terça-feira, 20 de janeiro de 2026

A Dinamarca repudia o Gangster-Trump

A questão da Gronelândia está agora no topo da agenda de Donald Trump, como antes estiveram outras questões como a sua vontade de baptizar o golfo do México como golfo da América, ou a sua proposta para fazer do Canadá o 51º estado americano, ou a sua obsessão pelo petróleo venezuelano. Agora assistimos, incrédulos e até angustiados, ao ataque que Donald Trump está a fazer à soberania e à integridade territorial de um país que é membro da União Europeia e da NATO.
A Europa que é uma miscelânea de interesses, de vaidades e de bem instalados, não foi capaz de arbitrar, moderar ou resolver os problemas da Ucrânia, nem teve a dignidade de condenar os massacres e a destruição de Gaza pelo regime de Netanyahu, está agora com um problema eventualmente mais sério entre mãos e bem pode anunciar que vai ser firme, pois poucos acreditam nisso. Afinal os abraços com que Macron, Merz e Starmer têm repetidamente saudado Donald Trump são simples exercícios de hipocrisia política, ou são elementares afirmações de submissão.
Porém, nem tudo é assim e, como noutro contexto escreveu o poeta Manuel Alegre na “Trova do vento que passa”, “há sempre alguém que resiste, há sempre alguém que diz não”. A pequena Dinamarca e a sua região autónoma da Gronelândia têm reagido sem tibiezas e têm suscitado alguma solidariedade europeia. Hoje o jornal Ekstra Bladet, que se publica em Copenhaga desde 1904, é bem a imagem do repúdio dinamarquês pela agressividade de Donald Trump e publica a sua fotografia com o título Gangster-Trump, acrescentando que ele é um “especialista que utiliza métodos da mafia” e que “exige o controlo total da Gronelândia”.
Estamos mesmo perante um verdadeiro imbróglio.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

A nova parceria estratégica do Canadá

Vários jornais da imprensa canadiana ilustram hoje a capa das suas edições com as bandeiras da China e do Canadá, países que acabam de assinar um importante acordo comercial, através do qual o Canadá visa diminuir a sua dependência dos Estados Unidos que, actualmente, concentram cerca de 75% do comércio externo canadiano.
Assim, o Canadá dá um passo no sentido da diversificação de alianças e de diminuição de riscos num quadro internacional cada dia mais instável, com o jornal The Gazette, que se publica em Montreal, a salientar em título de primeira página que “Xi recebe um fluxo constante de líderes abalados pela nova ordem mundial de Trump” e que procuram alternativas às suas políticas comerciais. Portanto, parece que não é só o Canadá que procura alternativas à dependência comercial americana, mas que outros países também seguem o mesmo caminho.
No que respeita ao Canadá, o primeiro-ministro Mark Carney não perdeu tempo e perante as ameaças de Donald Trump e a agressividade da sua política comercial, afastou-se do seu vizinho e aproximou-se da China, com a qual estabeleceu uma “nova parceria estratégica” e um acordo para a importação de 49.000 veículos eléctricos chineses com uma tarifa de 6,1%, um valor que contrasta com a tarifa de 100% que até agora era aplicada aos mesmos veículos. Esta aproximação canadiana à China tende a perturbar as relações com os Estados Unidos, até porque no horizonte estão novos acordos envolvendo a indústria, a tecnologia e a transição energética.
Significa que começa a haver países que contestam o poder comercial hegemónico dos Estados Unidos e que a política do “quero, posso e mando” de Donald Trump já tem quem lhe faça frente. 
E o que está a fazer a Europa? Será que está a fazer como o Canadá, ou será que continua à espera não se sabe de quê?
Note-se que a China já é o principal parceiro comercial do Brasil e que, em 2025, as trocas comerciais entre os dois países cresceram 8,2% em termos homólogos.

