro comandante do MK, a ala militar do ANC. Capturado, veio a ser condenado a prisão perpétua em 1964 por sabotagem e conspiração. Passou 18 anos na prisão de alta segurança da ilha de Robben Island onde se tornou o prisioneiro número 46 664, esteve depois na prisão de Pollsmoor e, por fim, na cadeia de Victor Verste, perto da Cidade do Cabo. Cumpriu 27 anos de prisão e no dia 11 de Fevereiro de 1990 foi  libertado, depois de receber garantias de que todos os outros prisioneiros políticos seriam libertados como ele. Em 1993 ganhou o prémio Nobel da Paz juntamente com o Presidente Frederick de Klerk, em reconhecimento dos esforços comuns para instaurar uma democracia na República da África do Sul. Em 1994 foi eleito para a presidência do país, tendo cumprido o seu mandato até 1999. Depois de terminado o seu mandato de cinco anos, retirou-se da política e passou a dedicar-se, através da fundação com o seu nome, a uma nova causa – o combate e a prevenção da sida. O presidente Jacob Zuma anunciou a morte de Nelson Mandela e dirigiu-se aos sul-africanos referindo que “Mandela uniu-nos e é unidos que nos devemos despedir dele”. Só quem conheceu o apartheid pode realmente compreender o que foi a luta de Mandela e, depois, a sua magnanimidade para com os seus adversários. O seu nome entra directamente na restrita galeria das mais importantes personalidades do século XX, onde estavam Mahatma Gandhi, Martin Luther King, Winston Churchill, Mikail Gorbachev e João Paulo II.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Um português no governo do Luxemburgo

O novo governo do Luxemburgo, que ontem tomou posse e é presidido por Xavier Bettel, resulta de uma coligação entre liberais, socialistas e verdes, tendo posto fim a duas décadas de Jean-Claude Juncker como chefe do governo do Grão-ducado. Hoje, o diário luxemburguês Le Quotidien noticia o início da Era Bettel, em contraponto à Era Juncker.
O governo inclui como ministro da Justiça o cidadão Felix Braz, um militante dos Verdes com 47 anos de idade, sendo a primeira vez que um luso-descendente desempenha funções governativas no país que tem cerca de 13% de portugueses na sua população residente, pelo que a presença no governo de um ministro de origem portuguesa é um facto muito normal e, em certa medida, também um “prémio” para uma comunidade muito respeitada. Félix Braz é filho de portugueses naturais de Castro Marim e nasceu em 1966 no Luxemburgo. Em 1994 foi eleito pela primeira vez para a autarquia de Esch-sur-Alzette, tendo assumido o cargo de vereador em 1999. Em 2004, tornou-se o primeiro deputado luso-descendente no Luxemburgo. Depois da cerimónia de tomada de posse realizada no Palácio Grão-Ducal onde jurou “fidelidade ao Grão-Duque, obediência à Constituição e às leis do Estado” fez, significativamente, as suas primeiras declarações à comunicação social em português.
Entretanto, a primeira tarefa que lhe foi cometida enquanto Ministro da Justiça é a responsabilidade pela elaboração de um código de conduta ou código deontológico, que os membros do governo deverão seguir. Talvez o Ministro Félix Braz possa mandar uma cópia dessas regras de conduta para os nossos governantes.

A dieta mediterrânica como património

A dieta mediterrânica foi esta semana classificada pela UNESCO como Património Imaterial da Humanidade, com base numa candidatura apresentada pela Câmara Municipal de Tavira.  
Desde Novembro de 2010 que a dieta mediterrânica já era considerada Património da Humanidade na Espanha, na Grécia, na Itália e em Marrocos, mas estes países juntaram-se à candidatura transnacional coordenada por Portugal e apoiada por Chipre e pela Croácia para, de forma mais abrangente, renovarem a decisão que foi agora aprovada durante a 8ª sessão do Comité Intergovernamental da UNESCO realizada no Azerbaijão.
A dieta mediterrânica não é uma dieta alimentar específica para perder ou ganhar peso, mas antes um conjunto de hábitos alimentares saudáveis. É um estilo de vida que vai muito para além da confecção dos alimentos, pois tem a ver com práticas produtivas na agricultura e nas pescas, com formas de preparação e consumo dos alimentos, com festividades, tradições orais e expressões artísticas. A dieta mediterrânica valoriza o pão, o vinho, o azeite e todos os produtos agrícolas da época, tendo por base um estilo de vida comum aos povos que habitavam a bacia do Mediterrâneo desde há milénios. Para além daquele tronco comum de produtos e comportamentos, cada país tem as suas especificidades e, no caso português, destacam-se as sopas, as açordas, as caldeiradas, as comidas frias de Verão e, até, as grandes sardinhadas que as Festas dos Santos Populares não dispensam.
No domínio do Património Imaterial da Humanidade a dieta mediterrânica junta-se ao fado, constituindo as duas inscrições portuguesas nesta categoria de bens classificados pela UNESCO.
 

