Os livros que
tratam da Ciência da Comunicação ensinam que uma notícia é um relato de um
acontecimento verdadeiro ou não. Assim, a notícia da primeira página do Público
de ontem, segundo a qual “Cavaco pagou durante 15 anos metade do IMI que devia
ter pago”, pode referir-se a uma facto verdadeiro ou não verdadeiro, mas é com
certeza mais uma achega para confirmar a desastrada apetência de Aníbal Cavaco Silva
por dinheiro e a sua ânsia por atingir uma situação material que apague o seu
passado rural e altere o seu estatuto identitário de born in Boliqueime. A história é longa, controversa e não cabe toda
aqui.
Por escritura
realizada em 9 de Julho de 1998, Cavaco trocou a sua vivenda Mariani de Montechoro pela Gaivota Azul no empreendimento da Aldeia
da Coelha, sendo atribuido o valor de 135 mil euros a cada uma das casas,
embora fossem muito diferentes. Ele fez que não viu. Segundo refere a notícia, o contribuinte Cavaco terá fornecido às
Finanças dados errados da sua nova casa, da sua área e das suas características,
o que terá feito cair para cerca de metade os impostos que devia pagar. Ele fez
que não viu. Entretanto, em 2009
a autoridade tributária considerava que, pelo menos
desde 1999, a casa de Cavaco tinha um valor patrimonial de 199.469 euros, mas em
2015 os mesmos serviços reavaliaram a mesma casa e chegaram a um valor muito
diferente: 392.220 euros. O jornal não conseguiu apurar se as Finanças lhe
exigiram ou não que pagasse o diferencial entre os impostos que pagou desde
2000 e aqueles que realmente devia ter pago.
Porém, a
trapalhada contributiva de Cavaco tem outros contornos nada exemplares para
quem ocupou os mais altos cargos do Estado. Assim, tendo sido accionista da S.L.N.,
que era a detentora do BPN, em 2001 adquiriu 105.378 acções dessa sociedade
gerida pelos seus amigos Oliveira e Costa e Dias Loureiro. Dois anos depois,
essas acções que tinham sido compradas a um euro cada uma foram recompradas pela
S.L.N. a 2,4 euros, o que significou um lucro de 147,5 mil euros, enquanto a
sua filha lucrou ainda mais ao embolsar um lucro de 209,4 mil euros. Uma
mais-valia de cerca de 150% em dois anos! Como é que um economista tão
experiente não viu anormalidade neste caso?
Depois Cavaco foi
para Belém e, pasme-se, abdicou do seu vencimento como Presidente da República
para beneficiar da pensão de reforma que era mais elevada, isto é, Cavaco alheou-se
demasiadas vezes dos princípios de cidadania em que devia ter sido exemplar,
fazendo negócios cinzentos com acções e não cumprindo obrigações fiscais.
Cavaco continua a ser um caso triste da nossa história recente.
Afinal há muitíssimo mais gente do que este artista julgava, que nasceu duas vezes!
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