domingo, 18 de janeiro de 2026

A ameaça americana à gélida Gronelândia

Quando em 1776 as treze colónias britânicas da costa leste da América do Norte declararam a independência e fundaram os Estados Unidos da América, o território da nova nação era uma estreita faixa litoral onde viviam cerca de 2,4 milhões de habitantes de origem europeia. A partir de então, o novo país procedeu a aquisições territoriais por processos diversos que levaram os seus limites até à costa do oceano Pacífico, por cedência, ocupação ou compra de territórios franceses, espanhóis, mexicanos e russos, de que são exemplos a Louisiana, o Texas e o Alaska. Esse processo de expansão territorial nunca parou e em 1946 os Estados Unidos propuseram ao Reino da Dinamarca a compra da Gronelândia, mas essa proposta foi rejeitada.
Donald Trump recuperou agora essa vontade com a desculpa da segurança internacional e dos interesses chineses e russos na região, pelo que exige, “a bem ou a mal”, a imediata “compra completa e total” da Gronelândia, um território autónomo pertencente ao Reino da Dinamarca, o que os dinamarqueses não aceitam, nem a população local quer. Entretanto, alguns países europeus decidiram enviar tropas para a Gronelândia, sem se saber se o fazem no quadro da NATO ou da União Europeia, nem para que o fazem. Esses países – Dinamarca, Noruega, Suécia, França, Alemanha, Reino Unido, Países Baixos e Finlândia – puseram-se na mira de Donald Trump que ontem anunciou a imposição de tarifas progressivas sobre as suas mercadorias, que começam a 10% e poderão chegar aos 25%, como forma de pressionar um rápido acordo.
Hoje, o jornal The Independent anunciava as ameaças de Trump aos países europeus que defendem a soberania da Dinamarca que, naturalmente, ninguém imaginaria pudessem acontecer. Ninguém sabe o que aí vem.

As eleições presidenciais em Portugal

Hoje é dia de eleições presidenciais em Portugal e todos os portugueses devem ir às urnas, porque é um dever cívico e porque é no exercício do voto que se fundamenta a Democracia e a Liberdade. 
A frase “o voto é a arma do povo” deveria ser inspiradora para cada cidadão, embora nos últimos tempos o acto de votar se tenha transformado num ritual descaracterizado, ou até mesmo mentiroso, porque os eleitos tendem a esquecer tudo o que antes prometeram, muitas vezes dão o dito por não dito e outras tantas vezes tratam de se servir dos cargos e de não servir aqueles que os escolheram. De forma simétrica, também as opções de voto dos eleitores são condicionadas pelas campanhas eleitorais e pelas influências partidárias, sindicais, corporativas e outras, de que resultam opções de voto formatadas por interesses alheios e que estão desalinhadas dos interesses profundos dos eleitores.
Por tudo isto, as Democracias estão em crise, um pouco por todo o mundo, mas a frase atribuída a Winston Churchill continua a ser válida, isto é, “a democracia é o pior dos sistemas, com excepção de todos os outros”, mas isso não significa que seja a forma perfeita para nos organizarmos e nos governarmos.
Depois de 48 anos de regime autoritário em que não havia eleições livres nem democráticas, desde 1975 que os portugueses têm sido chamados a votar para escolher aqueles que os representam ou que os governam. A maioria dos portugueses tem beneficiado de um enorme progresso social, observável na educação, na saúde, na economia e na cultura, mas sempre com origem no voto. Porém, há uma crescente abstenção eleitoral que mostra que muitos cidadãos não acreditam numa democracia que os ignora, ou que os trata de forma desigual, ou que os mantém na pobreza, mas essa é a excepção à regra.
Por isso, é necessário votar e combater o desinteresse e a indiferença com a arma do voto, porque só o voto pode garantir a Liberdade, a Democracia e o Progresso.

O Nobel e os apetites de Donald Trump

A vida internacional está a tornar-se demasiado desregulada, devido à mediocridade de muitos dos seus protagonistas e ao corrupio de casos que vão sucedendo. Porém, Donald Trump destaca-se ao concentrar a maioria dos casos que estão a abalar o mundo, com as suas ameaças, as suas tarifas, os seus bombardeamentos e os seus assaltos. Apesar de anunciar repetidamente que já acabou com oito guerras, o facto é que tem dado ordens para bombardear vários países, sempre para impor a sua ambição, a sua vaidade e os seus interesses.
Nessa sua postura, de que faz parte o seu enriquecimento pessoal, nunca omitiu alguns apetites maiores ou menores, designadamente pelo Prémio Nobel da Paz, embora o Comité Nobel lhe tivesse negado essa vontade. Porém, a venezuelana Maria Corina Machado que foi a laureada de 2025, numa decisão irresponsável decidiu oferecer-lhe o prémio e foi a Washington onde foi recebida por Donald Trump que, sem vergonha nem pudor, o aceitou.
O Comité Nobel tratou imediatamente de anunciar que “independentemente do que aconteça com os símbolos físicos, o laureado original mantém para sempre a honra e o reconhecimento, não podendo o galardão ser revogado ou repartido com terceiros”, acrescentando que a medalha, o diploma e a dotação financeira correspondente continuam a pertencer ao laureado, sendo ele que passa à história como recebedor do prémio. O caso é tão triste que o jornal La Vanguardia, que se publica em Barcelona, o destacou na sua edição de ontem, referindo em primeira página a ”indignação” com que a Noruega assistiu a esta farsa que poucos podiam imaginar.
Trump quis o Nobel e quer a Riviera em Gaza, as terras raras da Ucrânia, o petróleo venezuelano, a Gronelândia...