Eles comem tudo, eles comem tudo...

Os Estaleiros Navais de Viana do Castelo (ENVC) são o maior estaleiro de construção e reparação naval português com actividade desde 1944, ocupam uma área de cerca de 400 mil metros quadrados (quase cem campos de futebol) e, no seu activo, registam a construção de mais de duas centenas de navios de vários tipos. É uma empresa de primeira linha na indústria nacional, mas também é uma empresa emblemática num país tão intimamente ligado ao mar.
Nos últimos anos os ENVC perderam as suas características de excelência como resultado de uma gestão que não foi capaz de se adaptar aos tempos e assegurar novas encomendas e novas escalas de competitividade, nem cumprir contratos, nem garantir prazos, nem controlar custos, enquanto as dificuldades financeiras foram sendo ultrapassadas com a generosidade do Estado. O caso do navio “Atlântida” – encomendado e recusado pela “Atlânticoline” ou pelo Governo Regional dos Açores – é o símbolo mais evidente da grave crise por que passam os ENVC.
Agora, sem que os contribuintes conheçam os contornos do problema nem do negócio, o governo decidiu extinguir os ENVC e adjudicar a subconcessão dos seus terrenos e equipamentos ao Grupo Martifer, que não tem qualquer historial no campo da construção naval. Aparentemente, a solução encontrada resolve um problema que se arrastava há muitos anos e tem o apoio da Comissão Europeia que, uma vez mais, se atreve a contribuir para a destruição do nosso tecido produtivo. Porém, esta solução aparenta ser uma negociata a favor de interesses privados que conduz à destruição da nossa capacidade de construção naval e a uma tragédia social e económica para a região vianense. É tudo demasiado mau e o processo aparenta não ter sido transparente, pelo que o Departamento Central de Investigação e Acção Penal (DCIAP) já está a acompanhar e a analisar o processo. Esta gente faz o que lhe apetece como se fosse dona do país. A-guiar desta maneira, que mais nos poderá acontecer?

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Austrália escolhe estaleiros espanhóis

O casco do HMAS Adelaide encontra-se na ria de Vigo, pronto para ser embarcado no Blue Marlin - um navio semi-submersível que carrega outros navios - para seguir para a Austrália, o que está a despertar a curiosidade e o interesse da imprensa galega. Trata-se de um dos dois navios de assalto anfíbio LHD (Landing Helicopter Dock) da classe “Camberra”, destinados à Marinha australiana, cujo casco e convés de voo foram construidos nos estaleiros Navantia no Ferrol e que  são concluídos  nos estaleiros australianos da BAE Systems Australia, em Williamstown. Os navios têm 27,5 mil toneladas de deslocamento, 230,82 metros de comprimento e podem transportar 18 helicópteros, 110 viaturas e mais de mil homens.
A ideia da encomenda destes navios nasceu em 2000 a partir da experiência adquirida na operação de manutenção da paz liderada pela International Force for East Timor. Assim, em 2004 foram endereçados convites às empresas estatais francesa e espanhola - Direction des Constructions Navales (DCN) e Navantia - para apresentarem propostas. Em 2007 foi escolhida a proposta espanhola para construir parcialmente os navios, ficando a BAE Systems Australia com o encargo de construir as superestruturas e a instalação de equipamentos. A construção do primeiro navio - o HMAS Camberra - começou em finais de 2008 e em 2011 seguiu para a Austrália. No início de 2011 começou a construção do HMAS Adelaide que seguirá para a Austrália nos próximos dias.
Em 2007 era anunciado que o contrato ascendia a 1411,6 milhões de euros, dos quais 915 milhões seriam facturados pela Navantia, que era a responsável pelo desenho e pela maior parte da construção e calculava-se, também, que 80% do programa de construção das LHD australianas se executaria em Espanha, o que representaria 9 347 700 horas de trabalho para a Navantia.
A Navantia é uma empresa pública espanhola pertencente à Sociedade Estatal de Participações Industriais (SEPI), que controla 100% do seu capital.  Por cá, extinguem-se os Estaleiros Navais de Viana do Castelo.
 

domingo, 1 de dezembro de 2013

O cinema timorense distinguido na Índia

Aos poucos, a República de Timor-Leste afirma-se internacionalmente em novos domínios, como se viu com o filme A Guerra da Beatriz, que acaba de vencer o Golden Peacock ou Pavão de Ouro na categoria de melhor filme da 44ª edição do International Film Festival of India, que ontem se concluiu em Goa. O filme é a primeira longa metragem timorense, tendo sido concebido, produzido, realizado e interpretado por timorenses. É falado em tétum e é legendado em inglês, tendo sido estreado na cidade de Dili no dia 17 de Setembro e apresentado em Outubro no Adelaide Film Festival 2013.
O filme conta a história de Timor-Leste durante o período da ocupação indonésia entre 1975 e 1999, através do amor de uma mulher pelo marido que era membro da Resistência, tendo sido filmado sobretudo na aldeia de Kraras, perto de Viqueque, o local onde há 30 anos ocorreu um massacre perpetrado por soldados indonésios. O filme foi realizado pela timorense Betty Reis e pelo italiano Luigi Acquisto, um dos poucos estrangeiros que esteve envolvido no filme que foi apoiado pela Dili Film Works e pela FairTrade Films Australia. A Guerra da Beatriz, foi escrito pela timorense Irim Tolentino, que também faz o papel de Beatriz, enquanto o elenco é composto por vários actores timorenses, incluindo José da Costa o mais conhecido actor timorense. Depois do sucesso que o filme teve no International Film Festival of India, é com muita expectativa que aguardamos a apresentação em Portugal d’A Guerra da Beatriz.

sábado, 30 de novembro de 2013

Como são famosos os burros de Paradela

Um dos objectivos da União Europeia é a melhoria das condições de vida e de trabalho dos seus cidadãos e a redução das desigualdades sociais e económicas entre as regiões, daí resultando uma especial atenção ao desenvolvimento da agricultura e à protecção e preservação do mundo rural. A Política Agrícola Comum (PAC) é o principal pilar para a concretização desses objectivos, actuando através de um sistema de subsídios à agricultura destinados a assegurar o abastecimento regular de bens alimentares e a garantia aos agricultores de um rendimento em conformidade com os seus desempenhos. A PAC é responsável por cerca de 43% de um orçamento comunitário de muitos milhões de euros e durante muitos anos esses subsídios têm corrido generosamente, sobretudo para os bolsos dos agricultores franceses (22%), espanhóis (15%) e alemães (14%), cabendo aos agricultores portugueses uma pequena fatia de cerca de 2%. Porém, com a chegada da crise e da austeridade acordou-se recentemente que até 2020 as despesas da PAC têm que passar de 43% para 38% do orçamento global.
Acontece que, no quadro da PAC e da preservação do mundo rural, desde 2003 que o burro mirandês está classificado como raça em extinção, o que passou a dar direito a um subsídio de 230 dólares anuais por cada animal. Por isso, o New York Times publicou ontem na sua primeira página uma fotografia de um burro mirandês e escreveu que “em Portugal as bestas de carga vivem de subsídios”. Foi esse o pormenor que interessou o jornal, pois desta vez não tratou do clima, da gastronomia ou do futebol lusitanos, mas foi até às freguesias de Paradela e Ifanes, no concelho de Miranda do Douro, para perceber como são tratadas as zonas rurais, não só no nordeste transmontano, mas também no sul da Europa. Aí o jornalista Raphael Minder verificou que a desertificação demográfica por que passa aquela região é um processo semelhante ao da extinção do burro mirandês, outrora um indispensável instrumento de trabalho,  mas que actualmente corre sérios riscos, mesmo com o subsídio comunitário. Como é curioso o facto do burro mirandês ser tão famoso e ter tido tanto destaque (com fotografia) num dos maiores jornais do mundo.

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Evangelii Gaudium: o apelo do Papa

No passado dia 26 de Novembro o Papa Francisco fez publicar a sua primeira exortação apostólica a que deu o título de Evangelii Gaudium ou A alegria do Evangelho, que é dirigida “aos fiéis cristãos”, mas que apela “ao diálogo com os crentes das religiões não-cristãs”, apesar dos vários obstáculos e dificuldades, de modo particular os fundamentalismos de ambos os lados. O documento foi divulgado pela internet e tornou-se tema de primeira página em alguma imprensa internacional, inclusive na América, embora a imprensa portuguesa o tenha ignorado, provavelmente porque anda um pouco anestesiada (ou é controlada) pelos poderes dominantes. A exortação papal tem 224 páginas e um texto exposto em 288 pontos, que expressa a necessidade das estruturas da Igreja se reformarem, se descentralizarem e se tornarem mais missionárias, mas que também critica a “nova tirania” do “capitalismo selvagem”, a “idolatria do dinheiro” e a “sacralização do mercado”, defendendo a inclusão social dos pobres, a paz e o diálogo social. É, por isso, um documento muito oportuno para ser lido pelos nossos dirigentes políticos para que aprendam e percam o seu fanatismo e a sua cegueira neo-liberal, que estão a levar o nosso país à desagregação económica e social.
A exortação apostólica dedica uma parte do seu conteúdo aos desafios do mundo actual, em que o Papa denuncia o actual sistema económico e afirma que “devemos dizer não a uma economia de exclusão e de desigualdade social”, porque “esta economia mata” (53). Fala na “globalização da indiferença” (54), na “negação da primazia do ser humano”, na “ditadura de uma economia sem rosto” (55), numa “evasão fiscal egoísta” e numa “corrupção ramificada” (56), salientando que a “ambição do poder e do ter não tem limites” (56), que “o dinheiro deve servir e não governar” (58) e declara um “não à desigualdade social que gera a violência” (59).
Como destaca a síntese do Newsday, é preciso repartir a riqueza e é urgente combater a pobreza e a desigualdade, mas é também urgente que os nossos governantes aprendam alguma coisa com este lúcido apelo que é a mensagem papal.