sábado, 17 de janeiro de 2026

A tradição baiana cumpre-se no Bonfim

O Estado da Bahia fica situado no nordeste brasileiro, tendo uma paisagem tropical na costa atlântica e um interior sertanejo mas, provavelmente, é o estado com a marca cultural mais intensa de todo o país, tanto pela diversidade da sua população, como pelo seu património histórico, em que se destaca a arquitectura colonial do século XVII, sobretudo na cidade de Salvador, ou Salvador da Bahia.
O centro histórico de Salvado foi o palco principal da fusão das culturas portuguesa, africana e ameríndia, tendo sido a capital do Brasil desde 1549 a 1763, estando classificado como património mundial pela Unesco desde 1985. A região é a parte mais antiga do Brasil colonial e foi aí que os portugueses chegaram em 1500 e que, em consequência da sua influência e interacção religiosa e cultural, nasceu a devoção ao Senhor do Bonfim trazida por um capitão português. Na actualidade, essa devoção atrai multidões à capital baiana por ser uma festa que é um dos maiores símbolos de fé dos baianos.
A festa é celebrada em Janeiro na Basílica do Senhor do Bonfim, um templo católico que é um dos mais importantes monumentos de Salvador, nela se incluindo a tradicional “lavagem do Bonfim”, ou lavagem das escadarias da basílica com água de cheiro feita por baianas, em que se confundem o catolicismo e o candomblé. Associada a esta devoção também existe a tradição das “fitas do Senhor do Bonfim” que se usam amarradas ao pulso e com três nós, correspondentes a três pedidos que, quando a fita se desfaz ou rompe, os pedidos são satisfeitos.
Ontem, a edição do jornal A Tarde que se publica em Salvador, destacou em manchete a fé e a festa da Senhora do Bonfim, publicando uma fotografia em que se vê a Basílica do Bonfim, construída a partir de 1745.

Viva o povo e a democracia de Cabo Verde

A República de Cabo Verde celebrou no passado dia 13 de janeiro o Dia da Liberdade e Democracia, assinalando o 35º aniversário das primeiras eleições multipartidárias realizadas no país, que representaram o fim do regime de partido único e o início do Estado de Direito Democrático. O semanário Expresso das Ilhas, que se publica na cidade da Praia, assinalou a efeméride com uma edição especial.
O dia maior do país é, certamente, o dia 5 de julho de 1975, data em que foi proclamada a independência nacional depois de um processo de negociação entre o governo português e o PAIGC, que resultou da guerra travada no território da Guiné-Bissau e da revolução portuguesa de 25 de Abril de 1974. Porém, o dia 13 de janeiro de 1991 também é considerado um marco histórico na vida do país porque os caboverdianos votaram livremente pela primeira vez e terminaram com o mito da unidade Guiné - Cabo Verde, criado no tempo colonial, bem como com a transformação local do PAIGC em PAICV. Depois, no dia 25 de setembro de 1992, entrou em vigor a nova Constituição da República e essas três datas de 1975, de 1991 e de 1992, são as mais importantes para o povo caboverdiano.
Nas celebrações realizadas este ano destacou-se a inauguração do Monumento da Liberdade e Democracia, reproduzido na capa do Expresso das Ilhas, bem como a realização de muitas outras actividades desportivas e culturais, com destaque para o Festival Liberdade & Democracia, na Achada Grande Frente, na cidade da Praia.
Não há países nem sociedades perfeitas, mas Cabo Verde aproxima-se muito dessa condição, sendo um modelo de harmonia política e cultural, o que naturalmente é um motivo de orgulho para os portugueses, sobretudo os que conhecem o país e não dispensam uma boa cachupa, nem uma morna na voz de Cesárea Évora ou das vozes que a seguiram. E para coroar a exemplaridade caboverdiana, a sua selecção vai estar presente no Campeonato do Mundo de Futebol que se vai realizar este ano.

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Venezuela sob as garras de Donald Trump

Diz-se que “uma imagem vale mais que mil palavras” e a capa da edição de hoje do diário catalão El Punt Avui que se publica em Barcelona, parece confirmar aquela frase.
A ilustração escolhida para a capa dessa edição mostra uma águia a “atacar” o território venezuelano com o título “sob as garras dos Estados Unidos” e, em subtítulo, o jornal escreveu “Trump inaugura uma nova era de intervencionismo na América Latina e em todo o hemisfério ocidental”.
Não sei se há um ano alguém imaginava este cenário, mas o facto é que a administração de Donald Trump tem dado passos e feito discursos que vão exactamente no sentido de uma nova era de intervencionismo. Perante este desafio, os líderes europeus mostram-se nervosos e incapazes de contrariar “o amigo americano”, enquanto o secretário-geral da NATO, com o seu historial de subserviência e sabujice, continua a fazer o seu papel de “agente duplo”. Depois vemos Netanyahu eufórico e Zelensky muito nervoso, enquanto Putin e Xi Jinping se mostram expectantes. 
A narrativa de Donald Trump de que “a bem ou mal” a Gronelândia será o 51º estado americano, ou que é o presidente interino da Venezuela, como se autodenominou na sua rede social, não são só algumas das fanfarronices a que já habituou o mundo, mas são marcas que definem um homem que quer impor a lei do mais forte, ou simplesmente ignorar a lei, para satisfazer a sua ambição pelo poder e pelo dinheiro.
A Venezuela tem muito barril de petróleo, mas é também um barril de pólvora. A história recente mostrou-nos que a queda dos ditadores do Iraque, da Líbia e da Síria, que tiveram o dedo americano, não tornaram mais felizes os iraquianos, nem os líbios, nem os sírios. O futuro dirá o que cai acontecer com os venezuelanos… 

segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Donald Trump não tem limites: vale tudo

Poder, dinheiro e petróleo são conceitos que se articulam entre si e que bem definem o ambicioso perfil de Donald Trump, que desobedece a todos os princípios internacionais para se apoderar do petróleo venezuelano. A ansiedade domina a América Latina com esta “guerra por el crudo” como anuncia o jornal Expreso, que se publica em Lima.
Foi há quase um mês que Trump classificou o governo de Nicolás Maduro como uma “organização terrorista estrangeira”, acusando-o de “terrorismo, tráfico de drogas e tráfico de pessoas” e decretando o bloqueio “total e completo” de todos os petroleiros que entrassem ou saissem da Venezuela. A partir de então o pretexto para intervir na Venezuela já não foi “o tráfico de drogas para os Estados Unidos”, supostamente encabeçado por Nicolás Maduro, mas apenas o petróleo. Petróleo, petróleo, petróleo, como cantaria Liza Minnelli, numa qualquer versão moderna do filme musical Cabaret.
Tanto a ONU como a americana Drug Enforcement Administration (DEA) já tinham afirmado que o papel da Venezuela na entrada de drogas nos Estados Unidos era insignificante e, por isso, a frase “devolvam o petróleo que nos roubaram” denunciou toda a ambição e falta de princípios de Donald Trump.
No dia 10 de dezembro já tinha sido abordado e apreendido o petroleiro Skipper no mar das Caraíbas e, no dia 20, foi apresado o petroleiro Centuries, de bandeira panamiana, ambos pertencentes à chamada “frota fantasma”. No dia 7 de janeiro foi apresado o petroleiro Marinera (ex.Bella 1) que exibia bandeira russa e navegava no Atlântico Norte. No dia 9 foi interceptado no mar das Caraíbas o petroleiro Olina, que envergava a bandeira de Timor-Leste e, no mesmo dia, os americanos disseram ter apreendido um petroleiro chamado Sophia, sem nacionalidade, que também se encontrava em águas internacionais no mar das Caraíbas.
Skipper, Centuries, Marinera, Olina ou Sophia são apenas nomes, verdadeiros ou falsos de petroleiros da chamada “frota fantasma” e cujo apresamento constitui violação do direito internacional e da Carta das Nações Unidas. 
Para Donald Trump vale tudo e, como de costume, os líderes europeus assobiam para o lado. Uma tristeza.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