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Ensaio sobre a violência

Nos últimos tempos tem-se falado muito de violência doméstica, de violência urbana, de violência psicológica, de violência sexual, de violência física e de outros tipos de violência, mas numa conferência recentemente realizada em Lisboa, o tema da violência reentrou na ordem do dia quando Mário Soares declarou que “a violência está à porta” e que aquela iniciativa tinha sido promovida exactamente “para evitar a violência". O irrevogável ministro Portas e algumas das suas marionetas partidárias, aproveitaram a oportunidade para criticar Mário Soares e aquilo a que chamaram “um apelo implícito à violência”. Porém, não houve nenhum apelo desse tipo e, pelo contrário, tem sido o irrevogável Portas e os seus colegas de governo que repetidamente têm usado a violência sobre a minha pessoa e sobre muitos outros portugueses, dos quais muitos milhares já emigraram, quase um milhão estão desempregados e muitos mais empobreceram.
A violência corresponde sempre a um comportamento intencional e excessivo que causa dano moral ou físico a outra pessoa ou ser vivo, nele se incluindo a violação dos direitos humanos. Aquilo que o governo tem feito torna-me uma vítima da violência governamental, pois mentiu-me descaradamente em campanha eleitoral e depois reduziu-me a qualidade de vida, sem que alguma vez eu tivesse vivido acima das minhas possibilidades. O governo exige-me continuados sacrifícios, mas não vejo que os seus membros e os seus assessores os façam na mesma proporção. É uma violência. É também uma violência a redução da minha pensão para a qual descontei cerca de cinquenta anos, o aumento de todos os meus impostos directos e indirectos, a redução dos meus direitos à saúde, o aumento da minha factura da electricidade e assim sucessivamente. O que nos estão a fazer é uma violência e, em muitos casos, é uma desumanidade e uma ofensa à nossa dignidade. Assim, é a governação de Passos e de Portas ou de Maduro e de Branco, que constitui um verdadeiro caso de violência sobre os portugueses.

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

A insaciável banca quer tudo e tudo

A lacónica notícia que só o jornal i puxou para a sua primeira página, impressiona: a banca que opera em Portugal registou nos primeiros nove meses do corrente ano um prejuízo de 1,55 mil milhões de euros, cabendo as maiores fatias desses prejuízos ao BCP (597 milhões de euros), BES (381 milhões de euros), CGD (278 milhões de euros) e BANIF (243 milhões de euros). Este facto e a forma como a imprensa não o destacou, suscita as maiores interrogações, mas é um sério aviso para os contribuintes portugueses que têm estado a pagar o BPN e o BPP, mas também a ajudar a CGD, o BANIF e outros institutos financeiros, à semelhança do que acontece com os contribuintes irlandeses, gregos, cipriotas e espanhóis, que também estão a pagar os desmandos dos seus bancos.
Antigamente, a banca tinha uma actividade respeitável pois captava as poupanças dos depositantes, remunerava-as, emprestava-as a terceiros e remunerava-se por isso. Porém, nos últimos anos muita coisa mudou e a banca portuguesa passou a especular, a financiar o Estado e a impor as suas regras, perante a passividade do regulador e do governo que, como diria um conhecido político, "é tudo farinha do mesmo saco". De facto, essa gente move-se num rodopio de promiscuidade de interesses entre a banca comercial, o Banco de Portugal e o governo.
Embora haja uma redução da actividade bancária e um aumento do crédito mal parado resultante de estratégias irresponsáveis e de gananciosas políticas de crédito adoptadas pela banca, nos resultados agora conhecidos há uma evidente cosmética contabilística que visa apoiar a fuga aos impostos e que, dada a promiscuidade ideológica entre reguladores e regulados, ninguém contesta. Não hove nenhum tsunami e, por isso, não se compreende que os bancos que se financiam a 1% no BCE e que aplicam esse capital em títulos de dívida portuguesa por vezes a 10% ou mais, tendo ganho 15 mil milhões de euros com dívida pública em 2012, segundo anunciaram os jornais, venham agora apresentar estes prejuízos. A banca quer tudo e é insaciável.