A nova ordem mundial de Donald Trump

Depois de um generalizado deslumbramento da imprensa mundial pelo violento assalto americano a Caracas e pela captura de Nicolás Maduro e da sua mulher, que foi considerado uma operação militar de grande eficiência, começam agora a surgir as primeiras críticas à intervenção ilegal ordenada por Donald Trump, que terá causado uma centena de mortes e que abriu uma nova era de insegurança na política mundial. 
Depois de Trump ter sido classificado como “predador” por um jornal francês, a conceituada revista francesa L’Express, na edição que ontem foi posta a circular, trata da nova ordem mundial e mostra na capa a fotografia de um pirata dos tempos modernos, com o lenço característico dos piratas e uma fita de metralhadora enrolada ao tronco, à boa maneira de John Rambo, o herói americano que Sylvester Stallone personificou.
As figuras lendárias mas reais de Francis Drake e do Capitão Kidd, tal como a ficção criada pelo cinema em torno da fantasia e da aventura dos piratas das Caraíbas que o desempenho do actor Johnny Depp ajudou a moldar, tornam-se menores face à actuação decidida pelo presidente dos Estados Unidos. Não se trata de saquear uma cidade costeira, nem de procurar uma qualquer arca perdida de ouro, nem de salvar uma qualquer dama enclausurada num castelo inacessível mas, simplesmente, de pilhar o petróleo de um país soberano.
A ameaça está lançada sobre tudo o que possa contrariar os interesses americanos ou a doutrina do “Make America Great Again”, enquanto a Europa fica calada com os seus líderes a mostrarem-se pequeninos, amedrontados e cobardolas.
Como estão difíceis os tempos que correm...

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Donald Trump: o predador de serviço

Uma boa parte do mundo e da sua imprensa parecem ter ficado anestesiadas com a espectacular operação militar que conduziu à captura de Nicolás Maduro, embora essa detenção (alegadamente por envolvimento no narcotráfico) não signifique o fim da ditadura chavista. A recente aprovação da Estratégia de Segurança Americana veio reafirmar a doutrina Monroe e consolidar as intenções de Donald Trump para, entre outros objectivos, proteger os interesses dos Estados Unidos no hemisfério ocidental.
A operação realizada sobre Caracas e outras cidades venezuelanas enquadra-se naquele desígnio e permitiu-lhe afirmar com arrogância que “manda nos Estados Unidos e no mundo”.
Donald Trump não tem interesse numa democracia venezuelana e tratou de desautorizar e afastar Maria Corina Machado, a líder da oposição venezuelana e recente galardoada com o Prémio Nobel da Paz, ao declarar que “ela é uma mulher muito simpática, mas não tem o apoio, nem o respeito do país”. Por agora, Trump aposta na presidência interina de Delcy Rodriguez, que espera manipular e dirigir a partir de Washington, tendo já avisado que “se não fizer o que está certo, vai pagar um preço mais alto do que Maduro”.
Ficam assim definidas algumas linhas do novo imperialismo americano, isto é, não interessa qual é o regime nem quem está no poder em Caracas, mas tão só o petróleo venezuelano que, por acaso, constitui a maior reserva mundial que se conhece.
Há dias, a imprensa informava que num só ano do seu mandato, Donald Trump quase duplicou a sua fortuna pessoal. Ele não é apenas o presidente dos Estados Unidos, mas é também um empresário para o qual parece valer tudo nos negócios, desde o imobiliário aos campos de golfe, passando pelos perfumes, pelas criptomoedas e por muitos outro negócios. 
Não demorará a ter interesses pessoais no petróleo, se não os tem já. É um predador, como dizia na sua edição de ontem o jornal La Dépêche du Midi, que se publica em Toulouse.

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

A festa da Cabalgata de los Reyes Magos

Hoje é o Dia de Reis que, segundo a tradição religiosa espanhola, constitui o dia mais importante da quadra natalícia, tendo como episódio mais relevante a Cabalgata de los Reyes Magos, um cortejo tradicional que se realiza ao final da tarde do dia 5 de janeiro com carros alegóricos, nos quais são transportados os três Reis Magos – Melchior, Gaspar e Baltazar. Este cortejo realiza-se em quase todas as cidades e vilas espanholas e, dizem os jornais, é “uma noite mágica” para todos, especialmente para as crianças, pois o animado “cortejo real” é animado por dançarinos e músico, percorrendo as ruas com os pajens a recolher as últimas cartas das crianças e a oferecer rebuçados e doces a quem assiste.
Os cortejos das principais cidades são transmitidos em directo pelas cadeias de televisão nacionais e regionais, o que tem contribuído para o crescente entusiasmo dos espanhóis por essa manifestação de arte e cultura popular.
De acordo com a tradição cristã, os Reis Magos eram sábios que vinham do Oriente montados nos seus camelos e guiados por uma estrela, para adorar o Menino Jesus que tinha nascido em Belém, uma povoação da Judeia, na actual Palestina. A visita aconteceu no dia 6 de janeiro e os Reis Magos traziam presentes para oferecer ao Menino Jesus – ouro, incenso e mirra – simbolizando realeza, divindade e humanidade.
Uma boa parte da imprensa nacional e regional espanhola, como aconteceu com o Diario de Mallorca, destacou nas suas edições a Cabalgata de los Reyes Magos e, pelo menos por umas horas, esqueceu a grave crise internacional resultante da lamentável e grave iniciativa de Donald Trump na Venezuela.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

A queda de Maduro e a ambição de Trump

De uma forma até certo ponto surpreendente em relação aos acontecimentos do dia 3 de janeiro, a imprensa mundial destacou mais a captura de Nicolás Maduro do que a operação militar que violou a soberania da Venezuela, inaugurando um período em que o direito internacional passa a não ter valor. A fotografia de Nicolás Maduro, algemado e de olhos vendados, apareceu nas capas dos jornais de todo o mundo, por vezes ocupando toda a mancha da página como aconteceu na edição do diário espanhol ABC,  o que serviu para disfarçar a agressão militar americana a um país soberano, o que parece inaugurar uma nova era de imperialismo e de submissão dos mais fracos aos mais fortes.
Com a sua ganância pelo petróleo e pelas outras riquezas minerais venezuelanas, Donald Trump deu um passo muito perigoso e anunciou que “os Estados Unidos governarão a Venezuela” e que “ninguém nunca mais questionará o poderio americano no nosso hemisfério”, tendo já ameaçado a Colômbia, Cuba, o México e, ainda, a Gronelândia. Ninguém imaginava que o país fundado por George Washington e Thomas Jefferson passasse por este renascimento imperialista e que esteja em vias de se tornar o destabilizador mundial.
É certo que o regime chavista “se pôs a jeito” com a sua ditadura repressiva e brutal, mas o excêntrico Nicolás Maduro também foi vítima de uma campanha difamatória internacional que o fizeram “pior que o diabo”, o que Donald Trump aproveitou. 
A China já pediu a Trump que “deixe em paz” o petróleo venezuelano e liberte Maduro, tal como a Rússia e outros países já condenaram a agressão americana, mas a Europa nada diz de concreto e treme, sem dignidade nem coragem, entre os excessos de Putin e de Trump. Não restam dúvidas de que entramos em 2026 com demasiado desassossego por todo o nosso planeta.

Donald Trump recupera doutrina Monroe

Na madrugada do dia 3 de janeiro os Estados Unidos atacaram a Venezuela, conforme foi abundantemente repetido pelos mass media internacionais, nomeadamente a imprensa do dia 4 de Janeiro, tendo capturado o presidente Nicolás Maduro e a sua mulher Cília Flores. O ataque foi violento e foi dirigido a instalações militares e ao palácio presidencial, tendo provocado muitas explosões em Caracas e em outros locais, causando cerca de 80 mortes. Na sua edição de ontem o jornal Newsday foi um dos poucos diários que acentuaram o “ataque à Venezuela”, pois a maioria da imprensa preferiu dar destaque à captura de Maduro.
A aparente facilidade com que decorreu a operação militar, que muita gente já esperava, aparentemente sem qualquer resistência do regime chavista, suscita dúvidas quanto ao envolvimento de infiltrações da Central Intelligence Agency no círculo mais próximo de Nicolás Maduro, que terá sido traído. Segundo foi anunciado, o ditador venezuelano já está em Nova Iorque e vai responder por acusações de uma suposta ligação ao tráfico internacional de drogas. Donald Trump não cabe em si de euforia e dispara ameaças em todas as direcções por estar, segundo ele e os seus correligionários, a concretizar a sua ambição - Make America Great Again – tendo para isso ressuscitado a doutrina Monroe, de 1823, que reclamava “a América para os americanos”.
As reacções internacionais não foram unânimes, pois enquanto alguns países apoiaram esta acção e se regozijaram com a captura de Nicolás Maduro, outros países condenaram abertamente a intervenção ordenada por Donald Trump por violar a soberania da Venezuela e atentar contra as regras do direito internacional, para além de abrir um precedente de intervenção militar na América Latina que nunca acontecera.   
A triste Europa calou-se, encolheu-se, acobardou-se e aprofundou a sua insignificância, apoiando implicitamente as aventuras de Donald Trump, com a honrosa excepção da Espanha.

sábado, 3 de janeiro de 2026

Nova Iorque e o "fenómeno Mamdani"

A cidade de Nova Iorque que agora é conhecida como a Big Apple, é o maior centro financeiro e comercial dos Estados Unidos, é uma das suas capitais culturais e é o quarto maior centro industrial do país, depois da Califórnia, do Texas e do Ohio.
Ainda no século XVI, a região foi colonizada pelos neerlandeses que criaram uma feitoria na ilha de Manhattan, a que chamaram Nova Amesterdão, mas em 1664 a região foi ocupada pelos ingleses que a baptizaram como a colónia de Nova Iorque que, em 1776, foi uma das treze colónias que se revoltaram contra o domínio colonial britânico e fundaram os Estados Unidos da América. Desde 1834 os prefeitos da cidade de Nova Iorque são eleitos pelo voto popular directo e, no ano passado foi eleito o seu 112º prefeito, um jovem de 34 anos de idade chamado Zohran Mamdani, nascido no Uganda, filho de emigrantes indianos e que professa a religião muçulmano.
O prefeito governa a cidade e é o chefe de um executivo que emprega 325 mil pessoas e tem o maior orçamento municipal dos Estados Unidos, que é superior ao Orçamento do Estado português. Filiado no Partido Democrata, Mamdani teve a coragem de afrontar Donald Trump e os republicanos, conseguindo mobilizar a cidade de Nova Iorque com um discurso moderno e solidário para com os mais desfavorecidos, os imigrantes e os pobres. O efeito de “fenómeno Mamdani” tem-se feito sentir um pouco por todo o país e muitos vêm no seu discurso, num tempo que se afigura bem negro, uma nova esperança e uma luz para a política americana.
O jornal novaiorquino Newsday destacou na sua edição de ontem o início do mandato de Mamdani, que bem pode vir a ser o início de uma nova era de maior tolerância, maior igualdade e maior solidariedade nos Estados Unidos e no mundo.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Salvador e o Bom Jesus dos Navegantes

A cidade de Salvador é a capital do estado brasileiro da Bahia e foi a primeira capital do Brasil colonial, sendo o cenário onde, desde a década de 1740, se realiza a Festa do Senhor Bom Jesus dos Navegantes, que é uma das mais antigas e simbólicas celebrações religiosas e populares do Nordeste brasileiro. Nascida da devoção das irmandades marítimas e da fé dos marinheiros que pediam a protecção divina para enfrentar o mar, a festa inclui diversas celebrações católicas, mas o seu ponto alto é a procissão marítima realizada nas águas da grande Baía de Todos-os-Santos, na qual a imagem do Bom Jesus dos Navegantes segue numa embarcação devidamente ornamentada, que é escoltada por uma festiva e colorida frota de outras embarcações.
Até 1891 a embarcação que transportava a imagem era cedida pelo Estado, mas a partir de então passou a ser utilizada, como galeota oficial da procissão, uma artística galeota expressamente construída para o efeito e que foi baptizada como “Gratidão do Povo”. No ano de 2019 a centenária embarcação apresentava alguns problemas de estrutura, pelo foi objecto de restauro e continuou a cumprir a sua função.
A procissão marítima é um espectáculo impressionante de religiosidade e de cultura popular que ocorre nos dias 31 de dezembro e 1 de janeiro, para exprimir a gratidão baiana pelo ano que termina e para pedir a protecção e a benção divina para o novo ano.
O jornal Correio*, antigo Correio da Bahia, é um jornal diário que se publica em Salvador e que dedica a sua edição de hoje à grande festa católica e afro-brasileira de origem portuguesa que é a a Festa do Senhor Bom Jesus dos Navegantes, com uma fotografia da procissão marítima, tendo escolhido a frase “mar de gratidão” para manchete dessa reportagem.